sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS EM COIMBRA E O DIÁLOGO INTERDISCIPLINAR: Os Professores Joaquim de Carvalho, Luís de Albuquerque e Rómulo de Carvalho

Capítulo da minha autoria do livro "Interdisciplinaridade e Universidade", coordenado por António Rafael Amaro, Álvaro Garrido e João Paulo Avelãs Nunes, que acaba de sair do prelo da Imprensa da Universidade de Coimbra:

De 30 de Setembro a 6 de Outubro de 1934, sob o alto patrocínio do Presidente da República Portuguesa General Óscar Carmona e com um comité de honra que incluía o Presidente do Conselho de Ministros Oliveira Salazar, realizou-se em Portugal o III Congresso Internacional de História da Ciência. Foi uma rara ocasião pois um dos maiores eventos da história da ciência mundial tinha lugar entre nós, numa altura em que o mundo se aproximava talvez sem plena consciência da Segunda Guerra Mundial. e o país vivia as dificuldades e vicissitudes do início do Estado Novo.

 O primeiro Congresso tinha sido realizado em Paris em 1929. O segundo em Londres em 1931. E o terceiro estava previsto para Berlim em 1934. Dificuldades da sua realização em Berlim, associadas à chegada ao poder do nacional-socialismo, originou uma proposta da sua realização na Península Ibérica, numa organização conjunta de Espanha e Portugal, sendo o tema central (a herança científica árabe) apropriado ao sítio. No entanto, problemas com o grupo espanhol de História das Ciências (recorde-se que a Guerra Civil havia de irromper em Espanha em 1936) fizeram com que o Congresso tivesse lugar apenas em Portugal.

 As sessões realizaram-se no Porto, em Coimbra e em Lisboa. A Universidade de Coimbra desempenhou um papel importante desde o início da organização, pois o Professor da Faculdade de Letras Joaquim de Carvalho, Presidente da Secção de Coimbra do Grupo Português de História das Ciências, tinha-se em 1933 oferecido para organizar as sessões na cidade universitária, assim como algumas excursões na região. Os seus colegas de Coimbra Diogo Pacheco de Amorim (matemático), Geraldino Brites (médico) e Alberto Cupertino Pessoa (também médico, secretário geral do comité organizador) colaboraram com ele e com professores do Porto e Lisboa na preparação da iniciativa. A 2 de Outubro os congressistas visitaram a Biblioteca Joanina, onde lhes foi proporcionada uma exposição de livros de Medicina dos séculos XV e XVI, e foram recebidos pelo Reitor. Na Sala Gomes Teixeira realizou-se no mesmo dia a sessão trienal da Academia Internacional de História das Ciências, presidida pelo Doutor George Sartor, o químico de origem belga e radicado nos Estados Unidos que é geralmente visto como o fundador da História da Ciência e que foi fundador e durante muitos anos editor-chefe da revista Ísis, uma referência nesta área (pude adquirir num alfarrabista um livro oferecido por George Sarton a Alberto Pessoa, com dedicatória em que agradecia a hospitalidade em Portugal [1]). No dia 3 tiveram lugar sessões de trabalho sobre a história da Medicina (com o foco na medicina árabe). E realizou-se uma sessão na Sala dos Capelos sobre "A medicina e os médicos na expansão mundial dos Portugueses", a cargo do Professor de Medicina da Universidade de Lisboa Ricardo Jorge. Finalmente, no dia 4 houve uma outra sessão plenária, da responsabilidade do Professor Comandante Fontoura da Costa, sobre A ciência náutica dos portugueses na época dos Descobrimentos. As excursões incluíram, para além de visita aos principais monumentos da cidade, uma visita ao Buçaco.

 Em jeito de conclusão, o secretário da secção de Lisboa do grupo português da História das Ciências Arlindo Camilo Monteiro (um médico interessado pela história da arte) escreveu no Prefácio das Actas, publicadas em 1936, nas quais o retrato do Presidente Carmona, em traje de gala, surge logo a abrir:

  Evocando a Coimbra dos velhos tempos, com tanto mais entusiasmo quanto a contemporânea nos parecia em grande parte ausente ou, pelo menos, em férias, o nosso pensamento dirigia-se para os poetas, oradores, escritores e filósofos, entre os quais aqueles que fizeram florir uma filosofia perpetuada sob a designação de Filosofia Conimbricensis, assim como aos espíritos particularmente devotados às ciências experimentais e às artes liberais. Diante da Minerva portuguesa, sonhámos que seria desejável que ela pudesse animar as gerações futuras na tarefa, sem dúvida muito complexa, mas não menos meritória, de estabelecer, com sinceridade e sob todos os pontos de vista, o balanço da sua influência espiritual e social no curso dos tempos.

