terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O naufrágio: Editorial do Público sobre a pseudo-avaliação da ciência nacional


Trancrevo do Público o editorial de hoje, da responsabilidade da direcção do jornal:


Certa gente se salvou, só a ciência é que não


"Uma velha canção popular açoriana termina, na última estrofe, desta maneira: Toda a gente, toda a gente se salvou,/ Ai se salvou, só o San Macaio não. O San Macaio dessa história é um barco, e apetece glosar a sua “moral” quando acabam de ser conhecidos os resultados finais do chamado “processo de avaliação” das unidades de investigação científicas portuguesas. Se estas forem vistas como um barco, ou seja, como um todo, dificilmente se encararão as suas várias parcelas como dispensáveis. O processo que agora terminou destina-se, porém, a salvar o casco, o leme e algumas velas e a deixar afundar o resto. O enaltecimento da “excelência”, louvável em parâmetros relativos, foi tido como regra absoluta, onde ser “apenas” bom não conta. Pode-se deitar fora, por exemplo, os remos... Mas quando vier o naufrágio diremos, sem receio de errar, que certa gente (vista como excelente) se salvou, só a ciência (o barco, afinal) é que não."

14 comentários:

  1. Os 11 melhores são realmente de qualidade superior. Grande parte dos centros de qualidade obtiveram financiamento significativo. Salvou-se a ciência em portugal; só não se salvou o centro do Fiolhais.

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  2. Concordo com o Anónimo das 13:02.

    Outra coisa que esta avaliação mostrou foi a incrível arrogância da comunidade científica portuguesa que considerou um absurdo e ultrajante ter que ser avaliada por pares. Depois houve mais gritaria por não terem sido todos considerados "Exceptional". O que mais se via escrito era "Afinal quem pensam que são estes avaliadores para nos considerarem apenas Good, Very Good ou Excellent?" As fontes do barulho são as figuras de sempre: reitores e certos professores catedráticos que se consideram Ph.Deuses. Essencialmente consideram que a FCT tem a obrigação de despejar milhões de Euros nas suas instituições e grupos de investigação sem exigir nada em troca. Afinal, a genialidade deles não tem preço.

    Em resumo, das centenas de artigos que li a respeito desta avaliação, o que vi foi arrogância em excesso (notem o desprezo ao referirem como "certa gente" aqueles que conseguiram melhores notas) e nenhuma linha de auto-crítica.

    P.S.: A analogia do barco no editorial é bem fraca. Acho que o que retrata melhor a comunidade científica hoje é um barco onde só há capitães e ninguém quer seguir ordens de ninguém.

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    1. Já não foi nem a primeira nem a segunda vez que se realizou a avaliação dos centros da FCT. Em nenhuma das anteriores houve tal coro de protestos. Porquê? Porque as regras não foram atropeladas. Porque foram verdadeiramente feitas "por pares", com diálogo científico dos painéis com os avaliados aquando das visitas. Porque em cada área havia um leque alargado de especialistas. Porque todos os centros foram visitados. Etc. Claro, foram mais caras. Como diz o povo "galinha gorda por pouco dinheiro..."

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    2. As visitas pouco alteraram as classificações. Mas compreendo que alguns tenham sentido falta das visitas. É que nas anteriores as visitas eram feitas por amigos e incluíam - em alguns casos - almoçarada.

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    3. É claro que as visitas pouco alteraram as classificações. Apesar de tudo, não sendo competentes nos domínios dos centros visitados, os painéis abstiveram-se de fazer mudanças. Além de que, ao que tudo indica, as classificações iniciais eram para ficar, mesmo com erros demonstrados!
      Que as anteriores visitas, onde os painéis tinham à volta de vinte investigadores de todas as subáreas e de todas as nacionalidades, fossem feitas por amigos parece-me obra! Já sobre as almoçaradas não sei, mas consta por ai que os avaliadores desta última também almoçaram.

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  3. Boa tarde. Não gosto de comentar como anónimo, embora por vezes isso me coloque como alvo dos Trollibãs que tudo sabem e tudo comentam. Adiante.
    Este processo de avaliação estava inquinado deste o princípio. No decorrer da visita de avaliação ouvi um dos avaliadores desabafar para outro: "Não percebo nada destas coisas. Depois vou ter de ver o que é que eles querem que escreva no relatório." Ele disse-o em inglês, a tradução é minha.
    Além disso há incongruências notórias, como o facto de a grelha de classificação ter sido anunciada com cinco posições, e depois afinal ter surgido com seis!!
    Por outro lado há uma grosseira disfunção na atribuição de verbas. Pois se não são função directa nem da classificação nem do número de membros do centro, são afinal função de quê? Tanta transparência deu nisto.
    Os dados estão aqui:
    http://www.fct.pt/apoios/unidades/avaliacoes/2013/index.phtml.pt
    Que tristeza. Faz levantar os fumos de suspeita de falcatrua, quer na atribuição das notas, quer na repartição das verbas. Mas estou convicto de que é apenas incompetência pura, e não maniqueísmo perverso.
    - - -
    Por outro lado, se tivesse de escrever um editorial, não começava por atacar a forma como a avaliação foi feita. Esse é um mal menor. Atacava sim a falta global de verba. Essa é que é a raiz do problema. O busílis da questão é o poder dos ignorantes, que consideram a ciência um LUXO vedado a que certos países. Estamos pior que nos obscuros anos 60-70, para quem se lembra como era. As verdades têm que ser ditas, ainda que despudoradas e incómodas.

