segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Vitorino Nemésio: Limite de Idade


 Vitorino Nemésio une perfeitamente o humor negro, a poesia e as ciências naturais no livro “Limite de Idade”. O autor inicia-o com Epígrafe, onde expõe o frio da  senilidade:
«Aproveito o poente enquanto há sangue lampo/ E, ambos surdos à borda da lareira, / Atiço positrões improváveis no campo.»,
e suplica à Adrenalina:
«Leva-me lenta ao porto/ Da Morte…».
Também, em Epigrafe, o autor não tem escrúpulos em versejar sobre as doenças que o acompanham. Nemésio refere-se amiúde a bactéria Escherichia coli.
À Epígrafe segue-se Canada-Flight (as viagens entrópicas do poeta pelas grandes cidades do Canadá). O livro culmina com o Cão Atómico, etc, e bio-poemas.
Neste último subcapítulo o poeta não esquece a decadência sentimental da Europa:
«Eurátamo da Europa, sem núcleo, / Neutrão sem massa, / Erva de Átila em que tudo calca e passa,/ Tu, que deste a cabeça ao Toiro/ E a Jove a mão, / Onde puseste o coração?»,
e os perigos da energia nuclear em mãos demoníacas:
«…O Senhor teve pena do seu servo/ E guiou a mão de Becquerel/ E pôs um raminho de polónio/ Ao peito de Madame Curie,/ Mas veio o Diabo e queimou tudo/ Num cogumelo venenoso / E imitou o chumbo no plutónio/…»
Escolher dois poemas para o blogue foi uma tarefa delicada. Quase todos se enquadrariam bem nele.
FRAGMENTO DE UM MADRGAL EXTRAVIADO
………………………
Deutério moderador
(Para alguns água pesada)
De teus dedos me dirija
A reacção encadeda.
Que eu só acelero por Amor
Por morrer com Energia.
Não chores mais, flor do isótopo,
Que tudo isto é poesia
E tempestade num copo
De H2O+ bem comum:
Sem número de massas nem Z antes,
Que seu destino é nenhum.
+ Ironia do autor, ao escrever H2O, em vez de H2O .
CÂMARA HÚMIDA
Mais um paláce. Wellcome.
A pele da terra fêmea embandeirou.
Hot e Cold cumpriram aljofrando.
Um repolho no hall é uma canadiana  velha, adiposa, encantada:
Oh, darling!
Um electrão em órbita (sendo o núcleo uma ervilha)
Dá à estampa à robe fraise que a enfeitou.
Wellcome. Carlton.
Verdadeiramente, esta cadeia é digna de Ialta e Al Capone!
Sintonizo. Entro na órbita do repolho fêmea,
Puro, electrónico, sem massa
(Toda a massa é do núcleo — a ervilhaca da velha,
Que está de parabéns com um hippy às malas).
«A nossa cadeira dispõe de um Cyclotron sentimental no cityrama»
— Tirem a ervilha! — berro.
Carregaram de angústia o dispositivo da euforia,
E eu fico com cara de gota em halo de ventoinha
E sofro, sofro como um cão
A desintegração
Mas de α a ω espero o ϒ do perdão.

3 comentários:

  1. Obrigado! Os poemas de "limite de Idade" mereciam mais do que um parágrafo seco...

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  2. Ando a ler a obra poética de Vitorino Nemésio.
    Não foi pelo seu artigo que cheguei a ele.

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