quinta-feira, 16 de setembro de 2021

ADEUS, RUI

 Poema de Eugénio Lisboa em memória de Rui Baptista:

ADEUS, RUI

À memória do meu amigo,

Rui Baptista, lembrando

África, Mafra & outras safras!

 

Morre-se muito, na nossa idade,

Rui! A morte abusa da nossa fragilidade,

e prega-nos grandes partidas,

com cínicas armadilhas escondidas:

por todo o lado, escorregadelas no banho,

que nos fazem chorar baba e ranho,

estatelados em poses esquisitas,

gritando e fazendo tristes fitas!

Morremos de todas as maneiras,

sossegados, à sombra das bananeiras,

ou, no dia seguinte, acordando mortos,

mas serenos, cheios de confortos.

Há mortes para todos os gostos,

Rui, e a nossa não é diferente:

morremos, às vezes, nos nossos postos

e outras, teremos, com sorte, uma morte irreverente!

Tu morreste, Rui, como eu espero morrer,

cheio de memórias africanas, tão boas,

porque a África nos dava bom viver,

com um mar grande e frutas boas.

Devo-te, Rui, teres-me dado um palpite

para o lugar onde passar a noite de núpcias

um lugar na serra, habitado por Afrodite,

onde fiquei, descobrindo doces minúcias!

Fomos, Rui, ao longo dos anos,

conversando, concordando, discordando,

mas ultimamente já não fazendo planos,

porque o fim se vinha aproximando.

Se eu acreditasse no além,

pensaria em ali te encontrar,

para continuarmos em ameno conversar:

o muito magicar ensina-me, porém,

que, quando expiramos, é mesmo o fim:

mesmo não entendendo bem o nada,

tudo acaba, sei lá porquê, porque sim:

o nada é apenas a vida dispensada.

Mas não vale a pena, Rui, ralar-nos.

Porquê, no fim de contas, preocupar-nos?

Será mesmo que vale a pena.

só porque vamos sair de cena?

O que fomos ficará algum tempo na memória

de quem outrora muito amámos:

isto, depois, será pálida história

que se apaga como nós nos apagámos.


Eugénio Lisboa


Porque Confiar na Ciência?


Porque Confiar na Ciência?

de Naomi Oreskes
A mais recente novidade da colecção Ciência Aberta já disponível


Porque confiar na ciência?
Porque devemos confiar nos cientistas e nos médicos quando eles nos dizem que as vacinas são fiáveis?
Devemos levar os cientistas do ambiente a sério quando eles nos dizem que as alterações climáticas são verdadeiramente perigosas?
Porque devemos confiar na ciência, mesmo quando alguns políticos não o fazem?

 
Neste livro, baseado numa série de palestras proferidas na Universidade de Princeton e publicado originalmente pela Princeton University Press, Oreskes defende que é a evidência do contributo social do conhecimento científico que o torna fiável. Baseada na história da ciência, a autora explica‑nos que o processo de construção da ciência não é perfeito – aliás, nada do que é humano o é – e revela‑nos o modo como o consenso científico emerge, dando‑nos uma certa garantia de que o conhecimento científico obtido é fiável.
 
Com uma introdução do cientista político Stephen Macedo, as palestras de Oreskes foram escrutinadas por um conjunto de especialistas de várias áreas, aos quais a autora responde no final do livro.
 

Um livro essencial para compreender o que é a ciência.

EDIÇÃO EM INGLÊS DA "HISTÒRIA GLOBAL DE PORTUGAL"


 Divulgamos a edição, pela Sussex Academic Press, da obra The Global History of Portugal, dirigida por Carlos Fiolhais, José Eduardo Franco e José Pedro Paiva: http://www.sussex-academic.com/sa/titles/history/fiolhais.htm


Esta edição em língua inglesa tem por base a publicação recente da História Global de Portugal, pelo Círculo de Leitores/Temas e Debates, em 2020:https://www.wook.pt/livro/historia-global-de-portugal-jose-eduardo-franco/23891852

História Global de Portugal contou com a colaboração de 87 autores que trabalham não só em Portugal como por todo o globo, portugueses e não portugueses,especialistas nas mais diversas subáreas da História, como história política, história institucional, história geográfica, história cultural, história da ciência, história económica, história social, história da arte e história religiosa.

Sinopse

Portugal foi ponto de chegada e de partida de gentes, culturas, línguas, ideias, tendências de gosto, comportamentos, crenças, instituições, produtos que sempre foram variáveis e que aqui e nos ubíquos lugares onde chegaram imprimiram sinais de miscigenação plurimodal, que foram enriquecendo as cores do mundo, mas também provocando disrupções, violência, tantas vezes guerra, sofrimento e fenómenos de resistência. Portugal é o resultado de incontáveis dinâmicas de diálogo e de choque com outros lugares. E o mundo tem traços das mediações que os habitantes do espaço de Portugal espalharam. É esta fascinante história que aqui se pretende contar para melhor percebermos quem somos e o mundo em que vivemos.


quarta-feira, 15 de setembro de 2021

IN MEMORIAM RUI BAPTISTA (1931-2021)

Rui Baptista com um dos seus netos (aqui)

O nosso companheiro de há muito anos deste blogue, Rui Baptista, de seu nome completo Rui Vasco Júlio Pereira da Silva Baptista, faleceu no passado dia 13 de Setembro de 2021, com a bela idade de 90 anos. 

Deixou de escrever no blogue devido a problemas de saúde há alguns meses e agora que partiu estamos com saudades da sua escrita clara e da sua opinião desassombrada. Podia-se concordar ou não com as suas posições, mas não só as expressava num português de lei, como as defendia com toda a sua convicção. Respondia a todos os comentários, mesmo aqueles que lhe eram desfavoráveis e que eram, por vezes, feitos num tom desagradável. Para todos tinha “fair play”, uma expressão do desporto, actividade que cultivou e defendeu. Mas os seus temas não eram se limitavam ao desporto, ele interessava-se pela qualidade da escola e também, mais em geral, pela qualidade dos serviços públicos, em particular os de saúde (incluindo a reabilitação física). A constituição de uma Ordem dos Professores foi uma das suas causas durante largos anos, tendo como advogado dela escrito numerosos artigos. 

Nascido em Luanda, Angola, em 19 de Maio de 1931, Angola, estabeleceu-se nos anos 50 em Lourenço Marques (hoje Maputo), a capital de Moçambique. Passou aí 18 anos da sua vida, nascendo naquela colónia os seus seis filhos. Foi professor de Educação Física na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque: inúmeros alunos guardam dele gratas recordações (e o Rui tinha muito orgulho nisso). Veio para Portugal dois dias antes da independência moçambicana não como “retornado” (pois era de Angola), mas como “refugiado”, como ele gostava de dizer. 

Foi professor de Educação Física na Escola José Falcão em Coimbra e na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra, a mais recente das faculdades da antiga universidade, e do Instituto Superior de Educação Física da Universidade do Porto. Reformou-se aos 70 anos, com mais de 40 de serviço público.

