segunda-feira, 23 de março de 2015

Diferença entre Astronomia e Astrologia

No final do ano de 2011 previ, numa crónica sobre astrologia no Público, que a 20 de Março de 2015 ia ocorrer um eclipse solar. Acertei obviamente. Quanto às previsões da astróloga de serviço à RTP.... ler aqui:

http://dererummundi.blogspot.pt/2011/12/previsoes-para-2012-e-2015.html

Água ultra-pura

Sobre o tema da homeopatia texto recebido de Carlos Corrêa, professor de Química da Universidade do Porto:

A água utilizada na preparação dos medicamentos de alta diluição é agua ultra-pura.

A água ultra-pura do Tipo I, a mais pura disponível no mercado, por exemplo da Millipor, tem uma condutividade de 0,054-0,056 mS/cm tendo carbono orgânico total inferior a 50 mg/L, sódio inferior a 1 mg/L, cloretos inferiores mg/L e sílica inferior a 3 mg/L. Vamos supor que se usava uma água mil vezes mais pura (impraticável).

Se usarmos uma solução inicial de 1 mg de substância ativa por litro, se diluirmos 10 vezes, repetindo a operação 100 vezes (e não 200 como por vezes se refere), qual é a massa de produto ativo final:

1 mg/L -> 1/10 x 1/10 x 1/10 x ….x 1/10 (cem vezes!) = 10-100 mg/L  (10 elevado a menos 100 !)

A quantidade de carbono orgânico na água purríssima é

0,001 x 50 mg/L = 50 x 10-9 mg/L, que é 5 x 1091 vezes maior do que a massa de substância ativa!

O mesmo se passa com o sódio, cloretos e outros vestígios.

Em conclusão: uma água mil vezes mais pura do que a água ultrapura disponível no mercado contém mais sódio, cloretos, sílica, carbono orgânico e outras substâncias em quantidade astronomicamente mais alta (1091 vezes…) do que o princípio ativo!


Ainda há gente que acredita nestes medicamentos homeopáticos?

Carlos Corrêa

Carl Djerassi comissiona peça a companhia de teatro de Coimbra

Informação recebida da companhia de teatro marionet de Coimbra:

O cientista e escritor Carl Djerassi, recentemente falecido, comissionou à marionet a produção em Portugal da sua peça “EGO”, que será estreada no dia 8 de Abril, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra.

Djerassi tornou-se uma personalidade influente no mundo da ciência pelo papel fundamental que teve na invenção da pílula anti-concepcional feminina nos anos 60 do século XX, tendo-se dedicado nos últimos anos à escrita de ficção e peças teatrais.

Uma dessas peças, Cálculo, que retrata a disputa entre Isaac Newton e Gottfried Leibniz, sobre quem primeiro inventara o cálculo (equações diferenciais e integrais), foi também já levada à cena pela marionet, em 2011, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. O livro “Cálculo”, de Carl Djerassi, foi simultaneamente lançado em Portugal, numa edição da Imprensa da Universidade de Coimbra, podendo contar com uma sessão de autógrafos com o autor.

O texto de “Ego”, a primeira peça de Djerassi considerada “não-científica”, teve como base a obra “Marx Deceased”, do próprio Djerassi, e foi traduzido para língua portuguesa por Mário Montenegro, o director da companhia marionet. A peça trata a forma como um escritor, Stephen Marx, fingiu a sua própria morte de modo a poder observar a reacção e crítica de leitores e críticos, e teve como inspiração, assumida por Carl Djerassi, Fernando Pessoa e os seus heterónimos.

CONSELHO NACIONAL DE DESEDUCAÇÃO


Artigo de opinião de Guilherme Valente saído há uma semana no Expresso:

Entre as várias coisas boas que este Ministro da Educação foi capaz de fazer, a melhor foram os exames. E a prova, como se previa, viu-se logo: passados um ou dois anos sobre a medida, as médias subiram em todas as escolas. Em todas, mas mais… nas públicas! Nas "más", e isso é que é importante, para dar oportunidade e esperança a todas as crianças, criando as condições para diminuir o fosso da desigualdade social. (E subiram menos nas privadas por nelas haver já mecanismos de exigência de trabalho e de ser outro, regra geral, o empenho dos pais.)

Saudada com júbilo pelos que realmente se preocupam com a qualidade do ensino e o destino dos alunos, essa subida nos resultados enervou e abalou, como se viu, os defensores do facilismo, da ideologia que serviu magnificamente aqueles que quiseram e querem inviabilizar a educação em Portugal.

E a reacção não tardou. O CNE, agora com a cobertura útil do presidente que passou a ter - as escolhas e delegações deste Ministro são, regra geral, um desastre - vem agora propor, criminosamente, o fim das reprovações, isto é, o fim dos exames a sério. Para isso invocou três "razões", todas agoniantes:

Uma, a de que as reprovações não resolvem o problema dos alunos que reprovam - e a transição sem se saber resolve? E foi por isso mesmo que desde sempre defendemos... a necessidade de apoio reforçado aos alunos reprovados. Solução que vêm apresentar agora como se fosse uma descoberta sua.

Outra razão, a de que reprovação suscita nas crianças perturbações emocionais, é hilariante, na linha de concepções e de práticas idiotas que têm conduzido à infantilização dos alunos, gerando jovens e adultos sem autonomia, personalidades frágeis incapazes de enfrentar as mínimas contrariedades que a vida a toda a gente inevitavelmente coloca.

E, última razão evocada, a de que as reprovações custam caro ao Estado. Razão hipócrita esta, por ser apresentada pelos que sempre tão assanhadamente atacaram o Ministro por "sacrificar a qualidade do ensino à poupança de dinheiro". Poupar-se-ia 900 milhões, dizem-me que terá dito o meu Amigo Eduardo Marçal Grilo – então porque não poupam tudo? Fechem-se as escolas, acabe-se com a Educação!

A proposta do CNE junta cegueira ideológica e ressentimento a uma aparente...burrice. E porquê? Por que os exames, a reprovação (a que chamam beatamente retenção), não se destinam apenas, nem sobretudo, a proporcionar aos alunos sem qualificações para transitar de ano a possibilidade de recuperarem. O objectivo e benefício dos exames a sério são sistémicos.

Isto é, promover o estudo pelos alunos todos, a qualidade do ensino (e o estudo...) pelos professores, a preocupação dos pais relativamente ao trabalho escolar dos filhos, e também o empenho e competência do aparelho do Ministério. O objectivo dos exames é, em suma, pôr toda a gente a trabalhar, a estudar, a ensinar e a educar realmente, informando e responsabilizando todos, professores, directores, escolas, ministério e pais.

Percebe-se, assim, porque precisamos em Portugal de um regime de exames bem diferente daquele de que necessitam sociedades como a finlandesa ou a japonesa, por exemplo.

Acabar com os exames, como agora vem defender o CNE determinará, rápida e inelutavelmente, que se passe a estudar menos e a ensinar pior. Voltará a descer, portanto, o nível de formação dos alunos, a crescer o abandono escolar e a indisciplina, a irresponsabilidade de estudantes e professores (e a frustração dos melhores deles), a indiferença dos pais. E os mais prejudicados seriam, serão…, como sempre foram, os mais desfavorecidos, assim se contribuindo para agravar ainda mais as desigualdades sociais. E entrariam ainda menos alunos no ensino superior, a não ser que também nesse grau de ensino viesse a verificar-se uma descida ainda mais escandalosa de exigência. Facto, infelizmente, bem provável, aliás, pois não começaram já alguns Politécnicos a decidir o fim de alguns exames – com excepção do exemplo que se esperava dos de Lisboa, Porto e Coimbra? Tudo para agravar a miséria da realidade política, cultural, económica, financeira, o pântano em que o País tem vivido.

Guilherme Valente

«Expresso» de 14 Março de 2015

Plantas, mitos, fabulações e realidade

Informação recebida do Rómulo:

Na 3ª feira, 24 de Março de 2015, pelas 18h, realiza-se no RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, localizado no piso térreo do Departamento de Física da FCTUC, a palestra intitulada “Plantas, mitos, fabulações e realidade”, com o Professor Jorge Paiva. Esta palestra insere-se no ciclo “À Luz da Ciência”, dinamizado pelo Bioquímico António Piedade, que decorre de Fevereiro a Junho de 2015.
cartaz

SOBRE A PALESTRA:
"Quando se formou a nossa espécie, praticamente, a totalidade das outras espécies animais que hoje existem já habitavam o Globo Terrestre. Por isso, a espécie humana (Homo sapiens L.) aprendeu muito com a Natureza e com os outros animais. Assim, copiamos os outros animais na alimentação e, também, no uso de muitas das plantas medicinais que ainda hoje utilizamos. É disso exemplo uma planta que em S. Tomé é designada por “aliba-cassô”, que quer dizer planta do cão, pois é uma erva [Eleusine indica (L.) Gaertn.] que os cães “mastigam” quando têm desarranjos intestinais e, então, os santomenses, quando têm disenterias tratam-se com infusões dessa planta. Claro que também aprendemos com os outros animais a utilização das plantas tóxicas, como, por exemplo, a noz-vómica (Strychnos nux-vomica L.), cujas sementes contêm estricnina, sendo, por isso, que os símios não comem o fruto desta espécie de Srychnos, mas sim os frutos das espécies de Strychnos que não têm estricnina. É um “fenómeno” idêntico ao que acontece com os cogumelos.

