terça-feira, 16 de junho de 2015

Arte e Pornografia



Uma secção e  o Índice do livro LIBERDADE DE EXPRESSÃO. Uma breve introdução de NIGEL WARBURTON, que está a sair na Gradiva na colecção Filosofia Aberta. A tradução é de VÍTOR GUERREIRO (Instituto de Filosofia da Universidade do Porto) e a revisão científica de AIRES ALMEIDA (Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa):

Arte e pornografia

Haverá boas razões para que a fotografia sexualmente explícita de Robert Mapplethorpe, as esculturas dos irmãos Chapman, ou Lolita de Vladimir Nabokov devam ser imunes à censura a que poderiam estar sujeitas se não tivessem sido criadas por artistas ou escritores reconhecidos? Haverá uma defesa especial para as artes que as possa isentar da censura? Um modo de responder a isto é que os artistas devem estar imunes à censura por causa da seriedade das suas tentativas de abordar a condição humana e por causa das qualidades literárias ou artísticas da interpretação de acontecimentos que tornam complexa a experiência dessas obras. Na nossa cultura, privilegiamos apropriadamente o papel do artista porque é pela arte que a cultura é transmitida e questionada.

Talvez o caso mais importante em que foi usada uma defesa artística tenha sido o julgamento a propósito de O Amante de Lady Chatterley, no Reino Unido. Este julgamento, que teve lugar em 1960, devia determinar se o romance de D. H. Lawrence poderia ou não ser publicado na Grã‑Bretanha ou se deveria permanecer banido ao abrigo do Édito relativo a Publicações Obscenas. Mais de cinquenta especialistas foram chamados a testemunhar sobre os méritos literários do livro, incluindo E. M. Forster, Raymond Williams e Richard Hoggart. Por consenso geral, O Amante de Lady Chatterley está longe de ser o melhor livro de Lawrence, mas as testemunhas fizeram uma boa defesa dos seus méritos literários, cientes de que não defendiam apenas um livro particular mas também a liberdade de um escritor exprimir a sua perspectiva sobre a vida. O livro, com o seu uso repetido da palavra «foder» e a descrição detalhada do adultério, era sem dúvida potencialmente ofensivo para muitos leitores. O teste da obscenidade, contudo, era o de que corromperia os leitores e os tornaria depravados. O juiz que se encarregou do caso decidiu que o livro poderia ser publicado (mas não antes de perguntar ao júri se estaria à vontade com a ideia de os seus criados o lerem).

Em 1990, a exposição The Perfect Moment do fotógrafo Robert Mapplethorpe foi apresentada no Centro de Arte Contemporânea em Cincinnati. A exposição incluía imagens explícitas de sado‑masoquismo homossexual, sexo oral masculino e também uma fotografia, Rosie (1976), de
uma menina de quatro anos sentada num banco de jardim, vestindo uma saia que claramente deixava ver os seus genitais.

O director do museu, Dennis Barrie, foi acusado de obscenidade e uso impróprio de um menor numa fotografia. A imagem não foi incluída quando a exposição passou para a Galeria Hayward de Londres. Como sucedera com o julgamento sobre O Amante de Lady Chatterley, as questões
acerca do mérito artístico eram centrais. Dennis Barrie foi absolvido com base em que o trabalho de Mapplethorpe mostrava grande sensibilidade artística com o erótico.

A fotografia de Mapplethorpe é frequentemente bela e altamente formal, mesmo quando os seus sujeitos participam em actividades sadomasoquistas hardcore explícitas. A sua defesa poderia também ter‑se tornado mais fácil pelo conhecimento disseminado da sua própria homossexualidade. Numa entrevista, explicou como queria usar a obscenidade, mas ao mesmo tempo transcendê‑la:

"Poderia ser pornografia e ainda assim ter valor social redentor. Pode ser ambas as coisas, o que é o meu propósito ao fazê‑lo — ter todos os elementos da pornografia e no entanto ter uma estrutura de iluminação que a faz ir além do que é. "

A questão levantada quer pelo julgamento sobre O Amante de Lady Chatterley quer pelo julgamento sobre Mapplethorpe, contudo, é a de um juízo de mérito artístico dever ou não ser um factor para determinar se um livro, imagem, filme ou actuação devem ou não ser censurados. 

A abordagem mais libertária consiste em argumentar que toda a censura artística é errada. Nesta perspectiva, os artistas devem ser livres de desafiar tudo o que desejarem desafiar e exprimirem‑se de qualquer modo que achem apropriado, com ou sem mestria artística. Semelhante posição é mais fácil de afirmar como palavra de ordem do que de justificar. Isto é assim particularmente na área das imagens sexualizadas de crianças. Quando há crianças lesadas na produção dessas imagens, não há necessidade de relacionar este assunto com questões de liberdade de expressão. Mas mesmo quando as crianças não são fisicamente lesadas, como no caso Mapplethorpe, muitos (e conto‑me entre eles) sentem que o risco de estimular a imaginação perversa dos pedófilos é um preço demasiado elevado a pagar pela liberdade artística. Para outros, contudo, por repugnante que uma tal imagem lhes possa parecer, deveria ser tolerada. É fácil tolerar a arte de que gostamos — o teste genuíno sobre se o leitor é ou não sincero quanto à liberdade de expressão é quando está disposto a tolerar a arte que acha repugnante e profundamente ofensiva. A tolerância, evidentemente, não impede a oposição que fique aquém da censura. 

Na explicação que apresentou deste caso no seu livro Eroticism and Art, a historiadora da arte Alyce Mahon parece surpreendida por a fotografia ter provocado consternação

 "[...] apesar de a modelo, Rosie, uma mulher adulta de 23 anos na altura da exposição, não ter qualquer problema com o seu retrato e o exibir alegremente em Notting Hill, Londres, no restaurante que geria."

O consentimento restrospectivo de uma modelo não é, todavia, a questão aqui. Imagine‑se
o caso em que, na verdade, Rosie se sentiria, em adulta, profundamente envergonhada desta imagem amplamente reproduzida. Ela não tinha, quando a imagem foi feita, idade que lhe permitisse ter dado um consentimento informado em ser fotografada. Embora não tenha sido fisicamente lesada no processo, caso tivesse ficado gravemente traumatizada pela exposição pública da imagem, isso seria o equivalente a um dano psicológico. Mapplethorpe não poderia saber que mais tarde ela teria orgulho na fotografia, em vez de se sentir perturbada por esta. A ausência de possibilidade de consentimento num caso semelhante torna‑o muito diferente de uma imagem de um adulto tirada com o consentimento desse adulto.

Uma fotografia maravilhosamente tirada e proficientemente impressa dos genitais de uma rapariga de quatro anos é, ainda assim, uma fotografia que pode facilmente excitar um pedófilo, e a sua exibição pública pode também comunicar indirectamente a ideia de que fixar um olhar sexual por baixo da saia de uma criança de quatro anos é socialmente aceitável. Por esta razão, não aprovaria a sua exibição. Dado o contexto de uma exposição que contém fotografias de actos inequivocamente sexuais, seria desonesto afirmar que não há aqui sugestão de sexualidade na imagem Rosie. A justaposição com fotografias de pessoas fazendo todo o tipo de sexo torna quase inevitável uma leitura sexual. É razoável questionar os motivos de um artista que cria e exibe semelhante imagem; é também correcta a preocupação com os efeitos prováveis de exibir essa imagem. Os riscos associados a esta fotografia e outras como ela são, para mim, demasiado elevados para lhe dar o benefício da dúvida. Na verdade, há algo perturbador na perspectiva de que a expressão artística e o mérito dessa imagem a devem tornar imune a outras considerações, como se as preocupações artísticas se sobrepusessem sempre às morais.

Maioritariamente, os defensores liberais da livre expressão argumentam a favor de um princípio formal que se centra na protecção do discurso, que seja neutro quanto às ideias expressas (até ao ponto em que incitam ao dano). Nos casos descritos, contudo, o mérito artístico das obras em causa foi considerado relevante. Tivessem os tribunais demonstrado que quer o livro de Lawrence quer as fotografias de Mapplethorpe careciam inteiramente de mérito artístico, então teriam muito provavelmente sido banidos. Mas por que razão deveria o mérito artístico ser relevante? 