Como atleta de halterofilismo no Clube Ferroviário de Lourenço Marques, foi campeão de Moçambique de levantamentos culturistas no seu escalão (médio) e treinador dessa modalidade, assim como de ginástica e de saltos no tapete (a equipa do Ferroviário foi campeã distrital). No seu tempo de juventude e meia-idade tinha um físico bem musculado, que ficou registado em fotografias que ele mostrava. Foi, em Moçambique, dirigente ou representante desportivo em várias modalidades, como o halterofilismo, a natação e o voleibol.

Pertenceu à secção de Ciências da Sociedade de Estudos de Moçambique, onde dirigiu a biblioteca e proferiu várias conferências, prática que continuou em Portugal. Além da leitura, sempre teve vários interesses culturais, que alimentavam a bagagem que apoiava a sua escrita, Escreveu não só nosso blogue (muitas foram as vezes que nos telefonava pedindo, sempre delicadamente, para resolver qualquer problema gráfico, dado não dominar todos os “truques” informáticos) como noutros, nomeadamente o Bigslam.pt, sobre temas desportivos ligados a Moçambique, mas também em vários jornais, nacionais e regionais, designadamente o Público, o Correio da Manhã, o Jornal Novo e o Diário de Coimbra (para não falar já do Notícias de Lourenço Marques e da Tribuna de Lourenço Marques). 

Terão sido mais de mil os seus artigos publicados na imprensa ao longo da sua vida. Escrevia com facilidade, socorrendo-se sempre de forma oportuna de uma vasta selecção de citações, que a sua prodigiosa memória guardava. Em Moçambique publico os livros Os pesos e halteres, a função cardiopulmonar e o Dr. Cooper (1973), em que polemizava com o Doutor Kenneth Cooper, médico da NASA, sobre os benefícios daquela modalidade, e Sem contemporizar: a razão de um longo silênciao ou a minha resposta à revista Tempo e ao Sr. Rui Cartaxana. Em Portugal publicou Do Caos à Ordem dos Professores (2004) e O Leito de Procusta: Crónicas sobre o sistema educativo (2005), saído do prelo do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados.

Foram as questões do ensino que nos aproximaram e que nos levaram a convidá-lo para o blogue, convite que ele logo aceitou, passando a ser um dos nossos. De vez em quando ele perguntava se achávamos bem afixar isto ou aquilo. Nós respondíamos que o nosso blogue era absolutamente livre: ele que pusesse o que muito bem entendesse. Assinava por baixo e quem não estivesse de acordo tinha o direito de se manifestar, como de resto acontecia amiúde.

Foi ele que trouxe para o blogue o grande escritor (ensaísta e poeta) Eugénio Lisboa, que ele conheceu em Moçambique, um ano mais velho do que ele, e que nos tem ultimamente honrado com a sua produção literária e comentarística.

O De Rerum Natura, um blogue criado há mais de 13 anos que se centra na Ciência, Educação e Cultura, mas que vai muito além disso, conforme a vontade dos autores que para ele contribuem, ficou mais pobre com a morte de Rui Baptista, que era, além do mais, um homem generoso e bom. 
 
As nossas sentidas condolências à família. 
 
Que descanse em paz!
Carlos Fiolhais e Helena Damião

Décio Martins - Doutoramento em Historia das Ciencias

A DIGITALIZAÇÃO NA ESCOLA PÚBLICA: "HÁ UMA MORAL A TIRAR..."

O sistema público apoiado por Adams, Jefferson e outros foi mais bem descrito 
por Horace Mann, outro grande defensor das escolas públicas nos EUA. 
Ele afirmava que as escolas públicas eram a maior invenção da humanidade; 
e as considerava as grandes equalizadoras das sociedades! 
Entretanto, o sistema público que incontestavelmente levou os EUA 
à sua grande eminência no século XX infelizmente já não é considerado útil
pelos líderes corporativos e políticos na minha nação.
David Berliner, 2018, 46 (aqui)

Na última edição do semanário Expresso saiu um artigo de opinião, assinado pelo jornalista Luís Pedro Nunes, que deve ser lido e tido em especial consideração por aqueles, talvez já poucos, que ainda se importam, mesmo que minimamente, com a função dos sistemas educativos públicos: educar, no verdadeiro sentido que a palavra tem, todas as crianças e jovens, independentemente das suas origens e características.

Nessa nobre e exclusiva tarefa, esses sistemas não podem deixar de se orientar por princípios éticos reconhecidos e estabelecidos em documentos internacionais, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e nacionais, como a Constituição da República Portuguesa. Entre eles contam-se, recordo e sublinho, a igualdade e a justiça. 

Portanto, todas as crianças e jovens devem ser educados, nas escolas que se encontram sob a tutela dos Estados democráticos — nem falo dos que o não são —, em função destes e de outros princípios igualmente estimáveis. 

Se tivermos alguma capacidade de observação e quisermos ser honestos, reconheceremos o progressivo afastamento desse acordo a que, como civilização, conseguimos chegar, e ainda não há muito tempo. 

Sei bem que a figura plural e sinistra, que se acolhe sob a designação de "interessados na educação", se tornou omnipresente em tais sistemas e, por falência dos Estados — ou seja, nossa —, tomou conta deles. Os grandes magnatas das tecnologias digitais estão entre os primeiros "interessados" e disso não fazem segredo.

Com as suas palavras encantatórias, distraem(-nos) da realidade, conduzindo-a a seu bel-prazer. A determinação e os meios que possuem, sem encontrarem contestação de maior, garantem magníficos resultados... Mas há quem perceba o seu jogo. Luís Pedro Nunes, mesmo sem ser especialista em educação, percebeu-o bem. Basta, suponho eu, estar-se atento ao que se passa e ter-se sentido ético.

