domingo, 24 de abril de 2011

Transparência, Justica e Liberdade

Informação chegada ao De Rerum Natura. Amanhã, dia 25 de Abril, pelas 17 horas, na FNAC do Norte Shoping, no Porto, a apresentação de um livro fundamental, em homenagem a Saldanha Sanches: Transparência, Justica e Liberdade, de Luis de Sousa e de Domitília Soares.

É possível recuperar?

Um dos comentários que o meu post “O puzzle” provocou foi o de que, sendo assim, o que poderemos fazer?

Está tudo encadeado, somos peças do mesmo conjunto, farinha do mesmo saco e, portanto, não só encaixamos uns nos outros como também nos apoiamos mutuamente. Como os edifícios nas antigas ruas onde, a queda de uma velha casa arrasta frequentemente a queda de outras. As atitudes e os comportamentos das pessoas, bons ou maus, são sempre um exemplo positivo ou negativo para os outros. Já se sabe, os bons estimulam-nos aos comportamentos corretos, os maus dão azo a que se sigam os seus (maus) exemplos.

Neste caso, se outros o fazem, eu também o posso fazer, pensam muitos. Está errado, moral e logicamente, mas funciona em termos psicológicos e sociais. E, portanto, tal como nos edifícios, a melhor maneira de todos se manterem de pé é que nenhum comportamento moral venha abaixo, ou que não sejam muitos, para a derrocada não ser total.

Ora, se há todo um processo social e moral tradicional entre nós em que as falhas se potenciam umas às outras, abaixo da linha de água, não só nos andamos a deseducar em geral, há muito tempo, como corremos o risco de não termos salvação possível e qualquer dia acharmos, todos, que o mal é que está bem e que o bem é que está mal; ou seja, chegarmos à completa inversão de valores.

Olhando para Portugal, às vezes dá a impressão que vamos nesse caminho. A mentira arvorada em verdade, as voltas que se dão para que os factos deixem de ser o que foram, a dificuldade cada vez maior em saber ao certo quem mente e quem fala verdade, etc., etc.

É sabido, os discursos criam os seus sentidos, as suas lógicas internas, e que com eles se ganha a aparência de verdade com que se engana o ouvinte, etc. Mas não é aceitável que se utilize isso para fazer com que a verdade seja aquilo que a gente quer, ou que o discurso organize a sua verdade com o propósito evidente de nos enganar. É o que se vê na política, a toda a hora, e da esquerda à direita.

Não é aceitável e devemos todos denunciar isso, e lutar por todos os meios contra este processo de alienação geral, que nos embrutece e compromete o nosso futuro coletivo. Embora difícil, é possível romper este cerco, e alargar os círculos daqueles que os rompem; mas o grande problema é por onde começar.

É claro que, enquanto povo, temos coisas muito boas, mal de nós se assim não fosse, e há imensas exceções a esta praga, mas em questão de desleixo social, de falta de noção de bem público, de irrespeito pelas competências, de amiguismo, estamos num nível muito baixo.

E o mal está tão interiorizado nos hábitos e nos sentimentos que acaba por ter sentido o anúncio do Licor Beirão em que aparece o Futre com uma das suas “soluções” para Portugal. Para diminuir o desemprego em Portugal: “Cunhas para todos!” (Não pensa é que se houver cunhas para todos, como há cunhas fortes e cunhas fracas e a solução só se obterá com cunhas fortes… lá temos outra vez o problema).

A gente ri-se, mas a coisa não tem piada nenhuma porque parece que não compreendemos o verdadeiro desastre social e económico que isso provoca. E o pior ainda é que muitos percebem isto muito bem mas, tendo possibilidade de o combater, não só não o fazem como o promovem, julgando-se a salvo. Mas de facto ninguém está a salvo.

O último congresso do Partido Socialista é exemplo acabado de um mau serviço ao País. O partido unido, em bloco, defendendo uma posição que se sabe que é, na melhor das hipóteses, apenas uma parte da verdade, e uma encenação fabricada ao pormenor, a versão do líder repetida até à exaustão, com o intuito de não reconhecer erros, de falsear os factos; onde é que isto ainda existe? Na Coreia do Norte? Em Cuba? Não é aceitável numa democracia moderna.

Onde está a honestidade intelectual de toda aquela gente? Valha-nos um Rómulo Machado, ou um Manuel Maria Carrilho, mas é muito pouco. Uma outra atitude ficar-lhes-ia muito bem e a prazo daria muito bom resultado. Se os bons exemplos e as normas de uma sã competição viessem dos partidos e dos políticos as coisas começavam a compor-se na sociedade. Mas quem convence estas mentes de que a sua deformação é um enorme contributo para que alguns dos nossos males mais entranhados se perpetuem?

Ainda virá o tempo em que alguém reconhecerá que se as pessoas que dirigiram os partidos tivessem sido mais honestas e intelectualmente mais sólidas, estaríamos todos muito mais ricos e evoluídos. Neste momento, criar “verdades” à moda de Estaline só aumenta a desconfiança e agrava o desastre. Não percebem que hoje, mais do que nunca, ser sério e realista é ter futuro político?

Bom, mas como não podemos contar com eles, que deveremos fazer nós? Por onde começar?

Comecemos por algum lado. Temos que começar por algum lado. De qualquer modo, o homem é um ser inteligente, que confrontado com os problemas, se quiser, acaba por resolvê-los. Não basta, porém, ser inteligente e ter consciência da situação, é preciso ter vontade de a alterar. Não faltam pessoas mal formadas apesar de inteligentes, como se está a ver.

