Artigo recebido de Manuel Alte da Veiga, a quem agradecemos:
«A Língua portuguesa é património de todos os povos que a falam».
Jornal de Angola, 9/2/2012
As circunstâncias da «aprovação política» do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90) são grave exemplo de oportunismo político-financeiro, de pretensiosismo e leviandade científica e de falta de respeito pelos portugueses e pelas comunidades lusófonas, situadas em contextos político-geográficos muito diversos, logo, com tendências, necessidades e experiências próprias da sua respectiva cultura. Com efeito, o AO 90 revela percepção confusa de «identidade nacional» e desconhece o apreço pelas potencialidades (e beleza) das diferenças, para além de o seu próprio texto de apresentação – «Nota Explicativa do Acordo Ortográfico de 1990» – sofrer de contradições e de incorrecções científicas e pedagógicas, já sobejamente mencionadas e exemplificadas em livros, artigos, intervenções. Mais um exemplo político de querer «pôr a assinatura», «impor» e deixar marca, sem necessária consideração dos prós e contras; de querer impor o prestígio da língua portuguesa por decreto, «mudando palavras» e na utopia de uma Língua unificada.
No Parlamento, quantos deputados haveria com o mínimo de competência para votar uma proposta deste tipo? Como podiam avaliar da sua fundamentabilidade e da gravidade de efeitos secundários? Quantos seriam verdadeiros conhecedores das virtualidades da língua escrita? E como se pôde falar em «consenso» sem ouvir sobretudo todos os organismos representativos da cultura portuguesa? E com que seriedade e independência se procedeu aos «estudos de terreno» e se tiraram ilações?
As tomadas de posição contra o AO, e têm sido inúmeras, reflectem sobretudo a resistência a uma «lei» que de facto desestabiliza a comunicação escrita e também a oral. Em nome da unificação da Língua, impôs-se a desunião. Em nome da facilitação da sua aprendizagem, impôs-se a confusão e a incoerência interna: contra a família de palavras; contra o parentesco com as línguas europeias e matriz latina; contra a aceitação das diferentes «variantes», unidas por uma matriz já bem estruturada; contra a diversidade de pronúncia; contra o próprio conceito de Língua escrita que é diferente de Língua oral (uma tem dimensão histórica, a outra fica-se pela comunicação imediata). A escrita, como «monumento histórico», não pode mudar caprichosamente, quando muito, alguma «limpeza» que não a desfigure.
A ortografia do português europeu, nas últimas décadas, apresentava uma coerente estruturação interna, juntando a riqueza das características fonéticas e da sua história à das principais línguas da Europa. Note-se que a língua inglesa, como a alemã, têm uma fortíssima componente latina e grega. Não se pode subestimar a importância de fácil reconhecimento de vocábulos, com o mesmo sentido ou sentido afins, a partir da identidade de radicais que se mantêm na forma escrita. Facilitando a identificação de famílias de palavras e a sua história, obtém-se uma visão muito mais ampla da realidade, pois nos damos conta dos numerosos matizes que a nossa inteligência e sensibilidade foram descobrindo e diferenciando a partir da percepção original. Não só se aumenta a riqueza vocabular, como também se facilita a vocalização de palavras estrangeiras com o mesmo radical.
Como país europeu, temos ligações especiais à matriz cultural europeia. Esquecê-lo ou, pior ainda, destruí-lo será empobrecer e infantilizar o idioma de cada país. Para que a diversificação não se transforme numa «torre de Babel», é necessário preservar, quanto possível, a raiz comum da esmagadora maioria das línguas europeias (sobretudo os radicais greco-latinos). De outro modo acelera-se perigosamente a alteração fonética, perdendo-se o ponto de referência que garante a unidade e coerência da língua de base.
Manuel Alte da Veiga
(Professor universitário aposentado)
sábado, 11 de fevereiro de 2017
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
"A escola como plataforma do comércio"
Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...
-
Perguntaram-me da revista Visão Júnior: "Porque é que o lume é azul? Gostava mesmo de saber porque, quando a minha mãe está a cozinh...
-
A falácia do espantalho , uma das mais utilizadas pelos que que não conseguem sequer compreender os temas em debate, basicamente consiste em...
-
Outro post convidado de Rui Baptista: Transformou-se num lugar-comum atribuir às gerações posteriores a responsabilidade pela perdição do mu...
4 comentários:
Um grande cumprimento a todos os que lutam pelo fim do A090, a hortografia é um crime público, e como sempre, os Governos raramente usam o bom senso e há interesses que o interesse não entenderá jamais. Só uma posição profundamente ideológica pode justificar o AO90. Que os políticos não sejam um elemento de complicação!!
O que é estranho na forma como se chegou ao AO/90 é que parece que a maioria dos pareceres técnicos não preconizavam o que acabou por ficar acordado. Como foi possível uma aberração destas? Interesses editoriais? O que pensar dos deputados que o votaram? Analfabetos funcionais ou servidores de interesses obscuros? Leram o acordo antes de o votarem? Entregue-se o assunto à Academia.Está a surpreender-me que o Presidente não tenha levantado já o problema. O Governo devia trazer o assunto à Assembleia. Esse estranho acordo precisa duma adenda que o torne aceitável.
Francisco Correia
Caro Prof. Carlos Fiolhais:
Melhor nome do que Acordo Hortográfico será Acordo Heterográfico, pois fez aumentar as duplas grafias, ao contrário do que prometeu, como muito bem referiu a Prof.ª Maria Regina Rocha, no artigo no Público «A falsa unidade ortográfica», de 19 de Janeiro de 2013.
Aqui: https://www.publico.pt/opiniao/jornal/a-falsa-unidade-ortografica-25921941
Para além da incoerência interna, espelhada, por exemplo, nestes dois excelentes artigos de Nuno Pacheco, igualmente no jornal Público.
Aqui: «Pirâmides, futebóis e ortografia», Nuno Pacheco, Público, 26 de Janeiro de 2017
https://www.dropbox.com/s/g9czfeqf27ofqne/Pir%C3%A2mides%2C%20futeb%C3%B3is%20e%20ortografia.docx?dl=0
«Cerá ke istu tambãe ce iskreve acim?», Nuno Pacheco, Público, 9 e Fevereiro de 2017
https://www.dropbox.com/s/7wj1c7w8uc3i0fs/Publico-20170209.pdf?dl=0
Eu até acho que devia ser Acordo Hidrográfico. Porque mete muita água.
Enviar um comentário