sábado, 27 de outubro de 2012

UM CÉU MAIS PERFEITO.



Recensão publicada primeiramente na imprensa regional.



Desde o “Nascer do Sol” ao “Pôr-do-Sol”.

O trânsito do "astro rei" no firmamento marca desde sempre a actividade da vida nas sociedades humanas, em particular, e de toda a vida em geral. Aquelas duas expressões estão presentes em muitas, se não mesmo em todas as línguas humanas.

Nos outros seres vivos, que connosco coabitam este planeta, estão também identificados sons anunciadores daqueles acontecimentos celestes. Quem não se recorda ou ainda acerta o seu acordar pelo cantar do galo a romper a madrugada num anúncio de luz? Ou o chilrear da passarada a discutir o condomínio de um ramo ao anoitecer?

É assim desde que há memória, desde que há história. Os sentidos assim nos iludiram durante milhares ou mesmo milhões de anos: é o Sol que se move ao redor da Terra, que irrompe o dia a nascente, que encerra a jornada a poente, num ciclo eterno. Mas será mesmo assim como as línguas nos dizem? O que fez com que alguém pusesse a hipótese de poder ser diferente? A progressiva observação do céu, o registo meticuloso e acumulado ao longo de séculos do movimento dos outros planetas visíveis a olho nu.

O modelo geocêntrico servia para a organização da vida humana na Terra, mas era insuficiente para compreender a organização, o comportamento dos astros no céu. Incompleto para o conhecimento, última morada do destino humano (como apontou Carl Sagan). Mas para romper com a ilusão sensorial sedimentada pelos poderes seculares e intemporais, doutrinas centradas no umbigo da humanidade, foi preciso a coragem de alguns para erguer a verdade, qual vela acesa, na noite escura.

Nicolau Copérnico (1473 – 1543)


Por volta de 1510, o polaco Nicolau Copérnico (1473 – 1543), então com cerca de 40 anos de idade, estabeleceu uma nova concepção do nosso sistema solar, na qual o Sol, em vez da Terra, estava no centro: o modelo heliocêntrico. Mas, com um medo visceral de poder ser alvo da chacota dos seus colegas matemáticos e da irra de outros senhores, ocultou a sua teoria durante outros 40 anos!

O que é que fez com que tivesse mudado de ideias e escrito as suas teorias no livro “Das Revoluções dos Corpos Celestes”, que marca o início de uma nova era para o conhecimento e para o lugar da humanidade no Cosmos? Um jovem matemático alemão de nome Georg Joachim Rheticus (1514 – 1574). Foi Rheticus quem convenceu Copérnico e levou o manuscrito para que este fosse impresso em 1539 em Nuremberga, no melhor impressor de textos científicos da Europa de então.

Georg Joachim Rheticus (1514 – 1574)


Ninguém sabe até hoje como é que Rheticus terá convencido o seu mestre a mudar de ideias quanto à publicação da obra que tanto impacto causou até hoje. E é neste epicentro misterioso de confronto de personalidades e circunstâncias da história do séc. XVI, que a premiada escritora Dava Sobel (que foi editora de ciência do New York Times) desenvolve e nos oferece mais um livro soberbo.


Em “Um Céu mais Perfeito – Como Copérnico revolucionou o cosmos”, publicado em Setembro de 2012 pela Temas e Debates e pelo Círculo de Leitores, Dava Sobel, com a mesma maestria cativante presente em “Longitude” e “A Filha de Galileu” (publicados entre nós pela Temas e Debates) narra-nos a vida de Nicolau Copérnico. Apresenta-nos, numa primeira parte, o ser humano na antecâmara da obra que o celebrizou como um dos gigantes da ciência moderna, assim como descreve as consequências e o impacto da sua publicação, o que apresenta na terceira e última parte do livro.

Na parte segunda e parte central (“E o Sol Imobilizou-se”), Dava Sobel coloca-nos como espectadores privilegiados de um diálogo, em dois actos, entre Copérnico e Rheticus. Baseando-se em “palavras que eles escreveram em diversas cartas e tratados”, a autora tece, num contexto histórico e factual, uma ficção sobre como Rheticus terá persuadido Copérnico a deixar que o seu manuscrito visse a luz do dia.


Das Revoluções dos Corpos Celestes


Com este livro somos transportados até ao debate crucial ocorrido em meados do séc. XVI, que redefiniu o nosso lugar no Cosmos. Entre séculos e séculos de alvoradas e ocasos, a Terra sempre girou ao redor do Sol. A consciência deste conhecimento não nos retirou qualquer fascínio com o esplendor do nascer e do pôr-do-sol, os quais continuam a fertilizar a nossa emotividade e poesia. E este é um livro a ler entre qualquer um desses momentos e registos, à luz da nossa humanidade.

António Piedade



Ficha Bibliográfica
Título: Um Céu Mais Perfeito
Autor: Dava Sobel
Editor: Temas e Debates / Círculo de Leitores
ISBN: 9789896441814
Número de páginas: 316
Edição: 1ª – Setembro de 2012
Encadernação: Brochado

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

PORTUGAL, ACADEMIA DE ALCOCHETE DA CIÊNCIA?


A Cabra publicou esta semana um bom trabalho jornalístico, que faz um retrato interessante e realista da situação dos bolseiros de investigação. As últimas alterações ao Estatuto do Bolseiro de Investigação foram desastrosas. Por exemplo, impedem os bolseiros de doutoramento de darem aulas no ensino superior. E os posdocs podem apenas dar aulas em doutoramentos. Compreendo que, face ao modelo de financiamento da generalidade dos doutoramentos em Portugal (que tem vantagens e problemas) se pretenda preservar a disponibilidade do bolseiro para a actividade para a qual é financiado (o projecto de investigação de doutoramento). Por isso é natural que haja restrições ao número de aulas que um bolseiro pode leccionar, tal como tem havido até ao corrente ano. Mais impedir os bolseiros pura e simplesmente de darem aulas parece-me um absurdo que limita o seu desenvolvimento profissional. Até porque, a exclusividade da dedicação do bolseiro à execução do seu plano de trabalhos, não fica assegurada com esta medida. Muitos bolseiros colaboram em actividades do grupo de investigação ou instituição em que se encontram, que nada têm a ver com o seu projecto de doutoramento. E isto, até certo ponto, é aceitável (claro que é inaceitável ter bolseiros a fazerem trabalho administrativo ou de motorista, como é sabido que acontece ou pelo menos aconteceu em certos casos, em clara violação do Estatuto do Bolseiro).

É certo que há problemas neste domínio, por exemplo de casos de bolseiros obrigados a dar aulas de graça, ou seja a quem poderia ser atribuído serviço docente sem qualquer remuneração. Mas como resposta a este problema, as alterações efectuadas são inadequadas. Porque uma coisa é os bolseiros serem obrigados a dar aulas de graça. Outra, é serem impedidos de darem aulas (até um certo limite de horas) sendo remunerados por isso (podendo haver uma redução do valor da bolsa nesse caso, o que também é discutível).

Se as aulas e a investigação são tão incompatíveis, se calhar deveríamos rever a profissão de professor universitário. Porque não impedir os professores universitários de darem aulas, já que também se espera que façam investigação?

Esta semana, o Público noticiou que o pagamento das bolsas de investigação estão em risco na Faculdade de Ciências por “atrasos sistemáticos” da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Mais uma notícia que mostra como os bolseiros são o elo mais fraco nas Universidades: contratos renovados a cada três meses? Por estas e por outras é que Portugal se arrisca a ser cada vez mais a ser Academia de Alcochete da ciência: forma talentos muito bons que vão a "custo zero" para o estrangeiro, onde atingem o auge da produtividade científica. Depois talvez voltem, por sentimentalismo, para acabarem a carreira.