A consciência coletiva de muitos destes problemas tem, felizmente, vindo a aumentar e é crescente o número dos cidadãos com vontade de mudar estes comportamentos, de os denunciar, de mostrar até que ponto eles são prejudiciais, de os rejeitar como uma autêntica praga social. Não só precisamos de gastar menos, de recuperar hábitos de poupança, de ser mais eficazes e produtivos, como agora se diz, e é verdade, mas também, e talvez sobretudo, de perceber a importância pessoal e social dos comportamentos moral e socialmente corretos. Tudo começaria a melhorar rapidamente.

Não faltam, nestas condições, os que defendem medidas radicais. Os bons resultados, contudo, não se conseguem com mata e esfola. A história está cheia de situações apodrecidas que, resolvidas à bruta, com revoluções, purgas e depurações, pouco depois estavam na mesma, com outros farsantes no palco.

Se os indivíduos que estão dentro dos partidos, à esquerda e à direita, por exemplo, não conseguem sair do autismo coletivo, da cegueira; se são incapazes de uma verdade que não seja a oficialmente estabelecida, se têm a desonestidade intelectual como um programa genético, não será solução acabar com os partidos, como alguns advogam, mas abandoná-los, não votar neles, votar em branco, criar forças de opinião alternativas, movimentos de reflexão. As redes sociais podem produzir forças inimagináveis até há pouco. Os partidos (à esquerda e à direita) têm que compreender que não podem continuar a ser factores de deseducação através de verdades fabricadas, ou de imoralidade programada. Enquanto forem isto, e só isto, têm a morte dentro de si, mesmo que a não vejam.

João Boavida

Maria Skłodowska-Curie: Madame Curie

Informação recebida pelo De Rerum Natura.


O Reitor da Universidade de Coimbra e o Director do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra têm a honra de convidar V. Ex.ª para a inauguração da exposição temporária Maria Skłodowska-Curie: Madame Curie, que terá lugar pelas 17h00 do próximo dia 27 de Abril de 2011.

UC no TOP 200 do iTunesU


A Universidade de Coimbra tem 14 colecções nas 200 mais populares do iTunesU. O iTunesU é uma loja electrónica da Apple para distribuição de música, vídeos, programas de televisão, livros, podcasts, etc., relacionados com as Universidades de todo o mundo. A Universidade de Coimbra é a primeira universidade de língua portuguesa a aderir à plataforma que conta com todas as grandes universidades do mundo.

Este é um resultado impressionante que mostra bem a força da Universidade de Coimbra. Veja as 200 colecções mais populares aqui.

Pessoalmente estou muito satisfeito, porque a minha colecção de Robótica Industrial está em 41º lugar da lista geral, é a 14ª na área da Engenharia, e a 1ª na área da Robótica.

:-)

sábado, 23 de abril de 2011

NUCLEAR BOY - UM DESENHO ANIMADO JAPONÊS

COLABORAÇÃO DO BRASIL

Com o intuito de reforçar o intercâmbio luso-brasileiro na ciência e na cultura, temos vindo a publicar alguns posts - vídeo da autoria de Hélio Dias, professor de Física Experimental da Universidade de S. Paulo - USP e responsável pela Estação Ciência da USP. Estamos abertos a outras colaborações do outro lado do Atlântico: além de tudo o mais, a língua une-nos.

A EUROPA DA FÍSICA


Minha crónica na "Gazeta de Física" que está a sair:

Passo a passo, a Europa da Ciência tem vindo a ser construída e, dentro dela, a Europa da Física. Dois dos meios que tem ajudado a essa construção têm sido a revista European Physical Journal (abreviadamente EPJ), publicada por um consórcio germânico – franco - italiano (Springer, EDP Sciences e Sociedade Italiana de Física), e a revista EPL, ex Europhysics Letters, pertencente à Sociedade Europeia de Física e publicada por um consórcio franco-italiano-britânico (EDP Sciences, Sociedade Italiana de Física e Institute of Physics).

A EPJ nasceu em 1998 da reunião de revistas de grande tradição como o Zeitschrift für Physik, o Journal de Physique e Il Nuovo Cimento, e ainda de periódicos menos conhecidos: Acta Physica Hungarica, Czechoslovak Journal of Physics e Portugaliae Physica. A nossa Portugaliae Physica, fundada em 1943 por pioneiros da Física moderna em Portugal, acabou em favor do projecto europeu. Por sua vez, a EPL, que agora está a celebrar 25 anos, reúne o apoio das várias sociedades de Física europeias federadas na Sociedade Europeia de Física, entre as quais a Sociedade Portuguesa de Física.

O extinto Zeitschrift fuer Physik remonta a 1920, tendo surgido, sob proposta de um comité de sábios que incluía Albert Einstein, como sequela dos Verhandlungen da Sociedade de Física de Berlim, iniciados no longínquo ano de 1845. Antes da Segunda Guerra Mundial era considerada uma das melhores revistas de Física do mundo. No pós-guerra, começou, porém, a perder terreno relativamente às publicações da Sociedade Americana de Física, como a Physical Review (PR), com alguns pergaminhos pois tinha sido fundada em 1893, e a Physical Review Letters (PRL), de 1958. Estas últimas detêm hoje a primazia na cena internacional, apresentando, em geral, factores de impacte mais elevados. De um modo pragmático os físicos, principalmente os mais jovens, preferem-nas para o envio dos seus artigos por saberem que os seus currículos ficam a brilhar mais de cada vez que vencem as barreiras dos referees da PR e da PRL. Contudo, os físicos do Velho Continente, incluindo os portugueses, bem poderiam privilegiar as revistas europeias, tentando mudar os factores de impacte e reforçando a coesão europeia.