Uma resposta é que as obras artísticas exprimem e dão corpo a pensamentos acerca daquilo que descrevem ou representam. Nesta perspectiva, o propósito de uma obra pornográfica é ser transparente quanto ao que está diante da lente. A pornografia é um tipo de voyeurismo. Por contraste, a arte que superficialmente se assemelha à pornografia interpõe sempre a interpretação e o envolvimento imaginativo com o assunto. Pode, como argumentou Susan Sontag, representar aquilo a que chamou «a imaginação pornográfica», como por exemplo num romance que representasse um pedófilo ou um sádico sexual. 

O Amante de Lady Chatterley não foi escrito do modo como foi simplesmente para excitar o leitor; as imagens de Mapplethorpe não são simplesmente feitas como pornografia, mas pretende‑se que sejam vistas como formalmente belas, partilhando algumas das qualidades da arte clássica. Neste tipo de argumento, é a possibilidade da compreensão reflexiva ou de apresentar um carácter que essas obras dão ao observador ou leitor que as leva além da pornografia e lhes permite serem tratadas de modo diferente. Uma fotografia de uma menina de quatro anos tirada por um pedófilo constituiria claramente um tipo de abuso. Segundo este argumento, Mapplethorpe deve ser tratado de modo diferente do pedófilo porque a sua mestria artística lhe permitiu produzir uma imagem que é acerca da inocência e beleza em vez de visar o estímulo sexual. Uma dificuldade pragmática neste género de abordagem, contudo, está em distinguir entre o artista e o pedófilo que deseja trabalhar sob a protecção de um princípio que protege a arte erótica.

Outro argumento para tratar a arte como uma zona protegida é que a arte, pela sua própria natureza, é uma área de actividade humana que coloca desafios sérios e importantes à opinião estabelecida. As restrições à liberdade artística são, nesta perspectiva, particularmente perniciosas porque limitam a criatividade das mesmas pessoas que mantêm a nossa cultura viva, auto‑reflexiva e autocrítica.

No entanto, esta abordagem é antitética de qualquer outra abordagem à liberdade de expressão assente num livre mercado de ideias: supõe que um domínio da expressão deve ser protegido acima dos outros. Este género de imunidade à censura foi também invocado na área da arte que ofende as sensibilidades religiosas. Dois casos bastam para ilustrar esta ideia, ambos considerados ofensivos.

Quando Andres Serrano submergiu um crucifixo na sua própria urina e o fotografou como Piss Christ, muitos cristãos ficaram profundamente ofendidos com esta obra deliberadamente provocadora. Na verdade, foram levantadas questões ao senado norte‑americano sobre a legitimidade de este artista ter conseguido financiamento público para aquela obra. Alguns dos que falaram negativamente acerca de Piss Christ afirmaram que Serrano não era um artista, talvez reconhecendo indirectamente um argumento de que a arte merece protecção especial da censura.

Analogamente, embora à primeira vista a imagem de Maria por Chris Ofili, em 1996, seja suficientemente inofensiva, o seio direito da Virgem foi feito a partir de excremento de elefante, e o fundo decorado com fotografias de partes corporais tiradas de revistas pornográficas. Mais uma vez, muitos cristãos acharam ofensiva esta obra. Quando foi levada para o Brooklyn Museum of Art, integrando a exposição Sensation, de 1999, o então presidente da Câmara de Nova Iorque, Rudolph Giuliani, foi um dos que se sentiu ultrajado perante esta poderosa combinação de aparente blasfémia e imagens sexualmente explícitas. Considerou‑a um ataque especificamente dirigido ao catolicismo romano e ameaçou retirar sete milhões de dólares de financiamento público ao museu por causa disso, embora tenha sido posteriormente forçado a ceder.

Muitos no mundo da arte se escandalizaram com a tentativa de censurar a arte. A arte deveria ser imune a este género de crítica, afirmaram. Mas há um bom argumento de acordo com o qual é o acto de censura que estava errado, não o facto de aquilo que foi censurado ser arte. Numa sociedade civilizada, a liberdade de ofender deve ser protegida, mas não há boas razões para fazer da arte um caso especial e protegê‑la da censura apenas porque é arte.

ÍNDICE


Prefácio................................................................................

1. Livre Expressão.................................................................
A Primeira Emenda...............................................................
O que se entende por «expressão»?.....................................
O que se entende por «livre»?..............................................
Liberdade e não licenciosidade.............................................
Onde traçar o limite?.............................................................
Um argumento da derrapagem............................................
Argumentos instrumentais e morais a favor da livre
expressão.............................................................................
A liberdade de expressão, hoje.............................................
Os Versículos Satânicos e os cartunes dinamarqueses........  

2. Um livre mercado de ideias?..........................................
Sobre a Liberdade, de John Stuart Mill..............................
O princípio do dano, de Mill..............................................
Os argumentos de Mill.......................................................
O argumento da infalibilidade.............................................
O argumento do dogma morto............................................
O argumento da verdade parcial.........................................
Quão relevantes são os argumentos de Mill, hoje?...........  
Negação do Holocausto.....................................................
Respeito em detrimento da verdade....................................
Argumentos contra «dar palco»...........................................

3. Ofender e ser ofendido.....................................................
Blasfémia...............................................................................
Discurso de ódio.....................................................................
Skokie e tolerância..................................................................

4. Censurar a pornografia.....................................................
O que é a pornografia?..........................................................
A pornografia hardcore será uma forma de expressão?.....    
Uma defesa feminista da pornografia.................................    
Dano físico e psicológico para os participantes.................    
Pornografia e violação............................................................
Males sociais.........................................................................
A abordagem do moralista jurídico à pornografia............      
Arte e pornografia..................................................................

5. A liberdade de expressão na era da Internet..................
Será que a Internet mudou tudo?........................................
Alguns perigos da Internet...................................................
O «Diário de Mim»?...........................................................
Paternalismo com as crianças...............................................
Usar palavras e imagens de outras pessoas.......................  
Liberdade de expressão contra propriedade intelectual....    
O movimento para reformar a lei da propriedade intelectual..................................................................................
Conclusão...................................................................................

Liberdade de expressão: algumas datas marcantes.....................
Bibliografia.................................................................................
Leituras complementares............................................................
Índice remissivo..........................................................................

IDENTIDADES, VALORES, IDENTIDADE. O PENSAMENTO DE ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA


Em primeira mão, início da Introdução (sem notas) do livro de João Maurício Brás sobre o filósofo português Onésimo Teotónio Almeida, que está quase a sair na Gradiva. Recomendo o livro todo!

Onésimo Teotónio Almeida (O.T.A.) nasceu no Pico da Pedra, Açores, em 1946, é professor catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, Providence, Rhode Island (R.I.), onde se doutorou em Filosofia. Conhecido como escritor, conferencista e viajante incansável, é principalmente um filósofo e um pensador.

A sua obra, composta por dezenas de livros, artigos científicos, intervenções académicas e públicas, nacionais e internacionais, constitui um caso ímpar no panorama cultural português. Trata se de uma figura incontornável, e até improvável, dos séculos xx e xxi no pensamento filosófico nacional, na literatura e nos estudos culturais. E, contudo, a recepção e o estudo da sua obra são ainda insuficientes, talvez porque o autor reside há décadas nos Estados Unidos da América.

Este texto assumiu inicialmente a forma de um trabalho académico guiado por uma motivação duplamente filosófica: o espanto perante um pensamento peculiar e fundamental e a necessidade e o dever de contribuir para a sua divulgação. Pesados os prós e os contras do que seria uma resenha da sua obra, optou se por um registo mais livre, expurgado do jargão usual mas preservando todo o detalhe da informação que se quer transmitir.

Mais do que realizar uma análise crítica ou comparatista, optou se pela exposição dos temas e dos problemas cruciais das suas reflexões. Num primeiro contacto com uma obra interessa, de facto, conhecê la, fazer a sua recepção, identificar as suas linhas mestras, desvendar as posições assumidas pelo autor e a forma como as fundamenta. Estabelecido esse momento inaugural e necessário, estarão criadas as condições para o debate subsequente.

Convém sublinhar desde já que o carácter por vezes disperso do seu universo temático, principalmente nos seus ensaios, é apenas aparente, pois a sua obra constitui uma unidade, um conjunto uniforme de temas, teses e posições. Se o cronista é mais bem conhecido, particularmente em Portugal, é o pensador e filósofo que importa estudar. Para nós, a filosofia constitui a parte substancial e mais importante da sua obra, e a vertente ensaística é aquela onde está presente o seu pensamento de um modo que não encontramos na sua dimensão literária, que, reconheça se, tem também o seu lugar e importância.