Lê-se ao lado o título do seu artigo, mas escrevo-o para lhe redobrar a força que tem: Ricos a aprender como pobres... sendo continuado... e pobre cheios de gadgets tecnológicos viciantes e caros, sendo rematado com uma terceira frase: Há uma moral a tirar disto. Por si só, ele bastaria para se perceber a iniquidade: a educação pública que uns fabricam e impõem aos filhos dos outros não é a mesma que querem para os seus. Estes têm a educação privada que potencia a inteligência e mantém as distâncias sociais, económicas e outras. Diz o articulista:
"... já não são só os gurus da tecnologia, os milionários de Silicon Valley que proíbem os filhos de usar telemóveis ou de se aproximar de um ecrã, como os seus funcionários, os que inventam e desenvolvem essa indústria, que colocam os seus infantes em escolas 'sem tecnologia'. Há mesmo toda uma 'escola de pensamento' de papás e mamãs ultrarricos que exigem que os seus filhos sejam criados como luditas sem acesso a internet, smartphones e videojogos. 
Para os pobres — e mundo em geral — continua vigente a ideia de que é absolutamente essencial colocar computadores nas escolas para a pequenada ser digital (...) 
Já os milionários querem que os colégios hipercaros não tenham computadores e que os filhos brinquem com cavalinhos de madeira e às refeições conversem (...) a tendência espalhou-se às chamadas tech-elites. Esses pais temem não a tecnologia em si, mas sim 'o tempo perdido a fazer coisa nenhuma' por não ser produtivo, mas socialmente destrutivo. Ou seja: na parte em que eles descobrem modos de viciar pessoas em estar agarradas aos ecrãs (...). 
Por isso dizem que a sua descendência 'precisa de aprender a ser criativa, a ter pensamento crítico e a resolver problemas'. O que pelos vistos não se consegue a passar 5 horas no Instagram ou no TikTok. Quem trabalha em Silicon Valley sabe que os nossos cérebros estão raptados pelos smartphones. E querem obviamente poupar os filhos. 
Com os novos desenvolvimentos de ´design persuasivo´ (que tem apoio de psicólogos na conceção, o que levanta dúvidas no campo ético) e inteligência artificial ninguém tem hipótese de desligar após estar agarrado. As grandes empresas de tecnologia estão a fazer uma experiência social à escala global com as crianças — a retirar-lhe competências sociais e cerceá-las da sua humanidade. Vai ser giro (...).
Os pais ultrarricos tech querem os filhos a aprender com ferramentas de pobres porque sabem o pendor diabólico do que estão a criar (...). Mas o destino está traçado: a tecnologia vai escravizar-nos sem piedade (...).
Há algum tempo deixei aqui uma nota sobre o mesmo assunto. Devo dizer que, ao rever os depoimentos dos "pais ultrarricos tech" — a expressão é interessante! —, me toca particularmente o tom neutro com que admitem beneficiar os próprios filhos em prejuízo dos filhos alheios. Mas ainda me toca mais os educadores da escola pública fazerem, convictamente, o jogo. 

Há, na verdade, "uma moral a tirar disto tudo": quando acordarem, se acordarem, pouco ou nada haverá a fazer por tantos milhões de miúdos que, sendo, pela nascença excluídos do selecto "clube global de eleitos", estão condenados à ignorância certificada e, em última instância, à alienação.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

JORGE SAMPAIO, UM POLÍTICO IMPROVÁVEL


Novo texto de Eugénio Lisboa: 

Jorge Sampaio, que foi esta coisa mais rara do que se supõe – um homem fundamentalmente decente – acaba de nos deixar. 

Foi, desde os tempos de estudante, um homem saudavelmente turbulento, corajoso e generoso, isto é, capaz de se arriscar, na luta contra um regime iníquo, pelintra, pifiamente provinciano, que se queria pobrete mas alegrete, o que o não impedia de ser brutal quanto baste. 

Como jovem advogado – que dizem ter sido brilhante – defendeu incansavelmente os presos políticos acusados de coisa nenhuma, pelos sipaios do antigo regime, incluindo um grande número de estudantes, acusados do crime nefando de afixarem cartazes a pedir que o país mudasse.

Jorge Sampaio foi político por generosidade de temperamento, porque tinha o coração no lado certo e porque a falta de respeito pelos direitos humanos, tão acarinhada pelo Estado Novo, lhe fazia mau sangue.

Era, dizem, muito impulsivo e emotivo, características que costumam habitar em seres que não sofrem bem as injustiças e os atropelos de toda a ordem.

Era hábil, politicamente, como se comprova com ter conquistado a difícil câmara de Lisboa e ter ascendido ao topo da hierarquia política: a Presidência da República. Mas subiu – coisa altamente improvável – sem se conspurcar. Subiu porque usou a mais esbelta e decente das armas que normalmente levam ao topo da pirâmide: segundo Sócrates, via Platão, é mais fácil corromper do que persuadir. Sampaio ficou conhecido por preferir a segunda: a persuasão, em que era, dizem, exímio. 

Jorge Sampaio deixa-nos este património invulgar em qualquer político: uma carreira impoluta que, mesmo assim (ou por isso) se impôs a correligionários e a adversários políticos. E ao povo em geral. O filósofo espanhol Ortega y Gasset escreveu um ensaio admirável, que todos os políticos (e os não políticos também) deviam ler: “Mirabeau ou o político”.

Neste ensaio, admiravelmente pensado e melhor escrito, o pensador espanhol, servindo-se de Mirabeau, como arquétipo do político, desvela, com invulgar argúcia e minúcia, de que metal é feito este peculiar animal: o político – as virtudes que tem e as que não tem, acontecendo que são estas segundas, as que não tem, que sobretudo lhe permitem subir no organograma do poder. Sampaio, improvavelmente, ascendeu ao topo, fazendo profusamente uso das virtudes que Mirabeau não teve, principalmente esta: uma inatacável decência. 

O áspero e grande escritor francês Henry de Montherlant escreveu um dia isto, acerca do seu colega Roger Martin du Gard, em tudo tão diferente de si: “Um escritor francês vivo, que se pode respeitar – é sensacional.”

Vou, com gosto, parafraseá-lo, para me despedir de Jorge Sampaio, a quem todos tanto devemos: “Um político que sobe ao ponto mais alto da hierarquia, sem se sujar – é sensacional.” 
 Eugénio Lisboa

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS NO RÓMULO NA NOITE EUROPEIA DOS INVESTIGADORES




 

LUTO PARENTAL


CIÊNCIA, TECNOLOGIA E MEDICINA NA CONSTRUÇÃO DE PORTUGAL


 

FRANCISCO GUIMARÃES E A SUA “SELECÇÃO NACIONAL”


Meu artigo no jornal I de hoje:

Francisco Guimarães é um jovem treinador de futebol (tem só 24 anos!), que é também comentador desportivo na Sport TV e estudante de Artes e Humanidades na Universidade de Lisboa. Tendo praticado o «desporto-rei» preferiu, lucidamente, ser treinador, ao reconhecer que não tinha talento suficiente como jogador. A carreira de Francisco Guimarães ainda é muito curta, mas, aos 15 anos, tornou-se o treinador mais novo do país, e depois disso adquiriu experiência internacional ao treinar a equipa do Delhi United, na Índia.

Como ele acha e bem que a vida pode ser enriquecida com lições do desporto, lembrou-se de escrever um livro em que “convocava” uma equipa de 23 figuras públicas, repartidas entre guarda-redes, defesas, médios e avançados, em que elas falassem não tanto de desporto, mas mais da vida em geral, embora sempre na óptica da sua experiência profissional e pessoal. O livro acaba de sair com a chancela da Casa das Letras, do grupo Leya. Intitula-se Convocatória. Conversas para ir a Jogo, e tem uma reflexão final do general António Ramalho Eanes, recolhida pelo autor. O livro tem, antes da introdução de Francisco Guimarães, dois prefácios de dois jovens, o primeiro do jogador de futebol formado nas escolas do Sporting Francisco Geraldes (26 anos), que está no Estoril e que ficou muito conhecido por uma fotografia em que aparece no banco dos suplentes a ler o Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago (ele próprio é autor de um livro de poesia, Cito Longe Tarde, saído este ano na Cultura Editora, com prefácio de Pilar del Rio, viúva de Saramago). E o segundo do escritor Afonso Reis Cabral (31 anos), que publicou o seu primeiro livro de poesia aos 15 anos, e que ganhou o Prémio Leya em 2014 com o livro O Meu Irmão e o Prémio Literário José Saramago em 2019 com o livro Pão de Açúcar (Dom Quixote, 2018). O escritor, que é trisneto de Eça de Queiroz, confessa no seu prefácio que não sabe nada de futebol.

