quarta-feira, 6 de maio de 2015

II Encontro "uma história, uma vida!"

Informação recebida dos organizadores:

FALTA UM MÊS PARA O II Encontro "uma história, uma vida!"
JÁ FEZ A SUA INSCRIÇÃO?

II Encontro "uma história, uma vida!" - Envelhecer: um desafio à vida - dia 4 de junho, no espaço Atmosfera M - Porto). O encontro conta com a participação, entre outros, do Professor Doutor Manuel Sobrinho Simões, do Professor Doutor José Eduardo Pinto da Costa, do Prof. Doutor Telmo Baptista e do Prof. Doutor Levi Guerra.

PROGRAMA NO "SITE"

Incrições:
e-mail: inscricao@idadescomhistoria.pt
tlms: 934490508 ou 962920384
20€ Público Geral / 15€ Ativos desempregados, estudantes e +65 anos
3 ou mais inscrições: 3€ de desconto por pessoa

geral@idadescomhistoria.pt
www.idadescomhistoria.pt
www.facebook.com/idadescomhistoria2012

I ENCONTRO EM ENSINO E DIVULGAÇÃO DAS CIÊNCIAS


"ELES ESCOLHERAM A IGNORÂNCIA"

Como assinante da petição "Eles escolheram a ignorância" recebi esta mensagem dos organizadores:

During the last six months, you signed the European petition “They have chosen Ignorance”Today, we think that an ideal occasion has arisen to make our protest more visible - we propose to read it at the Bologna Ministerial Conference, which will be held in Yerevan, Armenia, on the 14th and 15th of May 2015.

 

The Open Letter, launched in October 2014, has since received considerable support from more than 18 000 individual followers and over 40 research organizations (with more than 100 000 affiliated members). This is the right moment to spread the petition to your colleagues who may not yet have had the opportunity to sign it, thereby increasing the number of signatures before it is presented in mid-May. Nevertheless, this will by no means be the endpoint of the petition, just a milestone on the road of European scientific workers who are acting collectively for the future of science in Europe.

In October 2014 a visible one-month march by scientists from across France converged on Paris. Organised by Sciences en Marche, it included all categories of colleagues from French universities and research centres who criss-crossed the French roads on their bikes, stopping in many towns to talk to the citizens about the non-measurable values of Higher Education and Research (HER), values that are essential for sustaining a democratic and flourishing society.

The French initiative was synchronized with the publication of the European Open Letter and both actions synergized. Because HER, a prerogative of individual member states, is also impacted by EU policies, we, at Sciences en Marche, advocate for a combination of synchronous national and European initiatives. In this context, we would like to propose a restaging of the French march on a Europe-wide scale. We invite groups and movements from all European countries to join us in organising concerted parallel events in Autumn 2015.

Such marches would defend the principles of an alternative Public University and of the diversity of basic research programs in the humanities and sciences. It could be seen as one of the answers to the call by the European Trade Union Committee for Education (ETUCE) for actions on HER 2015 and address some of the key points of the Academic Manifesto.

To the European Union institutions, it could ask for:
  • The exclusion of national investments in HER from the calculation of the 3% national budget deficit ceiling.
  • A preservation of the Horizon 2020 budget in the context of the Juncker investment plan.
To individual European countries, it could ask for:
  • An ambitious, multi-year recruitment plan for HER staff based on secure employment.
  • A significant increase in core state funding for basic Research Institutions/Bodies and Higher Education Institutions.
  • A policy for the development of all areas of research, guaranteeing diversity in subjects and in approaches to research instead of the restricted areas prioritized in the Horizon 2020 program, the respect of research methods, together with appropriate time frames and academic freedom for individuals and higher education and research institutions.   
  • The restoration and development of a democratic and collegial spirit within Higher Education Institutions and Research Institutions/Bodies.
In summary, could you please bring the petition “They have chosen Ignorance” to the attention of those around you? This is the right moment.

And if you like the idea of synchronised European-wide marches next autumn, and have further suggestions on this matter, please write to the organizing committee of Sciences en Marche at contact@sciencesenmarche.org

Thank you!

The Sciences en Marche organising committee, who thanks the Euroscientist team for its help in the diffusion of this initiative.

This text is also available in the Homo Scientificus Europeaus blog. Please spread it!
Those reading French might also be interested in this related article on the Sciences en Marche website.
Copyright © 2015 EuroScience, All rights reserved.
You are receiving this e-mail because you signed the Open Letter "They have chosen ignorance!"     

Do interesse público

Há uma visão curiosa daquilo que é do estado, seja dinheiro, sejam outros activos. Por exemplo, se for contratado um serviço a uma empresa privada, o estado “gasta”. Mas se o fizer com recurso a funcionários, saiu de borla. Se o objectivo for pintado como colectivo, é um investimento.  Se for pintado como privado é um roubo. Na verdade, é um espaço curvo onde a relatividade é geral.

Acabo de ler, motivado por alguns protestos de vizinhos meus, sobre o que se está a passar no Vale do Jamor, em Oeiras. Está a fazer-se uma Cidade do Futebol onde era um parque de estacionamento do estádio nacional. Isto, para quem morou em Carcavelos, tem um pouco de déjà vu. Há uma área relativamente grande para o qual se imaginam empreendimentos que vão lesar, objectivamente, os interesses dos moradores. Então monta-se um projecto de interesse público para fazer uma porcaria que ninguém pediu mas que dificilmente se vai questionar se é de interesse público ou não. Uma coisa que está  acima dos egoístas interesses dos moradores. 

No caso de Carcavelos, tratava-se de uma estrada que ligava a Marginal a uma rotunda que, curiosamente, já existia uma ligação a 10 metros. Mas essa ligação a 10 metros não satisfazia suficientemente o interesse público. Era precisa uma estrada de maior interesse público, com duas faixas para cada lado. Com muito mais interesse público que alargar a estrada que já existia!!  Tal era o interesse público da estrada, que a sua construção provocou a desafectação da Quinta Nova (conhecida por Quinta dos Ingleses) da reserva ecológica nacional. Afinal, passou a ser atravessada por uma estrada, que sentido fazia ser reserva ecológica nacional? Chamando os bois pelos nomes, era presidente da câmara de Cascais , José Luís Judas, o ministro responsável pela obra era Jorge Coelho e o responsável pelo ambiente José Sócrates. "Dream Team". A desafectação da quinta da reserva ecológica nacional abriu portas ao projecto de urbanização que se conseguiu travar até que Carlos Carreira assumiu a presidência da câmara e o projecto ganhou um novo alento. Para ajudar a esse novo alento, anuncia-se o novo edifício da Universidade Nova, mesmo ali em frente à praia. Onde se vão construir os outros mamarrachos. Corrijo, não vão ser mamarrachos porque já vai existir aquela coisa da Universidade Nova, que tanto interesse público tem que esteja ali mesmo em frente à praia.

