sexta-feira, 12 de junho de 2015

CIÊNCIA E RISCO

Meu artigo no n.º 5 da revista XXI - Ter opinião, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que acaba de ser publicado:

In memoriam José Mariano Gago

A ciência tem, hoje, tantas e tão úteis aplicações nas nossas vidas que a associação mais imediata que o cidadão comum faz hoje à ciência não pode deixar de ser a tecnologia. Essa associação, embora não diga o essencial sobre a ciência – que é acima de tudo a descoberta do mundo pelo homem – não deixa de ser adequada. A tecnologia precedeu a ciência – isto é, o fazer antecipou o saber – mas, na modernidade, toda a tecnologia passou a derivar da ciência  –  o saber passou a ser a única fonte do fazer.

As aplicações da ciência não se fazem sem riscos. Aliás, nada na vida humana, se faz sem risco. Não existe risco zero: é inevitável que vivamos permanentemente sob ameaças. Há que distinguir, na análise dos riscos, entre aquilo que são azares, eventos naturais desfavoráveis (aquilo que, nas antigas apólices de seguro, se chamavam “actos de Deus”), e os erros, que resultam de falhas humanas (“errare humanum est”), que podem ir desde insuficiente cuidado no planeamento até uma acção dolosa, passando por um acidente involuntário. Se os azares não podem ser evitados, os erros podem e devem, tanto quanto possível, ser prevenidos. É decerto virtuosa a aprendizagem que podemos fazer a partir deles. A ocorrência de um certo erro deve despoletar medidas para evitar situações do mesmo tipo. Podemos continuar a errar, mas os novos erros serão menores e sobretudo diferentes. A ciência, através do seu moderno braço armado que é a tecnologia, protege-nos dos riscos inerentes à Natureza e minimiza os riscos originados por acções humanas. Se é certo que os avanços da ciência, ao possibilitar novas intervenções do homem no mundo, geram riscos, não é menos verdade que a ciência, a aplicação correcta do método científico, ainda é o melhor instrumento de que dispomos para errar cada vez menos.

Como medir o risco? A ciência quantifica normalmente o risco usando a noção de probabilidade. Por exemplo, voar é seguro, mas não é 100 por cento seguro. A probabilidade de o leitor sobreviver no seu próximo voo de avião é de 99,9999815 por cento. Contudo, a noção de probabilidade não é de fácil apreensão pelo comum das pessoas. Muitos passageiros, mesmo sabendo do baixo risco de fatalidade (0,0000185 por cento), têm medo quando entram num avião. O nosso cérebro tem dificuldade em avaliar riscos.

Ilustremos as questões ds risco, deixando de lado o clássico domínio dos transportes, olhando para outros domínios da nossa vida: Energia, Indústria, Ambiente, Saúde e Alimentação.

-  Em 2012 um grupo de personalidades propôs que se considerasse a opção do nuclear em Portugal. A reacção, como seria de esperar após Chernobyl e Fukushima, foi forte. Todas as fontes de energia têm vantagens e desvantagens e nenhuma central energética está isenta de riscos. Como apresentar de forma imparcial as vantagens e desvantagens de uma central nuclear? Pode-se efectuar uma análise dos riscos envolvidos e apresentar as respectivas probabilidades. Acontece, porém, que os aspectos científico-técnicos não podem ser os únicos a ser levados em conta numa decisão. De facto, eles dificilmente podem ser desligados de outros: para além dos aspectos geográficos, ambientais, físicos e tecnológicos, há questões psicológicas, sociais, económicas e políticas, onde  

- Os robôs já não são hoje ficção científica. Muitas instalações da indústria portuguesa estão hoje fortemente robotizadas, existindo fortes normas de seguranças quanto à construção, instalação e funcionamento de braços robotizados. E há robôs domésticos: dispomos por exemplo de aspiradores robotizados. Até onde chegará o progresso tecnológico nessa área? Poderão algum dia os robôs substituir completamente os seres humanos? E poderão eles violar uma das famosas leis de Asimov segunda a qual os robôs “não poderão fazer mal aos seres humanos”?

- O aquecimento global continua hoje a ser um hot topic, apesar de existir uma posição consensual na comunidade científica sobre a sua realidade e sobre a sua origem humana. Portugal assinou o Tratado de Quioto e está, como outros países, a tentar limitar as emissões de dióxido de carbono. Que deve o público saber sobre o tema? O que pode ele fazer a partir desse saber? Muitos cidadãos ficam desde logo confusos com o facto de não existir unanimidade sobre o assunto entre os cientistas. De facto, não há, nem ela é precisa, basta haver uma expressiva maioria. E os cidadãos ficam também confusos com as grandes margens de erro das previsões. Mas estas, que se baseiam em modelos computacional, não são nem nunca podem ser absolutamente certas. A ciência dá probabilidades e não certezas. Teremos que decidir com base em eventuais cenários.

- Em 2009, confrontado com uma epidemia de gripe, Portugal tal como outros países comprou stocks elevados de tamiflu que não chegou a usar. Hoje, dados os avanços do conhecimento científico, tudo indica que essa droga não faz melhor a uma pessoa  engripada do que o vulgar paracetamol. Num mundo onde paira um risco permanente de epidemias, como informar o público correctamente sobre os perigos dessa e de outras doenças? E como evitar que os governos sejam eventualmente enganados pela indústria delapidando o erário público?

- Em 2007 um grupo ecológico radical invadiu e destruiu uma plantação de milho transgénico no Alentejo. A discussão centrou-se e ainda se centra, em Portugal como noutros países europeus, nos perigos dos organismos geneticamente modificados (OGM). Como explicar o que é uma planta transgénica se os genes são invisíveis e a sua acção não perceptível de imediato? E como passar a ideia de que, tanto quanto sabemos, o milho transgénico não é mais nem menos perigoso do que o outro milho? O risco que o público associa aos transgénicos tem muito a ver com o receio do desconhecido, um receio que sempre acompanhará a espécie humana.

Como vimos, o risco, correcta ou incorrectamente percepcionado, está por todo o lado nas nossas vidas, sendo várias as interrogações que se podem colocar em face dele. A ciência traz-nos constantemente novos riscos assim como maneiras de os minimizar. Os exemplos anteriores sugerem que a ciência, sendo assaz relevante, não é nem pode ser tudo numa tomada de decisão. E a ciência, por mais relevante que seja, de nada vale se a sociedade não compreender o valor dela e não puder, alicerçada por essa compreensão, defender-se melhor dos permanentes perigos em que está mergulhada.

Qual é então o valor da ciência? E quais são os perigos da ciência? De facto a ciência como processo intelectual de descoberta do mundo é inofensiva. É melhor saber do que não saber. Mas a actividade que o homem exerce ou pode exercer no mundo uma vez de posse do conhecimento científico, é sempre arriscada. O percurso histórico da ciência ajuda-nos a esclarecer esta questão.

Segundo o sociólogo inglês Anthony Giddens, a palavra “risco” (risk, em inglês) vem do latim medieval risicus e pode ter-se generalizado a partir das navegações dos navegadores portugueses e espanhóis nos séculos XV e XVI. Nos mapas iam-se  traçando novas terras e a história trágico-marítima ia apurando as melhores rotas. O processo de globalização protagonizado pelos descobridores baseou-se numa atitude de curiosidade do homem, sem a qual a Revolução Científica dos séculos XVI e XVII teria sido impossível. Chama-se Revolução Científica à época em que a humanidade de apercebeu de que era possível, através de observação atenta e experimentação cuidadosa, conhecer o mundo de um modo sistemático. Inaugurou-se o chamado método científico, que assenta na formulação de hipóteses a respeito do mundo e na sua confirmação ou informação usando a experimentação. Pontificou nesse processo o físico italiano Galileu Galilei, que foi pioneiro a observar os céus com um telescópio e a realizar experiências sobre a queda dos graves. Na geração seguinte, o inglês Isaac Newton levou mais longe o projecto galilaico. Depois de ter unido a física do céu com a física da terra com base nas leis gerais do movimento e na força de gravitação universal, interiorizou-se a noção do Universo como um gigantesco mecanismo (a “máquina do mundo”). O determinismo vingou: Conhecendo as condições iniciais e as forças seria possível, pelo menos em princípio, conhecer todo o futuro.

O filósofo inglês Francis Bacon, contemporâneo de Galileu, ao escrever “saber é poder” disse em poucas palavras tudo sobre o potencial transformativo da ciência. Na época de Bacon, o dramaturgo inglês Christopher Marlowe introduziu na literatura uma baseada num alquimista real, o Doutor Fausto, que ganhou uma aura mítica. Fausto passou a simbolizar os perigos ligados ao poder da ciência. No século das Luzes, quando triunfou a ciência newtoniana, surgiu. com a  máquina a vapor, a  Revolução Industrial, que iniciada em Inglaterra foi ganhando terreno ao longo do século XIX e transformando de forma incrível a economia do mundo. Era inevitável que houvesse uma reacção ao império da ciência e da técnica: foi o movimento romântico. O escritor alemão Johann Wolfgang Goethe foi o autor do drama Faust (1808), que veio retomar o personagem de Marlowe. O cientista, na sua ânsia de conhecimento, é capaz de vender a alma ao demónio. Na mesma época, uma jovem inglesa, Mary Shelley, escreveu um notável romance de ficção científica Frankenstein (1818), que mais evidenciou os perigos da ciência. Agora já não era o cientista tentado pelo diabo, mas antes o cientista que criava o diabo, uma criatura que fugia ao criador.