É certo que se antevêem problemas em toda a Europa, com a redução do financiamento da ciência em nome da austeridade e da crise. Também esta semana tivemos a notícia de que 42 prémios Nobel alertaram a Europa para perigo dos cortes na ciência. Parece que a Europa se está a esquecer que desde o século XV, com os descobrimentos dos países ibéricos, que a base da hegemonia das nações assenta no conhecimento, na ciência e na técnica, que se refletem no poder militar, económico e cultural. Os países não têm ciência porque são desenvolvidos. São desenvolvidos porque têm ciência. A ciência não é uma despesa em que se têm que cortar para sair da crise, é um investimento que se tem que fazer para superar a crise.

O mercado dos cérebros, como mostra uma inquérito recente publicado na Nature é global e muito competitivo. Os cientistas tendem a seguir o dinheiro da investigação, apesar de factores culturais também contarem. A Índia é o maior exportador de cérebros mundial, com cerca de 40% dos seus cientistas a trabalharem em países estrangeiros. O Estados Unidos são, actualmente o maior destino de emigração dos cientistas. Mas pensa-se que em 2020 a China, a Índia e o Brazil sejam destinos muito importantes de acolhimento dos cientistas.

A concorrência é grande e há quem ponha muito dinheiro na ciência. A Arábia Saudita, que está por cima das maiores reservas mundiais de petróleo, fundou em 2009 uma universidade dedicada exclusivamente à investigação científica (apenas confere graus mestrados e doutoramentos) chamada King Abdullah University of Science and Technology (KAUST) que tem um orçamento superior ao do MIT. Com linhas de investigação fundamental e aplicadas, em disciplinas directamente relacionadas com factores de desenvolvimento locais, como por exemplo a resistência de cereais à água salgada. Se despejar dinheiro e contratar investigadores de topo pelo mundo inteiro numa espécie de Oasis intelectual resulta ou não, o tempo dirá. 

Mas, mesmo sem o dinheiro do petróleo, países como o Brazil, Índia e China estão a apostar forte na ciência. Prevê-se que a produção científica da China ultrapasse a dos Estados Unidos, dentro de um ano.


E nós, como ficamos? A Europa tem que ter uma estratégia e uma aposta clara na ciência, se não quiser ser remetida para a irrelevância e o subdesenvolvimento. E Portugal, tem que ter igualmente uma estratégia e uma aposta clara nesse sentido. Sabendo que não podemos ser o Manchester United ou o Real Madrid, temos que ter equipa (cientistas) para passar a fase de grupos na liga dos campeões. Portugal tem que conseguir atrair e fixar bons cientistas. E criar carreiras atractivas, que não podem ser exageradamente baseadas em bolsas, com as condições actuais das bolsas. Afinal, no inquérito publicado pela Nature, a principal razão apontada pelos cientistas para emigrar é assegurar uma posição mais sénior.

REGIONALIZAR O ENSINO DA GEOLOGIA

Texto do nosso colaborador já habitual Professor Galopim de Carvalho

A geologia, já o tenho afirmado e não é demais repetir, não pode deixar de ter uma dimensão cultural ao dispor de toda a gente. Os professores devem ter consciência desta realidade quando se dirigem aos seus alunos. Não estão só a fornecer bases para eventuais profissionais em geologia (sempre raros ou inexistentes numa qualquer turma escolar), estão, sobretudo e na maioria dos casos, a formar cidadãos para quem essas bases são fundamentais em termos de preparação global. Assim, o ensino do programa oficial deverá ser tornado atraente com elementos culturais ligados ao quotidiano dos alunos. As amarras do programa oficial e o obediente e acrítico manual escolar contrariam qualquer acção dos bons professores, no que toca o ensino vivo da disciplina. Porque não um programa mais flexível? Um programa que deixe, por exemplo, às escolas dos Açores ensinar vulcanismo a sério, sabendo-se como se sabe que qualquer das ilhas é um laboratório rico de extrema utilidade pedagógica, completamente desaproveitado.

Actividade vulcânica residual. Furnas, S. Miguel, Açores

Um programa que permita aos professores do continente fomentar o gosto por este tipo de saber, iniciando os alunos na geologia da sua própria região: as Serras de Sintra e da Arrábida e toda a sua riquíssima diversidade geológica, os granitos e os xistos no norte do país, as pirites e as sequências de rochas vulcânicas e sedimentares da Faixa Piritosa e os mármores do triângulo Estremoz-Borba-Vila Viçosa.

Pedreira de mármore em Vila Viçosa

E porque não ligar estes conhecimentos às nossas origens como território e à sucessiva ocupação deste por outros povos e civilizações, em busca do sílex, do ouro, do cobre, do estanho? Do sílex intercalado nos calcários do Cretácico (Cenomaniano) da região de Lisboa, ao urânio da Urgeiriça, à hipótese de ouro no Alentejo e de petróleo em Torres Vedras, se há domínios científicos onde a regionalização faz sentido, a geologia é, certamente, um deles. Deveria dar-se às escolas e aos professores desta disciplina liberdade e tempo curricular para, em cada local e em cada oportunidade, escolherem a melhor via formativa, o que não exclui a obrigatoriedade de cumprir um programa mínimo, criteriosamente escolhido, por quem tenha competência, não só pedagógica, mas também científica, e cultural para o fazer.

Galopim de Carvalho

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

HÁ MARCIANOS NO ALENTEJO?

Uma das reportagens mais alucinadas dos últimos tempos, que mistura tratamentos de SPA com astrobiologia. Mas os pontos mais altos vão para: "aqui neste bosque, ou noutro idêntico na américa, pode ter estado a origem da vida na Terra." e "eu não sou daqui, mas o pessoal que é daqui diz que é ali que a vida começou".


Ouvindo o cientista da NASA ficamos na dúvida se os jornalistas da SIC percebem inglês ou se (pelo menos) sabem ler as legendas. Parece um sketch dos Monty Python: um cientista diz coisas com sentido e que se percebem e o jornalista fala da vida na Terra a começar num bosque, secundado por um presidente da junta que quer vender uma pequena vila do Alentejo como "o principio da vida na Terra".

Para discutir este assunto, haverá esta noite uma sessão na Associação Rossio em Lisboa, com a presença de Carlos Oliveira (astrobiólogo) e Sérgio Paulino (Ecotoxicólogo).

Mais informação no blogue astro.pt.



Transmissão em directo da sessão pela internet, pode ser vista aqui:


NOVO LIVRO: PIPOCAS COM TELEMÓVEL E OUTRAS HISTÓRIAS DE FALSA CIÊNCIA


O novo livro de dois também autores deste blogue (Carlos Fiolhais e David Marçal) já chegou às livrarias (pelo menos a algumas). Ficam aqui as primeiras páginas.


(clique na imagem para aumentar)

A ABRIR

A credibilidade da ciência é um selo apetecível. Por isso há muita gente que não hesita em disfarçar a sua banha da cobra como ciência para a vender melhor. Por outro lado e paradoxalmente, há quem despreze a ciência, considerando-a demasiado fechada a novas ideias, por exemplo, mas que, ao mesmo tempo, não se inibe de a evocar em abono das suas teorias, sempre que isso lhe é conveniente. 
O astrofísico e grande divulgador de ciência norte-americano Carl Sagan afirmou um dia que a ciência significava “uma grande abertura a todas as ideias, mas não tão grande que os miolos caiam para fora da cabeça”. É o método científico, do qual um dos principais ingredientes é o espírito crítico, que determina o que é e o que não é ciência. Chama-se falsa ciência ou pseudociência a tudo aquilo que, embora disfarçando-se de ciência para ganhar credibilidade, não passa no crivo apertado do espírito crítico. A astrologia, a numerologia, o criacionismo, a homeopatia, as curandices quânticas, os movimentos anti-vacinas, a negação do aquecimento global, etc. são exemplos de falsas ciências. Não porque à partida não haja abertura para considerar esses movimentos dentro do quadro da ciência, mas porque, sujeitas a exame, “chumbam” em critérios simples de lógica e de conformidade com o funcionamento do mundo. As leis do mundo são como são e não como alguns gostariam que fossem. Há quem diga “não negue à partida uma ciência que desconhece”. Mas essas actividades humanas, que de resto estão muito difundidas, não são ciências e têm sido negadas por muitos cientistas que as puseram à prova. Podem perfeitamente ser negadas por quem confie nesses cientistas. É uma pura perda de tempo estar constantemente a experimentar tudo, uma vez que podemos confiar em quem já experimentou o suficiente e viu que a coisa deu mal ou simplesmente não deu.