Voltemos à Cidade do Futebol. Admirável como um projecto que esteve desenhado e aprovado para vários sítios ganha subitamente viabilidade para ser construído numa área arborizada e protegida. Afinal, um projecto de “inquestionável” interesse público que vai sair baratíssimo, porque a UEFA vai “dar”  3 milhões e a FIFA 1 milhão. Não é que uma obra de tal interesse público vai custar só 6 milhões?? O curioso é que, no meio das contas, os terrenos arborizados que serviam de parque de estacionamento do Estádio valem zero. O conforto dos moradores é puro egoísmo face a um empreendimento de interesse público e deve valorizar-se por zero. Vai construir--se ali uma coisa que é uma categoria, o mundo inteiro vai olhar para nós como a capital do desporto rei e, certamente,  ninguém vai ligar ao que se destruiu agora porque até se vai construir um empreendimento gigantesco em frente ao rio, junto ao Alto da Boa Viagem. Ah, esqueci-me de mencionar o empreendimento? Pois, abaixo do “investimento de interesse público” vai surgir um empreendimento de vários andares completamente intrusivos e descaracterizadores da área do estádio. Quer dizer, não será bem assim, afinal já tudo isso foi mais ou menos destruído pela construção daquele empreendimento de interesse público ali mais acima. Não é?

Ciência ao pequeno almoço, em Aveiro


Data: 10 maio'15
Horário: 11h00 > 12h00
Público-alvo: 6 aos 10 anos
Por marcação: 234 427 053 ou fabrica.cienciaviva@ua.pt
Bilheteira: 5€ (inclui pequeno-almoço da criança)
Local: Hotel “As Américas”
Rua Eng. Von Hafe nº 20
3800-176 Aveiro

Prémios de ouro, prata e bronze atribuídos a ensaios filosóficos de alunos portugueses

Num momento em que, a nível internacional, ressurge um discurso muitíssimo afirmativo contra a organização do currículo escolar (já não "por" mas) "com" disciplinas, começando, em alternativa, a implementar-se em países europeus um modelo curricular por projectos, problemas ou fenómenos, surgem notícias como a que se segue, só possível porque... (ainda) há disciplinas, algumas delas tão fundamentais como a Filosofia.

A notícia é que nas Olimpíadas Ibero-Americanas de Filosofia (onde participam Portugal, México, Espanha, Costa Rica e República Dominicana) três alunos portugueses, José Nuno Forte, Maria Beatriz Santos e Hugo Ferreira, ganham, respectivamente, as medalhas de ouro, prata e bronze numa prova de ensaio.

Sendo eu muito pouco entusiasta de olimpíadas ligadas à educação escolar, reconheço que se trata de uma iniciativa que permite destacar o bom trabalho que se faz em certas disciplinas, neste caso, numa das que mais risco corre de exclusão do currículo.

A Associação para a Promoção da Filosofia (Prosofos) disse a respeito: "É a prova inequívoca (...) da qualidade do trabalho desenvolvido pelos professores de Filosofia no nosso país". Concordo.

E acrescentou "Estes resultados (...) reiteram a necessidade de não esquecermos a importância do pensamento, muitas vezes relegado para segundo plano, sob as ciências exatas, num momento que se assume crítico na História da nossa sociedade". Com isto (que, reconheço, é trivial dizer-se) já não concordo. As Humanidades, Artes e Ciências, todas elas, podem desenvolver capacidades que dão forma ao pensamento. Não podem estar umas contra a outras, mas umas com as outras.

À parte este pormenor (que faz muita diferença, mas é de ordem diferente desta notícia), louvo o trabalho dos professores e dos alunos envolvidos, tanto portugueses como estrangeiros, pelo entusiamo que se alia ao conhecimento, neste caso, filosófico. No seu conjunto, são a esperança de que a Escola há-de continuar no seu rumo.

Muitos parabéns!

Apresentação do livro Pseudociência em Aveiro


terça-feira, 5 de maio de 2015

CONDENADOS A CASAR


O PSD e CDS tardaram um pouco mas, amigados como estão há tanto tempo, anunciaram casamento para as próximas eleições. Em boa verdade não tinham outra solução que fizesse sentido. Estavam e estão juntos e têm de ser julgados juntos pela sua acção conjunta (por exemplo, a política desastrada no sector da ciência e da educação não é apenas do PSD , é também do CDS, como mostra o facto de Passos Coelho e Pires de Lima terem convergidos nas críticas aos investigadores nacionais e como mostra o facto de Nuno Crato e João Casanova de Almeida terem maltratado os professores em uníssono). Para o PSD será um bom negócio, porque ao misturar os seus votos com os de outros disfarça a sua evidente perda de cotação. Para o CDS será também um bom negócio, pois é como sempre foi um pequeno partido: depois de o seu líder ter pronunciado a palavra "irrevogável", vale também hoje menos, neste caso muito menos, do que ontem, não lhe convindo medir forças sozinho. Para os dois seria mau apresentarem-se separados, pois a campanha eleitoral não deixaria de ser uma sucessão de "passa-culpas" com um a transferir para o outro algumas das medidas mais odiosas ou mais absurdas que em conjunto tomaram. Para a oposição, esta união dos partidos do governo traz algumas vantagens, apesar de poder haver por parte da coligação governamental o ganho de um ou outro deputado pelo método de Hondt. A principal vantagem é que a disputa se torna agora mais clara: ou os mesmos, para mais do mesmo, ou outros, para eventualmente outra coisa.

O DESASTRE DOS PEREGRINOS DE FÁTIMA

Fiquei, como toda a gente, chocado com a morte de cinco peregrinos de Fátima no IC2, em Cernache, perto de Coimbra. Julgo que é preciso tirar ilações deste desastre e a primeira deve ser o abandono pelos peregrinos de vias que tenham trânsito intenso e rápido. Para isso as autoridades civis e religiosas devem-se concertar. Julgo que  essas autoridades devem criar e promover, em conjunto, uma rede de percursos por trilhos pedestres ou estradas regionais, que evitem completamente estradas nacionais como o IC2. Poderá ser um pouco mais longe, mas será muito menos perigoso e, além do mais, a paisagem será bem mais agradável. Peões e viaturas em grande número não podem partilhar a mesma via. Neste caso de homicídio por negligência parece que os peões tiveram os indispensáveis cuidados - iam com coletes reflectores e lanternas - mas o condutor desgraçadamente não teve. O risco é grande de haver  peões ou condutores descuidados se ambos coexistirem no mesmo espaço. Tem, por isso, de haver alternativas a estradas onde circulam condutores tresloucados ou alcoolizados (a propósito, não percebo porque não é divulgado o resultado do teste ao álcool, que é fácil  e rápido).  

segunda-feira, 4 de maio de 2015

PASSOS LOUREIRO

Eu não quis acreditar, mas a cena passou-se mesmo numa queijaria. Quem nos governa dá o exemplo de quem nos governou deste modo:

 "[Dias Loureiro] conheceu mundo, é um empresário bem-sucedido, viu muitas coisas por este mundo fora e sabe, como algumas pessoas em Portugal sabem também, que, se nós queremos vencer na vida, se queremos ter uma economia desenvolvida, pujante, temos de ser exigentes,metódicos. Cada dinheiro que é aplicado tem de render o suficiente para pagar a quem investiu, a quem forneceu esse financiamento, a todos aqueles que participam no processo produtivo”.