Portanto, a nossa espécie utiliza plantas praticamente desde que apareceu na Terra. Aliás, os mais primitivos antepassados humanos eram herbívoros, depois colectores e caçadores e, após a domesticação de animais e plantas, agricultores e pastores.

Além das plantas comestíveis que sempre utilizámos, conhecem-se documentos sobre plantas medicinais há mais de cinco mil anos, como são os documentados sistemas médicos chineses e o “ayurvédico” indiano. Antes da fabricação dos medicamentos pela indústria farmacêutica, que não tem mais do que século e meio, as enfermidades eram tratadas directamente com “mesinhas” das plantas ou dos animais. Foi, por isso, que a 5 de Outubro de 1773 o Marquês de Pombal escreveu ao então Reitor da Universidade de Coimbra, rejeitando o grandioso plano para o Jardim Botânico de Coimbra, que este lhe enviara, dizendo: “Debaixo d’estas regulares medidas deve, V. Ex.ª fazer delinear outro plano, reduzido somente ao numero de hervas medicinais que são indispensáveis para os exercícios botânicos, e necessarias para se darem aos estudantes as instruções precisas para que não ignorem esta parte da medicina.....”

O tratado “De materia medica” (64 d.C.) de Pediamos Dioscórides (40-90 d.C), célebre físico (cirurgião) grego, considerada uma das obras mais antiga sobre plantas, onde se descrevem os atributos (cerca de 1000) de cerca de 600 espécies de plantas, foi o “guia” da “medicina” durante mais de 16 séculos, o que implicou um reduzidíssimo progresso da fitoterapia, pois além de traduções (algumas com erros graves que se repetiram durante séculos) para várias línguas, muitas publicações (mesmo actuais) sobre plantas medicinais limitaram-se a “parafrasear” a obra de Dioscórides. Aliás, a maioria dos nomes utilizados por Dioscórides tinham sido utilizados por Hipócrates de Cos (ca. 460-370 a.C.) no seu catálogo “De herbis” com mais de 230 nomes de plantas, mais tarde descritas por Crataevas (120-60 a.C.) em “Rhizotomicon”, assim como Theophrasto de Eresos (370-285 a.C.) no livro XVI da sua “Historia plantarum”.

Camões também conhecia não só as obras gregas, particularmente o tratado “De materia medica”, como também os “Coloquios dos simples, e drogas he cousas mediçinais da Índia…” (1563) de Garcia de Orta, por quem acalentava uma afectuosa amizade e admiração, resultante das relações pessoais que mantiveram na Índia, onde o poeta escreveu praticamente todo o seu poema épico, Os Lusíadas. Por isso, é n’Os Lusíadas que o poeta mais plantas menciona (cerca de cinco dezenas), na maioria asiáticas e aromáticas. Na lírica refere muito menos espécies de plantas (cerca de três dezenas), maioritariamente, europeias e ornamentais, pois a lírica foi, praticamente, escrita em Portugal e centrada no amor e paixão.
As plantas, pela sua relevância para a nossa espécie, também são referidas nas obras sagradas das religiões, com, por exemplo, no Corão e na Bíblia. Muitas dessas plantas referidas por poetas e nos textos sagrados, são difíceis de identificar com exactidão, assim, das cerca de 160 plantas citadas na Bíblia, apenas estão seguramente bem identificadas cerca de 100.

Portanto, os atributos medicinais e comestíveis das plantas são conhecidos, estão documentados e registados por escrito há muitos séculos. No Continente Americano, os índios sempre utilizaram plantas medicinais e muito desse conhecimento está bem documentado. Porém, sobre a prática medicinal popular africana (particularmente da África Tropical) há não só exígua documentação e registos escritos, como também muitíssimo menos estudos e análises científicas.

Por causa de muitos destes produtos poderem provocar intoxicações ou até alucinações, é que existe aquilo a que os ingleses designam por “folk medicine” (medicina folclórica), na qual o (a) curandeiro (a) as utiliza a seu belo prazer, provocando alucinações ou intoxicações que, depois, alterando o conteúdo da planta seca (sem que o enfermo dê por isso) e elaborando exorcismo ou rezas, faz “desaparecer” o mal (intoxicação ou alucinação propositadamente provocada). Assim muitos “curandeiros” sem escrúpulos podem causar, impunemente, em vez de curas, piores males ou, até, mortes.

Um exemplo de planta muito utilizada nestas práticas (pó das sementes que têm elevado teor de produtos atropínicos), particularmente para acabar com namoros “inconvenientes”, é a Datura stramonium L. (figueira-do-inferno, erva-do-diabo, erva-das-bruxas, erva-dos-mágicos, castanheiro-do-diabo), responsável, por vezes, pela morte de gado cavalar, quando a planta está, inadvertidamente, incluída no seio dos fardos de palha.

Em muitos países, onde não há medicina forense ou é de fraca eficiência, muito curandeiro (a) provoca propositadamente, a morte do “paciente”, frequentemente com o conluio de familiares ou inimigos da vítima. Um exemplo dessas plantas são algumas das espécies do género Erythrophleum, com elevado teor de um alcalóide (eritrofleína) altamente tóxico, utilizadas para esse feito em África.

Além de tudo isso, devido à enorme relevância das plantas na vida humana, existem muitos mitos, como, por exemplo, a figueira-sagrada (Ficus religiosa), à sombra da qual o Príncipe Sidarta Gautama (Buda) meditou durante 7 anos e fabulações como, por exemplo, a maçã que Eva deu a Adão e plantas carnívoras que devoram símios e humanos." 

Jorge Paiva

sábado, 21 de março de 2015

Ao tempo que não servimos carapauzinhos de escabeche


Joel Costa, que se apresenta como "personagem sem a mínima formação universitária", teve vários programas na Antena 2 da Rádio que deixaram marca (o meu preferido, a que o leitor pode ter acesso aqui, foi Questões de moral). Também escreve teatro e romance num registo singular, clarividente e mordaz.

O mais recente livro - Ao tempo que não servimos carapauzinhos de escabeche - está nas livrarias e será apresentado no próximo dia 27 de Março, em Lisboa.

Uma passagem:

"Já me tinha dito que quem viria a ter parte essencial no magno evento, na reviravolta da ordem natural da vida que tínhamos conhecido até aí, eram os altos traficantes de droga à escala mundial, e mais esses, bem vistas as coisas, do que os banqueiros, e assim até ao dia em que ambas as actividades se confundissem – dia esse que podia ser aquele preciso dia em vias de nascer.
Os altos traficantes de droga estavam a mudar a fisionomia do mundo, da vida, da convivência. A droga estava a chegar ao consumidor com um grau de pureza nunca visto. Só por falar da heroína, já se vendia com um grau de pureza na ordem dos 60%. Era o progresso.
- Então, ouve lá, o progresso é o mais alto nível de alucinação que se possa arranjar? – perguntei.
- Claro que é! A chave dos segredos da vida, a pedra filosofal dos sistemas... A próxima revolução mundial não precisava de tiros. Seria toda feita com dinheiro e drogas, o que iria dar no mesmo e aumentaria exponencialmente o nível de alucinação. Porque o tempo já não produzia revolucionários daqueles do passado, muito teóricos, muito inteligentes. Hoje, no mercado da revolução, já só se encontravam boçais terroristas religiosos.

Tradução de De Rerum Natura de Lucrécio

http://relogiodaguaeditores.blogspot.pt/2015/02/nas-livrarias-da-natureza-das-coisas-de.html

Ciência e poesia

Há poesia na ciência e há ciência na poesia.

A propósito do dia internacional da poesia que se celebra hoje, dia 21 de Março, partilho quatro poemas em que a ciência está presente.

Do químico conimbricense João Paiva, professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, o poema “Densidade” publicado no seu livro “quase poesia quase química” (2012):

Quando me
centro em mim,
cresce a minha densidade.
Mais massa
no mesmo volume
das minhas possibilidades.
Cheio,
deixo de flutuar.

Da poetisa e professora de físico-química aposentada, Regina Gouveia, o poema “Silêncio Cósmico”:

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,
ao Cosmos de onde vim.
no espaço interestelar, vazio, negro, frio,
havia de soltar um grito bem profundo
e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Do escritor açoriano Vitorino Nemésio, do livro “Limite de Idade” (1972), o poema “Deutério moderador”:

Deutério moderador
(Para alguns água pesada)
De teus dedos me dirija
A reacção encadeada.
Que eu só acelero por Amor
Por morrer com Energia.
Não chores mais, flor do isótopo,
Que tudo isto é poesia
E tempestade num copo
De H2O+ bem comum:
Sem número de massas nem Z antes,
Que seu destino é nenhum.