O espírito crítico é uma marca da ciência, mas, com certeza, não é um exclusivo da ciência. É uma marca maior do homem, que é um ser racional, e que conseguiu e consegue afirmar-se no mundo num exercício permanente de racionalidade. Acontece, porém, que, na ciência, o espírito crítico está ainda mais desenvolvido do que noutras actividades. Conhecer o método da ciência revela-se útil para a vida de todos os dias, pois quem o conhece e o sabe aplicar a todo o tipo de stituações estará menos sujeito a enganar-se e a ser enganado. Há no mundo (pelo menos, na Terra) muita gente a querer enganar os outros, abusando da ignorância alheia, mas a cultura científica, o conhecimento ainda que elementar dos factos e das atitudes científicas, constitui o melhor antídoto contra esses logros.

Há uma ideia com a qual nos deparamos várias vezes ao longo deste livro e que vale a pena explicitar: uma conclusão científica não depende de nenhum artigo científico em particular. Na realidade, muitos artigos científicos estão pura e simplesmente errados. Alguns deles têm falhas metodológicas que viciam os resultados. Outros contêm conclusões abusivas acerca dos resultados apesar destes estarem correctos. A força da ciência assenta em todo um corpo de provas produzido por uma vasta comunidade científica. Ao contrário de outros saberes, a validade da ciência resulta da capacidade de encontrar e corrigir erros, não da recusa da sua existência. 

A validade da ciência também não depende da credibilidade ou prestígio de nenhum cientista em particular. A ciência assenta na prova, independentemente de quem propõe uma nova hipótese ou teoria. Watson e Crick propuseram em 1953 que a molécula de ADN tem a forma de uma dupla hélice, como uma escada em caracol. A estrutura dessa molécula seria a mesma, independentemente de quem a tivesse proposto. 

É, porém, demasiado fácil escolher a dedo apenas um artigo para apoiar uma determinada teoria. Esse artigo até já pode ter sido desmentido. Quando queremos obter o melhor conhecimento científico acerca de um determinado assunto, temos que olhar para a paisagem toda. Apenas uma ou duas fotografias, ou um curto vídeo, podem ser enganadoras. Continuando essa analogia, se o leitor confiar num ou dois postais ilustrados para escolher o próximo local das suas férias, arrisca-se a apanhar uma grande desilusão. 

Um bom exemplo de uma tentativa de enganar os outros é dado pelo vídeo da produção de pipocas com a ajuda de vários telemóveis, que alguns engraçados colocaram na Internet, talvez para se divertirem, mas que espalharam o pânico sobre hipotéticos perigos daqueles aparelhos. Mas muitos outros exemplos se encontram ao longo deste livro. Os autores, o primeiro bioquímico e o segundo físico, depois de, nesta mesma editora, terem contado, em Darwin aos Tiros algumas histórias de ciência, contam neste Pipocas com telemóvel, algumas histórias de falsa ciência. Se as histórias do livro anterior eram divertidas (foi, pelo menos o que disseram a maioria dos leitores que contactou os autores, não sendo, por isso, a amostra neutra), as histórias do presente livro são divertidíssimas. Se a ciência pode ser divertida, a pseudociência então é garantidamente muito divertida...

O livro encontra-se dividido por capítulos, de acordo com os sítios onde se passaram ou onde se relatam as histórias de falsa ciência. Há falsa ciência, muita falsa ciência, na Internet; há falsa ciência, também muita, nos media; há falsa ciência, muitíssima, no supermercado; há falsa ciência, pasme-se, na escola; há falsa ciência na saúde, bastante mais do que o leitor imagina; há até, imagine-se, falsa ciência na ciência. Algumas histórias são antigas, mas a maioria são recentes, algumas muito recentes: por muito importante que a ciência seja no mundo de hoje, a falsa ciência encontra-se hoje por todo o lado, por vezes parecendo mesmo que lhe disputa a importância. Os autores esperam que a leitura destas histórias não só divirta o leitor como o coloque em estado de prevenção contra a falsa ciência que pode encontrar em qualquer substância. Se conseguirem que o leitor não seja enganado em qualquer situação com custos superiores aos do custo do livro, já ficarão contentes, pois ter-lhe-ão dado lucro.

O seu a seu dono. No capítulo 1 (Falsa ciência na Internet) a história Pipocas com telemóvel, foi escrita por Carlos Fiolhais (CF) e A paz no mundo ou um orgasmo a tentar foi escrita por David Marçal (DM). No capítulo 2 (Falsa ciência nos media), as três primeiras histórias (Horóscopos ou horós-copos?, Os números enganam e Não vem aí o fim do mundo!) foram escritas por CF, ao passo que as duas últimas (Aquecimento esclarecido e o O gene gay) são da responsabilidade de DM. No capítulo 3 (Falsa ciência no supermercado) todas as histórias foram escritas por DM (dos dois, o maior especialista em supermercados, portanto). No capítulo 4 (Falsa ciência na escola) as histórias voltaram a ser repartidas entre os dois autores: CF escreveu sobre as Crianças entre o azul e o violeta e DM redigiu Olhar para uma lâmpada para ter ideias luminosas). No capítulo 5 (Falsa ciência na saúde), CF escreveu Radiações por todo o lado, e Curas quânticas, enquanto DM escreveu sobre A racionalidade diluída da homeopatia, Milagres congelados (que se refere às células do cordão umbilical) e “os movimentos anti-vacinas”. Finalmente, no capítulo 6 (Falsa ciência na ciência), CF escreveu sobre Cientistas espíritas, Ciência sem consciência, Fusão fria e Plástico fantástico, tendo DM escrito sobre a A memória da água e o mágico. No final oferecem-se recensões de quatro livros em português sobre o mesmo assunto que este (não há quatro sem cinco!), algumas indicações de blogues e abundantes notas para o leitor interessado em saber mais. Apesar da divisão descrita, os autores declaram que, aqui e ali, meteram a colher na prosa do outro com autorização recíproca. Isto é, este livro é dos dois.

Alguns dos temas aqui tratados já foram tratados pelos autores no seu blogue De Rerum Natura, um sítio onde se têm multiplicado discussões acerca destes e de outros temas de ciência e cultura em geral. Espera-se que o debate prossiga...

Os autores estão cientes de que algumas pessoas ou grupos se poderão sentir atacados por algumas coisas ditas neste livro. Ma essa não foi, em nenhum momento, a intenção dos autores. Usámos apenas a arma da racionalidade, ajudada por uma pitada de ironia, não para atacar quem quer que seja mas para atacar algumas ideias que circulam. Todas as ideias podem ser discutidas. E há algumas que são altamente discutíveis! Mas às pessoas que eventuamente se zanguem com uma ou outra parte do conteúdo deste livro, lembramos Aristóteles:

"Qualquer um pode zangar-se - Isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na hora certa, pelo certo e da maneira certa - isso não é fácil".

Os autores querem, tal como é costume (pelo menos foi o que fizeram em Darwin aos Tiros), agradecer às suas famílias e aos seus amigos o tempo e a compreensão que lhes deram para eles escreverem estas histórias. Agradecem a José Souto e à Olifante Design o cartune da capa. DM gostaria ainda de agradecer aos biólogos André Levy pela revisão do texto Desenho Inteligente e Francisco Branco pela revisão do texto do Aquecimento Esclarecido.

Querem agradecer antecipadamente aos seus leitores (antecipadamente coisíssima nenhuma, pois já leram até aqui...) E querem agradecer à sua editora, a Gradiva, e, em particular ao seu editor, Guilherme Valente, que continua, com determinação e coragem, a acender, como tão bem disse Sagan, “uma vela na escuridão”.