Passos e Loureiro são duas faces da mesma moeda, quer dizer do mesmo dinheiro.
.

 

"UMA BIOGRAFIA DA LUZ"

Texto publicado na imprensa regional:



Este ano celebra-se internacionalmente a luz. O estudo da luz desvenda-nos a natureza do Universo, a história da evolução do Cosmos. E neste ano, a editora Gradiva, a quem um dia o Professor José Mariano Gago apelidou de “Universidade Gradiva”, não podia deixar de nos proporcionar um livro sobre a luz.

Trata-se do mais recente volume, número 211, da prestigiada colecção “Ciência Aberta”, com o título “Uma Biografia da Luz – Ou a TristeHistória do Fotão Cansado”. O seu autor é o físico José Tito Mendonça, professor catedrático reformado do Instituto Superior Técnico (IST), mas que mantém actividade científica à frente do laboratório de átomos frios e plasmas quânticos do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear do IST.

A “Ciência Aberta” acolhe assim mais um autor português na sua galeria de excelentes divulgadores de ciência, e este livro enriquece o panorama da divulgação de ciência em língua portuguesa.

Esta biografia da luz foi lançada no passado dia 28 de Abril, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.

O livro apresenta, numa linguagem acessível e cativante, o essencial sobre a natureza e as propriedades da luz. Mas o autor também incluiu diversas passagens em que nos diz a sua opinião sobre a ciência e a vida, onde narra alguns episódios da sua actividade enquanto cientista. Como o próprio autor escreve na “Nota Prévia” com que abre o livro, “esta biografia da luz é polvilhada de fragmentos autobiográficos”. E este aspecto engradece o livro ao apresentar ao leitor vivências de como a ciência se faz, mas também a relação entre ciência e arte, numa manifestação multifacetada da luz na cultura humana. E de facto a luz é um tema transversal aos diversos territórios em que cresce o conhecimento humano.

As 267 páginas deste livro compreendem nove capítulos, a desvendar: 1 – Intróito, o pescador irrequieto; 2 – Dualidade; 3 – Ausências; 4 – Os fotões e a cor; 5 – Os lasers e eu; 6 – O quarto elemento; 7 – Estrelas, e mais além; 8 – Chuva cósmica; 9 – Conclusão, onde se fala sobre compreender a ciência e esta na terra dos sonhos.

José Tito Mendonça escreveu a pensar no leitor comum. Num convite à acessibilidade, não usou fórmulas e evitou fazer referências a trabalhos especializados menos conhecidos do grande público. É assim um livro para todos, que ilumina quem o ler. Neste ano Internacional da Luz, este é um livro a não perder.
António Piedade

“...ONDE A TERRA SE ACABA E O MAR COMEÇA...”


Novo texto de Galopim de Carvalho: 

A propósito dos trabalhos visando o alargamento artificial da da Praia de Dona Ana (Lagos) ocorre-me lembrar que a adulteração da paisagem física em nome do desenvolvimento é um facto que está a atingir proporções preocupantes. 

Os reflexos no litoral da intervenção do homem são hoje bem visíveis e as soluções encontradas, para os minimizar ou eliminar, nem sempre são as melhores. A conclusão a tirar desta realidade é a de que não se pode continuar a planear o litoral de costas viradas para os conhecimentos que a ciência já está apta a fornecer. Há, pois, que saber conviver com o mar e respeitar os seus códigos que já conhecemos com razoável pormenor. No sentido de minimizar estes inconvenientes, tem-se recorrido a ensaios realizados em tanques especiais, onde, em modelos reduzidos, se procuram simular as condições naturais e as alterações a introduzir, a fim de estudar os seus efeitos. Modernamente, com o desenvolvimento dos meios informáticos, estão a utilizar-se, com idênticos propósitos, modelos matemáticos, mais rápidos e menos onerosos.

Seria desejável que decisores, jornalistas e comentadores falassem a mesma linguagem. Pareceu-me, pois, útil reunir nestas linhas o essencial do que dizem os estudiosos desta temática.

Dizem eles que a geometria e as características dinâmicas desta franja “onde a terra se acaba e o mar começa” resultam de um conjunto de factores e condicionantes naturais, a que se têm vindo a sobrepor-se outros, próprios da civilização. Para além das oscilações globais do nível do mar, apenas sensíveis em intervalos de tempo que excedem largamente a nossa longevidade, sobressaem, por serem mais visíveis:
 (1) a natureza e a estrutura das rochas e a sua maior ou menor vulnerabilidade à erosão;
(2) o clima, em especial no que diz respeito à pluviosidade, à temperatura e aos ventos;
(3) a intensidade e orientação das vagas;
(4) a amplitude das marés e
(5) as correntes marinhas litorais;
(6) todo e qualquer tipo de intervenção humana, como sejam portos, molhes e outros tipos de enrocamentos, exploração de areias, barragens (que impedem o fornecimento de inertes), entre outros.

Esperemos que, no que diz respeito à Praia de Dona Ana, os necessários parâmetros naturais tenham sido avaliados. No essencial, o comportamento desta interface do mar com a terra define-se pelas leis naturais, ou seja, pelas leis da física e da química, sempre subjacentes aos processos geológicos, biológicos ou os decorrentes de quaisquer acções do génio humano e que não podemos, nunca, modificar. Entende-se por litoral não só a faixa emersa da linha de costa, geralmente limitada do lado de terra por uma arriba ou por uma rotura de declive, mas também a faixa imersa, limitada inferiormente por uma linha abaixo da qual o fundo marinho não é significativamente perturbado pela ondulação habitual na região (até 1 a 2 m de altura). Na nossa costa ocidental, este limite inferior ronda a profundidade de 10 m, sendo de 6 m, em média, na costa algarvia.

 No que se refere ao dinamismo dos processos litorais, destaca-se a ondulação, que não é mais do que a agitação da camada superficial das águas de uma determinada área do mar (área de geração) soprada pelo vento. A ondulação transporta quase toda essa energia, sob a forma de ondas ou vagas, a caminho do litoral. Ao aproximar-se de terra, e à medida que a profundidade se reduz, a crista da onda torna-se, progressivamente, assimétrica, tombando para a frente até rebentar. Esta energia acaba, assim, por ser consumida quer na rebentação, quer nas correntes litorais a que dá origem.

