domingo, 21 de julho de 2013

O TEMPO DO FUTURO?

Artigo de Guilherme Valente (por lapso publicámos antes uma versão inicial, de rascunho):

Tenho, evidentemente, consciência da gravidade da situação que estamos a viver. E no entanto... Passei a tarde de domingo com uns amigos, num convívio que se prolongou até cerca das 23h. E aconteceu-me aquilo que a minha formação e tudo que o que estamos a viver deveria tornar inimaginável que me acontecesse: esqueci-me da comunicação do Presidente da República. Esquecimento que tem um óbvio, brutal significado.

 Nos países que não têm regimes democráticos, ou nos quais o mecanismo das eleições não permite realmente que o povo escolha, que mande os maus governantes para casa, mas em que foi emergindo uma classe média e uma juventude instruída, que domina os novos meios de comunicação, rebentou a contestação política e social. É o caso da Tunísia e do Egipto. No Brasil, com um regime democrático eleitoral, o protesto centra-se na corrupção das elites e no gasto sumptuário, desviado da prioridade de investimento na educação e na saúde.

 E em Portugal? Em Portugal alastrou e instala-se o sentimento, a evidência, quiçá, de que a democracia que temos funciona numa realidade cultural e petrificou numa realidade partidária que parecem tornar impossível a resolução dos problemas económicos e financeiros do País, garantir e aprofundar a liberdade.

Isto é, petrificou na instalação e no domínio blindado do Estado por partidos autistas aos interesses do País, logo, por governos que, em vez de servirem o interesse do povo que determinou a sua designação, reproduzem o que não pode deixar de ser visto como uma manifesta recorrente incompetência, irresponsabilidade, mentira, frequentemente ligadas à grande ou pequena corrupção, à incapacidade ou falta de vontade para as enfrentar.  Tudo isto e o medo, o medo que a referência lamecha, muito «estado novo», ao «respeito devido às instituições», parece visar induzir.

 Uma situação cujas dramáticas manifestações tornam cada vez mais cívica e moralmente intolerável o alheamento ou a indiferença daqueles que materialmente não são, ou sentem não vir a ser, afectados por ela.

 Que fazer quando os que ocupam as instituições às quais caberia liderar o desenvolvimento do País e promover a liberdade, as tornam em sede de obstáculo a esse desenvolvimento, de ameaça ao florescimento da liberdade?  Há excepções, claro, excepções de boas intenções, mas que rapidamente são vencidas ou desistem, são honrosas, mas quase não contam.

 Que mecanismos, de equilíbrio e controlo, será necessário conceber e lutar para impor? Mecanismos que enfrentem esta cultura e esta realidade partidária, que impedem a construção de um futuro finalmente autónomo e continuada e sustentadamente livre dos Portugueses?

 Será preciso inventar? Importar, sim, será preciso importar mecanismos e atitudes. Mas também inventar, criar em função de uma realidade cultural nossa, para responder a mecanismos de identidade, a atitudes (ou vícios) muito próprios e persistentes. Projecto que o círculo vicioso, a blindagem do sistema, imposta pela cumplicidade de todos os senhores de todos os partidos, parece tornar impossível ser realizável sem rupturas. Realização que parece cada vez mais inatingível, nestes dias dramáticos que temos vivido, que tudo indica se perpetuarão, dias que por isso mesmo se poderão tornar em dias da ira.

 Está a circular na net uma cópia do Diário da República que refere algo que sendo aparentemente irrelevante é evidência expressiva do despudor político do costume. Apesar do apregoadíssimo excesso de funcionários públicos, o Governo (quem no Governo?) acaba de contratar, de colocar na função pública, na carreira técnica, dois recém-licenciados, com currículo vulgaríssimo, aliás. Para quê? Para -- imagine-se! - acompanhar as negociações com a troika. O que podemos fazer?

 Tudo a traduzir a indiferença chocante de quem sentirá ter absoluta impunidade, política e civil. A lembrar, não fora a formalidade, recorrentemente inútil, aliás, das eleições, a realidade de algumas sociedades latino-americanas.

Mas então, se é assim, porque não assistimos ainda em Portugal ao levantamento de protesto que se verifica no Brasil ou na Turquia, apesar, de serem países com um crescimento económico significativo?

Porque em Portugal a confortável situação económica das elites e um estado social -- artificialmente sustentado com parte da dívida astronómica contraída (a outra levou-a a corrupção), têm «pago» a cumplicidade, o alheamento, o conformismo, a aceitação dos que poderiam revoltar-se. E enquanto o pau vai…

Por outro lado, a crescente degradação da educação promovida irresponsavelmente pelos sucessivos governos nos últimos trinta anos, dando diplomas, mas semeando a ignorância, a indiferença cívica, o desinteresse político, o consumismo e a frivolidade (que a situação nas universidades, a resistência acéfala a uma exigência escolar mínima, as reivindicações egoístas, documentam), privaram o país, na dimensão necessária, da juventude informada, crítica, generosa, inconformada e exigente que naqueles outros países esteve na origem e é uma componente liderante da mobilização social e da mudança política.