 O Professor Joaquim de Carvalho foi, portanto, um dos principais animadores do Congresso. Nele apresentou uma comunicação, que consta das referidas Actas, sobre Jacob de Castro Sarmento e a introdução das concepções de Newton em Portugal. Recorde-se que Castro Sarmento propôs, embora sem a devida concretização, a tradução de latim para português das obras do filósofo Francis Bacon em Portugal e foi o primeiro a publicar uma tradução comentada de um texto do físico Isaac Newton (tinham passado dez anos após a morte de Newton). 

Começando por invocar a figura de Joaquim de Carvalho pretendemos aqui falar da necessidade de interdisciplinaridade, da ligação entre as disciplinas, que essa ligação proporciona, referindo em particular o caso da História das Ciências e alguns dos seus cultivadores em Coimbra. A História das Ciências é um lugar onde o diálogo e a convergência entre as ciências e as letras, áreas tradicionalmente separadas (na Universidade de Coimbra cultivadas em Faculdades próximas fisicamente, mas demasiadas vezes afastadas academicamente), são particularmente propícios. A história é um ramo das Ciências Sociais. A história das ciências ditas “duras”, como as tradicionalmente chamadas Ciências Exactas (Matemática, Física e Química), as Ciências Naturais (Biologia e Geologia), ou mesmo ciências menos “duras”, como as Ciências da Saúde (Medicina e Farmácia), exige o diálogo interdisciplinar entre historiadores e cientistas das referidas disciplinas. Se, por vezes, é o historiador que se torna historiador de ciência nas mais das vezes é o cientista que se torna historiador pelo gosto do conhecimento do passado da sua disciplina, que de resto lhe oferece um melhor conhecimento da sua ciência e, portanto, uma melhor preparação para o seu cultivo. A ciência é acumulação e, para se perceber melhor o método da ciência, não há como olhar para o trabalho de acumulação de conceitos, teorias e experiências, devidamente peneirados pela crítica, que foi efectuado no passado. 

Esse diálogo nem sempre é fácil pois, apesar da muito justificável designação unificadora de “ciências”, as Ciências Sociais, as Ciências Exactas, as Ciências Naturais e as Ciências da Saúde e perseguem objectivos distintos e têm metodologias próprias. Divergem também na especificidade da linguagem que utilizam, que no caso das ciências mais “duras” pode ser bastante hermética para quem não possuir o domínio da Matemática. Ora, para se conhecer a ciência do passado (que deve ser vista, ou melhor revista, mais com os olhos do passado do que com os olhos do presente), tem necessariamente de se conhecer os objectivos, as metodologias e as linguagens das ciências.

 Apresentamos aqui três casos exemplares (são, diga-se desde já, casos raros) que mostram a busca da unidade das ciências no século XX na Universidade de Coimbra: as obras do já referido Joaquim de Carvalho (1892-1958), professor de Filosofia que se interessou pela História da Ciência em Portugal, Luís de Albuquerque (1917-1992), professor de Matemática que se interessou pela História da Ciência em Portugal, muito em particular a História da Náutica, e Rómulo de Carvalho (1906-1996), que, sem ter sido professor universitário, foi um dos maiores polímatos do século transacto, com uma obra extraordinária no ensino da Física e da Química e na História da Ciência em Portugal, em particular do século XVIII, e na Poesia. Em suma e não dizendo nada de novo: para a História da Ciência o concurso dos especialistas de cada disciplina é imprescindível.

