sexta-feira, 26 de agosto de 2016

UM SONETO "CIENTÍFICO" DE BOCAGE

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De Daniel Pires, grande especialista em Bocage, recebi este soneto relacionado com a ciência:

Enquanto o Sábio arreiga o pensamento[1]
                                   Nos fenómenos teus, ó Natureza,
                                   Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
                                   Volve o subtil geométrico instrumento;

                                               Enquanto, alçando a mais o entendimento,
                                   Estuda os vastos céus, e com certeza
                                   Reconhece dos astros a grandeza,
                                   A distância, o lugar e o movimento;

                                               Enquanto o Sábio, enfim, mais sabiamente
                                   Se remonta nas asas do sentido
                                   À corte do Senhor Omnipotente;

                                               Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
                                   De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:
                                   Do mais, e de mim mesmo ando esquecido.


Bocage


[1] Publicado no primeiro tomo das Rimas, nas edições de 1791, 1794 e 1800, p. 32. A edição original deste soneto, publicada em 1791, difere, sensivelmente, das posteriores, quer no que diz respeito à grafia, quer ao conteúdo. A edição publicada em 1794 é quase igual à de 1800. Apenas a grafia foi modernizada: “arraiga”, no primeiro verso, passou a “arreiga”.

1 comentário:

  1. O Bocage está aqui, num belo poema, para quem quiser, puder, souber, aprouver, meditar e, porqur não, aprender. Aprender o quê? Eis a questão. A poesia, tantas vezes, é o que resta, o que mais é nosso, depois de tudo ter perdido interesse e importância. Faz-me lembrar um pouco a ideia de espírito da lei e a ideia de história e a ideia de espírito.
    A expressão/formulação/verbalização/comunicação...da constatação, sentimento, pensamento, da beleza, das harmonias naturais, de padrões de inteligibilidade, de sentido das narrativas do histórico e o amor, o fascínio, a paixão pela arte de o comunicar, é um tipo de conhecimento, diria, conhecimento de poesia sem o qual os palcos da vida, ainda que estivessem equipados com as melhores tecnologias e confortos de plateia, não faziam sentido.
    Faz muita falta, também nos tempos de hoje, ou mais do que nunca, (nem digo ajudar, que parece ser pedir demasiado) deixar as pessoas viver, deixar a natureza viver (as dinâmicas humanas de destruição são desmoralizadoras), a natureza que os poetas, aliás, desde sempre enalteceram, eles, os grandes paladinos do respeito e do sentimento de amor pela mãe natureza.

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