domingo, 23 de junho de 2019

O Conceito de “Raça” Existe? Uma Breve Síntese à Luz da Ciência.


De quando em vez retoma a discussão na sociedade se a espécie humana se divide em raças.  Contudo, desde há décadas que é consensual dentro da comunidade científica, com base do que se conhece de biologia e de genética, que não faz sentido falar-se em raças. Assim se vê que este é um daqueles temas em que o consenso científico ainda não passou para o senso comum da sociedade. Nesta perspectiva, é pertinente a reflexão trazida pelo Miguel Mealha Estrada sobre este tema, que aqui se reproduz. 

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Texto de Miguel Mealha Estrada:

Num mar de desinformação científica, o qual inclui a genética, assistimos cada vez mais à proliferação da iliteracia científica, muita com intuitos nefastos e com o propósito de consolidar o populismo que cimenta as políticas extremistas, alimentando os mais vulneráveis com respostas falsas, não científicas e exponencialmente perigosas.
Historicamente, houve episódios em que a ciência foi abusada, deturpada e encomendada à medida da ideologia vigente na altura ou da crença preferencial. Relembremo-nos que no século XIX foi cunhado o termo Eugenia para designar um conjunto de ideias que ganhava cada vez mais apoios. A ideia subjacente era de uma ciência que servisse a humanidade ao retirar do pool genético “raças inferiores”, indivíduos imorais e com patologias do foro mental e genético.
E a história não para aqui. Ainda mais recentemente, durante o século XX tivemos cientistas na Alemanha Nazi que escreveram acerca de “raças” para o benefício da sua crença, nos EUA vários ideólogos apoiavam-se na ciência para manter a segregação, a escravidão, o colonialismo, e escreviam contra misturas entre etnias e contra a imigração. Tudo isto com o apoio na palavra “raça”.

Mas, ideologias à parte, vamos dar uma olhada à realidade e ver o que nos informa a ciência. Como irão ver, o assunto é extremamente complexo:

Se olharmos para a história da taxonomia e da sua relação com o conceito de ‘raça’, entramos num oceano de disparidades pseudocientíficas (embora tenhamos em conta o rudimentar conhecimento científico de outros tempos, e por tal temos de dar um desconto). Já no período da ciência europeia moderna, o botânico e médico iluminista Carl Linnaeus, mais conhecido por Lineu, viria a adquirir reconhecimento pelas suas intervenções a nível económico, social e científico. Mas foi na área da taxonomia (classificação das espécies com base nas suas características) que ficou globalmente conhecido: não só reuniu as espécies em grupos (filos e famílias) com base em características semelhantes, como criou uma nomenclatura binominal em latim para designar as espécies, permitindo que os naturalistas de qualquer nacionalidade compreendessem numa só língua qual a espécie que estava a ser designada. Lineu delineou que reconhecia as diferentes espécies não por raça, mas muito importante, e no que toca à ciência, por área geográfica: americanos, europeus, africanos e asiáticos.
Contudo, este método de Linnaeus, embora geograficamente correto, apresenta o erro fatal de apresentar em termos taxonómicos uma homogeneidade que simplesmente não existe por mera geografia. No entanto, no trabalho de Lineu havia uma sensação de que a mulher estava a um nível abaixo do homem, herança de uma visão Aristotélica na qual se baseava.
Contudo ainda nos dias de hoje temos cientistas que abusam e deturpam a ciência perante as suas convicções ideológicas e políticas. Existem cientistas que são aliados à extrema-direita, deturpando a ciência à medida da sua crença. Mas talvez o pior, sejam os cientistas bem-intencionados (felizmente cada vez menos), que continuam a usar uma terminologia taxonómica que sugere o conceito de ‘raças’, pelo único propósito de se referirem a um grupo, confundindo ainda mais a ciência.
Por exemplo, na China ensinam às crianças que os Chineses provêm de uma ‘raça’ diferente, diretamente da linhagem do Homo erectus. Tal é a necessidade de um povo em sentir-se diferenciado, superior, o seu narcisismo fantasioso.
Faz-me lembrar um debate na BBC com o então Nick Griffin líder do BNP (British National Party), em que disse ao então secretário do Ministério da Justiça, Jack Straw, que defendia que Inglaterra deveria ser constituída pelo povo indígena que lá habitava desde a idade do gelo. Quando confrontado com a curadora do museu de História Natural em que lhe disse “mas não habitava cá ninguém na idade do gelo”, Griffin num ápice mudou a retórica. Disse “perdão, quando o gelo derreteu”. Parece uma anedota? Mas não é. Existem pessoas que acreditam nesta alucinação e ainda votam nele.

Mas afinal o conceito de raça existe?