Mais saber tem sido sempre mais poder. Não há símbolo mais extremo do poder da ciência do que a bomba atómica que caiu em Hiroshima em 1945. O extraordinário poder provinha agora do interior do coração do átomo, no mais íntimo da matéria. E esse poder que, finda a guerra foi logo aproveitado para a paz, ficou sempre com o pecado original. Tramas em novelas, nos comics, no cinema e na televisão passaram a explorar os perigos do núcleo atómico. Mais modernamente, após a descoberta da estrutura do ADN em 1953, os perigos da ciência, vista de dentro (do lado da comunidade científico) como de fora (do lado da literatura e das artes visuais e de palco) são mais associados à biologia do que à física. Mas a ciência mais avançada é interdisciplinar. O Instituto para o Futuro da Humanidade identifica a biologia sintética, a nanotecnologia e a inteligência artificial como os maiores riscos científicos. E as artes amplificam para a cultura popular o medo de seres provenientes de manipulações genéticas, engenhos moleculares e robôs providos de consciência e vontade. Concretizar-se-ão esses perigos? Estou em crer que a ciência continuará a ascensão que tem conhecido após a Revolução Científica, que é afinal a etapa mais recente da ascensão do homem, e que esse percurso não será nunca isento de riscos. Teremos sempre a necessidade de vencer os medos, diminuindo os riscos. Para isso precisamos de mais ciência e não de menos. Aprenderemos com os erros, como sempre fizemos até aqui. Como escreveu Samuel Beckett: “Voltar a tentar. Errar de novo. Errar melhor.”

É curioso que a ciência avance, ela própria, aprendendo com os erros, neste caso os erros intelectuais que são as hipóteses falhadas. Fazemos conjecturas, mas temos de estar dispostos a abandoná-las, logo que a observação ou a experiência as invalide. O filósofo austríaco Karl Popper analisou esse processo de falsificação das ideias que preside ao método científico mas o melhor a esse respeito talvez seja dar a palavra ao grande divulgador de ciência que foi o astrofísico norte-americano Carl Sagan:

“Os seres humanos podem almejar a certeza absoluta; podem aspirar a ela; podem até fingir, como partidários de certas religiões fazem, tê-la alcançado. Mas a história da ciência – de longe a mais bem sucedida reivindicação de conhecimento acessível aos seres humanos - ensina que o máximo que podemos esperar é a melhoria sucessiva da nossa compreensão, aprendendo com os nossos erros, numa abordagem assimptótica ao Universo, com a condição de que a certeza absoluta nos fugirá sempre."

quinta-feira, 11 de junho de 2015

LUZ E MATÉRIA


Na 3ª feira, 16 de Junho de 2015, pelas 18h, realiza-se no RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbralocalizado no piso térreo do Departamento de Física da FCTUC, a palestra intitulada “Luz e Matéria” com Francisco Gil, Professor do Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Esta palestra insere-se no ciclo “À Luz da Ciência”, dinamizado pelo Bioquímico António Piedade, que decorre de Fevereiro a Junho de 2015.


SINOPSE DA PALESTRA:
"Começando pela descrição da natureza electromagnética da luz, passando pela interacção com a matéria e o porquê da cor dos objectos, também é abordado o tipo de informação que a luz fornece."

"A pseudociência assenta sempre na autoridade de alguém"

Minha entrevista à jornalista Adelaide Oliveira, publicada na MGF Notícias, revista da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar.

MGF Notícias – O seu livro “Pseudociência” ajuda a distinguir ciência de pseudociência. De que forma?

David Marçal – A diferença fundamental entre ciência e pseudociência é que a ciência assenta em provas reprodutíveis, que podem ser confirmadas por outros grupos de investigação de modo independente. Os resultados são divulgados e as conclusões apresentadas de modo transparente, de modo a tornar possível a sua reprodutibilidade. Por outro lado, a ciência não assenta na auto- ridade de ninguém, nem numa linguagem específica que soe a científica. Depende das provas. O físico Richard Feynman costumava comparar a pseudociência ao “culto da carga”, um conjunto de rituais que os habitantes das ilhas do Pacífico começaram a praticar no final da II Guerra Mundial quando os aviões dos norte-americanos deixaram de aterrar nas bases militares desativadas. Depois da guerra, os nativos construíram pistas improvisadas no meio da selva, com estradas de terra batida e cabanas para o controlador aéreo, um indivíduo com metades de coco enfiadas na cabeça. Ou seja, copiavam todos os procedimentos dos militares norte-americanos, mas havia uma coisa que falhava: os aviões não aterravam.

A pseudociência faz a mesma coisa. Procura copiar toda a estética da ciência, mas há alguma coisa que falha. Neste caso, a razão pela qual os aviões não aterram é porque faltam as provas.

A pseudociência usa termos científicos para lhe dar credibilidade, as autoridades e a criação de controversas artificiais. Pode dar-nos um exemplo de como os médicos são utilizados?

Os médicos são figuras de autoridade. As pessoas confiam no que eles lhes dizem. Repare que até têm o poder de mandarem as pessoas despirem-se! Na pseudociência, que procura a validação através de figuras de autoridade, os médicos são um dos naipes do baralho. Por vezes, são também ex-cientistas da NASA, ou cientistas no ativo, como é o caso do suposto inventor das pulseiras power balance.

Em relação à Medicina, o caso do Dr. Andrew Wakefield é um dos mais tristemente famosos. No final dos anos 90 publicou um artigo, também tristemente famoso, em que afirmava existir uma associação entre a vacina tríplice e o autismo. Esse artigo consistia num conjunto de 12 casos clínicos de crianças atendidas num hospital inglês. Segundo as histórias clínicas, relatadas no artigo, os primeiros sintomas de autismo tinham surgido duas semanas após a toma da primeira dose da vacina tríplice.

O artigo era uma fraude a todos os níveis. O médico recebeu uma “avença” de 400 mil libras de um escritório de advogados para ajudar a construir o processo contra as empresas que fabricavam as vacinas e, no âmbito de uma investigação jornalística, veio-se a descobrir que os dados tinham sido falsificados. Os registos hospitalares não coincidiam com os dados publicados no artigo. No entanto, este artigo fraudulento acabou por alimentar o movimento anti-vacinas moderno. Andrew Wakefield insistiu no erro e o processo, devido ao seu enorme prestígio, demorou cerca de dez anos a esclarecer-se cabalmente. Completamente desacreditado e impedido de exercer Medicina no Reino Unido, acabou por ir para os Estados Unidos, onde continua a ser um dos gurus dos movimentos anti-vacinas, a publicar livros e a dar conferências.

O Tamiflu foi também um caso de pseudociência?

A indústria farmacêutica também tem um cadastro considerável. Aliás, os partidários das medicinas alternativas usam frequentemente a indústria farmacêutica para afirmar que se pode colocar tudo no mesmo saco e que a falta de fundamentação científica das suas práticas pode ser comparável às falhas da medicina convencional. Contudo, o médico Ben Goldacre, autor do bestseller mundial “Ciência da Treta”, costuma dizer a este respeito que, apesar de haver falhas na aviação, isso não significa que os tapetes voadores sejam uma boa ideia.

Mas, de facto, o caso do Tamiflu é um exemplo de má conduta científica. A Roche escondeu uma série de ensaios clínicos e apenas divulgou os que lhe eram mais favoráveis. Quando se avalia a segurança e a eficácia de um determinado tra- tamento, o padrão para essa avaliação são as revisões sistemáticas da literatura e as meta-análises. Quando, após cinco anos de insistência, os investigadores da Cochrane Collaboration revelaram os dados, ficámos a saber que o Tamiflu não reduz as complicações da gripe. Apenas diminui os sintomas em cerca de seis horas e à custa de bastantes efeitos secundários.

Se estivessem na posse destes dados, os governos dos vários países que compraram grandes quantidades de Tamiflu provavelmente não o teriam feito. Mas isto faz parte da cultura da indústria farmacêutica e mesmo das autoridades reguladoras. Existe uma certa legitimidade em esconder a informação por razões de interesse comercial, o que é muito perverso, porque o interesse que deve prevalecer é o dos doentes, assim como o direito dos médicos a terem acesso à melhor informação para poderem tomar decisões em relação aos tratamentos.

No seu livro fala da regulamentação das terapias alternativas, acupuntura, medicina quântica e homeopatia, entre outras matérias. Porque é que diz que a homeopatia não é uma ciência?

A homeopatia é uma medicina alternativa que não tem qualquer fundamento científico. Essencial- mente, é uma prática médica inventada há 230 anos pelo médico Samuel Hahnemann, que se baseia em dois princípios: o semelhante cura o semelhante (ou seja, uma substância capaz de causar um sin- toma numa pessoa saudável pode tratar esse sintoma numa pessoa doente) e quanto mais diluída é uma substância, mais ela cura. Ambos são princípios delirantes. Fazem lembrar vagamente o princípio das vacinas mas, na realidade, não têm nenhuma relação. E qualquer coisa pode ser um remédio homeopático, desde leite de cadela, a abelhas esmagadas ou arsénico.

Os homeopatas diluem extraordinariamente os remédios homeopáticos até não sobrar nenhuma molécula da substância original e argumentam ainda que a água tem memória, depois de umas panca- dinhas entre cada diluição numa superfície dura e flexível, o que não tem qualquer fundamento.

De onde é que veio essa ideia das pancadinhas?

O Samuel Hahnemann convenceu-se de que os remédios homeopáticos eram mais eficazes nos doentes que moravam mais longe. Pôs-se a pensar sobre o motivo e chegou à conclusão de que a diferença era a viagem a cavalo que fazia para entregar os remédios e os frasquinhos que iam a abanar em cima do cavalo. Então, concluiu que tinha que dar as tais pancadinhas para simular a viagem do cavalo.