E termino com o incontornável António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, com o seu poema “Máquina do Mundo”, do seu livro “Máquina de Fogo” (1961):

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto é matéria.
Daí, que este arrepio, este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,

deve ser um intervalo.

Há Viagens e Viagens

Por Eugénio Lisboa


Heureux qui, comme Ulysse,
a fait un beau voyage.
Du Bellay

Quase ninguém é indiferente ao apelo à viagem. E quase toda a gente inveja Ulisses, que, se não fez, exactamente, uma boa viagem, como canta Du Bellay, perpetrou, pelo menos, uma longuíssima e acidentada odisseia de retorno.

Há gostos para tudo. Du Bellay invejava Ulisses. Gide torcia o nariz à odisseia do grego, porque, no fim da viagem, esperava-o Penépole, que, para sempre, o iria amarrar ao lar. Exaltava, em contrapartida, Sindbad, o das Mil e Uma Noites, por ser livre como um passarinho: no fim da viagem, esperava-o, não uma amarra, mas uma nova viagem. Para Gide, também, uma viagem era apenas o prefácio à viagem seguinte, em contraste com a de Ulisses, que não passou de uma obrigatória navegação de regresso. Gide tinha igualmente um lar à espera, em Cuverville, mas fazia de conta que não dava por isso, e traiu, tanto quanto pôde – e sem complacências – a sua fiel Penélope que, para o caso, se chamava Madeleine. O que ele queria, está-se a ver, era copiar, com “gusto” e mesmo frenesi, o fluir libérrimo do marinheiro Sindbad.

Viajar tem boa e tem má imprensa. Há quem elogie, há quem diga mal e há quem, simplesmente, se aborreça. O actor e escritor Al Boliska propôs uma definição célebre que hoje anda citada por todo o lado: “Viajar de avião”, disse ele, “são horas de tédio interrompidas por puro terror.” Ainda assim, Boliska só critica o viajar de avião, não todo o viajar. Mas há quem demita qualquer espécie de viagem. O conhecido romancista Paul Theroux, com obra assinalável transposta para o cinema, observava que “viajar só é glamoroso em retrospecto”, isto é, só funciona depois de terminada a viagem, ao contá-la, ao serão, aos amigos. William Trevor dizia o mesmo, de outra maneira: “Ele só viajava para poder voltar para casa”, isto é, o melhor da viagem era o regresso. Nem Ulisses foi tão longe: suspeito que gostou mais da ida do que da volta…

De entre os demolidores do mito da viagem, citarei o talvez mais antigo (será?): Sócrates, que disse, imaginem, esta barbaridade: “Vê um promontório, uma montanha, um mar, um rio e viste tudo.” Como se não houvesse rios e rios, promontórios e promontórios, cidades e cidades! Quem pode ser de opinião que o Amazonas é o mesmo que qualquer pífio afluente de um rio de trazer por casa… Quem pode afirmar que ver Leiria é o mesmo que ver Paris ou Veneza! Ou como se Florença fosse o mesmo que Alguidares de Baixo! Ou como se o Iguaçu não diferisse grande coisa das pindéricas “cascatas” da Namaacha, da minha saudosa infância africana!

Claro que é preciso saber viajar, saber ver e, sobretudo, gostar de ver. Viajar por viajar é inútil e fica caro. Como dizia o outro, não vale a pena dar a volta ao mundo só para contar o número de gatos que há em Zanzibar.Viajar pode ser também uma fonte involuntária de conflito conjugal: viajar para onde? Os gostos diferem e está aí uma causa de briga. Isto mesmo observava Paul Sweeney, quando, saborosamente, notou: “Um dos maiores destruidores de felicidade conjugal é a escolha de um lugar para passar férias. Do que este país precisa é de um oceano na montanha.”

Mas não viemos aqui falar, hoje, dos que não sabem nem gostam de viajar. Viemos antes falar de alguém – Guilherme d’Oliveira Martins – que, à frente do Centro Nacional de Cultura, e a partir deste, rodeado de outros empenhados viajantes, amigos de conhecer, se meteu às sete partidas do mundo: “Na Senda de Fernão Mendes”, tal é o título do livro que recentemente deu à luz.

Porquê viajar? Qual, mais precisamente, o “porquê” de Oliveira Martins? Ele responde com meridiana clareza, logo no prefácio, a que deu o aliciante e revelador título de “Portugal me traz peregrinando”. Nestes termos: “…ao lermos Fernão Mendes Pinto ou Diogo do Couto facilmente entendemos como a viagem é matéria-prima de vida e de literatura, de existência e pensamento. A viagem torna-se, assim, consequência e continuidade da confluência de diversos povos e influências, num extraordinário cadinho de diferenças. A hospitalidade tem consequência no desejo de encontro do diferente, de outros lugares e de outras gentes. O fascínio da viagem ganha, assim, força e sentido.”

Não se trata, pois, de um exercício de mero mimetismo – viajar porque toda a gente viaja – mas de um profundo empenho vital (“matéria-prima de vida”), de obediência a um irresistível “fascínio”. É isso que dá vitalidade a este relato de um bom punhado de viagens ao encontro do mundo que o português criou ou, mais simplesmente, às vezes, o mundo por onde o português andou. E dá-lhe um suplemento não desprezível de vitalidade a imensa cultura do relator, que dela se serve com agilidade e “timing” surpreendentes. Há sempre um livro, um texto, uma passagem colhidos em autores que Oliveira Martins frequentou com mão diurna e nocturna e que iluminam um momento da viagem, um momento histórico, uma avenida esplendorosa…

O livro dá-nos uma larga fatia de mundo (mas não dá, hélas!, Moçambique): a Índia, o espectacular Iguaçu, Cracóvia, S. Petresburgo, Omã,  Japão, Malaca, Brasil, China, Cabo Verde, S.Tomé, Galiza, México, Mediterrâneo Oriental, Istambul, Trieste, a Eslovénia… Um mundo realmente vivido, mais do que apenas visitado, comentado com cultura sanguínea e não com seca erudição. Os portugueses – os grandes e os menos grandes – andaram por aqui e deles todos nos dá o relator vívida e afável conta.

Viajar – o convite à viagem! Há quem proteste em termos paradoxais: “É pena”, dizia Chesterton, “as pessoas viajarem por países estrangeiros; estreita-lhes de tal maneira o espírito.” Sterne, no seu imenso Tristram Shandy, não vai tão longe, mas faz uma recomendação: “Um homem deve também conhecer alguma coisa do seu próprio país, antes de ir para o estrangeiro.” Oliveira Martins documenta, substancialmente, esse conhecimento e essa preocupação: na Parte II (“De Portugal Abrange-se o Mundo”) dá-nos uma boa amostra de Portugal, à boleia de Garrett, de Antero, de França,de Ruben A., de Pomar, de Teixeira-Gomes…

Por outras palavras, Portugal não fica esquecido no tinteiro, antes, é saborosamente revisitado, com cicerones de excepção. “De norte para sul,” diz Oliveira Martins, abonando-se nesse almocreve cintilante, que é Miguel Torga, “começa por se fixar no Reino Maravilhoso - «do meu Marão nativo abrange-se Portugal; e de Portugal abrange-se o mundo.» E sentimos que sempre houve e haverá reinos maravilhosos e sofremos o calafrio do assombro. Portugal é para Miguel torga um totem, uma referência altiva e permanente. Foi daqui que partiu o escritor para ver o mundo.” Bom discípulo, Oliveira Martins fez o mesmo, com bons companheiros, de olhos bem abertos e sempre havendo Portugal e os portugueses como referência. “Viajar é quase como falar com homens de outros séculos”, dizia Descartes. Nesta sua incansável peregrinação, Oliveira Martins não tem feito outra coisa.

(Texto publicado anteriormente no "Jornal de Letras"). 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Conselho Científico da FCT arrasa a Estratégia de Investigação e Inovação do actual governo

Recebi este Parecer do CCCSH - Conselho Científico para as Ciências Sociais e Humanas da FCT sobre o documento “Estratégia de Investigação e Inovação para Uma Especialização Inteligente” (Fevereiro de 2015).  O título fala em especialização inteligente, mas ficamos a saber que de inteligente o documento só tem a palavra no título. Para aquele Conselho será antes um "atentado" à inteligência:

 Preâmbulo

 O Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades exprime, através do presente documento, o seu parecer sobre A “Estratégia de Investigação e Inovação para Uma Especialização Inteligente”. Consultado sobre uma versão preliminar em julho de 2014, constatou-se que as Recomendações deste órgão não foram tidas em conta e em nada contribuíram para a versão final.

 Este é um documento estratégico, que define a agenda de investigação e inovação para os próximos anos e do qual as Ciências Sociais e as Humanidades são apagadas ou tornadas áreas subsidiárias de outros temas ou domínios de atuação. Este facto merece a nossa maior perplexidade e preocupação, levando-­‐ nos a emitir um parecer negativo a este documento. 

As consequências desta estratégia não são evidentes e é fundamental que seja transparente qual o seu impacto na futura alocação de verbas para a investigação. Isto é, que percentagem da dotação orçamental será colocada em projetos alinhados com o documento e qual a percentagem remanescente.