Se a união dos países europeus tem sido algo atribulada na política não o tem sido menos na Física. Em contraste com a EPL, que reúne físicos de um e de outro lado do canal da Mancha, a EPJ, que se desdobra em secções devotadas aos vários ramos da Física (a última, EPJ – H, é dedicada a “perspectivas históricas da física contemporânea”), enfrenta revistas concorrentes da responsabilidade do Institute of Physics. A Europa, para falar a uma só voz na área da Física, necessita de uma maior colaboração dos físicos que trabalham no continente e nas ilhas britânicas. Se continuar segmentada como está na difusão de artigos originais de Física, dificilmente conseguirá enfrentar os Estados Unidos. Este ano, que na Física é o do centenário da descoberta do núcleo atómico, teve lugar recentemente em Lisboa, sob presidência portuguesa, uma reunião do Conselho Científico da EPJ, que agrega representantes de numerosos países europeus. Como, à beira Tejo, já houve, a nível político, a Declaração de Lisboa e o Tratado de Lisboa, espera-se que as Tágides possam de novo inspirar uma maior união europeia, desta vez dos físicos. Poder-se-á dizer que tanto a Declaração como o Tratado se revelaram menos frutíferos do que, nos momentos da respectiva assinatura, foi desejo geral. É verdade. Mas também é verdade que, a nível das ciências físicas, deveriam ser menores os impedimentos a um acrescido federalismo científico que dê força a todos e a cada um.

Coimbra e o futuro


Quem, vindo de Lisboa e saído da auto-estrada em Condeixa, avista o casario de bilhete postal, coroado pela Torre da Universidade de Coimbra e pela Biblioteca Joanina, não pode deixar de pensar que está a chegar a uma bela cidade.

E está. Na cidade há património bem recuperado, como a Torre da Universidade, que está exemplarmente restaurada, ou o Laboratório Chimico, que serve de sede ao Museu da Ciência. Mas há também casas a cair aos bocados, tanto na Alta como na Baixa. Quem quiser desfrutar de uma cidade antiga, tanto das coisas da Natureza como do homem, não tem que sair do círculo do horizonte que se vê da Torre (agora pode-se subir lá acima), mas quem quiser preocupar-se com os defeitos citadinos de uma cidade que hesita em entrar no futuro também não precisa de sair fora desse círculo. Coimbra é como o resto do país: capaz do melhor e do pior.

O Paço das Escolas, há muito ocupado pela Universidade, foi, durante a primeira dinastia, residência real depois de ter sido alcáçova árabe. A centralidade de Coimbra é, por isso, histórica, para além, evidentemente, de ser geográfica. Coimbra não é norte, nem é sul, não é litoral, nem interior. Já lhe chamaram o centro do Centro. Os contrastes, físicos e humanos, que há em Portugal encontram-se em Coimbra e arredores.

Coimbra é um burgo de média dimensão cujos residentes podem ir almoçar a casa, o que é impossível numa grande urbe como Lisboa. Mas também é uma cidade onde, por vezes, vai-se lá saber porquê, se encontram, como em Lisboa, desesperantes filas de trânsito (o visitante que chega à Lusa Atenas vê-se grego para chegar à acrópole e ainda mais para estacionar nas imediações). Portanto, tal como no país em geral, quando havia condições para tudo correr bem, não corre. Para perceber Portugal não há como vir a Coimbra.

Se o país está centrado em Coimbra, Coimbra está centrada na Universidade. Contudo, há que reconhecer que a Universidade não se tem ligado bem à cidade. A Alta e a Baixa estão de costas voltadas. Sempre houve uma separação entre os doutores, por um lado, e os futricas, por outro. A nítida estratificação social conduziu até a um divórcio do ponto de vista clubístico. Há a Académica, a equipa associada historicamente à Universidade, e o União de Coimbra, a equipa do proletariado urbano. Coimbra só poderá ganhar se conseguir esbater o contraste ao nível da organização social. Tal como o país, aliás.

A placa à beira da auto-estrada diz “Cidade do Conhecimento”. Para lá do circuito turístico, encontra-se o Centro de Neurociências, que cultiva a excelência científica na biologia, e o Instituto Pedro Nunes, que alberga uma incubadora de empresas considerada recentemente uma dos melhores do mundo. Também se encontra, perto da cidade, o Biocant, o parque português de biotecnologia. Constrói-se, ainda mais perto, o IParque, para onde poderá ir uma empresa de software pujante e global, a Critical Software. E funciona, a dois passos da Torre, um dos mais poderosos supercomputadores do país, a Milipeia. Na ciência, impulsionada pela Universidade, é visível um extraordinário avanço, que, embora lentamente, vai contaminando a cidade e o país. A economia regional e nacional agradece. A Torre da Universitária pode, de facto, ser vista como uma antena emissora de conhecimento...

As cidades de hoje são ricas não tanto por terem uma torre antiga, mas sim porque, querendo ser melhores que as outras, conseguem chegar primeiro ao futuro. E a cultura, tal como a ciência, é prenunciadora de futuro. Mas, no centro do Centro, ela não vai tão bem como a ciência. A Universidade, ainda colada em muitos aspectos a tradições arcaicas, não tem conseguido, na cultura, um poder transformador tão grande como na ciência. Basta atentar, por exemplo, na dificuldade que tem havido em projectar um novo edifício para a biblioteca. É certo que há, mais ou menos ligados à Universidade, grupos activos em várias áreas culturais (no teatro, na fotografia, no cinema, nas artes plásticas, etc.), mas a cidade não lhes serve de caixa de ressonância para ecoarem no país. Há bastantes iniciativas avulsas, mas não há uma “movida”. Coimbra, na cultura, não é a lição para o país que deveria ser.