 Joaquim de Carvalho

 Nascido na Figueira da Foz, Joaquim de Carvalho licenciou-se em Direito e Letras, tendo adquirido formação específica na área da Filosofia, embora estivesse próximo da História da Ciência (tinha publicado a sua tese de doutoramento em Coimbra em 1916 sobre António de Gouveia e o Aristotelismo). No quadro da História da Ciência, focou em particular três dos maiores nomes da ciência nacional: Pedro Nunes, o já referido Jacob de Castro Sarmento e João Jacinto Magalhães, o primeiro matemático, expoente do quinhentismo português e os outros dois, um médico e outro instrumentista, insignes figuras do século das Luzes. Carvalho percebeu a relevância desses dois períodos da História da Ciência em Portugal e contribuiu para a sua ênfase: por um lado, Pedro Nunes, que foi contemporâneo de outras grandes figuras da ciência mundial como os médicos Garcia da Orta, Amato Lusitano e Francisco Sanches e o geofísico (para adoptar a nomenclatura de hoje) e homem de Estado D. João de Castro, e, por outro lado, dois “estrangeirados”, que contribuíram à distância para o progresso nacional no Iluminismo. O texto sobre Sarmento encontra-se republicado no volume V das suas Obras Completas [3], saídas do prelo da Fundação Calouste Gulbenkian, juntamente com outros estudos de História da Ciência, a maior parte dos quais sobre Pedro Nunes (Joaquim de Carvalho foi o principal impulsionador da publicação, que não chegou ao seu termo devido ao seu falecimento, da Obra de Pedro Nunes, a cargo da Academia das Ciências de Lisboa [4]) e a sua obra, mas também sobre Castro Sarmento e Jacinto Magalhães. Nesse mesmo volume V, mostrando a sua enorme polivalência e erudição, estão reunidos os seus estudos de História e Crítica Literária que abrangem vários autores, de Frei Heitor Pinto a Teixeira de Pascoaes, passando por Uriel da Costa, Antero de Quental e os seus colegas na Faculdade de Letras de Coimbra Carolina Michaëlis de Vasconcelos e Eugénio de Castro. Carvalho ficou, além do mais, conhecido como director da Imprensa da Universidade de Coimbra, lugar que ocupou a partir de 1921 e que só foi interrompido pelo governo de António de Oliveira Salazarem 30 de junho de 1934, precisamente o ano do Congresso, por ver naquela editora uma fonte de contestação política. Algumas das suas obras, publicadas pela Fundação Gulbenkian em forma impressa, têm acesso online no sítio [5].

  A sua posição sobre a ampla visão que ele entendia necessária ao espírito humano talvez ressalte desta frase que proferiu em 1932 no final de um discurso na Academia de Ciências de Lisboa, na inauguração do Instituto de Altos Estudos (a Academia de Lisboa tinha convidado o professor de Coimbra para ocupar a cátedra de História da Ciência) [3]:

O homem que apenas explica cientificamente é uma determinação limitada da natureza humana, assim como o é o homem que apenas se move no reino dos valores estéticos, éticos ou religiosos. O grande problema para nós, hoje, é um problema de integração e não de exclusão, e portanto o homem ideal será aquele que substitua a visão unilateral pela visão integral, e se situe numa atitude de compreensão e de vida tal, que realizando um outro tipo humano, demandando com igual intensidade e fervor o conhecimento que explica e o conhecimento que salva, a ambos afinal contenha e supere.

O humanista e historiador do humanismo português José de Pina Martins, membro da Academia das Ciências e grande bibliófilo, diz no seu prefácio a essa obra [3]:

 Só quem não conhecesse Joaquim de Carvalho poderia admirar-se da mestria com que tratava com igual competência problemas de filosofia, de crítica literária, de história da ciência e mesmo de bibliofilia. 

 Luís Albuquerque

 O Professor Luís de Albuquerque foi outro extraordinário homem de cultura que marcou o nosso século XX, juntando de forma rara as ciências e das letras. Natural de Lisboa, estudou Matemática e Engenharia Geográfica na Universidade de Coimbra, tendo-se doutorado em 1959 com uma tese intitulada Sobre a Teoria da Aproximação Funcional. Só mais tarde se interessou pela História das Ciências e das Técnicas, muito em particular pela História da Náutica, na qual tão importante foi o contributo dos navegadores portugueses dos séculos XV e XVI. Colaborou com o historiador Armando Cortesão (de origem engenheiro agrónomo) em Coimbra num gabinete de estudos e em cursos sobre cartografia antiga. A sua excelente bagagem matemática permitiu-lhe lidar com grande à vontade com questões complexas, de natureza científica, que colocariam sérias dificuldades a historiadores de formação tradicional. Luís Albuquerque, professor catedrático na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra desde 1966, foi um autodidacta em história: chegou a um lugar cimeiro nessa área graças à sua enorme capacidade intelectual e a décadas de estudos em História. Não admira por isso que a Universidade de Lisboa, em cuja Faculdade de Letras ensinou, lhe tenha atribuído em 1985 o grau de Doutor honoris causa em História.

