No final do ano de 2011 previ, numa crónica sobre astrologia no Público, que a 20 de Março de 2015 ia ocorrer um eclipse solar. Acertei obviamente. Quanto às previsões da astróloga de serviço à RTP.... ler aqui:
http://dererummundi.blogspot.pt/2011/12/previsoes-para-2012-e-2015.html
segunda-feira, 23 de março de 2015
Água ultra-pura
Sobre o tema da homeopatia texto recebido de Carlos Corrêa, professor de Química da Universidade do Porto:
A
água utilizada na preparação dos medicamentos de alta diluição é agua ultra-pura.
A
água ultra-pura do Tipo I, a mais pura disponível no mercado, por exemplo da
Millipor, tem uma condutividade de 0,054-0,056 mS/cm tendo carbono orgânico
total inferior a 50 mg/L, sódio inferior a 1 mg/L, cloretos inferiores mg/L e sílica inferior a 3 mg/L. Vamos supor que se usava uma água mil vezes mais
pura (impraticável).
Se
usarmos uma solução inicial de 1 mg de substância ativa por litro, se diluirmos
10 vezes, repetindo a operação 100
vezes (e não 200 como por vezes se refere), qual é a massa de produto ativo final:
1
mg/L -> 1/10 x 1/10 x 1/10 x ….x 1/10 (cem vezes!) = 10-100
mg/L (10 elevado a menos 100 !)
A quantidade de carbono orgânico na água purríssima é
0,001 x 50 mg/L = 50 x 10-9 mg/L, que é 5 x 1091 vezes maior do que a
massa de substância ativa!
O mesmo se passa com o sódio, cloretos e outros vestígios.
Em conclusão: uma água mil vezes mais pura do que a água ultrapura
disponível no mercado contém mais sódio, cloretos, sílica, carbono orgânico e
outras substâncias em quantidade astronomicamente mais alta (1091
vezes…) do que o princípio ativo!
Ainda há gente que acredita nestes medicamentos homeopáticos?
Carlos Corrêa
Carl Djerassi comissiona peça a companhia de teatro de Coimbra
Informação recebida da companhia de teatro marionet de Coimbra:
O cientista e escritor Carl Djerassi, recentemente falecido, comissionou à marionet a produção em Portugal da sua peça “EGO”, que será estreada no dia 8 de Abril, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra.
Djerassi
tornou-se uma personalidade influente no mundo da ciência pelo papel
fundamental que teve na invenção da pílula anti-concepcional feminina
nos anos 60 do século XX, tendo-se dedicado nos últimos anos à escrita
de ficção e peças teatrais.
Uma dessas peças, Cálculo,
que retrata a disputa entre Isaac Newton e Gottfried Leibniz, sobre
quem primeiro inventara o cálculo (equações diferenciais e integrais),
foi também já levada à cena pela marionet, em 2011, no Museu da Ciência
da Universidade de Coimbra. O livro “Cálculo”, de Carl Djerassi, foi
simultaneamente lançado em Portugal, numa edição da Imprensa da
Universidade de Coimbra, podendo contar com uma sessão de autógrafos com
o autor.
O texto de “Ego”, a primeira peça de
Djerassi considerada “não-científica”, teve como base a obra “Marx
Deceased”, do próprio Djerassi, e foi traduzido para língua portuguesa
por Mário Montenegro, o director da companhia marionet. A peça trata a
forma como um escritor, Stephen Marx, fingiu a sua própria morte de modo
a poder observar a reacção e crítica de leitores e críticos, e teve
como inspiração, assumida por Carl Djerassi, Fernando Pessoa e os seus
heterónimos.
CONSELHO NACIONAL DE DESEDUCAÇÃO
Artigo de opinião de Guilherme Valente saído há uma semana no Expresso:
Entre as várias coisas boas que este Ministro da Educação foi capaz de fazer, a melhor foram os exames. E a prova, como se previa, viu-se logo: passados um ou dois anos sobre a medida, as médias subiram em todas as escolas. Em todas, mas mais… nas públicas! Nas "más", e isso é que é importante, para dar oportunidade e esperança a todas as crianças, criando as condições para diminuir o fosso da desigualdade social. (E subiram menos nas privadas por nelas haver já mecanismos de exigência de trabalho e de ser outro, regra geral, o empenho dos pais.)
Saudada com júbilo pelos que realmente se preocupam com a qualidade do ensino e o destino dos alunos, essa subida nos resultados enervou e abalou, como se viu, os defensores do facilismo, da ideologia que serviu magnificamente aqueles que quiseram e querem inviabilizar a educação em Portugal.
E a reacção não tardou. O CNE, agora com a cobertura útil do presidente que passou a ter - as escolhas e delegações deste Ministro são, regra geral, um desastre - vem agora propor, criminosamente, o fim das reprovações, isto é, o fim dos exames a sério. Para isso invocou três "razões", todas agoniantes:
Uma, a de que as reprovações não resolvem o problema dos alunos que reprovam - e a transição sem se saber resolve? E foi por isso mesmo que desde sempre defendemos... a necessidade de apoio reforçado aos alunos reprovados. Solução que vêm apresentar agora como se fosse uma descoberta sua.
Outra razão, a de que reprovação suscita nas crianças perturbações emocionais, é hilariante, na linha de concepções e de práticas idiotas que têm conduzido à infantilização dos alunos, gerando jovens e adultos sem autonomia, personalidades frágeis incapazes de enfrentar as mínimas contrariedades que a vida a toda a gente inevitavelmente coloca.
E, última razão evocada, a de que as reprovações custam caro ao Estado. Razão hipócrita esta, por ser apresentada pelos que sempre tão assanhadamente atacaram o Ministro por "sacrificar a qualidade do ensino à poupança de dinheiro". Poupar-se-ia 900 milhões, dizem-me que terá dito o meu Amigo Eduardo Marçal Grilo – então porque não poupam tudo? Fechem-se as escolas, acabe-se com a Educação!
A proposta do CNE junta cegueira ideológica e ressentimento a uma aparente...burrice. E porquê? Por que os exames, a reprovação (a que chamam beatamente retenção), não se destinam apenas, nem sobretudo, a proporcionar aos alunos sem qualificações para transitar de ano a possibilidade de recuperarem. O objectivo e benefício dos exames a sério são sistémicos.
Isto é, promover o estudo pelos alunos todos, a qualidade do ensino (e o estudo...) pelos professores, a preocupação dos pais relativamente ao trabalho escolar dos filhos, e também o empenho e competência do aparelho do Ministério. O objectivo dos exames é, em suma, pôr toda a gente a trabalhar, a estudar, a ensinar e a educar realmente, informando e responsabilizando todos, professores, directores, escolas, ministério e pais.
Percebe-se, assim, porque precisamos em Portugal de um regime de exames bem diferente daquele de que necessitam sociedades como a finlandesa ou a japonesa, por exemplo.
Acabar com os exames, como agora vem defender o CNE determinará, rápida e inelutavelmente, que se passe a estudar menos e a ensinar pior. Voltará a descer, portanto, o nível de formação dos alunos, a crescer o abandono escolar e a indisciplina, a irresponsabilidade de estudantes e professores (e a frustração dos melhores deles), a indiferença dos pais. E os mais prejudicados seriam, serão…, como sempre foram, os mais desfavorecidos, assim se contribuindo para agravar ainda mais as desigualdades sociais. E entrariam ainda menos alunos no ensino superior, a não ser que também nesse grau de ensino viesse a verificar-se uma descida ainda mais escandalosa de exigência. Facto, infelizmente, bem provável, aliás, pois não começaram já alguns Politécnicos a decidir o fim de alguns exames – com excepção do exemplo que se esperava dos de Lisboa, Porto e Coimbra? Tudo para agravar a miséria da realidade política, cultural, económica, financeira, o pântano em que o País tem vivido.
Guilherme Valente
«Expresso» de 14 Março de 2015
Plantas, mitos, fabulações e realidade
Informação recebida do Rómulo:
Na 3ª feira, 24 de Março de 2015, pelas 18h, realiza-se no RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, localizado no piso térreo do Departamento de Física da FCTUC, a palestra intitulada “Plantas, mitos, fabulações e realidade”, com o Professor Jorge Paiva. Esta palestra insere-se no ciclo “À Luz da Ciência”, dinamizado pelo Bioquímico António Piedade, que decorre de Fevereiro a Junho de 2015.
|
| SOBRE A PALESTRA:
"Quando se formou a nossa espécie, praticamente, a
totalidade das outras espécies animais que hoje existem já habitavam o Globo
Terrestre. Por
isso, a espécie humana (Homo sapiens
L.) aprendeu muito com a Natureza e com os outros animais. Assim, copiamos os outros animais na alimentação e,
também, no uso de muitas das plantas medicinais que ainda hoje utilizamos. É
disso exemplo uma planta que em S. Tomé é designada por “aliba-cassô”, que quer
dizer planta do cão, pois é uma erva [Eleusine
indica (L.) Gaertn.] que os cães “mastigam” quando têm desarranjos
intestinais e, então, os santomenses, quando têm disenterias tratam-se com
infusões dessa planta. Claro que também aprendemos com os outros animais a utilização
das plantas tóxicas, como, por exemplo, a noz-vómica (Strychnos nux-vomica L.), cujas sementes contêm estricnina, sendo,
por isso, que os símios não comem o fruto desta espécie de Srychnos, mas sim os frutos das espécies de Strychnos que não têm estricnina. É um “fenómeno” idêntico ao que
acontece com os cogumelos.
Portanto,
a nossa espécie utiliza plantas praticamente desde que apareceu na Terra. Aliás,
os mais primitivos antepassados humanos eram herbívoros, depois colectores e caçadores
e, após a domesticação de animais e plantas, agricultores e pastores.