Coimbra e Lisboa, 2 de Setembro de 2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Cientistas condenados a seis anos de prisão por homicídio

No dia 6 de Abril de 2009 morreram 309 pessoas por causa de um terramoto na cidade italiana de L'Aquila. Três anos depois, em Outubro de 2012, seis cientistas foram condenados pelo homicídio de 29 dessas pessoas. O tribunal considerou que uma comissão nomeada pelo Departamento de Protecção Civil, da qual faziam parte seis cientistas especialistas em sismos, deu falsas garantias de segurança à população. E que essas 29 pessoas teriam ido para um sítio mais seguro, caso não tivessem sido erradamente tranquilizadas quanto à inexistência de perigo iminente de um terramoto na região. Seis dias depois da reunião da comissão de avaliação de riscos, um terramoto de magnitude 6,3 destruiu a cidade e causou  centenas de vítimas.

L'Aquila situa-se na região dos montes Apeninos, uma das zonas de maior risco sísmico de Itália. Desde o início do ano que tinham ocorrido dezenas de abalos de fraca intensidade, que alarmaram a população. Para aumentar a confusão, um técnico de laboratório reformado chamado  Giampaolo Giuliani começou a fazer previsões de terramotos, baseadas em medições das concentrações de radon. A ideia, segundo ele, é que a concentração deste gás varia significativamente nas 24 horas que antecedem um grande terramoto. Mas isso nunca foi provado e aceite pela comunidade científica. Aliás, uma das poucas coisas simples acerca deste assunto é isto: a ciência, no seu estado actual, não consegue prever terramotos.


(clique para aumentar; fonte: nature.com)

Com a Terra a tremer (coisa que não era novidade em L'Aquila) e com um reformado de medidor de radon em punho a prever terramotos, as autoridades locais convocaram uma reunião da Protecção Civil em L'Aquila. Este facto é invulgar, dado que as reuniões desta comissão costumavam ter lugar habitualmente em Roma. Pode-se entender que a sua convocação em L'Aquila tinha como objectivo, à priori, tranquilizar a população. Nessa reunião, que decorreu a 31 de Março de 2009, participaram seis geofísicos e um alto responsável da protecção civil italiana chamado Bernardo De Bernardinis. Ao contrário do que é habitual estiveram ainda presentes cerca de uma dúzia de responsáveis locais, que não são cientistas. Ao fim de uma hora, e também ao contrário do que é habitual, não houve uma declaração conjunta acerca das conclusões do encontro. Houve sim uma entrevista, desastrosa, do vice Presidente da Protecção Civil. Nessa entrevista Bernardo De Bernardinis diz uma mão cheia de barbaridades sem qualquer sustentação científica:


- Segundo ele, a situação era “certamente normal” e não representava “nenhum perigo”.
- Acrescentou que a comunidade científica lhe assegurou que a situação até era favorável, por causa da descarga contínua de energia (os pequenos abalos).
- Quando no final o jornalista lhe perguntou se deveriam tomar um copo de vinho, respondeu afirmativamente e aconselhou os habitantes locais a abrirem uma garrafa de Montepulciano. 

Numa região altamente sísmica como L'Aquila nunca se pode dizer que não há nenhum perigo. Se é verdade que não se pode prever a ocorrência de terramotos, também não se pode prever a sua ausência. E a ideia de que os abalos sísmicos menores reduzem a probabilidade de um grande terramoto, também não tem qualquer apoio científico. Dificilmente algum dos cientistas lhes terá dito alguma destas coisas durante a reunião. Aliás, nada disso consta da acta da reunião, que no entanto apenas foi escrita após o terramoto que iria ocorrer seis dias depois. Os cientistas nada disseram. Aliás, um deles afirmou que apenas soube da conferência de imprensa informal de Bernardo de Bernardinis quando já se encontrava em Roma.

Em L'Aquila há uma cultura tradicional relacionada com a actividade sísmica. Ao longo de gerações as famílias habituaram-se a correr para as praças e locais abertos, assim que há qualquer abalo sísmico. E era isso que muitos dizem que teriam feito com a suas famílias quando a Terra tremeu às 11 da noite de dia 5 de Abril de 2009. Muitos dizem que passaram essa noite em casa, por causa da mensagem tranquilizadora da comissão. E que os seus familiares e amigos mortos não estariam debaixo de tectos antigos e frágeis no dia seguinte de madrugada, quando um terramoto de magnitude 6,3 arrasou a cidade e mudou a vida de todos os seus habitantes para sempre.

Três anos depois o tribunal de L'Aquila considerou os sete membros da comissão culpados de homicídio de 29 pessoas pois, segundo entendeu o juiz, estas teriam procurado um local um seguro na sequência do abalo da noite de 5 de Abril, se não fossem as declarações tranquilizadoras atribuídas à comissão de avaliação de risco. 

No entanto, nenhum dos seis cientistas pertencentes à comissão abriu a boca. E penso que disso podem ser acusados: de não partilharem a sua cultura científica e de não terem corrigido imediatamente Bernardinis. Não apenas os que estiveram presentes na reunião, mas todos os que sabiam que as declarações do vice presidente da Protecção Civil eram disparates empoleirados na credibilidade da ciência. Mas a ideia parece ter sido mesmo essa: foi convocada uma reunião com o objectivo prévio de tranquilizar a população, para a qual os cientistas foram convidados como figurantes. Não deveriam ter deixado. Mas será que estavam em condições de supor o impacto das declarações de  Bernardinis na população de L'Aquila?

Podem ser acusados de muita coisa, essencialmente por omissão. Mas não de homicídio. E muito menos de não preverem o terramoto, porque isso é impossível. O que está aqui em causa, pode condicionar gravemente o papel da ciência na sociedade. Muitos cientistas poderão sentir-se inibidos de dar opiniões ou participar em comissões, se souberem que podem ser responsabilizados por homicídios decorrentes de interpretação de conclusões a eles atribuídas. O que está em causa, é a própria ciência.

E salta também outra coisa à vista: a comunicação da ciência não é uma coisa secundária, uma espécie de manual de etiqueta da Paula Bobone para parecer bem. A comunicação de ciência é fundamental para  o papel da ciência na sociedade.

E não deixa de ser estranho, que num tempo em que os políticos continuam a prestar declarações falsas e a fazer todo o tipo de erros que têm gravíssimas consequências na vida das pessoas (os cortes na assistência médica causam mortes), os cientistas sejam responsabilizados por não terem certezas sobre fenómenos imprevisíveis da natureza.

42 PRÊMIOS NOBEL ALERTAM EUROPA PARA PERIGO DOS CORTES NA CIÊNCIA!



A los jefes de Estado o de Gobierno de los países de la UE, a los presidentes de las Instituciones de la UE:

A menudo se dice que toda crisis también presenta una oportunidad. La crisis actual nos obliga a tomar decisiones, y una de ellas se refiere a la ciencia y su apoyo. Allá por el año 2000, ustedes y sus predecesores acordaron el objetivo de convertirse el área “basada en el conocimiento más dinámica del mundo en el año 2010”. La intención era ambiciosa y noble, pero el objetivo ha quedado muy lejos.
La ciencia puede ayudarnos a encontrar respuestas a muchos de los problemas acuciantes a los que nos enfrentamos: nuevas formas de aprovechar la energía, nuevas formas de producción y nuevos productos, nuevos marcos para entender cómo funcionan las sociedades y cómo podríamos mejorar su organización.
Estamos justo en el comienzo de una nueva y revolucionaria comprensión de cómo funcionan nuestros cuerpos con consecuencias incalculables para nuestra salud y longevidad futuras.
Europa está a la vanguardia de la ciencia en muchas áreas. La transformación de este conocimiento en la innovación de nuevos productos, servicios e industrias es la única forma de dotar a Europa de una ventaja competitiva en el cambiante panorama mundial y asegurar a largo plazo la prosperidad futura de Europa.
El conocimiento no conoce fronteras. El mercado global de talento sobresaliente es altamente competitivo. Europa no puede permitirse perder a sus mejores investigadores, y se beneficiaría fuertemente de la atracción de talento extranjero.
La reducción de los fondos disponibles para la investigación de excelencia se traduce en un menor número de investigadores que alcanzan esta condición. En caso de una severa reducción en el presupuesto comunitario de investigación e innovación corremos el riesgo de perder una generación de científicos de talento, justo cuando Europa más los necesita.
En este sentido, el Consejo Europeo de Investigación (ERC) ha logrado un reconocimiento mundial en un tiempo extraordinariamente corto. El ERC financia a los mejores investigadores donde se encuentren en Europa, independientemente de su nacionalidad: investigadores excelentes con proyectos excelentes. El ERC complementa la financiación nacional de la investigación fundamental, añadiendo un valor adicional a la excelencia.
La financiación de la investigación a nivel de la UE cataliza un mejor uso de los recursos disponibles y ayuda a que los presupuestos nacionales sean más eficientes y eficaces. Estos recursos de la UE son extremadamente valiosos pues han demostrado su capacidad de lograr beneficios esenciales para la ciencia europea, así como beneficios crecientes a la sociedad y un aumento de la competitividad internacional.
Es fundamental que sigamos apoyando, y más importante aún, inspirando la extraordinaria riqueza del potencial de investigación e innovación que existe en toda Europa. Estamos convencidos de que la nueva generación de investigadores también hará oír su voz y deberán oír lo que tienen que decir.
La pregunta que queremos plantearles, a ustedes, jefes de Estado o de Gobierno y presidentes reunidos en Bruselas los días 22-23 de noviembre para discutir el presupuesto de la UE para el periodo 2014-2020, es simple: cuando se anuncie el acuerdo para el futuro presupuesto de Europa, ¿cuál será el papel de la ciencia en el futuro de Europa?

Firmado por 42 premios Nobel y galardonados con la medalla Fields: Sidney Altman, Werner Arber, Robert J. Aumann, Françoise Barré-Sinoussi, Günter Blobel, Mario Capecchi, Aaron Ciechanover, Claude Cohen-Tannoudji, Johann Deisenhofer, Richard R.Ernst, Gerhart Ertl, Martin Evans, Albert Fert, Andre Geim, Serge Haroche, Avram Hershko, Jules A. Hoffmann, Roald Hoffmann, Robert Huber, Tim Hunt, Eric R. Kandel, Klaus von Klitzing, Harold Kroto, Finn Kydland, Jean-Marie Lehn, Eric S. Maskin, Dale T.. Mortensen, Erwin Neher, Konstantin Novoselov, Paul Nurse, Christiane Nüsslein-Nolhard, Venkatraman Ramakrishnan, Richard J. Roberts, Heinrich Rohrer, Bert Sakmann, Bengt I. Samuelsson, John E. Sulston, Jack W. Szostak, John E. Walker, Ada E. Yonath, Rolf Zinkernagel, Harald Zur Hausen; Pierre Deligne, Timothy Gowers, Maxim Kontsevich, Stanislav Smirnov, Cedric Villani.



Os proponentes pedem o apoio de todos os membros da comunidade científica.Click no link abaixo para dar seu apoio:
Sign the petition - and invite others to join!


Mas os velhos e doentes, Senhor Ministro Vitor Gaspar, porque lhes dais tanta dor?


“A cura está ligada ao tempo e, às vezes,  também às circunstâncias” (Hipócrates, 460 a. C. – 377 a. C.).

As deduções para efeitos de IRS, plasmadas na Proposta de  Orçamento de Estado / 2013, dão expressão  a nuvens que se vinham a acastelar no horizonte de um País em evidente descalabro económico e social e onde  boa parte da factura está a recair sobre os reformados achacados pela velhice e pela doença que, normalmente, lhe subjaz.

Não é de agora a minha crítica a este statu quo! Competindo-me o ónus da prova, detenho-me nas deduções  com despesas de saúde em vigor até 2011,  último ano em que os portugueses podiam  deduzir sem limite 30% das despesas com a saúde no seu IRS. Porém, se for aprovado o actual Orçamento de Estado, os doentes, em alguns escalões da classe média, apenas poderão deduzir 10% destas despesas até um valor de 838,44 euros. Ou seja, em Portugal,  a condição de velho e doente crónico, com “pesares que os ralam na aridez e na secura da sua desconsolada velhice” (Garrett), em vez de ser havida como uma desgraça, passa a ser taxada como um luxo de quem costuma passar férias nas Bahamas. Que não se pense que a minha posição pública sobre esta temática  sofre do oportunismo  em  chamar a atenção para algo que só agora ocupa a minha preocupação social. Vade retro, Satanas!, escrevi neste blogue um post intitulado “IRS, Doença e Velhice" (13/05/2011), de que transcrevo partes:

“Em vésperas de mais uma eleição legislativa, teve lugar na SIC, no dia 11 do corrente mês, um frente a frente entre José Sócrates e Francisco Louçã em que seria confirmada pelo Partido Socialista a redução do tecto destinado a despesas com a saúde, para efeitos de IRS: 2/3 da que está actualmente em vigor. Por seu turno, em Francisco Louçã - bronzeado por umas férias da Páscoa em praias de Cabo Verde, enquanto os membros da  'Troika' tentavam encontrar uma solução para evitar que a bancarrota se instalasse no nosso país -, assistiu-se, ao contrário da sua habitual agressividade tribunícia, a uma certa bonomia, ou mesmo apatia, ao debater esta temática como se estivesse perante uma questão de lana caprina.”

Mesmo sem  a intenção de estabelecer uma cronologia de diversos outros títulos por mim publicados neste local  sobre esta temática, reproduzo, apenas,  integralmente,  um intitulado “A Balada da Neve, os velhos e os doentes” (01/03/2012). Nele escrevi:
“Em medida preconizada pelo actual governo [do Partido Socialista], passará a contar para efeitos de desconto do IRS apenas 10% de despesas de saúde do contribuinte agravadas por um determinado tecto, enquanto, em anos anteriores, essa dedução abrangia 30% sem qualquer limitação. Ou seja, em Portugal, país de brandos costumes para quem não merece e de mão de ferro para quem não deve, a condição de velho e doente crónico, em vez de ser havida com uma desgraça, passa a ser taxada como uma bem-aventurança.

 (…) Digno de crítica me parece - porque afectando pessoas idosas muito diminuídas por doenças graves e/ou crónicas, e, como tal, 'com pesares que os ralam na aridez e na secura da sua desconsoladora velhice ' (Garrett) - uma outra medida do Partido Socialista em defesa de uma redução do plafond com as despesas de saúde para efeitos de IRS, penalizando, desta forma, inevitáveis gastos com médicos e medicamentos. Aliás, medida aproveitada pelo actual Governo em terreno previamente adubado pela governação de Sócrates.

 Como escreveu Jean-Baptiste Colbert, ministro de Estado e da Economia de Luís XIV, 'o acto detributar é idêntico ao depenar de um ganso, procurando obter o máximo de penas com a menor gritaria'. Pelos vistos, os queixumes dos velhos e os gemidos dos doentes vítimas desta penalizante redução não serão suficientemente ruidosos para evitar o actual depenar dos que sofrem. Mas não deverá ser obrigação de qualquer governo de rosto humano a constante preocupação com a saúde dos seus cidadãos? Ou seja, como advertiu, já no século XIX, Henry Thoreau, 'os cidadãos hão-de aprender que a política não é moral ocupando-se apenas do que é oportuno'.

Simples contas de cabeça são suficientes para demonstrar a falta de razoabilidade em deixar adoecer a população por poupança forçada nos respectivos cuidados de saúde que terão como desfecho trágico passar-se a gastar rios de dinheiro da fazenda pública com o subsequente estado de agravamento de doenças em estratos de pessoas menos abastadas. Aliás, a excepção das grandes fortunas confirma a regra de uma pobreza quase generalizada por um desemprego crescente e diminuição acelerada do poder de compra, fazendo com que a classe média seja substituída por uma legião de remediados obrigados a contar os cêntimos no dia-a-dia gastos para sobreviver com um mínimo de vergonha na cara para não acumular dívidas difíceis de saldar.

