segunda-feira, 2 de setembro de 2024

AS PEDRAS E AS PALAVRAS

Por A. Galopim de Carvalho

As pedras e as palavras foram dois mares em que naveguei por longos períodos da minha vida. É o título de um livro que publiquei vai para uma dezena de anos, onde inseri o texto que agora reescrevi num tom e num ritmo como se de um poema às pedras se tratasse. Pedras e rochas são duas maneiras de dizer a mesma coisa. Só que, via de regra, são usadas em discursos diferentes. Apanhamos uma pedra do chão, mas, quando estudamos, falamos quase sempre de rochas.
As pedras acompanharam o Homem desde os seus mais remotos e primitivos ancestrais e a sua importância pode ser avaliada pelo sem-número de palavras que criou e usou para expressar esta ideia, ao longo de uma história de muitos milhares de anos.
Pedra é uma entidade natural, rígida e coesa, que se apanha do chão e faz mossa onde quer que bata.

No âmbito das ciências da Terra,
A palavra pedra, do grego pétra, tem pouco uso.
Persistiu, porém, em casos pontuais, como:
pedra-pomes,
pedra-sabão,
pedra-hume,
pedra-de-fogo e
pedra de Eirol.
Persistiu, ainda, no discurso gemológico, em:
pedra-da-Lua,
pedra-zebra,
pedra de Eilat,
pedra-paisagem e
pedra-de-sangue.

Pelos jardins deste nosso país,
são muitos os reformados
que consomem o tempo
mexendo em pedras, no jogo das damas
ou no do dominó,
enquanto em suas casas,
as mulheres, trabalhadoras que nunca tiveram férias
nem nunca se reformam,
de pedras só conhecem a pedra de sabão,
sempre em uso no tanque da roupa
e a pedra do chão e dos degraus das escadas
que varrem e lavam todos os dias.
Sopa da pedra é o nome da conhecida confecção
que se faz e se come em Almeirim,
inspirado na tradicional lenda do frade.

Em sentido figurado, pedra assente
é uma decisão tomada e
com pedra sobre pedra
se edifica uma obra material ou do intelecto.
Pôr uma pedra sobre um assunto é esquecê-lo e
dar uma pedrada no charco é denunciar
uma situação menos correcta.
Chamam-nos à pedra
sempre que fazemos algo de mal feito e
parte-se pedra naquelas reuniões
em que muito se fala e pouco se avança.
Ser firme ou insensível como uma pedra
é mau ou bom segundo as situações.
Pedra de tropeço é o obstáculo
que nos dificulta ou impede a concretização
de um projecto ou de uma obra.
Tem pedra no sapato aquele que tem um incómodo
ou um problema por resolver.
Dorme como uma pedra o justo
e tem sete pedras na mão
aquele que fala com agressividade.
Quem nunca pecou, disse Jesus, que atire a primeira pedra.
Tu és Pedro e sobre ti edificarei a minha Igreja.
Disse Jesus ao apóstolo Simão.

Pedra, do grego pétra, é entre nós, como se disse atrás, palavra antiga,
bem enraizada e corrente no dia-a-dia das populações.
Por ser antiga, está na raiz de um grande número de palavras
do léxico popular português,
de que aqui deixo uma muito pequena parte.
Pedreira é o local de onde se extraem pedras e
pedreiro, o operário que as trabalha.
Com o mesmo étimo, lembremos
pedroso, empedrar, pedrada, pedregal,
pedrisco, pedrês e pedregoso.
Despedrega é retirar as pedras do solo,
a fim de o preparar para o cultivo, e
Pedrulha é topónimo de Coimbra e
sinónimo de cascalho.
Pedrão ou padrão é o marco que deixamos
deixaram na rota dos descobrimentos e,
no Brasil, pedregulho é matacão.

São muitos os topónimos relacionados com a ideia de pedra,
Pedralva, pedra branca ou pedra alva,
é o nome de uma aldeia algarvia,
uma freguesia do concelho de Braga, e
Pedras Salgadas, no município de Vila Pouca de Aguiar.
Pedras-Talhas, para os naturais dos Almendres,
no concelho de Évora, é o cromeleque,
aportuguesamento do galês cromlech,
que significa grande pedra arredondada.
Lembremos, ainda,
Pedrela ou Padrela, uma das serras transmontanas,
Pedroso, em Vila Nova de Gaia, e Padroso, em Montalegre,
Pedrouços, em Lisboa, Pedregal, em Barcelos, e Pedrogão, na Vidigueira,
Padrela e Tazem, em Valpaços e Pedrancha, em Trouxemil, Coimbra,

Na forma peder, criámos
empedernido, para dizer coração de pedra. E
pederneira ou pedernal, nomes que demos ao sílex,
a pedra-de-fogo usada nos bacamartes.

O étimo grego, pétra, usado directamente,
foi o preferido no português, dito culto.
Petróleo é o óleo saído do chão, de dentro das pedras, e
petroquímica, a indústria que o tem por matéria-prima.
Petrologia e petrografia são disciplinas que estudam as pedras e
petrólogos e petrógrafos, os seus cultores.
Como substantivo, petrificado, é o mesmo que fóssil,
resultante de um processo natural, dito petrificação, mas
petrificado, como adjectivo, diz-se de alguém
imobilizado por uma notícia que lhe “gela” o sangue.
São Petersburgo é a antiga Petrogrado,
assim chamada, em homenagem a Pedro,
não o Santo, mas o Grande, de todas as Rússias,
Petrópolis, a cidade imperial brasileira
que evoca o Magnânimo D. Pedro II,
que lhe deu nascimento, e
Petra é a cidade da Jordânia,
rica de monumentos escavados na pedra.

Pero é o nome arcaico de Pedro e
Peres são os seus descendentes.
Pero Vaz de Caminha e Pero da Covilhã
são nomes conhecidos da nossa história e
Pero Botelho é o Diabo que não pára de rugir
na caldeira que tem o seu nome,
no sítio das Furnas, em S. Miguel.

O uso do elemento pera, a forma arcaica de dizer pedra,
Está na base de vários topónimos.
Peralta, ou pedra alta, é nome de praia na Lourinhã.
Em Castanheira de Pera, o segundo nome diz pedra, não o fruto.
Mas há mais exemplos:
Pera, em Silves,
Pereira, em Montemor-o-Velho e
Pereiro, em Mação.
Peraboa e Pera Longa na Covilhã,
Pera Velha em Moimenta da Beira e
Peroliva ou pedra verde (de oliva) em Reguengos de Monsarás.
Peramanca e Perafita, na região de Évora,
evocam grandes marcos de pedra.
Estas pedras ou estavam “mancas”, isto é, tombadas,
ou ainda se mantêm “fitas” ou erguidas, na postura fálica,
a que chamamos menhires,
do bretão, men hir ou pedra comprida.