O.T.A. é um pensador actual mas entroncado na definição antiga de filósofo, pela atitude, pelo universo dos seus interesses, embora a sua metodologia e o seu treino tenham afinidades particulares com a tradição analítica anglo americana. História das ideias, história da ciência, epistemologia, antropologia, ética, história e cultura, ciências sociais, entrecruzam se no corpus de um pensamento que aborda temas como os da identidade, dos valores, das mundividências, da modernidade e da pós modernidade, da ciência moderna, da cultura e do pensamento português, ou particulares, como, a título de exemplo, o da faceta filosófica do pensamento de Fernando Pessoa. Esse corpus constitui um percurso praticamente único no panorama dos pensadores portugueses.

O termo «filosófico» poderá parecer demasiado genérico para alguém que dialoga em permanência com a história, a sociologia, a literatura e as ciências duras, mas permite distinguir a relevância de um pensamento caracterizado pelo ensaísmo filosófico. Os seus trabalhos literários são trabalhos sobre ideias; a sua obra literária está informada por preocupações e teses filosóficas. «A crónica é o ensaio em mangas de camisa», como aliás ele próprio afirma.

Não podemos contudo falar da sua obra sem referir essa dimensão literária. Designamos por literatura as crónicas, a ficção, as diacrónicas, os prosemas, as peças de teatro, os contos (ou «estórias», como prefere o autor), num registo que não se submete a qualquer código ou moda literária e que se filia numa tradição antiga, que tem na acção e na inteligência de olhar as coisas o significante e o significado. A literatura tem então, também, um papel determinante, estabelecendo pontes entre domínios mentais e geográficos, entre a experiência do autor e as suas ideias. A sua faceta literária, na sua maior parte, manifesta se, pelo menos inicialmente, na participação em revistas e jornais, tais como: O Jornal, Jornal de Letras, Visão, Diário de Notícias, Colóquio Letras, Ler, Grande Reportagem e Correio do Norte e Ilhas, e numa vasta publicação em formato livro. Ela apresenta imediatamente dois dados: a singularidade do autor e um olhar pessoal, mas que alcança uma universalidade nos seus conteúdos. Não se trata de confissões, mas de visões pessoais do quotidiano, do mundo e da vida dos seres humanos. A escrita criativa tem assim um lugar de relevo, mas nunca está separada da vida (subordina se a esta) e do pensar sobre a mesma. A importância de contar, de descrever e compreender justifica se no viver — viver que é também viver para contar, glosando uma obra de Gabriel García Márquez, mas conta se também para viver. Esta é uma verdade intrínseca ao escritor.

Quanto à crónica, o género mais comum na sua produção literária, é uma continuação dos ensaios e um modo de superar o destino destes: o esquecimento em actas de congressos e revistas científicas sepultadas em bibliotecas — «A escrita criativa não muda de temas. Abordo os apenas de forma diferente.»

 A transição e a tradução entre universos culturais diferentes (Açores, Portugal e Estados Unidos da América) são uma prática que o caracteriza. Este dado constitui uma matriz onde encontramos a génese dos temas do seu pensamento, por exemplo, o seu interesse pela questão das ideologias e do tema nuclear das mundividências (da qual a ideologia será apenas um aspecto). O trabalho permanente de traduzir um universo cultural para outro conduz também ao aprofundamento das questões sobre a cultura portuguesa e a língua, desde uma revisitação de questões clássicas a novas problematizações. Destaca se o tema da decadência, revisto como declínio da cultura portuguesa, do atraso em relação às culturas do Norte e Centro da Europa, da importância do conceito de futuro como fundamental para o entendimento da questão da identidade, do questionamento dos falsos pressupostos em que assentam muitos dos debates sobre a questão das identidades, da distinção do conceito de identidade nacional e identidade cultural e o tema unificador das visões do mundo. Realçamos também os estudos sobre Antero de Quental e Max Weber e os ensaios sobre Fernando Pessoa. A filosofia portuguesa passa também pelo seu crivo e é determinante a questão da expansão portuguesa e da ciência moderna, a importância da experiência e o papel de Portugal nos primórdios da modernidade.

A Questão Açoriana, a sua literatura, cultura e relações com o mundo constituem um capítulo matricial do seu pensamento. Sendo O.T.A. açoriano, a reflexão inicial sobre as questões suscitadas por esse universo será ampliada nas suas principais teses. Outra dimensão matricial é a importância que atribui à tradução dos universos basilares da sua vida (Açores Portugal Estados Unidos da América) e pensamento. Refira se a divulgação de autores destaque, por exemplo, para a organização do primeiro Congresso Internacional de Literatura Açoriana, a criação de uma cadeira de Literatura Açoriana na Brown University, bem como a cátedra Vasco da Gama. A importância que atribui à literatura luso americana é uma extensão natural dos seus interesses na divulgação da cultura portuguesa no universo cultural inglês, que o levou a criar a editora Gávea Brown e a revista bilingue de letras e estudos luso americanos Gávea Brown (1980) para a divulgação da experiência portuguesa (ficção e estudos) na América do Norte (EUA e Canadá). Foi também co-responsável pela criação (primeiro como centro, fundado em 1975) do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros na Brown University.

O.T.A. começou o seu percurso filosófico com uma investigação detalhada sobre o conceito de ideologia, que se inserirá no tema principal do seu pensamento, as mundividências: «Diria mesmo que a maior parte da minha escrita reflecte preocupações de base com o problema das mundividências, no seu aspecto mais geral, e com a problemática dos valores e da ideologia (tecnicamente, a axiologia nas suas vertentes epistemológica e ética)».

O conceito de ideologia — porque o autor reconhece ser impossível viver sem ideologias — é submetido a uma análise que reflecte a estrutura do seu pensamento em dois grandes núcleos: a epistemologia e a ética.

Esses dois grandes núcleos são utilizados como chaves de análise no campo mais geral das mundividências (particularmente a visão moderna do mundo), a sua formação, o seu funcionamento e os problemas daí advindos; estão presentes em temas principais do seu pensamento como o projecto da modernidade e a questão da pós modernidade, a relação entre filosofia, sociedade e ciência, a relação entre ciência e filosofia, a história das ideias, a ciência e os Descobrimentos, a análise das consequências do relativismo cultural e ético e as causas do atraso português.

 O conceito de mundividência, a sua importância e sua operacionalidade, deve se à função panóptica  no plano dos modos de estar (pensar, agir, sentir), constituindo o ponto de observação central que permite a visão e a compreensão de todo o espaço circundante.

Neste caso, as suas principais linhas de investigação, a saber: a nossa actuação, práticas e escolhas que fazemos (valores), a imagem que temos de como devemos ser e agir (ética), a imagem do que somos e de como devemos agir politicamente (a ideologia é ético política). São estas linhas que circunscrevem a própria noção de mundividência: «Visão global do Universo e do lugar que o indivíduo ocupa nele». Essa visão compreende se a partir da concepção que O.T.A. tem de si e depois amplia se como compreensão do nosso lugar no universo, das imagens que temos e construímos; afirma se como um percurso de auto reflexão a partir de si e do mundo que o rodeia, passando a uma construção teórica (filosofia, ciências sociais e estudos da cultura) problematizadora do entendimento do mundo, procurando se informada pelas ciências. Os ensaios fornecem nos esse suporte teórico; na crónica e na ficção encontramos a descrição prática que os exemplifica.

 No plano epistemológico e metodológico importa lhe remover os obstáculos e os preconceitos, os discursos equívocos e os maus usos, além do que é a contaminação ideológica, afirmando um primado empírico racional, lógico e científico. No plano ético importa lhe saber como agimos e podemos agir do melhor modo, onde a questão da verdade já não se coloca (pelo menos da mesma maneira) mas antes a doo justo e do injusto, do bom e do mau. Se a evidência empírica é fundamental, a racionalidade e a ética são para ele dois traços humanos distintivos — assim como a articulação entre liberdade e justiça; devidamente justificados e esclarecidos, são demonstrações privilegiadas do universo humano. Neste ponto, John Rawls é para o autor influência determinante.

 No seu pensamento filosófico caracterizado como realismo pragmático e crítico, problematizador de base empírico racional, encontramos um sistema original que não é fechado e absoluto. Este sistema articula uma teoria ética, uma teoria da acção, uma epistemologia e uma antropologia. Nestes domínios é indistinta a componente prática e teórica do seu pensamento: por exemplo, na ética, se as acções, as escolhas e as decisões fornecem matéria à intelecção, o trabalho desta permite aplicações práticas.