 Porque a eliminação das Ciências Sociais e das Humanidades de um documento com esta importância nos parece francamente empobrecedora para o país, consideramos importante a divulgação do presente parecer pela comunidade científica, para que possa haver uma reflexão conjunta e ponderada sobre a estratégia agora aprovada e para que se abra a possibilidade de reabertura deste documento, para uma inclusão de temas e questões pertinentes com o contributo destes domínios.

 Os nossos comentários dividem-­‐se nos seguintes tópicos: i) metodologia; ii) listagem de temas e eixos temáticos; iii) estrutura de governança; iv) implementação. 

(i) Metodologia 

O documento é muito explícito quanto à metodologia de elaboração e revela a existência de uma estratégia clara para a articulação entre setores que, tradicionalmente, não colaboravam na preparação e conceção do pensamento sobre investigação e inovação. 

É bastante evidente a articulação entre o Diagnóstico do SNCT e a preparação desta estratégia.

 É importante lembrar que a história da política industrial em vários países (enquanto incentivo a certos setores) não é muito estimulante, uma vez que é difícil saber-­‐se o que vai ter sucesso, não sendo provável que sejam os estados ou comissões criadas a descobrir as receitas de êxito. Mesmo centrado no desenvolvimento económico, um problema óbvio e estrutural que é apontado por qualquer observador da economia nacional é o nível de formação dos recursos humanos do país. Sem níveis mais elevados de capital humano, dificilmente qualquer estratégia de especialização inteligente funcionará numa economia moderna, porque o conhecimento está na base do sucesso, do mesmo modo que o acesso ao conhecimento é um direito de cidadania. O nível de educação médio do trabalhador português é muito baixo. As gerações mais jovens são bastante mais educadas, mas ainda assim o nível médio é baixo quando comparado com gerações equivalentes em outros países desenvolvidos. Além disso, vai passar muito tempo até que se renove o nível educativo da população ativa. Parece, portanto, essencial que a metodologia de elaboração desta estratégia coloque a qualidade de educação, a sustentabilidade do sistema de ensino e a qualificação como eixos prioritários ou preocupações estruturantes para a elaboração da estratégia. ´

Há alguns aspetos merecedores de preocupação sobre a metodologia desenvolvida: 

-­‐ É competência dos Conselhos Científicos o apoio à elaboração de políticas de ciência por parte da FCT. No âmbito desta competência, teria sido desejável que os Conselhos Científicos tivessem sido convidados a participar mais ativamente na elaboração deste documento, quer na fase de diagnóstico, quer na fase de identificação de temas e eixos prioritários. -­‐ Refere-­‐se, no documento, que o SCTN teve um crescimento muito significativo na última década, o que se torna visível nos indicadores de produtividade. Há uma correlação negativa que quer este documento quer o Diagnóstico ao SCTN estabelecem entre o investimento em Ciência e a baixa taxa de transferência de conhecimento para o setor empresarial que parece ser feita de forma algo elementar. Há dados cruciais para se entender este fenómeno – a que voltaremos – que não podem ser ignorados. 

-­‐ O crescimento do investimento em Ciência deve ser continuado. O sistema só amadurecerá e poderá dar frutos mais visíveis se houver previsibilidade e estabilidade no financiamento. O desenvolvimento do conhecimento científico não pode estar sujeito a modismos e a ciclos irregulares e instáveis de financiamento. Neste sentido, em termos metodológicos, o investimento em Ciência e a estabilidade do emprego científico devem ser perspetivados como eixos prioritários para qualquer tipo de especialização.

 -­‐ Refere-­‐se, no documento, que as áreas de maior competitividade científica foram aferidas também com base em publicações. Como é reconhecido por todos os stakeholders, a bibliometria de base comercial não é uma fonte credível de informação para garantir a visibilidade da produção científica em Ciências Sociais e Humanidades. Há, portanto, um enviesamento de raiz sobre o potencial das disciplinas destas áreas na sua participação na estratégia a definir.

-­‐ A palavra “excelência” é abundante no texto, mas a excelência não é nunca definida. Uma vez que o conceito é utilizado como critério, deve ser definido e, sobretudo, deve ser clarificado que a investigação de excelência carece de outra investigação que a promova e sustente e justifique, em termos relativos, o seu caráter de excelência. A nosso ver, uma estratégia inteligente deve não só capitalizar a investigação de excelência, mas identificar os potenciais de acesso à excelência a partir de uma cuidada e ponderada análise de progressão da produtividade e impacto. 

(ii) Temas e eixos temáticos 

Os 15 temas prioritários, agrupados em eixos temáticos, correspondem a tópicos porventura relevantes para a visão de Portugal em 2020, conforme enunciado no documento. Mas são, contudo, manifestamente insuficientes. 

Entende-­‐se a definição temática, e embora se sugira que todos os domínios científicos podem contribuir para estes eixos e temas de forma diferenciada, é muito claro que há domínios subsidiários ou que terão de recorrer a uma justificação fabricada para justificar a sua relevância para os temas escolhidos. 

A seleção de temas e eixos merece-­‐nos o seguinte conjunto de comentários: ´

-­‐ Estamos perante um conjunto de temas claramente orientados para a criação de valor económico, que surge, assim, como razão última da produção de conhecimento. Há alguma confusão entre temas e propósitos na forma como são apresentados. Deve ser tornado mais claro, no documento, se estão a ser listadas áreas temáticas de inovação e investigação ou setores de atuação que podem beneficiar de investigação e inovação. Esta diferença conceptual não é trivial, mas é fundamental para uma implementação das estratégias a desenvolver. 

-­‐ Por muito que não se queira, torna-­‐se evidente que há um enorme apagamento da investigação fundamental. Na melhor das hipóteses, pretende-­se que a investigação fundamental seja subsidiária ou enquadrada num conjunto mais vasto que tem como fim último a investigação aplicada e a articulação com o mundo empresarial. Deve ser tornado claro, idealmente até recorrendo-­se à exemplificação, o papel da investigação fundamental nesta estratégia. Se tal não for feito, corre-­se o risco de se estar a definir uma estratégia que tem efeitos a médio prazo na economia, mas que é estranguladora da criatividade científica e dos fundamentos epistemológicos do processo de criação de conhecimento – a experimentação e a falsificação de hipóteses.

 -­‐ A definição de uma agenda temática para a investigação deve envolver a comunidade científica. A definição de temas bottom-­up não pode ser descurada e, se existiu, tal não é visível no documento. A velocidade a que se produz conhecimento científico atualmente faz com que as agendas de investigação possam ser alteradas em períodos de três anos. Neste sentido, é fundamental que a definição de eixos e temas não possa ser considerada fechada, mas que haja espaço para que as comunidades científicas possam participar dinamicamente e de facto na definição de agendas de investigação. 

-­‐ Há temas cruciais que nos parecem não estar contemplados no documento. Parece-­‐nos que a listagem de temas pode ser fortemente enriquecida se forem incluídas as áreas de investigação a seguir referidas, que, não sendo exaustivas, são capazes de contribuir para uma melhor compreensão de Portugal em contexto europeu, da sua identidade e dos seus valores, numa lógica de diferenciação e especialização do conhecimento desenvolvido no espaço europeu: ´

Compreensão das cidades e do seu património – privilegiando-­se estudos de caracterização de cidades, de património histórico material e imaterial nas cidades em transformação, de fluxos migratórios, de multilinguismo, de urbanismo central e periférico e as diversas formas de expressão urbanas, nomeadamente envolvendo fusão de arte, empreendedorismo e ciência, etc. 

Aferição da qualidade das democracias e do exercício da cidadania – privilegiando-­‐se a identificação dos critérios que permitem aferir o papel na construção das identidades locais, nacionais e internacionais, as métricas de avaliação dos serviços públicos, os indicadores de desenvolvimento e qualidade do exercício da democracia, a especificidade da relação entre os estados europeus e cidadãos, o respeito pelos direitos humanos, etc. 

A este propósito, deve ter-­‐se em conta que Portugal e a Europa atravessam um período de profunda transformação/redução do Estado social e de incerteza, pelo que a reflexão/ação sobre os lugares vividos e a cultura partilhada tornam-­se essenciais como temas que enquadram o potencial de desenvolvimento económico e a segurança dos Estados, como contraponto aos nacionalismos emergentes. 

A aferição da qualidade das democracias (bem como a formação da opinião pública a que nos referiremos em seguida) deve passar pela constatação de que a relação dos cidadãos com as instituições representativas se tem vindo a deteriorar, como os elevados níveis de abstenção atestam de forma clara. Importa, assim, eleger como prioritária a qualificação da informação a que os cidadãos têm acesso. O documento aborda as indústrias culturais, mas apenas numa lógica de produção para o entretenimento, faltando referências à qualificação de informação para a tomada de decisão nos sistemas democráticos.