Do castelhano peña, criámos penha, o cume rochoso,
Penhasco e Penhascoso, no concelho de Mação
e demos nome a Penha Garcia, em Idanha-a-Nova, e
Penhas Douradas e Penhas da Saúde, na serra da Estrela.

Pena, do latim vulgar penna (variante de pinna)
é outra forma de dizer pedra
e é, também, apelido de gente.
O Castelo da Pena, embeleza o alto
de uma penedia, em Sintra,
Penalva do Castelo, deve o nome
à alvura da penha que lhe serviu de base.
Penela, ou penha pequena,
é localidade do distrito de Coimbra,
Penedono é município de Viseu,
Penedo, localidade na Serra de Sintra e
Peneda, a serra minhota e transmontana.

Pina, do latim pinna, outra forma de dizer pedra,
é apelido de gente e é raiz de
pináculo, um cimo rochoso e pontiagudo
ou o ponto mais alto de uma construção.

Canto, do pré-romano, canthus, é pedra na língua de Cervantes.
Cantaria é a pedra talhada em blocos,
canteiro tanto designa o profissional desta arte,
como o quinchoso, no jardim ou na horta, e
canteira, a versão menos comum de pedreira
O mesmo canthus deu cantil,
a ferramenta do escultor, e
alcantil, o escarpado
ou cume rochoso, alcantilado.
Cântaros são aos cumes rochosos da Serra da Estrela
cantaril o vento que lá se faz sentir.

Para os romanos, lapis era pedra
e era de pedra o lápis feito de ardósia,
da nossa infância.
Deste étimo nasceram
lapiseira, lápide ou lápida,
lapídeo, que significa petrificado e insensível,
lapidoso, que é o mesmo que pedregoso.
e lapidificação, outra forma de dizer petrificação,
mas que também é uma forma cruel
e desumana de execução,
entre os fundamentalistas islâmicos,
apedrejando os condenados até à morte.
Lapidar é talhar a pedra,
quer a ornamental, em cantaria,
quer a preciosa, no âmbito da gemologia.
Como adjectivo, significa basilar, fundamental.
Lapidários são os manuscritos da Idade Média,
que falam das pedras
e das suas propriedades medicinais e mágicas.
Lapidadas são e as pedras preciosas
que enriquecem as jóias, mas também
as mulheres muçulmanas,
vítimas da sentença de morte.
Lapis-lazuli é o nome latino de uma pedra semipreciosa,
Lapidicidas são os moluscos que perfuram as pedras, para aí se alojarem,
lapidículas, as aves que fazem ninhos entre pedras e
lapilli, o termo italiano dos produtos piroclásticos,
para os quais dispomos do termo açoriano, bagacina.

Com raiz no grego lithós, surgiu um conjunto de vocábulos
maioritariamente do léxico geológico.
Litosfera é a capa rochosa da Terra,
litologia, a disciplina que estuda as pedrase
lítico, o respectivo adjetivo.
Litogénese alude às suas origens e
litografia e litogravura são termos ligados à arte gráfica.
Paleolítico, mesolítico, neolítico, calcolítico e megalítico
Referem períodos da chamada Idade da Pedra.
Pirólito, batólito, facólito, fonólito,
riólito protólito, micrólito e siderólito
são termos correntes no jargão geológico,
mas que dizem muito pouco ao cidadão comum.
Litificação é petrificação e
litoclasto, um fragmento de pedra.
Litófagos são os bivalves que perfuram a pedra,
para nela se alojarem,
e litíase é termo do jargão médico
que fala da existência de cálculos
no rim ou na vesícula biliar.

Cálculo, do latim calculu, significa pedrinha.
em que o sufixo ulu é um diminutivo.
Com cálculos ou pedrinhas se contava
e faziam contas na Antiguidade.
Hoje calculamos nas modernas calculadoras.

Sílex, do latim silex, é outra forma de dizer pedra.
É a pedra-de-fogo ou pederneira.
Silício e os seus derivados,
Sílica, silicito e silicioso,
Silicato, silicatado e silicon
são termos químicos, geológicos e mineralógicos.

Com origem no latim saxus, que tanto quer dizer pedra como seixo,
criámos o topónimo Seixal, ou terra de muitos seixos,
a cidade a sul do estuário do Tejo,
e uma freguesia na ilha da Madeira.
Ainda na toponímia, temos
Seixinho, na Guarda,
Seixal, em Viseu, e
Seixoso, no Porto.
Seixeira é a escavação de onde se extraem seixos,
Seixosos, os respectivos locais,
seixebrega, a planta usada em tisanas,
como mezinha, para dissolver as pedras dos rins, e
seixo-bravo, o quartzo de filão sem minério.
Por via culta, introduzimos as palavras
sáxeo e saxoso, duas maneiras de dizer pedroso e pedregoso,
Saxátil, o que vive entre as pedras,
Saxícola, que tanto é o que habita as penedias
como o que presta culto aos deuses de pedra, e
Saxífragas, as plantas cujas raízes
alargam as fissuras da pedra.

Fraga, do latim hispânico, fragum,
é o mesmo que penha ou penhasco, e
fragueiros, os que vivem nas montanhas,
entre fragas.
Fragoso é o mesmo que pedregoso ou penhascoso,
fragarias e fragais são penedias e
fraguedos ou penedos são fragaredos,
como se diz em Trás-os-Montes.

Com raiz no latim calx, calces,
cal designa a pedra branca que,
uma vez regada com água, dá a calda
com que ainda se caiam ou branqueiam as paredes das casas
que distinguem o Alentejo e o Algarve das restantes regiões do país.
No Alentejo, caieira ou caleira é forno de cal,
Caleira que é também um rego, inicialmente empedrado.
Caieiro ou caleiro, o homem que a fabrica e/ou a vende,
caiador, o que se serve da cal para caiar, e
caios são as ilhas rasas, feitas de areia calcária,
dos mares recifais das Caraíbas.
Cal designa, ainda, a argamassa
que se usava antes da descoberta do cimento e
Calcário é a rocha sedimentar com que se faz a cal.
Calçada é o caminho revestido com pedras, e
calceteiro, o artista que celebrizou a calçada portuguesa.
O mesmo étimo deu calçado, calcanhar e
calcâneo, o respectivo osso.
E deu cálcio e calcite um dos seus minerais.
Cal veicula a também a ideia de pedra
e com pedras, a servirem de lastro,
se calavam os barcos quando,
sem carga, se faziam ao mar.
Calado é a profundidade a que se encontra
o ponto mais baixo do casco de uma embarcação,
em relação à superfície da água
onde se encontra mergulhada.
Calçar é meter uma pedra sob o que se quer firme e
calcar o chão é dar-lhe compactação.