 É fundamental a influência de autores como David Hume, pela metodologia do pensar que fornece, e da teoria de John Rawls, onde encontra uma resposta adequada para a coexistência entre os seres humanos e as respectivas culturas e sociedades. «A história da ética tem sido uma longa caminhada de aperfeiçoamento dessa concepção que em John Rawls atingiu a mais elevada expressão teórica no século xx».

Miguel Real, em obra recente, refere que do cronista, ficcionista, filósofo e pensador da história e cultura portuguesa temos apenas várias faces de um só rosto. Trata se de uma visão acertada, pois a sua obra, a sua vida, as ideias e a experiência constituem uma unidade inseparável, como se verá.

 Importa também desfazer rótulos fáceis, imediatos e exclusivos, como é o caso do cronista, homem conotado com o humor, escritor ligado às questões dos Açores e da literatura açoriana. Esses rótulos pertencem lhe, mas são redutores.

Um dos aspectos mais originais da sua obra é que no conto e na crónica há já a expressão privilegiada de um pensamento filosófico. Com efeito, uma parte considerável da sua produção literária e filosófica conhece previamente a forma de ensaio, conferência, artigo ou texto de jornal ou revista. Esta opção demonstra um pensamento que provém inicialmente de viver, intervir e testar as suas ideias nucleares. Se a problemática dos valores, da ética, das mundividências e da identidade cultural são centrais nas preocupações teóricas do autor, é nas crónicas e nas estórias que estas são expostas em experiências individualizadas. Todo o seu sistema de pensamento, porque de um sistema se trata, com temas nucleares, articulados, coerentes, e não contraditórios entre si, com uma metodologia de rigor, clareza e concisão, é inseparável, quer da experiência individual, quer da observação e do confronto prático. Não são muitos os casos contemporâneos em que o filósofo, o escritor e o homem não se distinguem. A acepção original de filósofo e homem da cultura, e não de mero funcionário, surge nos assim como traço decisivo."
(...)

William Bronk (1918-1999)




1-Como o indeterminado nos determina

Assim somos tão pouco discerníveis
em tanto nada que resulta que a nossa particularidade,

por vezes, nos assombra: o mundo é nosso;
é tão-só nosso; outros que se movem aí,
ou parecem mover-se, estão noutro sítio, estão noutro mundo,

no seu mundo; vemos somente de vez em quando
— fragmentados, como se fôssemos nada, ou

Instáveis—, algumas vezes vemos o que eles vêem,
nenhum mundo conhecemos. O deles. Estranho. Como se

por uma mutação momentânea de pequenas partículas
de cargas, o cobre se tornasse carbono e sentisse o peso

e valências do carbono num mundo alterado
de inércias e reacções, e se retornasse cobre

num mundo cuproso. Resta-nos maravilhar e
ponderar a nossa particularidade e ponderar o seguinte:

somos duas incógnitas numa só equação, nós
E o nosso mundo, funções um do outro. A visão

é  interior e vê-se a si mesma, a audição, o tacto,

são interiores. O que conhecemos do mundo é exterior?

Livro: Pensar a Ciência
Editora: Gradiva
Tradução: António Manuel Nunes dos Santos

Nota: O poeta expande o princípio de incerteza de Heisenberg para além do mundo subatómico.


2-Elocuções

Não há galáxias próximas: Isto
tanto quanto que para alguma, mesmo sem se usar a unidade milha,

nós conhecemos o quanto são absurdas as milhas
em unidade de milha. Como a distância de mim para você?

É quase tudo na elocução,
metáfora —como medimos milhas, e a milha

é absurda, mas conhecemos o que a distância é:
Incomensurável. Todavia existem distâncias.

Nota: O poeta parte da Lei de Hubble e recua até à distância psicológica entre homens.

3- Dez poemas de W.Bronk

The Inclination of the Earth; Home Address; My Father Photographed with Friends; The Changes; At Tikal;The Annihilation of Matter; The Beautiful Wall, Machu Picchu; The Nature of Musical Form; The World in Time and Space; The Outcry.

 

 

 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

LUZ NO MUSEU DE CIÊNCIA DE COIMBRA

Informação recebida do Museu de Ciência da Universidade  de Coimbra:

NOITES NO MUSEU

NOITE DA LUZ | 20 DE JUNHO (21H00-24H00)
Na noite mais curta do ano e também porque estamos no Ano Internacional da Luz, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra abre as suas portas para uma noite dedicada à Luz, numa altura em que as festas dos santos populares invadem a Alta de Coimbra. Saiba mais

EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA
EVOCAR A SEDE PARA NOMEAR A ÁGUA . AS PALAVRAS DA ÁGUA NO UNIVERSO TOUAREG - SUL DA ARGÉLIA | INAUGURAÇÃO 17 DE JUNHO (17H00)
A identidade touareg apresenta a sua expressão central na palavra escrita e oral. Assim, designam-se a si próprios, como os Kel-tamacheq – a comunidade de todos aqueles que falam a língua tamacheq. Saiba mais

AIL2015
MAIL-ART: ANO INTERNACIONAL DA LUZ | 21 DE MARÇO 2015 A 21 MARÇO DE 2016
No âmbito das comemorações do Ano Internacional da Luz (AIL2015), o Comité Executivo da Matemática do Planeta Terra (MPT) lança o desafio aos artistas de Mail-Art de todo o mundo, no sentido de nos fazerem chegar trabalhos inspirados nesta temática. Saiba mais


PRÉMIOS APOM 2015
MELHOR TRABALHO DE MUSEOLOGIA
A revista MIDAS – Museus e Estudos Interdisciplinares foi distinguida pela Associação Portuguesa de Museologia (APOM) com o prémio melhor ‘Trabalho na Área da Museologia’, em ex æquo com a Argos, revista do Museu Marítimo de Ílhavo. Saiba mais

EXPOSIÇÕES TEMPORÁRIAS
VISÕES. O INTERIOR DO OLHO HUMANO | 14 DE FEVEREIRO A 4 DE OUTUBRO DE 2015

Falam da vida que existe nesse interior escondido. Falam do estilo de vida de cada um, do ADN que herdaram, das lesões que tiveram de enfrentar… Saiba mais

NATUREZA EXÓTICA. VIAGENS FILOSÓFICAS DE NATURALISTAS | 16 DE MAIO A 11 DE OUTUBRO DE 2015
Os objetos das coleções do Museu da Ciência obtidos nas viagens filosóficas de setecentos são o ponto de partida para os encontros dos portugueses no Brasil, África e Índia portuguesa. Os objetos das coleções do Museu da Ciência obtidos nas viagens filosóficas de setecentos são o ponto de partida para os encontros dos portugueses no Brasil, África e Índia portuguesa. Saiba mais

A CHINA É BELA | DE 27 DE MAIO A 27 DE SETEMBRO DE 2015
Nas últimas três décadas, a economia chinesa conheceu um acelerado desenvolvimento, assumindo-se como uma potência económica triunfante na globalização e em que vivemos. Também as transformações sociais são evidentes, assistindo-se a uma melhoria global do nível de vida, ao surgimento de cidades de enormíssimas dimensões e à tomada de consciência dos impactos negativos que a acelerada industrialização e urbanização têm no ambiente. Saiba mais

EXPOSIÇÃO
VISITAS À GALERIA DE ZOOLOGIA | ATÉ 27 DE JUNHO (16H30)
Sabia que há milhares de animais à sua espera, aves e borboletas com cores deslumbrantes, esqueletos de diferentes animais que certamente desconhece? Saiba mais
                                                        
DESTAQUE PARA CRIANÇAS
SÁBADOS NO MUSEU
BALEIAS COM PERNAS | 20 DE JUNHO (15H00)
Da água para a terra e de volta à água. Vem conhecer a história das baleias e dos seus antepassados… patudos! 3 aos 5 anos
Esta atividade está inserida na iniciativa
'Um dia sobre a evolução'. Saiba mais  

Uma Autobiografia da Razão.

Convite

O Diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra
e o Diretor da Imprensa da Universidade de Coimbra 
têm o prazer
de convidar V. Ex.ª para o lançamento da obra
 
Uma Autobiografia da Razão. A matriz filosófica
da historiografia da cultura de Joaquim de Carvalho

da autoria de Paulo Archer de Carvalho. 

A sessão terá lugar no dia 16 de junho, às 17h30, na sala de São Pedro,
estando a apresentação a cargo do Senhor Professor Fernando Catroga.