Coimbra tem localização, tamanho e meios invejáveis. Pode até pensar em emular Cambridge, uma cidade universitária onde pulsam há bastante tempo as tecnologias da informação e as biotecnologias, ao mesmo tempo que florescem as indústrias criativas. Mas tem um problema ao nível do simbólico, que só a cultura pode resolver. Para isso, a sua ambição cultural tem de ser maior, muito maior. Quero acreditar que a cidade não tem uma incapacidade cultural permanente, que lhe tolhe o futuro, mas apenas um bloqueio temporário. Quando o ultrapassar, não só a cidade estará mais habitável, mas também decerto o país.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

DEUS E OS GIGANTES DA CIÊNCIA


Minha crónica no "Sol" de hoje::

Foi o físico inglês Isaac Newton quem afirmou, numa carta escrita em 1676: “Se consegui ver mais longe é porque estava aos ombros de gigantes”. O carácter cumulativo da ciência não podia ter sido melhor explicitado. Com efeito, sem os contributos dados pelo astrónomo polaco Nicolau Copérnico, pelo astrónomo alemão Johannes Kepler e pelo físico italiano Galileu Galilei, Newton não teria podido realizar a sua notável obra que unifica os movimentos no céu e os movimentos na Terra. E, sem conhecer bem todos esses contributos (como de muitos outros), o físico alemão Albert Einstein não poderia, mais tarde, ter alargado a nossa descrição do mundo.

Que visão tinham de Deus os referidos gigantes da ciência? A Revolução Científica, iniciada em 1543 com a publicação da teoria heliocêntrica de Copérnico, ocorreu no seio de uma Igreja que vivia tempos de convulsão devido à reforma luterana. Lutero foi aliás um dos primeiros a ridicularizar as ideias científicas de Copérnico, que era cónego na catedral católica de Frauenburg. Tanto Kepler como Galileu foram ardorosos crentes. Kepler foi protestante, tendo começado por se preparar na Universidade de Tuebingen para uma carreira teológica. O seu contemporâneo Galileu foi católico, tendo estudado a doutrina da Igreja num mosteiro perto de Florença antes de ingressar como estudante na Universidade de Pisa. Kepler deu provas nos seus livros de um grande arrebatamento religioso, nalguns passos mesmo com um tom místico. E a fé de Galileu, relacionado de perto com a mais alta hierarquia da Igreja de Roma, não esmoreceu com a pena a que o Tribunal da Inquisição o condenou.

Newton era, por formação, anglicano. Tal como os gigantes a cujos ombros subiu, também ele estudou teologia. Para o sábio inglês não havia dúvidas de que o Universo era obra de Deus, iniciada na Criação e continuada depois. Porém, o seu pensamento religioso esteve longe de ser ortodoxo. Não aceitava a doutrina da Santíssima Trindade, defendendo antes que Deus era unipessoal. Teve de manter secreta essa posição até porque era membro do Trinity College na Universidade de Cambridge. E também manteve secretos alguns seus estudos sobre a Bíblia...

Einstein conseguiu, do ponto de vista religioso, ser ainda menos ortodoxo do que Newton. De ascendência judaica, nunca entrou, contudo, numa sinagoga para rezar. Não acreditava num Deus pessoal, tal como aparece na Bíblia, mas achava que o transcendente se encontrava na ordem misteriosa do mundo. O rabino de Nova Iorque perguntou-lhe um dia, por telegrama, se acreditava em Deus. E a resposta foi curta: “Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na harmonia ordenada daquilo que existe, não num Deus que se preocupa com os destinos e as acções dos seres humanos.”

O que é a Páscoa?





quarta-feira, 20 de abril de 2011

Top 20 das pessoas mais influentes da história


Tendo procurado na Net uma lista das pessoas mais influentes da história deparei com esta curiosa, embora controversa (não o serão todos), lista da autoria do astrofísico e jurista norte-americano Michael H. Hart, que a apresentou no livro "The 100: A Ranking of the Most Influential Persons in History", primeira edição, 1978 (Carol Publishing, um verdadeiro best-seller!), edição ligeiramente revista 1992 (desceram, entre outros, Marx e Lenine). O autor defende o primeiro lugar que atribuiu a Maomé por ele ter sido ao mesmo tempo um líder religioso e civil, tendo impulsionado uma nova religião, o islamismo, quase sozinho (a evangelização cristã foi muito obra de S. Paulo). Aqui vai a lista, que indica a religião e a actividade de cada um, que poderá suscitar interessantes comentários:

• 1 Maomé, Profeta do Islão, conquistador da Arábia
• 2 Isaac Newton, Anglicano, físico
• 3 Jesus Cristo, Cristianismo, Fundador do Cristianismo
• 4 Buda, Hinduísmo, Fundador do Budismo
• 5 Confúcio, Confucianismo, fundador do Confucianismo
• 6 S. Paulo, Cristianismo, prosélito do Cristianismo
• 7 Ts'ai Lun, Religião tradicional chinesa, inventor do papel
• 8 Johann Gutenberg, Católico, impressor
• 9 Cristóvão Colombo, Católico, explorador
• 10 Albert Einstein, Judeu (só nominalmente), físico
• 11 Louis Pasteur, Católico, cientista
• 12 Galileu Galilei, Católico, astrónomo e físico
• 13 Aristóteles, Platonismo / Filosofia Grega, filósofo
• 14 Euclides, Platonismo / Filosofia Grega, matemático
• 15 Moisés, Judaísmo, maior profeta do Judaísmo
• 16 Charles Darwin, Anglicano (tornou-se agnóstico), biólogo
• 17 Shih Huang Ti, Religião tradicional chinesa, imperador
• 18 César Augusto, Paganismo romano, líder romano
• 19 Nicolau Copérnico, Católico (cónego), astrónomo
• 20 Antoine Laurent Lavoisier, Católico, químico.