Francisco Guimarães explica na Introdução a ideia do livro, que tem a sua originalidade. Como se lembrou de fazer a sua «selecção nacional» e quais são as qualidades dos jogadores escolhidos: «Temos avançados que se atiram de cabeça para a vida, temos médios que pensam em cada detalhe, temos defesas que sabem coordenar a equipa e que não têm medo de disputar qualquer lance e temos guarda-redes que não querem sofrer golos e que, quando sofrem (porque a vida tem destas coisas), se levantam de imediato. São todos da mesma equipa, mas cada um tem uma táctica diferente para responder ao desejo do seu coração, desejo esse que pertence a todos, desejo esse que parte da singularidade de cada elemento para a totalidade de um grupo unido e coeso.»

E, mais abaixo: «Este é um livro que, apesar de não ter directamente a ver com o futebol, parte dele para conhecer o mundo. Ainda que em quase nenhuma conversa, excepto com os convidados que habitam esse meio (…). Através do ideal de jogo torna-se possível vislumbrar beleza, justiça, liberdade, pensamento, integridade, o sentido do outro, o valor das regras, etc. No fundo, tudo aquilo que acontece na vida esta presente num jogo de futebol.»

Quem são os convidados de Mister Francisco Guimarães, formando assim a sua «selecção nacional»? Ele escolheu 23 «jogadores», como é costume para a selecção de futebol, mas buscou um equilíbrio de proveniências.

Para guarda-redes, foram escolhidos César Mourão (humorista), Mafalda Ribeiro (escritora e oradora, portadora de deficiência física congénita) e este escriba (físico). Para a defesa foram chamados Albano Jerónimo (actor), Laurinda Alves (jornalista e professora de Comunicação), Fernando Santos (treinador de futebol e seleccionador nacional), Leonor Beleza (jurista e presidente da Fundação Champalimaud), Miguel Araújo (músico), Bernardo Silva (jogador de futebol), Maria João Leitão (médica neonatologista) e o Padre Pedro Quintela (fundador da Associação Vale de Acór, na margem Sul do Tejo). Na linha média, alinham Miguel Sousa Tavares (jornalista e escritor), Pedro Abrunhosa (músico), Carlos Moedas (político), Samuel Úria (músico), Rui Vieira Nery (musicólogo), Isabel Almeida e Brito (educadora e reitora do Colégio de São Tomás, em Lisboa) e Manuel Aires Mateus (arquitecto). Finalmente, para avançados foram convocados José Mourinho (treinador de futebol), Fernando Guedes (empresário e CEO da Sogrape), Miguel Oliveira (motociclista), Afonso Cruz (escritor) e José Avillez (chef de cozinha).

Constituiu para mim uma surpresa ter sido considerado uma das opções para a baliza. De facto, em jovem joguei a guarda-redes, mas apenas no desporto escolar, e sem grande êxito (até porque comecei a usar óculos para corrigir a miopia). O Francisco veio a Coimbra entrevistar-me. Correu tudo muito bem: juntou, num formato que é o dele, parte daquilo que eu disse com aquilo que ele queria dizer. O que eu disse ficou em itálico e o que ele quis dizer ficou em letra normal. Gosto de ajudar os jovens que me procuram para os seus projectos. Não vou aqui dizer mais nada sobre a minha contribuição porque ninguém é bom juiz em causa própria. Só digo que, se ele usou do mesmo procedimento com os outros entrevistados, então todos os depoimentos foram recolhidos com a maior correcção e simpatia.

Não podendo falar de todos, opto por falar, respigando excertos, dos convocados ligados ao futebol. Não são muitos: tirando o futebolista prefaciador, são só três: dois treinadores e um futebolista, todos eles no activo e muito bem sucedidos.

Fernando Santos (63 anos), começou por ser jogador (defesa, como nesta convocatória) do Estoril e no Marítimo. Completou, quando era jogador, uma licenciatura no Instituto Superior de Engenharia do Politécnico de Lisboa. Tendo sido um jogador modesto, brilhou depois como treinador: treinou o Estoril, o Estrela da Amadora, o Porto (onde ganhou o quinto campeonato seguido, razão por que ficou conhecido como o «engenheiro do penta»). Depois andou entre a Grécia e Portugal, tendo treinado entre nós o Sporting e o Benfica (foi o primeiro técnico português a treinar os «três grandes»). Está à frente da selecção nacional desde 2013, tendo ganho o Campeonato da Europa em 2016 e a Liga das Nações em 2019. Conheci-o pessoalmente no programa da RTP «Prós e Contras», emitido de Fátima por ocasião da visita do papa Francisco ao santuário. Fernando Santos é uma pessoa muito religiosa, conforme se pode ver na entrevista que deu ao Francisco Guimarães. A sua táctica neste livro é «Tornar alguém melhor». Essa táctica é ilustrada com uma história passada com o Jorge Andrade, defesa central do Porto e da selecção: «O Jorge Andrade, um dia, entrou na minha cabina preocupado porque ia ter um exame de matemática. ”em problema, eu dou-te explicações, mas não vais deixar de treinar.” Todos os meus jogadores sabem que podem contar com a certeza da relação humana.»

O único jogador de futebol convocado pelo Francisco para este livro foi Bernardo Silva, que é apenas um pouco mais velho (27 anos). Começou a sua carreira no Benfica, mas depois deu o salto para fora, primeiro para o Mónaco e depois para o Manchester City. Frequentou uma escola de língua inglesa em Lisboa, o que lhe permite falar inglês na perfeição. É um jogador criativo e elegante no meio-campo, embora no livro esteja colocado na defesa. Disse ele ao Francisco: «Eu adoro jogar futebol, é o que mais gosto de fazer. Mas no dia em que deixar de encontrar uma razão maior aqui, não me derrotarei e parto para outra coisa que a vida me proporcione. Vou à minha vida procurar o que me faz mais feliz.» Mas ainda falta muito para ele deixar o futebol: na terça-feira marcou um golo extraordinário, pela selecção das quinas, ao Azerbaijão.

Nos avançados figura José Mourinho (58 anos), the special one. Teve, como Fernando Santos, uma carreira modesta como futebolista. Mas fez o curso de professor de Educação Física da Universidade Técnica de Lisboa. E, como treinador, revelou-se um predestinado. Aprendeu com Bobby Robson, de quem foi adjunto no Sporting, no Porto e no Barcelona. Depois de curtas passagens pelo Benfica e pelo União de Leiria, ganhou em 2004 a Liga dos Campeões da Europa à frente do Porto. Depois treinou o Chelsea, o Inter (ganhando a sua segunda Champions), o Real Madrid, o Manchester United, o Tottenham e a Roma. Foi considerado o melhor treinador do mundo em várias ocasiões. E foi distinguido com o título de doutor honoris causa pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa. Sobre as bases académicas disse ao Francisco: «(…) uma base académica, por muito básica que seja, ajuda a pensar, a perceber, a sistematizar. Antes e depois do jogo, há um enorme espaço aberto a essa sistematização e interpretação, que vêm muito do lado académico.» A sua vida é de dedicação plena à profissão: «Tenho 975 jogos oficiais como treinador principal, comecei a fazer contas dos 90 minutos desses 975 jogos, mais o tempo adicional de cada jogo, e meti as mãos à cabeça…! Os minutos de treino que estavam por trás disso, os minutos que estive de pé junto à linha lateral ou com o cu sentado no banco…! É uma história de amor!»