A realidade é que é absolutamente inútil tentar dividir a nossa espécie Homo Sapiens em termos de raça. Tem sido demonstrado cada vez mais que subdividir a nossa espécie Homo sapiens em diferentes unidades raciais, numa análise objetivamente cientifica, é uma tarefa falaciosa e completamente inútil.

Mas porquê?

Bom, aqui entra a complexidade da coisa.
A biologia molecular comparativa continua o seu estudo em foco geográfico para determinar diferenças entre populações, e não fazer algum atentado à taxonomia de ‘raça’. Isto é ciência.
Sem dúvida nenhuma que ainda existe debate dentro da ciência não só em relação às diferentes possibilidades de taxonomias entre populações como também nos métodos científicos para atingir consenso. Isto é saudável, pois existe a necessidade, para compreender e estudar os nossos ecossistemas e biodiversidade, de uma linguagem que denomine um certo tipo de conhecimento.
 Contudo, o os cientistas reconhecem que tais métodos não são aplicáveis para a classificação de variantes dentro das próprias espécies, que são as unidades fundamentais de análise quando examinamos e estudamos a estrutura da vida.

O Homo sapiens é o recém-chegado da nossa linhagem evolutiva. Em termos evolutivos, fisicamente as variações na nossa espécie são na realidade uma minoria em relação à totalidade do genoma, e só podem ser compreendidas através do prisma do nosso processo evolutivo num contexto geográfico.
A variação entre espécies é extremamente crucial para a sobrevivência e adaptação da nossa espécie. Relembremo-nos que a evolução não se foca de maneira nenhuma com uma finalidade de atingir uma perfeição, e nem sempre se conforma ao fenómeno de adaptação para evoluir como se pensava. Já Charles Darwin sublinhava que o essencial à evolução é o conceito de variação. E porque é a variação numa espécie essencial à sobrevivência e evolução da mesma? Simplesmente porque a variação consegue oferecer a melhor solução a algum problema evolutivo. Se há um problema evolutivo, por exemplo, a nível de doença, se não existisse variação que pudesse oferecer a melhor resposta a esse problema, o problema ficaria com as ferramentas genéticas que existissem, muito provavelmente guiando-nos à extinção.

Vamos agora dar uma breve olhada em algumas problemáticas na replicação do ADN, pois é essencial compreender este aspeto. É precisamente este aspeto de replicação que é extremamente importante em como atua o conceito de variação entre espécies e se elimina cientificamente do vocabulário o termo de ‘raça’.
O ADN é a peça central à reprodução de organismos, o que também nos elucida em relação à grande diversidade em que a vida no planeta evoluiu. Contudo a nota preliminar e importante é termos a noção que a replicação do ADN não é sempre exata. Na realidade alguns defeitos e erros podem ocorrer e até com alguma frequência. Estes defeitos e erros têm a denominação de mutações.  

Vários fatores podem gerar este fenómeno. Vamos ver o exemplo de Seleção Natural: a seleção natural irá dar atenção a uma nova variação, ou mutação, em 3 sentidos diferentes. Pode ver a mutação como benéfica, em que então irá ficar em favor (e propagar) essa mesma nova mutação, pode ver essa mesma mutação como patogénica, e pelos seus mecanismos eliminar essa mesma mutação da população, ou poderá considerar essa mutação como neutra, à qual não lhe dará importância.

Aqui entramos na área complicada da taxonomia, quando se aborda a temática de ‘raça’. Qualquer subdivisão de uma espécie em subespécies não é geneticamente e em termos taxonómicos suficiente, pois não existe a possibilidade de objetiva e cientificamente determinar a identificação da diferenciação de subespécies a nível de mutação. Neste prisma o processo de reprodução não tem implicação, ou qualquer outro critério, pois não passa de semântica subjetiva.
Na realidade, as pequenas diferenças que se notam no Homo Sapiens são fatores adaptativos à área geográfica onde habitam, que influencia a cor dos olhos, pigmentação da pele, suscetibilidade a certas doenças, altura entre outros poucos fatores. Mas tais fatores na realidade não têm praticamente relevância estatística para sequer poder usar o termo ‘raça’ pela seguinte razão: todas essas variações amontam a 0, 1% do genoma comum humano: sim, independentemente das diferenças mencionadas, o nosso código genético é 99,9% comum ao Homo sapiens.    
Podemos então concluir que usar o termo ‘subespécies’ servirá apenas se for de alguma forma útil em termos de referência específica a um taxonomista.
De resto, como seres humanos, temos a intrínseca necessidade de classificar o que nos rodeia, muito provavelmente no inicio da linguagem há uns 100,000 anos atrás. Por tal, a taxonomia tem as suas origens já desde o inicio da linguagem.