Mas é preciso dizer que a homeopatia, há 230 anos, não era uma ideia assim tão má! Por essa mesma época, a medicina convencional era uma péssima ideia. Consistia em sangrias e coisas do género...

Devo recordar que a homeopatia ganhou um grande impulso na sequência de um surto de cólera numa cidade alemã. Alguns doentes foram levados para o hospital homeopático, outros para o hospital normal, e a taxa de sobrevivência no hospital homeopático foi muito superior. Mas, no hospi- tal convencional, os doentes eram sangrados e no outro não só não os sangravam como ainda lhes davam água com açúcar para beberem. Hidratavam-nos – de alguma forma – e por isso sobreviveram mais.

A homeopatia é isso? Água com açúcar?
Os remédios homeopáticos são placebos. Mas hoje em dia temos tratamentos fisiológicos para a maioria das condições clínicas que são preferíveis aos placebos. Não é ético, na minha opinião, oferecer homeopatia às pessoas, dizendo-lhes que tem um efeito que não possui. De facto, na homeopatia, não há nuances. Não funciona melhor do que o placebo e todos os remédios são iguais, porque todos são água com açúcar.

E o que nos diz da acupuntura?

Se queremos comparar a acupuntura à medicina convencional – e esse é sempre o ponto de partida – teremos de ver como se comporta, em termos da demonstração da sua eficácia e segurança em ensaios clínicos.

Na realidade, não se comporta muito bem. Por um lado, é muito difícil fazer ensaios clínicos com acupuntura, na medida em que é difícil ter um grupo de controlo. Não podemos comparar um comprimido de açúcar com um tratamento de acupuntura porque os placebos não são todos iguais. Tratamentos mais dramáticos produzem um efeito placebo superior. Aliás, dois com- primidos de açúcar têm um efeito placebo superior a um só; um comprimido colorido tem mais efeito do que um comprimido branco e quanto mais caros, melhor.

O efeito placebo consiste numa sensação de melhoras, subjetiva e transitória, em relação a uma determinada condição clínica. É nessa subjetividade que joga o placebo. A acupuntura é um tratamento dramático porque espeta agulhas nas pessoas e temos de ter algum cuidado quando fazemos ensaios clínicos, na medida em que a comparação terá de ser feita com algo igualmente dramático.

O método que considero mais credível é uma acupuntura placebo feita com agulhas retráteis, que acabam por não espetar mas dão essa sensação.

Nesses ensaios clínicos, para a maioria das condições clínicas, a acupuntura verdadeira não conse- gue demonstrar a sua eficácia de uma forma inequívoca. Há outros casos em que parece que há leves indicações, mas também não são muito convincentes. Sem surpresa, a acupuntura parece resultar melhor em condições de avaliação subjetiva como a dor, por exemplo. A questão não é se a acupuntura pode ajudar ou não nalgumas situações clínicas, mas se tem provas do seu funcionamento que sejam equivalentes às da medicina tradicional. E isso não acontece, quer em relação à acupuntura, quer em relação a qualquer outra terapia alternativa.

E quanto à medicina quântica, considera que é puro delírio?

A medicina quântica parte de ideias pré-científicas delirantes, muito antigas na verdade, que agora são transformadas com uma roupagem de modernidade e uma aura que não se percebe mas, por isso mes- mo, deve ser verdadeira! A física quântica, que descreve o comportamento de partículas mais pequenas do que o átomo, é muito contra-intuitiva. O modo como as partículas sub-atómicas se com- portam não tem nada a ver com o modo como nós nos comportamos. Mas isso aplica-se ao mundo muito pequeno, que não tem nada a ver com o mundo em que nós vivemos.

Os gurus quânticos fazem essa extrapolação extraordinária e, basicamente, só dizem disparates.
A verdade é que a comunidade de loucos quânticos não tem nada a ver com a física quântica verdadeira, mas são muito divertidos. E veja como a pseudociência não se poupa a esforços para copiar a ciência. Chegam a copiar as infraestruturas formais da academia. Em Honolulu (Havai) criaram uma universidade onde oferecem doutoramentos e mestrados em medicina integrativa e também um MBA em negócios quânticos, ou seja, ensinam os alunos a ganhar dinheiro com as aldrabices.

A universidade funciona por correspondência, não é material, o que tendo em conta a filosofia da medicina quântica, até é coerente. Mas enviam certificados materiais, de doutoramento, para casa do aluno, que poderá colá-los na parede do seu consultório, como argumento de autoridade.

Na realidade, isso é o que também faz a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), quando se dispõe a enviar certificados de homeopatas e de acupuntores para que esses profissionais os possam colar na parede como praticantes legítimos dessas atividades...

Na sua opinião, essa regulamentação é um desastre. Porquê?

É mais um argumento de autoridade que vai induzir nas pessoas a ideia de que aquelas terapias têm um fundamento científico quando isso, pura e simplesmente, não é verdade.

Sou crítico porque a legislação publicada não protege, de forma nenhuma, o doente. Não há nada que permita responsabilizar, adicionalmente, os terapeutas alternativos pelas consequências dos seus tratamentos, más práticas ou práticas irresponsáveis.

Na discussão do Orçamento de Estado para 2015, o Bloco de Esquerda apresentou uma proposta de alteração ao Código do IVA em que propunha a sua isenção para estas terapias alternativas. Felizmente, foi chumbada, mas isto será o primeiro passo para reivindicar a comparticipação de tratamentos alternativos através do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Aliás, essa porta já foi aberta na Região Autónoma da Madeira, com a aprovação recente de legislação nesse sentido e a ideia será que as terapias alternativas sejam introduzidas e comparticipadas pelo SNS.

Pessoalmente, considero que não devemos utilizar os recursos financeiros do sistema de saúde para financiar medicinas sem fundamento científico.

Adelaide Oliveira

"A ciência tem de ser aberta. Fechada, oculta, não é ciência"

Artigo do Diário de notícias sobre o debate promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, moderado por Maria Helena Nazaré, com Carlos Fiolhais e David Marçal, ontem na Feira do Livro.

Fotografia: Diário de Notícias

Debate. Antiga reitora da Universidade de Aveiro e dois cientistas, de gerações diferentes, discutiram as melhores formas de comunicar e divulgar a ciência ao cidadão comum  


PEDRO SOUSA TAVARES  

O tema era: "Ciência, onde estamos, para onde vamos?" mas foi sobretudo para a comunicação da ciência às massas que Maria Helena Nazaré, antiga reitora da Universidade de Aveiro - e a primeira mulher a exercer o cargo em Portugal-, conduziu o debate organizado ao final da tarde de ontem pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), na Praça Azul da Feira do Livro, em Lisboa.  

Os intervenientes prometiam uma visão ampla deste desafio de comunicar e partilhar a ciência com a comunidade. De um lado estava Carlos Fiolhais, físico, um dos maiores divulgadores científicos do país e autor de A Ciência em Portugal, editado pela FFMS. Do outro, o bioquímico, jornalista e autor David Marcai, que tem utilizado o humor como uma arma contra o que considera ser os exemplos de falsos cientistas e de falsa ciência que chegam ao público. No livro Pseudociência, também da coleção FFMS, analisou duas práticas: acupuntura e homeopatia, é um exemplo dessa abordagem.  

Maria Helena Nazaré lançou a discussão com o tema da open science, um movimento que surgiu nos Estados Unidos, muito impulsionado por familiares de pessoas que sofrem de doenças para as quais ainda não existe cura e que defende a divulgação total do conhecimento científico - não só aos especialistas como a toda a comunidade - à medida que este vai sendo obtido.  

David Marçal defendeu que "a transparência é uma condição da ciência" e que o livre acesso dos cidadãos à informação científica é "condição essencial" para essa transparência. Como exemplo, recordou a "corrida" realizada nos anos 1990 entre dois consórcios, um público e o outro privado, pela sequenciação do genoma humano. No caso do privado, recordou, houve algumas tentativas de "limitar o acesso" à informação. Mas o consórcio público "fez questão de colocar os dados no domínio público" à medida que os ia obtendo. E isso fez toda a diferença.  

Porque é avesso às "pseudociências", David Marçal não poderia deixar de falar no reverso da medalha-o excesso de informação pretensamente científica. E aí não escaparam os jornalistas, editores e diretores - não necessariamente os de ciência, que considerou serem bons, mas sobretudo os não especializados, que considerou rendidos à "ditadura do engraçadíssimo". Entre vários exemplos, lembrou uma notícia com o título: "Os homens com testículos pequenos são pais mais protetores". Carlos Fiolhais - que tem dedicado boa parte da sua vida e obra a tomar a ciência acessível e apelativa a todos - também não teve dúvidas: "A ciência tem de ser aberta. Até porque o contrário é a ciência fechada, a ciência oculta, e isso não é ciência."  

O físico defendeu que é "impossível viver sem ciência" - pelo menos com a qualidade de vida que temos atualmente - e que, mesmo que nos esforcemos por ignorá-la, esta está cada vez mais presente no nosso quotidiano: "Quando temos um telemóvel do bolso, alguém repara que temos ali dezenas de anos de ciência compactada?", questionou. Fiolhais admitiu também que esta abertura total da ciência tem um lado mau: a divulgação de "erros" e "fraudes". No entanto, defendeu, a comunidade científica é especializada em "detetar o erro". E quem mente "acaba a carreira".

quarta-feira, 10 de junho de 2015

MUNDO JURÁSSICO


Com o Dr. Élio Vicente, director do Parque
No passado Sábado, dia 6, teve lugar, no Zoomarine, a antestreia nacional do novo filme realizado por Colin Trevorrow, MUNDO JURÁSSICO, protagonizado, entre outros, por Chris Pratt e Bryce Dallas Howard.

