domingo, 6 de março de 2016

Verdade e responsabilidade

Ciência e ética são, em geral, apresentadas como duas entidades distintas ainda que podendo e devendo comunicar entre si. Nos debates, muito na moda, sobre essa comunicação é comum chamarem-se, cientistas e éticistas. Fico sempre com a impressão de que o cenário é este: uma coisa e outra coisa; uns e outros.

Devo dizer que essa impressão me incomoda, e mais me incomoda o fim da comunicação: encontrar uma "armadura ética" para a ciência, de modo que esta possa justificar um "bom comportamento" e nada lhe possa ser apontado.

Tudo é muito mais complicado e, no entanto, muito mais simples. Vejo a ciência e a ética do mesmo lado, em última instância a mesma coisa. Isto se entendermos que toda e qualquer acção científica tem subjacente a noção de verdade, mas também a de responsabilidade. Amin Maalouf explica o que quero dizer:
“Há entre os meus colegas, um homem que consagrou vinte anos da sua carreira a criar variedades de batatas mais pesadas, cada vez mais pesadas, mas sem sabor, e de menor valor nutritivo que aquelas que temos o hábito de consumir, e cujo mérito é fazer ganhar mais dinheiro aos cultivadores menos conscienciosos. Tenho outra colega, uma veneziana, que conseguiu ao fim de trinta anos de ensaios duplicar o volume de uma certa variedade de arroz concentrando ao mesmo tempo o seu teor de vitaminas: de modo que hoje cerca de duzentos milhões de humanos melhoraram a sua alimentação graças a ela. Estes dois investigadores estudaram nos mesmos livros e utilizaram as mesmas descobertas fundamentais, as mesmas técnicas. Simplesmente, não lhe deram o mesmo uso.” 
Maalouf, A. (1992). O primeiro século depois de Beatriz. Lisboa: Difel, pp. 73-74.

2 comentários:

  1. Entrei recentemente num debate "na internet" onde o que se discutia era isto, e onde procurei contrapor uma noção de que "a definição do princípio ético deve ter em conta a ciência", a meu ver uma inversão de algo que pode ser dito assim "a definição do procedimento cientifico e dos objectivos e fins da pesquisa devem ter em conta princípios éticos comummente aceites pela comunidade científica e pela sociedade como um todo."

    Como no exemplo que dá, existem dois objectivos, perfeitamente legítimos, por um lado aumentar a produtividade de uma plantação das batatas para ganhar mais dinheiro, por outro aumentar a produção de arroz para resolver problemas de fome ou má nutrição, os quais preexistiam às investigações e que não se modificam por haver objectivos "opostos" que por si só não se invalidam mutuamente.

    Ou num exemplo que dou, a noção de que se não deve dar maus tratos a animais não existe porque em ciência pode não ser aceitável que se usem animais em pesquisa em algumas investigações, mas os cientistas que usam animais nas suas pesquisas devem ter em conta o bem estar destes na medida do possível, tendo em conta que são necessários para o seu trabalho. Da mesma forma não é necessária a confirmação científica de que, por exemplo, os animais têm dor, para que a mesma noção seja válida per se, apesar de a reforçar. Não é necessariamente um debate em que uma coisa se opõe à outra ou que se confundam uma à outra, mas sim um longo espectro de cinzentos que não são redutíveis às cores preta e branca.

    Em último caso ética dá ou é a resposta à pergunta - O que fazer, como fazer e porque fazer? sendo aplicável tanto dentro como fora do campo cientifico, sem ser necessariamente determinado em todos os casos por normas de conduta em ciência.

    Lamentavelmente não me consegui fazer entender, nesse debate.

    Miguel Cabrita

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  2. A bem dizer, a ciência não é poder e os cientistas por terem conhecimento não decorre daí que tenham o poder.
    Por outro lado, poder não é ciência e quem detém o poder não detém, necessariamente, conhecimento científico.
    Em rigor, o cientista apenas conhece a realidade.
    A partir do momento em que age, já não é propriamente como cientista, mas como agente e aí, sim, exerce um poder.
    A ciência não tem nada de perigoso, nem de mal, porque a ciência não interfere, nem altera a realidade. O perigo e o mal estão na ação e no agente.
    É importante não confundir o conhecimento das coisas com a manipulação das coisas.
    Sabendo nós que o poder não costuma estar nas mãos dos cientistas, mas que estes costumam estar nas mãos do poder, afigura-se altamente perigoso e de controle difícil ou impossível, um conhecimento da realidade, não pelo conhecimento em si mesmo, mas pela ação que esse conhecimento possibilita.
    Diria que a associação da ciência à técnica tem algo de paradoxal, na medida em que a ciência é objetiva, imparcial, eticamente neutra e não tem objetivos, enquanto que a técnica corresponde à não aceitação da realidade. Nesta é que está o perigo e as ameaças.

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