Nos 20 encontram-se 9 cientistas (contando Aristóteles entre estes), 2 inventores (papel e tipografia de tipos móveis) e 1 explorador (descobridor da América). Há 7 líderes religiosos e apenas dois líderes civis. A religião dominante é o Cristianismo.

MAPAS ANTIGOS DE PORTUGAL NA JOANINA


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Continua aberta até ao próximo dia 31 de Maio na Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, a exposição “Mapas Antigos de Portugal” , que mostra alguns dos mais significativos exemplares da notável colecção de mapas antigos de Portugal que pertenceu ao Doutor Carlos Nabais Conde e que a Biblioteca Geral recentemente adquiriu.

No espaço, recentemente aberto ao público, dos pisos intermédio e da prisão do edifício da Joanina estão patentes 18 peças que cobrem a representação cartográfica do país entre os anos de 1482 e 1812. Começam na concepção ptolomaica da Península, passam pela progressiva construção da imagem do contorno de Portugal que hoje nos é mais familiar (embora nas primeiras formas apareça “deitado”) e terminam com uma curios carta manuscrita e inacabada do teatro das guerras peninsulares , apreendida nas Beiras pelos franceses a um oficial inglês.

A colecção Nabais Conde de mapas antigos, que contém mais de um milhar de peças, foi objecto de um processo de inventariação apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Logo que possível, será catalogada e digitalizada para poder figurar no catálogo das bibliotecas da Universidade de Coimbra e no repositório de documentos digitais “Alma Mater”. Mas, antes disso, os visitantes da Joanina podem desde já admirar alguns dos belos e preciosos mapas dessa colecção, a maior parte aguarelados, que incluem o primeiro mapa português de Álvaro Seco de finais do século XVI, nas edições de Jode, Ortelius e Allard, um mapa das ilhas dos Açores que inclui uma ilha inexistente, uma panorâmica de Coimbra do século XVI, uma gravura de Lisboa do século XVIII pouco antes do Terramoto, e curiosas cartas holandesas de vários trechos da costa portuguesa.

Para Carlos Fiolhais, director da Biblioteca Geral da Universidade, “esta exposição é uma oportunidade única de os visitantes de uma mais belas bibliotecas do mundo conhecerem alguns raros mapas antigos que dificilmente poderão ver juntos noutro sítio”.

Horário de Abertura da Exposição: 9 às 19 horas todos os dias da semana (mesmo horário que a Biblioteca Joanina).

Para mais informações: António Maia do Amaral, tel. 239859816

PÁSCOA EM…LUA CHEIA



Crónica publicada no Diário de Coimbra.

Porque é que a Lua está sempre em fase cheia na semana Pascal?

Desde os primórdios da cristandade que a data da Páscoa, dia em que se celebra a ressurreição de Cristo, é fundamental para a estruturação de todo o calendário litúrgico cristão.

A determinação inequívoca do dia da Páscoa para que esta seja celebrada no mesmo dia do calendário por toda a cristandade, independentemente da sua localização geográfica, constituiu um problema que só foi normalizado no primeiro concílio de Nicéia em 325 d.C.

Nesse concílio, convocado pelo imperador romano Constantino, foi determinado que o dia da Páscoa fosse celebrado no primeiro Domingo depois da primeira Lua Cheia que ocorra em ou logo a seguir ao equinócio da primavera, no hemisfério norte (21 de Março).

Mas a determinação do equinócio, através do calendário então seguido, não garantia uma “coincidência” entre a previsão e a realidade, por imperfeição contida no mesmo. O calendário Juliano (assim designado em honra a Júlio César) em vigor ao tempo do primeiro concílio de Nicéia continha em si uma imprecisão de cerca de 11 minutos e 14 segundos em excesso em cada ano.


Por volta de 1582, a inexactidão do calendário Juliano teve como resultado que o equinócio da primavera ocorreu no dia 11 em vez de 21 de Março como se esperaria. Este desfasamento, introduzia erros no calendário religioso cristão e, na prática, o dia de Páscoa era celebrado em dias diferentes em diversos pontos do hemisfério. Era preciso fazer alguma coisa para reacertar o calendário oficial.


O Papa Gregório XIII (1502 - 1585) criou uma comissão liderada pelo jesuíta matemático e astrónomo Christoph Clavius (1537-1612) para resolver o problema. É de referir que este Papa terá convidado primeiramente o matemático português Pedro Nunes (1502 - 1578) para solucionar o problema, mas este morreria antes de acabar essa tarefa.


Na sua bula Inter Gravissimas, o Papa Gregório XIII consagra o trabalho matemático e institucionaliza o calendário que ainda hoje seguimos no ocidente e que tem o seu nome (calendário gregoriano). Resulta de um muito satisfatório conjunto de regras de acertos regulares nos anos ditos bissextos, o que assegura um compromisso aceitável na predição dos movimentos relativos de translação da Terra ao redor do Sol e da Lua em redor da Terra.