Além
das plantas comestíveis que sempre utilizámos, conhecem-se documentos sobre
plantas medicinais há mais de cinco mil anos, como são os documentados sistemas
médicos chineses e o “ayurvédico” indiano. Antes da fabricação dos medicamentos
pela indústria farmacêutica, que não tem mais do que século e meio, as
enfermidades eram tratadas directamente com “mesinhas” das plantas ou dos
animais. Foi, por isso, que a 5 de Outubro de 1773 o Marquês de Pombal escreveu
ao então Reitor da Universidade de Coimbra, rejeitando o grandioso plano para o
Jardim Botânico de Coimbra, que este lhe enviara, dizendo: “Debaixo d’estas regulares medidas deve, V.
Ex.ª fazer delinear outro plano, reduzido somente ao numero de hervas
medicinais que são indispensáveis para os exercícios botânicos, e necessarias
para se darem aos estudantes as instruções precisas para que não ignorem esta
parte da medicina.....”
O
tratado “De materia medica” (64 d.C.)
de Pediamos Dioscórides (40-90 d.C), célebre físico (cirurgião) grego, considerada
uma das obras mais antiga sobre plantas, onde se descrevem os atributos (cerca
de 1000) de cerca de 600 espécies de plantas, foi o “guia” da “medicina”
durante mais de 16 séculos, o que implicou um reduzidíssimo progresso da
fitoterapia, pois além de traduções (algumas com erros graves que se repetiram
durante séculos) para várias línguas, muitas publicações (mesmo actuais) sobre
plantas medicinais limitaram-se a “parafrasear” a obra de Dioscórides. Aliás, a
maioria dos nomes utilizados por Dioscórides tinham sido utilizados por
Hipócrates de Cos (ca. 460-
Camões
também conhecia não só as obras gregas, particularmente o tratado “De
materia medica”, como também os “Coloquios dos simples, e drogas he
cousas mediçinais da Índia…” (1563) de Garcia de Orta, por quem acalentava
uma afectuosa amizade e admiração, resultante
das relações pessoais que mantiveram na Índia, onde o poeta escreveu
praticamente todo o seu poema épico, Os
Lusíadas. Por isso, é n’Os
Lusíadas que o poeta mais plantas menciona (cerca de cinco dezenas), na
maioria asiáticas e aromáticas. Na lírica refere muito menos espécies de
plantas (cerca de três dezenas), maioritariamente, europeias e ornamentais,
pois a lírica foi, praticamente, escrita em Portugal e centrada no amor e
paixão.
As
plantas, pela sua relevância para a nossa espécie, também são referidas nas
obras sagradas das religiões, com, por exemplo, no Corão e na Bíblia. Muitas
dessas plantas referidas por poetas e nos textos sagrados, são difíceis de
identificar com exactidão, assim, das cerca de 160 plantas citadas na Bíblia,
apenas estão seguramente bem identificadas cerca de 100.
Portanto,
os atributos medicinais e comestíveis das plantas são conhecidos, estão
documentados e registados por escrito há muitos séculos. No Continente
Americano, os índios sempre utilizaram plantas medicinais e muito desse
conhecimento está bem documentado. Porém, sobre a prática medicinal popular
africana (particularmente da África Tropical) há não só exígua documentação e
registos escritos, como também muitíssimo menos estudos e análises científicas.
Por causa de muitos destes produtos poderem
provocar intoxicações ou até alucinações, é que existe aquilo a que os ingleses
designam por “folk medicine” (medicina folclórica), na qual o (a) curandeiro
(a) as utiliza a seu belo prazer, provocando alucinações ou intoxicações que,
depois, alterando o conteúdo da planta seca (sem que o enfermo dê por isso) e
elaborando exorcismo ou rezas, faz “desaparecer” o mal (intoxicação ou
alucinação propositadamente provocada).
Assim muitos “curandeiros” sem escrúpulos podem causar, impunemente, em vez de
curas, piores males ou, até, mortes.
Um exemplo de planta muito
utilizada nestas práticas (pó das sementes que têm elevado teor de produtos
atropínicos), particularmente para acabar com namoros “inconvenientes”, é a Datura stramonium L.
(figueira-do-inferno, erva-do-diabo, erva-das-bruxas, erva-dos-mágicos,
castanheiro-do-diabo), responsável, por vezes, pela morte de gado cavalar,
quando a planta está, inadvertidamente, incluída no seio dos fardos de palha.
Em muitos países, onde não há medicina forense ou é de fraca eficiência, muito curandeiro (a) provoca propositadamente, a morte do “paciente”, frequentemente com o conluio de familiares ou inimigos da vítima. Um exemplo dessas plantas são algumas das espécies do género Erythrophleum, com elevado teor de um alcalóide (eritrofleína) altamente tóxico, utilizadas para esse feito em África.
Além de tudo isso, devido à
enorme relevância das plantas na vida humana, existem muitos mitos, como, por
exemplo, a figueira-sagrada (Ficus religiosa), à sombra da qual o Príncipe Sidarta Gautama
(Buda) meditou durante 7 anos e fabulações como, por exemplo, a maçã que Eva
deu a Adão e plantas carnívoras que devoram símios e humanos."
Jorge Paiva
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sábado, 21 de março de 2015
Ao tempo que não servimos carapauzinhos de escabeche
Joel Costa, que se apresenta como "personagem sem a mínima formação universitária", teve vários programas na Antena 2 da Rádio que deixaram marca (o meu preferido, a que o leitor pode ter acesso aqui, foi Questões de moral). Também escreve teatro e romance num registo singular, clarividente e mordaz.
O mais recente livro - Ao tempo que não servimos carapauzinhos de escabeche - está nas livrarias e será apresentado no próximo dia 27 de Março, em Lisboa.
Uma passagem:
"Já me tinha dito que quem viria a ter parte essencial no magno evento, na reviravolta da ordem natural da vida que tínhamos conhecido até aí, eram os altos traficantes de droga à escala mundial, e mais esses, bem vistas as coisas, do que os banqueiros, e assim até ao dia em que ambas as actividades se confundissem – dia esse que podia ser aquele preciso dia em vias de nascer.
Os altos traficantes de droga estavam a mudar a fisionomia do mundo, da vida, da convivência. A droga estava a chegar ao consumidor com um grau de pureza nunca visto. Só por falar da heroína, já se vendia com um grau de pureza na ordem dos 60%. Era o progresso.
- Então, ouve lá, o progresso é o mais alto nível de alucinação que se possa arranjar? – perguntei.
- Claro que é! A chave dos segredos da vida, a pedra filosofal dos sistemas... A próxima revolução mundial não precisava de tiros. Seria toda feita com dinheiro e drogas, o que iria dar no mesmo e aumentaria exponencialmente o nível de alucinação. Porque o tempo já não produzia revolucionários daqueles do passado, muito teóricos, muito inteligentes. Hoje, no mercado da revolução, já só se encontravam boçais terroristas religiosos.
Ciência e poesia
Há poesia na ciência e há ciência na
poesia.
A propósito do dia
internacional da poesia que se celebra hoje, dia 21 de Março, partilho quatro poemas em que
a ciência está presente.
Do químico conimbricense João Paiva, professor
na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, o poema “Densidade”
publicado no seu livro “quase poesia quase química” (2012):
Quando me
centro em
mim,
cresce a
minha densidade.
Mais massa
no mesmo
volume
das minhas
possibilidades.
Cheio,
deixo de
flutuar.
Da poetisa e professora
de físico-química aposentada, Regina Gouveia, o poema “Silêncio Cósmico”:
Pudera eu regressar ao silêncio infinito,
ao Cosmos de onde vim.
no espaço interestelar, vazio, negro, frio,
havia de soltar um grito bem profundo
e assim exorcizar todas as dores do mundo.
Do escritor açoriano Vitorino Nemésio, do livro “Limite de
Idade” (1972), o poema “Deutério
moderador”:
Deutério
moderador
(Para
alguns água pesada)
De
teus dedos me dirija
A
reacção encadeada.
Que
eu só acelero por Amor
Por
morrer com Energia.
Não
chores mais, flor do isótopo,
Que
tudo isto é poesia
E
tempestade num copo
De
H2O+ bem comum:
Sem
número de massas nem Z antes,
Que
seu destino é nenhum.
E termino com o incontornável António Gedeão, pseudónimo de
Rómulo de Carvalho, com o seu poema “Máquina do Mundo”, do seu livro “Máquina
de Fogo” (1961):
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto é matéria.
Daí, que este arrepio, este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
Há Viagens e Viagens
a fait un beau voyage.
Du Bellay
Quase ninguém é indiferente ao apelo à viagem. E quase toda a gente inveja Ulisses, que, se não fez, exactamente, uma boa viagem, como canta Du Bellay, perpetrou, pelo menos, uma longuíssima e acidentada odisseia de retorno.
Há gostos para tudo. Du Bellay
invejava Ulisses. Gide torcia o nariz à odisseia do grego, porque, no fim da
viagem, esperava-o Penépole, que, para sempre, o iria amarrar ao lar. Exaltava,
em contrapartida, Sindbad, o das Mil e
Uma Noites, por ser livre como um passarinho: no fim da viagem, esperava-o,
não uma amarra, mas uma nova viagem. Para Gide, também, uma viagem era apenas o
prefácio à viagem seguinte, em contraste com a de Ulisses, que não passou de
uma obrigatória navegação de regresso.
Gide tinha igualmente um lar à espera, em Cuverville, mas fazia de conta que
não dava por isso, e traiu, tanto quanto pôde – e sem complacências – a sua
fiel Penélope que, para o caso, se chamava Madeleine. O que ele queria, está-se
a ver, era copiar, com “gusto” e mesmo frenesi, o fluir libérrimo do marinheiro
Sindbad.