Calhau, do francês caillou,
tanto refere a pedra tosca que se apanha no chão
como o seixo rolado do rio ou da praia.
Calle é a rua ou a calçada dos vizinhos espanhóis,
com correspondência para português,
em calhariz e calheta que, nas ilhas, significa pequena enseada na costa rochosa, e,
no continente, é o atalho por onde passam os rebanhos

Lapa, vinda do pré-céltico,
é uma pedra que forma um abrigo natural,
lapão, o respectivo aumentativo é
lapedo, um sítio de muitas lapas.

Respectivamente, corresponde-lhes, do pré-romano,
laje, lajão e lajedo.

Cascalho e cascalheira vêm do latim quassicare,
que significa fragmentar.
São substantivos colectivos,
que designam acumulações de calhaus ou seixos,
Com a mesma origem, casca é o invólucro quebradiço do ovo,
e o nome que se dava às conchas de bivalves
dispersas nas praias,
razão de ser do nome da vila de Cascais.

De uso regional, conhos, do latim cuneus,
São os calhaus rolados,
no geral, de quartzo e de quartzito,
próprios das aluviões do Tejo, do Zêzere
e de outros rios do centro do país.
Conheiras são extensos amontoados de conhos,
deixados pela lavra do ouro, levada a efeito, nos citados rios,
ao tempo da ocupação romana.

Barroco chegou-nos do pré-romano e
tanto significa pedra como barranco.
É, ainda, o estilo artístico, que se opôs ao classicismo da Renascença.
Barrocal é a paisagem pedregosa do Jurássico calcário algarvio e
barroqueiro, a pedra que se apanha do chão e se arremessa.
A mesma a que o alentejano e o algarvio chamam bajoulo.

Do latim, rupe, alusivo a pedra, dispomos de dois adjectivos:
Rupícula refere os animais ou as plantas que vivem entre ou sobre pedras e
Rupestre, o que cresce ou o que se grava ou pinta sobre elas
pelos nossos antepassados pré-históricos.

Para os romanos, gemma era pedra preciosa,
algumas delas descritas por Plínio, o Velho,
e que continuamos a usar na versão portuguesa gema.
Sal-gema é pedra formada por halite, o mineral,
em que o elemento gema, o distingue do cloreto de sódio, extraído das salinas.
Gemologia é a disciplina que estuda as gemas e
gemólogos, os seus cultores.

Psephós, do grego, significa seixo.
Psefógrafo é o aparelho destinado à contagem de votos,
em assembleias eleitorais.
No passado antigo, essa contagem era feita com seixos.
psefologia, a disciplina que estuda os resultados desses actos,
psefólogo o estudioso desta matéria e
psefito, um seixo e o nome de uma classe de rochas sedimentares
essencialmente constituída por seixos.
 
Com o mesmo significado, temos, ainda,
rudito, vindo do latim rudus.
 
Burgau é o nome de uma praia algarvia,
assim chamada em virtude da presença significativa
de calhaus, seixos, burgos ou burgaus.

De origem obscura, dispomos de rebo e gobo
e os seus equivalentes minhotos, gode e godo,
que significam calhau rolado,
e o transmontano gogo, o grande seixo liso,
no geral de quartzito, em que o sapateiro batia a sola.

A palavra pedra já era velha,
quando nos chegou, vinda do francês,
a palavra rocha,
Embora rocha surja com alguma frequência no vocabulário popular,
Rocha da Pena,
Rocha dos Namorados,
Praia da Rocha,

é termo frequente no glossário científico e pedagógico.
Rochedo, o grande afloramento de rocha,
rochoso, o adjectivo sinónimo de pedregoso,
rochaz, o que vive entre rochas e
rochedense, o qualificativo referente a rocha.
A palavra rocha substituiu e quase fez esquecer a velha palavra roca,
vinda do pré-romano e que persistiu
nas palavras enrocamento e derrocada,
no topónimo Cabo da Roca,
ou “Focinho da Roca”, com dizem os homens do mar,
e em Rocaille, um estilo artístico, nascido em França, em finais do século XVII.

No Brasil, o étimo ita, do tupi-guarani,
traduz a ideia de pedra
e figura na composição dos topónimos em Mina Gerais,
Itabira e Itacolumi,
e de duas rochas, muito especiais,
itabirito, um arenito flexível,
e itacolumito, um importante minério de ferro.

Divergente de ita, segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, o sufixo culto ite, do grego ités, é usado, entre franceses e ingleses, na formação de nomes quer de minerais quer de rochas.
Entre nós, este sufixo é apenas utilizado nos nomes de minerais (pirite, calcite, dolomite, grafite, etc.) Para as rochas, os petrógrafos portugueses da segunda metade do século XX adoptaram a terminação ito (granito, quartzito, dolomito, antracito, etc.)”.

A. Galopim de Carvalho

NOVIDADES DA GRADIVA

 

Uma obra polémica, irónica e com a lucidez indispensável para compreender as atrocidades que cometemos contra o mundo e contra nós próprios. 

 

Bestseller do The New York Times há mais de vinte anos, O Princípio de Peter escrito por Laurence J. Peter e Raymond Hull, em 1969, responde à eterna questão de como a incompetência cresce exponencialmente e tende a triunfar nas organizações. 

O Princípio de Peter, e a lei homónima que Laurence J. Peter cunhou, explica como todos os elementos de uma hierarquia ascenderão inevitavelmente ao seu nível máximo de incompetência. Neste clássico intemporal, os autores explicam as razões pelas quais a incompetência se perpetua nas empresas e nas sociedades. 

Com um prefácio de Robert I. Sutton, autor do bestseller Como Sobreviver a um Filho da P*ta | Aprenda a lidar com quem o trata como lixo, esta nova edição do clássico de Laurence J. Peter para o século XXI abalará novamente o mundo dos negócios e o contexto em que vivemos. 

 

Como pôde um pequeno militar corso tornar‑se NAPOLEÃO I, imperador dos Franceses, entre 1804 e 1815? Sucessivamente general, cônsul e imperador, este ambicioso filho do Ancien Régime, formado na República, foi um reformador sem tempo a perder, o fundador do Estado moderno e o génio militar que subjugou, durante algum tempo, as monarquias europeias. 

O apogeu da gesta napoleónica encontra‑se no coração deste segundo volume, encravada entre o regresso do Egito e o casamento com a arquiduquesa Maria Luísa da Áustria. 

Bornéu, oceano Pacífico. 
Tango e Mario, agora acompanhados pelo seu amigo filipino Crisanto e pela encantadora Lani, continuam a perseguir o capacete de Magalhães. 