 Luís de Albuquerque não só desenvolveu a subdisciplina da História da Ciência e da Tecnologia, na senda de outros historiadores da náutica como o já referido comandante Fontoura da Costa, como procedeu a um notável trabalho de divulgação da gesta marítima portuguesa para o grande público. Refiram-se, em particular, os livros Os Descobrimentos Portugueses [6-7], dois com o mesmo título destinados a públicos díspares, e Navegadores, Viajantes e Aventureiros Portugueses. Sécs. XV-XVI [8], para além da edição de obras de referência como a Biblioteca da Expansão Portugueses [9], Portugal no Mundo [10] e Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses [11]. Apesar dessa muito bem sucedida deriva para a História, que lhe passou a ocupar a maior parte do tempo, nunca perdeu a ligação às suas origens. Assim, contribuiu para a formação de um grupo em Álgebra em Coimbra e quis dar a sua última lição, em 1987, quando se jubilou, sobre um tema de Matemática. Ocupou lugares de relevo na academia como os de Vice-Reitor de 1978 a 1982 e de Director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra de 1978 até à data da sua jubilação. Foi um cidadão muito empenhado na cultura, tendo sido um dos protagonistas maiores na redacção da revista Vértice. Politicamente, para além da expressão das suas ideias de oposição e da grande abertura às dos outros, limitou-se a ser, por pouco tempo, governador civil de Coimbra após o 25 de Abril de 1974.

 O seu liber amicorum, volume de homenagem para o qual contribuíram numerosos colegas e amigos, Luís de Albuquerque Historiador e matemático [11] inclui, para além da sua extensa bibliografia, depoimentos de colegas e amigos (ver também [13-14]). Transcrevemos do depoimento do Professor de Matemática da Universidade de Lisboa J. J. Dionísio esta citação do Prof. Albuquerque sobre o ensino da História da Matemática, que ele ministrou em Coimbra:

 “Para isso [ensinar aquela disciplina] é necessário que a uma sólida e ampla formação de matemático o professor alie um bom conhecimento de história das ideias e das mentalidades, devendo ainda estar bem apetrechado na área das línguas.”

 O Prof. Albuquerque tentou até ensinar ao mesmo tempo alemão (ele tinha estado na Alemanha) e topologia: poder-se-á imaginar uma maneira mais original de juntar letras e ciências?

 Rómulo de Carvalho

Por último, Rómulo de Carvalho, nascido em Lisboa, foi professor de Físico-Química, com formação adquirida primeiro na Universidade de Lisboa e depois na do Porto, onde concluiu os estudos, tendo-se revelado, para além de pedagogo e historiador da pedagogia em Portugal, um notável historiador e um incansável divulgador de ciência (ver os dois volumes saídos na Universidade de Évora [15-16]) . Tal como Joaquim de Carvalho, Rómulo de Carvalho interessou-se pelo segundo período de ouro da ciência portuguesa: o Iluminismo, um tempo onde foi preponderante a acção dos sócios portugueses da Royal Society de Londres (muitos deles “estrangeirados” como o judeu Jacob de Castro Sarmento, mas também os oratorianos Teodoro de Almeida e João Chevalier e o originalmente crúzio João Jacinto Magalhães foram sócios dessa instituição [17]). Tendo a actividade científica desses “modernos” (assim se diziam os adeptos da física de Galileu e Newton) atingido um pico no final do reinado de D. João V (que, recorde-se, faleceu em 1750), ela sofreu um sobressalto com a perseguição aos jesuítas e aos oratorianos (quanto à perseguição aos judeus ela já vinha do tempo de D. Manuel I) após o grande terramoto de Lisboa de 1755 e a expulsão dos jesuítas em 1759, mas essa actividade acabou por encontrar acolhimento na Reforma da Universidade de Coimbra, em 1772, designadamente com a criação do Gabinete de Física, e, já depois da “Viradeira”, na inauguração da Academia de Ciências de Lisboa, em 1779. Vários professores de Coimbra de Ciências foram sócios fundadores dessa Academia, o que significa que, apesar do nome, o seu carácter nacional foi imediatamente reconhecido.