Viajar tem boa e tem má imprensa. Há
quem elogie, há quem diga mal e há quem, simplesmente, se aborreça. O actor e
escritor Al Boliska propôs uma definição célebre que hoje anda citada por todo
o lado: “Viajar de avião”, disse ele, “são horas de tédio interrompidas por
puro terror.” Ainda assim, Boliska só critica o viajar de avião, não todo o viajar. Mas há quem demita qualquer espécie de
viagem. O conhecido romancista Paul Theroux, com obra assinalável transposta
para o cinema, observava que “viajar só é glamoroso em retrospecto”, isto é, só
funciona depois de terminada a viagem, ao contá-la, ao serão, aos amigos.
William Trevor dizia o mesmo, de outra maneira: “Ele só viajava para poder
voltar para casa”, isto é, o melhor da viagem era o regresso. Nem Ulisses foi
tão longe: suspeito que gostou mais da ida do que da volta…
De entre os demolidores do mito da
viagem, citarei o talvez mais antigo (será?): Sócrates, que disse, imaginem,
esta barbaridade: “Vê um promontório, uma montanha, um mar, um rio e viste
tudo.” Como se não houvesse rios e rios, promontórios e promontórios, cidades e
cidades! Quem pode ser de opinião que o Amazonas é o mesmo que qualquer pífio
afluente de um rio de trazer por casa… Quem pode afirmar que ver Leiria é o
mesmo que ver Paris ou Veneza! Ou como se Florença fosse o mesmo que Alguidares
de Baixo! Ou como se o Iguaçu não diferisse grande coisa das pindéricas
“cascatas” da Namaacha, da minha saudosa infância africana!
Claro que é preciso saber viajar,
saber ver e, sobretudo, gostar de ver.
Viajar por viajar é inútil e fica caro. Como dizia o outro, não vale a pena dar
a volta ao mundo só para contar o número de gatos que há em Zanzibar.Viajar pode ser também uma fonte
involuntária de conflito conjugal: viajar para onde? Os gostos diferem e está
aí uma causa de briga. Isto mesmo observava Paul Sweeney, quando,
saborosamente, notou: “Um dos maiores destruidores de felicidade conjugal é a
escolha de um lugar para passar férias. Do que este país precisa é de um oceano
na montanha.”
Mas não viemos aqui falar, hoje, dos
que não sabem nem gostam de viajar. Viemos antes falar de alguém – Guilherme
d’Oliveira Martins – que, à frente do Centro Nacional de Cultura, e a partir
deste, rodeado de outros empenhados viajantes, amigos de conhecer, se meteu às
sete partidas do mundo: “Na Senda de Fernão Mendes”, tal é o título do livro
que recentemente deu à luz.
Porquê viajar? Qual, mais
precisamente, o “porquê” de Oliveira Martins? Ele responde com meridiana
clareza, logo no prefácio, a que deu o aliciante e revelador título de
“Portugal me traz peregrinando”. Nestes termos: “…ao lermos Fernão Mendes Pinto
ou Diogo do Couto facilmente entendemos como a viagem é matéria-prima de vida e
de literatura, de existência e pensamento. A viagem torna-se, assim,
consequência e continuidade da confluência de diversos povos e influências, num
extraordinário cadinho de diferenças. A hospitalidade tem consequência no
desejo de encontro do diferente, de outros lugares e de outras gentes. O
fascínio da viagem ganha, assim, força e sentido.”
Não se trata, pois, de um exercício
de mero mimetismo – viajar porque toda a gente viaja – mas de um profundo
empenho vital (“matéria-prima de vida”), de obediência a um irresistível
“fascínio”. É isso que dá vitalidade a este relato de um bom punhado de viagens
ao encontro do mundo que o português criou ou, mais simplesmente, às vezes, o
mundo por onde o português andou. E dá-lhe um suplemento não desprezível de
vitalidade a imensa cultura do relator, que dela se serve com agilidade e
“timing” surpreendentes. Há sempre um livro, um texto, uma passagem colhidos em
autores que Oliveira Martins frequentou com mão diurna e nocturna e que
iluminam um momento da viagem, um momento histórico, uma avenida esplendorosa…
O livro dá-nos uma larga fatia de
mundo (mas não dá, hélas!, Moçambique): a Índia, o espectacular Iguaçu,
Cracóvia, S. Petresburgo, Omã, Japão, Malaca,
Brasil, China, Cabo Verde, S.Tomé, Galiza, México, Mediterrâneo Oriental,
Istambul, Trieste, a Eslovénia… Um mundo realmente vivido, mais do que apenas visitado, comentado com cultura
sanguínea e não com seca erudição. Os portugueses – os grandes e os menos
grandes – andaram por aqui e deles todos nos dá o relator vívida e afável
conta.
Viajar – o convite à viagem! Há quem
proteste em termos paradoxais: “É pena”, dizia Chesterton, “as pessoas viajarem
por países estrangeiros; estreita-lhes de tal maneira o espírito.” Sterne, no
seu imenso Tristram Shandy, não vai
tão longe, mas faz uma recomendação: “Um homem deve também conhecer alguma
coisa do seu próprio país, antes de ir para o estrangeiro.” Oliveira Martins
documenta, substancialmente, esse conhecimento e essa preocupação: na Parte II
(“De Portugal Abrange-se o Mundo”) dá-nos uma boa amostra de Portugal, à boleia
de Garrett, de Antero, de França,de Ruben A., de Pomar, de Teixeira-Gomes…
Por
outras palavras, Portugal não fica esquecido no tinteiro, antes, é
saborosamente revisitado, com cicerones de excepção. “De norte para sul,” diz
Oliveira Martins, abonando-se nesse almocreve cintilante, que é Miguel Torga,
“começa por se fixar no Reino Maravilhoso - «do meu Marão nativo abrange-se
Portugal; e de Portugal abrange-se o mundo.» E sentimos que sempre houve e
haverá reinos maravilhosos e sofremos o calafrio do assombro. Portugal é para
Miguel torga um totem, uma referência altiva e permanente. Foi daqui que partiu
o escritor para ver o mundo.” Bom discípulo, Oliveira Martins fez o mesmo, com
bons companheiros, de olhos bem abertos e sempre havendo Portugal e os
portugueses como referência. “Viajar é quase como falar com homens de outros
séculos”, dizia Descartes. Nesta sua incansável peregrinação, Oliveira Martins
não tem feito outra coisa.
(Texto publicado anteriormente no "Jornal de Letras").
sexta-feira, 20 de março de 2015
Conselho Científico da FCT arrasa a Estratégia de Investigação e Inovação do actual governo
Recebi este Parecer do CCCSH - Conselho Científico para as Ciências Sociais e Humanas da FCT sobre o documento
“Estratégia de Investigação e Inovação para Uma Especialização Inteligente” (Fevereiro de 2015). O título fala em especialização inteligente, mas ficamos a saber que de inteligente o documento só tem a palavra no título. Para aquele Conselho será antes um "atentado" à inteligência:
Preâmbulo
O Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades exprime, através do presente documento, o seu parecer sobre A “Estratégia de Investigação e Inovação para Uma Especialização Inteligente”.
Consultado sobre uma versão preliminar em julho de
2014, constatou-se que as
Recomendações deste
órgão
não
foram
tidas
em
conta
e
em
nada
contribuíram
para
a
versão
final.
Este
é
um
documento
estratégico,
que
define
a
agenda
de
investigação
e
inovação
para
os
próximos
anos
e
do
qual
as
Ciências
Sociais
e
as
Humanidades
são
apagadas
ou
tornadas
áreas
subsidiárias
de
outros
temas
ou
domínios
de
atuação.
Este
facto
merece
a
nossa
maior
perplexidade
e
preocupação,
levando-‐
nos
a
emitir
um
parecer
negativo
a
este
documento.
As
consequências
desta
estratégia
não
são
evidentes
e
é
fundamental
que
seja
transparente
qual
o
seu
impacto
na
futura
alocação
de
verbas
para
a
investigação.
Isto
é,
que
percentagem
da
dotação
orçamental
será
colocada
em
projetos
alinhados
com
o
documento
e
qual
a
percentagem
remanescente.
Porque
a
eliminação
das
Ciências
Sociais
e
das
Humanidades
de
um
documento
com
esta
importância
nos
parece
francamente
empobrecedora
para
o
país,
consideramos
importante
a
divulgação
do
presente
parecer
pela
comunidade
científica,
para
que
possa
haver
uma
reflexão
conjunta
e
ponderada
sobre
a
estratégia
agora
aprovada
e
para
que
se
abra
a
possibilidade
de
reabertura
deste
documento,
para
uma
inclusão
de
temas
e
questões
pertinentes
com
o
contributo
destes
domínios.
Os
nossos
comentários
dividem-‐se
nos
seguintes
tópicos:
i)
metodologia;
ii)
listagem
de
temas
e
eixos
temáticos;
iii)
estrutura
de
governança;
iv)
implementação.
(i) Metodologia
O
documento
é
muito
explícito
quanto
à
metodologia
de
elaboração
e
revela
a
existência
de
uma
estratégia
clara
para
a
articulação
entre
setores
que,
tradicionalmente,
não
colaboravam
na
preparação
e
conceção
do
pensamento
sobre
investigação
e
inovação.
É
bastante
evidente
a
articulação
entre
o
Diagnóstico
do
SNCT
e
a
preparação
desta
estratégia.
É
importante
lembrar
que
a
história
da
política
industrial
em
vários
países
(enquanto
incentivo
a
certos
setores)
não
é
muito
estimulante,
uma
vez
que
é
difícil
saber-‐se
o
que
vai
ter
sucesso,
não
sendo
provável
que
sejam
os
estados
ou
comissões
criadas
a
descobrir
as
receitas
de
êxito.
Mesmo
centrado
no
desenvolvimento
económico,
um
problema
óbvio
e
estrutural
que
é
apontado
por
qualquer
observador
da
economia
nacional
é
o
nível
de
formação
dos
recursos
humanos
do
país.