ANO DA LUZ EM PORTUGAL

Informação recebida da Sociedade Portuguesa de Física:

Haja Luz nas Escolas

Lançado no passado dia 16 de Março na Escola Passos Manuel, em Lisboa, este projeto de âmbito nacional e conta com um programa especial de atividades, dedicado às Escolas, professores e alunos do Ensino Básico e Secundário. Este programa teve início em março de 2015 e decorrerá até ao final das comemorações do Ano Internacional da Luz 2015.
O Haja Luz nas Escolas tem como principal objetivo envolver a comunidade escolar nacional nas comemorações do AIL e desta forma tornar clara a importância da Luz na sociedade e nas várias áreas do ensino formal. Durante este projeto serão dinamizados vários tipos de atividades, de modo a promover junto dos alunos o conhecimento sobre a luz e as tecnologias baseadas em luz. Irá ser possibilitada junto destes a realização de trabalho laboratorial e o contacto com tecnologia atual, de forma a fomentar o saber fazer e o ensino experimental das ciências.
Este projeto pretende envolver 75 professores e 40 mil estudantes do Ensino Básico e Secundário em diferentes tipos de atividades educativas ligadas à luz e às tecnologias baseadas na luz, tais como palestras, workshops, oficinas, LIGHTtalks, formações, manuseamento de kits e visitas a uma exposição.
http://ail2015.org/index.php/haja-luz/


Conferência Haja Luz: Diálogos em torno da luz

A conferência de encerramento do AIL2015 terá lugar no dia 15 de Dezembro de 2015 em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, contando com o seu patrocínio. O objectivo é efectuar um levantamento de aplicações actuais da luz e de problemas em aberto. Os oradores serão cientistas, engenheiros, artistas e arquitectos. Pretende-se um diálogo multidisciplinar, inspirador, no ambiente pouco usual que mistura artistas e cientistas, olhares e pensamentos cruzados sobre desenvolvimento e inovação, sustentabilidade, arte, história e educação.
A conferência é comissariada por Teresa Peña, presidente da SPF, e Carlos Fiolhais, coordenador nacional das comemorações do AIL2015.


Edição especial da Gazeta de Física
Dedicada ao AIL2015 e agendada para o final do ano, esta edição da revista oficial da SPF será dedicada a celebrar as diversas facetas da luz nas ciências, em particular na física e nas suas ligações com as outras áreas do conhecimento: química, medicina, materiais, biologia, mas também arquitectura, iluminação, artes e cultura, para ilustrar apenas algumas possibilidades. Fica desde já o convite a todos aqueles que utilizam a luz como ferramenta de trabalho e de descoberta para que nos submetam os seus artigos, ilustrando como a luz possibilita avanços científicos e tecnológicos.
http://gazetadefisica.spf.pt/


Ano Internacional da Luz: novo website
IYL2015
Se ainda não o fez, espreite o novo website do AIL2015 - Ano Internacional da Luz em português. Mais organizado, mais luminoso, mais fácil de navegar e encontrar a informação essencial. Caso esteja a organizar actividades no âmbito do AIL2015, não se esqueça de submeter a informação na secção "Submeter actividade". Assim, garante que todos os visitantes têm acesso actualizado e completo sobre o seu evento.

http://ail2015.org

NOVO LIVRO DE CRISTINA CARVALHO


Se é permitido ao Zé...

O Diário Económico publica hoje(15.06.2015) uma peça admirável chamada "Como convencer o “Zé da PME” a contratar doutorados?" .  Com a constatação, sem contestação, que cerca de 4% dos doutorados estão no sector privado (imagino que queiram dizer "fora dos centros de investigação do estado") e que o tecido empresarial português (ou qualquer outro) é constituído maioritariamente por pequenas e médias empresas, o estudo "A empregabilidade dos doutorados nas empresas portuguesas" coordenado por uma senhora Ana Barroca, que não conheço, pretende dar um caminho para promover o emprego de doutorados nas empresas. 

A acreditar na peça do jornal, a managing partner da Advancis Business Services  que também não conheço,  consegue reduzir o problema à questão que lhe dá título: "Como convencer o Zé da PME?".  Como acho que oficialmente ainda sou ambas as coisas, um doutorado e um Zé da PME, resolvi ler com atenção a notícia, até porque devo ter empregue mais doutorados no últimos tempos que a Advancis em toda a sua história. E da leitura surgiram-me uns pontos de reflexão que gostaria de partilhar:

1. Não há pessoa mais inteligente que o Zé da PME. Que, aliás, me parece ser o caso da Ana Barroca, managing partner da Advancis, que por sua vez não me parece cumprir com nenhum dos critérios que lhe possam retirar do estatuto de PME.  O Zé da PME, apesar de ser um Zé, é um Zé que meteu os coisos na sua vida profissional e conhece com detalhe o valor dos seus activos e dos seus passivos. Mais, conhece com detalhe as responsabilidades que assumiu. Mas não percebi da peça quantos doutorados emprega a Advancis, que sendo uma PME poderia dar o testemunho em primeira mão;

2. Eu lembro-me de no passado ter trabalhado com um banco do qual o Prof. Daniel Bessa era administrador e esse banco não tinha um único doutorado nos quadros. Talvez porque o banco era no Porto e, se calhar, os doutorados do Porto não têm aquelas qualidades todas. Ou talvez porque o jornalista não traduziu com rigor as palavras do prof., mas confesso que me surpreendeu;

3. Folgo ter percebido que alguns dos Zés da PME's presentes eram também doutorados que saíram em busca de outra vida e criaram a sua própria PME. Muito positivo, mas fiquei sem perceber porque é que metade da peça é dedicada a dirigentes de centros de investigação do estado ou de onde vem o seu conhecimento sobre a empregabilidade de quem quer que seja. Mas, como não são Zés, são da nobreza, talvez possam estar acima destas minudências que só um Zé se preocupa.

 O engraçado em toda a peça é que a acabei de ler e não percebi porque é que devemos contratar um doutorado. Isto para além das patetices do costume das superiores competências, soft skills, e outros palavrões de power point. Deve ser a minha costela de Zé que me torna incapaz de mapear rapidamente essas expressões em valor... ou se calhar fiz asneira quando os contratei!!

JOSÉ MARIANO GAGO, FÍSICO QUE SERVIU O PAÍS


Minha crónica saída na última Gazeta de Física:

Mariano Gago escreveu no seu prefácio à reedição Física para o Povo (com o título A Física no Dia-a-Dia, Relógio d’Água, 1995, uma vez que para o autor do livro já não havia “povo”): “Rómulo de Carvalho veio recordar-nos, mais uma vez, como a Física também é quotidiana. A sua obra de divulgação científica, agora em reedição, ocupa um lugar destacado na história da divulgação em Portugal. Aí chegou por um caminho simples, rente à comoção humilde de saber, à altura da nossa ignorância e vontade de aprender.”

O mesmo Mariano Gago, na Introdução ao seu livro Homens e Ofícios subintitulado Manual de Fichas e Exploração Temática para animação cultural sobre tecnologias e sociedades, publicado em 1978 em edição de autor a partir de um seu trabalho com emigrantes portugueses na Suíça nos dois anos anteriores,  escreveu:  “O coração da cultura bate ao ritmo da prática humilde das bibliotecas de bairro, dos grupos de alfabetização, dos grupos corais, do teatro amador, dos pequenos cineclubes; vive do sangue e do esforço de quem se junta e age, sem ficar à espera que alguém resolva, talvez, um dia, a mudar o mundo que nos diz respeito”.

Foi colando estas duas frases de José Mariano Gago que o recebi, a 12 de Março de 2013,  no Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, uma biblioteca que honra o grande professor de Física e Química e também poeta que o ministro Mariano Gago elevou patrono da Cultura Científica Nacional. Nunca pensei que, passados pouco mais do que dois anos, não mais o pudesse receber naquele espaço de cultura científica. Sabia que estava a lutar contra uma doença, de que ele não falava por entender ser uma questão pessoal, mas foi em estado de choque que fiquei ao fim da tarde de 17 de Abril passado, quando, quase a iniciar mais uma sessão do curso de História da Ciência no El Corte Inglês em Lisboa, um jornalista da Antena 1 me informou que Mariano Gago tinha falecido. A morte é uma grande safada!