O egocentrismo humano como espécie superior

É interessante termos a noção de como, ao longo da história da ciência, os cientistas deram como adquirido que eramos os seres superiores do planeta: o ato divino de Deus na sua criação mas, como já vimos anteriormente, só para alguns.
Por um fator de curiosidade vamos dar uma olhada à mais famosa árvore filogenética feita por Ernst Haeckel denominada “Pedigree of Man”:


 Baseado no trabalho de Ernst Haeckel, The evolution of man (1896). 


Contudo existem erros cruciais nesta filogenia. Apenas o conceito de uma árvore, pequena com ramificações é um erro. De uma forma mais científica, teríamos de ter uma floresta filogenética (outros cientistas preferem a imagem do arbusto) cheia de ramificações, sem um tronco central ou pilar de referência. Para tal teríamos de recuar milhões de anos.
Mas aqui fica como a ciência via a estrutura da vida, onde o homem era o ser superior, numa visão enquadrada no contexto do seu tempo.

Em termos comparativos, ficamos aqui com uma representação filogenética viável e científica da “árvore da vida”, como a compreendemos no presente. Agora vejam bem, na imagem seguinte, a diferença entre o avanço da ciência e a antiga ciência evangelista, em que predomina o homem branco:

Créditos: Visual.ly


Erros Antropológicos na Noção de Divergência Humana

Imaginemos este cenário: estão na baixa de Lisboa e observam vários turistas a passar, com feições distintas. Conseguem adivinhar com certeza de onde vêm? A que continente pertencem? As chances de ficarem incrédulos o quão errados podem estar é altíssima.
Isto quer dizer que a nível morfológico é extremamente difícil, senão impossível detetar a etnia de um esqueleto ou por partes ósseas. O método mais viável de revelar uma etnia é o crânio, devido a fatores típicos de populações, tais como cavidade nasal, perímetro cranial, etc.
Contudo, a ciência não é exata. Vamos ver o exemplo do “Kennewick Man”. O esqueleto do Kennewick Man tem cerca de 9000 anos, e foi encontrado no estado de Washington, EUA em 1996. A análise do esqueleto foi interessante: quando os peritos forenses estudaram o esqueleto, notaram traços Caucasianos no mesmo e nenhuma característica nativa americana. Tendo em conta a idade do esqueleto é no mínimo muito estranho devido à disparidade geográfica das populações de então. Para acentuar o mistério, na zona do pélvis estava feita uma acentuação com uma ponta típica dos Pale indianos exatamente nesse período. Após uma reconstrução feita por especialistas em modelo real, usando a tecnologia mais avançada, qual é o espanto em que na realidade o Kennewick Man se parecia com o ator Britânico Patrick Stewart, mais conhecido pelo seu papel como Capitão da nave USS Enterprise.
Após uns anos, o mistério adensou-se quando com nova tecnologia, os peritos forenses (e usando a métrica craniana), concluíram que a aproximação mais viável a uma etnia não era com americanos nativos ou caucasianos, mas sim com os Ainu, antigos descendentes de ilhas do arquipélago do Japão! Portanto: a tarefa de concluir a identificação de uma etnia através de um crânio é perigosa, pois embora seja mais viável, mesmo assim está suscetível a erros estatísticos.
Por tal os cientistas são muito cuidadosos em assumir uma etnia em relação à morfologia óssea.
Claro que existiram cientistas que aproveitaram a onda da medida do crânio para promover as suas crenças hoje tidas como pseudocientíficas. Um exemplo é o cientista do século XIX Samuel George Norton, que mediu vários crânios de várias etnias em que ele denominava “diferentes raças”, com o propósito de estabelecer uma correlação entre raça e inteligência. Claro que o passo seguinte foi demonstrar que indivíduos de etnia ‘branca’ têm um perímetro cranial um pouco maior e por consequência, maior inteligência. Sabemos hoje que em termos neurobiológicos é uma falácia, como nos demonstra esta meta-análise.
Características tais como inteligência (situação geográfica, cultural e estatuto social), capacidade atlética, dieta, cor da pele e morfologia corporal são de uma complexa vastidão em termos que englobam geografia, adaptação e mutação, como já vimos anteriormente. Mas absolutamente. E nenhuma destas características serve como diagnóstico para descrever diferentes grupos no planeta.

