domingo, 21 de dezembro de 2008

A desumanidade do símio humano


Cientistas norte-americanos voltaram a demonstrar a estupidez simiesca original dos seres humanos. Aqui.

Temos três livros para oferecer em mais um passatempo DRN/Sorumbático: A Criação, de E. O. Wilson (Gradiva), A Física em Banda Desenhada, de Gonick e Huffman (Gradiva) e Eva Era Negra, de Lucotte (Terramar).

Serão escolhidos os três melhores comentários feitos neste post sobre a experiência norte-americana referida, até ao próximo dia 24, às 23:00. O autor do melhor comentário escolhe o livro que quer receber dos três, o segundo escolhe dos dois restantes e o terceiro autor recebe o último livro. Passatempo válido apenas para moradores em Portugal continental.

"Falando com Jorge de Sena"

O número 59 da revista O tempo e o modo, de Abril de 1968, publicou uma extensa entrevista a Jorge de Sena, à qual o engenheiro, ficcionista, poeta, dramaturgo, tradutor, professor, investigador, ensaista, crítico literário havia respondido dois meses antes, de Madinson, Wisconsin, Estados Unidos da América, onde residia e ensinava.
A sua difícil relação com Portugal e o seu meio intelectual constitui o cerne dessa entrevista, da qual reproduzo algumas passagens:

"3. Pensa voltar brevemente a Portugal?
Essa pergunta não sei francamente como respondê-la, porque não sei ao certo que água leva no bico. Se se entende por ela querer saber a razão de, durante estes anos todos, não ter voltado a Portugal, devo dizer que a razão se desdobra em várias, mais ou menos óbvias, e uma delas a falta de dinheiro. Esta será obviada no fim do ano corrente, quando a minha universidade me premeia com uma viagem à Europa, que tenciono concluir em Portugal, antes de regressar aos Estados Unidos. Se pergunta se tenho planos para regressar a Portugal, em caracter definitivo, isso é uma questão, cuja plena resposta na verdade não depende de mim. Eu sou catedrático efectivo na Universidade de Wisconsin, uma das maiores e melhores da América. Que sou eu em Portugal? Voltar, para fazer o quê? O meu maior medo, ao planear uma ida a Portugal ao fim de nove anos de ausência, é precisamente fazer a descoberta definitiva de que ele existe, por enquanto, mais e melhor, no meu coração e na minha cabeça, com perdão para o povo português e de V. Ex.as.

5. Há quem o acuse de susceptível e agressivo. Concorda que o é?
Realmente? Julgava eu que esse mito já havia passado, por se ter revelado inoperante para neutralizar-me e destruir-me. Mas, se acaso sou susceptível, tenho a susceptibilidade dos exigentes e dos afáveis, honestamente afáveis. E se sou agressivo, é só a agressividade do muito amor. Eu não perdoo a ninguém a mediocridade, a estupidez, a vileza, a malignidade, a incultura, a suficiência, a intolerância, o espírito de compromisso, a cobardia moral, etc. Será que estas coisas ainda existem em tão grande escala em Portugal, que eu pareça necessàriamente agressivo e susceptível?...

6. Não é novidade para ninguém que V. é um dos seus maiores e mais seguros admiradores. Mas a frequência com que proclama o seu talento, ou a “obrigação” e necessidade que parece sentir em proclamá-lo não denunciarão uma certa insegurança, a par, naturalmente, de recusa a falsas modéstias?
É um engano total.
Não sou. A única razão pela qual parece que eu proclamo a cada instante o meu talento é porque, até muito recentemente, se eu não o fizesse, ninguém o faria. E, se eu sou agudamente sensível a todas as formas de injustiça haveria de deixar que ela se exercesse impunemente comigo? Poucos escritores portugueses de relativo mérito deverão tão pouco à crítica como eu. De todos os sectores, ou o amesquinhamento foram de regra durante quase trinta anos (…) Dado que eu não acredito em nenhuma forma de imortalidade, e tenho erudição bastante para saber que cemitérios são as bibliotecas e as histórias literárias; e dado ainda que não me dou a participar em partidarismos que me ofereçam, por substituição, a ilusão da imortalidade, será bem clara a razão de exigir o reconhecimento que me cabe por muito e bom que tenho feito. Tenho horror de falsas modéstias, de facto. Mas tenho ainda mais horror da mediocridade que se compraz em recusar-se a reconhecer o que a excede. Não, não sou um dos meus mais seguros admiradores (…) O problema não está em eu me considerar muito grande – mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos. De resto, devo acrescentar uma palavra de justiça e de grato reconhecimento: foram muitos dos pequenos que não se julgam grandes, e aos quais durante muitos anos não dei nem uma palavra de correspondente louvaminha, quem honestamente, e com isenção, se ocupou mais de mim do que a crítica oficial das várias chafaricas individuais e colectivas. A eles devi, por muito tempo, um comovente incentivo que muitas vezes não recebi de amigos. E, ainda, quero fazer uma pergunta: quantos escritores de categoria se têm ocupado tão largamente e tão numerosamente dos outros seus contemporâneos, como eu fiz durante trinta anos? Quantos? O mais que fazem é louvar às vezes um medíocre ou desenterrar um morto, com medo da sombra que lhes seja feita. A diferença entre mim e eles é que não temo o juízo do futuro, e não procuro tapar o sol com uma peneira.
Não: a minha segurança é total e absoluta: ninguém pode destruir-me senão eu mesmo."