 Literacia, educação e desenvolvimento – sabendo-­‐se que a literacia e a qualificação são indicadores do desenvolvimento das economias, parece-­nos que são de privilegiar estudos que apontem caminhos para uma compreensão mais clara das estratégias para um melhor desempenho nestes domínios, face às características específicas do espaço europeu (assimetrias regionais, fluxos migratórios, variabilidade linguística, promoção da criatividade e da corresponsabilização comunitária pela tarefa educativa, etc.) 

Regista-­‐se ainda que o documento é omisso relativamente ao papel da educação no desenvolvimento individual, social, económico. Devem ser contemplados domínios como a criatividade, a educação artística e os aspetos sócio-­‐emocionais que matizam os processos educativos. Importa ainda salientar que tem vindo a ganhar enorme relevância a preocupação com o conceito de avaliação em todos os domínios de atividade, pelo que os estudos sobre avaliação não podem deixar de ser considerados prioritários.

 Conhecimento – privilegiando-­‐se estudos que, integrando a perceção de que a forma como o ser humano se relaciona com a informação está, atualmente, profundamente alterada, deem conta dos mecanismos cognitivos associados à organização e estruturação do conhecimento, bem como dos princípios filosóficos e éticos que norteiam, na sociedade contemporânea, a relação do indivíduo com a informação. Ainda neste âmbito, são de considerar os processos de decisão e os subjacentes à memória. Estes tendem a ser vistos como propriedade de indivíduos isolados. Contudo o estudo da memória social e colaborativa e dos processos de decisão grupais e em rede tem vindo a emergir com cada vez maior impacto em diversas ciências sociais e outras e tem-­‐se revelado crucial na explicação do sucesso ou insucesso na implementação de inovações e políticas. Daí que se devesse incentivar estudos sobre a forma como se constroem memórias e representações socialmente partilhadas quer de acontecimentos cruciais para as sociedades, quer de acontecimentos banais e estudos focados na maneira como as decisões políticas e económicas são condicionadas pelas redes institucionais e organizacionais em que se inserem.´

 Formação da opinião pública – obstáculos e facilitadores à formação de uma opinião pública informada – Aposta em estudos que elucidem e documentem os processos de formação de opinião em diferentes grupos etários e étnicos (entre outros enfoques identitários), nas suas facetas cognitivas, emocionais, societais e históricas, seus obstáculos e fontes principais.

 Língua portuguesa e lusofonia – têm sido vários os estudos e indicadores que reconhecem o valor económico da língua portuguesa. Parece-­‐nos que esta estratégia não pode ignorar estes resultados e deve privilegiar de forma explícita a língua enquanto instrumento de promoção da economia, da cultura e do encontro e aprendizagem recíproca entre culturas, das indústrias criativas e culturais e do próprio conhecimento científico. Mais do que se dizer que a língua pode ser um instrumento ao serviço de outros eixos de desenvolvimento, parece-­‐nos que a língua é, por si só, um eixo de desenvolvimento estratégico, em linha com as recomendações da última cimeira de ministros da educação e ciência da CPLP e o Plano de Ação de Lisboa. 

Famílias, parentalidade e envelhecimento – o tema do envelhecimento, que surge frequentemente em documentos estratégicos europeus, não pode ser dissociado dos temas “cuidado” e “baixa natalidade”, sobretudo num contexto de acesso restrito a elementos de cidadania reprodutiva (procriação medicamente assistida, etc.), e em que a prestação de cuidados a terceiros consolida fortes assimetrias em contexto familiar. Acresce que as práticas de conjugalidade e parentalidade estão em transformação acentuada, refletindo-­se nas expectativas individuais e na redistribuição de papéis sociais e recursos disponíveis, condicionados por crescentes taxas de desemprego e emigração de pessoas em idade reprodutiva. A conjunção destes fatores tem um forte impacto no sistema económico dos próximos anos e não estão devidamente singularizados no documento. 

(iii) Estrutura de governança. A gestão desta estratégia não está suficientemente explícita. Tendo, aparentemente, sido construída por vários agentes, as competências dos vários participantes devem ser clarificadas, sobretudo tendo em conta a perspetiva de este ser um documento em aberto com potencial de atualização e enriquecimento. 

(iv) Implementação 

As políticas enunciadas parecem-­nos demasiado centradas na articulação com o setor empresarial, afigurando-­‐se-­‐nos ser necessário equacionar um investimento em absoluto na investigação.

 Há um dado omitido neste documento que é fundamental para se perceber o diagnóstico: as qualificações médias dos empresários portugueses são bastante baixas, o que tem poder explicativo sobre a resistência à integração de pessoas doutoradas e pessoal técnico qualificado nas empresas. A inversão deste estado de coisas passa pela valorização da formação de quadros de empresas e pela promoção generalizada de uma valorização do conhecimento, o que não é visível no documento. 

Há propostas que nos parecem merecer revisão, como a sugestão de que os estatutos das carreiras de docente e investigador devem ser revistas para valorização da componente de colaboração com o setor empresarial ou o estatuto privilegiado dado à formação universitária conferida em associação com as empresas.

 A colaboração implica reciprocidade e, por este motivo, não nos parecem promissoras as políticas que submetem unilateralmente a academia ao meio empresarial. Não se encontram correlatos claros, como a valorização profissional de empresários que colaborem com as universidades ou políticas de benefício para as empresas que apoiem o conhecimento fundamental. Acresce que o conhecimento é um bem em si mesmo, e deve ser assim defendido independentemente das prioridades circunscritas de qualquer outro setor. Por esta razão, consideramos que o processo de auscultação descrito (50% de empresas e 50% academia) carece de sustentação ética e epistemológica, aspeto agravado pela ausência de auscultação das associações profissionais e científicas em CSH. 

Lisboa, fevereiro de 2015

O Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades Fundação para a Ciência e Tecnologia

quinta-feira, 19 de março de 2015

A ILITERACIA DA ASCENDI

Recebi muitas mensagens de apoio ao meu artigo "Roubos nas Estradas", publicado no Público e  um dos mais divulgados pela Internet. Entre elas recebi de um colega investigador uma mensagem que revela a deficiência dos equipamentos da Ascendi. Ninguém está a salvo dessa empresa apoiada zelosamente pelo Estado, cujos contactos estão em baixo.

"Sou regularmente vítima de um processo semelhante. Trabalho e vivo na região de Coimbra e, ao que parece, sou "cliente habitual” de uma portagem em Paços de Ferreira... A mesma situação já me ocorreu 2 ou 3 vezes, sempre provocada por alguém que, supostamente, ao que me informam da Ascendi (eles têm um e-amail (apoio.clientes@ascendi.pt) e um site (www.ascendi.pt) muito complexo para gerir este tipo de situações), tem um carro branco (o meu é cinzento) mas uma matrícula muito parecida com a minha (ao que me informam, um 8 que se parece muito com o meu querido B; veja lá bem por onde anda o nível de iliteracia da Ascendi… ;). Consegui resolver sempre o problema enviando apenas uma cópia digitalizada do meu livrete (já estou craque, de tanto treinar). Após esse envio, a Ascendi verifica que de facto o meu carro é diferente do fotografado a cometer a infracção na dita portagem. Passados alguns meses, volta a conhecer o mesmo e não mais saímos disto… (Quebro a minha produção científica de tantos emails que envio à Ascendi. Enfim…)"

A LUZ NA CIÊNCIA, NA ARTE E NA CULTURA

Hoje, pelas 21h15m, estarei na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa, em Braga, numa sessão moderada pelo P. Álvaro Balsas SJ. Anúncio aqui.

REPRESENTAÇÕES DA FAUNA DO BRASIL


HOMEOPATIA PODE PÔR SAÚDE EM RISCO

Ler no The Guardian.

quarta-feira, 18 de março de 2015

As moléculas da cor




Na próxima 6ª feira, 20 de Março de 2015, pelas 21h15 realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "As moléculas da cor: uma actividade com química e luz" com o Professor Sérgio Seixas de Melo, inserida no Projecto Quark! - Escola de Física para Jovens, este ano de 2015 alusivo ao Ano Internacional da Luz.  ENTRADA LIVREPúblico-alvo: Estudantes do ensino secundário e público em geral

A PÉROLA DE EULER

Extracto do Cap.  1 do livro "A Pérola de Euler", de David S. Richeson, a sair muito em breve na colecção "O Prazer da Matemática" da Gradiva (em primeira mão para os leitores deste blogue, com a amável autorização da editora):


«Leiam Euler, leiam Euler, ele é o mestre de todos nós.»
 — Pierre-Simon de Laplace

"Estamos habituados a hipérboles. Os anúncios de televisão, outdoors, os comentadores desportivos e os músicos famosos usam frequentemente expressões sensacionais, como o maior, o melhor, o mais inteligente, o mais rápido ou o mais brilhante. Sendo usados no processo normal de vender um produto ou entreter o espectador, estas expressões perderam o seu significado literal. Assim, quando afirmamos que Leonard Euler foi um dos mais influentes e prolíficos matemáticos que o mundo alguma vez viu, o leitor poderá revirar os olhos, com enfado. Mas não estamos a exagerar a verdade. Euler é considerado, juntamente com Arquimedes (287-211 a. C), Isaac Newton (1643-1727) e Carl Friedrich Gauss (1777-1855), um dos dez — ou mesmo cinco — mais importantes matemáticos da história. 