Acrescente-se, contudo, que a determinação do dia de Lua Cheia, para a determinação do domingo pascal, não faz uso das tabelas astronómicas, mas sim do definido nas Tabelas Eclesiásticas que, apesar de não incluírem com rigor o movimento complexo da órbita da Lua, são suficientes para permitir uma regular e uniforme determinação de um mesmo momento por toda a cristandade, independentemente da sua latitude e longitude.

António Piedade

terça-feira, 19 de abril de 2011

Pontos de vista sobre a política e os políticos


“A política é a ocupação dos ociosos, a ciência dos ignorantes e a riqueza dos pobres. Reside em S. Bento…” (Eça de Queiroz, 1845-1900).

Do comentário de Carlos Albuquerque ao meu último post, “Será que a política em Portugal não tem emenda?" (18/04/2011), retenho e transcrevo o final: "Escolhem-se políticos assim e depois diz-se que a culpa é da política? Não, não é a política que tem culpa”.

Desde já o confesso. Hesitei no título do meu post, entre o escolhido e este: "Será que os políticos em Portugal não têm emenda?" Mas pensei, como a política é feita pelos políticos, vem tudo a dar na mesma. E, nesta hesitação, ocorreu-me o nome de Rafael Bordalo Pinheiro, que criou a figura da política representada por uma porca e os bacorinhos a sugarem-lhe sofregamente as tetas . Ora como os políticos são adultos, já estou como Eça, porque não se experimentam por uma vez as crianças? Mas, como as crianças são o espelho do caldo social em que o genoma mergulha, tudo ficaria, provavelmente, na mesma. E mudar só por mudar...

Este insustentável estado de coisas, em que a política dos politiqueiros tem encontrado terreno fértil, e dado sustento, para utilizar um lugar-comum, não a quem quer servir a res publica mas a quem se quer servir da República, pode encontrar exemplo na tristíssima história do gravador citada no supra comentário. Ou seja, é difícil procurar resposta para uma política séria. Uma política tal como a que preocupou os filósofos da Antiguidade em discussões sobre o melhor sistema político, designadamente colocando em causa a própria democracia quando Sócrates disse não gostar da democracia "quando os que nos governam não são os mais competentes"! Aqui, sim, nesta perspectiva talvez tivesse sido mais acertado da minha parte substituir, no título do meu post, política por políticos.

E, neste pantanoso campo de discussões infindáveis, encontram os politólogos um campo de estudo controverso de crítica, simultânea, ao capitalismo e à própria democracia sem, por vezes, terem em linha de conta a queda do Muro de Berlim, a emergente China – um único país e dois sistemas políticos - , e uma Cuba em tímido período de auto-crítica dos governantes de um regime ditatorial que se dizia em luta contra a anterior imoralidade de costumes acabando com os lupanares do ditador Baptista mas que vai tolerando essa prática sob o “manto diáfano” da sua ocultação. Que nos resta, portanto, de hossanas ao comunismo quando Alexander Soljenitzin nos disse que “o relógio do comunismo já soou todas as badaladas”? Ou num tempo em que “os revolucionários em Portugal já não são o que eram; agora identificam-se pelos seus fatos listados e telemóveis topo de gama”? (Finantial Times, 10.Março.2004)? Apenas uma agressiva Coreia do Norte armada até aos dentes e em busca incessante por armamento atómico!

Mas voltemos à política nacional. Em minha opinião, o que se passa na política em Portugal resulta de uma situação que emperra os destinos de um povo que foi enganado PEC atrás de PEC (por políticos que “prometeram construir pontes onde não existem rios”, em citação de Nikita Kruschev) como se esses PECs fossem o abre-te sésamo de uma bonança que se seguiria à tempestade de uma bancarrota há muito prenunciada em plúmbeas nuvens. Em renegação a qualquer encontro com o FMI, surge-nos agora Francisco Louçã, em atitude "patriótica", a proferir, com autoridade académica, narrações apocalípticas para o futuro do país, por um lado, e a anunciar, por outro, com esperança sebastiânica, que tem a solução secreta para os problemas financeiros e económicos de Portugal. Quiçá, porque como dizem os franceses, “les beaux esprits se rencontrent”, a mesma atitude é seguida pelo PCP e pelos Verdes como se houvesse apenas uma questão partidária e não uma grave questão nacional.

Em resumo, meu caro Carlos Albuquerque, ser prior desta freguesia (cheia de priores indesejáveis e pouco recomendáveis que nunca são julgados pelos seus actos, nem mesmo nas urnas) é algo complicado. Agradeço-lhe, portanto, a sua útil chamada de atenção para a política portuguesa, que pode ser um interessante ponto de partida para um debate que seria conveniente não findar aqui para que, em época de eleições, não subsista o meu pessimismo a respeito da classe política (com raras excepções, acrescento numa réstia de esperança!) por duvidar que o povo saiba fazer as suas escolhas em vez de ir votar, numa espécie de romaria dominical, porque se não tem mais nada para fazer... E, depois deste arrazoado, feito a eito e, provavelmente, sem jeito, volto ao princípio, pois me sinto obrigado a reflectir maduramente sobre a escolha do sistema político para Portugal, e, principalmente, sobre o perfil de confiança, respeitabilidade e honestidade dos seus executores.