Sem
níveis
mais
elevados
de
capital
humano,
dificilmente
qualquer
estratégia
de
especialização
inteligente
funcionará
numa
economia
moderna,
porque
o
conhecimento
está
na
base
do
sucesso,
do
mesmo
modo
que
o
acesso
ao
conhecimento
é
um
direito
de
cidadania.
O
nível
de
educação
médio
do
trabalhador
português
é
muito
baixo.
As
gerações
mais
jovens
são
bastante
mais
educadas,
mas
ainda
assim
o
nível
médio
é
baixo
quando
comparado
com
gerações
equivalentes
em
outros
países
desenvolvidos.
Além
disso,
vai
passar
muito
tempo
até
que
se
renove
o
nível
educativo
da
população
ativa.
Parece,
portanto,
essencial
que
a
metodologia
de
elaboração
desta
estratégia
coloque
a
qualidade
de
educação,
a
sustentabilidade
do
sistema
de
ensino
e
a
qualificação
como
eixos
prioritários
ou
preocupações
estruturantes
para
a
elaboração
da
estratégia. ´
Há
alguns
aspetos
merecedores
de
preocupação
sobre
a
metodologia
desenvolvida:
-‐ É
competência
dos
Conselhos
Científicos
o
apoio
à
elaboração
de
políticas
de
ciência
por
parte
da
FCT.
No
âmbito
desta
competência,
teria
sido
desejável
que
os
Conselhos
Científicos
tivessem
sido
convidados
a
participar
mais
ativamente
na
elaboração
deste
documento,
quer
na
fase
de
diagnóstico,
quer
na
fase
de
identificação
de
temas
e
eixos
prioritários.
-‐ Refere-‐se,
no
documento,
que
o
SCTN
teve
um
crescimento
muito
significativo
na
última
década,
o
que
se
torna
visível
nos
indicadores
de
produtividade.
Há
uma
correlação
negativa
que
quer
este
documento
quer
o
Diagnóstico
ao
SCTN
estabelecem
entre
o
investimento
em
Ciência
e
a
baixa
taxa
de
transferência
de
conhecimento
para
o
setor
empresarial
que
parece
ser
feita
de
forma
algo
elementar.
Há
dados
cruciais
para
se
entender
este
fenómeno
–
a
que
voltaremos
–
que
não
podem
ser
ignorados.
-‐ O
crescimento
do
investimento
em
Ciência
deve
ser
continuado.
O
sistema
só
amadurecerá
e
poderá
dar
frutos
mais
visíveis
se
houver
previsibilidade
e
estabilidade
no
financiamento.
O
desenvolvimento
do
conhecimento
científico
não
pode
estar
sujeito
a
modismos
e
a
ciclos
irregulares
e
instáveis
de
financiamento.
Neste
sentido,
em
termos
metodológicos,
o
investimento
em
Ciência
e
a
estabilidade
do
emprego
científico
devem
ser
perspetivados
como
eixos
prioritários
para
qualquer
tipo
de
especialização.
-‐ Refere-‐se,
no
documento,
que
as
áreas
de
maior
competitividade
científica
foram
aferidas
também
com
base
em
publicações.
Como
é
reconhecido
por
todos
os
stakeholders,
a
bibliometria
de
base
comercial
não
é
uma
fonte
credível
de
informação
para
garantir
a
visibilidade
da
produção
científica
em
Ciências
Sociais
e
Humanidades.
Há,
portanto,
um
enviesamento
de
raiz
sobre
o
potencial
das
disciplinas
destas
áreas
na
sua
participação
na
estratégia
a
definir.
-‐ A
palavra
“excelência”
é
abundante
no
texto,
mas
a
excelência
não
é
nunca
definida.
Uma
vez
que
o
conceito
é
utilizado
como
critério,
deve
ser
definido
e,
sobretudo,
deve
ser
clarificado
que
a
investigação
de
excelência
carece
de
outra
investigação
que
a
promova
e
sustente
e
justifique,
em
termos
relativos,
o
seu
caráter
de
excelência.
A
nosso
ver,
uma
estratégia
inteligente
deve
não
só
capitalizar
a
investigação
de
excelência,
mas
identificar
os
potenciais
de
acesso
à
excelência
a
partir
de
uma
cuidada
e
ponderada
análise
de
progressão
da
produtividade
e
impacto.
(ii) Temas
e
eixos
temáticos
Os
15
temas
prioritários,
agrupados
em
eixos
temáticos,
correspondem
a
tópicos
porventura
relevantes
para
a
visão
de
Portugal
em
2020,
conforme
enunciado
no
documento.
Mas
são,
contudo,
manifestamente
insuficientes.
Entende-‐se
a
definição
temática,
e
embora
se
sugira
que
todos
os
domínios
científicos
podem
contribuir
para
estes
eixos
e
temas
de
forma
diferenciada,
é
muito
claro
que
há
domínios
subsidiários
ou
que
terão
de
recorrer
a
uma
justificação
fabricada
para
justificar
a
sua
relevância
para
os
temas
escolhidos.
A
seleção
de
temas
e
eixos
merece-‐nos
o
seguinte
conjunto
de
comentários: ´
-‐ Estamos
perante
um
conjunto
de
temas
claramente
orientados
para
a
criação
de
valor
económico,
que
surge,
assim,
como
razão
última
da
produção
de
conhecimento.
Há
alguma
confusão
entre
temas
e
propósitos
na
forma
como
são
apresentados.
Deve
ser
tornado
mais
claro,
no
documento,
se
estão
a
ser
listadas
áreas
temáticas
de
inovação
e
investigação
ou
setores
de
atuação
que
podem
beneficiar
de
investigação
e
inovação.
Esta
diferença
conceptual
não
é
trivial,
mas
é
fundamental
para
uma
implementação
das
estratégias
a
desenvolver.
-‐ Por
muito
que
não
se
queira,
torna-‐se
evidente
que
há
um
enorme
apagamento
da
investigação
fundamental.
Na
melhor
das
hipóteses,
pretende-se
que
a
investigação
fundamental
seja
subsidiária
ou
enquadrada
num
conjunto
mais
vasto
que
tem
como
fim
último
a
investigação
aplicada
e
a
articulação
com
o
mundo
empresarial.
Deve
ser
tornado
claro,
idealmente
até
recorrendo-se
à
exemplificação,
o
papel
da
investigação
fundamental
nesta
estratégia.
Se
tal
não
for
feito,
corre-se
o
risco
de
se
estar
a
definir
uma
estratégia
que
tem
efeitos
a
médio
prazo
na
economia,
mas
que
é
estranguladora
da
criatividade
científica
e
dos
fundamentos
epistemológicos
do
processo
de
criação
de
conhecimento
–
a
experimentação
e
a
falsificação
de
hipóteses.
-‐ A
definição
de
uma
agenda
temática
para
a
investigação
deve
envolver
a
comunidade
científica.
A
definição
de
temas
bottom-up
não
pode
ser
descurada
e,
se
existiu,
tal
não
é
visível
no
documento.
A
velocidade
a
que
se
produz
conhecimento
científico
atualmente
faz
com
que
as
agendas
de
investigação
possam
ser
alteradas
em
períodos
de
três
anos.
Neste
sentido,
é
fundamental
que
a
definição
de
eixos
e
temas
não
possa
ser
considerada
fechada,
mas
que
haja
espaço
para
que
as
comunidades
científicas
possam
participar
dinamicamente
e
de
facto
na
definição
de
agendas
de
investigação.
-‐
Há
temas
cruciais
que
nos
parecem
não
estar
contemplados
no
documento.
Parece-‐nos
que
a
listagem
de
temas
pode
ser
fortemente
enriquecida
se
forem
incluídas
as
áreas
de
investigação
a
seguir
referidas,
que,
não
sendo
exaustivas,
são
capazes
de
contribuir
para
uma
melhor
compreensão
de
Portugal
em
contexto
europeu,
da
sua
identidade
e
dos
seus
valores,
numa
lógica
de
diferenciação
e
especialização
do
conhecimento
desenvolvido
no
espaço
europeu: ´
Compreensão
das
cidades
e
do
seu
património
–
privilegiando-se
estudos
de
caracterização
de
cidades,
de
património
histórico
material
e
imaterial
nas
cidades
em
transformação,
de
fluxos
migratórios,
de
multilinguismo,
de
urbanismo
central
e
periférico
e
as
diversas
formas
de
expressão
urbanas,
nomeadamente
envolvendo
fusão
de
arte,
empreendedorismo
e
ciência,
etc.
Aferição
da
qualidade
das
democracias
e
do
exercício
da
cidadania
–
privilegiando-‐se
a
identificação
dos
critérios
que
permitem
aferir
o
papel
na
construção
das
identidades
locais,
nacionais
e
internacionais,
as
métricas
de
avaliação
dos
serviços
públicos,
os
indicadores
de
desenvolvimento
e
qualidade
do
exercício
da
democracia,
a
especificidade
da
relação
entre
os
estados
europeus
e
cidadãos,
o
respeito
pelos
direitos
humanos,
etc.
A
este
propósito,
deve
ter-‐se
em
conta
que
Portugal
e
a
Europa
atravessam
um
período
de
profunda
transformação/redução
do
Estado
social
e
de
incerteza,
pelo
que
a
reflexão/ação
sobre
os
lugares
vividos
e
a
cultura
partilhada
tornam-se
essenciais
como
temas
que
enquadram
o
potencial
de
desenvolvimento
económico
e
a
segurança
dos
Estados,
como
contraponto
aos
nacionalismos
emergentes.
A
aferição
da
qualidade
das
democracias
(bem
como
a
formação
da
opinião
pública
a
que
nos
referiremos
em
seguida)
deve
passar
pela
constatação
de
que
a
relação
dos
cidadãos
com
as
instituições
representativas
se
tem
vindo
a
deteriorar,
como
os
elevados
níveis
de
abstenção
atestam
de
forma
clara.