Consequência directa das interacções gravíticas entre a Terra e os corpos celestes que lhe estão próximos (em particular o Sol e a Lua), as marés representam uma outra fonte de energia fornecida às águas do mar. No seu constante e ritmado movimento ascendente e descendente, avançando e recuando face ao litoral, penetrando nas reentrâncias da linha de costa, para delas sair e tornar a entrar, num vaivém interminável, as marés são geradoras de correntes susceptíveis de exercer erosão, transporte e redeposição de sedimentos, quer junto ao litoral, onde são mais visíveis, e conhecidas por correntes de maré, quer na plataforma continental, nomeadamente no seu bordo distal, na transição com a vertente continental.

Para além destas correntes, outras há com interferência na morfologia e na sedimentação litorais. Entre elas destacam-se as geradas pela rotação da Terra e por diferenças de temperatura e de salinidade.

O vento, a ondulação dele resultante e as correntes litorais a que dão origem, por um lado e, por outro, as marés e respectivas correntes são os principais agentes da dinâmica actuante no litoral e, também, na plataforma continental (a chamada zona nerítica). As características físicas da ondulação (altura, comprimento da onda, período, frequência, etc.) reflectem a energia disponível e dependem da intensidade do vento, da duração da sua incidência e da extensão e distância ao litoral de área soprada. Com poucas perdas de energia durante a propagação, as vagas atingem os litorais, exercendo aí erosão e transporte de sedimentos. Nos fundos arenosos não consolidados, situados a profundidades susceptíveis de sofrerem as acções das vagas, estas remobilizam uma parte mais superficial da cobertura móvel, em geral areias de quartzo e bioclásticas (conchas de moluscos trituradas), promovendo ressedimentação muito particular, reconhecida pelas marcas de ondulação (ôndulas) que lhes são próprias.

As vagas, desencadeadas por acção do vento, transmitem até ao litoral a energia que dele recebem e têm a sua acção erosiva grandemente potenciada pelo efeito abrasivo dos materiais (areias, seixos , blocos) que põem em movimento. Em resultado desta acção formam-se os litorais de erosão, ou catamórficos, caracterizados por arribas, ou falésias alcantiladas, que recuam à medida que aumenta a plataforma litoral ou de abrasão marinha. Deste recuo restam como testemunhos pontuações rochosas como, por exemplo, as que emergem do mar frente à praia de Dona Ana.

 Quando é o mar que recua, o litoral diz-se anamórfico ou de acumulação. Têm aqui lugar a praia, em geral arenosa (mas às vezes cascalhenta), e as dunas. Na sequência desta regressão do mar, a arriba fica liberta da erosão das vagas, passando a evoluir em ambiente subaéreo, até adquirir um perfil de equilíbrio ditado pela natureza e estrutura das rochas e pelas condições climáticas ambientais.

A praia é, na maior parte dos casos, uma acumulação instável de areia e algumas vezes de cascalho, seixos ou calhaus (três modos de referir os clastos mais grosseiros), no geral arredondados pela abrasão.

Representa um ambiente onde o binómio morfologia-sedimentação se caracteriza por grande instabilidade. Qualquer modificação natural ou artificial introduzida na morfologia da praia ou no seu conteúdo sedimentar (areias e, eventualmente, cascalho) tem reflexos no balanço erosão-sedimentação. Como faixa do litoral arenoso (algumas vezes de calhaus) exposta às vagas, compreende um domínio submarino (praia imersa) e outro subaéreo (praia emersa). A praia imersa descobre-se na baixa-mar durante as marés vivas e corresponde ao domínio infralitoral ou infratidal (do inglês tide, que significa maré). Neste domínio, o perfil do fundo mostra, do mar para a terra, um talude, bancos de rebentação e uma faixa de espalho da onda. Para o largo segue-se o domínio circalitoral ou circatidal, na transição para a plataforma continental (offshore) onde só a ondulação de tempestade tem efeito dinâmico sobre o fundo. A praia emersa corresponde ao domínio supralitoral ou supratidal, só ocupado por altura das marés vivas e durante as tempestades. É o domínio das dunas, dos salgados ou das marismas, das crostas calcárias ou dolomíticas, das lagunas evaporíticas, da cimentação vadosa promovida por águas infiltradas superficiais (do latim vadosus, atravessável a vau).

A praia propriamente dita (em sentido restrito) corresponde ao domínio intertidal (entre marés). Dela faz parte a face da praia, ocupada pela rampa de espraio e de ressaca (situada acima da faixa de espalho da onda), onde se consome grande parte da sua energia após a rebentação. À rebentação sucede-se o espraio de uma certa massa de água, que avança sobre a face da praia à chegada da crista, a que se segue a ressaca ou recuo, que corresponde à chegada da cava.

 As praias são, pois, entidades instáveis. Quando a vaga incide obliquamente ao litoral, a areia retirada e reposta pelo vaivém das ondas vai migrando, em ziguezague, numa trajectória serreada, com uma resultante paralela à linha de costa, no sentido que as condições locais ditarem, referida entre os profissionais por deriva litoral ou longilitoral, conhecida entre as nossas gentes do mar por corredoira. Na costa portuguesa, no litoral arenoso entre Espinho e o Cabo Mondego, atingido por ondulação maioritariamente do quadrante NW, a deriva tem o sentido norte-sul, movimentando um a dois milhões de metros cúbicos de areia por ano (1 a 2106 m3/a). Na costa algarvia, esta cifra é bem menor, dez a cem vezes inferior, sendo aí poente-nascente o sentido da deriva. O litoral arenoso comporta-se, pois, como um “rio de areia” que corre ao longo da costa, mais ou menos veloz, transportando maior ou menor carga sólida. Com uma parte emersa (praia emersa) e outra submersa (praia submersa), o litoral arenoso mantém-se enquanto os sedimentos, que recebe de “montante”, compensarem os que perde para “jusante” e para o largo. Esta mobilidade conduz a perfis transversais de Verão (perfil de acalmia ou de calmaria), com declive mínimo, diferentes dos de Inverno (perfil de temporal), de mais alta energia, mais abruptos e com roturas de declive.

Nas situações em que a ondulação se aproxima perpendicularmente ao litoral, formam-se correntes de retorno ou agueiros, que deslocam os sedimentos para o largo (impedindo a deriva litoral), espalhando-os na plataforma continental e/ou permitindo-lhes o escape para os grandes fundos, através dos canhões submarinos. No caso das praias assim expostas à vaga, a linha do litoral é uma sucessão de reentrâncias, em forma de crescente, com a parte côncava virada ao mar. As correntes nestas praias afastam-se do litoral, pelo que constituem grande perigo para os banhistas.

 Em termos de espaço, uma praia pode manter-se estável, crescer, recuar ou ser totalmente varrida pelo mar, consoante o balanço que aí se estabelecer entre a erosão e a sedimentação. Nestes termos, uma praia minimamente estabilizada indica uma situação de equilíbrio entre a quantidade de sedimentos que recebe de terra (das arribas ou através dos rios) ou do mar (através das ondas e da deriva litoral) e a que lhe é retirada pelo mesmo mar. Com a progressiva construção de barragens hidroeléctricas nos principais rios, durante o século XX, o litoral ocidental de Portugal, à semelhança de muitos outros, foi sendo privado da sua principal fonte de sedimentos terrígenos.