O tema que, legitimamente, explora o enorme sucesso do, entre nós, PARQUE JURÁSSICO, não sendo uma surpresa, voltará a mostrar-nos o sonho de John Hammond, imaginado em Nublar, uma ilha montanhosa de densa floresta tropical, no Pacífico, a cerca de 200 km a oeste da Costa Rica.

Para mostrar uma nova parte da história de Michael Chrichton, que Steven Spielberg passou ao cinema, (1993), a “Universal Pictures” e a “Amblin Entertainment”, em associação com a “Legendary Pictures”, a “NOS-Audiovisuais” e o “Zoomarine” promoveram a tão esperada antestreia.

Convidado de honra do Zoomarine foi-me dado privilégio de, à semelhança do simpático idoso personagem de John Hammond, dar as boas-vindas às centenas convidados para esta outra grande produção de Spielberg, num parque, o Zoomarine, que, à semelhança do retratado nesta ficção, exibe a maior e mais diversificada exposição nacional de réplicas robotizadas dos “grandes bichos”. Ficcionada no que diz respeito ao discurso científico, a história é simples.

Começa num dia radioso de sol, com uma multidão de visitantes, entre os quais muitas crianças, na espectativa de poderem admirar o milagre de uma bem conseguida manipulação genética.

Em cenários também eles imaginados, onde convivem espécies de dinossáurios separados no tempo por dezenas de milhões de anos (uns do Jurássico e outros do Cretácico) de diferentes habitats, os indivíduos admiravelmente reconstituídos graças ao progresso dos tão falados efeitos especiais e a consultadoria adequada, assumem configurações anatómicas e posturas que a paleontologia e a paleobiologia aceitam como plausíveis.

E é esse, em minha opinião, o grande mérito do filme.
A. Galopim de Carvalho

III Colóquio DIAITA Luso-brasileiro de História e Culturas da Alimentação

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Os testemunhos imateriais e materiais da história e culturas da alimentação tornam evidente, desde a pré-história aos nossos dias, como a mesa – entendida no sentido completo de produção, confeção e consumo de bens alimentares, bem como de comportamentos e rituais que lhe estão associados – não se limita à satisfação de necessidades elementares e biológicas de sobrevivência.

Desde muito cedo o ser humano deixou impressas, na memória tangível e intangível do passado, as determinações que o gosto impôs às suas escolhas alimentares. Sob os auspícios do projecto transnacional DIAITA: Património Alimentar da Lusofonia, decorrerá, entre os próximos dias 19 a 21 de outubro de 2015 (Universidade de Coimbra), a 3ª edição dos Colóquios Diaita Luso-brasileiros.

A discussão far-se-á em torno de uma díade de problematização de práticas, de preceitos e de conceitos de alimentação e de nutrição cuja história demonstra nem sempre terem sido fáceis de compatibilizar, mas de harmonização no geral almejada, a saber: o prazer e o bem-estar, dois alicerces de uma boa diaita.

Aceitam-se propostas de trabalhos nos diversos campos de saber (História, Literatura, Artes, Arqueologia, Antropologia, Média, Nutrição), cobrindo todos os períodos históricos e que tratem das temáticas expostas no mundo de cultura lusófona, bem como estudos comparativos que visem o diálogo estabelecido com outras culturas ou a influência de umas sobre a outra e vice-versa.

Para mais informação, consultar o site oficial do congresso (http://cechfluc.wix.com/3cdlb). 

MINERAIS E CRISTAIS, MINERALOGIA E CRISTALOGRAFIA

Novo texto do Professor A. Galopim de Carvalho, que o De Rerum Natura agradece.

Gigantescos cristais de selenite (gesso) na gruta de Naica, no México
Os minerais estão no nosso quotidiano. Nas pedras das calçadas, na areia com que se faz o vidro, nas matérias-primas de todos os metais que nos asseguram a sociedade industrial, nas jóias de quem as pode usar e no sal de que nós, portugueses, abusamos.

Todos falamos de minerais com base num conhecimento vulgar, empírico, ligado à experiência do dia-a-dia. Minas, minérios e mineiros fazem parte do vocabulário popular por razões óbvias ligadas a um vasto e velho sector primário da economia. Não há sítio onde não se fale de minas, nem que seja de minas de água. Mina, nome que recebemos através do francês mine, significa escavação na terra e parece radicar na cultura céltica, vivida por um povo ao qual se deve a metalurgia do ferro.

Por mineral entende-se um corpo sólido, inorgânico, natural, de composição química variável dentro de limites bem estabelecidos, caracterizado por uma disposição geométrica dos seus átomos, segundo redes tridimensionais, próprias de cada espécie. Diz-se, então que os minerais têm estrutura cristalina.
Desde a Antiguidade e até, pelo menos, ao século XVIII, acreditou-se que os cristais de quartzo hialino, isto é, incolor e transparente, eram ocorrências de água no estado sólido, num grau de congelação tão intenso que era impossível fazê-los voltar ao estado líquido.

Cristal-de-rocha
Aristóteles (384-322 a. C.) chamava cristal ao gelo (krystallos, em grego) e foi sob este nome que esta espécie mineral passou aos domínios da alquimia, primeiro, e da mineralogia, depois. Um seu aluno, Theophrastus (372-287 a. C.), distinguia o cristal-água (o gelo) do cristal-pedra (o quartzo hialino). Os romanos mantiveram este entendimento, latinizando o nome para cristallus, como se pode ler num dos 38 volumes da “História Natural”, de Plínio, o Velho, (23-79 d. C.).

Foi o carácter transparente e incolor do cristal-pedra que acabou por dar o nome ao vidro industrial de alta qualidade, a que hoje chamamos simplesmente cristal. A expressão cristal-de-rocha, aplicada ao quartzo hialino, surgiu muito mais tarde (no séc. XIX) para distinguir o mineral do produto manufacturado. A palavra cristal acabou, depois, por se generalizar aos corpos poliédricos minerais ou orgânicos, naturais e artificiais, tendo sido, por isso, usada como étimo do nome da disciplina que os estuda – a Cristalografia – afirmada como ciência no início do século XIX com René-Just Haüy, em França.

Minerais e cristais são, pois, duas realidades indissociáveis. Por tradição, o conceito de cristal implicava o carácter poliédrico (facetado) do sólido, fosse ele uma substância mineral ou orgânica, natural ou produzida artificialmente. Tal concepção foi abandonada a partir do momento em que se tornou conhecida a estrutura íntima, à escala atómica, dos corpos no estado sólido. Assim, cristal é hoje entendido como uma porção uniforme de matéria cristalina, matéria que, como se disse atrás, é caracterizada por uma disposição geométrica dos seus átomos, segundo redes tridimensionais, próprias de cada espécie. Um tal arranjo geométrico é posto em evidência, entre outras manifestações, pelas faces do cristal. Mas nem sempre a matéria cristalina se manifesta com a configuração de um cristal, no sentido vulgar do termo, isto é, no de um corpo poliédrico, total ou parcialmente limitado por faces planas. Um grão de quartzo, no seio do granito ou solto e na areia da praia, não tem forma poliédrica, mas é matéria cristalina.

Com a mesma composição química do quartzo, a opala, uma variedade de sílica amorfa, isto é, não cristalina. Amorfo é também o vidro vulcânico, principal constituinte de rochas como a pedra-pomes ou a obsidiana.

Ainda que cristalinas, não são consideradas minerais as substâncias inorgânicas produzidas artificialmente e as orgânicas, sejam elas naturais ou artificiais. Hoje em dia, são muitos os chamados sintéticos, isto é, substâncias química e estruturalmente semelhantes a determinadas espécies minerais, produzidas (sintetizadas) em laboratório e/ou industrialmente. O quartzo o diamante, e muitas outras gemas sintéticas não são, pois, minerais. A sua produção com fins tecnológicos, gemológicos ou outros, é hoje uma rotina.

A Mineralogia é a ciência que estuda os minerais, nela se separando uma Mineralogia Pura, interessada nos aspectos científicos fundamentais, do saber pelo saber, e uma Mineralogia Aplicada, visando a utilização dos minerais como matérias-primas nas mais variadas indústrias e utilizações.

Vinda da Antiguidade, com destaque para as civilizações chinesa, babilónica, hindu e egípcia, através da tradição e dos textos eruditos dos clássicos gregos e latinos, recuperados pelos árabes, a Mineralogia percorreu a Idade Média de mãos dadas com a Alquimia, tendo aí crescido, deixando para trás muitas das concepções fantasiosas e místicas dos escolásticos. A Mineralogia afirmou-se e desenvolveu-se como Ciência, juntamente com a Química, ao longo dos séculos XVIII e XIX, fazendo-a progredir e tirando dela o essencial do seu desenvolvimento com acentuada organização sistemática.

A Mineralogia fez nascer, deu corpo e aprofundou uma nova disciplina científica, de cariz geométrico e matemático - a Cristalografia Morfológica - que usou como complemento até às primeiras décadas do século XX. Alargou-se, depois, ainda mais, com a Cristaloquímica, numa abordagem à organização espacial das redes cristalinas em função da natureza dos elementos químicos que as constituem para, a partir daí, se irmanar com a Física do Estado Sólido, com recurso às modernas tecnologias de análise. A Mineralogia acompanha hoje o caminho da Cristalografia Estrutural, nova disciplina de âmbito alargado a todos os sólidos cristalinos, sejam eles inorgânicos ou orgânicos, naturais e artificiais ou sintéticos.
A. Galopim de Carvalho

IN MEMORIAM DO PROFESSOR ANTÓNIO MANUEL BAPTISTA

Pela sua natureza, a universidade é uma instituição que deve ser frequentada pela aristocracia intelectual, que tem como vocação a universalidade e que deve adoptar como critério a exigência”.