Importa,
assim,
eleger
como
prioritária
a
qualificação
da
informação
a
que
os
cidadãos
têm
acesso.
O
documento
aborda
as
indústrias
culturais,
mas
apenas
numa
lógica
de
produção
para
o
entretenimento,
faltando
referências
à
qualificação
de
informação
para
a
tomada
de
decisão
nos
sistemas
democráticos.
Literacia,
educação
e
desenvolvimento
–
sabendo-‐se
que
a
literacia
e
a
qualificação
são
indicadores
do
desenvolvimento
das
economias,
parece-nos
que
são
de
privilegiar
estudos
que
apontem
caminhos
para
uma
compreensão
mais
clara
das
estratégias
para
um
melhor
desempenho
nestes
domínios,
face
às
características
específicas
do
espaço
europeu
(assimetrias
regionais,
fluxos
migratórios,
variabilidade
linguística,
promoção
da
criatividade
e
da
corresponsabilização
comunitária
pela
tarefa
educativa,
etc.)
Regista-‐se
ainda
que
o
documento
é
omisso
relativamente
ao
papel
da
educação
no
desenvolvimento
individual,
social,
económico.
Devem
ser
contemplados
domínios
como
a
criatividade,
a
educação
artística
e
os
aspetos
sócio-‐emocionais
que
matizam
os
processos
educativos.
Importa
ainda
salientar
que
tem
vindo
a
ganhar
enorme
relevância
a
preocupação
com
o
conceito
de
avaliação
em
todos
os
domínios
de
atividade,
pelo
que
os
estudos
sobre
avaliação
não
podem
deixar
de
ser
considerados
prioritários.
Conhecimento
–
privilegiando-‐se
estudos
que,
integrando
a
perceção
de
que
a
forma
como
o
ser
humano
se
relaciona
com
a
informação
está,
atualmente,
profundamente
alterada,
deem
conta
dos
mecanismos
cognitivos
associados
à
organização
e
estruturação
do
conhecimento,
bem
como
dos
princípios
filosóficos
e
éticos
que
norteiam,
na
sociedade
contemporânea,
a
relação
do
indivíduo
com
a
informação.
Ainda
neste
âmbito,
são
de
considerar
os
processos
de
decisão
e
os
subjacentes
à
memória.
Estes
tendem
a
ser
vistos
como
propriedade
de
indivíduos
isolados.
Contudo
o
estudo
da
memória
social
e
colaborativa
e
dos
processos
de
decisão
grupais
e
em
rede
tem
vindo
a
emergir
com
cada
vez
maior
impacto
em
diversas
ciências
sociais
e
outras
e
tem-‐se
revelado
crucial
na
explicação
do
sucesso
ou
insucesso
na
implementação
de
inovações
e
políticas.
Daí
que
se
devesse
incentivar
estudos
sobre
a
forma
como
se
constroem
memórias
e
representações
socialmente
partilhadas
quer
de
acontecimentos
cruciais
para
as
sociedades,
quer
de
acontecimentos
banais
e
estudos
focados
na
maneira
como
as
decisões
políticas
e
económicas
são
condicionadas
pelas
redes
institucionais
e
organizacionais
em
que
se
inserem.´
Formação
da
opinião
pública
–
obstáculos
e
facilitadores
à
formação
de
uma
opinião
pública
informada
–
Aposta
em
estudos
que
elucidem
e
documentem
os
processos
de
formação
de
opinião
em
diferentes
grupos
etários
e
étnicos
(entre
outros
enfoques
identitários),
nas
suas
facetas
cognitivas,
emocionais,
societais
e
históricas,
seus
obstáculos
e
fontes
principais.
Língua
portuguesa
e
lusofonia
–
têm
sido
vários
os
estudos
e
indicadores
que
reconhecem
o
valor
económico
da
língua
portuguesa.
Parece-‐nos
que
esta
estratégia
não
pode
ignorar
estes
resultados
e
deve
privilegiar
de
forma
explícita
a
língua
enquanto
instrumento
de
promoção
da
economia,
da
cultura
e
do
encontro
e
aprendizagem
recíproca
entre
culturas,
das
indústrias
criativas
e
culturais
e
do
próprio
conhecimento
científico.
Mais
do
que
se
dizer
que
a
língua
pode
ser
um
instrumento
ao
serviço
de
outros
eixos
de
desenvolvimento,
parece-‐nos
que
a
língua
é,
por
si
só,
um
eixo
de
desenvolvimento
estratégico,
em
linha
com
as
recomendações
da
última
cimeira
de
ministros
da
educação
e
ciência
da
CPLP
e
o
Plano
de
Ação
de
Lisboa.
Famílias,
parentalidade
e
envelhecimento
–
o
tema
do
envelhecimento,
que
surge
frequentemente
em
documentos
estratégicos
europeus,
não
pode
ser
dissociado
dos
temas
“cuidado”
e
“baixa
natalidade”,
sobretudo
num
contexto
de
acesso
restrito
a
elementos
de
cidadania
reprodutiva
(procriação
medicamente
assistida,
etc.),
e
em
que
a
prestação
de
cuidados
a
terceiros
consolida
fortes
assimetrias
em
contexto
familiar.
Acresce
que
as
práticas
de
conjugalidade
e
parentalidade
estão
em
transformação
acentuada,
refletindo-se
nas
expectativas
individuais
e
na
redistribuição
de
papéis
sociais
e
recursos
disponíveis,
condicionados
por
crescentes
taxas
de
desemprego
e
emigração
de
pessoas
em
idade
reprodutiva.
A
conjunção
destes
fatores
tem
um
forte
impacto
no
sistema
económico
dos
próximos
anos
e
não
estão
devidamente
singularizados
no
documento.
(iii) Estrutura
de
governança.
A
gestão
desta
estratégia
não
está
suficientemente
explícita.
Tendo,
aparentemente,
sido
construída
por
vários
agentes,
as
competências
dos
vários
participantes
devem
ser
clarificadas,
sobretudo
tendo
em
conta
a
perspetiva
de
este
ser
um
documento
em
aberto
com
potencial
de
atualização
e
enriquecimento.
(iv) Implementação
As
políticas
enunciadas
parecem-nos
demasiado
centradas
na
articulação
com
o
setor
empresarial,
afigurando-‐se-‐nos
ser
necessário
equacionar
um
investimento
em
absoluto
na
investigação.
Há
um
dado
omitido
neste
documento
que
é
fundamental
para
se
perceber
o
diagnóstico:
as
qualificações
médias
dos
empresários
portugueses
são
bastante
baixas,
o
que
tem
poder
explicativo
sobre
a
resistência
à
integração
de
pessoas
doutoradas
e
pessoal
técnico
qualificado
nas
empresas.
A
inversão
deste
estado
de
coisas
passa
pela
valorização
da
formação
de
quadros
de
empresas
e
pela
promoção
generalizada
de
uma
valorização
do
conhecimento,
o
que
não
é
visível
no
documento.
Há
propostas
que
nos
parecem
merecer
revisão,
como
a
sugestão
de
que
os
estatutos
das
carreiras
de
docente
e
investigador
devem
ser
revistas
para
valorização
da
componente
de
colaboração
com
o
setor
empresarial
ou
o
estatuto
privilegiado
dado
à
formação
universitária
conferida
em
associação
com
as
empresas.
A
colaboração
implica
reciprocidade
e,
por
este
motivo,
não
nos
parecem
promissoras
as
políticas
que
submetem
unilateralmente
a
academia
ao
meio
empresarial.
Não
se
encontram
correlatos
claros,
como
a
valorização
profissional
de
empresários
que
colaborem
com
as
universidades
ou
políticas
de
benefício
para
as
empresas
que
apoiem
o
conhecimento
fundamental.
Acresce
que
o
conhecimento
é
um
bem
em
si
mesmo,
e
deve
ser
assim
defendido
independentemente
das
prioridades
circunscritas
de
qualquer
outro
setor.
Por
esta
razão,
consideramos
que
o
processo
de
auscultação
descrito
(50%
de
empresas
e
50%
academia)
carece
de
sustentação
ética
e
epistemológica,
aspeto
agravado
pela
ausência
de
auscultação
das
associações
profissionais
e
científicas
em
CSH.
Lisboa, fevereiro de 2015
O Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades Fundação para a Ciência e Tecnologia
quinta-feira, 19 de março de 2015
A ILITERACIA DA ASCENDI
Recebi muitas mensagens de apoio ao meu artigo "Roubos nas Estradas", publicado no Público e um dos mais divulgados pela Internet. Entre elas recebi de um colega investigador uma mensagem que revela a deficiência dos equipamentos da Ascendi. Ninguém está a salvo dessa empresa apoiada zelosamente pelo Estado, cujos contactos estão em baixo.
"Sou regularmente vítima de um processo semelhante. Trabalho e vivo na região de Coimbra e, ao que parece, sou "cliente
habitual” de uma portagem em Paços de Ferreira... A mesma situação já me
ocorreu 2 ou 3 vezes, sempre provocada por alguém que, supostamente, ao
que me informam da Ascendi (eles têm um e-amail (apoio.clientes@ascendi.pt) e um site (www.ascendi.pt)
muito complexo para gerir este tipo de situações), tem um carro branco
(o meu é cinzento) mas uma matrícula muito parecida com a minha (ao que
me informam, um 8 que se parece muito com o meu querido B; veja lá bem
por onde anda o nível de iliteracia da Ascendi… ;). Consegui resolver
sempre o problema enviando apenas uma cópia digitalizada do meu livrete
(já estou craque, de tanto treinar). Após esse envio, a Ascendi verifica
que de facto o meu carro é diferente do fotografado a cometer a
infracção na dita portagem. Passados alguns meses, volta a conhecer o
mesmo e não mais saímos disto… (Quebro a minha produção científica de
tantos emails que envio à Ascendi. Enfim…)"
A LUZ NA CIÊNCIA, NA ARTE E NA CULTURA
Hoje, pelas 21h15m, estarei na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa, em Braga, numa sessão moderada pelo P. Álvaro Balsas SJ. Anúncio aqui.
quarta-feira, 18 de março de 2015
As moléculas da cor
Na próxima 6ª feira, 20 de Março de 2015, pelas 21h15 realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "As moléculas da cor: uma actividade com química e luz" com
o Professor Sérgio Seixas de Melo, inserida no Projecto Quark! - Escola
de Física para Jovens, este ano de 2015 alusivo ao Ano Internacional da
Luz. ENTRADA LIVREPúblico-alvo: Estudantes do ensino secundário e público em geral
A PÉROLA DE EULER
Extracto do Cap. 1 do livro "A Pérola de Euler", de David S. Richeson, a sair muito em breve na colecção "O Prazer da Matemática" da Gradiva (em primeira mão para os leitores deste blogue, com a amável autorização da editora):
«Leiam Euler, leiam Euler, ele é o mestre de todos nós.»