Tal como faz com os outros entrevistados, o Francisco intercala as palavras de Mourinho com palavras suas, bem escritas No capítulo dedicado ao special one cita ou refere, entre outros, Séneca, Fábio Máximo, Lev Tolstói, Charles Darwin, o papa Bento XVI, Martin Scorsese e António Damásio. O resultado é um livro bastante inspirador.

 


"@ Cientista Regressa à Escola”: LANÇAMENTO A 8 DE SETEMBRO, DIA INTERNACIONAL DA LITERACIA

Informação recebida dos organizadores:

E se cada aluna/o em Portugal pudesse dizer “Eu já conheci um/a cientista”?

No dia em que se comemora o Dia Internacional da Literacia, a Native Scientist lança um programa educativo em Portugal com o intuito de reduzir desigualdades de acesso à ciência, contribuir para o enriquecimento curricular na área das ciências e promover o ensino superior junto dos estudantes mais novos.

Com o nome “@ Cientista Regressa à Escola” (www.cientistaregressaescola.pt, a ser publicado no dia 8 de setembro), o novo programa de enriquecimento curricular dá às alunas e alunos do 4º ano de escolaridade a oportunidade, única e inesquecível para muitas/os, de conhecerem e interagirem de perto com um/a cientista. De uma forma original, o programa visa aproximar crianças e cientistas promovendo o regresso destes à sua escola primária, à sala de aula onde aprenderam o ABC e o 1+1 são 2. Durante um dia inteiro, cada cientista participante no programa visita a sua escola primária e partilha, de forma acessível e interativa, conceitos científicos relacionados com o seu trabalho.

Ao criarem este programa, as fundadoras Joana Bordalo, Joana Moscoso e Matilde Gonçalves, tencionam fomentar a literacia e a cultura científica na sociedade portuguesa, aproximando a ciência da sociedade e ancorando o projeto a conceitos tão importantes como a humanização da ciência e a educação circular. “Há estudos e relatórios que indicam que muitas alunas e alunos perdem o interesse pela ciência ou catalogam a ciência como “difícil” muito cedo no seu percurso escolar, por volta dos 10 e os 12 anos. Por isso, ao desenvolver o programa “@ Cientista Regressa à Escola”, queremos levar a ciência aos finalistas do 1º ciclo do ensino básico. O objetivo é que alunas e alunos sintam a utilidade e a relevância da ciência desenvolvida por pessoas que já foram crianças "como elas e eles" e “até” frequentaram a mesma escola" - diz-nos Joana Moscoso. 

A iniciativa surge na sequência da expansão da Native Scientist (www.nativescientist.com) em Portugal, originalmente fundada por duas investigadoras portuguesas no Reino Unido, entre elas Joana Moscoso. Baseia-se nos princípios de criar pontes entre crianças e cientistas, reduzir desigualdades e promover o ensino superior.

Para participar no programa, Matilde Gonçalves explica que “docentes do 1º ciclo, direções de agrupamentos e/ou municípios interessados em acolher este programa e receber cientistas, devem aceder ao website www.cientistaregressaescola.pt e registar-se no formulário disponível para o efeito. Qualquer docente do 1º ciclo, especialmente os que têm atualmente alunas/os do 4º ano, o poderá fazer, independentemente do seu interesse pelas ciências ou da localização da escola onde leciona. Ao receber um/a cientista, a escola estará a dar a oportunidade a discentes de duas turmas de conhecerem alguém que é cientista e aprenderem, de uma forma vivida, novos conceitos e vocabulário através da interação direta com um profissional das ciências.”

Joana Bordalo acrescenta ainda que “para participar como cientista a pessoa terá de fazer investigação em qualquer área do conhecimento, numa instituição científica nacional ou internacional, e ter frequentado o 1º ciclo do Ensino Básico (isto é, a escola primária) em Portugal. Uma vez recebidos os registos de cientistas e docentes através do website do programa, o emparelhamento entre cientistas e docentes será feito por nós e comunicado atempadamente por email aos registados. Todas as pessoas inscritas e emparelhadas terão a formação e o apoio logístico necessários à realização das oficinas.”

Alicerçado numa lógica de sustentabilidade, o programa junta crianças e cientistas da mesma terra natal e pretende alargar o seu alcance todos os anos até todas as turmas do 4º ano poderem participar anualmente. Para tal, a adesão de cientistas e docentes é essencial. Como nos explica Joana Bordalo, “no primeiro ano do programa pretendemos contar com a participação de cerca de 750 estudantes e perto de 15 - 30 cientistas e docentes. Para chegarmos a todas as turmas do 4º ano, gostaríamos de contar com o envolvimento da totalidade do corpo docente do 1º ciclo e cerca de 4 mil cientistas anualmente.”

Para as três fundadoras do projeto, “são objetivos ambiciosos e arrojados, mas acreditamos que com boas parcerias e com o apoio da sociedade portuguesa os podemos alcançar.” À data de hoje, a equipa do programa conta com o apoio de várias instituições de investigação nacionais, alguns municípios e está em diálogo com o Ministério da Educação tendo já confirmado o apoio da Direção-Geral de Educação.

O programa visa combater a baixa literacia científica e a desigualdade de acesso à ciência, estando por isso alinhado com os interesses nacionais e as metas do desenvolvimento sustentável estabelecidas pelas Nações Unidas para 2030.

Para mais informações contactar joana.bordalo@nativescientist.com ou visitar website ou redes sociais:

www.cientistaregressaescola.pt

- handle @cientistare

- www.facebook.com/cientistare

- https://www.linkedin.com/company/cientistare

- https://twitter.com/CientistaRE
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"AS PALAVRAS" DE EUGÈNIO LISBOA

 Novo poema de Eugénio Lisboa:

AS PALAVRAS 

    No poema, as palavras encontram outras palavras,

    que nunca tinham visto, mas logo se enamoram,

     uma da outra, porque se sentem próximas

     uma da outra, atraídas por uma química irresistível.

     As palavras, no poema,

     fazem casamentos singulares, inesperados, fecundos,

     e, juntas, exploram o mundo,

     como, antes, nunca tinha sido explorado.

     Palavras banais, em que ninguém repara

     e andam para aí usadas, quase sem serem vistas,

     surgem de novo, com outra força, com outra luz,

     com outra sedução, que lhes dá o poeta,

     com a sua lâmpada de Aladino.

     Friccionando bem as palavras,

     o poeta trá-las de novo à vida

    como o Cesário, que, tuberculoso,

    sonhava com uma mulher,

    imaginem,

    “aromática e normal”!