Esperemos que este propósito de alargamento artificial desta bela praia algarvia, não tenha descurado o estudo dos ensinamentos que a ciência já colocou à nossa disposição.

António Galopim de Carvalho

sábado, 2 de maio de 2015

BIBLIOGRAFIA DE JOSÉ MARIANO GAGO (1948-2015)

 Após consulta ao catálogo da Biblioteca Nacional, deixo aqui a lista bibliográfica de José Mariano Gago (deixo de lado a tese de doutoramento, dactilografada, um de poucos exemplares existentes):

OBRAS INDIVIDUAIS

-  Homens e ofícios : manual de fichas de exploração temática para animação cultural sobre tecnologias e sociedades / José Mariano Gago. [S.l. : s.n.], 1978. (há mais duas edições)

-  Manifesto para a ciência em Portugal : ensaio / José Mariano Gago ; 1a ed. [Lisboa] : Gradiva, 1990.

 OBRAS COLECTIVAS

-  Investir excelência em Portugal / textos Agência Portuguesa para o Investimento, Vasco Graça Moura, Mariano Gago ; coord. Árvore. Porto : API, 2003.

-  Diálogos disciplinares : as ciências e as artes na viragem do milénio / José Mariano Gago... [et al.] ; ed. Alcinda Pinheiro de Sousa, Teresa de Ataíde Malafaia. Lisboa : IST Press, 2004.

 PREFÁCIOS E POSFÁCIOS

-  Física no dia-a-dia / Rómulo de Carvalho ; pref. José Mariano Gago ; il. Gil Perdigão. Lisboa : Relógio d'Água, 1995 (há 3 edições)

-   Zodíaco : constelações e mitos / Nuno Crato ; colab. Marta C. Lourenço ; posf. José Mariano Gago. 1a ed. Lisboa : Gradiva, 2001.

-  Vale a pena ser cientista? / Jorge Massada ; pref. José Mariano Gago. 1a ed. Porto : Campo das Letras, 2002. Pensar e fazer engenharia com os mais novos : um diálogo sobre cultura tecnológica para pais e educadores / org. Manuel Heitor ; pref. José Mariano Gago ; contrib. António Câmara... [et al.] ; Lisboa : Dom Quixote, 2004.

-  Increasing human resources for science and technology in Europe : report / of the High Level Group on Human Resources for Sciences and Technology in Europe ; foreword José Mariano Gago. Luxembourg : Office for Official Publications of the European Communities, 2004.

- O DN jovem entre o papel e a Net : história e memórias de uma transição / Helena de Sousa Freitas ; pref. José Mariano Gago. Lisboa : Esfera do Caos, 2011.

-  A partícula no fim do universo : como a caça ao Bosão de Higgs nos levou ao limiar de um mundo novo ; Sean Carroll ; trad. Miguel Fiolhais ; rev. cient. Carlos Fiolhais ; pref. José Mariano Gago, Amélia Maio, João Varela ; 1a ed. Lisboa : Gradiva, 2014.

 ORGANIZAÇÃO

-  Ciência em Portugal / coord. José Mariano Gago. Lisboa : Comissariado para a Europália 91 : Imp. Nac.-Casa da Moeda, 1991. (há edições em francês e inglês)

-  O estado das ciências em Portugal / coord. José Mariano Gago ; org. Comissariado para a Europália 91-Portugal. 1a ed. Lisboa : D. Quixote, 1992.

- Prospectiva do ensino superior em Portugal / estudo realizado pelo Instituto de Prospectiva ; coord. José Mariano Gago. 1a ed. Lisboa : DEPGEF, 1994.

-  O Futuro da Cultura Científica = The Future of Scientific Culture / Conferência O Futuro da Cultura Científica ; org. José Mariano Gago. Lisboa : Instituto de Prospectiva, 1994.

-  The future of science technology in Europe : setting the Lisbon agenda on track / ed. José Mariano Gago. Lisboa : Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, 2007.

Jovan Dučić

 
 


A poesia de Jovan Dučić oscila entre a Luz e as trevas. O poeta sérvio-bósnio nasceu sob o jugo do império Otomano e viveu entre o último quartel do século dezanove e a primeira metade do século vinte. Se não se pode abordar a ficção sérvia sem se ler Ivo Andrić,  o mesmo se passa com a poesia de Jovan Dučić. 





Asas

Levantar voo e voar, voar sempre mais alto,
Para o espaço ignoto como para um velho amigo,
Rodopios imparáveis, como um belo pássaro,
Que vão desfalecer nas mãos do infinito.

Ouvir apenas os seus movimento pelo espaço -
A música da sua asa! E, até ao término,
Perder do olhar o seu fim e o de seus traços,
E desaparecer, magnifico, no ar sereno.


Se alguém vive com sede a cada dia mais seco,
São estes olhos que há muito tempo a luz tem bebido,
Como sorvete, doces, duas ovelhas no fresco,
Como dois vampiros ávidos sugam sangue.


Que sejam esquecidas as sombras e os terrenos nascimentos;
A luz atinge-me como uma raiva mortal
Os seus raios trespassam-me como lanças,
Ali, onde bruxuleiam, sem sombra, os meios-dias eternos.


Cruzamento mirífico ​​de sóis, onde nasce
A intempérie de luz, que não se detém no caminho,
Através do país silencioso onde reina e se cala
O Deus que ofusca os olhos que ilumina.

Só conheço o abismo, dessas alturas,
Para todas as minhas fibras no espaço observado;

Voar, voar eternamente, sem obstáculos,
E tombar sobre o peso único das minhas asas encantadas.

 
O Limiar

Quando se chegam ao olhar do porto,
Após as férias e as lágrimas,
Os abissais cumes da morte

E os lagos escuros, frios e calmos –

 
Quem aguardam no limiar? Oh,
É enigma que perdura, eterno!

A fronteira entre duas graças
E duas fragilidades, qual é ela?

 

Esta união silenciosa de mistérios,
Ponte lançada entre duas alegrias,

Esta cruz de duas quimeras –
À vida e morte é superior!

 
Ela sustenta, a corda sem vida,
Os sons do céu e da terra,

E o germe negro da meia-noite,
As muitas cores do voo solar...

 
Mas o limite o que é que significa,
O que separa o movimento do repouso?

As margens do rio ao crepúsculo
Desfiam-se sob a força das ondas.


O Pinheiro

Colossal e sombrio, tristemente
Ergue-se, anónimo, como a erva,

Manancial estranho sob o firmamento
Onde no seio a noite hospeda um corvo.


Eterno e solitário, porte formidável,
Dos primeiros raios da aurora até ao ocaso

Sobre o penhasco radioso treme
A sombra negra do seu desespero.