Ao longo da sua vida de 76 anos, Euler concebeu matemática suficiente para preencher 74 volumes substanciais, mais páginas do que qualquer do que qualquer outro matemático Quando a totalidade do seu trabalho foi finalmente publicada (novos materiais continuaram a aparecer decorridos 79 anos após a sua morte) verificou-se que este chegou aos 866 artigos, em que se incluem artigos científicos «, livros sobre a maioria dos temas tratados na época, livros didácticos, livros elementares para não especialistas, e manuais técnicos. Estes números não levam em conta os quinze volumes planeados, de correspondência e outros cadernos de apontamentos, que ainda estão a ser compilados. 

A importância de Euler não é devida à sua produtividade volumosa, mas às contribuições fundamentais e inovadoras que fez na matemática. Euler não se especializou numa área particular. Ele foi um dos grandes generalistas: o seu conhecimento estendia-se por várias disciplinas. Publicou artigos e livros com grande influência em análise, teoria dos números, análise complexa, cálculo, cálculo de variações, equações diferenciais, teoria das probabilidades e topologia. Esta lista não inclui as suas contribuições para algumas disciplinas aplicadas tais como a óptica, electricidade e magnetismo, mecânica, hidrodinâmica e astronomia. Além disso, Euler possuía uma característica que era, e ainda é, rara entre os investigadores de topo: ele era também um divulgador de primeira categoria. Ao contrário dos matemáticos que o precederam, Euler escrevia usando uma linguagem clara e simples, tornando o seu trabalho acessível tanto a especialistas como a estudantes. 

Euler era um homem gentil e despretensioso cuja vida foi centrada em torno da sua grande família e do seu trabalho. Viveu na Suíça, Rússia, Prússia, e depois novamente na Rússia, e manteve uma correspondência frequente com muitos pensadores importantes do século XVIII. A sua vida profissional ficou ligada aos três grandes governantes da Europa, Pedro, o Grande, Frederico, o Grande, e Catarina, a Grande. Os legados destes líderes incluem a criação ou revitalização das respectivas academias nacionais de ciência. Estas academias forneceram as condições materiais para que Euler dedicasse o seu tempo à investigação em ciências puras. Em troca, apenas se esperava dele o uso ocasional dos seus conhecimentos científicos para os assuntos do Estado, e o reconhecimento internacional que o seu trabalho trazia para a nação. 

Leonhard Euler nasceu em Basileia, Suíça, a 15 de Abril de 1707, filho de Paul Euler e Marguerite Brucker Euler. Pouco depois, a família mudou-se para a cidade vizinha de Riehen, onde Paul foi designado pastor da igreja calvinista local. 

Os primeiros ensinamentos matemáticos que Leonhard teve foram dados pelo seu pai. Apesar de Paul não ser matemático, ele havia estudado matemática com o famoso Jacob Bernoulli (1654-1705). Esta instrução teve lugar quando os jovens Paul e Johann Bernoulli (1667-1748), irmão mais novo de Jacob, ambos estudantes na Universidade de Basileia, viviam na casa de Jacob. Jacob e Johann Bernoulli foram membros do que se viria a tornar uma das famílias de matemáticos mais respeitadas de sempre. Por mais de um século o clã Bernoulli desempenhou um importante papel no avanço da matemática, tendo pelo menos oito Bernoullis realizado contribuições duradouras. 

 Leonhard começou os seus estudos formais na Universidade de Basileia, aos catorze anos. Não era uma idade muito precoce para um estudante universitário naquela altura. A universidade era muito pequena — tinha apenas algumas centenas de alunos e dezanove professores. Paul Esperava que o seu filho seguisse uma carreira religiosa, para a qual Leonhard tinha estudado teologia e hebraico. Mas as suas capacidades matemáticas eram inegáveis , e ele rapidamente chamou a atenção do amigo do seu pai, Johann Bernoulli. Nessa altura Johann era um dos matemáticos mais proeminentes da Europa. 

 Johann era um homem arrogante, brusco e as suas características competitivas tinham produzido rivalidades históricas (entre outros, com o seu irmão e com um dos filhos). Apesar disso, reconheceu o notável talento do menino e encorajou-o a continuar os estudos em matemática. Euler escreveu na sua autobiografia: Quando me deparava com algum obstáculo ou dificuldade, foi-me dada autorização para vista-lo todos os sábados da parte da tarde e ele gentilmente explicava-me tudo o que eu não podia entender.» Estas lições desempenharam um papel importante na maturação das capacidades matemáticas de Euler. 

Apesar de Leonhard se distinguir nos seus estudos particulares de matemática, Paul Mantinha a esperança de que os eu filho entrasse no Ministério. Com dezassete anmos, Eulerb terminou o seu mestardo em filosofia,. Johann temeu a grande perda que seria para a matemática se o seu protegido se virasse para a Igreja, e interveio dizendo a Paul, em termos inequívocos, que Leonhard tinha o potencial de se tornar um grande matemático. Devido ao seu gosto pela matemática, Paul cedeu. Apesar de Euler ter abandonado os estudos religiosos, permaneceu um devoto calvinista ao longo de toda a sua vida. 

O primeiro sucesso, conseguido de forma autónoma, de Euler na matemática ocorreu quando tinha dezanove anos de idade. O seu trabalho teórico sobre a colocação ideal de mastros num navio garantiu-lhe uma «menção honrosa» numa prestigiada competição patrocinada pela Academia das Ciências de França. Esta façanha seria extraordinária para qualquer matemático, mas era ainda mais especial para um jovem suíço que nunca tinha visto um navio no oceano. Euler não ganhou o primeiro prémio desta competição, o que teria sido equivalente a ganhar um Prémio Nobel nos dias de hoje, mas nos anos seguintes ser-lhe-iam atribuídas as mais altas honras em doze ocasiões. 

 Na época do nascimento de Euler, a mil quilómetros a nordeste de Basileia, o czar russo Pedro, o Grande (1672-1725) estava a construir a cidade de São Petersburgo. Esta foi fundada em 1703 no pântano onde o rio Neva corre em direcção ao mar Báltico. Pedro usou trabalho forçado para construir a cidade, estrategicamente localizada na fortaleza de Pedro e Paulo numa ilha do Neva. Ele adorava a nova cidade, chamando-a o seu «paraíso» e deu-lhe o nome do seu santo padroeiro. Apesar do facto de a Maioria dos russos, especialmente os oficiais do governo, não compartilharem o mesmo gosto de Pedro por este lugar frio e húmido, ele mudou a capital russa de Moscovo para São Petersburgo. O jovem Euler não fazia ideia de que esta cidade seria a sua casa durante grande parte da sua vida. 

 Pedro, o Grande, uma figura fisicamente imponente com quase dois metros de altura, foi o líder enérgico, autodidacta e determinado da Rússia entre 1682 e 1725. Conhecido como um reformador implacável, ele começou a transformação do seu país de uma nação agrária e feudal, dominada pela Igreja, num poderoso império. O seu objectivo de modernizar — isto é, de ocidentalizar — o governo russo, a cultura, a educação, as forças armadas, e a sociedade em geral foi, em grande parte, concretizado. Como um historiador russo escreveu: «De repente, saltando por cima de várias épocas escolásticas, a Renascença e o Reformismo, a Rússia passou de uma civilização paroquial, eclesiástica e quase medieval, directamente para a Idade da Razão» 

Como parte do processo de ocidentalização, Pedro queria reformar o sistema de educação da Rússia, inexistente antes do seu reinado, com excepção do ensino mínimo facultado pela poderosa Igreja Ortodoxa. Como resultado, a Rússia não tinha cientistas. Por causa da forte presença Da Igreja, os russos tinham medo de explicações científicas do mundo, preferindo as tradicionais explicações religiosas. Pedro reconheceu a necessidade de melhorar a imagem internacional da Rússia, e de dissipar a ideia de que os russos desprezavam a ciência. Ele também sabia que um Programa para a Ciência era crucial para a criação e manutenção de um Estado poderoso. 

Pedro visitou a Royal Society de Londres e a Académie des Sciences de Paris, ambas fundadas em 1660. Ficou impressionado com o que viu. Ele também admirava a nova Academia de Ciências de Berlim, fundada em 1700, segundo uma proposta de Gottfried Leibniz (1646-1716). Leibniz é o famoso matemático que, a par de Isaac Newton, é considerado o inventor do cálculo. Estas academias não eram universidades; elas «dedicavam-se à busca de novos conhecimentos e não à comunicação do conhecimento existente». Os membros das academias eram investigadores, não professores; o seu objectivo principal era o avanço do conhecimento. 

 Pedro queria fundar uma academia, como as de Paris, Londres e Berlim, e queria estabelecê-la na sua nova cidade de São Petersburgo. De modo a aconselhar-se, ele contactou Leibniz. Durante quase duas décadas, Pedro e Leibniz mantiveram longas conversas, tanto por meio de cartas como presencialmente, sobre a reforma da educação e sobre a criação de uma academia de ciências. 