    Em conclusão: Estou farto disto e desta Europa!

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  4. Ninguém de boa fé terá coragem de por em causa os resultados desta avaliação. Os melhores são de facto muito melhores e muitos dos outros estão cá a mais. Como cientista tenho apenas que agradecer à FCT a coragem de levar por diante este processo.
    Como em tudo na vida, também na ciência portuguesa Darwin poderá comprovar a sua teoria. É dar tempo ao tempo e lá chegaremos. E ainda bem...

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    1. Pessoalmente agradeço antes à "antiga" FCT ter apoiado durante largos anos o desenvolvimento científico do país. Ter realizado várias avaliações dignas desse nome. Ter pessoal sempre pronto a ajudar os investigadores e não a complicar-lhes a vida como faz agora. É pena ter mudado.

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  5. Há por aqui uns cientistas tão bons, tão bons, que não conseguem ver mácula no processo, a sua «expertise» não se perde com miudezas dessas.
    Por serem tão bons, tão bons, só pode ser por isso, pairam sobre os outros e sobre a realidade.
    E subiram tanto que até perderam o nome, são anónimos, coitados.

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  6. Isto foi o fim de uma grande fantochada. E não venham os anónimos dizer que "Os 11 melhores são realmente de qualidade superior. ", que os "melhores são de facto muito melhores e muitos dos outros estão cá a mais". Eu não trabalho em Portugal, e tenho experiência para dar e vender em ser avaliada por painéis e júris internacionais, pelo que também dispenso a sabedoria dos anónimos nesse aspecto. Não há nenhum bom critério académico na minha área, para avaliar positivamente as unidades que foram bem avaliadas, e negativamente as que não passaram à segunda fase.

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  7. Se ainda preferem evitar apontar o conluio e as consequências totalitárias da privatização da ciência. Não há verdade sem liberdade, a verdade será privatizada e a seguir a alma, pois o corpo já era.
    É isso - em conclusão: todos nós, povinho, temos de razões de peso para estar fartos disto e desta Europa sociopata e psicopata.

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  8. Professor Carlos Fíolhais, há 70 anos atrás o Presidente da Academia das Ciências declarava "a falência maciça da ciência". Numa carta que escreveu, o Professor Bento de Jesus Caraça, repudiou veemente tal afirmação e, incrédulo, questionava o porque daquele senhor ser, precisamente, o Presidente da Academia das Ciências. Hoje, todo o cidadão consciente, têm de estar igualmente incrédulo, como é possível que homens da ciência [Crato, Coutinho e outros] contribuam para a ruína da ciência em Portugal. Que raio de sorte a nossa a de hoje como a de ontem!!!

    Cordialmente,

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  9. Não há ninguém, honestamente inteligente, anónimo ou não, que possa dizer que esta avaliação foi justa e séria. Para além desses "pequenos detalhes" (que para os nossos políticos não interessam muito) a motivação por detrás de todo este processo é altamente criticável. Não é possível ter apenas investigação de topo (para mais assim classificada num processo destes). Nem sequer é saudável para todo o tecido científico. Com esta avaliação o estado vem ampliar desigualdades no acesso ao financiamento e cria de facto um monopólio na investigação, eliminando qualquer concorrência entre centros.

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  10. Boa tarde.
    Continuando a pelejar neste assunto, gostava de chamar a atenção para a inutilidade da despesa na avaliação, quando a causa real é a falta de verba geral para a investigação.
    Fundamento a afirmação anterior no estudo dos dados disponibilizados pela própria FCT.
    Coeff de correlação entre a Nota e a Verba Total Atribuida: 0.39
    Coeff de correlação entre a Nota e a Número de membros: 0.22
    Coeff de correlação entre o Número de membros e a Verba Total Atribuida: 0.79

    Coloca-se naturalmente a questão: Se a Nota interessa tão pouco, para quê então desperdiçar tanto dinheiro na avaliação?

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