— Pierre-Simon de Laplace
«Leiam Euler, leiam Euler, ele é o mestre de todos nós.»
— Pierre-Simon de Laplace
"Estamos habituados a hipérboles. Os anúncios de televisão, outdoors, os comentadores desportivos e os músicos famosos usam frequentemente expressões sensacionais, como o maior, o melhor, o mais inteligente, o mais rápido ou o mais brilhante. Sendo usados no processo normal de vender um produto ou entreter o espectador, estas expressões perderam o seu significado literal. Assim, quando afirmamos que Leonard Euler foi um dos mais influentes e prolíficos matemáticos que o mundo alguma vez viu, o leitor poderá revirar os olhos, com enfado. Mas não estamos a exagerar a verdade. Euler é considerado, juntamente com Arquimedes (287-211 a. C), Isaac Newton (1643-1727) e Carl Friedrich Gauss (1777-1855), um dos dez — ou mesmo cinco — mais importantes matemáticos da história.
Ao longo da sua vida de 76 anos, Euler concebeu matemática suficiente para preencher 74 volumes substanciais, mais páginas do que qualquer do que qualquer outro matemático Quando a totalidade do seu trabalho foi finalmente publicada (novos materiais continuaram a aparecer decorridos 79 anos após a sua morte) verificou-se que este chegou aos 866 artigos, em que se incluem artigos científicos «, livros sobre a maioria dos temas tratados na época, livros didácticos, livros elementares para não especialistas, e manuais técnicos. Estes números não levam em conta os quinze volumes
planeados, de correspondência e outros cadernos de apontamentos, que
ainda estão a ser compilados.
A importância de Euler não é devida à sua produtividade volumosa,
mas às contribuições fundamentais e inovadoras que fez na matemática.
Euler não se especializou numa área particular. Ele foi um dos grandes
generalistas: o seu conhecimento estendia-se por várias disciplinas. Publicou artigos e livros com grande influência em análise, teoria dos números,
análise complexa, cálculo, cálculo de variações, equações diferenciais,
teoria das probabilidades e topologia. Esta lista não inclui as suas contribuições
para algumas disciplinas aplicadas tais como a óptica, electricidade
e magnetismo, mecânica, hidrodinâmica e astronomia. Além disso,
Euler possuía uma característica que era, e ainda é, rara entre os investigadores
de topo: ele era também um divulgador de primeira categoria.
Ao contrário dos matemáticos que o precederam, Euler escrevia usando
uma linguagem clara e simples, tornando o seu trabalho acessível tanto a
especialistas como a estudantes.
Euler era um homem gentil e despretensioso cuja vida foi centrada em
torno da sua grande família e do seu trabalho. Viveu na Suíça, Rússia,
Prússia, e depois novamente na Rússia, e manteve uma correspondência
frequente com muitos pensadores importantes do século XVIII. A sua vida profissional ficou ligada aos três grandes governantes da Europa, Pedro, o Grande, Frederico, o Grande, e Catarina, a Grande. Os legados destes
líderes incluem a criação ou revitalização das respectivas academias
nacionais de ciência. Estas academias forneceram as condições materiais
para que Euler dedicasse o seu tempo à investigação em ciências puras.
Em troca, apenas se esperava dele o uso ocasional dos seus conhecimentos científicos para os assuntos do Estado, e o reconhecimento internacional que o seu trabalho trazia para a nação.
Leonhard Euler nasceu em Basileia, Suíça, a 15 de Abril de 1707, filho de Paul Euler e Marguerite Brucker Euler. Pouco depois, a família mudou-se para a cidade vizinha de Riehen, onde Paul foi designado pastor
da igreja calvinista local.
Os primeiros ensinamentos matemáticos que Leonhard teve foram
dados pelo seu pai. Apesar de Paul não ser matemático, ele havia estudado
matemática com o famoso Jacob Bernoulli (1654-1705). Esta instrução
teve lugar quando os jovens Paul e Johann Bernoulli (1667-1748),
irmão mais novo de Jacob, ambos estudantes na Universidade de Basileia,
viviam na casa de Jacob. Jacob e Johann Bernoulli foram membros do que
se viria a tornar uma das famílias de matemáticos mais respeitadas de
sempre. Por mais de um século o clã Bernoulli desempenhou um importante
papel no avanço da matemática, tendo pelo menos oito Bernoullis
realizado contribuições duradouras.
Leonhard começou os seus estudos formais na Universidade de Basileia,
aos catorze anos. Não era uma idade muito precoce para um estudante
universitário naquela altura. A universidade era muito pequena
— tinha apenas algumas centenas de alunos e dezanove professores. Paul
Esperava que o seu filho seguisse uma carreira religiosa, para a qual Leonhard
tinha estudado teologia e hebraico. Mas as suas capacidades matemáticas
eram inegáveis , e ele rapidamente chamou a atenção do amigo do
seu pai, Johann Bernoulli. Nessa altura Johann era um dos matemáticos
mais proeminentes da Europa.
Johann era um homem arrogante, brusco e as suas características
competitivas tinham produzido rivalidades históricas (entre outros, com
o seu irmão e com um dos filhos). Apesar disso, reconheceu o notável talento do menino e encorajou-o a continuar os estudos em matemática. Euler escreveu na sua autobiografia:
Quando me deparava com algum obstáculo ou dificuldade, foi-me dada autorização para vista-lo todos os sábados da parte da tarde e ele gentilmente explicava-me tudo o que eu
não podia entender.» Estas lições desempenharam um papel importante
na maturação das capacidades matemáticas de Euler.
Apesar de Leonhard se distinguir nos seus estudos particulares de matemática, Paul
Mantinha a esperança de que os eu filho entrasse no Ministério. Com dezassete anmos, Eulerb terminou o seu mestardo em filosofia,. Johann temeu a grande perda que seria para a matemática se o seu protegido se virasse para a Igreja, e interveio dizendo a Paul, em termos inequívocos, que Leonhard tinha o potencial de se tornar um grande
matemático. Devido ao seu gosto pela matemática, Paul cedeu. Apesar
de Euler ter abandonado os estudos religiosos, permaneceu um devoto
calvinista ao longo de toda a sua vida.
O primeiro sucesso, conseguido de forma autónoma, de Euler na
matemática ocorreu quando tinha dezanove anos de idade. O seu trabalho
teórico sobre a colocação ideal de mastros num navio garantiu-lhe
uma «menção honrosa» numa prestigiada competição patrocinada pela
Academia das Ciências de França. Esta façanha seria extraordinária para
qualquer matemático, mas era ainda mais especial para um jovem suíço
que nunca tinha visto um navio no oceano. Euler não ganhou o primeiro
prémio desta competição, o que teria sido equivalente a ganhar um Prémio
Nobel nos dias de hoje, mas nos anos seguintes ser-lhe-iam atribuídas
as mais altas honras em doze ocasiões.
Na época do nascimento de Euler, a mil quilómetros a nordeste de
Basileia, o czar russo Pedro, o Grande (1672-1725) estava a construir a
cidade de São Petersburgo. Esta foi fundada em 1703 no pântano onde o
rio Neva corre em direcção ao mar Báltico. Pedro usou trabalho forçado
para construir a cidade, estrategicamente localizada na fortaleza de Pedro
e Paulo numa ilha do Neva. Ele adorava a nova cidade, chamando-a o seu
«paraíso» e deu-lhe o nome do seu santo padroeiro. Apesar do facto de a
Maioria dos russos, especialmente os oficiais do governo, não compartilharem
o mesmo gosto de Pedro por este lugar frio e húmido, ele mudou
a capital russa de Moscovo para São Petersburgo. O jovem Euler não fazia
ideia de que esta cidade seria a sua casa durante grande parte da sua vida.
Pedro, o Grande, uma figura fisicamente imponente com quase dois
metros de altura, foi o líder enérgico, autodidacta e determinado da
Rússia entre 1682 e 1725. Conhecido como um reformador implacável,
ele começou a transformação do seu país de uma nação agrária e feudal,
dominada pela Igreja, num poderoso império. O seu objectivo de modernizar
— isto é, de ocidentalizar — o governo russo, a cultura, a educação,
as forças armadas, e a sociedade em geral foi, em grande parte, concretizado.
Como um historiador russo escreveu: «De repente, saltando por
cima de várias épocas escolásticas, a Renascença e o Reformismo, a Rússia
passou de uma civilização paroquial, eclesiástica e quase medieval, directamente
para a Idade da Razão»
Como parte do processo de ocidentalização, Pedro queria reformar
o sistema de educação da Rússia, inexistente antes do seu reinado, com
excepção do ensino mínimo facultado pela poderosa Igreja Ortodoxa.