Ele geme ao céu para que a noite o vele
Quando tudo dolorosamente se encobre

E toda a noite conta às estrelas
A solidão acerba desta terra.

 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A escola (sempre a escola) é que tem de resolver...

Soube-se na passada semana que no primeiro trimestre deste ano morreram em Portugal mais de trinta pessoas devido a acidentes de trabalho. A propósito, o inspector-geral da Autoridade para as Condições do Trabalho disse que a falta de inspectores não pode, de forma alguma, relacionar-se com essa catástrofe.

O que se pode, então, fazer? Antes de o senhor dar a resposta adivinhei-a: “introduzir as temáticas da segurança e saúde no trabalho” no ensino básico e secundário e superior. E, acrescentou: são “matérias de cidadania que têm que entrar no código genético dos portugueses”.

Não conseguindo esta inspecção assumir sequer uma parte do problema, empurra-o para a escola.

Pobre escola, tão acusada de não cumprir isto e mais aquilo mas todos exigem que resolva as tragédias da humanidade.

A aprendizagem dos alunos do ensino básico portugueses em Português e Matemática

Há alguns dias, em Abril, o Instituto Nacional de Avaliação Educativa - IAVE - deu a conhecer um relatório onde se apresentam e analisam, com fins de aferição do sistema educativo, os resultados das provas finais de Português e de Matemática, obtidos entre 2010 e 2014 pelos alunos dos 2.º e do 3.º Ciclos do Ensino Básico.

Explica-se, nesse relatório, o seu sentido:
... reforçar e enriquecer a informação, de ordem qualitativa, que cada prova pode facultar (...) a valia que a avaliação externa pode representar para uma atuação informada dos professores na sala de aula, no sentido de progressivamente poderem ser minorados os constrangimentos que em certos domínios cognitivos (...) são evidenciados por uma percentagem significativa dos alunos (...) constituiu-se como uma ferramenta (...) de reequacionamento pedagógico e didático que possa concorrer para minorar, gradualmente, os aspetos menos positivos das dimensões da aprendizagem em que os alunos continuam a mostrar crónicas e persistentes fragilidades (página 5 e 55).
Para a disciplina de Português apresentam-se as seguintes conclusões:
(...) as características dos textos literários e não literários que servem de suporte aos itens interferem nos resultados obtidos, independentemente do conteúdo em avaliação: linguagens e universos mais complexos geram piores resultados. Daí a importância da exploração, em contextos de ensino-aprendizagem, de textos progressivamente mais complexos ao longo dos ciclos de ensino em análise. Independentemente do suporte textual que lhes serviu de base, os itens em que se requereu a localização, paráfrase ou interpretação de informação explícita no texto, bem como os itens que implicavam a realização de inferências simples, apresentaram, de um modo geral, resultados superiores. Os itens que implicavam operações cognitivas mais exigentes, como as inferências complexas, a formulação de juízos de valor ou o posicionamento crítico, obtiveram, geralmente, resultados inferiores. Torna-se evidente a importância de praticar a leitura inferencial a partir de suportes progressivamente mais complexos (...).
Para a disciplina de Matemática apresentam-se as seguintes conclusões:
(...) verifica-se, em geral, que a maior ou menor dificuldade dos itens é determinada, fundamentalmente, pela complexidade dos processos cognitivos envolvidos, independentemente do tema em avaliação. As evidências permitem concluir que deve ser dedicada especial atenção à resolução de exercícios e problemas envolvendo números racionais nas suas diferentes formas, com vários graus de dificuldade, no âmbito do domínio Números e Operações (...) importância de estimular e trabalhar o cálculo mental, promovendo-se a exploração de estratégias de cálculo. O significado dos símbolos matemáticos, assim como a sua escrita, como meio de comunicação matemática, merecem também atenção adicional, bem como o uso de uma linguagem cada vez mais formal, e a construção de justificações simples. No domínio Geometria e Medida, resulta evidente a necessidade de insistir na resolução de problemas que envolvam as noções de áreas, perímetros, volumes e propriedades de figuras planas/sólidos com figuras suporte, mas também sem figuras suporte, de modo a trabalhar a capacidade de abstração. No domínio da Álgebra, no 2.º CEB, salienta-se a necessidade de dar ênfase ao estudo da proporcionalidade direta e de continuar a trabalhar no estudo das propriedades das operações com os números racionais. Os resultados apresentados no domínio Organização e Tratamento de Dados parecem encorajadores; no entanto, as evidências sugerem a necessidade de continuar a trabalhar a noção de média, pois, como se verificou, se não é solicitada uma média direta o desempenho dos alunos piora bastante. As dificuldades significativas verificadas na resolução de problemas e nas situações que implicam comunicação e raciocínio matemáticos requerem a resolução sistemática de problemas que impliquem a identificação da informação relevante (leitura e interpretação do enunciado), a utilização de contextos e de estratégias diversificadas, a verificação dos resultados alcançados e a discussão das estratégias utilizadas e dos resultados obtidos.
*Os destaques a azul são meus.
Este texto tem continuação.

NOVIDADES EDITORIAIS DA "CLASSICA DIGITALIA"

Informação chegada ao De Rerum Natura

A biblioteca Classica Digitalia acaba de publicar mais duas obras na série Humanitas-Supplementum [Estudos]

- Pilar Gómez Cardó, Delfim F. Leão, Maria Aparecida de Oliveira Silva (coords.), Plutarco entre mundos: visões de Esparta, Atenas e Roma (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2014). 277 p.
PVP: 20 € / Estudantes: 16 €
Resumo: Os treze contributos para este volume têm como elo comum o nome de três cidades: Esparta, Atenas e Roma. Elas representam espaços políticos e institucionais diversos, dada a sua extensão geográfica e cronológica, mas simbolizam igualmente diferentes modelos de organização social através dos quais a Grécia pode ser contrastada com Roma ou Atenas comparada com Esparta - ainda que o seu verdadeiro interesse na obra de Plutarco seja que representam sempre locais paradigmáticos onde vivem e convivem pessoas. Por isso, os estudiosos de Plutarco que contribuíram para este volume procuram analisar em cada uma dessas cidades, seja por assimilação ou por contraste, a forma como o autor de Queroneia aborda a ligação entre indivíduo e comunidade a partir do exercício do poder e da experiência religiosa; qual o papel da educação e do domínio privado na projeção pública dos protagonistas retratados por Plutarco; ou até que ponto a imagem dos primeiros legisladores e fundadores míticos foi condicionada pela evolução histórica destas mesmas cidades.
- Carlos Alcalde Martín, Luísa de Nazaré Ferreira (coords.), O sábio e a imagem. Estudos sobre Plutarco e a arte (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2014). 198 p.
PVP: 20 € / Estudantes: 16 €
Resumo: Com base em diferentes perspetivas de análise e fundamentado num elenco bibliográfico atualizado, ainda que centrado na obra de Plutarco, este volume constitui igualmente um contributo para a investigação no domínio da arte clássica e dos estudos de receção. Organizado em duas partes, a primeira dedicada especificamente ao corpus de Plutarco e ao seu testemunho sobre arte e iconografia (escultura, pintura e numismática), a segunda à análise da receção da Vida de Alexandre na arte ocidental (pintura, tapeçaria e cinema), este livro reúne sete estudos da autoria de investigadores espanhóis e portugueses, além de um texto de apresentação.