Um aventureiro inglês fornece-lhes as peças que faltam no puzzle. Vigarista ou verdadeiro caçador de tesouros? É quando atingem o seu objetivo que as coisas se complicam seriamente... 

Continuação de uma excelente coleção!
Continuação em grande estilo das aventuras de John Tango!



segunda-feira, 26 de agosto de 2024

CONFIANÇA NA CIÊNCIA

 Meu artigo saído no País Positivo, suplemento do jornal Sol:

Um recente estudo do Open Science Framework (OSF) apurou que a grande maioria dos cidadãos em 68 países confia na ciência. Como disse Carl Sagan, no título de um dos seus livros, num «mundo infestado de demónios», a ciência continua a ser «uma luz na escuridão». Confiar na ciência significa confiar nos cientistas em quem o público delega a prática da investigação científica. Espera-se que eles comuniquem os resultados obtidos, assim como  os métodos usados para os obter. Mas o referido estudo diz mais: que os cientistas devem estar mais envolvidos na definição de políticas públicas em temas que dependem da ciência, que são muitos. Alguns deles são grandes desafios, como as mudanças climáticas, a inteligência artificial e a biomedicina.

Resulta, porém, do estudo que a abertura dos cientistas aos cidadãos não é suficiente. Isto é, os cientistas devem esforçar-se mais por se aproximar do público, comunicando o que fazem em linguagem comum. Assino por baixo: os esforços em curso, apesar de meritórios, não chegam para colmatar o fosso que persiste entre a ciência e as pessoas. A nossa vida depende da ciência e da tecnologia, mas a ignorância a respeito destas continua a dominar. Sagan disse que isso podia ser «uma receita para o desastre», designadamente quando a ignorância sobe a cargos de poder.

E em Portugal? De acordo com o OSF, Portugal ocupa uma modesta posição (38.ª) no ranking da confiança nos cientistas. Não me admira: a nossa cultura científica, apesar do seu indubitável crescimento nos últimos 50 anos, ainda é débil. Não nos devemos enganar pela forte adesão às vacinas da COVID-19, pois ela pode dever-se mais à obediência à autoridade do que à confiança na ciência. É preciso que os cientistas nacionais reforcem a sua aproximação à sociedade. Existe em Portugal uma agência para a cultura científica, mas ela, nos últimos anos, parece estar mais morta do que viva. O governo bem poderia reanimá-la, religando-a à comunidade científica e ao público de todas as idades.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

A RENDIÇÃO DA PALAVRA

A palavra pode só o que pode,
por mais que ensaie ir mais além:
diante de um mundo que explode,
sabe que é só impotente refém.

O apocalipse está bem perto
e já se lobrigam os seus cavalos:
são esbeltos bichos em céu aberto,
anunciando tremendos abalos!

Para os travar, temos a palavra,
mínimo guerreiro, que mal nos resta:
cheia de horror, com coragem, lavra

terreno que a peste já infesta.
Heroica, fala e diz em voz alta
que é a vaga final que nos assalta.
                                                                    Eugénio Lisboa

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

UMA VIDA EM 366 PALAVRAS

Por A. Galopim de Carvalho
 
Cada vez com mais frequência, dou por mim a reflectir sobre o encurtar do horizonte de vida, em particular pela falência acelerada do corpo, bem sentida fisicamente a cada dia que passa, e bem consciencializada pela lucidez do pensamento, como é, felizmente, o meu caso, quanto à inevitabilidade desta descida na “curva de Gauss” que é nossa condição da vida.

Quando olho para o espelho não vejo o adulto maduro e cheio de energia que ainda trago comigo e rege a minha maneira de estar e de conviver. Vejo um rosto que não conheço, que não condiz com o que vejo quando olho para dentro de mim. Mentalmente mantenho a curiosidade, a ousadia e a força anímica da juventude, caldeadas pela ponderação, tolerância e paciência dos velhos.

Devo dizer que esta realidade não me assusta minimamente. Felizmente, a medicação regular que tomo assegura-me a qualidade de vida que me permite ocupar o dia-a-dia com salutar alegria e continuar a trabalhar intensamente como até aqui. Já o disse, quando estou, como agora, bem sentado, frente ao monitor do computador, não tenho idade nem as múltiplas maleitas e limitações que se apoderaram do meu corpo.

Neste percorrer de uma longa caminhada, para além das múltiplas experiências presenciadas na infância, na adolescência e no tempo que cumpri como miliciano ao serviço do Exército, dei particular atenção às vividas e presenciadas como aluno e, mais tarde, como docente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e como director do Museu Nacional de História Natural da mesma Universidade. 
 
A estas experiências, sobre as quais tenho reflectido e que tenho relatado em livros e em vários outros meios de comunicação, acrescento as muitas que vivi e presenciei como cidadão interventor, sobretudo, na árdua defesa e valorização da geologia e do nosso património natural, numa sociedade cinzenta, onde, para vergonha dos responsáveis, assisto à degradação e, em alguns casos, destruição do património natural, à falência da Educação e ao descrédito da Justiça. 
 
Sociedade cinzenta onde a escola dá diplomas, mas não dá cultura e onde o conhecimento científico e humanístico continuam arredados da grande maioria dos nossos decisores, aos vários níveis da administração.
 
A, Galopim de Carvalho

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

UM ESCLARECIMENTO

Por A. Galopim de Carvalho

Foi muita a curiosidade que sempre tive por uma grande panóplia de assuntos. Na profissão, como docente do Departamento de Mineralogia e Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, pertenci à última geração dos docentes que tinham de ministrar o ensino de quase todas a “cadeiras” (disciplinas) do Departamento, da Cristalografia à Paleontologia, passando pela Mineralogia, Geologia, Estratigrafia, Geomorfologia e outras. No doutoramento (que fiz nesta Universidade, em 1968), para além da dissertação a defender perante um júri, alargado a todos os professores catedráticos da Faculdade, o doutorando era interrogado sobre dois temas de entre todos os incluídos no universo científico e pedagógico do Departamento.

Como investigador, uma actividade complementar (eu diria obrigatória) da docência, a tempo inteiro, enveredei pela dualidade Geomorfologia apoiada pela Sedimentologia, um mundo que me abriu as portas à Geografia e me alargou os horizontes de uma ciência milenária. Foi assim ao longo de décadas, numa dedicação exclusiva, por vezes obsessiva, pelo que pouco tempo tive para sondar e, muito menos, enveredar por outros saberes.

Na sequência da jubilação, aos 70 anos, o Estado fez aquilo que é costume: atribuiu-me uma pensão e, como já escrevi, colocou-me na prateleira dos pensionistas, corria o ano de 2003. Só que eu não quis lá ficar. A meu pedido, ainda tive autorização para continuar por mais dois anos na direcção do Museu Nacional de História Natural, mas, depois, rua!