   O Cesário, doente e, por isso,

  nada normal,

ficou seduzido, não por uma mulher muito bela

ou muito vistosa ou muito inteligente,

mas por uma mulher que tivesse

aquilo que ele não tinha e não voltaria a ter:

a normalidade da saúde que,

naquela mulher sonhada, se iluminara, de repente,

como a coisa mais apetecida do mundo.

A palavra “normal” foi assim ressuscitada da sua morte aparente

pela fragilidade criativa do Cesário.

É que as palavras têm tesouros escondidos,

só há que encontrá-los, para transformar palavras murchas

em palavras cintilantes e acabadinhas de nascer.

Não se esqueçam das palavras, mesmo as mais humildes:

há nelas possibilidades que ninguém imagina.

Os especialistas destas coisas chamam-se poetas.

Eugénio Lisboa
06.09.2021

domingo, 5 de setembro de 2021

Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal do Porto

[Um grupo que se dedica a promover a partilha de conhecimento sobre a dimensão histórica, artística e cultural do Romantismo em Portugal (no qual eu me incluo) tomou a seguinte posição pública (com a qual eu concordo) que em seguida se transcreve]

Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal do Porto, Dr. Rui Moreira;

O Grupo Saudade Perpétua (https://saudadeperpetua.weebly.com) foi fundado em 2011 para promover a partilha de conhecimento sobre tudo o que diga respeito à dimensão histórica, artística e cultural do Romantismo em Portugal. Composto maioritariamente por especialistas neste tema, o Grupo tem promovido encontros informais e científicos, além de publicações. Por conseguinte, não poderíamos ficar sem reacção perante o ocorrido no Museu Romântico, e que consideramos grave.

O Museu Romântico da Quinta da Macieirinha, no Porto, que nos habituámos a visitar, como espaço de recriação de ambientes oitocentistas, literalmente desapareceu como tal. Actualmente, apresenta um conjunto de obras contemporâneas, constituindo a designada "Extensão do Romantismo" coordenada pelo "director artístico" dos museus da cidade do Porto, Nuno Faria.

Surpreende este novo projecto, demolidor de um outro apresentado pela Câmara Municipal do Porto apenas três anos antes. No palacete da Quinta da Macieirinha, com uma magnífica vista sobre o Douro, antiga casa de campo da família Ferreira Pinto Basto (negociantes e industriais portuenses), reconstituíam-se espaços deste período e um episódio singular e dos mais marcantes na história da cidade, dado que foi morada de exílio do rei da Sardenha-Piemonte, Carlos Alberto de Sabóia-Carignano, em 1849, após a derrota na batalha de Novara contra o Império Austríaco. 

Na verdade, quem hoje visita o palacete apercebe-se da destruição do projecto (re)apresentado em 2018, pois desapareceram as portadas de madeira interiores das janelas e a pintura de “fingido” das paredes das escadas, técnica normalmente utilizada no século XIX. Estas preciosas intervenções na “escaiola” – acabamento dado a paredes, revestidas de estuque que imitavam o mármore polido – deram lugar a uma pintura monocromática que tudo uniformizou, de modo aparentemente irreversível. Retiradas portadas e cortinados, ainda se mantêm as obras de Jean-Baptiste Pillement (1728-1808), pintor e decorador francês, com uma pintura de delicadas representações da natureza e que muito influenciaram os artistas portugueses do século XIX. 

Em 1972 a Câmara Municipal do Porto decidiu aqui instalar o Museu Romântico, recriando os espaços de uma casa de Oitocentos, ligada ao gosto das burguesias nortenhas, quer através de peças e mobiliário original, quer através de algumas réplicas, em espaços que se baseavam nos desenhos, aguarelas e documentos da época referentes a estes espaços intimistas. 

Em 2018, com verbas comunitárias, alterou-se o percurso do Museu, apresentaram-se textos sobre a história da casa e recuperaram-se muitas obras, como o processo técnico de escaiola, na escadaria, com intervenções de conservadores-restauradores. Ora, a presente “reconfiguração” altera a ideia inicial deste projecto. Sendo um Museu recuperado com dinheiros comunitários, com verbas de meio milhão de euros, questiona-se o radicalismo da actual intervenção, e até a aceitação ou possibilidade legal desta opção, longe da proposta de 2018 e que o Presidente da Câmara tanto valorizou na sua inauguração.  

A partir de 2018, o Museu Romântico da Quinta da Macieirinha tornou-se o museu municipal mais visitado, justificando, assim, o esforço e as avultadas verbas comunitárias. Paradoxalmente, o "director artístico" pretende agora revelar o espaço como “produto cultural”, inscrevendo-o num conjunto de "produtos culturais" que se apresentarão intervencionados. Alude aos Museus municipais, como a Casa Marta Ortigão Sampaio, onde se exibirão obras de gosto romântico. Estas peças estavam expostas no Museu Romântico da Quinta da Macieirinha e foram recentemente deslocadas para as reservas daquele Museu. Acrescenta ainda o "director artístico" que as obras se poderão observar nas várias extensões do Museu da Cidade. Assim, dispersa-se um espólio e uma colecção, certamente registada e inventariada. Mais grave ainda é o facto de esta dispersão incluir peças doadas e/ou depositadas propositadamente para a constituição do Museu Romântico, que agora deixou de existir como tal. 

O espaço deste Museu transformou-se em “espaço performativo”, por o "director artístico" estar convencido que “não era possível prolongar mais a visão que ali se perpetuava e teve o seu tempo de existência”. Assim, supõe-se que haverá um fundamento legal para esta alteração radical de um projecto tão recente, que teve a concordância do Presidente da Câmara do Porto. O director artístico argumenta com um “distanciamento social (…) uma inacessibilidade aos visitantes” devido à existência de baias, mas isso sucede em muitos museus nacionais e internacionais, com o objectivo de salvaguardar as peças. 

Este novo projecto pretende que o espaço seja um “lugar de encontro, de discussão e de construção da comunidade”, considerando o herbário de Júlio Dinis peça fundamentalmente romântica e representativa da sua “matriz”. Porém, questionamos esta radicalização que, desde logo, elimina o diálogo – interessante e propício à reflexão – entre peças de épocas diferentes; questionamos a afirmação de espaço redutor da casa, sem ligação com o público, quando sabemos que o Museu Romântico da Quinta da Macieirinha tinha um elevado número de visitantes. Realizavam-se inúmeras actividades escolares. Estranha-se também que alguns técnicos tenham preferido pedir transferência para outros museus. 

Na verdade, torna-se chocante e até revoltante que não se tenha estabelecido um diálogo temporal, entre ambientes românticos; uma sedução por espaços – que até poderiam ser regularmente remodelados, mas que também poderiam traduzir escolhas e gostos de uma época, em confronto com a espacialidade das obras contemporâneas; a visibilidade de referentes que poderiam combinar, ajustar-se ou confrontar com os romantismos… Lamentavelmente, optou-se por uma mera exposição de arte contemporânea, remetendo para um discurso contemporâneo sem debate nem diálogo com eixos oitocentistas, hoje quase desaparecidos devido a um ostensivo propósito em os eliminar. O palacete da Quinta da Macieirinha agora apenas pontualmente apresenta referentes românticos, como se de um exotismo se tratasse, sobrepondo-se-lhe um espectáculo contemporâneo somente com ligeiras reminiscências oitocentistas.