 Para estudar esse período Rómulo foi um frequentador assíduo quer do antigo Gabinete de Física de Coimbra quer da Biblioteca Geral e do Arquivo da Universidade quando era professor no Liceu Normal de D. João III (hoje Escola Secundária José Falcão), em Coimbra. Mais tarde foi, durante muitos anos, frequentador assíduo da Biblioteca e Museu da Academia de Ciências, quando era professor no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. Como na época os estudos sobre os Descobrimentos já estavam em grande parte lançados, preferiu focar a sua atenção sobre esse outro grande período da ciência em Portugal, que foi a recepção plena do newtonianismo, que é como quem diz, da ciência moderna. É talvez o nosso maior historiador da Ciência Iluminista, que divulgou nos pequenos volumes da colecção Biblioteca Breve do Instituto de Cultura e História Portuguesa ([18-20], hoje todos em acesso livre on line [21]) sobre a Astronomia, Física Experimental e História Natural no século XVIII.

Apesar de bem acolhido no Laboratório de Física pelo seu Director João de Almeida Santos, Rómulo de Carvalho não foi muito feliz nos contactos que manteve com a Universidade com vista à publicação de uma sua obra sobre a história do estabelecimento da Física Experimental com a fundação do Gabinete de Física pelo Marquês de Pombal, equipado em boa parte com máquinas vindas dos oratorianos de Lisboa [22-23]. Nas suas Memórias [24], publicadas pela Fundação Gulbenkian, conta como foram atribuladas as suas relações com José Sebastião da Silva Dias, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (licenciado em Direito, Silva Dias começou em 1957 a dar aulas de História da Cultura nessa Faculdade, sucedendo de certo modo a Joaquim de Carvalho): o grosso volume sobre o Gabinete de Física pombalino (esse Gabinete é, desde 2014, “Sítio Histórico da Física” na Europa, por escolha da Sociedade Europeia de Física [25]) acabou por ver a sua publicação protelada para sair finalmente do prelo pela Biblioteca Geral, no tempo em que era seu director Luís de Albuquerque, mas apenas quinze anos após a sua redacção e uma paragem de quase quatro anos na tipografia. A Universidade de Évora, ao conceder a Rómulo de Carvalho o grau de doutor honoris causa em 1995, prestou-lhe uma homenagem que, vinda do mundo universitário, foi tão justa quanto tardia. Em Coimbra, o nome do Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra [26], moderno centro de recursos em cultura científica integrado no Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, também lhe presta homenagem. Como curiosidade, acrescente-se que Rómulo de Carvalho veio a ocupar em 1992 o lugar de Luís de Albuquerque na Academia das Ciências, tendo-lhe feito o devido elogio.

Rómulo de Carvalho foi, como é bem sabido, o poeta António Gedeão. Haveria para ele uma dicotomia entre ciência e poesia? Respondeu esse homem das “duas culturas” [27] numa entrevista a Christopher Auretta e António Nunes dos Santos, publicada na Gazeta de Física [28]) :

RC/AG – (…) Há alguma dicotomia? Não há nenhuma! A pessoa encara a poesia como encara a ciência como encara a arte, como encara qualquer outra coisa, não há incompatibilidade.
 CA - Convivem pacificamente?
RC/AG - Com certeza.
 CA - Enriquecem-se?
RC/AG - Exactamente. Não há nenhum motivo para me dizerem: "Então, você que é cientista, também faz poesia? Não tem nada uma coisa com a outra. Pois é, faço e também faço móveis!"

 Referências sobre a vida e a obra de Rómulo de Carvalho / António Gedeão foram as exposições que o Museu de Ciência da Universidade de Lisboa e a Biblioteca Nacional de Portugal lhe fizeram postumamente, ambas com bons catálogos [29-30].