 Mas também em Portugal, num quadro de determinações que, curiosamente, se aproximam das do brasileiro e do turco, mas, porventura, também do egípcio e do tunisino (apesar das enormes diferenças, claro), também em Portugal parece inevitável que a degradação crescente da situação económica, o desemprego dos jovens (o fim da ilusão facilitista em que viveram durante todos estes anos de devastação educativa), a impossibilidade do sistema pôr fim à sua própria reprodução, isto é, por razões materiais, mas, enfim, também por razões intelectuais e morais, parecem inevitáveis a explosão social e a contestação política que determinarão, enfim, a mudança da nossa endémica cultura, atitudes, realidade partidária e política.

Depois de tantas outras crises, resolvidas pela humilhação ou por soluções providenciais temporárias (comércio dos escravos, especiarias da Índia, oiro do Brasil, remessas dos emigrantes, dinheiro da Europa), crises que, por isso, não mudaram a cultura de dependência do Estado e de subserviência aos políticos, por ele e eles sempre encorajada..., parece, parece, anunciar-se agora, induzida pela crise material e a humilhação nacional, a crise de consciência que, finalmente, fará dos súbditos cidadãos.

Guilherme Valente

8 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Em situação de "clausura" a que gosto de me submeter quando estou entregue à tarefa ingente de "corrigir" provas de exame, não quero deixar de felicitar o autor deste texto, apesar de não enxergar resposta positiva para as questões que tão pertinentemente coloca.

    O meu pessimismo resulta de pensar que:
    - Há países que têm um representante máximo: um rei ou um presidente e outros que têm em seu lugar uma múmia residente;
    - Há países que têm deputados representantes dos cidadãos e outros que têm representantes de partidos que são como (eternos) "irmãos";
    - Há países que têm governos com ministros e há países que têm governos repletos de "maxinistros".

    E o povo, que é o meu, é burro de carga, preso pela arreata, que geme, padece e agradece.

    E onde vejo eu o mal maior? - Aqui:

    "[N]a crescente degradação da educação promovida pelos sucessivos governos nos últimos trinta anos, dando diplomas, mas semeando a ignorância, a indiferença cívica, o desinteresse político, o consumismo e a frivolidade (a situação nos campos universitários, a resistência acéfala a uma exigência escolar mínima, o álcool e as reivindicações egoístas)".

    As consequências são tremendas. E conspícuas, penso.

    Volto à concha...

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  3. Francamente, não há paciência!!!
    Em 40 anos produzimos dos melhores cientistas. Temos altas taxas de doutoramentos. Os nossos licenciados são reconhecidos interna externamente. Não seria de ver também o positivo e não apenas o negativo? Nunca tivemos uma geração tão culta, tão diversificada em interesses, tão criativa. Basta de ver apenas o negativo!! Muitos dos nossos jovens hoje são infinitamente mais cultos e mais interessantes do que os melhores de há 40 anos atrás. E, sobretudo, são muitos, muitos mais.

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  4. gostei muito do artigo , mas , no que se refere à contestação/revolta/revolução se comparar as pirâmides demográficas do Brasil Egipto Turquia e tal com a portuguesa verá que não se trata só de um problema de qualidade da juventude , é também de quantidade , de percentagem de jovens na população,, esses países são países "jovens" , sangue na guelra , os europeus são "velhos" , pantufas calçadas..
    ou seja , vou começar a rezar para nossa senhora de fátima plantar petróleo no beato ou em alternativa , um terremoto epicentro em sao bento porque esses parasitas humanos são tão burros que nem com o hospedeiro a morrer abrandarão a actividade.

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  5. Muito se fala neste país... Nunca vi tanta verborreia sem conteúdo, sem fundamento e sem ponta por onde se lhe pegue. Estamos em coma ligados à máquina da suprema consciência. Parecemos judeus em campos de concentração, mascarados de maus, a morder no parceiro de infortúnio enquanto se ouve, ao fundo!, o discurso de Posen por Henrich Himmler. Não sei quem é que me provoca mais afasia...

    Analisemos a 1ª estrofe do Falabaláqueo de Carroll:

    Jantárerahora, e suavérgicos texulhantes
    girandáteis e esburaquintes emontágua estão;
    Todos inflágeis e papalrantes,
    Fòralar os tarugorcos grichiandaltovão.

    Tal e qual o que eu acho!

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    1. Atenção que não tenho nada contra a ordem das palavras e respetivos instrumentos e compreendo a poasia até porque as desinências verbais, as marcas de plural e de género, os sufixos adjetivais e adverbiais asseguram a gramaticalidade do texto. O problema que me preocupa é o do sentido.

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    2. Antes que me chamem senil, devo esclarecer que isto não é um cachimbo.

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