NO ANO INTERNACIONAL DA LUZ

Depoimento prestado a publicação do Colégio Rainha Santa em Coimbra:

 A luz está, no Génesis, no início de tudo: “Deus disse: "Faça-se a luz!" E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas.” (Gen. 3-4). A Bíblia não é um livro de ciência, mas hoje os cientistas sabem que o Big Bang foi uma explosão de luz. E sabem também que praticamente tudo o que lhes é dado saber sobre o Universo é conseguido através da luz.

As Nações Unidas, celebrando um conjunto de aniversários relativos à luz (entre os quais o centenário da teoria da relatividade geral de Einstein ue permite descrever a expansão do Big Bang), estabeleceram que 2015 fosse o Ano Internacional da Luz. Por todo o mundo e também em Portugal (ver ail2015.org), celebramos a luz, não só o conhecimento do fenómeno físico mas também as extraordinárias aplicações que esse conhecimento tem no nosso dia-a-dia. Usamos a luz, visível ou invisível, por exemplo, em lasers para ler códigos de barras e CD, para aquecer a comida nos fornos de microondas e para ver o interior do corpo humano em aparelhos de raios X.
2015 é, portanto, uma excelente ocasião para, à volta das numerosas questões associadas à luz, reforçarmos ligações no país e à escala global. É, designadamente, a altura de, nas escolas, procurarmos aprender mais sobre a luz, em trabalhos mais teóricos ou mais práticos, para a pormos da melhor maneira ao serviço do bem comum.
Mas a luz não é só ciência. É uma condição indispensável para haver arte. Além disso, a luz, nas ciências sociais e nas humanidades, é uma excelente metáfora para a razão, a compreensão, o conhecimento. O século XVIII ficou conhecido como o século das luzes e se, no século XIX, o romancista e poeta Goethe pediu “mais luz”, o certo é que esta necessidade de mais luz continua actual. É uma necessidade permanente. Hoje como ontem, precisamos de mais luz, tanto luz física como intelectual.
Carlos Fiolhais

(Coordenador Nacional do Ano Internacional da Luz)

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Para quê saber alguma coisa se há o Google!?

O meu silêncio neste blogue em matéria de educação deve-se muito a coisas como a que consta na notícia que reproduzo de seguida (os destaques a azul são meus):
Está instalada a polémica no Reino Unido. O líder da Oxford, Cambridge e RSA Examinations (OCR), um dos organismos responsáveis pelas classificações e qualificações dos estudantes britânicos, considera que o Google devia poder ser usado pelos alunos durante os exames. Mark Dawe defende que os alunos deveriam ter a possibilidade de usar o motor de busca durante alguns momentos, à semelhança do que acontece já com as máquinas calculadoras (...) os professores devem avaliar a forma como os alunos interpretam as respostas e não tanto a forma como as obtêm. Mark Dawe considera que o ensino já é muito baseado na Internet, pelo que parte do conhecimento dos alunos já vem deste meio de comunicação (...). Mark Dawe considera que em alguns exames seria permitido, enquanto noutros isso não seria possível. No entanto as críticas não tardaram e de acordo com os meios de comunicação britânicos foram já algumas as personalidades que vieram criticar a ideia e a postura descontraída do líder da OCR (...)
http://tek.sapo.pt/noticias/internet/especialista_britanico_diz_que_o_google_devia_1439617.html
Que comentários se podem fazer a declarações como esta, de um especialista em pedagogia (será)?
Pelo desconcerto que lhe é inerente, nenhum!

Contudo, não se trata de um caso isolado, mas, sim, de um padrão. Um padrão que se impôs e agora se revela e alastra. Está presente em todos os sistemas educativos ocidentais. Para acabar com eles, digo eu.

OPINIÃO no jornal PÚBLICO: "cRato (com “c” mudo) e a privatização do Iave"

Texto de opinião saído no Público da autoria de Madalena Homem Cardoso – Médica, escritora e activista cívica:

A única surdez, aqui, é a do poder político perante o clamor do senso comum.

Nuno cRato, com “c” mudo e com um drive yuppie análogo ao de Zeinal Bava, escolheu o seu target para promover o portuguesing. (Esta palavra é pesquisável no YouTube, e o resultado é imperdível!) Assistimos manietados à falência da PT, à falência de Portugal, à falência do português.

O target de cRato tem latitude máxima, desde o primeiro ciclo do ensino básico, em que as crianças desestabilizam a aprendizagem da ortografia da sua língua materna (já prejudicada pelo “acordo ortográfico”) através dos testes escritos do Inglês obrigatório, até ao ensino superior, com as aulas leccionadas em Inglês obrigatório (por professores portugueses e para alunos portugueses) dos cursos superiores com denominações em Inglês, em universidades que contam agora com uma saloia designação “international” também, para não destoar. Assim se pretende preparar uma geração para ser “mentalmente colonizada”. Consenti-lo-emos?

Uma nódoa “assertiva” e “pró-activa”, que “implementa” coisas, pode ter barbas. Neste caso, tem barbas (em ambos os sentidos), e estará há muito em estado demissionário-vegetativo, mas consegue manter um esgar vagamente sorridente, invertebradamente autista.

Diante disto, resta a uma cidadã indignada atrever-se a abrir algumas “caixas de Pandorra” (cRato dixit “twice”!). Se não resgatar o património colectivo que mais valoriza (o Português-padrão consuetudinário), pelo menos conservará intacto o seu mais precioso património individual (uma consciência tranquila). Importa ver além da opacidade das paredes dos gabinetes das Avenidas 5 de Outubro e 24 de Julho…

Para as questões relacionadas com o ensino da Língua Portuguesa, cRato socorre-se da opinião de duas linguistas, cada uma delas gerindo “feudos próprios” há muito instalados no Ministério da Educação. Uma delas é Inês Duarte, com uma grande quota de co-autoria na TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário), sigla para o monstro, ora ligeiramente atenuado (em versão revista), que ainda persiste em pretender substituir a gramática tradicional, para desgraça dos alunos. A outra é Maria Helena Mira Mateus, à frente do ILTEC (Instituto de Linguística Teórica e Computacional), instituto universitário incumbido pelo Governo de produzir um “acordês oficial” em constante reformulação.