Bertold Brecht escreveu: “Temam menos a morte do que a vida insuficiente”. Ora Gago teve uma vida muito mais do que suficiente. De animador cultural em Genebra passou em poucos anos primeiro a presidente da JNICT, antecessora da FCT, e depois a Ministro da Ciência e Tecnologia. Como gestor e político de ciência nunca deixou a Física, nem deixou de pensar como um físico, sem para isso ser preciso incluir o seu nome em cada paper que ia saindo do seu laboratório. Ajudou a esse marco da internacionalização da ciência portuguesa que foi a entrada de Portugal no CERN, em 1985, faz agora 30 anos, ainda estava longe de ser ministro. E celebrou, como todos os físicos, a descoberta da partícula de Higgs, anunciada a 4 de Julho de 2012, quando já não era ministro. Estive com ele, após essa descoberta, num Café de Ciência da Assembleia da República numa sessão em que defendi a relevância da associação de Portugal ao CERN e, mais em geral, o valor da ciência fundamental.

Como ministro Mariano Gago valorizou sempre a cultura científica, por saber que ela era condição necessária da ciência. Ao longo do ano, e em particular na semana que integrava o Dia Nacional da Cultura Científica, 24 de Novembro (data do nascimento de Rómulo de Carvalho), era visto, com uma energia extraordinária, por todo o país, ora num centro Ciência Viva ou numa escola, ora num Laboratório Associado ou numa outra unidade de ciência, dando um elogio amigo e uma sugestão amável. Para o José Mariano, tal como para Rómulo, a ciência devia ser para todos sem excepção, devia ser para o “povo”. Fez um Ministério novo precisamente para isso, para a ciência estar ao serviço do país e não de grupos restritos. Não se serviu, serviu-nos.


Caro José Mariano: fazes-nos hoje muita falta. Mas, invocando as palavras de Jorge de Sena que tu mesmo citaste na morte de Rómulo de Carvalho, estar morto é apenas estar impedido de se pronunciar. Pronunciar-nos-emos nós, cientistas e amigos da ciência, por ti, lembrando-nos sempre do modo sábio e afável como te pronunciavas.   

UMA INTRODUÇÃO À MECÂNICA

Minha recensão publicada na última Gazeta de Física:


Não são muitos os professores de Física portugueses que põem à disposição dos seus alunos e dos alunos de outros, sob a forma de livro impresso, elementos de estudo. Muitos fazem-no sob a forma de notas de curso on-line. Mas o livro está bem longe de estar morto e todos sabemos que a manipulação física das folhas de um livro para a frente ou para trás não é exactamente o mesmo que percorrer um ficheiro num ecrã. O conteúdo pode ser exactamente o mesmo, mas o design conta. Num livro que seja nosso podemos sublinhar e anotar o que bem queremos (bem sei que isso é de certo modo possível também num ficheiro pdf, mas não é a mesma coisa…)

É, por isso, de saudar que os físicos António Silvestre e Paulo Teixeira, professores do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (o primeiro doutorado pela Universidade de Lisboa e especialista em ciência de materiais e o segundo doutorado pela Universidade de Southampton e especialista em matéria mole),  tenham decidido publicar as suas lições do curso de Mecânica Geral que ensinam na sua escola a estudantes do primeiro ano de Engenharia Química e Biológica. O livro foi um êxito, pois, saído em 2013, um ano depois aparecia a segunda edição, convenientemente revista. No prefácio à primeira edição os autores justificavam a sua obra referindo a escassez de obras de Física Introdutória em português. De facto, como eles próprios, reconhecem há muitas em português do Brasil, quer em tradução quer originais. Eles referem dois dos clássicos traduzidos para português, o Sears e Zemansky e o Halliday e Resnick. Mas há outros, como o Tipler  (que adoptei quando ensinei Física Geral em Portugal) ou o Hecht (que adoptei em cursos desse tipo que dei nos Estados Unidos e que tem tradução em português). Não penso, como os autores, que as traduções brasileiras sejam más, mas concordo com eles que constitui um lucro para a cultura portuguesa a publicação de obras pedagógico-científicas usando a nossa norma. A física é universal, mas, agora que há entre nós mais estudantes a estudar física, sejam eles de física, sejam de outras ciências, sejam ainda de engenharia, eles lucram em ter à sua disposição mais manuais na sua língua-mãe. Este livro vem, em boa hora, juntar-se a outros congéneres - não muitos, lembro-me do Fundamentos de Física, saído na Almedina, de Maria José Almeida e Maria Margarida Costa, que já vai na terceira edição e que, além de  mecânica, inclui outros temas da Física Clássica, como Electromagnetismo e Óptica.

O livro em apreço é bastante completa abordando os assuntos da mecânica de um modo padrão, progredindo do conceptualmente mais fácil para o mais difícil: após a apresentação do cálculo vectorial, os autores tratam a cinemática do ponto, as leis de Newton, a dinâmica de uma partícula material, a dinâmica de um sistema de partículas, a dinâmica do corpo rígido e, finalmente, a relatividade restrita (interessante, mas há tempo?). Um apêndice apresenta relações matemáticas. O capítulo introdutório sobre cálculo vectorial poderia também ter vindo em apêndice, sendo chamado no corpo principal do texto à medida que a física o exigisse (o professor poderia sempre, perante alunos carentes, começar pelo apêndice). Tendo consultado de forma aleatória algumas das secções em que está estruturado percebi logo que a escrita era clara, cumprindo o livro o seu propósito pedagógico. Gostei, por exemplo, da discussão sobre massa variável, que nem sempre se faz. Não simpatizei tanto com a secção sobre  “energia térmica” e “conservação da energia total”. De facto, não gosto da expressão “energia térmica”, por ela poder dar azo a más interpretações, como a de calor: prefiro falar em “energia interna”. E falar de energia total é algo ambíguo, pois poder-se-ia logo ter esclarecido que num sistema que além de mecânico é termodinâmico à variação da energia mecânica (do sistema como um todo, visto como “concentrado” no centro de massa) acresce a variação de energia interna. Mas este assunto tem muito que se lhe diga (por exemplo, a questão do pseudo-trabalho) e percebo que os autores tenham querido ser sucintos. O livro em causa tem o grande mérito de incluir numerosos exemplos de aplicação, com questões resolvidas e problemas (as soluções estão, e muito bem, no fim). Fiquei um pouco admirado de o livro não incluir mais exemplos relacionados com a biologia, já que o público-alvo é formado por alunos de Engenharia Química e Biológica, mas percebo essa omissão uma vez que a mecânica introdutória não encontra uma aplicação fácil nessas áreas.

De que é que gostei mais e do que é que gostei menos neste livro? Gostei mais das secções com asterisco, aplicações da mecânica muito interessantes, que num caso resultam de investigação pedagógica original dos autores (designadamente  a que consta do artigo “Uma normal muito anormal” publicado na Gazeta de Física em 2000). Há aqui verdadeiras pérolas, que dificilmente se encontram noutro lado. Gostei menos da apresentação do livro, demasiado espartana, numa época em que os livros de Física Geral internacionais privilegiam as imagens, incluindo não só fotografias como simulações computacionais. Mas mais e melhores ilustrações tornaria caro um livro que é barato.

Recomendo portanto o novo manual não só a alunos que estão a frequentar nas universidades ou politécnicos uma disciplina introdutória de Física, como, agora que houve uma ligeira alteração dos programas do secundário, aos professores de Física desse grau de ensino que queiram ter à mão um livro de referência sobre o sempre eterno tema da mecânica clássica e relativista. Os autores e a sua escola estão de parabéns por mais esta contribuição ao ensino da Física em Portugal.


- António Jorge Silvestre e Paulo Ivo Teixeira, Mecânica. Uma introdução, Lisboa: Edições Colibri e Instituto Politécnico de Lisboa,  2.ª edição revista, 2014

UMA ANEDOTA NACIONAL

Luís Reis Torgal escreveu no Público de ontem um artigo de opinião sobre o Metro Mondego. É, de facto, uma anedota nacional, que tem sido contada pelos sucessivos governos. O último, ainda em funções, continua a anedota: carris ferroviários arrancados, estações fechadas, casas arrasadas, quarteirões urbanos em ruínas, tudo isso por incompetência governativa. Ainda há pouco Pedro Passos Coelho esteve em Coimbra, no Portugal dos Pequenitos, e disse, ainda que por outras palavras, que a anedota era para continuar. O problema é que não dá nenhuma vontade de rir.  