Conclusões

O que têm em comum os Professores Joaquim de Carvalho, Luís de Albuquerque e Rómulo de Carvalho? Pois, além de uma imensa capacidade intelectual, uma omnívora voragem pelos conhecimentos históricos, que ia sendo satisfeita pela consulta e leitura dos manuscritos e cimélios (todos foram distintos bibliófilos). E, sobretudo, todos eles prezaram o cruzamento entre as várias áreas do vasto saber humano. Joaquim de Carvalho situa-se entre a filosofia e a ciência (o ramo da filosofia que dá pelo nome de epistemologia não é mais do que o enquadramento da ciência na filosofia), Luís de Albuquerque entre a Matemática e a História (a navegação astronómica, que desempenhou um papel essencial na descoberta do mundo nos séculos XV e XVI, não é mais afinal do que um ramo da Matemática Aplicada) e Rómulo de Carvalho entre a ciência, a história, a pedagogia, a divulgação e a poesia (abrindo-se num espectro ainda maior do que os outros seus dois contemporâneos). Todos eles contribuíram para a História da Ciência na Universidade de Coimbra, que é em grande parte a História da Ciência em Portugal (ver os volumes recentes da Imprensa da Universidade de Coimbra [31-32] e a obra de divulgação histórico-científica [33], que de certo modo oferecem resposta ao repto do prefácio às Actas do III Congresso Internacional de História das Ciências, transcrito no início). Todos eles pugnaram pela difusão da ciência sob a forma privilegiada do livro, Joaquim de Carvalho não só como autor mas também como editor da Imprensa da Universidade, e Luís de Albuquerque e Rómulo de Carvalho como autores de extensíssimas bibliografias.

 E há mais em comum: os três foram excepcionais na defesa da ciência. no século XX português, que, apesar de ter beneficiado dos enormes avanços nas ciências e tecnologias feitos no mundo, só a partir de 1974 viu reconhecido o papel da ciência e da tecnologia no desenvolvimento nacional. E os três sempre pugnaram pela unidade das ciências. Podem as ciências ser múltiplas e díspares, mas das suas ligações e do reconhecimento da sua unidade (veja-se, como referência para a descrição dessa unidade, a obra de Olga Pombo, professora de Filosofia das Ciências na Universidade de Lisboa, em particular [34]) resulta sempre compreensão acrescida. Num tempo de enorme fragmentação, podendo mesmo dizer-se pulverização, disciplinar, a unidade das ciências pode trazer esclarecimento adicional. A visão histórica ajuda: Se os Descobrimentos foram o prelúdio da Revolução Científica e o Iluminismo, época em que triunfou a ciência de Galileu e Newton, foi marcado pela publicação da Enciclopédia de d’Alembert e Diderot e pelo diálogo interdisciplinar nas academias então formadas, o tempo de hoje, com o cultivo da História das Ciências, pode beneficiar sobremaneira com a revisitação intelectual desse passado.

 O Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, que reúne todos os centros de Investigação da Universidade de Coimbra, pode ser o lugar onde esse cultivo se concretize ou pelo menos lugar que fomente esse cultivo, sendo decerto um bom auspício a recente criação, numa iniciativa conjunta das Universidades de Coimbra e Aveiro, de um programa doutoral em “História das Ciências e Educação Científica”. Que as figuras de Joaquim de Carvalho, Luís de Albuquerque e Rómulo de Carvalho possam a este respeito ser inspiradoras.