Como resultado, a Rússia não tinha cientistas. Por causa da forte presença
Da Igreja, os russos tinham medo de explicações científicas do mundo,
preferindo as tradicionais explicações religiosas. Pedro reconheceu a
necessidade de melhorar a imagem internacional da Rússia, e de dissipar
a ideia de que os russos desprezavam a ciência. Ele também sabia que
um Programa para a Ciência era crucial para a criação e manutenção de
um Estado poderoso.
Pedro visitou a Royal Society de Londres e a Académie des Sciences de
Paris, ambas fundadas em 1660. Ficou impressionado com o que viu. Ele
também admirava a nova Academia de Ciências de Berlim, fundada em
1700, segundo uma proposta de Gottfried Leibniz (1646-1716). Leibniz é o
famoso matemático que, a par de Isaac Newton, é considerado o inventor
do cálculo. Estas academias não eram universidades; elas «dedicavam-se
à busca de novos conhecimentos e não à comunicação do conhecimento
existente». Os membros das academias eram investigadores, não professores;
o seu objectivo principal era o avanço do conhecimento.
Pedro queria fundar uma academia, como as de Paris, Londres e
Berlim, e queria estabelecê-la na sua nova cidade de São Petersburgo.
De modo a aconselhar-se, ele contactou Leibniz. Durante quase duas
décadas, Pedro e Leibniz mantiveram longas conversas, tanto por meio
de cartas como presencialmente, sobre a reforma da educação e sobre a
criação de uma academia de ciências.
Em 1724, Pedro tinha finalizado os seus planos para a criação da Academia de Ciências de São Petersburgo; este foi o projecto final e o mais ambicioso na sua busca
para melhorar o sistema de educação da Rússia. No entanto, ele não podia criar a sua academia de forma exactamente
igual às academias europeias. Como a Rússia não tinha cientistas nativos,
ele teria que persuadir talentosos cientistas estrangeiros a mudarem-se
para São Petersburgo. Do mesmo modo, como a Rússia não tinha sistema
universitário, a Academia de Ciências deveria funcionar também como
uma universidade. Parte do mandato da Academia seria o de treinar
russos nas ciências, para que a Academia não tivesse que contar sempre
com estrangeiros.
Pedro nunca viu os frutos do seu trabalho, pois morreu no início de
1725. Graças à nova imperatriz, a segunda esposa de Pedro, Catarina I
(1684-1727), os planos da Academia continuaram. Estudiosos estrangeiros
começaram a chegar decorridos alguns meses após a morte de Pedro, e
a Academia das Ciências realizou a sua primeira reunião ante do final
do ano. Pedro teve a sorte de Catarina adoptar o projecto da Academia.
Nos anos que se seguiram, a Academia não esteve sempre abençoada por
governantes entusiastas. Durante os 37 anos entre a morte de Pedro e a
coroação de Catarina, a Grande (1729-1796), a Rússia foi conduzida por
seis governantes, e a Academia esteve sempre à mercê destes indivíduos
poderosos e opinativos.
Inicialmente, a Academia contava com dezasseis cientistas: treze alemães,
dois suíços, um francês — e nenhum russo. A grande presença
alemã e a ausência de russos constituiria, mais tarde, um foco de tensão.
Por causa do clima frio, do local remoto, e do isolamento académico,
era necessário proporcionar altos salários e alojamento confortável para
atrair os cientistas para São Petersburgo. A nova academia era pequena,
mas rapidamente cumpriu a sua promessa de se tornar uma importante instituição científica reconhecida internacionalmente. Com o passar do tempo, tornou-se o centro do mundo académico e científico da Rússia.
Esta Academia de Ciências mudou várias vezes de nome, mas ainda hoje
existe e é conhecida como a Academia Russa de Ciências.
Dois dos investigadores estrangeiros que se tornaram as estrelas desta
Nova instituição eram amigos de Euler: os filhos de Johann Bernoulli,
Nicolaus (1695-1726) e Daniel (1700-1782) Bernoulli. Os dois irmãos
tinham conversado com Euler sobre a Academia antes de saírem da Suíça,
e prometeram assegurar-lhe uma posição tão depressa quanto possível.
Após a sua chegada à Rússia, começaram logo a fazer campanha, junto
dos administradores da Academia, no sentido de contratar o seu jovem
e brilhante amigo. Esta campanha teve rapidamente sucesso. Em 1726,
ofereceram a Euler uma posição na Secção de Medicina e Fisiologia.
Infelizmente, Euler não pôde desfrutar plenamente nem comemorar esta
emocionante oferta de trabalho. Esta proposta seria para preencher a vaga
deixada livre pela trágica e inesperada morte de Nicolaus.
Euler ficou muito grato por este emprego, mas não se mudou imediatamente
para a Rússia. Havia duas razões que o levavam a permanecer em Basileia
e deixar o seu novo trabalho em espera. Em primeiro lugar, tinha acabado
de aceitar um emprego em medicina, apesar de possuir um conhecimento
mínimo na área. Assim, decidiu continuar na Universidade de Basileia
enquanto estudava anatomia e fisiologia. Em segundo lugar, preferiu
adiar a decisão por algum tempo e esperar para saber se lhe seria oferecido
um lugar no Departamento de Física na Universidade de Basileia. Na
Primavera de 1727, quando soube que não tinha sido escolhido para esse
cargo, partiu então rumo à Rússia. Assim começou a sua estadia em São
Petersburgo, onde viveria nos 14 anos seguintes e, mais tarde, durante os
seus últimos 17 anos de vida.
A viagem de Euler até São Petersburgo por barco, a pé e carruagem durou sete semanas. No dia em que ele finalmente pisou o chão da Rússia,
a imperatriz Catarina I faleceu, após governar por apenas dois anos.
O destino da nova Academia era incerto. Aqueles que comandavam o
país em nome do czar Pedro II (1715-1730), de 11 anos de idade, neto de
Pedro, o Grande, viam a Academia como um luxo dispensável e consideraram
fechar as suas portas. Felizmente, a instituição manteve-se aberta, e, na confusão que se seguiu, Euler acabou por ficar onde naturalmente pertencia – a Secção de Física-Matemática, e não na Secção de Medicina. Este primeiro ano da carreira matemática de Euler, 1727, foi também o
ano em que o gigante matemático Isaac Newton morreu.
A vida na Academia era difícil no tempo de Pedro II; desta forma,
após a morte do czar aos quinze anos de idade, em 1730, os seus membros
esperavam que a sorte melhorasse. A Academia estaria um pouco
melhor durante o reinado de dez anos de Anna Ivanovna (1693-1740), mas
as condições na Rússia tornaram-se desoladoras. Anna conduziu o seu
governo com uma forte influência alemã, principalmente através do seu
amante Earnst-Johann Biron (1690-1772). Biron era um tirano cruel que
mandou executar vários milhares de russos, e exilar outras dezenas de
milhares para a Sibéria. Os alvos de Biron incluíram criminosos comuns,
os crentes da Igreja Ortodoxa Russa e os adversários políticos de Anna.
Mais tarde, em Berlim, a Rainha -mãe da Prússia perguntou a Euler por
que razão era ele tão taciturno. Ele respondeu: «Cara Senhora, é porque
eu acabo de vir de um país onde quem fala é enforcado.»
Em 1733, já cansado do difícil estilo de vida russo e da política interna
da Academia, Daniel Bernoulli regressou à Suíça e, com os seus 26 anos,
Euler tomou a posição de Daniel como matemático principal.
Nesta altura, Euler pensava que podia ficar na Rússia por um longo período de tempo, talvez para o resto da sua vida. Com a excepção das dificuldades impostas pelo clima político na Rússia, Euler achava a vida
confortável. Ele tinha adquirido um bom domínio da língua russa, e sentia-se financeiramente seguro graças a uma salário mais elevado, que resultou
da sua promoção. Assim, em 1733, decidiu casar-se com Katharina Gsell,
que tinha sido trazida para a
Rússia por Pedro, o Grande. Leonhard e Katharina formaram uma grande
Família, e chegaram a ter treze filhos. Como não era raro naquela época, apenas cinco filhos sobreviveram após a infância, e apenas três viveram
até mais tarde do que os seus pais.
A vida de marido e pai não abrandou o ritmo de publicações de Euler. Tanto agora como noutros períodos da sua vida profissional, ele permanecia um investigador extremamente activo. É difícil exagerar a produtividade
maciça de Euler. Lendas matemáticas dizem que ele conseguia
escrever artigos científicos enquanto andava com um bebé ao colo, e que podia compor um tratado entre as primeiras e segundas chamadas para
o jantar. Ele escreveu sobre tudo e sobre mais alguma coisa. Produziu
obras-primas, notas curtas, correcções, explicações, resultados parciais,
ideias de demonstrações, textos introdutórios e livros técnicos.
Não havia revés capaz de fazer Euler abrandar. Nem mesmo a cegueira foi suficiente para impedir o fluxo da sua produção matemática. Em 1738, adoeceu depois de dedicar três longos dias de trabalho a um problema de Astronomia. Embora a medicina moderna ponha causa a seguinte a afirmação, acreditou-se durante muito tempo que a
doença teria sido causada pela deterioração da sua visão, que culminou
na perda completa da vista do seu olho direito. Euler aceitou a perda
da visão como mais um passo no seu caminho. Na sua maneira de ser,
geralmente modesta, comentou: «Agora vou ter menos distracções.»
Mais tarde, perdeu a visão do seu outro olho, e viveu em escuridão
quase total nos seus últimos 17 anos de vida. Apesar de não poder ver,
continuou a fazer importantes contribuições matemáticas até ao dia da
sua morte.