Maria Filomena Mónica

O recente falecimento deste ilustre professor catedrático de Física, e festejado divulgador do mundo científico nos jornais e televisão, homenageado, no passado dia 8 deste mês, pelo Professor Carlos Fiolhais, neste blogue, com o post “António Manuel Baptista (1924-2015)”, transportou-me a tempos em que o grau académico de licenciado – “com o prestígio  da Universidade que lhe deu a primeira credencial de título académico nobilitante” (Adriano Moreira) - não tinha ainda sido abastardado com o chamado “Processo de Bolonha” em que o grau de bacharel do ensino politécnico se transformou em licenciatura e a licenciatura universitária se degradou, por exemplo, ao não lhe ser atribuída, sequer, equivalência aos actuais mestrados universitários como seria da mais elementar justiça.

Assim, no ano primeiro da década de 90, em artigo de opinião, intitulado “Títulos, obrigações e valores”, em transcrição  que  aqui faço, no “Diário de Coimbra” (14/05/1990), escrevi:
Que me perdoe o leitor se o título desta prosa o pode levar a ler uma coisa que nada tem de análise económica. O mal não está tanto em mim, mas na subtileza do léxico nacional em que uma mesma palavra assume significados bem diferentes. Porém, tão-pouco, se trata de uma mera questão linguística.
Proponho-me, isso sim, analisar um caso que agitou ultimamente o meio local por ter sido dado a um simples licenciado (e assistente universitário) o título de professor doutor talvez pela obrigaçãode quem o fez em atribuir valor a um determinado e festejado trabalho de investigação. Não questiono a intenção. Todavia, tenho-a por desajustada porque perfilho a opinião de Gustave Le Bon em não atribuir aos diplomas académicos  condição sine qua non  para o elogio de alguém: 
“Grande número de políticos ou universitários, carregados de diplomas, possuem uma mentalidade de bárbaros e não podem, portanto, ter por guia senão uma alma de bárbaros”.
Assumo, como opinião pessoal, que o licenciado em questão (e o seu trabalho de investigação) não saiu nada prestigiado com um tratamento indevido, mesmo que desculpabilizado por uma possível e inquestionável amizade. Ainda a mais elevada admiração por alguém e sua obra devem respeitar os títulos ou simples etiquetas tradicionais que têm sido vítimas ultimamente de verdadeiros tratos de polé, em nome de uma pretensa e falsa democratização de direitos estabelecidos oficialmente ou consagrados por simples usos e costumes.

E porque se não trata de discutir o sexo dos anjos, respaldo-me em acontecimento relatado por António Manuel Baptista (o destaque desta personalidade dispensa o adorno de qualquer título), professor visitante da Michigan State University  e cientista de  renome internacional galardoado com prestigiados prémios científicos.

O caso conta-se em poucas palavras.

Em referência pública por si feita num artigo a um mui ilustre professor catedrático de Lisboa, prescindiu ele de lhe atribuir o tratamento de professor por – como explicou  mais tarde, ao que me recordo, em 84, no Semanário “O Independente”, com o título “Professor para que te quero?” – não ter entendido essa sua omissão como heresia ou atitude menos cortês, mas como “um sinal de respeito em despir a toga a quem não precisava dela”.

Aproveitou,ainda ele, no mesmo artigo de opinião, a ocasião para criticar o mau uso que vem sendo dado ao título de professor:
“Como se sabe, em nosso tempo, onde insultamos a democratização pela mediocratização de tudo, em vez de honrarmos os universitários formados em Educação Física com título apropriado, pegamos no título de professor e colocamo-lo nas camisolas de ginástica e desporto o que bem visto é uma solução à portuguesa de usar a beca ou toga como fato de treino”.
E acrescenta, mais à frente:
“O mal não está em chamar professor a instrutores, licenciados ou doutores em Educação Física, mas atrasar a vida deste País em anos pondo lentes no lugar de professores e fazer de conta que é a mesma coisa(1).
Mas não se trata de uma pecha nacional esta exigência ou respeito pelos títulos académicos ou simples normas de cortesia. Ela extravasa o rectângulo peninsular  (em Espanha temos o “Dom”) sendo encontrada em várias épocas, latitudes e culturas. Assim, segundo O.S. Marden,  George Washington queria que o tratassem por” Sua Majestade, o presidente dos Estados Unidos” e Samora Machel, nos primeiros tempos do seu cargo presidencial  era oficialmente referenciado, em documentos oficiais, por “Camarada Presidente”. Foi sol de pouca dura! Passado pouco tempo, fez publicar legislação que obrigava à forma protocolar: “Senhor Presidente da República Popular de Moçambique”. E em mudança de linha: “Excelência”.

Portanto, querer que da noite para o dia os licenciados ou os doutores dispam na praça pública os títulos que tanto trabalho lhe deram em obter é tarefa que se não augura para tempos mais próximos. Isso mesmo reconheceu, em finais do século XIX,  Fialho de Almeida: “Não se exija ao povo metamorfoses e gostos que a tradição lhes inculcou secularmente” (2).

É comuníssimo confundirem-se graus académicos com tratamentos. Licenciado e doutor são graus académicos e  dr. e professor são tratamentos convencionais. O primeiro (dr.) atribuível ao licenciado e o segundo (professor) aquele que fez o seu doutoramenro e exerce funções docentes universitárias, com maior tradição em Lisboa e menor em Coimbra, com excepção, quiçá,  de Medicina (3).

Tratar por você um Chefe de Estado e por Vossa Excelência um qualquer zé-dos-anzóis, são situações insólitas e nada toleráveis(4). Em etiqueta, como em outras coisas, tudo se quer com conta, peso e medida.

O Professor António Manuel Baptista, na sua qualidade de cronista do semanário “O Independente”, fez muito bem em esclarecer os leitores sobre essa conta, esse peso e essa medida na tradição portuguesa e na aceitação do nosso povo. Muito louvavelmente porque, como sentenciavam os antigos romanos, cuique suum tribuere (dar a cada um o que é seu).

Rui Baptista
Ex-assistente da Universidade do Porto.
________________________
Notas actuais ao texto supracitado:
(1)     Instrutores  de Educação Física de posse de cursos médios (criados em Lisboa e no Porto, no início da década de 60), havendo somente o Curso Superior de Educação Física em Lisboa (INEF, criado em 1940, actual Faculdade de Motricidade Humana).
(2)     Não me refiro a tempos actuais de licenciados do tipo Miguel Relvas e quejandos, ou de licenciados de “vão de escada” de outras universidades privadas ou escolas do ensino politécnico.
(3)     O tratamento por dr. era dado, igualmente, a diplomados por escolas superiores não universitárias, v.g., Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa e Porto (1836) e Curso Superior de Letras (1859), criado por D. Pedro V, todos eles cursos superiores génese das actuais Faculdades de Letras de Lisboa e Porto, aquando do aparecimento das respectivas Universidades de Lisboa e Porto (1911).
(4)     Mal adivinhava  eu que este meu reparo assumiria forma premonitória por se ter vindo a verificar com Cristiano Ronaldo, anos mais tarde, quando se dirigiu ao Presidente da República Cavaco Silva tratando-o, em cerimónia protocolar,  por “você”.

QUATRO ANOS DE LATA

Meu artigo no Público de hoje:


Ao contrário do que aconteceu com José Mariano Gago (condecorado hoje a título póstumo), com Nuno Crato a ciência não foi uma prioridade política. Desde que, há 25 anos, Gago escreveu o Manifesto para a Ciência em Portugal, passaram-se duas décadas de ouro. Mas os últimos quatro anos foram de lata: foram anos de manifesto abandono da ciência. Seguindo instruções da troika e de outros mandantes, Crato cortou a eito na ciência esquecendo que ela é a chave do futuro. A desconstrução do sistema científico-tecnológico que Gago tinha erguido foi brutal: a ordem foi para abater metade das unidades de investigação e para cortar mais de 30 por cento das bolsas de doutoramento e pós-doutoramento. Esses cortes somaram-se a outros no ensino superior, que puseram universidades e politécnicos à beira da ruptura. 

 Foi, porém, bastante pior do que cortar. Os recursos disponíveis, quaisquer que eles fossem, deviam ter sido distribuídos de modo transparente e racional. Mas, com uma tenebrosa gestão na Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), foram atribuídos de modo opaco e irracional, completamente ao arrepio do espírito científico. Em vez de uma política aberta aos contributos da comunidade científica, assistimos a uma política de quero, posso e mando. A pseudo-avaliação das unidades científicas foi o exemplo mais evidente do desatino da política de ciência. A FCT encomendou à European Science Foundation (ESF), uma avaliação que, soube-se depois, continha uma cláusula estranha: metade das unidades devia ser excluída logo na primeira fase do processo. Quando se descobriu que os resultados catastróficos da “avaliação” provinham dessa regra nunca anunciada, justificada ou assumida, o presidente da FCT tentou iludir a realidade, negando o que estava à vista de todos. Acontece que a metade escolhida não era formada pelos melhores centros em várias áreas: bastava consultar índices comummente aceites de produção científica. Os “peritos” da ESF, em número insuficiente e, em geral, insuficientemente qualificados, nem analisaram bem essa produção. Não existiam sequer, em muitos casos, especialistas da área em avaliação, pelo que não admira que alguns pareceres não fizessem, em largos excertos, nenhum sentido. Tal resultou, em parte, de na primeira fase os centros de investigação nem sequer terem sido visitados, como manda a lei. O Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, reconhecendo a validade do coro de protestos, afirmou em carta ao ministro que o processo era um “falhanço pleno”. Foram bastante diplomáticos: podiam ter dito que era uma completa fraude. 