Como deve estar recordado, Mouzinho da Silveira, "legislador de gabinete e cidadão liberal na alma de um antigo 'juiz de fora', ferido de mil catilinárias", não deixou de mostrar todo o seu desencanto pela política (ou politiquice) do seu tempo aconselhando o próprio filho a fugir a sete pés de “seitas e partidos como uma lepra do tempo”. Em contrapartida, outros há hoje que correm para os seus generosos braços a sete pés sem pensarem em servir o povo… mas pensando seriamente em se servirem a si próprios. E, quando saem de motu proprio da política nacional, ou dela são obrigados a sair, têm sempre uma porta aberta em Portugal, na actividade privada, ou no estrangeiro, onde beneficiam de mais grossos e chorudos cabedais em cargos oficiais da União Europeia.

Mas regozijemo-nos, Portugueses! Nem tudo está perdido…Temos três equipas de futebol nacionais nas semi-finais da Liga Europa (a ocuparem as primeiras páginas dos jornais desportivos e não desportivos, e em jornais de referência ou não) com fortes possibilidades de virem a erguer a respectiva taça para glória maior dos nossos governantes. No tempo da outra senhora, dizia-se ser o futebol o ópio do povo. E hoje, não é?

Arrebol

Poema de Regina Gouveia, professora de Física e Química e poeta, que recebemos neste blogue:

Átomos que viajam desde o Big Bang
afagam-me através da morna brisa,
neste rubro arrebol do dia exangue.
Talvez já tenham sido pedra, rouxinol, flor
e por isso a brisa como que canta
e exala um perfumado odor.
Num gesto de lascivo amor
fundo-me com a brisa,
perco-me algures no espaço e no tempo
e, num fugaz momento,
sinto que sou pedra, brisa, rouxinol e flor

Regina Gouveia

Vieira da Silva e o 25 de Abril


Texto recebido de Elsa Ligeiro, editora da "Alma Azul", a propósito do 25 de Abril que se aproxima (na figura cartaz de Vieira da Silva):

A história é conhecida. Salazar recusou a nacionalidade portuguesa a Arpad Szenes, apátrida, pela sua ascendência judaica, e marido da pintora Maria Helena Vieira da Silva.

A pintora, que nasceu em Portugal, em 1908, morreu com passaporte francês para acompanhar o marido quando, em 1956, o governo de França tornou cidadão francês o meteco Arpad que tinha nascido na Hungria e desde jovem vivido em vários países, um pouco por todo o mundo.Também em Portugal, onde esteve com a mulher, com quem partilhou o resto da sua vida depois do casamento, em 1930.

Há um filme de José Álvaro Morais, um dos maiores cineastas portugueses, que apesar de ter nascido em Coimbra, cresceu na Covilhã, onde está sepultado, que conta esta bela história de amor entre os dois. O filme tem como título Ma Femme Chamada Bicho. Durante os primeiros dez minutos até parece um filme sobre Arpad Szenes. É ele que fala de Viena e Berlim e do seu ambiente totalitário no início do século XX, pouco antes da I Grande Guerra Mundial (sábias as suas palavras, como inteligentes e cáusticas serão mais tarde quando fala de Portugal).

Mas aparece Vieira da Silva, a sua musa, e ela toma conta do filme. Passa a uma história de amor extraordinária. Talvez mais bela porque reúne um talentoso artista que encontra um génio. Até na postura.

O filme é de 1976, o que torna possível escutar da boca de Maria Helena Vieira da Silva como nasceram os cartazes sobre o 25 de Abril de 1974 que fixarão para sempre a imagem de um país com uma revolução ímpar. A forma como Vieira da Silva o conta, com uma felicidade genuína e desprendida, é um dos momentos mais sublimes do filme. Só superado pelas imagens em que a pintora tenta continuar um quadro em frente à câmara e, depois de duas pinceladas, abandona as tintas dizendo: “Não consigo, não parece autêntico, não é autêntico”. Nada há de mais autêntico para Vieira da Silva que os seus quadros, onde com o seu génio condensa cidades. Mas fazê-lo diante de uma câmara é uma ilustração que não lhe cabe. Exemplar.

O que não a impede de no final do filme, numa verdadeira pantomínia, pintar a cara de negro e de mão dada com Arpad Szenes, caminharem, como dois adolescentes apaixonados, diante da câmara de José Álvaro Morais. Num final verdadeiro e feliz. Como devem ter as grandes histórias.

Elsa Ligeiro

NDM-1: UM PERIGO PARA A SAÚDE PÚBLICA?


Crónica semanal publicada no Diário de Coimbra.

Tem-se verificado nos últimos anos um reacender constante do debate sobre a eficácia dos antibióticos que usamos para combater as doenças causadas pelas bactérias patogénicas que nos colonizam.

Após algumas décadas de aparente controlo e eficácia garantida por um conjunto de antibióticos ditos de última geração, começam a surgir casos de preocupação para a saúde pública, caracterizados por um aumento da resistência bacteriana às “balas mágicas”.

Inúmeros relatórios oficiais e artigos em revistas científicas generalistas como a “Nature” ou a “Science”, ou de especialidade médica como a “The Lancet” ou a “New England Journal of Medicine", têm posto a nu algumas fragilidades na luta contra várias bactérias causadoras de doenças severas e mesmo mortais.