É reconhecida a humanização da saúde em países com preocupação de natureza social. Só se ignora em Portugal onde, por exemplo, foi defendida, por Manuela Ferreira Leite, na 'SIC Notícias' (10/01/2012), a medida economicista de serem restringidos os gastos com a saúde, através da não comparticipação estatal de sessões de hemodiálise para maiores de 70 anos. Desta forma desapiedada (em que a partir dos 70 anos de idade os pobres e remediados perderiam o 'direito à vida', consignado no artigo III da Declaração Universal dos Direitos Humanos) seriam reduzidas as despesas com as reformas e com a saúde dos portugueses vítimas de letais patologias renais.

Mas abandonar os doentes à triste sina de uma criminosa l eugenia nem sequer é original. Segundo o filósofo romano Séneca, 'matam-se os cães quando estão com raiva; exterminam-se os touros bravios; cortam-se as cabeças das ovelhas enfermas para que as demais não sejam contaminadas; matamos os fetos e os recém-nascidos monstruosos se nascerem defeituosos e monstruosos. Afogamo-los, não devido ao ódio, mas à razão, para distinguirmos as coisas inúteis das saudáveis '.


Ou seja, por a doença ser tida, ao longo dos tempos, como pesado fardo de uma sociedade que encara a saúde em termos de gastos públicos, os recém-nascidos da Roma Antiga, com malformações congénitas, e os actuais doentes renais, no Portugal do século XXI, com 70 ou mais anos de idade e carências económicas, necessitados da hemodiálise para sobreviver como que se identificariam num destino trágico. Daqui, a reevocação adaptada que faço da 'Balada da Neve': 'Mas os velhos e doentes, senhores governantes,/ Porque lhes dais tanta dor?!... / Porque padecem assim?! '.”

Mas sabendo nós (e o ministro Vitor Gaspar, com o seu prestígio académico, dentro e fora de fronteiras nacionais, melhor o saberá!) que os recibos passados pelos médicos e farmácias constituem  um fonte  de receita do IRS, o previsto relaxamento desta medida constituirá uma perda evidente de rendimentos para a fazenda pública, criando uma forma de economia paralela que vigora em profissões que não passam recibos porque o cliente o não exige, por não ganhar nada como isso,  amontoando, como tal,  papelada para lançar no lixo na altura de preencher a respectiva declaração de IRS de quantias que excedam os 838,44 euros anuais.  Não será uma  forma de poupar na farinha sem proveito para o farelo?
Por último, perante as actuais medidas constantes do Orçamento de Estado, Senhor Professor Vitor Gaspar, digníssimo  Ministro das Finanças, não existirá o perigo de termos de dar razão a Woody Allen quando ele nos diz que  “o político de carreira é aquele que faz de cada solução um problema” ? Vossa Excelência, prosseguindo na senda de medidas preconizadas em anterioridade pelo Partido Socialista, limita-se, agora,  a dar-lhes forma legal por não conseguir (ou não querer?) procurar uma solução que tivesse em devida conta as exigências mínimas de humanidade para com os velhos e doentes.

Apostando dobrado contra singelo, acredito que quem votou no Partido Social Democrático, e em consequência num Governo que toma dolorosas medidas restritivas no âmbito da Saúde,  não o fez por querer mais do mesmo. Mais acredito que Vossa Excelência, por sua vez, nos recônditos da vossa consciência, concordará comigo por " a vida ser o último hábito que se quer perder por ser o primeiro que se toma", como escreveu Alexandre Dumas Filho. 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Seis cientistas foram condenados a seis anos de prisão: Um dos veredictos mais absurdos dos últimos tempos!

Veja video no link abaixo:


AS CIÊNCIAS DA TERRA NA IDADE MÉDIA (3)

Terceira parte do texto As ciências da terra na Idade Média, do Professor
Galopim de Carvalho. A primeira parte encontra-se aqui e a segunda aqui.

                                       Na corte de Afonso X (o Sábio) de Castela e Leão

Ao tempo dos nossos reis Sancho II e Afonso III e do rei de Castela e Leão, Afonso X (1221-1284), o Sábio ou o Astrólogo, a corte deste monarca foi uma autêntica academia científica no espaço mediterrâneo, tendo marcado um período excepcional no culto da sabedoria, conhecido por Renascença do século XIII.

Judeus, árabes e cristãos conviveram nesta corte em absoluta harmonia e respeito pela cultura e pela ciência. Este, que também foi o imperador eleito do Sacro Império Romano - Germânico (mas que não exerceu esse cargo), realizou a primeira reforma ortográfica do castelhano, língua que adoptou oficialmente, em substituição do latim.

A histórica escola de tradutores de Toledo, reunindo cristãos, judeus e muçulmanos, traduziu grande parte dos textos da antiguidade clássica, obras que foram consideradas as principais responsáveis pelo renascimento científico de toda a Europa medieval. Visto como o mais ilustre professor da Faculdade de Teologia da Universidade de Paris, o dominicano alemão Albrecht von Bollstädt (1206-1280), ficou conhecido entre nós por Alberto, o Grande, ou Alberto Magno e, também, por Maître Aubert, ou simplesmente Maubert, o Doctor Universalis, como era citado.

Tendo dedicado muito do seu tempo em domínios da alquimia e estudado a filosofia de Aristóteles e a dos filósofos árabes, produziu uma das mais importantes sínteses da cultura medieval e defendeu a coexistência pacífica da ciência e da religião, tendo sido particularmente eficaz na aplicação das ideias aristotélicas no pensamento cristão. Mas não se limitou a repetir a obra do grande filósofo. Procurou recriá-la com a sua própria experiência e as suas observações.

No propósito de subordinar o aristotelismo à fé cristã, o Papa Gregório IX incumbiu Alberto dessa tarefa. Em resultado do seu trabalho, a física e a metafísica, a lógica, a ética, a psicologia e a política do estagirita [1]  passaram a fazer parte da escolástica. Lembrado como o maior filósofo e teólogo europeu da Idade Média, foi também figura de grande prestígio no mundo da ciência do seu tempo, em domínios mais tarde incluídos na química e na mineralogia que realizou na sua qualidade de alquimista.

Após concluir os seus estudos em Pádua e em Paris, Alberto optou pela vida religiosa, ingressando na Ordem de São Domingos, em 1223, tendo chegado à dignidade de Bispo de Regensburgo (Ratisbona).

Do outro lado do Canal, considerado o mais admirável cientista da Idade Média, Roger Bacon (1214-1294), filósofo e alquimista inglês, foi pioneiro na estruturação do método experimental, como forma de validação do conhecimento científico. O seu papel nas ciências da Terra decorre da sua visão sobre a ciência em geral. O seu nome ficou ainda ligado à matemática (trabalhou na correcção do Calendário Juliano) e, principalmente, à óptica. Estudou em Oxford nesta Universidade, bem como na de Paris.

Frade franciscano, viveu um período onde o influxo de obras escritas dos filósofos gregos, vindas através das já citadas traduções, revolucionava a vida intelectual do ocidente europeu. Bastante influenciado por estes textos, foi um dos principais europeus do seu tempo a ensinar a filosofia de Aristóteles. Colocando ênfase considerável sobre os procedimentos empíricos, lutou contra as chamadas ideias inatas. Face a esta sua acção inovadora, ficou na história com o título de Doctor Mirabilis (Doutor Admirável, em latim).

Propondo novas metodologias de investigação científica, colocou em causa os métodos de ensino praticados por franciscanos e dominicanos, o que o tornou impopular perante as autoridades eclesiásticas.

Consciente de que a escolástica fora concebida como uma via para conciliar a razão com a fé, não deixou de salientar as virtudes desta disciplina medieval, mas apontou-lhe os vícios, em especial os que misturavam os dogmas da Igreja com a filosofia, defendendo a separação entre a teologia e o saber científico, numa atitude coincidente com a dos comentadores árabes de Aristóteles, entre os quais, Averróis.