Na segunda fase, a arbitrariedade continuou, com atropelo das regras estabelecidas pela própria FCT e visitas feitas, nalguns casos, por praticantes de outras disciplinas que não a que avaliavam. Em suma, a “avaliação” da FCT-ESF não teve nunca a necessária qualidade e, no final, os financiamentos atribuídos nem sequer foram coerentes com ela, tendo sido efectuados essencialmente com base nos pedidos. A FCT falou de "modulação", mas o que fez foi dar tesouradas a seu bel-prazer. Não admira que os protestos tenham de novo chovido. Das 178 unidades que passaram à segunda fase (eram 322 à partida) 123 protestaram. Tal como as da primeira, estas reclamações permaneceram sem resposta atempada e adequada. Só para dar um exemplo do despautério: numa altura dita de austeridade, a FCT decidiu atribuir chorudos financiamentos públicos a fundações privadas. 

 Em 7 de Abril passado, demitiu-se o presidente da FCT, confrontado não só com o continuado clamor da comunidade científica perante o desconchavo, mas também com a sua ocupação do cargo a tempo parcial. A manifesta incompetência da gestão da FCT foi provavelmente agravada pela falta de tempo do seu presidente, que continuava professor no Imperial College de Londres. Foi então nomeada uma presidente interina, cujo mandato não ultrapassa o do presidente anterior, que ainda não reconheceu publicamente os graves erros. A “avaliação” da FCT-ESF, caucionada do início ao fim por Nuno Crato, lançou o descrédito não só sobre a FCT mas também sobre o ministro. Não pode ser reparada com remendos pois não há nenhuma maneira de endireitar a sombra de uma vara torta. 

 Mariano Gago, nos últimos dias de vida, afirmou que nenhum ministro, este ou o próximo, poderia homologar os resultados deste processo, dadas as flagrantes irregularidades. Há muitos centros a aguardar recurso e processos em tribunal. Crato teve agora a suprema lata de vir dizer ao Diário Económico (6 de Junho) que estamos num “ano de ouro” da ciência. Pura propaganda eleitoral, desmentida pelo facto de haver bons investigadores impedidos de investigar. Ele está, em vésperas de eleições, a tentar impor à pressa e à força uma “avaliação” ilegal, incompetente e injusta, que o próximo ministro rejeitará.

ENTREVISTA A CARLOS FIOLHAIS POR ANDREIA MARTINS

Uma aluna da Faculdade de Letras de Coimbra, Andreia Martins, procurou-me para gravar uma entrevista, que iria aproveitar como trabalho de uma sua cadeira. Deixo aqui o resultado, que acabo de receber:

Quais os momentos-chave no seu percurso de cientista?
 - Bem, um momento-chave é sempre o momento do começo. Quando é que uma pessoa fica cientista? Quando aprende a fazer ciência de modo independente, um processo a que se chama doutoramento. Quando uma pessoa acaba o doutoramento, entrega uma tese, o que  significa que acabou de resolver  um certo problema cientifico, após três ou quatro anos, no meu caso três anos e meio, de trabalho com alguma ajuda de um supervisor. A partir daí o cientista ganha alguma liberdade, já pode atacar outros problemas sozinho. Eu completei a minha tese de doutoramento na Alemanha aos 26 anos, sobre um problema de física nuclear, tendo nessa altura passado de aprendiz de cientista a ser cientista.

Mais tarde, houve um outro momento que posso chamar chave, quando mudei de assunto. Deixei de fazer física nuclear para passar a fazer física de matéria condensada, parte da física que estuda sólidos e líquidos. Matéria condensada é a matéria ordenada a uma escala muito maior do que a dos núcleos atómicos. Fiz uma estada sabática nos Estados Unidos, isto é, um ano inteiro sem dar aulas, dedicado em pleno à investigação. Era uma altura em que era  bastante mais novo e, portanto, mais criativo. Comecei um trabalho com colegas norte-americanos que teve muito impacto, recebeu muitas citações e ainda hoje recebe, tem cerca de 11 mil citações e continua a ter. Será muito difícil voltar a fazer uma coisa com esse impacto: isso significa que houve numerosos grupos que acharam útil aquele paper. Este descrevia uma nova fórmula para a ligação entre os átomos, o que é útil para fazer a modelação computacional da matéria.

Em que instituição alemã fez o seu doutoramento?
- Na Universidade Goethe, um poeta e romancista alemão, muito considerado na Alemanha e no mundo. Ele nasceu em Frankfurt-Main e, na Alemanha, é uma espécie de Camões. Tive, portanto, de aprender alemão. Se um alemão viesse para Portugal para uma Universidade que se chamasse Camões teria também que aprender português. A Universidade fica quase no centro de Frankfurt, que por sua vez fica no centro da Alemanha. Na altura era ainda a República Federal Alemã, separada da Republica Democrática. A unificação foi muito depois do meu doutoramento. Defendi a tese no Natal de 1982. Foi uma experiência muito rica porque vivi numa cidade alemã de grande dimensão, com 800 mil habitantes ou mais, o centro económico, comercial e de transportes da Alemanha, que tem também à volta alguma indústria.  O Instituto de Física Teórica era perto da bem conhecida a feira de Frankfurt. A Física de Frankfurt  é também muito conhecido, porque alguns dos grandes físicos no tempo entre as duas Grandes Guerras, numa época em que a Física se desenvolveu muito, estiveram lá. É um sítio onde se respira a história da física moderna.

Sobre que tema trabalhou no doutoramento?
- Na altura interessou-me a física dos núcleos atómicos. A matéria é feita de átomos e no centro de cada átomo há um concentrado, o núcleo atómico, onde reside praticamente toda a massa do átomo e toda a carga positiva. À volta estão os electrões, que têm carga negativa. O problema que estudei teoricamente foi a cisão nuclear, processo que está subjacente à produção de energia nuclear. Tentei partir o átomo de urânio em duas partes usando um modelo que pode ser visto como uma gota carregada que se divide, resistindo a dividir-se. Por um lado a carga positiva leva à separação, mas há forças fortes que unem as partículas do núcleo - os protões e neutrões. Estudei o percurso que o núcleo faz ao partir-se: abre-se um pescoço e os dois lados acabam por se separar. A minha tese de doutoramento foi precisamente sobre a resistência à quebra do núcleo, usando a Teoria Quântica.

E em Coimbra continuou a investigação que desenvolveu na Alemanha?
- Sim, de certo modo. Continuei a usar os mesmos métodos da Teoria Quântica, embora em Coimbra não tivesse as mesmas facilidades do ponto de vista computacional. Tinha um grande computador na Alemanha (o meu trabalho era computacional), muito maior do que aquele que aqui existia na altura. Estávamos na época em que para fazer computação era preciso um grande computador, não havia ainda computadores pessoais. E os investigadores tinham de  submeter os seus programas ao grande computador. Curiosamente regressei em 1982 e no ano seguinte apareceram cá os computadores pessoais. Começámos a comprar os primeiros computadores pessoais, a instalá-los, e a tentar ligar vários computadores para fazer um computador maior. Os problemas que aqui podia resolver tinham de ser menores do que os que podia resolver na Alemanha. A evolução da tecnologia favoreceu-nos porque pudemos graças a ela atacar com computadores mais pequenos problemas maiores. Por incrível que pareça, houve uma época em que não existiam quaisquer computadores pessoais! Nas secretárias ninguém tinha um computador à frente, nem portáteis nem coisa nenhuma.

Em 1986 houve um acontecimento que teve impacto  no meu domínio de trabalho que foi o desastre de Chernobyl, na Ucrânia. Foi um erro humano que acabou por afectar muito o modo como a energia nuclear era vista. Alguns programas de física nuclear foram afectados. Sem deixar de trabalhar na Teoria Quântica e de usar métodos computacionais, passei a dedicar-me a outro tipo de problemas, questões de matéria condensada. A uma escala um milhão de vezes maior do que a dos núcleos atómicos a teoria era a mesma. Usei os métodos que tinha aprendido sobre cisão nuclear para estudar moléculas carregadas, moléculas que se partiam com a ajuda de um laser. Tudo isto teoricamente não há que ter medo… Já não era um neutrão a entrar para dentro de um núcleo atómico, era luz que desmanchava uma molécula. A questão era: Em que pedaços se desmancha? A lição é que, se uma pessoa dominar bem uma metodologia, os objectos aos quais a aplica podem ser variados.

Acha que o mercado carece de um livro de História da Ciência que aborde grandes vultos como Copérnico, galileu, Newton e Einstein?
- As pessoas precisam de livros, precisam de informação reunida de um modo ordenado e coerente. Não precisam só de um, precisam de vários, há livros que poderão conter uma apresentação para um público mais académico e livros que poderão ser um digest,  apresentando o essencial numa linguagem acessível a qualquer leitor minimamente culto. E entre um nível muito especializado e um nível muito geral há toda uma gradação de obras. Se o mercado em história da ciência está preenchido? Não! Estão sempre a surgir novos livros, há e haverá sempre novas maneiras de ver a história. Em Portugal, há um livro com as obras essenciais de Copérnico, Galileu, Newton e Einstein. Reforço uma ideia que julgo estar na sua pergunta, que é a relevância da História. De facto, a Física tal como a ciência em geral têm um percurso histórico embora, por vezes, os estudantes não se apercebam de que há todo um processo de construção, de acumulação de conhecimentos. Por vezes estão preocupados apenas com os resultados mais recentes sem repararem que o trabalho mais recente só é possível porque houve trabalhos anteriores. A História da Ciência mostra que as descobertas são feitas não apenas por grandes nomes mas por muitas outras pessoas. A ciência precisa de heróis, tal como qualquer outra actividade. A História da Ciência tem tendência a sublinhar o papel dos heróis, mas a ciência é feita por muita gente sem cujo trabalho não poderiam existir os grandes avanços.