Há 21 anos que sou senhor do meu tempo e entendi continuar a servir o meu país e é público que o tenho feito em duas vertentes:

1. valorização e defesa do nosso património geológico, numa árdua “luta” contra a insensibilidade e desinteresse (leia-se ignorância) das administrações (há excepções, claro). Com o avançar da idade e as limitações físicas decorrentes, tenho diminuído consideravelmente esta “luta”, que felizmente não esmorece porque há continuadores;

2. divulgação científica pela palavra falada e escrita. Por decisão consciente, tendo em mente o que entendi ser um meu dever cívico, afastei-me da especialização que foi a minha, no meio académico (um saber que, com o passar dos anos, se foi naturalmente desactualizando) e enveredei pelo caminho da divulgação. Como divulgador que me assumo, direi que sou um generalista curioso de muitas “artes”.

Fazendo humor, lembro um dito, cuja autoria desconheço: «O especialista é aquele que sabe cada vez mais de um tema cada vez mais restrito, até saber tudo acerca de quase nada”. No campo oposto “o generalista é aquele que pouco ou quase nada sabe acerca de quase tudo».

“São muitos os leitores que comentam simpaticamente a diversidade de temas que encontram nesta minha página do Facebook.” A propósito destes saborosos comentários sinto o dever de deixar aqui um esclarecimento.

Começo por dizer que uma coisa é “estar a léguas de possuir um conhecimento enciclopédico”, o que é o meu caso, outra coisa é ter uma curiosidade, quase obsessiva, por muitos domínios do saber, sejam eles: eruditos (como filosofia, história de tudo ou quase tudo e artes das mais diversas, sociologia, política) ou vulgares e, aqui, há uma “infinidade” de tecnologias, ofícios e artesanais que, desde sempre, estiveram na mira dessa curiosidade.

Como é natural, ao “meter a foice em seara alheia”, sempre que ouso falar de um assunto que não seja aquele em que fiquei profissionalmente rotulado, sujeito-me a reparos por parte dos cultores desse assunto. Neste aspecto devo esclarecer que a imensa maioria dos saberes sobre os quais gosto de escrever, está nos livros, noutros documentos ao meu alcance e na Internet que, criteriosamente, sei consultar. A experiência de quarenta e três anos a estudar para poder ensinar, habilita-me e encoraja-me neste caminhar que tem sido o meu, para quem, fins-de-semana, feriados ou dias de férias deixaram de fazer sentido como tal.

A minha sabedoria é, pois, a que fui adquirindo ao longo da vida, mais toda a que tenho acesso, numa infinidade de fontes ao dispor de qualquer um. Posso, assim, escrever sobre tudo o que me der prazer.

A. Galopim de Carvalho

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

"DÁ O PRIMEIRO PASSO!"

“Ser professor… é mudar vidas”. Estas são as palavras que formam o principal slogan da "campanha de sensibilização" (ver aqui) (leia-se marketing) destinada a (como direi?) "encontrar", "angariar", "recrutar" ou (de modo politicamente correcto) "atrair" pessoas que possam assegurar funções docentes na escola pública portuguesa. A medida, que tinha sido antes anunciada pelo (agora designado) Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), no âmbito do dito "Plano+Aulas+Sucesso", foi operacionalizada pela Direção-Geral da Administração Escolar (DGAE), constando no seu site oficial (aqui) e redes sociais associadas. Também está a ser divulgada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, Câmaras Municipais de Lisboa e Porto, instituições de ensino superior, rede pública de escolas e mais além (ver aqui).

Recorte daqui
Abri o site oficial e os diversos links, vi as imagens, assisti a um pequeno filme, li os textos... Os comentários a fazer seriam mais do que o tempo de férias permite e que limito a três.

1. Entre as pessoas a "atrair" para o ensino, contam-se, sobretudo, jovens, que podem concorrer com habilitação própria (não realizaram o Mestrado em Ensino, habilitação que, segundo a lei vigente, lhes permite serem professores de pleno direito) e já idosas, que se irão reformar ou já se reformaram como professores.
 
Esses dois grupos estão representados na imagens de rosto do mencionado site: na primeira a jovem professora (?) quase não se distingue dos alunos e na terceira a senhora grisalha quererá "continuar jovem". Estas representações (todas de mulheres) mereciam desenvolvimento, mas penso que o leitor entenderá aqui a presença de uma ideia que marca o discurso sobre a profissão em causa: a motivação e... sucesso dos alunos são (muito) devidos à "proximidade" que os professores mantêm com eles, como se fossem como eles: novos, dinâmicos, aprendizes...
 
2. Daí, talvez, o tratamento por "tu" que o MECI/DGAE entendeu usar, ainda que não de modo exclusivo, para se dirigir formalmente aos potenciais candidatos, que, jovens ou idosos, são adultos.
"Receberás indicações sobre o tipo de habilitações, o(s) respetivo(s) grupo(s) de recrutamento, e, em seguida, deves proceder ao registo (...). Deverás acompanhar no website da DGAE e nas Redes Sociais os horários disponíveis em oferta de escola (Agrupamento de Escolas/Escolas não Agrupadas) para poderes concorrer online. Dá o primeiro passo! (aqui)
3. Numa apreciação global do material da campanha, destaco a pobreza da linguagem, os lugares-comuns, os argumentos-mais-que-estafados, a ausência dos grandes princípios condutores da educação escolar pública. Digo isto por várias razões:
a) tal como o slogan principal, que acima reproduzi, os restantes (destinados a diferentes tipos de potenciais candidatos) não são mais animadores: Ser professor é escolher o futuro (destinado a alunos que ingressem em licenciaturas e mestrados em Ciências da Educação/Ensino e que passam a beneficiar de bolsa); Ser professor é um novo percurso (destinado a bolseiros de doutoramento, mestres, investigadores e doutorados); Ser professor é continuar jovem (destinado a professores que chegados à reforma queiram continuar a ensinar) e Ser professor é voltar à escola (destinado a professores aposentados com remuneração extra) (ver aqui);
b) não falta a alusão à "boa-vondade" do sistema, direccionada sobretudo para os alunos de "contextos socioeconómicos mais desfavorecidos, colocando em causa a igualdade de oportunidades no acesso a uma educação de qualidade e a um percurso escolar de sucesso";
c) os depoimentos de três professores que constam num tal "Guia da profissão docente" (atendendo à data de publicação noutro sítio, conta já com um ano, terá sido repescado? ver aqui e aqui) são "redondos", confrangedores, nota-se que desempenharam um papel.
Em suma, alguém que coloque o ensino além da trivialidade subjacente a este discurso (que se percebe replicado de outros), que considere a dignidade um atributo inalienável da profissão docente, que entenda o professor como um intelectual, a menos que precise desesperadamente de um trabalho, não "dá o primeiro passo", como consta no texto da campanha, que se quer mobilizador.
 