 Em 1724, Pedro tinha finalizado os seus planos para a criação da Academia de Ciências de São Petersburgo; este foi o projecto final e o mais ambicioso na sua busca para melhorar o sistema de educação da Rússia. No entanto, ele não podia criar a sua academia de forma exactamente igual às academias europeias. Como a Rússia não tinha cientistas nativos, ele teria que persuadir talentosos cientistas estrangeiros a mudarem-se para São Petersburgo. Do mesmo modo, como a Rússia não tinha sistema universitário, a Academia de Ciências deveria funcionar também como uma universidade. Parte do mandato da Academia seria o de treinar russos nas ciências, para que a Academia não tivesse que contar sempre com estrangeiros. 

 Pedro nunca viu os frutos do seu trabalho, pois morreu no início de 1725. Graças à nova imperatriz, a segunda esposa de Pedro, Catarina I (1684-1727), os planos da Academia continuaram. Estudiosos estrangeiros começaram a chegar decorridos alguns meses após a morte de Pedro, e a Academia das Ciências realizou a sua primeira reunião ante do final do ano. Pedro teve a sorte de Catarina adoptar o projecto da Academia. Nos anos que se seguiram, a Academia não esteve sempre abençoada por governantes entusiastas. Durante os 37 anos entre a morte de Pedro e a coroação de Catarina, a Grande (1729-1796), a Rússia foi conduzida por seis governantes, e a Academia esteve sempre à mercê destes indivíduos poderosos e opinativos. 

Inicialmente, a Academia contava com dezasseis cientistas: treze alemães, dois suíços, um francês — e nenhum russo. A grande presença alemã e a ausência de russos constituiria, mais tarde, um foco de tensão. Por causa do clima frio, do local remoto, e do isolamento académico, era necessário proporcionar altos salários e alojamento confortável para atrair os cientistas para São Petersburgo. A nova academia era pequena, mas rapidamente cumpriu a sua promessa de se tornar uma importante instituição científica reconhecida internacionalmente. Com o passar do tempo, tornou-se o centro do mundo académico e científico da Rússia. Esta Academia de Ciências mudou várias vezes de nome, mas ainda hoje existe e é conhecida como a Academia Russa de Ciências. Dois dos investigadores estrangeiros que se tornaram as estrelas desta Nova instituição eram amigos de Euler: os filhos de Johann Bernoulli, Nicolaus (1695-1726) e Daniel (1700-1782) Bernoulli. Os dois irmãos tinham conversado com Euler sobre a Academia antes de saírem da Suíça, e prometeram assegurar-lhe uma posição tão depressa quanto possível. Após a sua chegada à Rússia, começaram logo a fazer campanha, junto dos administradores da Academia, no sentido de contratar o seu jovem e brilhante amigo. Esta campanha teve rapidamente sucesso. Em 1726, ofereceram a Euler uma posição na Secção de Medicina e Fisiologia. Infelizmente, Euler não pôde desfrutar plenamente nem comemorar esta emocionante oferta de trabalho. Esta proposta seria para preencher a vaga deixada livre pela trágica e inesperada morte de Nicolaus. 

Euler ficou muito grato por este emprego, mas não se mudou imediatamente para a Rússia. Havia duas razões que o levavam a permanecer em Basileia e deixar o seu novo trabalho em espera. Em primeiro lugar, tinha acabado de aceitar um emprego em medicina, apesar de possuir um conhecimento mínimo na área. Assim, decidiu continuar na Universidade de Basileia enquanto estudava anatomia e fisiologia. Em segundo lugar, preferiu adiar a decisão por algum tempo e esperar para saber se lhe seria oferecido um lugar no Departamento de Física na Universidade de Basileia. Na Primavera de 1727, quando soube que não tinha sido escolhido para esse cargo, partiu então rumo à Rússia. Assim começou a sua estadia em São Petersburgo, onde viveria nos 14 anos seguintes e, mais tarde, durante os seus últimos 17 anos de vida. 

A viagem de Euler até São Petersburgo por barco, a pé e carruagem durou sete semanas. No dia em que ele finalmente pisou o chão da Rússia, a imperatriz Catarina I faleceu, após governar por apenas dois anos. O destino da nova Academia era incerto. Aqueles que comandavam o país em nome do czar Pedro II (1715-1730), de 11 anos de idade, neto de Pedro, o Grande, viam a Academia como um luxo dispensável e consideraram fechar as suas portas. Felizmente, a instituição manteve-se aberta, e, na confusão que se seguiu, Euler acabou por ficar onde naturalmente pertencia – a Secção de Física-Matemática, e não na Secção de Medicina. Este primeiro ano da carreira matemática de Euler, 1727, foi também o ano em que o gigante matemático Isaac Newton morreu. 

A vida na Academia era difícil no tempo de Pedro II; desta forma, após a morte do czar aos quinze anos de idade, em 1730, os seus membros esperavam que a sorte melhorasse. A Academia estaria um pouco melhor durante o reinado de dez anos de Anna Ivanovna (1693-1740), mas as condições na Rússia tornaram-se desoladoras. Anna conduziu o seu governo com uma forte influência alemã, principalmente através do seu amante Earnst-Johann Biron (1690-1772). Biron era um tirano cruel que mandou executar vários milhares de russos, e exilar outras dezenas de milhares para a Sibéria. Os alvos de Biron incluíram criminosos comuns, os crentes da Igreja Ortodoxa Russa e os adversários políticos de Anna. Mais tarde, em Berlim, a Rainha -mãe da Prússia perguntou a Euler por que razão era ele tão taciturno. Ele respondeu: «Cara Senhora, é porque eu acabo de vir de um país onde quem fala é enforcado.» 

 Em 1733, já cansado do difícil estilo de vida russo e da política interna da Academia, Daniel Bernoulli regressou à Suíça e, com os seus 26 anos, Euler tomou a posição de Daniel como matemático principal. 

 Nesta altura, Euler pensava que podia ficar na Rússia por um longo período de tempo, talvez para o resto da sua vida. Com a excepção das dificuldades impostas pelo clima político na Rússia, Euler achava a vida confortável. Ele tinha adquirido um bom domínio da língua russa, e sentia-se financeiramente seguro graças a uma salário mais elevado, que resultou da sua promoção. Assim, em 1733, decidiu casar-se com Katharina Gsell, que tinha sido trazida para a Rússia por Pedro, o Grande. Leonhard e Katharina formaram uma grande Família, e chegaram a ter treze filhos. Como não era raro naquela época, apenas cinco filhos sobreviveram após a infância, e apenas três viveram até mais tarde do que os seus pais. 

A vida de marido e pai não abrandou o ritmo de publicações de Euler. Tanto agora como noutros períodos da sua vida profissional, ele permanecia um investigador extremamente activo. É difícil exagerar a produtividade maciça de Euler. Lendas matemáticas dizem que ele conseguia escrever artigos científicos enquanto andava com um bebé ao colo, e que podia compor um tratado entre as primeiras e segundas chamadas para o jantar. Ele escreveu sobre tudo e sobre mais alguma coisa. Produziu obras-primas, notas curtas, correcções, explicações, resultados parciais, ideias de demonstrações, textos introdutórios e livros técnicos. 

Não havia revés capaz de fazer Euler abrandar. Nem mesmo a cegueira foi suficiente para impedir o fluxo da sua produção matemática. Em 1738, adoeceu depois de dedicar três longos dias de trabalho a um problema de Astronomia. Embora a medicina moderna ponha causa a seguinte a afirmação, acreditou-se durante muito tempo que a doença teria sido causada pela deterioração da sua visão, que culminou na perda completa da vista do seu olho direito. Euler aceitou a perda da visão como mais um passo no seu caminho. Na sua maneira de ser, geralmente modesta, comentou: «Agora vou ter menos distracções.» Mais tarde, perdeu a visão do seu outro olho, e viveu em escuridão quase total nos seus últimos 17 anos de vida. Apesar de não poder ver, continuou a fazer importantes contribuições matemáticas até ao dia da sua morte. 

Parecia que o cérebro de Euler estava afinado para fazer matemática de uma forma que outros cérebros não estão. Ele era capaz de manipular várias noções abstractas em simultâneo, e conseguia realizar cálculos mentais surpreendentes. Numa famosa história, dois alunos de Euler precisavam de adicionar 17 termos fraccionários, e os resultados obtidos por eles não coincidiam. Euler imediatamente efectuou a soma de cabeça e resolveu o diferendo, fornecendo a resposta correcta. Tal como o matemático François Arago (1786-1853) famosamente escreveu, «Euler calculava sem esforço aparente, tal como os homens respiram, ou as águias se sustentam com o vento”. Modestamente, Euler afirmava que a sua capacidade de manipular símbolos substituía o raciocínio, dizendo que o seu lápis o superava em inteligência. 