 Em português existem alguns bons livros de história da ciência. Se existissem mais era melhor? Sim, é melhor haver escolhas. Quando se vai comprar peixe ao mercado é bom ter várias qualidades e não ser obrigado a comer só carapau… É bom que esse mercado seja alargado. Quando estive na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra interessei-me por História e reparei que a História da Ciência em Portugal, apesar de ter alguns períodos muito ricos, períodos de luz (separados por períodos de sombra, claro), não era suficientemente conhecida. Há numerosos trabalhos académicos  mas a História da Ciência em Portugal não é ainda conhecida do público geral. Então decidi escrever um ensaio de divulgação intitulado História da Ciência em Portugal, que está disponível. O curioso é que esse título não existia, pelo que é um livro que fazia falta, julgo eu… Mas fazem falta mais livros, pois há pontos de vista diferentes. Há várias interpretações possíveis, podem apresentar-se panoramas diversos  da História da Ciência.

Na sua perspectiva, qual é a diferença entre Ciência e Cultura Científica?
- A relação entre ciência e sociedade chama-se cultura científica. Tem a ver com a percepção pública da ciência, a imagem que a sociedade faz da ciência. O público tem uma imagem da ciência que nem sempre é fiel. Por exemplo, ciência é uma coisa e tecnologia é outra, embora o público menos informado pense que a ciência se resume às suas aplicações, como se a tecnologia aparecesse vinda do nada, sem o conhecimento cientifico que lhe está subjacente. Já houve um tempo em que isso aconteceu, em que se construíam geringonças por tentativa e erro, mas hoje tal já não acontece. Hoje, para fazer qualquer coisa verdadeiramente inovadora, é preciso ciência avançada. As pessoas usam telemóveis, televisões, automóveis, sei lá (pausa), e nem imaginam a ciência lá dentro.

É, portanto, algo diferente a História da Ciência e a História da Cultura Científica, embora as duas estejam relacionadas. A História da Cultura Cientifica está muito menos estudada e apresentada. Não há entre nós muitas obras que mostrem como a sociedade foi recebendo a ciência e tecnologia, como é que a ciência foi sendo vista, por vezes favoravelmente, e outras vezes com desconfiança. Um colega meu do Porto escreveu um livro sobre a História da Cultura Científica em Portugal, uma história que tem a ver com as mentalidades, a cultura, a política. Para escrever sobre Cultura Científica tem de se ter conhecimento não só da ciência como da sociedade em geral, da organização da sociedade, dos movimentos de opinião, dos meios de comunicação social. Como é que a sociedade se apercebe da ciência? Através dos media, dos museus, de contactos directos com os cientistas e suas instituições, com jardins zoológicos, parques naturais, aquários, etc. Há ciência por todo o lado e a Cultura Científica deve revelar isso. A Cultura científica consiste em ver ciência em todo o lado.

Considera a rádio e a televisão como veículos privilegiados da difusão das inovações científicas e tecnológicas?
- Sim. Para haver Cultura Científica é preciso que a população esteja em contacto com a ciência, o que significa com os cientistas. A população apercebe-se da ciência logo na escola, mas nós sabemos que, ao longo da vida, a maior parte do contacto que ela tem com a ciência é através dos media, dos jornais, da rádio e da televisão. Em Portugal a televisão tem um papel determinante, mas a rádio é também relevante. Modernamente há a internet. A cada dia que passa a diferença entre televisão e internet é cada vez menor, uma pessoa vê televisão na internet e vê internet na televisão. Todos esses meios são essenciais à comunicação da Ciência. Se perguntar a alguém de onde recebe a maior parte da informação científica, ouvirá como resposta que vem dos media, designadamente da televisão. Não dirá que aprendeu na escola, mas sim que viu na televisão. De facto, vem dos dois lados. Por exemplo parte da nossa ideia de um átomo vem da escola e outra parte dos media. Os jornalistas estão na charneira entre os cientistas e o público em geral. Os cientistas podem escrever para os jornais mas aos jornalistas cabe um papel insubstituível. Por vezes os cientistas não têm capacidade de transmitir o essencial sobre um assunto de uma forma sedutora. Os jornalistas sabem fazer isso, através do modo como constroem as frases, os títulos, as imagens, etc. São especialistas em prender a atenção dos leitores, dos ouvintes ou dos telespectadores.

Acha que a Banda Desenhada (BD) pode ser um veículo eficaz na transmissão da Cultura Científica para todas as idades?
- Podia ser e é! Há BDs que comunicam ciência. A chamada 9.ª Arte, a BD pode ser aproveitada para transmitir ciência. Tal não quer dizer que todas as BD tenham de ser educativos, mas algumas são-no. E há bons exemplos. Aqui em Coimbra o Gabinete de Física Experimental da Universidade de Coimbra, que pertence ao Museu da Ciência, foi tema de uma BD de um autor belga, com o título O Segredo de Coimbra. É uma história que se passa num ambiente histórico de ciência e que divulga o nosso património científico. Ainda em Coimbra, há um exemplo mais recente de uma BD que procurou divulgar as células estaminais. O Centro de Neurociências da Universidade de Coimbra desafiou um desenhador e o resultado teve impacto através da divulgar os seus trabalhos, por ser uma forma que chega a largas faixas de público, não apenas o público juvenil. A BD é um género para todos, não apenas para os jovens. Há BDs só para adultos… (risos).

Os Centros Ciência Viva estão a cumprir a sua missão de sensibilizar os mais jovens para a ciência?
-Sim, estão! É uma característica de Portugal ter uma rede espalhada por todo o território nacional, continente e ilhas, de centros, chamados Ciência Viva, uma marca instituída pelo ministro José Mariano Gago em 1996. Ele achou que devia haver uma agência nacional para a promoção da cultura científica e tecnológica, a que chamou Ciência Viva. Essa agência tem apoiado os “postos” de cultura científica que são os centros de Ciência Viva. Aqui em Coimbra existe o Exploratório Infante D. Henrique e o Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, que dirijo, que é diferente dos outros: é um centro de recursos, uma biblioteca moderna, uma biblioteca multimédia, que coloca à disposição dos interessados livros, revistas, CD, vídeos, etc. Organizamos sessões com autores, leitores e todos os interessados pela cultura científica. Os Centros Ciência Viva formam uma rede por onde têm passado muitos jovens e não só. Portugal é conhecido no mundo por albergar esta rede de centros. Podemos ir à Fábrica Ciência Viva de Aveiro, aos Centros Ciência Viva de Bragança, de Vila do Conde, de Proença-a-Nova, do Alviela, etc. Em Lisboa encontramos o maior de todos, o Pavilhão do Conhecimento, num edifício que ficou da Expo 98 ao lado do Oceanário, onde há sempre exposições muito interessantes. Perto de Lisboa há um centro em Sintra. Depois há outros a Sul, quer no Alentejo, no Lousal e Estremoz, quer no Algarve, em Lagos, Tavira e Faro.

Algum destes Centros se destaca no panorama português?
- Bem o maior é o Pavilhão do Conhecimento em Lisboa, é aquele que tem mais actividades e mais público. Tem feito exposições com outros centros estrangeiros, como La Villette em Paris, ou o Eureka em Helsínquia. O Pavilhão do Conhecimento tem um projecto muito interessante que tenho acompanhado de perto, que é uma escola do 1.º ciclo, onde os alunos de várias escolas de Lisboa passam vários dias. Os alunos têm a sua escola e vão durante uma parte do ano lectivo à Escola Ciência Viva. O ambiente em redor é lúdico porque tem as exposições onde as crianças podem brincar. Em breve vou lá fazer uma apresentação sobre a luz, estamos no Ano Internacional da Luz. O projecto da Escola Ciência VIva mostra que um museu ou um centro de ciência podem ser também uma escola. Desfaz-se a distinção entre o ensino informal e o formal.

E no estrangeiro? Conhece algum Centro de Ciência Viva que considere excepcional?
- Sim, historicamente há um muito importante que é o Palais de la Découverte, em Paris, que foi o primeiro centro interactivo e que ainda hoje funcionaMas destaco outro mais recente, o Exploratorium de São Francisco, uma ideia do físico Frank Oppenheimer, que é de facto  extraordinário. Já não é um Palácio como em Paris, mas sim uma espécie de hangar, dividido pela luz, onde se podem fazer experiências interactivas. As experiências são, de facto, surpreendentes, porque há interactividade: por exemplo acende-se uma árvore batendo palmas. Por vezes são coisas simples, mas é uma viagem maravilhosa ao mundo da ciência.

Enquanto Director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (UC), fez uma grande esforço para divulgar ao mundo o espólio bibliográfico da UC, em particular da Biblioteca Joanina. Que resultou desse esforço? Tem continuado a defender este património?
- Sim, fiz um esforço e esse esforço continua a ser feito. Aliás a Biblioteca Joanina tem continuado a merecer referências e elogios, é uma das Bibliotecas mais belas do mundo, eu não me canso de lá ir e espero que ninguém se canse de lá ir. Há sempre coisas novas a ver, o nosso olhar fica sempre inebriado ao entrar nessa cápsula do tempo, do século XVIII. É um local inspirador, um local onde o visitante respira história. Tentei divulgar a Biblioteca aumentando a sua visibilidade dos media, mas também colocando os conteúdos à disposição das pessoas. Chamámos Alma Mater ao repositório digital de alguns dos livros da Biblioteca na íntegra, que pode ser consultado em qualquer parte do mundo. Também fizemos um sítio multimedia da Biblioteca Joanina. Esse trabalho continua a ser feito. O que se pode fazer mais? Bem, alargar o repositório, tornando mais obras da Joanina acessíveis em todo o mundo. Mostrar que a Joanina é não só um sítio com enorme riqueza arquitectónica, mas também com uma extraordinária riqueza bibliográfica.