 REFERÊNCIAS

 [1] George Sarton, The history of science and the new humanism” New York: Henry Holt and Co, 1931. Dedicatória: To Professor Alberto Pessoa in remembrance of the happy days of Coimbra and Lisboa.
 [2] Vários, III Congrès International d’Histoire des Sciences. Actes, Conferences et Communications, Lisboa, 1936.
 [3] Joaquim de Carvalho, Obra Completa, Vol. V, História e Crítica Literárias e História da Ciência, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987.
 [4] Obras / Pedro Nunes. – Nova edição, revista e anotada por uma Comissão de Sócios da Academia das Ciências. Lisboa: Imprensa Nacional, 1940-1960, 4 vols.
 [5] http://joaquimdecarvalho.org/ (acesso em 8 de Setembro de 2014).
 [6] Luís de Albuquerque, Os Descobrimentos Portugueses. Lisboa: Alfa e Selecções do Reader’s Digest, 1985.
 [7] Luís de Albuquerque (com Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada), Os Descobrimentos Portugueses, 2 vols., Lisboa: Caminho, 1991-1992.
 [8] Luís de Albuquerque, Navegadores, Viajantes e Aventureiros Portugueses. Sécs. XV-XVI, Lisboa: Círculo de Leitores e Caminho, 1987, 2 vols.
 [9] Luís de Albuquerque (direcção), Biblioteca da Expansão Portugueses, Lisboa: Alfa, 1989. 50 vols.
 [10] Luís de Albuquerque (direcção), Portugal no Mundo, Lisboa: Alfa, 1989, 3 vols.
 [11] Luís de Albuquerque (direcção) e Francisco Contente Domingues (coordenação), Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses Lisboa: Círculo de Leitores e Caminho, 1994, 2 vols.
 [12] Vários: Luís de Albuquerque. Historiador e Matemático, Homenagem, de Amizade a um Homem de Ciência, Lisboa: Chaves Ferreira – Publicações, 1998.
 [13] Alfredo Pinheiro Marques, Luís de Albuquerque na historiografia portuguesa: a serenidade e a convicção. Coimbra e Figueira da Foz: Centro de Estudos do Mar, 1998.
 [14] Vários, Testemunhos. Luís de Albuquerque, Coimbra: Ordem dos Engenheiros – Região Centro, 2007.
 [15] Rómulo de Carvalho, Actividades científicas em Portugal no século XVIII. Évora: Universidade de Évora, 1996.
 [16] Rómulo de Carvalho, Colectânea de estudos históricos (1953-1994): cultura e actividades científicas em Portugal. Évora: Universidade de Évora, 1997.
 [17] Carlos Fiolhais (coordenação), Sócios Portugueses da Royal Society / Portuguese Fellows of the Royal Society, Coimbra: Universidade de Coimbra, 2011.
[18] Rómulo de Carvalho, A Física Experimental em Portugal no Século XVIII. Lisboa: Instituto de Cultura e História Portuguesa, 1982.
[19] Rómulo de Carvalho, A Astronomia em Portugal no Século XVIII. Lisboa: Instituto de Cultura e História Portuguesa, 1985.
[20] Rómulo de Carvalho, A História Natural em Portugal no Século XVIII. Lisboa: Instituto de Cultura e História Portuguesa, 1987.
[21] Biblioteca Virtual Camões http://cvc.instituto-camoes.pt/ (acesso em 8 de Setembro de 2014) [22] Rómulo de Carvalho, História do Gabinete de Física pombalino da Universidade de Coimbra: desde a sua fundação (1772) até ao jubileu do professor italiano Giovanni Antonio Dalla Bella (1790), Coimbra: Universidade de Coimbra, 1987.
 [23] Carlos Fiolhais, Os Livros que Rómulo de Carvalho nos deixou, in Actas do Encontro Internacional António Gedeão & Rómulo de Carvalho, Novos Poemas para o Homem Novo, Célia Vieira e Isabel Rio Novo (organização), Maia: Edições ISMAI, 2008, pp. 35-42
 [24] Rómulo de Carvalho, Memórias, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010
 [25] http://www.uc.pt/colaboradores/destaques/20140901 (acesso em 8 de Setembro de 2014)
 [26] http://nautilus.fis.uc.pt/rc/?page_id=87 (acesso em 8 de Setembro de 2014)
 [27] C. P. Snow, As Duas Culturas, Lisboa: Presença: 1996. .
[28] http://nautilus.fis.uc.pt/spf/velharia/gazeta/93/GF-16_1.93/02.html (acesso em 8 de Setembro de 2014)
 [29] Vários, “António é o meu nome”, Rómulo de Carvalho, Lisboa: Biblioteca Nacional, 2006, e sítio “António é o meu nome”, Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal http://purl.pt/12157/1/ (acesso em 8 de Setembro de 2014)
 [30] Luísa Corte-Real e Marta Lourenço (direcção), Pedra Filosofal. Rómulo de Carvalho / António Gedeão, Lisboa: Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, 2001.
 [31] Carlos Fiolhais, Décio Martins e Carlota Simões (coordenação), História da Ciência Luso-Brasileira: Coimbra entre Portugal e o Brasil, Coimbra: Imprensa da Universidade, 2013.
 [32] Carlos Fiolhais, Décio Martins e Carlota Simões (coordenação), História da Ciência na Universidade de Coimbra (1772-1933), Coimbra: Imprensa da Universidade, 2013.
 [33] Carlos Fiolhais, História da Ciência em Portugal, Lisboa: Arranha Céus, 2013.
 [34] Olga Pombo, Unidade da Ciência. Programas, Figuras e Metáforas, Lisboa: Duarte Reis, 2006.

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