Esta atitude de Bacon germinou mesmo no seio da Igreja e teve aí seguidores que defendiam a separação da filosofia da teologia, afirmando que esta não é uma ciência, uma vez que as suas deduções não assentam em dados concretos, observáveis e experimentáveis, mas em premissas sustentadas e, tantas vezes, impostas pela fé. Na medida desta nova atitude perante o conhecimento científico, as ideias sobre a origem, a história e a natureza da Terra começam a apontar o caminho que as afastou das crenças ancestrais e as conduziu às preocupações, em primeiro lugar, dos naturalistas e, mais tarde, dos geólogos.

Deve-se a Bacon a criação e divulgação do conceito de "leis da natureza", facto importante num período em que, como se disse, estavam ocorrendo modificações no pensamento filosófico, em geral, e na filosofia natural, em particular. Restrições censórias e perseguições movidas pela Ordem Franciscana que, em 1272, proibiu a divulgação dos seus livros, afectaram uma parte importante da sua criatividade intelectual. Esta sua dissidência face à hierarquia e a sua actividade nas práticas alquímicas (entre outras, descobriu a combinação perfeita da pólvora) levaram-no à prisão por mais de uma década. Contemporâneo de Bacon, o dominicano italiano Tomás de Aquino (1225-1274), distinto aluno de Alberto Magno e autor da influente obra Summa Theologica, ficou na história da filosofia e da teologia com o título de Doctor Communis ou Doctor Angelicus.

Considerado um dos principais expoentes da escolástica, foi o criador do Tomismo, a doutrina adoptada oficialmente pela Igreja Católica, que, sem deixar de valorizar o pensamento de Platão e o misticismo de Santo Agostinho, visou, sobretudo e uma vez mais, integrar o filosofia aristotélica nos textos bíblicos, criando uma outra, inspirada na fé, numa espécie de teologia científica.

Não irmanado com qualquer ordem religiosa, ao invés da grande maioria dos intelectuais da Idade Média ligados quer aos franciscanos, como Bacon, quer aos dominicanos, como Tomás de Aquino, o francês Jean Buridan (c.1300-1360), reitor da Universidade de Paris, foi um clérigo e filósofo liberto das amarras impostas pela religião o que lhe permitiu o avanço em domínios da ciência que marcaram a sua obra.

Como professor na mesma Universidade ao longo de uma vida, ensinou e escreveu sobre Lógica, Metafísica, Ética e Filosofia Natural numa metodologia e numa prática entendidas como seculares, isto é, distintas da teologia. Considerado o filósofo francês mais influente, no século XIV e nos dois ou três que se lhe seguiram, desenvolveu o conceito físico de impulso, dando, assim, o primeiro passo no sentido do moderno conceito de inércia, inexistente no pensamento de Aristóteles.

Com interesse na história do pensamento geológico, Buridan reformulou uma ideia vinda da Antiguidade, ao escrever: “Onde hoje se encontra o mar foi outrora terra e, inversamente, onde a terra firme está no presente, esteve o mar e aí voltará”. Uma outra afirmação sua, que demonstra ter compreendido a globalidade do ciclo de erosão, diz: “A erosão torna mais leves os continentes que, aplanados, tendem a erguer-se, e torna mais pesados os oceanos, pela deposição de sedimentos, que tendem a afundar-se”, o que, não obstante algum desconhecimento próprio da época, revela ter ele tido a percepção da isóstase.

Buridan falava, ainda, de ciclos na história da Terra com 120 milhões de anos, uma ousadia face às ideias tradicionais impostas pelas Escrituras Sagradas, o que mostra que tinha a percepção da imensidão do tempo geológico. Noutro plano, dizia ele que os movimentos dos céus estão submetidos às mesmas leis dos movimentos dos corpos na Terra. Para ele havia uma única mecânica que regia todos os corpos, desde a esfera do Sol ao pião que se põe a rodopiar.

Alvo de uma campanha encorajada por Roma e concretizada por partidários do franciscano e escolástico inglês, a obra escrita de Buridan foi proibida pela Igreja Católica e colocada no famigerado Index Librorum Prohibitorum, promulgado pelo Papa Paulo IV, em 1559, com uma versão revista e autorizada pelo Concílio de Trento, em 1563.

[Designação que era dada a Aristóteles pelo facto de ser natural à antiga cidade de Estagira (hoje Stavro), na Macedónia]

Galopim de Carvalho

Ruído e poeira

A partir do infeliz passo do Governo com a TSU gerou-se tal gritaria e poeirada que o importante não se consegue ouvir nem ver. Menos ainda pensar.

O Governo foi inepto, já toda a gente o sabe. Convenceu-se de que a calma lusa vinha da consciência da situação económico-financeira e da necessidade de endireitar as coisas. E é verdade. Apesar de tudo temos o bom senso de perceber que, quer a nível público quer privado o crédito fácil levou-nos a muitos passos em falso. Era difícil resistir, de resto. Temos agora seguir o bom senso. Contudo, face às dificuldades crescentes e à desinformação, a irracionalidade está a vir à superfície.

É urgente a política, no sentido nobre do termo, mas o que rende, pensam muitos, é o ruído e a poeira. Os partidos não ajudam, já todos sabem, são uma grande parte do problema. Bloqueados mentalmente de dentro para fora e blindados legislativamente de fora para dentro, afastam-se cada vez mais do País impedindo uma dinâmica de transformação qualificadora.

À esquerda é o que se sabe: demagogia, demagogia. Como se não vivêssemos a crédito, nem dependêssemos dos credores, nem estivéssemos integrados na União Europeia, nem tivéssemos uma indústria débil, nem precisássemos de pagar quase tudo o que comemos, etc. O PC e o BE, vivendo num mundo fechado, insistem em ideias desadequadas, anacrónicas e vazias. E em estratégias que só são boas na cabeça deles, como as recentes moções de censura. E com a outra, de tão “bons” resultados políticos e económicos, lembram-se? O PS, por outro lado, dá uma no cravo, outra na ferradura, procurando fugir às responsabilidades em tudo isto e tentando convencer-nos de que, no Governo, iria fazer diferente e melhor. A Direita, dominada pela finança especulativa, desvaloriza pessoas, trabalho e produção, e alienada na voragem do dinheiro que se reproduz do nada, está dizimando a classe que a alimenta.

Ironia da História: a burguesia está a ser destruída, não pelo proletariado mas pelo capital, que a proletariza, conseguindo assim o milagre de confirmar a teoria marxista, mesmo que de pernas para o ar. O certo é que, agora, todos gritam, muitos se acham como o direito a ser malcriados e grosseiros via telejornal, e as televisões gostam muito disso mostrando o pouco nível que têm. O certo é que se criou uma atmosfera de PREC que só nos prejudica. Isto não interessa a ninguém, salvo a alguns que se estão marimbando para o povo real em nome do povo abstrato.

Nesta confusão nem a Comunicação social se salva. A maior parte grita se ouve gritar, cala-se quando não ouve vozes, corre para onde vê os outros correr, diz o que toda a gente diz, repete o que todos repetem, sem querer saber se é certo ou errado, se nos favorece ou nos prejudica. Agir no bom sentido é, muitas vezes, dizer o contrário da maioria, chamar a atenção para o que não se sabe e não para o que todos vêem e dizem.

Como explicar, por exemplo, que não nos informem sobre as razões de algumas greves que por aí andam, inundando-nos com informações que desinformam? Por exemplo, mais do que saber que os condutores do Metro, os maquinistas da CP e os pilotos dos portos estão a fazer greves, e entrevistar os massacrados utentes, os portugueses gostariam de saber qual o salário líquido desses trabalhadores, horário de trabalho, regalias, habilitações e preparação técnica exigidas, etc. E depois comparar com os profissionais de tarefas idênticas, em Portugal, para avaliar das suas razões. E com os colegas na generalidade dos países europeus, incluído os de Leste. Isso, sim, seria informar. Talvez muitos dos que fazem estas greves tão lesivas para a economia deixassem de as fazer.