Nada se aproveita, então, nas diversas "peças" que constituem a campanha? Sim, aproveita: o diagnóstico (já há muito conhecido) da gravíssima situação da falta de professores devidamente formados e a referência à legislação com que, bem ou mal, temos de contar neste momento. 
 
Era acrescentar, de modo muito simples e directo, que a tutela (tal como muitas outras), em virtude de medidas inadequadas que tem tomado para o ensino e para a formação docente, não pode eximir-se à responsabilidade na debilitação de uma profissão que, note-se, tem em Portugal um passado recente frágil. E solicitar a quem possa contribuir para reerguer estas duas áreas que se disponha a fazê-lo. Isto sem os ardis de campanhas e dos seus slogans... Em educação, o marketing não vale.

domingo, 11 de agosto de 2024

A REVOLUÇÃO DO GENOMA ANTIGO

Meu artigo no mais recente JL:

Em Outubro de 2019, visitou Portugal, a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos, o médico sueco Svante Pääbo, que deu no anfiteatro da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra a palestra «Como a genética conta a nossa grande história humana». Pääbo lançou então o seu livro O Homem de Neandertal. Em busca dos genomas perdidos, saído na colecção «Ciência Aberta» da Gradiva. O meu exemplar tem uma simpática dedicatória, que se liga ao facto de eu ter organizado a sua visita a Portugal.  

Dificilmente podia o cientista, director de Genética no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha, adivinhar, nessa altura, que, escassos três anos depois, viria a ser o único laureado com o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina pelas «suas descobertas relativas aos genomas de hominídeos extintos e à evolução humana.» O prémio foi mais do que merecido porque, como nos conta nesse livro, ele e a sua equipa tinham realizado, em 2010, a primeira sequenciação do genoma do homem de Neandertal. Uma conclusão desse estudo é que os modernos humanos (isto é, a nossa espécie, Homo sapiens) possuem uma parte, ainda que pequena, do genoma de Neandertal, em resultado dos seus cruzamentos com os neandertais.

Saiu agora, na mesma editora, um novo livro, mais abrangente e actualizado, sobre o genoma humano antigo, que tem por título Quem Somos e Como Chegámos Aqui e o subtítulo O ADN antigo e os novos avanços científicos acerca do passado humano. É seu autor o biólogo norte-americano David Reich, professor de Genética na Harvard Medical School. Reich foi um discípulo de Pääbo: ampliou os resultados deste, ao desenvolver as técnicas de sequenciação de genomas antigos. Em vez dos ossos de alguns esqueletos antigos, passaram a ser examinados milhares de ossos de muitos lados do mundo. Não só ao cruzamento entre Neandertal e o Sapiens ficou comprovado, como foram reveladas as surpreendentes migrações e a enorme mistura de populações na Europa, Ásia, na África e na América. De facto, os estudos de os genomas antigos, somando-se às investigações arqueológicas, antropológicas e linguísticas, vieram a revelar-se um meio extraordinariamente fértil de conhecer a história humana.

Reich explica o que foi a Revolução do Genoma Antigo: 

«Os primeiros genomas de humanos antigos foram publicados em 2010: alguns genomas de neandertais arcaicos, o genoma arcaico de hominídeo de Denisova e outro de um individuo com aproximadamente quatro mil anos, da Gronelândia. Nos anos seguintes assistimos à publicação de dados genómicos de mais cinco seres humanos, logo seguida por uma explosão de dados de 38 indivíduos, em 2014. Mas, em 2015, a análise dos genomas completos do ADN antigo entrou em modo acelerado. Três artigos revelaram mais conjuntos de dados de genomas completos, primeiro de outras 66 amostras, em seguida de mais 1200 e, depois, de mais 83. Em Agosto de 2017, o meu laboratório gerou dados genómicos de mais de três mil amostras antigas.»

Tornou-se assim possível analisar a ancestralidade de uma variedade de populações humanas espalhadas pelo mundo. O livro de Reich, competentemente traduzido por David Marçal, nas suas 400 páginas com muitos mapas e esquemas, expõe para leigos o essencial do que sabemos hoje sobre as nossas origens.

O que é o genoma? É a sequência genética completa de um determinado organismo. Ela contém a informação para construir proteínas, peças biológicas essenciais. As instruções estão escritas no ADN, uma molécula longa, num código que faz uso de quatro letras – A, T, G e C. O código genético é universal, ou seja, o mesmo para todos os seres vivos. Nos humanos o ADN encontra-se em 46 cromossomas, no núcleo celular, e nas mitocôndrias, organelos das células, com a particularidade de, neste caso, a transmissão se dar só pela via materna. A sequenciação do genoma consiste em determinar a código do ADN. O Projecto do Genoma Humano foi concluído em 2003 e modernas tecnologias permitem hoje realizar a sequenciação do nosso genoma de um modo incrivelmente mais rápido e económico.

Todos somos iguais e todos somos diferentes. Mas somos mais iguais do que diferentes: cerca de 99% do genoma de todos os humanos é comum. Pääbo e Reich sequenciaram os genomas de pessoas que viveram há muito tempo e compará-lo com o nosso. O homem de Neandertal surgiu há 400 mil anos e extinguiu-se há 28 mil anos. E o Homo sapiens surgiu há 300 mil, em África. As mutações, que são uma parte essencial da evolução, permitem-nos seguir a história humana e mesmo pré-humana. Sabemos hoje que os primeiros hominídeos têm cerca de seis milhões de anos, altura em que se separaram de outros primatas (o mais próximo de nós, o chimpanzé, tem um genoma que coincide em cerca de 95% com o nosso). Reich conta-nos a história não só das nossas origens como do nosso espalhamento pelo planeta.

A genética liga-se com a recorrente discussão sobre as raças. Sabemos que a ideia de raça não tem sustentação científica, mas a genética diz que há pequenas diferenças biológicas entre grupos de populações humanas. Por exemplo, os negros americanos têm maior probabilidade de cancro da próstata do que os brancos. Reich diz-nos: 

«Se, como cientistas, nos abstivermos voluntariamente de estabelecer um enquadramento racional para discutir as diferenças humanas, deixaremos um vácuo que será preenchido pela pseudociência, um resultado que é muito pior do que qualquer coisa que poderíamos alcançar falando abertamente.» 

Não admira que o livro tenha originado controvérsias logo que saiu. Mas, também por isso, vale a pena lê-lo.