LUZ, DESDE AS ESTRELAS À TERRA


Informação recebida do Ciência Viva:

É com muito gosto que a Academia Europaea - Barcelona Knowledge Hub e a Ciência Viva lhe endereçam este convite para a grande conferência internacional Light, from the earth to the stars, que terá lugar nos próximos dias 2 e 3 de Julho, no Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva, Parque das Nações, Lisboa.
O papel da luz nos nossos dias e a sua ligação com a arte, a ciência, a tecnologia, as comunicações, a história e a educação serão discutidos durante dois dias por um painel de investigadores e empresários portugueses e internacionais de referência.
Esta grande conferência multidisciplinar integra a programação do Ano Internacional da Luz da UNESCO, que reconhece a importância das tecnologias baseadas na luz na promoção de um desenvolvimento sustentável.



Programa completo em www.pavconhecimento.pt

domingo, 14 de junho de 2015

Organização europeia de centros de ciência cria prémios Mariano Gago

A Rede Europeia de Centros e Museus de Ciência (Ecsite) reconhece assim o papel do cientista português recentemente falecido na área da cultura científica. Ler notícia do Público aqui.


Uma exposição norueguesa sobre tecnologia e democracia ganhou a primeira edição do Prémio Mariano Gago.

sábado, 13 de junho de 2015

A ÁGUA NA TERRA, NO SISTEMA SOLAR E NO UNIVERSO


Novo post de Galopim de Carvalho:

Pela distância a que se encontra o Sol, a superfície do nosso planeta caracteriza-se por um intervalo de temperaturas que permite a presença de água nos seus três estados físicos - sólido, líquido e gasoso -, sendo o estado líquido o de mais vasta representação e que maior influência teve e tem nos processos geológicos e biológicos. A vida nasceu na água, o líquido essencial à composição e fisiologia das plantas e animais, em cujos corpos está presente em grande quantidade. A água faz parte da composição química de muitos minerais, é essencial à alteração (meteorização) das rochas e à formação dos solos, à erosão e à deposição de sedimentos e subsequente transformação em rochas sedimentares. Mas o papel da água não se confina aos fenómenos superficiais. Está ainda presente no metamorfismo e no magmatismo, dois processos geodinâmicos internos geradores de rochas.

 Há água sob a forma de gelo nas regiões polares e em alta montanha e, ainda, na maioria dos cometas e em alguns corpos planetários do Sistema Solar, onde as temperaturas, à superfície, são inferiores a -150 ºC, como acontece em Ganimede, satélite de Júpiter, cuja crosta é formada por gelo. Há, ainda, água em moléculas disseminadas no espaço interestelar. Dada a universalidade da Physis, somos levados a admitir que o “precioso líquido” é uma constante na imensidão do Cosmos. Sobre a Terra, as primeiras águas no estado líquido terão surgido no decurso da diferenciação do planeta, em fase inicial da sua história, há mais de 4000 milhões de anos, por condensação de uma atmosfera primitiva, rica em vapor de água saído do seu interior, a que se terá juntado, segundo se pensa, muita água transportada por asteróides, cometas, em constantes e abundantes colisões com o nosso planeta, numa actividade considerada muito intensa nesses recuados tempos. Teria bastado o abaixamento da temperatura à superfície, para valores inferiores a 374 ºC, e uma diminuição da pressão atmosférica, para níveis na ordem dos 217 bars, para que o vapor de água condensasse e começasse a preencher as áreas mais deprimidas do planeta de então, originando as primeiras bacias isoladas que puderam crescer em profundid
ade e extensão, acabando por coalescer em um ou mais oceanos primitivos.

 Houve quem chamasse à Terra o “Planeta de Água”. Com cerca de 71% da superfície coberta por oceanos e mares, o globo terrestre, se reduzido a uma esfera, estaria envolvido por uma camada contínua de água, com cerca de 2,5 km de espessura. A hidrosfera, conceito abstracto usado para referir uma entidade não contínua, é essencialmente constituída pelas águas marinhas (que perfazem cerca de 98%), dos rios e dos lagos, pelas neves e gelos polares e de alta montanha e, ainda, pelas águas subterrâneas (aquíferos).

Nos continentes as águas pluviais e a precipitação de neve alimentam, respectivamente, rios e glaciares, agentes cuja acção erosiva modifica, lenta mas constantemente, o relevo da Terra, escavando vales, arrasando montanhas, aplanando vastas extensões da sua superfície. Sendo o principal agente da alteração (meteorização) das rochas, a água está na origem e assegura a evolução do solo, a entidade essencial à vida sobre as terras emersas. Nestes dois processos, a água tem vindo, desde sempre, a exercer erosão química sobre as rochas, carregando-se de sais que transporta para os oceanos. É esta a causa da salinidade da água do mar, estimada, em média, em 35 g por litro. Foi no seio da água que teve lugar a formação de algumas moléculas existentes no mundo orgânico, tais como açúcares simples, ácidos gordos, aminoácidos, entre outras.

Terão sido estas substâncias, acumuladas nos mares primitivos, ainda quentes, que geraram as primeiras fases de uma evolução molecular progressivamente mais complexa, mas ainda abiótica e, portanto, pré-biológica. Numa caminhada de complexidade crescente, algumas macromoléculas, surgidas dessa evolução, adquiriram capacidade de regular a informação genética, esbatendo a diferença que separa o mundo vivo do mundo mineral. Sempre no seio da água, os já então seres vivos foram melhorando a sua eficácia na utilização da energia e só muito mais tarde, uns três mil e quinhentos milhões de anos depois, a vida pôde sair do mar.

Galopim de Carvalho

sexta-feira, 12 de junho de 2015

António Manuel Baptista, físico, poeta, combatente

Artigo sobre António Manuel Baptista, com cujo conteúdo me identifico, publicado a 9/6/2015 no Público por Guilherme Valente: 

Partiu o físico António Manuel Baptista. Grande, exigente professor, como a nossa escola e universidade tanto precisam. Autor da Gradiva, Amigo inesquecível. 

Com um temperamento especial e uma visão muito própria das coisas, a que se manteve sempre fiel, recusou, num processo que acompanhei, uma alta condecoração que o Estado decidiu atribuir-lhe. Condecoração que me custou muito não tivesse recebido, por ser tão merecida e por ser da iniciativa de José Mariano Gago, que, na sua acção pública, singular e corajosamente, liberto de simpatias ou antipatias pessoais, distinguiu sempre quem considerou dever ser distinguido. 

António Manuel Baptista, tal como José Mariano Gago, esteve desde a primeira hora ligado à Gradiva. Foi um companheiro sempre empenhado, sempre encorajador, no combate pela cultura científica. Combate que proporcionou a ambos muitos momentos de entusiasmo gratificante. Combate que, no seu início, pareceu a muitos impossível e inútil. Mas não foi. Para além dos muitos jovens que descobriram o caminho da Ciência e nele se realizaram, nesses anos breves de um florescimento que agora se extingue, ficou provado que o país pode mudar e depressa, que mudará, se houver continuidade na acção, gente, na sociedade e no Estado, com competência, persistência, arrojo e sonho – com a grande e patriótica ambição de contribuir para que a nossa Terra tão amada e sofrida vença o atraso de séculos e possa participar, também ela, no "destino de conhecimento que é o destino do homem". 

O combate que travámos pela cultura científica – isto é, pela consciência crítica, pelo conhecimento, pela "abertura de espírito a todas as ideias, novas e velhas, e o máximo rigor crítico na análise de todas elas" (era assim que definia o espírito científico Carl Sagan, modelo e exemplo para todos nós) –, combate contra o obscurantismo, a ideologia cega, esse nosso combate não significou nunca uma desvalorização da cultura literária. Pelo contrário, José Mariano Gago, eu próprio e António Manuel Baptista crescemos a ler tudo, formámo-nos com a grande, inspiradora, literatura, também ela manifestação do melhor das realizações da humanidade. Refiro isto para registar que António Manuel Baptista, sempre inspirado pelas obras literárias, que gostava de citar, leitor compulsivo de poesia, companheiro de poetas, foi ele próprio poeta. 

Depois do combate pela Ciência que é preciso renovar, julgo, infelizmente, que é urgente também travar um duro combate pela literatura. Literatura que é incontornável para a formação dos nossos jovens, combate pelas humanidades. Combate em que António Manuel Baptista seguramente também participaria.

Depois de 40 anos de devastação ideológica e pedagógica na educação, de perversão da escola, de secundarização e humilhação dos professores, de idiotização e esvaziamento programado da sua formação, de caminho acelerado para o fim da leitura, que aí está, é preciso, é urgente, lançar e travar esse combate determinante pela literatura. 

Mas “onde estão os Homens?” 