O Museu Romântico da Quinta da Macieirinha era um espaço museológico que fazia todo o sentido, no contexto da cidade e do país. A sua reformulação criou um vazio e empobreceu o Porto.

Por tudo isto, dentro do que seja ainda possível, apelamos à reversão do erro cometido, e à não dispersão do espólio, de modo a que o Porto volte a ter um verdadeiro Museu Romântico - visto tratar-se da época áurea da cidade, e aquela em que, provavelmente, o Porto mais se destacou nacional e internacionalmente. 

3 de Setembro de 2021,

Pelo Grupo Saudade Perpétua:
    • Alexandra de Carvalho Antunes; Investigadora
    • Álvaro de Sousa Holstein; Escritor / Investigador independente
    • Ana Anjos Mântua; Conservadora do MNSR, Coordenadora da Casa-Museu Fernando de Castro
    • André Godinho Varela Remígio; Conservador-restaurador
    • António Santos da Cunha; Antiquário / Decorador
    • António Teixeira Lopes Cruz; Sócio gerente da Quinta "Villa Rachel" Lda. (vitivinicultura e turismo), Licenciado em Economia (UP)
    • Arlete Monteiro; Investigadora independente
    • Carlos Caetano; Investigador em História e História da Arte e da Cultura Portuguesas, CEPESE / CHAM  
    • Cláudia Emanuel; Investigadora doutorada em Estudos do Património
    • Cláudia Thomé Witte; Investigadora independente, membro do Instituto Histórico de Petrópolis
    • Cristina Moscatel; Historiadora, Investigadora do CHAM - Universidade dos Açores
    • Cristina Neiva Correia; Técnica superior do Palácio Nacional da Ajuda
    • Cristina Ramos Horta; Ex-Directora do Museu da Cerâmica das Caldas da Rainha
    • Duarte Nuno Morgado; Sacerdote
    • Fabíola Franco Pires; Arquitecta e investigadora do CITCEM
    • Fernando Manuel Cerqueira Barros; Arquitecto; investigador na área do Património Arquitectónico
    • Fernando Pinto Coelho; Arquitecto / Artista plástico
    • Francisco Queiroz ; Historiador de arte (CEPESE / ARTIS-IHA, FLUL)
    • Inês Thomas Almeida; Musicóloga
    • Isabel Marília Viana Peres; Docente
    • Ivo Rafael Silva; Investigador do Centro de Estudos Interculturais do ISCAP
    • Jorge Ricardo Ferreira Pinto; Geógrafo, docente do ISCET, investigador do CEGOT
    • José Daniel Soares Ferreira; Técnico de Museologia e Património
    • José Eduardo Reis; Bancário / Fotógrafo
    • José Huet; Profissional de seguros
    • José Pedro de Galhano Tenreiro; Investigador em História da Arquitectura
    • Lourenço Correia de Matos; Investigador, Académico correspondente da Academia Portuguesa da História
    • Margarida Araújo; Investigadora independente / Fotógrafa
    • Maria de Aires Silveira; Técnica superior, MNAC
    • Maria Gabriela Oliveira; Historiadora / Investigadora
    • Maria João Botelho Moniz Burnay; Conservadora / Palácio Nacional da Ajuda
    • Mário Adrião Almeida de Morais Marques; Engenheiro Civil
    • Mário Correia Moniz ; Arquitecto
    • Mário Manuel Marques; Cantor lírico e de concerto
    • Marta Páscoa; Arquivista
    • Miguel Ayres de Campos-Tovar; Investigador doutorado em História da Arte (Courtauld Institute of Art)
    • Nuno Miguel de Amorim; Designer de interiores
    • Paulo Duarte de Almeida; Professor
    • Paulo Ribeiro Baptista; Investigador
    • Pedro Pascoal de Melo; Investigador
    • Pedro Urbano; Investigador do IHC/UNL
    • Rafaela Ferreira ; Investigadora independente, criadora de conteúdos digitais
    • Ramiro Gonçalves; Técnico superior (DGPC/MNAA)
    • Ricardo Charters d'Azevedo; Engenheiro electrotécnico
    • Rita van Zeller; Gerente comercial / Jurista
    • Ruth da Gama; Docente
    • Sérgio Figueira; Historiador / Investigador do CITCEM, escritor
    • Sílvia Ferreira ; Historiadora de arte
    • Vítor Aguiar Branco Sampaio; Investigador do CITCEM (Grupo de Populações e Saúde)

sábado, 4 de setembro de 2021

Júlio Dinis e a Química

 

[Não tive ainda tempo de ir à Feira do Livro do Porto onde se pode visitar a agora designada “extensão do Romantismo” do museu da cidade que tem originado muito polémica pela intervenção radical no Museu do Romantismo e que tem como objeto central um herbário de Júlio Dinis. Devo realçar que o Romantismo não é avesso à novidade e à ciência, mas rejeita as intervenções (alguns dizem destruições) sem alma ou impostas. Vamos ver.]

Júlio Dinis (1839-1871) é o escritor portuense evocado na feira do livro, realizada em 2021 nesta cidade. Como é bem sabido, Júlio Dinis é o pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, formado em medicina, professor depois na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, que nunca exerceu medicina, devido em parte à tuberculose de que sofria. A sua tese versava a meteorologia e a medicina, mas ficou muito mais conhecido, pelos seus livros, supostamente, ligeiros. São considerados assim por a generalidade das suas personagens serem boas, podendo, no entanto, em muitos casos sofrer de vícios e manias. Diz quem sabe, e pode constatar quem lê, que são mais complexos do que parecem. Neste pequeno artigo vou referir a química em Júlio Dinis. Curiosamente, não encontrei muita, mas é bem conhecida a saga do arsénio nas "Pupilas do Senhor Reitor" que vai ter um grande efeito cómico (Júlio Dinis é aliás um mestre a explorar estas situações cómicas e teatrais, com um sorriso otimista). Este elemento químico, era usado numa preparação para aumentar o apetite, e a mulher de João da Esquina incentiva vezes sem conta o marido a tomá-lo. Ele responde, paciente mas sombrio, “Toma-o tu, se gostas”).