Ainda recentemente fui co-autor de um livro sobre a Biblioteca Joanina, com texto meu e fotografias do meu colega Paulo Mendes, saído na Imprensa da Universidade de Coimbra. É um livro que permite ao visitante levar a Biblioteca para casa. Revela pormenores nos quais quem visita a Biblioteca pode não reparar, pormenores dos tectos, das decorações das estantes, das mesas e dos objectos das mesas, etc. No tecto de cada sala da Joanina está a figura da Sabedoria, uma bela senhora, e o nosso livro mostra imagens bastante próximas da Sabedoria, permite-nos aproximar dela…

75 ANOS DO PORTUGAL DOS PEQUENINOS

O DN de segunda-feira, dia dos 75 anos do Portugal dos Pequenitos em Coimbra, publicou declarações minhas sobre esse parque temático: resumo aqui.

terça-feira, 9 de junho de 2015

"Um caso de dever público"

A propósito da recente integração no currículo do Ensino Básico de uma componente optativa de "oferta de escola" designada por Cultura e Línguas Clássicas, um jornal destinado a jovens - jornalíssimo - publicou, na edição de hoje, uma entrevista a Mário Martins, professor de Português e Latim na Escola Secundária Camões, em Lisboa, uma das poucas onde o ensino "clássico" se tem conseguido manter. Tomamos a liberdade de transcrever essa entrevista:

Há 20 anos a ensinar Latim (já lecionou também Grego), defende que a aprendizagem das línguas e culturas clássicas deveria ser obrigatória. Vê com um "agrado comedido" a nova Introdução à Cultura e Língua Clássicas, apresentada pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC) na semana passada.

JORNALÍSSIMO - Se tivesse de enumerar três razões para um jovem escolher as disciplinas de Latim e Grego, quais seriam?
MÁRIO MARTINS - Três em um: a importância de conhecer o nosso passado para melhor conhecer o presente e preparar o futuro.

J - Pode explicar melhor?
MM - O futuro faz-se do passado e se há algo que temos de fazer sempre é não perder a memória (patrimonial, cultural, linguística) e as raízes que nos trazem ao presente. Diria mesmo que é um caso de dever público. Em Portugal, nos últimos 20-30 anos, e no que às línguas clássicas diz respeito, foi-se fazendo o inverso.

J - Esta medida do MEC para promover o ensino do Latim e do Grego no ensino básico vai alterar essa tendência?
MM - A nova componente Introdução à Cultura e Línguas Clássicas (ICLC) é um passo para inverter o que se tem vindo a fazer. A onda que está no ar é que os alunos do ensino básico passam a aprender Latim e Grego. É redondamente mentira! Trata-se de uma disciplina de oferta complementar (no caso do 1.º ou 2.º ciclos) ou oferta de escola (no 3.º ciclo). Esperemos que tenha a aceitação e o carinho das escolas, dos pais e dos encarregados de educação. Estou convencido que os alunos - sobretudo no 2.º e 3.º ciclos, onde me parece ter mais sentido a implementação de ICLC - a vão querer, caso as escolas e agrupamentos a ofereçam. Sei que há agrupamentos de escolas que a vão ter no 5.º e no 9.º anos, para todos os alunos. É excelente!

J - O Latim e o Grego podem ser uma mais-valia para um aluno encontrar emprego no futuro?
MM - Sem dúvida: dá competências linguísticas, culturais e humanas imprescindíveis a qualquer pessoa. Latim é sinónimo de rigor, estudo, método, saber/conhecimento, capacidade de análise e de síntese do mundo, fonte de valores e ideias de vida para todos vivermos felizes.

J - Há a ideia de que o Latim é um língua morta. É verdade?
MM - Não! Rejeito tal afirmação. A expressão (infeliz) decorre tão só do facto de ser uma língua que não é falada regularmente entre nós e na maior parte do mundo. Mas em Inglaterra, na Alemanha e na Finlândia, há muitos casos de latim falado, de latim coloquial hoje. Por exemplo, na rádio nacional finlandesa há a rubrica Nuntii Latini, toda ela em latim clássico.

J - O facto de por cá estas línguas terem perdido força revela algo sobre o país e sobre o nosso sistema de ensino?
MM - Claro que revela. Desde sempre o Latim e o Grego foram vistos como línguas de elite, matérias dificílimas, ao alcance só de alguns. Mas pergunto: a Matemática, a Biologia e a Genética também não são de elite, vistas por este prisma? Eu só conheço aquilo que posso ou quero saber. Estamos a falar das línguas basilares da nossa identidade. Não se pode esquecer a matriz da nossa civilização. A cultura clássica, via Latim e Grego, inspira-nos sempre. Isto é elitismo? Como defende Young, todo o "conhecimento poderoso" é, por natureza, elitista e acrescenta alguma coisa às origens. Este "elitismo para todos" é que deve ser a preocupação de todos os intervenientes no processo educativo - alunos, pais, professores, escolas, Ministérios da Educação, Governo, etc. Esta sim é uma caminhada no sentido da igualdade de oportunidades.

J - Acha então que a medida tomada pelo MEC deveria ir mais além?
MM - Eu defendo que o estudo das línguas e culturas clássicas deveria ser obrigatório no ensino obrigatório, no 9.º ou no 12.º anos. Para todos, sem exceção. Como refere George Steiner, no livro Elogio da Transmissão, "a humanidade é herdeira de uma civilização", Todos os educadores têm obrigação moral de assegurar que o conhecimento poderoso se mantenha vivo, seja transmitido, criticado e atualizado para ser útil às pessoas e à sociedade". Acredito que é por aqui o futuro já hoje. Estamos sempre a tempo de começar ou recomeçar a caminhada.

J - E a que atribui esta falta de alunos interessados na aprendizagem do Latim e do Grego?
MM - À falta de oferta curricular pelas escolas; à falta de coragem de muitas direções de escolas e agrupamentos para, pelo menos, disponibilizar a possibilidade de abrir a opção Latim e/ou Grego (se ela não aparece como oferta, ninguém se lembrará dela também); à falta de informação clara e transparente sobre a utilidade destas áreas do saber. Além disso, há o tal “estigma” de que saber Latim e Grego é elitista.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Conclusões do Encontro de Cientistas 2015 em Lisboa

Trancrevo o documento “Reflexões Finais” apresentado no final do Encontro de Cientistas 2015 realizado no ICS em Lisboa. Se assim entender, muito agradecemos que colabore na divulgação. Esta notícia sobre o Encontro saiu no jornal Público assim como uma entrevista de Nicolau Ferreira a Francesco Sylos Labini. Pode  ver-se aqui a apresentação de Francesco Labini.

1. Os cientistas e as associações científicas reunidas declaram que o debate, a divulgação e o compromisso com a sociedade são princípios que os inspiram e que dignificam o papel e a relevância das suas profissões, enquanto agentes de desenvolvimento sustentado e de participação cidadã ativa. Como tal, não renunciam à intervenção responsável nos processos e decisões sobre política científica e sobre os seus impactos nas pessoas, instituições e nações.

 2. A busca pela “excelência” não pode significar o recuo para visões unidimensionais da prática científica, nem tampouco uma concentração/rarefação de recursos que leve, a prazo, ao desaparecimento competitivo de vastas áreas do conhecimento. A qualidade afere-se por dimensões múltiplas e não se reduz a um modelo bibliométrico mais ou menos arbitrário. A participação e a autorregulação dos cientistas devem ser tomados em conta na definição de tais parâmetros, bem como os potenciais impactos nos processos de desenvolvimento sustentável, coesão social e cidadania. Sendo crucial aumentar a relação entre os sistemas científico e empresarial, seria suicida, no entanto, reduzir a política de I&D a tal desiderato, esquecendo a investigação fundamental e o compromisso social.

3. A política científica nacional requer estabilidade e previsibilidade no financiamento, um processo de avaliação de unidades transparente e claro nos critérios de avaliação e nas regras de financiamento, alicerçado em painéis de avaliação sólidos, com adequada presença de especialistas nas diversas áreas e visitas devidamente aprofundadas ao terreno. Qualquer sistema de avaliação de qualidade tem de ter recursos, transparência e justiça nos critérios e procedimentos. As associações relembram, por isso, o compromisso assumido no tratado de Lisboa em investir 3% do PIB da União Europeia em I&D.

 4. Reiteram, ainda, que só existe política de I&D com cientistas, isto é, com carreiras estáveis, ainda que fortemente avaliadas. Não tememos a avaliação e detestamos o nepotismo. Mas qualquer sistema de I&D aceitável requer recursos e transparência. Recrutar novos cientistas para o sistema de ensino superior e investigação, assegurar contratos de trabalho e financiamento para doutoramentos, pós-doutoramentos e jovens investigadores integrados em projetos de investigação de acordo com a Carta Europeia do Investigador, assim como assegurar o respeito pelas especificidades da carreira de investigação e a estabilidade laboral são condições necessárias e imprescindíveis de um compromisso sério com os processos de pesquisa, que permitam a países do sul da Europa, como Portugal, atenuar assimetrias pré-existentes e contribuir para o crescimento económico. Não há produtividade científica sem estabilidade. E não há desenvolvimento sem produtividade científica.

5. Finalmente, afirmam a imperiosa necessidade de retomar o investimento público em I&D; da aposta estratégica num ensino superior democratizado e num movimento de cientistas que, não sendo corporativo, deve participar nas instituições e decisões, apelando aos responsáveis políticos para que coloquem o ensino superior e a ciência no cerne das suas agendas para o país

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...