sexta-feira, 28 de abril de 2017

A NECESSIDADE DE INTERVIR


Texto recebido de Maria do Carmo Vieira:

O diálogo fraterno com os animais e com toda a Natureza, nela incluindo obviamente o homem, iniciou-o Francisco de Assis (1184-1226), no desejo de uma harmonia universal, postura que lhe valeu a chacota habitual dos mesmos de sempre: os indiferentes ao bem-estar de quem quer que seja, os hipócritas, que não fazem e impedem de fazer, mas estão sempre cheios de moral, os sem compaixão, capazes de olhar o sofrimento sem intervir. Cremos que não há quem desconheça a afectividade fraterna das expressões de Francisco de Assis, «irmã lua», «irmã pedra, «irmão lobo», «irmão cordeiro», ou «irmão sol» como no belíssimo cântico que compôs ao astro luminoso e vital.

O Renascimento (entre os séculos XIV e XVI), ao relevar «o homem como a medida de todas as coisas», recuperando a frase de Heráclito (540-480 a. C.), e reagindo assim ao teocentrismo medieval, propiciou a ideia do homem e do seu domínio sobre a Natureza, numa divisão algo conflituosa. O próprio Da Vinci, na ânsia de ultrapassar a sua beleza, traduzindo simultaneamente a dificuldade do artista em imitá-la, referiu que «o pintor luta e rivaliza com a Natureza».

Aberto o caminho à supremacia do homem, fácil foi ignorar que ele próprio era parte da Natureza e não desligado dela. Essa falsa dualidade acentuou-se ao longo dos séculos, com uma intensa indiferença pelo ambiente, na sua diversidade, e por todos os seres. Por isso se tornaram proféticas as palavras do grande Chefe Índio, Seattle, constituindo um hino apologético à Natureza enquanto um todo que não pode ser dizimado, em nome de interesses imediatos, da ambição, da ganância, e até, no que se refere a animais, do divertimento imbuído de crueldade quando espectáculo em que se mata pelo prazer de matar e se contempla, em sádica euforia, o sofrimento. Neste último caso, basta lembrarmo-nos de tradições bárbaras que se mantêm (touradas, festejos em que os animais entram em cena para sofrer, sob as gargalhadas do público assistente, lutas de cães, de galos, e outras situações afins).

Foi em 1854, perante o Presidente Franklin Pierce, que lhe propusera a compra das terras, que hoje constituem o Estado de Washington, que o Chefe Seatlle discursou. Pelo seu carácter poético, pela sabedoria da Vida e da Terra que testemunha, pela fraternidade em relação à Natureza, como um imenso corpo que engloba tudo e todos, relembramos um extracto, forçosamente longo, desse mesmo discurso: «Somos parte da terra e do mesmo modo ela é parte de nós próprios. As flores perfumadas são nossas irmãs, o veado, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos; as rochas escarpadas, os húmidos prados, o calor do corpo do cavalo e do homem, todos pertencemos à mesma família. […]. Os rios são nossos irmãos e saciam a nossa sede; […] e alimentam os nossos filhos. Se lhes vendermos a terra, deverão recordar-se e ensinar aos vossos filhos que os rios são nossos irmãos e também o são deles, e, que, portanto, devem tratá-los com a mesma doçura com que se trata um irmão. […] [Mas o Homem Branco] trata a sua Mãe, a Terra, e o seu Irmão, o Firmamento, como objectos que se compram, se exploram […]. O seu apetite devorará a terra deixando atrás de si só o deserto. […] Se decidirmos aceitá-la [ a compra das terras], eu porei uma condição: o Homem Branco deverá tratar os animais desta terra como seus irmãos. […] a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. […] Contaminem os vossos leitos e uma noite morrerão afogados nos vossos próprios detritos.»

Seattle mostrou ao «Homem Branco» quão diferente era a sua maneira de pensar a Natureza, e a sua mensagem, repleta de ternura pelo mundo divinamente criado, não se afasta, na sua essência fraterna e universal, da de Francisco de Assis, desapegado de luxo e convictamente cristão. Estes exemplos, distanciados entre si no tempo, e tão presentes, acompanham e fortalecem a vontade de agir, no respeito pela nossa própria consciência e pela nossa própria sensibilidade, imunes aos sarcasmos dos arrogantes e vivaços de sempre. Vem a este propósito referir uma causa que me é cara, e desde muito cedo: a defesa dos animais de rua, nomeadamente, cães e gatos.