Testes de ADN

Então o que nos dizem os testes de ADN em relação a ‘raça’? Hoje em dia temos à nossa disponibilidade um leque variado de testes de ADN, maioritariamente dedicados a pessoas que têm curiosidade em saber as suas ascendências. Mas na realidade, o que é que realmente esses testes nos informam? Basicamente informam-nos acerca do ADN no nosso genoma e, possivelmente, de onde tem origem.
Contudo, se usarmos métodos diferentes à nossa disposição, poderemos ter resultados completamente díspares. Estes testes resumem-se apenas a genes e ao genoma, mas infelizmente têm vindo a ser conectados com identificação de ‘raças’, o que é cientificamente completamente errado.
Uma nota importante neste erro crasso de identificação é que em cada humano o genoma é um mosaico de ascendências passadas, o qual pode incluir partes de ADN de outras espécies. Inevitavelmente é inviável usar o genoma para identificar ‘raças’ não existentes dentro da nossa espécie, mas sim, diferenças e variabilidade. Resumindo, não dão nenhum significado real à ciência, muito menos em determinar variantes, alelos e adaptações que provêm das mais variadas condições evolutivas.
Claro que existem diferenças genéticas entre diferentes populações em diferentes regiões geográficas, mas para além de melhor adaptação, não têm nenhum significado atribuído  a ‘raça’.
As diferenças estão lá, mas são superficiais. Portanto se o conceito fantasioso de ‘raça’ explica o que quer que seja acerca do Homo sapiens, a resposta científica é redondamente NÃO!

Conclusão:

 A cultura também exerce um peso em certas diferenciações, contudo, a falta dela, especialmente a científica, exerce um peso maior, quando a beleza da biologia e ciência cai nas mãos dos ignorantes, que usam a complexidade da biodiversidade para alimentar crenças populistas. Mais uma vez, um apelo ao governo para que insista na educação científica da população, pois a falta dela certamente alimenta o extremismo, a ignorância, a intolerância e um atalho ao supermercado do pronto-a-pensar.
É desta ignorância que se alimenta a extrema-direita e o populismo, pois é fácil compreender o mundo com a ignorância. Saber dá mais trabalho, mas compensa.
O conceito de ‘raça’ é um constructo social. Só existe uma espécie: Homo sapiens.

4 comentários:

  1. A palavra “raça” está carregada (e com razão) com um estigma negativo, mas pensando melhor e com luz vinda da Ciência, verifica-se que esse estigma não deve existir, pois aquilo a que se tem chamado raças dentro da espécie humana não são mais que pequenas variações dentro da espécie (cor da pela, altura, olhos ..) A Humanidade constitui toda ela a mesma espécie. É a espécie humana. As ideias e poder dominantes é que levaram a que uma raça fosse considerada preponderante em relação a outra e essa mesma predominante se aproveitasse disso - houve escravatura e pensava-se em raças inferiores e uma superior. A Ciência não corrobora nada disto. Mas dentro da espécie existem as raças. Com a espécie humana passa-se o mesmo: há brancos, há pretos etc. É necessário descarregar o conteúdo negativo acumulado ao longo dos tempos nalgumas palavras . Mas isso é um problema da nossa cabeça...Que mal há em dizer que fulano é preto? Não senhor, tem que se dizer que é de cor ou é africano, e tudo muito subtilmente, se não é racismo... Tudo isto é uma questão da nossa cabeça (tanto para os brancos como para os pretos). Conhecimento , educação e questionar as ideias feitas é necessário.
    Cont.

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  2. O autor apresenta tambem a árvore de Ernst Haeckel, a árvore evolutiva das espécies, donde se depreende que das formas mais simples de vida na sua base, se foi evoluindo até ao topo onde está o Homem. Digamos que partindo de bactárias se chegou a bacterioligistas!... Mas isto era uma teoria e se já não é, onde estão as provas científicas que a comprovem? Desde logo os fosseis de espécies intermédias.
    Obrigado ao autor, se quiser responder.
    Francisco Correia

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  3. Parabéns pelo trabalho. Os constructo sociais são o diabo. Até temos de "desconstruir" a ideia de cientista, por oposição/contraposição a ciência. E se, por acaso, a ciência confirmasse a existência de raças humanas? Qual o problema? E se confirmasse que os brancos eram inferiores? O que é que isso (inferior) significaria? E se se confirmasse que uma mosca é uma espécie muito superior (pelos critérios racistas-quais?) à humana?
    Nas ciências sociais e humanas surpreende-se uma subtileza interessante, no que respeita ao método científico: as explicações naturais, que são a regra para a explicação dos fenómenos, pelas leis da natureza, geralmente são falaciosas para os fenómenos sociológicos, ou, por outra, é incorrecto procurar explicar "naturalisticamente" fenómenos sociológicos, como por exemplo, procurar explicar o analfabetismo de quem não foi à escola com a natureza estúpida dessas pessoas.
    A ciência é e será utilizada pelas pessoas para atingirem os seus interesses. Tal como a pseudociência e a numismática ou a homeopatia, ou a religião, ou as ideologias. Neste momento, a ciência já está sitiada pelos poderes e não tem poder para se livrar deles. Assim vai o mundo!

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