No meio de várias preocupações com diversos microrganismos que adquiriram resistência aos antibióticos a eles específicos, a bactéria do momento, ou melhor, o grupo de bactérias colunáveis e de primeira página são aquelas que possuem o gene que codifica uma enzima designada por NDM-1 (de New Delhi metallo-β-lactamase 1). Descoberta em 2008 em Nova Deli, num paciente sueco, em viagem pela Índia, contaminado com uma estirpe de klebsiella pneumoniae (causadora de pneumonia), aquela enzima confere a estas estirpes uma “super-resistência” aos antibióticos que actuam pela “destruição” da parede externa feita de peptidoglicano, protecção essencial das bactérias classificadas por gram-negativas. No geral as bactérias que possuem esta enzima resistem a todos os antibióticos excluindo as polimixinas. Estas são antibióticos polipeptídicos, abandonados da prática clínica entre 1970 e 1980 devido à sua elevada toxicidade sobre o organismo humano. O aparecimento de estirpes bacterianas multirresistentes “obrigou” à sua utilização de última linha em ambiente hospitalar.

Estudos subsequentes permitiram identificar a nova estratégia resistente presente em vários géneros de bactérias da família Enterobacteriaceae (que inclui muitas das que nos são patogénicas como a Salmonella ou a Escherichia), em vários países incluindo a Inglaterra, em ambiente hospitalar e muito recentemente em águas de abastecimento público em Deli (http://www.thelancet.com/journals/laninf/article/PIIS1473-3099(11)70059-7/abstract). A maior parte das investigações indica que o elemento genético que codifica a NDM-1 possui também informação genética para proteínas que funcionam com bombas que expulsam os antibióticos para fora das bactérias, assim como ainda outras informações que facilitam a sua disseminação no mundo microbiano. É um exemplo de adaptação bacteriana de última geração que faz uso da rede global de partilha de informação genética bacteriana útil em prática há milhões de anos.

Apesar da “contaminação” da rede de água pública na cidade indiana referida, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou na semana passada vários comunicados para os media retirando peso ao alarme do perigo para a saúde pública, quer local quer mundial, contrapondo a necessidade de mais investigação para determinar o grau de perigo efectivo. De facto, os poucos estudos já publicados sobre as bactérias que apresentam a NDM-1, mostram que as bactérias não se tornaram mais patogénicas, “apenas” adquiriram uma multiressistência alargada a todos os antibióticos em uso! Segundo a OMS, são necessários mais estudos para fundamentar a necessidade de alterar ou alargar os procedimentos de prevenção.

Enquanto isso, os meios de comunicação bacterianos partilham o elemento genético que contém o gene para a super-multi-ressistência e espalham a boa nova bioquímica no “In Bacteria News”: Com NDM-1 sobrevives a qualquer droga humana!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O MANTO PÚRPURO



Crónica publicada no semanário conimbricense "O Despertar".

“Revestiram-no de um manto de púrpura e puseram-lhe uma coroa de espinhos, que tinham entretecido.” (São Marcos 15,17)

Na paixão de Cristo o manto púrpuro é omnipresente.

Sinal de realeza, os tecidos tingidos de cor púrpura foram os mais usados por reis e imperadores durante milénios. Uma das razões para essa escolha tecia-se com a raridade e a dificuldade em obter os corantes capazes de tingir de púrpura os tecidos.

Nas civilizações Mediterrânicas, a principal fonte do corante estava incrustada em secreções mucosas da glândula hipobranquial e nas conchas protectoras de duas espécies de molusco gastrópodes do género Murex do Mar Interior: Murex brandaris e Murex trunculus (hoje conhecidos por Haustellum brandaris e Hexaplex trunculus, respectivamente).

Os fenícios eram exímios extractores do corante com o qual tingiam os tecidos púrpuros que comercializavam. Contudo, para tingir um metro quadrado de tecido era necessária uma centena de conchas ou sacrificar cerca de dez mil moluscos para extrair cerca de uma grama de pigmento! Não é de estranhar a rápida rarefacção das populações daqueles moluscos e das conchas acumuladas junto às costas por milhões de marés.

Um dos episódios ilustrativos da raridade do corante é a recusa que terá sido imposta à esposa do imperador romano Aureliano, impedindo-a de comprar tecidos de cor púrpura. Um quilo de tecido tingido com o corante extraído das conchas custaria mais de 20 mil euros aos preços de hoje. Os seus apetites de vestuários púrpuros não eram comportáveis mesmo para a Imperial Roma.


Dada a procura e a raridade daquela fonte, outras foram exploradas e o engenho aguçado foi encontrando corantes substitutos para aproximar a realeza à cor púrpura. Várias foram as aproximações: desde as fórmulas de corantes incluídas no alquímico “Papiro de Estocolmo” (Papyrus Graecus Holmiensis) escrito provavelmente no século III; até um processo envolvendo tingimento com uma cera chinesa designada por “batik” no século sétimo d.C.


Mas só em meados do século XIX foi encontrado uma solução para resolver a púrpura raridade. Um químico inglês, de nome Williams Perkin, enquanto investigava um método para a síntese laboratorial de quinino, um composto orgânico necessário para atenuar o flagelo da malária, descobre acidentalmente, curiosamente durante a Páscoa de 1856, a substância púrpura de anilina, também conhecida por malva ou mauveína (C26H23N4+ X- fórmula química da mauveína A).


No atalho da investigação, Perkin sintetizou o primeiro corante artificial orgânico de sucesso na indústria têxtil, paradigma de uma nova era da indústria química e que haveria de tonalizar o tecido social com que se vestiu massivamente a organização da sociedade que se lhe seguiu. Mesmo que raramente os cidadãos se vistam com cores púrpuras…de paixão, de renovada esperança.

António Piedade

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...