Há uma preleção sobre os metais e o galvanismo e outra contra o açúcar e a sua indústria numa “Família Inglesa” e não detetei mais neste livro. Em “Serões da Província” também não. Nota-se, no entanto, que Júlio Dinis gostava de plantas e Botânica. Em “Fidalgos da Casa Mourisca”, obra publicada postumamente, também não. Há alguma química, mas é pouco explícita. A química e as suas realizações e explicações estão, no entanto, presentes indiretamente. Nas roupas que as personagens vestiam, nos pratos onde comiam e nos seus sentimentos, por exemplo. Também na falta das suas realizações. Por exemplo, no tratamento da doença de que morreu Júlio Dinis, a tuberculose. A molécula estreptomicina só irá ser descoberta em meados do século seguinte, por exemplo. Tomavam-se bons ares, servia-se boa comida, descansava-se e esperava-se que a natureza fosse simpática. Muitas vezes não era. A mãe e vários irmãos de Júlio Dinis morreram com esta doença. Ia dizer que não aparece a palavra “química”, mas não é verdade (lá iremos). Aparece pouco a palavra e as personagens são todas bem intencionadas e boas. Os livros de Júlio Dinis são, nesse aspeto, um paraíso onde não há química e todos são boas pessoas. Dizem os críticos que ele está em trânsito entre o Romantismo e o Realismo. Talvez. Eu vejo-o como um romântico otimista.

Na “Morgadinha dos Canaviais”, afinal, aparece a palavra “química” (ou as suas variações). Três vezes! Primeiro na descrição de um leite muito puro e inteiro que toma Henrique. Ah! “pela primeira vez na sua vida disse ele ter bebido o leite verdadeiro, o leite que não faz mentir a análise dos químicos, de que os fisiologistas exaltam as qualidades nutritivas, de que os poetas das Geórgicas cantam as delicias e virtudes; só agora os compreendeu ele, que bem diferente de aquilo era o aguado e quantas vezes derrancado sôro, a que estava habituado na cidade.” Nesta altura, o leite na cidade seria muitas vezes falsificado, mas o que transparece é uma visão romântica que hoje voltou a estar muito presente. Infelizmente, o leite inteiro não analisado poderia ser uma fonte de bactérias – Um familiar afastado morreu novo de carbúnculo ao beber leite diretamente – Isso leva-nos à terceira vez em que é referida a química: os enterramentos nas igrejas que originava maus ares onde estavam “pequenos insetos”. A falta de higiene poderia ser tão perigosa nos enterramentos como no leite. Finalmente, a química é tratada como uma figura de estilo na descrição de uma personagem, de que hoje já se perde bastante o sentido: “era um verdadeiro espírito, na aceção química do termo”. Diria que Júlio Dinis quis dizer que tinha uma personalidade bem definida e única.

Júlio Dinis não é só do Porto, claro. Há um museu muito bom em Ovar, na casa onde passava férias e de onde era natural seu pai. E os seus livros podem ser lidos onde quer que estejamos. Há edições gratuitas na Internet. Leia-se. Só custa tempo!

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Importância da qualidade do ar interior na Pandemia de Covid-19

 

Ciclo Ciência às Seis on-line 

Palestra intitulada "Importância da qualidade do ar interior na Pandemia de Covid-19" com Manuel Gameiro da Silva, professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e moderação do físico Carlos Fiolhais, director do Rómulo.
Primeira sessão da 6ª edição do ciclo "Ciência às Seis" de 2021/22, iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, coordenada por Carlos Fiolhais. Destinada ao público em geral, a sessão é de participação livre e gratuita, sem necessidade de inscrição.
Acesso à sessão no Zoom:
https://videoconf-colibri.zoom.us/j/81524757925
ID da reunião: 815 2475 7925
Resumo:
A pandemia da COVID-19 tem suscitado as atenções de investigadores de várias disciplinas, incluindo os de Engenharia Mecânica, que concebem, preparam e certificam os aparelhos de renovação do ar em espaços interiores, assegurando a sua melhor qualidade. De facto, podendo a infecção espalhar-se por pequenas partículas suspensas no ar, os aerossóis, convém assegurar a melhor qualidade do ar nos espaços domésticos e públicos, como escolas e hospitais. Para isso a ventilação tem de ser adequada, diluindo o mais possível a concentração de vírus.
Breve Biografia do Orador:
Manuel Gameiro da Silva é Professor Catedrático da Universidade de Coimbra (Engenharia Mecânica). Investigador do Programa MIT-Portugal, é Professor Convidado do Curso de Mestrado GBBV - ENTPE, Universidade de Lyon -França, Coordenador da Linha de Investigação em Energia Sustentável da LAETA, Vice-Presidente da Rehva (www.rehva.eu), Coordenador da Iniciativa Energia para a Sustentabilidade (EfS) da Universidade de Coimbra. Os seus Interesses de Investigação são: Qualidade Ambiental Interior, Eficiência Energética, Instrumentação e Medição. É Membro Conselheiro da Ordem dos Engenheiros. Tem-se dedicado, no quadro da pandemia de COVID-19, às questões da qualidade do ar.

FARÁ SENTIDO O “SUBSÍDIO DE RISCO”?


Novo texto de Eugénio Lisboa: 

Fala-se constantemente no “subsídio de risco”, a ser concedido a quem desempenha funções essenciais, mas altamente perigosas, como por exemplo as das forças de segurança pública. Ora parece-me que o conceito de “subsídio”, que faz todo o sentido em casos como o desemprego, doença ou apoio à família, não tem qualquer aplicação racional, no caso do risco (ou de perda de vida ou de se ficar fisicamente incapacitado para o resto da vida). 

O risco nunca fica eficazmente acautelado com qualquer “subsídio de risco”. O risco, em profissões perigosas, só pode ser coberto por um seguro colectivo decente feito a favor de toda a colectividade profissional que incorra nesse risco. O subsídio mensal de risco nunca passará de um complemento de salário que, como tal, irá ser consumido mensalmente com outros bens de consumo, tal como se fosse um simples acrescento de salário.

Em caso de morte do utente, no exercício da sua profissão, a família ficará provavelmente sem nada porque o subsídio já terá sido usado nas despesas correntes de cada mês. Não creio que os valores do subsídio sejam pela esmagadora maioria depositados numa conta separada, para uso, se necessário. Mas mesmo que fosse, suponhamos que um polícia, três meses depois de ter sido admitido ao serviço, é morto no exercício de uma acção perigosa. Tudo quanto a sua família terá recebido será o equivalente a três meses de subsídio.

Em que é que isso irá ajudar a resolver o problema da viúva (ainda nova) e dos filhos (se os houver)? Já um seguro de risco colectivo, daria um apoio muito mais substancial à viúva e, por outro lado, até, provavelmente, ficaria menos caro ao Estado (ou patrão, outro que fosse). O conceito de subsídio de risco é totalmente inaceitável, por não cobrir efectivamente nada. Quem o recebe pode ficar muito contente por assim obter um acréscimo salarial, mas não estará de facto a pensar em acautelar seriamente o futuro da sua família, em caso de acidente grave.

Julgo que este assunto deveria ser considerado muito a sério, para se não continuar com a clamorosa e perigosa fraude que é o “subsídio de risco”, que não cobre a sério risco nenhum. Sei que estas minhas observações não serão populares, mas têm o mérito de pretender salvaguardar eficazmente as vidas de famílias que possam ver o seu futuro muito ameaçado por um acidente funesto. Há casos em que é criminoso optar-se pela solução mais popular em vez da solução mais adequada e racional. Se eu fosse governante, não hesitaria. 
Eugénio Lisboa
03.09.2021

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...