Fez parte dos meus pesadelos de infância a captura, pelos serviços camarários, de cães abandonados. Quem assistiu a esses dolorosos momentos, nunca poderá esquecer o olhar de medo e de sofrimento das vítimas que se escondiam em buracos, onde dificilmente entravam, tentando assim fugir à rede que os aprisionaria, para depois serem atirados com violência para dentro de uma camioneta e receberem a morte, passados poucos dias. Era assim, na minha infância, e continuou não muito diferente ao longo dos anos. Sabem-no os que persistentemente lutaram contra as condições indignas do funcionamento do então Canil de Lisboa, perfeita câmara de tortura para os animais capturados ou aí depositados, situação que, aliás, ainda se mantém em inúmeros canis municipais do país.

Felizmente, e fruto, não duvido, da intervenção convicta e persistente de cidadãos voluntários, organizados em Campanha de esterilização, Movimentos e Associações em prol desta causa, o dito «Canil de Lisboa» deu lugar à «Casa dos Animais de Lisboa» (CAL, 2014), designação que significa uma profunda mudança,  amplamente visível na actuação da sua nova direcção, e consequentemente da própria CML e da vereação que detém o pelouro. Apostada, e transcrevemos, em « acolher e tratar com dignidade todos os animais, combater o abandono e promover a adopção segura e responsável, porque o destino final de cada animal não pode ser outro que não o da adopção», a CAL não prescinde, e inteligentemente, do apoio dos voluntários, reconhecendo que estes são imprescindíveis para a concretização dos objectivos delineados, com especial destaque para o maior problema de qualquer canil municipal: a sobrelotação.

No seguimento da actuação conjunta, a que anteriormente nos referimos, e a  que se deve juntar o partido PAN, surgiu a Lei 27/2016 de 23 de Agosto que, instituindo a esterilização como método, contraria o habitual abate de cães e gatos praticado pelas canis. Essa lei deverá entrar em vigor, em Setembro de 2018. Infelizmente, há já Câmaras a querer adiar a data. Na verdade, o que há a fazer, e de forma urgente, é iniciar, ou dar continuidade, a um programa de esterilização, com apoio de voluntários, o que será garantido, de forma a melhorar gradualmente o funcionamento e a manutenção dos canis, e, sobretudo, apostar, o que já foi sugerido também, na esterilização de animais de munícipes carenciados, sem possibilidade de custear uma esterilização, o que evitaria o surgimento incessante de ninhadas indesejadas e a consequente acumulação de animais nos canis. De sublinhar que são já algumas as Câmaras que decidiram pôr em prática esta medida (Évora, Oeiras, Sintra, entre outras).

Se os munícipes, sensíveis a esta causa, insistirem junto das suas Câmaras para que estas, no cumprimento da Lei 27/2016, adiram responsavelmente ao urgente programa de esterilização,[1] o problema da sobrelotação dos canis poderá ser substancialmente atenuado. Todos ficaríamos a ganhar: Câmaras, Munícipes e Animais.

Maria do Carmo Vieira
Lisboa, 27 de Abril de 2017

14 comentários:

  1. "Fez parte dos meus pesadelos de infância a captura, pelos serviços camarários, de cães abandonados." Eu tive outros pesadelos de infância: crianças com fome a terem medo de cães e a serem mordidas por eles. E até de donos de terras a atiçarem-.nos contra crianças e adultos. Por que razão tive outros pesadelos? Vivia numa aldeia atrasada, filho de gente pobre. Por isso tenho uma visão completamente diferente da da autora deste horrível post que preferia não ter lido.
    João Carvalho

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  2. Estou farta desta treta de porem os animais acima de mim. E quem sabe literatura sabe sempre enfeitar com citações e mais citações. Disso eu não sou capaz.
    Mariana Alves

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    1. Lamento muito que tenha vivido ainda numa terra mais violenta do que a minha (Alentejo)onde de facto os agrários quando tinham problemas com os trabalhadores preferiam chamar a GNR

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  3. "Quem assistiu a esses dolorosos momentos, nunca poderá esquecer o olhar de medo e de sofrimento das vítimas que se escondiam em buracos, onde dificilmente entravam, tentando assim fugir à rede que os aprisionaria," Que aldrabice sem pés nem cabeça. Como se os cães fossem racionais. Os cães muitas vezes fogem simplesmente, de quem os quer agarrar. Outras mordem. Mas não raciocinam nem têm consciência da morte. Consciência da morte e da finitude só o homem.

