quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Indisciplina no Ensino Superior: uma situação crítica

Um ano depois de ter tratado, com destaque, a indisciplina no ensino superior, o jornal Expresso volta ao assunto.
Imagem do jornal Expresso
de 28 de Setembro de 2013

O artigo de Joana Pereira Bastos não traz grandes novidades (ver também aqui), mas tem o grande mérito de relembrar ao país um problema real. E isso é importante pois, aqueles que, directa ou indirectamente, estão ligados ao referido patamar de ensino não podendo deixar de estar conscientes desse problema, tratam-no com discrição. As razões dessa atitude são múltiplas e não vem agora ao caso tratá-las (em texto que escrevi antes refiro algumas delas).

O que destaco desse artigo como elemento novo são os recentes processos instaurados a alunos, que ganham legitimidade pelo facto de universidades e institutos politécnicos terem vindo a aprovar regulamentos disciplinares. Esses processos, ao que a jornalista conseguiu apurar, já são em número apreciável e deviam-nos fazer parar para pensar.

Estamos a falar de estudantes que são adultos e que se encontram num nível académico não obrigatório, no qual ingressaram pelo interesse que uma área disciplinar lhe desperta. Ou não? Talvez não...

O que se deve fazer a partir daqui: mudar o ensino e torná-lo atractivo (evitando todo e qualquer "enfado expositivo", ou outro)? Acolher nas aulas a parafernália de aparelhos tecnológicos que, alguns dizem serem a extensão do próprio corpo? Incidir em questões concretas, práticas e próximas do quotidiano, que chamem a atenção?

Não creio. O ensino superior exige um conhecimento prévio, um nível de aprofundamento e um envolvimento, onde, uma vez detectados problemas, se requer mais do que a adopção de medidas reactivas e avulsas. Medidas que, procurando remediar, agravam a causa e os sintomas.

O assunto deveria merece uma atenção particular dos parte dos investigadores e das escolas, pois se a punição pode, no momento, fazer parar algumas situações críticas, está longe de ser a solução.

5 comentários:

  1. ISTO É MUITO GRAVE E NÃO TENHAMOS DÚVIDAS, EXISTEM CULPADOS = mães e pais!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Não o neguem!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Mas vão......................................


    Verdades!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  2. Completamente de acordo, professora Helena Damião. De facto, e com o devido respeito, ao contrário da visão simplificadora do anterior do comentador anterior, penso que as causas de tal situação são multifactoriais. Desde há uns anos (e digo-o, também pela experiência que tenho como mãe de varios filhos) que se verifica uma infantilização geral do ensino (nos livros de texto, nas baixas exigências comportamentais na família e na escola - por exemplo, lembro-me que na escola primária pública de um dos meus filhos havia a »salinha do descanso» para os que estavam cansados - , na ansiedade e preocupação profundas de que as crianças pro qualquer coisa fiquem «traumatizadas. Penso que é justo salientar que de, há uns anos para cá, sucessivos governos têm vindo a descredibilizar os professores e em consequência a sua autoridade na escola. Depois é acentuação social dos valores do individualismo/egoísmo, do passar por cima dos outros para obter o chamado sucesso (seja lá o que isso fôr).

    Conforme já referi, as causas são múltiplas. E a atitude global de que a culpa é sempre dos outros (ou das famílias, ou dos professores, dos professores que também são pais,, dos políticos, etc...etc...) só reforça a desresponsabilização geral e, nomeadamente, dos jovens que no seu processo contínuo de aprendizagem tomam como modelos os seus pais, a sua família, os seus professores. a comunicação social, o seu governo , o seu país.

    Cumprimentos,

    Luísa Almeida, Lisboa

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    1. Prezada leitora Luísa Almeida
      O ajustamento da escola (no sentido mais lato) às vontades, desejos, interesses, ritmos... dos mais jovens, não lhes dar desafios académicos, que sejam capazes de entender e concretizar, mas que exigem trabalho, em nada os ajuda.
      Uma política destas tem consequências a médio e longo prazo, que começam a ter visibilidade (tanto em termos de comportamento como de aprendizagem) e a causar inquietações.
      Os nossos alunos têm o direito de ser ensinados. E é esse direito que, em relação a muito, temos alienado e continuamos a alienar.
      Cumprimentos,
      MHD

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    2. Concordo totalmente.
      Voltei este ano ao ensino superior, aos 33 anos. Tenho no meu curso colegas com 17, e colegas na casa dos 50. Mesmo os mais jovens representam um grupo muito heterogéneo, relativamente a valores, motivação, comportamento, emoções. Mas também o corpo docente é heterogéneo reflectindo o seu percurso como pessoas e académicos. Estes alunos, tal como eu, enfrentam diferentes realidades, e a verdade, é que nota-se que não sabem reagir. Habituados a um regime maioritariamente expositivo e centrado nos conteúdos, e em testes mecanizados de escolha múltipla, ou testes padronizados de outra índole, não sabem como reagir à autonomia que lhes é solicitada em maioria dos casos. Sentem-se perdidos, confusos, alguns começam a sofrer por antecipação. É claro que cada aluno é uma pessoa, com um background diferente, com uma educação familar distinta, com uma passado académico distinto, mas a verdade, na minha opinião, é que o ensino superior, apesar das alterações que sofreu com o processo de Bolonha, não conseguiu, de uma maneira geral, adaptar-se a novas realidades.

      Mas nem tudo é mau! O ensino superior público tem qualidade, quando comparamos com outros países da Europa e da América do Norte, é acessível à maioria dos cidadão, e permite diversas escolhas e caminhos. Felizmente, a nível pedagógico há uma nova geração de docentes, receptivos a novos paradigmas curriculares, e que demonstram querer romper com o passado de racionalismo puramente académico.

      Concordo com a Helena Damião de que, os alunos têm claramente o direito de ser ensinados, e também o direito de reflectir e criticar a forma como são ensinados. Há muitas teorias actuais que defendem e comprovam a importância do pensamento divergente, com o direito à criatividade. Todos têm de estar envolvidos no processo educativo: pais, alunos, comunidade, docentes, instituições. Os comportamentos são reflexos, e uma resultado da interacção do individuo com o meio onde está inserido.

      Eu sou aluna, sou irmã, filha, tia, prima. Não me esqueci dos problemas e dos benefícios da minha geração de 1980. Não me esqueço do ano de 1998 quando ingressei pela primeira vez no ensino superior. Não vou esquecer este ano de 2013, passados 15 anos, onde voltei, e onde há coisas muito positivas, apesar de outras serem menos positivas. Mas uma coisa defendo e argumento:

      Não chega falar sobre os assuntos, viver no constante queixume, argumentar que está tudo mal, tudo errado, que os jovens são mal educados, indisciplinados. Há que avaliar todas as variáveis, e cada um deverá começar por efectuar mudanças por si mesmo, para que o individual se reflicta no todo.

      Cumps.

      PV

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  3. Pois eu também não sei qual é a solução. Mas o mundo tecnológico está aí e não vale a pena negá-lo. Esses aparelhos vão entrar cada vez mais na sala de aula e são cada vez mais pequenos e imperceptíveis. Tenho alunos que enviam sms sem sequer olhar para o teclado, às dezenas por minuto.

    As escolas fazem de tudo: proíbem, há sanções, apreensão de telemóveis, nada resulta.

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