sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O INTRÉPIDO CAPITÂO LUNARDI


Meu artigo no último "As Letras entre as Artes":

O recente Congresso Internacional sobre Manuel Maria Barbosa do Bocage (1765 1805), realizado em Setúbal), foi uma excelente oportunidade para lembrar as primeiras ascensões em balão em Portugal, já que ele assistiu à  primeira subida em balão em Portugal, um evento que celebrou em verso.  O primeiro balonista entre nós foi o “capitão” italiano Vincenzo Lunardi (1759-1806) e a proeza foi efectuada do Terreiro do Paço em Lisboa no dia 24 de Agosto de 1794.

O Padre Bartolomeu de Gusmão (1685-1724) teve o mérito de ter sido o primeiro em todo o mundo a efectuar uma experiência subida de um pequeno balão de ar quente, no interior de um edifício. O eventio deu-se a 8/8/1709 na presença do rei D. João V, numa sala do seu Palácio, no Terreiro do Paço em Lisboa. A experiência, embora pioneira, não teve seguimento, talvez devido à onda de chacota que se abateu sobre o “padre voador”. O poeta Tomás Pinto Brandão (1664-1743) foi uma das vozes mais verrinosas.

O balonismo haveria de ser redescoberto, sete décadas mais tarde, com a primeira experiência não tripulada, agora já ao ar livre, efectuada em Annonay, França, em 5/6/1783, pelos irmãos Montgolfier. Estes realizaram uma experiência diante do rei Luís XVI em Versailles, com animais a bordo, a 19/9/1783, que precedeu a primeira subida tripulada, protagonizada pelo físico Pilâtre de Rozier e pelo Marquês de Arlandes, em Paris, a 21/11/1783, Mas uma tecnologia alternativa ao ar quente é a dos balões de hidrogénio, que foi testada pelo físico Jacques Charles e pelos seus assistentes Robert em Paris, em 27/8/1783 (um evento presenciado pelo poeta português Filinto Elísio, 1734-1819, fugido da Inquisição portuguesa, que compôs uma ode aos “novos Gamas”). Charles e Robert fizeram uma ascensão tripulada em Paris no dia 1/12/1783.

Em Portugal as primeiras experiências não tripuladas ao ar livre foram efectuadas pelo Padre João Faustino, nos Jardins do Paço da Ajuda, em Lisboa, em 3/4/1784, uma experiência que foi replicada em Coimbra pelo lente de Química Domingos Vandelli e seus discípulos no largo em frente ao Laboratorio Chimico em 25/7/1784.

O capitão Lunardi não era, de facto, capitão. Ganhou direito ao título honorífico, que dava direito ao uso da farda, pela Honorável Companhia de Artilheiros, de cujo quartel em Londres partiu em 15/9/1784 a primeira ascensão em balão em solo inglês, movido a hidrogénio (a tecnologia triunfante). Essa experiência haveria de ser repetida onze vezes, na Inglaterra e na Escócia, até um acidente ter ensombrado a florescente carreira britânica de Lunardi. O capitão era um aventureiro, secretário do embaixador do Reino de Nápoles em Londres, com quem partilhava a adesão à Maçonaria. Alcançou fama nas ilhas britânicas, tendo sido dado o nome de “lunardi” a um chapéu em forma de balão.

 Lunardi dirigiu-se então para Itália, tendo feito ascensões em Roma (8/07/1788), Nápoles (13/9/1789) e Palermo (31/7/1790). Depois viajou até Madrid, onde se elevou nos céus num balão  a  12/08/1792 e a 8/01/1793, Finalmente no final de 1793 chegou a Lisboa. Ao contrário do que se passou noutras terras – foi o primeiro a subir em Inglaterra, Itália e Espanha, com a presença de membros da família real – em Lisboa deparou com inusitadas dificuldades. Talvez devido às ligações maçónicas do italiano, o intendente Pina Manique levantou impedimentos à concretização da ideia de fazer uma ascensão a partir do Terreiro do Paço, tendo inclusivamente ordenado a sua prisão no Limoeiro. Finalmente, e após boa procura de de bilhetes, Lunardi conseguiu encher o Terreiro do Paço de povo que o viu subir  no dia 24/8/1794. O príncipe regente D. João estava em Queluz e não teve curiosidade em vir assistir ao voo. Bocage escreveu um soneto exaltando a proeza: 

“Ressoa, aplaude, exalta o sábio, o forte,
  Que, além das altas nuvens assomaiado,
 Colheu no Olimpo o antidoto da morte.” 

Num poema mais alargado da mesma altura Elogio poético à admirável intrepidez, com que, em Domingo 24 de Agosto de 1794, subiu o Capitão Lunardi no Balão Aerostático, publicado em folheto, deu largas à exaltação do feito, comparandoa aventura dos ares à epopeia marítima: 

“Gamas, Colombos, Magalhães famosos.
 Eternos no áureo Templo da Memória,
 Sirtes domando os Mares espantosos.
 De assombros mil e mil dourais a História; 
Mas ir dar leis aos ares espaçosos 
É triunfo maior, e até mais glória. 
Porque não traz à louca, à cega Gente
Os males de que sois causa inocente.” 

Não foi só Bocage que versejou sobre Lunardi. O mesmo fez o impetuoso poeta José Agostinho de Macedo (1761-1831). E, mais tarde, em Noites de Insónia, Camilo Castelo Branco (1825-1890) haveria de lamentar, em prosa, as dificuldades que Lunardi enfrentou entre nós. O voo de Lunardi chegou até perto de Vendas Novas, tendo o aeronauta voltado a Lisboa ao fim de duas noites e um dia. Ele próprio escreveu um relato da viagem num prospecto que publicou, que contém uma gravura do balão (provavelmente o mesmo que usou em Madrid).

 Lunardi repetiu o seu voo no Porto. Existe uma gravura relativa ao evento portuense que noticia  que  “às 5 horas e 12 minutos do dia 10 de Março de 1795, na praça de Santo Ovídio [hoje Praça da República, Cedofeita) subiu esta Máquina, e viajou até Sobreiras [Lordelo do Ouro] (...) Desceu às seis horas da mesma tarde”. Mas há pouca informação sobre este primeiro voo no Norte do país.


Quer Lisboa quer o Porto foram palco de voos antes de Barcelona. Foi ainda Lunardi o primeiro aeronauta a subir em Barcelona no dia  5/11/1802, tendo sido salvo por pescadores após queda no Mediterrâneo. Pouco se sabe sobre o fim de Lunardi. Sabe-se, porém, que morreu em Lisboa em 1606. Uma de duas – ou gostou de aqui ficar (era um galã, mas morreu solteiro) ou, mais provavelmente, ficou pobre e doente em Portugal. A Gazeta de Lisboa informou em 15/08/1806 que o intrépido capitão tinha falecido nno dia 1/8/1806 após internamento prolongado no Hospício dos Capuchinhos italianos em Lisboa.

Imagem: Pescadores catalães a resgatarem Lunardi no Mediterrâneo no seu voo de Barcelona, de 1802, o único que fez após os seus voos portugueses.

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