O autor é judeu e foi perguntar a um rabino, irmão da sua mãe, se fazia sentido usar os ossos de humanos antigos para a ciência. A resposta – sábia –  foi que os túmulos eram sagrados, mas que podiam ser abertos «desde que haja potencial para promover o entendimento e derrubar barreiras entre pessoas.» O livro ensina-nos que todos resultámos de misturas sucessivas e que, por isso, estamos mais ligados do que imaginamos. A genética permite-nos saber cada vez melhor quem somos e como chegámos aqui.

terça-feira, 6 de agosto de 2024

PROMESSAS

SONETO DE ESCÁRNIO E MALDIZER

Os populistas prometem ao povo
o sol no bolso e dinheiro à farta.
Prometem até um deus todo novo
e os velhos cristãos, um raio que os parta!

Os populistas lixam os pequenos,
enquanto se benzem junto dos grandes.
Fazem acenos, vomitam venenos
e não há poderio que os desbande.

Os populistas desejam o céu,
ao preço de venderem o inferno.
O poder musculado é um pitéu

que anuncia um calvário eterno.
O populismo cresce sem parar,
porque oferece terra, mar e ar!
                                                                                    Eugénio Lisboa

sábado, 3 de agosto de 2024

O "ESTILO ALTAMENTE PURIFICADOR" DA LINGUAGEM (PSEUDO)EDUCATIVA

Quando George Orwell cunhou, para a posteridade, a NEWSPEAK (NOVILÍNGUA),
criada pelo Ministério da Verdade, para esconder as coisas mais horríveis,
sob o casto manto das palavras bem escolhidas,
pensava que essas picardias eram só próprias dos regimes totalitários.
As maiores ignomínias eram descritas num estilo altamente purificador,
que lhes dava um ar de inocente formulação erudita.
O horror era desinfectado pela filologia ao seu serviço.

Eugénio Lisboa, 2023 (texto cedido graciosamente).

Em final de ano lectivo, abro mails - cujo tema é educação e formação - que, não tendo "classificado" como urgentes e/ou importantes, fui acumulando ao longo dos últimos meses. São mails que me foram directamente dirigidos ou encaminhados por quem considera que tenho interesse neles. Refiro-me a informações sobre:

  • congressos, colóquios, seminários e outros eventos académicos,
  • iniciativas de editoras de livros escolares, que vão muito além da divulgação desses livros,
  • concursos para (os melhores) professores, alunos, escolas, projectos em variadas matérias... e, claro, os respectivos prémios,
  • selos de qualidade/de garantia/de certificação de alguma coisa, atribuídos ou a atribuir a escolas por uma diversidade de entidades, sobretudo privadas,
  • sites de novas e surpreendentes entidades, da mesma natureza, com promessas para as escolas, os alunos, as comunidades... o mundo,
  • actividades de autarquias/municípios, muitas delas em colaboração com esse tipo de entidades,
  • acções de formação para professores, e para os que o hão-de ser, sobre temas inimagináveis, muitas delas (estranhamente?) organizadas e acreditadas por tais entidades,
  • conferências, palestras... em escolas, politécnicos e universidades dadas por personalidades mediáticas provenientes de outros contextos como o do empreendedorismo,
  • kits pedagógicos, muitos de cidadania mas não só, produzidos por equipas, centros de investigação, empresas... pouco ou nada habilitadas em matéria educativa mas, nota-se, "oferecidos" com as melhores intenções,
  • publicação de relatórios, recomendações, orientações e afins de sacrossantas organizações transnacionais, mas também de organizações nacionais, em especial das cada vez mais presentes fundações,
  • recentes documentos normativos, powerpoints da tutela, notas da mesma fonte,
  • ...

Julgo que não esgotei os temas dos mails a que me refiro mas não importa porque, na verdade, o que queria era deter-me no seu modelo de redacção, que é muito simples: um conjunto de chavões retirados da "narrativa da educação do futuro" intercalados com palavras comuns.

Eis alguns exemplos desses chavões (alguns deles deturpações de palavras com real sentido educativo e pedagógico): inovação/mudança/transformação, competências/habilidades, valores, literacias, qualidade, liderança, crítica, criatividade, sucesso, resiliência, empoderamento, softskils, bem-estar, stakeholders, emoções, aprendizagem autónoma/activa/significativa, ubiquidade, disrupção, complexidade, cidadania, democracia, inspirador, mentoria, agency, eficácia, boas práticas, flexibilidade, digitalização, tecnologias, inclusão..

Num certo texto, os chavões estão alinhados de um certo modo; noutro, estão alinhados de um modo ligeiramente diferente; num terceiro, a mesma coisa e assim por diante. Não importa a ordem pela qual os chavões estão dispostos e ainda menos o que, nessa ordem, significam; o que importa é que estejam lá e que o conjunto pareça ser compreensível e que convença aqueles a quem se destina.

Face a um discurso que impõe a "criatividade" e a "crítica" (duas palavras com real sentido educativo e pedagógico, ainda que inteiramente desvirtuado na dita narrativa), deveríamos perceber, no imediato, o contrassenso que é a interminável e acrítica repetição a que me refiro. 

Mas não percebemos, e muito menos temos consciência de que a narrativa em causa já se tornou o "novo normal", não só de comunicação mas de pensamento. É mesmo uma novilíngua, tal como Orwell a apresentou.

Tenho, por isso, de reconhecer, recorrendo ao dito por Eugénio Lisboa, que esses chavões são "palavras bem escolhidas", cujo estilo "altamente purificador", salvífico, lhes confere "um ar de inocente formulação erudita" e benemérita. Por isso, sim: o "horror" revelado pela exploração do significado de algumas é "desinfectado pela filologia ao seu serviço".

sexta-feira, 26 de julho de 2024

PREFÁCIO A «De que somos feitos?», de Dan Levitt (Lua de Papel)

  


Meu prefácio ao mais recente livro de ciência da Lua de Papel:

 No tempo de Apolo na cidade de Delfos na Grécia Antiga havia uma inscrição, que ainda hoje constitui para nós um desafio: «Conhece-te a ti mesmo.» Toda a história da ciência é uma tentativa de resposta a este imperativo. Temos realizado progressos impressionantes: hoje sabemos muito mais do que ontem. Não somos estranhos num mundo estranho, somos antes seres cada vez mais conhecidos num mundo cada vez mais conhecido. Uma das principais conclusões da ciência é que os seres vivos, entre os quais se encontra a nossa espécie, são feitos dos mesmos átomos existentes noutros lados do Universo e que obedecem a leis físico-químicas válidas universalmente. No entanto, somos especiais, no sentido em que, tanto quanto sabemos, somos a única espécie que consegue conhecer o Universo, incluindo essa parte do Universo que é o nosso próprio corpo.