Estes “feudos” envolvem poder, envolvem empregos, envolvem subsídios e… envolvem fazer concessões. Inês Duarte pugna pela TLEBS, mas abomina o “acordo ortográfico”. Maria Helena Mira Mateus produz o “acordês oficial” deste reino sem rei nem roque, mas abomina a TLEBS. A solução para as objecções de ambas foi simples: um pacto de não-agressão. Assim, no lodo, florescem ambas as monstruosidades e “atola-se” a aprendizagem e o ensino do Português. «Tu não te opões ao ‘acordo’, eu não me oponho à TLEBS…», e vice-versa. cRato sabe bem disto, cuja lógica matemática é linear. Não se trata de um matemático ultrapassado por duas linguistas, não, é ele o ministro. Apenas se demite, demite-se do seu dever, mas não sai de cena.

cRato sabe igualmente que o Ministério da Educação e a aprendizagem do Português nas escolas estão reféns da multimilionária negociata dos livros escolares, cujo monopólio pertence a dois grandes grupos editoriais (apesar da multiplicidade de chancelas sob as quais os manuais são dados à estampa): o Grupo Porto Editora e o Grupo Leya. Trata-se de gastos avultados e inadmissíveis que as famílias são coagidas a fazer. Se estas não puderem, há sempre o dinheiro dos contribuintes, através da Acção Social Escolar. Os interesses instalados é que não podem ser incomodados. cRato não perturba este saque anual, não institui o livro único por concurso público, demite-se quanto a isto também, mas não arreda pé.

Quem ouviu o actual Presidente da República fazer um discurso inolvidável sobre produtos “láteos” patrocinado pela Nestlé, quem soube da proposta da actual presidente da Assembleia da República de que este órgão de soberania arranjasse patrocinadores para as comemorações oficiais do 25 de Abril, em 2014, não poderá de forma alguma abismar-se ao ver (como eu já vi) uma embalagem de Chocapic numa roda-dos-alimentos afixada numa escola primária algures em Portugal.

Em 2014, cRato resolveu privatizar o Iave (Instituto de Avaliação Educativa), ou seja, dar autonomia administrativa a este organismo, que, por sua vez, diligenciou a obtenção de patrocínios para o “PET” (Preliminary English Test), um exame obrigatório no 9.º ano de escolaridade, após uns anos de estudo obrigatório de uma língua estrangeira específica pelas crianças portuguesas (enquanto a língua nacional é delapidada activamente). Onde pára a soberania?

Desconfio que, na óptica destes patrocinadores e da “tutela” que subsidiam, “pets” (animais de companhia) são as crianças deste país de gente passiva, são os futuros eleitores, já potencialmente amestráveis a existir num vácuo cultural de negação de si mesmos sob os auspícios de qualquer idioma franco que esteja “em alta” nos mercados globais.

Os patrocinadores do “PET” são a Universidade de Cambridge, o banco BPI, duas empresas de software (a Connexall e a NovaBase – “like life” –, portuguesíssima da Silva) e, claro, a Porto Editora. Esta está em todas, faz mesmo questão.

A globalização iniciada por Vasco da Gama foi a do encontro de culturas, não foi esta com que nos deparamos, a da massificação, a da fast-food. Em Agosto passado, tivemos a Porto Editora em megapromoção nos individuais de papel dos tabuleiros, nos McDonald’s: poupe dinheiro, faça já a encomenda dos livros escolares dos seus filhos através da Wook (empresa do grupo Porto Editora) e tenha grandes descontos! Eis o local escolhido pela empresa que mais lucra com a educação dos nossos filhos, nesta cultura do descartável, do consumismo, do facilitismo… Nenhum local poderia ser mais adequado, de facto.

Nós, pais, sabemos que todas as tabelas dos manuais escolares adoptados para cada ano de escolaridade, em cada ano lectivo, afixadas em cada escola, têm em comum um importante “pormaior”: o asterisco que remete para a recomendação de adquirir o manual apenas após confirmação da necessidade deste pelo professor da disciplina. Com promoções destas, a Porto Editora pretende retirar aos professores uma liberdade que ainda têm: a de não adoptar nenhum manual, a de utilizarem os seus próprios materiais para cumprir os programas que lhes são impostos.

Não nos espantaremos quando tivermos governantes fazendo conferências de imprensa em cenários revestidos com logótipos, como sucede no futebol. Falta pouco. Parece que não há “dignidade do Estado” (?) capaz de se sobrepor à força do dinheiro.

O Iave, em comunicado recente, veio insurgir-se contra quem afirmou poder o uso do português costumeiro pelos alunos implicar um desconto de quatro valores (em 20) nos próximos exames nacionais de 12.º ano, dizendo que se trata de uma improbabilidade. Ora, se se tratasse de uma impossibilidade, o Iave afirmá-lo-ia. Não o fazendo, paradoxalmente, vem confirmar as alegações que pretendia contestar, mas já se sabe da incompetência científica que por lá grassa. A colecção de erros crassos da PACC (Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades) de Física, por exemplo, veio demonstrá-la à exaustão, se dúvidas ainda houvesse.

Entretanto, saúda-se a novíssima Associação Nacional de Professores de Português (Anproport). Finalmente há, assim, uma alternativa credível à famigerada APP (Associação de Professores de Português) da inefável Dona Edviges das “ações de formatação em acordês”, segundo a qual os professores não serão pagos para pensar, mas sim para acatar acriticamente as ordens da tutela, tutela essa que subsidia as “ações de formatação” e convoca a Dona Edviges para a “informar” sobre o que os professores de Português… não pensam.

A APP não divulga o número de associados, o que não se estranha, poderia alguém aferir da sua (não) representatividade. Com a recém-criada associação, certamente essa representatividade agora existirá, ouvir-se-ão vozes legítimas e extra-sindicais na defesa do ensino e da aprendizagem da Língua Portuguesa. Há luz ao fundo do túnel, os professores não se demitem.

Fora de brincadeiras tragicómicas muito sérias e sentidas, como as do título deste artigo, e a despeito do que dizem por aí, não há nem nunca houve “consoantes mudas”, porque as consoantes pertencem à escrita, não à fala. Todas as consoantes se lêem, mas nem todas se dizem ou, se se dizem, dizem-se de tal forma que não se ouvem ou mal se ouvem. No máximo, seriam portanto “consoantes surdas” cujo lugar visual numa língua de matriz europeia, antiga, logo supostamente civilizada, não pode estar em causa.

A única surdez, aqui, é a do poder político perante o clamor do senso comum. A única mudez, aqui, é a que resulta da inexistência de verdadeira representação popular nesta pseudo democracia partidocrática perante a qual a própria consciência individual dos actores políticos, seja no Governo, seja na Assembleia da República, de pouco ou nada parece valer-nos.

Aquando da carta aberta que lhe dirigi, fez agora três anos, tive ocasião de falar com cRato em privado. Não digo o que me disse, nem o que lhe respondi. Venho pública e repetidamente chamar-lhe cRato e, para melhor compreensão, três anos volvidos, acrescento no inglês mais português e imperativo de que sou capaz: “Prove me wrong!”

Madalena Homem Cardoso

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...