João Boavida

Os Anos Devastadores do Eduquês


Café, Livros e Ciência


Um dos maiores problemas que Portugal enfrenta no presente é o da qualidade do seu sistema de ensino. Sob a capa de um pretenso igualitarismo baseado numa forma de pensamento único, infiltrou-se a todos os níveis das várias instâncias implicadas no ensino, aprisionando-as numa estrutura totalitária. Guilherme Valente que, como editor da Gradiva, sempre se pautou pela diversidade e inovação, foi uma das primeiras vozes a denunciar os perigos da ideologia que se instalou nesta área fundamental para a formação da cidadania. Nas páginas de Os Anos Devastadores do Eduquês, o leitor encontrará a maior parte das suas intervenções públicas.

Guilherme Valente apresenta o seu livro no dia 25 de Outubro às 18:00 horas no Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a que se seguirá debate moderado por Carlos Fiolhais.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Mecânica dos Fluídos: Entenda e Determine a Viscosidade de um Fluido



Veja detalhes no video abaixo


Convite


Contas são contas: CFD=(7CIF+3CE)/10



Andam demasiadas contas no ar, há demasiado tempo, no ensino secundário.
À simplicidade desarmante de há meio século atrás—tem mais de 10 valores, passou; tem menos, «chumbou»—substituíram-se cálculos com feitio de sofisma, empenhados, complexos, apuradíssimos e considerados justos, que ficaram lindos no retrato por tentarem fazer várias coisas em simultâneo:
—anular os efeitos perversos do «tem menos de 10, chumbou», fonte de variadas injustiças, em particular quando os resultados da frequência eram tangenciais, mas insuficientes;
—anular, em geral, os efeitos de um sistema quantitativo totalmente cego a circunstâncias;
—anular a predominância de um processo de avaliação externa sobre as práticas de avaliação interna;
—anular a própria importância de qualquer processo de avaliação externa.
Bom, resultou em toda a linha:
—ter menos de 10 pôde dar acesso, e ainda pode, a muito ensino universitário; significou, até há muito pouco tempo atrás, uma progressão pouco controlada por uns vagos níveis de 3, no ensino básico—com pouca ideia da distinção entre o que era tangencial, o que era secante, e o que passava de largo;
—as circunstâncias, dificilmente quantificáveis por natureza, justificaram que as quantificações mais delirantes fossem aplicadas à ponderação de resultados de 0 a 20;
—o processo de avaliação interna, particularizado até ao desnorte, resultou nas mais gritantes injustiças: que professor fazia o quê, em que estabelecimento de ensino, que era conveniente para os objetivos dos nossos meninos, resumindo-se numa boa relação entre os 30% do exame e os 70% da frequência?
—os exames—a avaliação externa—ficaram meticulosamente desacreditados.
Das contas que andam no ar, podemos exemplificar algumas práticas correntes:
Sara S., regularmente boa aluna, teve a vida seguinte:
10.º ano: média de 14; 11.º ano, média de 16; exame nacional, 19,7. Nota final, 16,4.
Ana S., igualmente estudiosa, fez o que se segue:
10.º ano: média de 15; 11.º ano, média de 16; exame nacional, 19,1. Nota final, 16,9.
João T., aluno xpto, foi assim:
10.º ano: média de 16; 11.º ano, média de 17; exame nacional, 19,2. Nota final, 17,6.
João L., emérita criatura, fez isto:
10.º ano: média de 15; 11.º ano, média de 18; exame nacional, 18,5. Nota final, 17,4.
Muito bem: chega.
Agora, o contraste:
Ricardo M., rapaz inteligente, foi subindo ao longo dos dois anos:
10.º ano: média de 11; 11.º ano, à beira do 16, anulou a matrícula: o 11 era letal; exame nacional, 19,9. Nota final, 19,9.
Vera R., menina não menos inteligente, era irregular nos estudos; então:
10.º ano: média de 11; 11.º ano, por volta do 14, anulou a matrícula: o 11 era letal; exame nacional, 20. Nota final, 20.
Sara C., inteligente mas um bocado cábula, posa para a fotografia:
10.º ano: média de 11; 11.º ano, aí pelos 13, anulou a matrícula: o 11 era letal; exame nacional, 17,1. Nota final, 17,1.
Dir-me-ão: está bem—anularam a matrícula, puseram-se a estudar por si, aprenderam, tiveram boas notas no exame.
Direi eu: nã senhora, a anulação foi no 3.º período do 11.º ano, estratégica. Continuaram a frequentar as aulas, a fazer os testes, a preparar-se tal e qual como os colegas. A ida a exame foi de balde e esponja na mão, para apagar o passado. Sabiam-se preparados, estudaram como nunca antes, jogaram tudo naquela nota. Ganharam!
Para o professor, como é evidente, nem se colocou recusar-se a acompanhá-los até ao último dia de aulas. São excelentes pessoas, e estão a fazer pela vida. Mas o professor tem, por dever de ofício, um ângulo de abordagem mais abrangente e constrangedor que o exame: as médias são as médias; a lei é a lei.
Então, vamos sintetizar:
Sara S., regularmente boa aluna:
10.º ano: média de 14; 11.º ano, média de 16; exame nacional, 19,7. Nota final, 16,4.
Sara C., regularmente cábula:
10.º ano: média de 11; 11.º ano, anulou a matrícula; exame nacional, 17,1. Nota final, 17,1.
A Sara C. mereceu? Claro que sim!
Mas não vai sendo altura de repensar a legislação?
Não será mais justo que—para começo de conversa—a nota de exame, a ser superior, deva substituir a nota da frequência? Já que universidades e institutos não têm nenhum trabalho a analisar candidatos?
 Claro que as duas notas poderiam emparelhar de outra forma: a escola produziria a dita classificação interna de frequência; os exames uma classificação própria. Ambas, separadamente, seriam a informação final dos estudos secundários. O prosseguimento de estudos far-se-ia por candidatura independente ao local do crime: seria a instituição seguinte a exigir as entrevistas, as provas, os filtros que entendesse.

Ou audaces fortuna juvat, e estamos conversados?
…
Há dias em que os Romanos me enfastiam…
António Mouzinho
P.S.: Mesmo a propósito, a Fundação Francisco Manuel dos Santos, que tem a rolar novo ciclo de conferências sobre o tema da educação, recebeu, a 11 de outubro, três oradores na Torre do Tombo, após a usual apresentação de Carlos Fiolhais: Jeffrey Karpicke (U. Purdue), Hélder de Sousa (GAVE) e Leandro Almeida (Inst. Educ. U. Minho). O tema foi «A avaliação dos alunos»; falarei disto noutra ocasião.
Interessa-nos aqui, por agora, uma exclamação de Hélder de Sousa: os exames só valem 30%, felizmente (como quem diz: estão muito bem assim…).
Acrescentou uma professora, no período de debate, tentando provar a iniquidade desta média: não se entende como é que uma média de frequência (CIF) faz parelha com uma nota de exame (CE) para, mediante umas ginásticas de percentagens, produzirem uma nota final (CFD). Na classificação interna estão em jogo muitas coisas, e é como somar laranjas com bananas.
Julgo que a colega pretendia desvalorizar o contributo da nota de exame…
… mas a afirmação também serve para fazer o contrário: se tudo fosse semelhante, poderia defender-se que estava bem assim. Acontece que muitos professores se gabam de ponderar, nessas classificações internas, resultados não quantificáveis.
Ponderam, como? Os métodos variam, mas é com algum à-vontade que envolvem, na nota, uns coisos a que chamam atitudes, e coisas a que chamam transversalidades, e loisas a que chamam outras competências. Hop, presto, já está!: a avaliação sumativa (é verdadeira lixa linguística, este termo!) tem destes passes de mágica, e faz média com o exame.
P.P.S.: Ao chegar a casa relatei à minha mulher a perplexidade da colega que não via como fazer contas com CIF e CE, acrescentando que era como somar laranjas e bananas. A minha mulher explicou-me que dava uma papa ótima, a que também se poderia juntar uma bolachinha. Ora aqui está!
AM

"POUPAR: UM COMPROMISSO COM O FUTURO" QUE AGREGA A NAÇÃO

Para que não restassem dúvidas de que a dita "educação" financeira ,  inscrita na Estratégia Nacional de Cidadania e Desenvolvimen...