«De que somos feitos?» é a pergunta colocada neste livro por Dan Levitt, autor de documentários científicos e históricos de grande sucesso. Ele responde com conhecimento de causa – estudou ciências na faculdade, leu livros de divulgação científica e entrevistou numerosos cientistas – e com uma escrita capaz de nos prender ao fio da narrativa. Mistura de forma bastante sedutora ciência e história. Conta não só os factos da ciência, mas também os modos, por vezes inesperados, como os fomos descobrindo.

Somos feitos de células, que por sua vez são feitas de moléculas, sendo estas constituídas por átomos. Levitt sumaria logo no início, indicando valores que assombrarão o comum dos leitores:

«Cada pessoa é um mosaico em constante mudança, uma colónia de trinta biliões de células, cada uma constituída por mais de uma centena de biliões de átomos que se agitam em movimentos vibratórios desenfreados. Cada pessoa contém mil milhões de vezes mais átomos do que todos os grãos de areia existentes nos desertos da Terra. Quem pesa 70 quilogramas anda por aí com carbono suficiente para fazer 11 quilogramas de carvão, com sal suficiente para encher um saleiro, com cloro suficiente para desinfectar várias piscinas de jardim, e com ferro suficiente para fazer um prego de 7,6 centímetros. Se listasse todos os seus elementos, veria que cerca de sessenta elementos da Tabela Periódica estão representados dentro de si. Se os pudesse vender, encaixaria uns fantásticos 1942,29 dólares.»

Uma vida humana é resultado de uma experiência singular: não tem preço. Estou em crer que cada um dos leitores valerá muito mais do que a referida quantia. Mas esse é o nosso valor material: é, digamos assim, o que valeríamos no mercado de matérias-primas se puséssemos à venda aquilo de que somos quimicamente feitos.

A verdade é que somos feitos principalmente de água, uma substância muito comum no nosso planeta, que é um bom solvente e que preenche as nossas células (cerca de 60% do nosso corpo é água!). Depois existem dentro de nós uma miríade de moléculas orgânicas, designadamente as proteínas, que são as máquinas-ferramentas e elementos estruturais das nossas células, e o ADN, a longuíssima molécula que guarda o código da vida, que contém as receitas para fazer as proteínas. Consideremos uma molécula de água, cuja fórmula química é H20, ou seja, é constituída por dois átomos de hidrogénio, o elemento químico mais leve, e por um átomo de oxigénio. De onde vieram esses átomos? O átomo de hidrogénio pode ter sido feito no início do Universo, o Big Bang, datando, portanto, de há 13,8 mil milhões de anos – mais precisamente de quando, 300 mil anos após o instante inicial, os electrões se ligaram aos núcleos atómicos para formar os átomos. Mas o oxigénio teve de ser feito numa estrela. Não há nenhuma maneira de fazer oxigénio em abundância a não ser no coração de uma estrela maior do que o nosso Sol. Se estamos aqui é porque explodiu uma estrela – o evento chama-se «supernova» – anterior ao Sol espalhando no espaço o material das suas entranhas. O nosso astro-rei é, portanto, uma estrela de segunda geração, que «recicla» material pré-existente. Carl Sagan disse «Somos matéria das estrelas.» E Levitt, na mesma linha: «Mais de 88 por cento [dos nossos átomos] foram cozinhados num verdadeiro inferno de fogo, uma enorme gigante vermelha. Isso inclui o oxigénio que alimenta os nossos movimentos, o cálcio nos nossos ossos, o sódio e o potássio que enviam os nossos sinais nervosos, e todos os elementos, excepto o hidrogénio, que existem no nosso ADN.»

Além de oxigénio, cada um de nós tem dentro de si outros elementos pesados. O mais importante, porque entra em toda as moléculas orgânicas, é o carbono. Vale a pena dar de novo a palavra a Levitt, porque ele a maneja com grande estilo: «Uma pessoa de 68 quilos contém de massa, 42 quilogramas de oxigénio, 16 quilogramas de carbono, sete quilogramas de hidrogénio, 1,8 quilogramas de nitrogénio, quase um quilograma de fósforo e meio de enxofre. Por acaso, estes seis elementos também estão entre os mais abundantes no Universo. O hidrogénio é o mais abundante de todos, o oxigénio é o 3.º, o carbono o 6.º, o nitrogénio o 13.º, o enxofre o 16.º e o fósforo o 19.º. De certa forma, isso faz com que a compreensão da origem da vida seja um verdadeiro jogo de Scrabble da química.»

Sabemos hoje muita coisa sobre a vida. Por exemplo, como funciona a fotossíntese e o significado do código genético – assuntos tratados neste livro, mas não sabemos ainda como surgiu a vida na Terra. Não conhecemos vida fora da Terra, embora conheçamos exoplanetas e andemos activamente em busca de vestígios de vida extraterrestre. Na Terra, há vida inteligente, como mostra a nossa capacidade de investigar o Universo. O nosso cérebro – que é o órgão da inteligência – tem cerca de 170 mil milhões de células,, aproximadamente o mesmo número das estrelas na Via Láctea, das quais 86 mil milhões são neurónios. Os neurónios estão ligados entre si formando uma rede extremamenete densa. Apesar de todos os avanços nas neurociências, o funcionamento do cérebro continua a ser em muitos aspectos misterioso. A única parte do Universo que o pode compreender é a mais complexa de todas.

O leitor aprenderá muito neste livro de Levitt sobre aquilo que sabemos. Mas poderá aprender sobretudo o modo como é que chegámos ao actual conhecimento. O nosso cérebro tem, por vezes, enormes dificuldades em aprender coisas novas, pois sofre do que o autor chama «vieses» cognitivos, por exemplo o viés «é demasiado estranho para ser verdadeiro» ou «se as nossas actuais ferramentas não o detectaram, então não existe». Logo no primeiro capítulo, o autor mostra como até os maiores sábios se podem enganar atrapalhados pelos seus preconceitos. Albert Einstein enganou-se a respeito da possibilidade do Big Bang.

No final da leitura, o leitor, embora materialmente possa não ter mudado muito (de facto muda, porque as células estão sempre a renovar-se, os neurónios menos do que as outras), terá decerto mudado. Terá aprendido mais sobre si próprio e sobre o mundo. E, mais importante do que isso, estará mais bem preparado para saber ainda mais. O seu corpo não mudará muito, mas as capacidades do seu cérebro aumentarão. Boa leitura!

 

UMA CONSULTA PÚBLICA QUE INCLUI A OCDE

    Cumpre-se a formalidade: está em consulta pública um conjunto de documentos designados por  Orientações para a utilização responsável da...