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  4. "Todos ficaríamos a ganhar: Câmaras, Munícipes e Animais." Que os animais ganhem parece-me importante. Agora os munícipes...francamente.

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    1. Sim, ficam a ganhar os munícipes que gostam de animais e que também pagam impostos que gostavam de ver melhor aplicados do que a custearem a matança de dezenas de milhares de cães e gatos nos canis. Por exemplo, em esterilizações para que não nasçam ninhadas indesejadas.

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  5. As senhoras dos cães, através do PAN, chegaram ao Parlamento e produziram essa lei 27/2016, legislando em cima do joelho, com a aprovação de todos os partidos. Não procuraram saber se tal lei pode ser cumprida já. Nada. Toca a legislar de cima abaixo, sem saber quais as condições do terreno, que permitam ou não a aplicação da mesma. Já sabemos que o objectivo final - impedir o abate gratuito de animais como forma de controlo - é desejável, mas nem tudo o que é desejável é imediatamente atingível como a militância mais activa pretende. Vai chegar o tempo - e não tardará - em que os municípios se vão revoltar perante a impossibilidade de cumprir tal lei e impossibilidade de aumentarem constantemente os gastos com cães que ninguém quer e que permanecem nos canis, sem fim à vista. É necessário que todos os agentes intervenientes nesta problemática saibam que o mais importante na mesma é o factor humano/posse responsável de animais. Isso não vai ser conseguido dum momento para o outro/através de leis. Ao construir-se um edifício não se começa pelo telhado, mas pela base bem estruturada, de baixo para cima. Foi o que as senhoras dos cães com o PAN à frente não fizeram, seguidos acefalamente pelos outros partidos.

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    1. Está enganado , a Lei 27/2016 de 23 de Agosto é um projecto do PCP. Depois, o que a Lei pretende é que a esterilização substitua o abate. É preciso reduzir a sobrepopulação de cães e gatos e isso só se consegue indo à fonte do problema, ou seja reduzindo drasticamente o número de nascimentos. Não há aqui senhoras dos cães e dos gatos , há pessoas que desejam que a sociedade portuguesa se porte de forma civilizada para com os animais. Será pedir muito ?

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    2. E o que se faz aos cães que ninguém quer(esterilizados ou não) acumulados nos canis ? Vão ficar ali intocáveis para sempre? Onde é que isso nos conduz? A lei 27/2016 introduz, irracionalmente, o conceito de animais intocáveis, aplicado a cães/gatos. São eles as "vacas sagradas" da nossa sociedade, erro capial da lei referida.
      Francisco Correia

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    3. É de facto difícil passar de uma política em que se abateram centenas de milhares de cães e gatos ( sim, centenas de milhares ) ao longo dos anos, como expediente para limpar canis que logo voltavam a encher, para uma politica que respeita o seu direito à vida e institue a esterilização como alternativa ao abate. É preciso acção por parte do Estado, autarquias e veterinários municipais para lançar rapidamente campanhas de esterilização que abranjam os animais de munícipes carenciados de forma a reduzir a sobrepopulação quanto antes. Exemplos de cidades que já o fazem: Évora, Sintra, Oeiras... E sessões de esclarecimento sobre esterilização.É preciso trabalhar nesse sentido. Os discursos imobilistas não resolvem nada.

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    4. " E sessões de esclarecimento sobre esterilização.É preciso trabalhar nesse sentido." Por mais que os esclareça, acha que os gatos e cães vão aceitar serem castrados? Acaba por lhes ser importo e disso discordo.

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  6. Desconhecia esta iniciativa, mas a hipotese de esterelização por parte das cãmaras já tinha sido referida em ciclo de amigos, é uma cirurgia simples e económica e os canis das câmaras têm veterinários com total disponibilidade de tempo para o fazerem. Não se justifica os canis como matadouros superlotados e não sendo a situação ideal, dimimui a reprodução de animais da rua sendo uma boa medida transitória até a nossa sociedade atingir o patamar factor humano/posse responsável de animais, como atrás referido pro Cisfranco.

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    1. Suponho que os animais esterilizados ficam privados dos prazeres do sexo. Acho mal. Melhor morrer.
      Antonia Cunha

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  7. " impossibilidade de aumentarem constantemente os gastos com cães que ninguém quer e que permanecem nos canis". Ora, ora; corta-se na verba destinada às creches e já haverá dinheiro.
    Mariana Alves

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