Guilherme Valente (Editor da Gradiva)

Cousas úteis, cousas praticas...

Em educação, as novas ideias têm a particularidade de serem sempre antigas... Eis uma dissertação de Eça... mas podíamos recuar alguns anos ou séculos e o resultado seria o mesmo.
- Villaça, Villaça, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de santa malicia, não se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo... Não admite. acha que é antigo... Elle, antigo, é...
- Ora sirva-se d´esse ficassé, ande abbade, disse Affonso, que eu sei que é o seu fraco, e leixe lá o latim...
O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons pedaços de ave, ia murmurando:
- Deve-se começar pelo latimsinho, deve-se começar por lá... É a base; é a basesinha!
- Não! latim mais tarde! exclamou o Brown com um gesto possante! Prrimeiro forrça! Forrça! Musculo...
E repetio, duas vezes, agitando os formidáveis punhos:
- Prrimeiro musculo, musculo!...
Affonso appoiava-o gravemente. O Brown  estava na verdade. O latim era um luxo d´erudito... Nada mais absurdo que começar a ensinar a uma creança n´uma lingua morta quem foi Fabio, reio dos Sabinos, o caso do Grachos, e outros negocios d´uma nação extincta, deixando-o ao mesmo tempo sem saber o que é a chuva que o molha, como se faz o pão que come, e todas as outras cousas do Universo em que vive...
- Mas emfim os classicos, arriscou timidamente o abbade.
- Qual classicos! O primeiro deve do homem é viver. E para isso é necessario ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste nìsto: crear a saude, a força e os seu habitos, desenvolver exclisivamente o animal, armal-o d´uma grande superioridade physica. Tal como se não tivesse alma. A alma vem depois... A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande...
O abbade coçava a cabeça, com ar arripiado.
- A instrucçãosinha é necessaria, disse elle. Você não acha, Villaça? Que v. exª, sr. Affonso da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas emfim a instrucçãosinha...
- A instrucção para uma creança não é recitar Tityre, tu patulae recubans... É saber factos, noções, cousas úteis, cousas praticas...
Eça de Queiroz, Os Maias: Cenas da vida romantica (1888). Porto: Livraria Internacional de Ernesto Chardron/ Lugan & Genelioux, Successores, Volume I, pp. 82-83.

Petição por mais transparência e rigor na FCT e por um concurso extraordinário de bolsas

Transcrevo uma petição da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC), dirigida à direcção da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).

Carta Aberta 

Por mais transparência e rigor na FCT 

Por um concurso extraordinário de bolsas 


Exma. Professora Doutora Maria Arménia Carrondo 

Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia 

A ABIC – Associação dos Bolseiros de Investigação Científica, dando voz aos muitos bolseiros que têm repetidamente contestado as práticas, os regulamentos e os resultados nos concursos de Bolsas Individuais de Doutoramento e Pós-doutoramento dos últimos anos, vem por este meio alertar a nova presidência da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) para as graves situações associadas aos recentes concursos, marcados por injustiças que determinaram o que consideramos um despedimento colectivo de centenas de trabalhadores qualificados. Chamamos ainda a atenção para as medidas que, nos concursos que ainda decorrem (audiências prévias do concurso de 2014 e avaliação das candidaturas do concurso de 2015), podem minimizar os problemas com que atualmente se confrontam milhares de bolseiros e candidatos. 

Antes de mais, não podemos deixar de lamentar que a nova presidente, perante várias denúncias públicas sobre os problemas que as novas regras do concurso de 2015 introduzem, não tenha encontrado tempo sequer para responder, quanto mais para aceitar o pedido de reunião urgente que a ABIC lhe enviou com o objetivo de resolver algumas questões antes do fim do período de candidaturas. 

Infelizmente, a FCT reincide em más práticas administrativas e científicas, não respeitando as recomendações internacionais como a Carta Europeia do Investigador e o Código de Conduta de Recrutamento de Investigadores, da Comissão Europeia, ou a Recomendação sobre o Estatuto dos Investigadores Científicos, da UNESCO. Em particular, o concurso de bolsas individuais de 2015 é aberto mais uma vez sem referir o número de vagas e sem o anúncio de abertura prévio com a antecedência necessária à sua adequada preparação. Este ano a situação é ainda mais grave porque o novo Regulamento de Bolsas da FCT, que mais uma vez foi alterado sem o importante período de discussão pública como a ABIC tem reclamado, introduz novas regras de elegibilidade que o bom-senso exigia que não fossem implementadas em cima da abertura de novo concurso. 

A introdução de regras mais apertadas para a aceitação dos graus obtidos no estrangeiro e principalmente a exigência de prova de conclusão do grau necessário à nova bolsa à data da candidatura são alterações que, sendo aprovadas e implementadas em cima da abertura do concurso de 2015, excluem só por si centenas de potenciais candidatos que só pela atabalhoada antecipação do concurso se veem privados de prosseguir a sua investigação. 
Note-se que a medida de exigir prova de conclusão do grau necessário à nova bolsa à data da candidatura é extremamente prejudicial aos bolseiros pois oficializa um provável período de desemprego ou trabalho científico não remunerado durante vários meses ao impedir o normal planeamento de sucessão de bolsas que permitia manter os rendimentos associados ao trabalho científico durante todo o ano. 

Estes procedimentos não podem deixar de ser vistos na continuação do que aconteceu nos anos anteriores, em práticas contestadas pela ABIC, com o afastamento de centenas de candidatos em função de questões menores, muitas delas sem responsabilidade do candidato. A FCT pretende reduzir artificialmente o número de candidatos, dissimulando assim a redução do número de bolsas atribuídas. Estas práticas revelam desonestidade e têm vindo a enfraquecer a confiança da comunidade científica na FCT. Igualmente inadmissíveis são os atrasos na divulgação dos resultados e nos procedimentos que finalmente levam ao início do pagamento das bolsas que repetidamente colocam centenas de bolseiros a trabalhar durante meses sem quaisquer rendimentos. 

Os últimos anos têm sido marcados por brutais cortes por parte da FCT, seja no número de bolsas atribuídas nos concursos de bolsas individuais, mas também no âmbito de projetos, ou consequência do próprio mal-afamado processo de avaliação das unidades de investigação. Ao excluir os investigadores que já tenham beneficiado, para o mesmo fim, de idêntico tipo de bolsa diretamente financiada pela FCT, ainda que referindo um caráter excecional para este ano, quando ao mesmo tempo não existem soluções e pelo contrário há cortes, este concurso denuncia a intenção de desperdiçar recursos humanos formados com um significativo investimento público, condenando um alargado conjunto de investigadores, particularmente doutorados, a abandonar a carreira científica ou o país. Sobre este ponto, é necessário que a FCT não adie mais a atualização das estatísticas relativas à evolução do número de bolsas em execução, que introduza os dados referentes ao final de 2014 e que os divulgue amplamente. 

Finalmente, a ABIC assiste com preocupação à crescente desconfiança por parte da comunidade científica face à transparência e rigor dos processos de avaliação dos concursos de bolsas individuais. Além dos problemas burocráticos introduzidos para dificultar a entrada no Sistema Científico e Técnico Nacional (SCTN) e dos problemas da política científica centrada em cortes de financiamento na base do SCTN, é particularmente grave o significativo conjunto de denúncias no que respeita à aplicação dos critérios e subcritérios de avaliação, bem como no que se refere à sua injustificada variabilidade de ano para ano e de painel de avaliação para painel de avaliação. 

Neste sentido, com a ambição de um novo rumo que defenda o SCTN e renove a credibilidade institucional da FCT, a ABIC reclama: 

1. A realização de um concurso extraordinário de bolsas individuais de doutoramento e pós-doutoramento, em 2015; 
2. A adoção das boas práticas administrativas e processuais nos concursos da FCT, com a divulgação bem antecipada do calendário, das regras e do número de vagas de cada concurso, com uma mais célere apreciação das candidaturas e recursos e eliminando os atrasos no início do pagamento das bolsas; 
3. O fim da generalizada exclusão administrativa de candidatos por fatores que não tenham um caráter científico ou que não sejam diretamente imputáveis aos candidatos; 
4. A revogação da exigência de prova de conclusão do grau necessário à nova bolsa à data da candidatura, voltando a permitir um adequado planeamento e sucessão do trabalho, sem interrupção dos rendimentos; 
5. A alargada discussão na comunidade científica com vista à estabilização e uniformização dos critérios e subcritérios de avaliação em cada área. 

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...