 Euler era igualmente abençoado com uma memória incrível. Ele Memorizava inúmeros poemas de do início ao fim; desde criança até à sua morte era capaz de recitar a Eneida de Virgílio, sendo capaz de recordar a primeira e a última frase de qualquer uma das suas páginas. Um exemplo mais matemático da sua memória prodigiosa era a sua capacidade de indicar rapidamente as seis primeiras potências dos primeiros cem números. Para pôr isto em perspectiva, observe-se que a sexta potência de 99 é o número 941 480 149 401. 

 Durante a sua permanência em São Petersburgo, Euler dedicou algum do seu tempo a projectos para o Estado. Em 1735, foi nomeado director da Secção de Geografia da Academia, tendo posteriormente feito contribuições importantes para a criação de um mapa, muito necessário, da Rússia. Escreveu também um livro de dois volumes sobre construção naval que foi tão apreciado que a Academia decidiu duplicar-lhe o seu salário nesse ano. 

 Enquanto Euler gozava de uma produtividade notável, uma vida familiar feliz, e um salário considerável, as condições na Rússia continuavam a piorar. A atmosfera na Academia tornou-se muito tensa, até mesmo hostil. A maioria dos membros seniores da faculdade eram alemães, e ainda havia uma reduzida presença de russos. Nos primeiros 16 anos de existência da Academia, apenas um russo foi tornado membro, sendo membro auxiliar que nunca foi promovido a professor. Os russos estavam incomodados com o poder dos alemães e algumas opiniões anti-alemãs foram expressas abertamente. Felizmente, o calmo e reservado Euler foi capaz de manter-se neutro na política interna da Academia, embora tenha tornado a sua vida de trabalho bastante tensa. 

Com a presença de Biron e do grupo alemão nos governos de Anna, o medo e aversão aos alemães continuaram a aumentar no seio da população russa, No final de 1740, pouco antes da sua morte, Anna nomeou Biron como regente do seu sucessor, Ivan VI (1740-1764) que tinha dois meses de idade. Após a morte de Anna, a animosidade dos russos para com os alemães atingiu o clímax — em apenas um mês, Biron foi derrubado, e um ano mais tarde, Ivan e todo o «grupo alemão» foram retirados do poder. Isabel I (1709-1762), filha de Pedro, o Grande, tornou-se a nova imperatriz. 

 Durante este período, a vida na Rússia tornou-se perigosa, especialmente para os que não eram Russos. Os académicos estrangeiros eram vistos com desconfianças, como possíveis espiões para o Ocidente. Euler reagiu a estas condições mantendo-se quieto e dedicando todo o seu tempo ao seu trabalho e à sua família. Em 1741, Euler já não conseguia tolerar a vida na Rússia por mais tempo, e então decidiu deixar São Petersburgo e ir para Berlim."

Votação para o Prémio Unicórnio Voador 2014

Crédito: Cláudia Barrocas

O que têm em comum Maya, Paulo Futre e a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa?Estão todos entre os nomeados para os prémios das maiores patetices pseudociêntíficas de 2014. 

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FCT efetua cortes que chegam a 48% do financiamento previsto em centros de investigação classificados como Excelentes


Comunicado de imprensa subscrito por oito centros de investigação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa:

Lisboa, 17 Março 2015

Terminou com uma resposta negativa da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) o período de audiência prévia aos centros de investigação que contestaram o financiamento atribuído que exclui a verba de financiamento base. Surpreendentemente, a FCT fez tábua rasa da componente destinada ao funcionamento dos centros, o que, a juntar ao corte efectuado na componente do financiamento estratégico, pode corresponder até 66% do financiamento anual previsto. Os centros têm agora um prazo de 20 dias para assinar os termos propostos pela FCT.

De acordo com o regulamento da FCT para a avaliação e financiamento das unidades de I&D nacionais para o período 2015-2020 (apresentado em Novembro de 2014), o financiamento às unidades de investigação abrange duas parcelas: uma verba destinada a despesas de funcionamento corrente das instituições, incluindo encargos estruturais ou gerais da unidade (“financiamento de base”), e outra para reforço de atividades estratégicas de I&D de reconhecido mérito a realizar pelas unidades nos próximos seis anos (“financiamento estratégico”). 

O financiamento base destinar-se-ia apenas aos centros com classificação de Bom ou superior e os montantes desta componente foram fixados previamente pela FCT, estando indexados à dimensão da unidade, a um factor de correção correspondente à sua intensidade laboratorial e à classificação obtida no processo de avaliação. Estes valores variam entre 5.000 €/ano (para centros com a classificação de Bom, de pequena dimensão e baixa intensidade laboratorial) até ao valor máximo de 400.000 €/ano,  a atribuir a um centro de investigação Excepcional, de grande dimensão e com elevada atividade laboratorial. 

O financiamento estratégico seria apenas atribuído aos centros avaliados com Muito Bom ou superior e, ao contrário do financiamento base, a FCT não forneceu indicações de valores máximos ou outras limitações orçamentais. Deste modo, verificaram-se enormes diferenças nos pedidos de financiamento estratégico em centros com atividade científica e dimensões semelhantes.  

No guião para elaboração e submissão de candidaturas para avaliação das unidades, foi solicitado pela FCT que as unidades indicassem claramente as parcelas do financiamento a que se estavam a candidatar, acrescentando que apenas o financiamento relativo à componente estratégica seria sujeito a apreciação pelo painel de avaliadores, como parte integrante dos parâmetros de exequibilidade dos programas estratégicos apresentados. 

Já em janeiro de 2015, após conhecidos os resultados da classificação dos centros, a FCT publica alterações às regras do jogo. E, surpreendentemente, deixou de constar qualquer referência à componente de financiamento base que simplesmente desaparece. 

É comunicado aos centros que “a base de cálculo do financiamento atribuído às unidades de I&D para o período 2015-2020 foi o financiamento solicitado por cada unidade para cumprir o programa estratégico proposto“ (http://www.fct.pt). São ainda, e apenas, referidos cortes nos orçamentos solicitados para execução dos programas estratégicos, tendo em conta os resultados da avaliação: 15% nos centros Excepcionais; 22-18% nos Excelentes e 64-56% nos que obtiveram Muito Bom. 

Sem a componente base e com um financiamento estratégico cortado a eito, o financiamento público das unidades de investigação deixa totalmente de traduzir o resultado da avaliação da sua atividade científica. De facto, são inúmeros os casos em que foram atribuídas verbas mais elevadas por cada investigador a centros com uma classificação mais baixa. 
É igualmente incompreensível e injusto alterar os critérios de financiamento no final de um processo de avaliação. Para além das questões de princípio ou de racionalidade, levanta-se também um problema básico: o orçamento do plano estratégico das unidades de investigação foi elaborado sem contabilizar as despesas de funcionamento corrente das instituições. 

A manter-se esta situação inesperada, as consequências para o futuro próximo das unidades de investigação são extremamente graves. Nos novos moldes agora definidos pela FCT, os centros terão que optar entre utilizar o financiamento que vão receber para assegurar o seu funcionamento, ou canalizá-lo para o plano estratégico com o qual se comprometeram. Esta situação é tanto mais grave quanto a FCT também já anunciou que “as unidades serão predominantemente avaliadas pelo cumprimento dos objetivos indicados no programa estratégico”.
As unidades de investigação subscritoras desde comunicado pertencem à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e obtiveram classificações de Excepcional (CIUHCT), Excelente (cE3c, BioISI) e Muito Bom (CMAF-CIO, CFTC, CQB, IBEB e CFCUL). Em todos os casos a FCT fez tábua rasa ao montante do funcionamento base, o que, a juntar aos cortes efectuados na componente do financiamento estratégico, podem corresponder a 66% do total de financiamento anual previsto.

Naturalmente que esta situação inesperada abrange todas as unidades de investigação dos mais diversos domínios científicos, e sediadas noutras faculdades e/ou universidades. Após um longo e controverso processo de avaliação, em que algumas unidades continuam à espera de uma resposta em relação à contestação da classificação atribuída, os centros confrontam-se com mais uma adversidade: tendo sido recusados em audiência prévia os pedidos de reposição de orçamento, têm agora um prazo de 20 dias úteis para assinar os termos propostos pela FCT.

É urgente a imediata correção desta situação, que limita a boa execução dos programas estratégicos propostos, considerados de elevado mérito internacional pelo painel de avaliação, que coloca em risco o sucesso das referidas unidades na próxima avaliação e compromete a produtividade científica nacional a curto e médio prazo. 

Centros subscritores:
CIUHCT – Interuniversity Center for the History of Science and Technology (Excepcional; 26% corte)
BioISI – Biosystems & Integrative Sciences Institute (Excelente; 43% corte)
cE3c – Centre for Ecology, Evolution and Environmental Change (Excelente; 48% corte)
CMAF-CIO – Center for Mathematics, Fundamental Applications and Operations Research (Muito Bom; 58% corte)
CFTC – Center for Theoretical and Computational Physics (Muito Bom; 62% corte)
CQB – Center of Chemistry and Biochemistry (Muito Bom; 66% corte)
IBEB – Institute of Biophysics & Biomedical Engineering (Muito Bom, 51% de corte)
CFCUL – Centre for Philosophy of Science of the University of Lisbon (Muito Bom, 48% de corte) 

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