Parecia que o cérebro de Euler estava afinado para fazer matemática de uma forma
que outros cérebros não estão. Ele era capaz de manipular
várias noções abstractas em simultâneo, e conseguia realizar cálculos
mentais surpreendentes. Numa famosa história, dois alunos de Euler
precisavam de adicionar 17 termos fraccionários, e os resultados obtidos
por eles não coincidiam. Euler imediatamente efectuou a soma de cabeça
e resolveu o diferendo, fornecendo a resposta correcta. Tal como o matemático
François Arago (1786-1853) famosamente escreveu, «Euler calculava
sem esforço aparente, tal como os homens respiram, ou as águias
se sustentam com o vento”. Modestamente, Euler afirmava que a sua
capacidade de manipular símbolos substituía o raciocínio, dizendo que o
seu lápis o superava em inteligência.
Euler era igualmente abençoado com uma memória incrível. Ele
Memorizava inúmeros poemas de do início ao fim; desde criança até à sua morte era capaz de recitar a Eneida de Virgílio, sendo
capaz de recordar a primeira e a última frase de qualquer uma das suas
páginas. Um exemplo mais matemático da sua memória prodigiosa era
a sua capacidade de indicar rapidamente as seis primeiras potências dos
primeiros cem números. Para pôr isto em perspectiva, observe-se que a
sexta potência de 99 é o número 941 480 149 401.
Durante a sua permanência em São Petersburgo, Euler dedicou algum
do seu tempo a projectos para o Estado. Em 1735, foi nomeado director
da Secção de Geografia da Academia, tendo posteriormente feito contribuições importantes para a criação de um mapa, muito necessário, da
Rússia. Escreveu também um livro de dois volumes sobre construção
naval que foi tão apreciado que a Academia decidiu duplicar-lhe o seu
salário nesse ano.
Enquanto Euler gozava de uma produtividade notável, uma vida familiar
feliz, e um salário considerável, as condições na Rússia continuavam
a piorar. A atmosfera na Academia tornou-se muito tensa, até mesmo
hostil. A maioria dos membros seniores da faculdade eram alemães, e
ainda havia uma reduzida presença de russos. Nos primeiros 16 anos
de existência da Academia, apenas um russo foi tornado membro, sendo
membro auxiliar que nunca foi promovido a professor. Os russos estavam
incomodados com o poder dos alemães e algumas opiniões anti-alemãs
foram expressas abertamente. Felizmente, o calmo e reservado Euler foi
capaz de manter-se neutro na política interna da Academia, embora tenha
tornado a sua vida de trabalho bastante tensa.
Com a presença de Biron e do grupo alemão nos governos de Anna,
o medo e aversão aos alemães continuaram a aumentar no seio da população
russa, No final de 1740, pouco antes da sua morte, Anna nomeou
Biron como regente do seu sucessor, Ivan VI (1740-1764) que tinha dois
meses de idade. Após a morte de Anna, a animosidade dos russos para
com os alemães atingiu o clímax — em apenas um mês, Biron foi derrubado,
e um ano mais tarde, Ivan e todo o «grupo alemão» foram retirados
do poder. Isabel I (1709-1762), filha de Pedro, o Grande, tornou-se a nova
imperatriz.
Durante este período, a vida na Rússia tornou-se perigosa, especialmente
para os que não eram Russos. Os académicos estrangeiros eram vistos com desconfianças, como possíveis espiões para o Ocidente. Euler reagiu a estas condições mantendo-se quieto e dedicando todo o seu
tempo ao seu trabalho e à sua família. Em 1741, Euler já não conseguia
tolerar a vida na Rússia por mais tempo, e então decidiu deixar São
Petersburgo e ir para Berlim."
Votação para o Prémio Unicórnio Voador 2014
| Crédito: Cláudia Barrocas |
O que têm em comum Maya, Paulo Futre e a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa?Estão todos entre os nomeados para os prémios das maiores patetices pseudociêntíficas de 2014.
Estão abertas as votações desta iniciativa da Comunidade Céptica Portuguesa (Comcept).
Votar aqui.
FCT efetua cortes que chegam a 48% do financiamento previsto em centros de investigação classificados como Excelentes
Comunicado de imprensa subscrito por oito centros de investigação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa:
Lisboa, 17 Março 2015
Terminou com uma resposta negativa da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) o período de audiência prévia aos centros de investigação que contestaram o financiamento atribuído que exclui a verba de financiamento base. Surpreendentemente, a FCT fez tábua rasa da componente destinada ao funcionamento dos centros, o que, a juntar ao corte efectuado na componente do financiamento estratégico, pode corresponder até 66% do financiamento anual previsto. Os centros têm agora um prazo de 20 dias para assinar os termos propostos pela FCT.
De acordo com o regulamento da FCT para a avaliação e financiamento das unidades de I&D nacionais para o período 2015-2020 (apresentado em Novembro de 2014), o financiamento às unidades de investigação abrange duas parcelas: uma verba destinada a despesas de funcionamento corrente das instituições, incluindo encargos estruturais ou gerais da unidade (“financiamento de base”), e outra para reforço de atividades estratégicas de I&D de reconhecido mérito a realizar pelas unidades nos próximos seis anos (“financiamento estratégico”).
O financiamento base destinar-se-ia apenas aos centros com classificação de Bom ou superior e os montantes desta componente foram fixados previamente pela FCT, estando indexados à dimensão da unidade, a um factor de correção correspondente à sua intensidade laboratorial e à classificação obtida no processo de avaliação. Estes valores variam entre 5.000 €/ano (para centros com a classificação de Bom, de pequena dimensão e baixa intensidade laboratorial) até ao valor máximo de 400.000 €/ano, a atribuir a um centro de investigação Excepcional, de grande dimensão e com elevada atividade laboratorial.
O financiamento estratégico seria apenas atribuído aos centros avaliados com Muito Bom ou superior e, ao contrário do financiamento base, a FCT não forneceu indicações de valores máximos ou outras limitações orçamentais. Deste modo, verificaram-se enormes diferenças nos pedidos de financiamento estratégico em centros com atividade científica e dimensões semelhantes.
No guião para elaboração e submissão de candidaturas para avaliação das unidades, foi solicitado pela FCT que as unidades indicassem claramente as parcelas do financiamento a que se estavam a candidatar, acrescentando que apenas o financiamento relativo à componente estratégica seria sujeito a apreciação pelo painel de avaliadores, como parte integrante dos parâmetros de exequibilidade dos programas estratégicos apresentados.
Já em janeiro de 2015, após conhecidos os resultados da classificação dos centros, a FCT publica alterações às regras do jogo. E, surpreendentemente, deixou de constar qualquer referência à componente de financiamento base que simplesmente desaparece.
É comunicado aos centros que “a base de cálculo do financiamento atribuído às unidades de I&D para o período 2015-2020 foi o financiamento solicitado por cada unidade para cumprir o programa estratégico proposto“ (http://www.fct.pt). São ainda, e apenas, referidos cortes nos orçamentos solicitados para execução dos programas estratégicos, tendo em conta os resultados da avaliação: 15% nos centros Excepcionais; 22-18% nos Excelentes e 64-56% nos que obtiveram Muito Bom.
Sem a componente base e com um financiamento estratégico cortado a eito, o financiamento público das unidades de investigação deixa totalmente de traduzir o resultado da avaliação da sua atividade científica. De facto, são inúmeros os casos em que foram atribuídas verbas mais elevadas por cada investigador a centros com uma classificação mais baixa.
É igualmente incompreensível e injusto alterar os critérios de financiamento no final de um processo de avaliação. Para além das questões de princípio ou de racionalidade, levanta-se também um problema básico: o orçamento do plano estratégico das unidades de investigação foi elaborado sem contabilizar as despesas de funcionamento corrente das instituições.
A manter-se esta situação inesperada, as consequências para o futuro próximo das unidades de investigação são extremamente graves. Nos novos moldes agora definidos pela FCT, os centros terão que optar entre utilizar o financiamento que vão receber para assegurar o seu funcionamento, ou canalizá-lo para o plano estratégico com o qual se comprometeram. Esta situação é tanto mais grave quanto a FCT também já anunciou que “as unidades serão predominantemente avaliadas pelo cumprimento dos objetivos indicados no programa estratégico”.
As unidades de investigação subscritoras desde comunicado pertencem à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e obtiveram classificações de Excepcional (CIUHCT), Excelente (cE3c, BioISI) e Muito Bom (CMAF-CIO, CFTC, CQB, IBEB e CFCUL). Em todos os casos a FCT fez tábua rasa ao montante do funcionamento base, o que, a juntar aos cortes efectuados na componente do financiamento estratégico, podem corresponder a 66% do total de financiamento anual previsto.
Naturalmente que esta situação inesperada abrange todas as unidades de investigação dos mais diversos domínios científicos, e sediadas noutras faculdades e/ou universidades. Após um longo e controverso processo de avaliação, em que algumas unidades continuam à espera de uma resposta em relação à contestação da classificação atribuída, os centros confrontam-se com mais uma adversidade: tendo sido recusados em audiência prévia os pedidos de reposição de orçamento, têm agora um prazo de 20 dias úteis para assinar os termos propostos pela FCT.
É urgente a imediata correção desta situação, que limita a boa execução dos programas estratégicos propostos, considerados de elevado mérito internacional pelo painel de avaliação, que coloca em risco o sucesso das referidas unidades na próxima avaliação e compromete a produtividade científica nacional a curto e médio prazo.
Centros subscritores:
CIUHCT – Interuniversity Center for the History of Science and Technology (Excepcional; 26% corte)
BioISI – Biosystems & Integrative Sciences Institute (Excelente; 43% corte)
cE3c – Centre for Ecology, Evolution and Environmental Change (Excelente; 48% corte)
CMAF-CIO – Center for Mathematics, Fundamental Applications and Operations Research (Muito Bom; 58% corte)
CFTC – Center for Theoretical and Computational Physics (Muito Bom; 62% corte)
CQB – Center of Chemistry and Biochemistry (Muito Bom; 66% corte)
IBEB – Institute of Biophysics & Biomedical Engineering (Muito Bom, 51% de corte)
CFCUL – Centre for Philosophy of Science of the University of Lisbon (Muito Bom, 48% de corte)
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