Sobre essa relação de que acima falei, escreve Eduardo Lourenço, num ensaio publicado na mesma revista, intitulado Jorge de Sena e o Demoníaco, que precede as perguntas e as respostas e que, por assim dizer, as elucidam.

"Esta «resistência» a Jorge de Sena é, em parte, merecida, e, as coisas sendo o que são, de certo modo, justa. Jorge de Sena não é um autor fácil. É um autor, e um autor nunca é fácil (...). Esse tom leccionante de Sena tem-se e tem-no feito pagar caro e estabelecido entre o autor de O Indesejado e o seu público (sobretudo «crítico») uma atmosfera de cortar à faca, que aliás tem o seu encanto, e mesmo, as suas vantagens. Parece até que Jorge de Sena se compraz nessa situação de «mal amado» que uma dialéctica fatal sempre acaba por inverter. E os tempos estão próximos, ou já chegaram, em que o urso mal lambido das nossas letras receberá as flores tardias da admiração com salário redobrado (...).
O momento cultural presente, momento pop, é o da glorificação do material bruto, da evacuação da História e sua sombra excessiva, da apoteose do arcaico ou arquetípico, hostil não só a «dramas de consciência» e ao seu refinamento psicoligista, como a «dramas de espirituais» de qualquer ordem. É o não-cultural ou o anti-cultural que solicitam este momento (...) Que laço pode unir uma obra como a de Jorge de Sena, toda penetrada pela Cultura até aos ossos a esta aparência (ou realidade) de grau zero cultural das manifestações ou «proposições» artísticas nas quais se exprime desdem ou furor por tudo quanto seja herança humanística?
(...) o que realmente distingue a sua obra, não só no panorama nacional, onde o seu caso tem foros de insólito, como no contexto mais geral da cultura contemporânea, é o facto dela constituir uma meditação a que a História da Cultura, mormente a literária e espiritual, serve de mediador privilegiado e, por vezes, único (...) a relação de Sena com a Cultura. Esta é a vida simbólica, a experiência ardida mas ardentes dos homens, o fogo sob a cinza a que conhecimento, vigília e honesto estudo permitem aceder (...). Por mais que a obra de Jorge de Sena se manifeste a omnipresença de uma consciência superior à matéria que informa, por mais que uma dialéctica irónica, nos mostre um autor hiper-consciente dos seus dons e do domínio que sobre eles exerce, num virtuosismo sem imitadores pátrios, o jogo prodigioso que se desenrola nas suas páginas nada tem de artificioso."


Estávamos, como acima assinalei, em 1968. Passaram quarenta anos, mas algo de muito actual perpassa nas palavras de Jorge de Sena e Eduardo Loureço.

Bush e a Biblioteca

Video: Algumas das mais notáveis submissões ao Back-of-the-Envelope Design Contest, um concurso do Chronicle of Higher Education sobre o projecto da George W. Bush Presidential Library.

Com a Franklin D. Roosevelt Presidential Library and Museum, em Hyde Park, Nova Iorque teve início uma tradição que os restantes presidentes norte americanos mantiveram. Roosevelt acreditava que os documentos presidenciais, livros e recordações eram uma parte importante do património da nação e deviam ser acessíveis ao público em geral. Assim, surgiram em 1929 as Bibliotecas Presidenciais onde os visitantes podem apreciar um espólio que reflecte a imagem da presidência em causa.

A biblioteca de Roosevelt inclui a Galeria dos Primeiros 50 anos (The First Fifty Years Gallery), que mostra ao público os primeiros anos da vida e da carreira de Roosevelt, através de coisas como as primeiras cartas para a mãe e objectos da sua vida escolar. A Biblioteca também guarda memórias dos seus anos como Presidente, sendo uma das salas mais indispensáveis a réplica da Sala dos Mapas (Map Room), onde FDR e os seus conselheiros tomaram as decisões estratégicas sobre a ofensiva aliada.

Com excepção de John F. Kennedy, Lyndon B. Johnson e Jimmy Carter, todos os presidentes desde Hoover escolheram ser sepultados nas suas bibliotecas presidenciais (no caso de Jimmy Carter, este já deixou saber que prefere um local próximo da sua casa em Plains, Geórgia.

Quando um presidente termina o(s) seus(s) mandato(s), a National Archives and Records Administration (NARA) guarda e indexa os documentos e restantes mementos presidenciais até ao edifício final estar concluído (por exemplo, a William J. Clinton Presidential Library só ficou pronta em finais de 2004, três anos antes da de Richard Nixon, aberta ao público em 11 de Julho de 2007).

A biblioteca que honrará as memórias do actual presidente em exercício, mesmo antes de construída, já proporcionou momentos lúdicos inesquecíveis, nomeadamente aqueles a que alude o vídeo e se reportam ao concurso organizado pela Crónica do Ensino Superior.

A escolha do local onde se situará o complexo não foi pacífica mas já está decidido que a décima quinta biblioteca presidencial e a terceira no Texas - Lyndon Johnson, na Universidade do Texas, em Austin, e de George H. W. Bush, na Universidade A&M, em College Station - será construída, apropriadamente, na Universidade Metodista do Sul (SMU), com projecto assinado pelo decano do colégio de Arquitectura da Universidade de Yale, Robert A. M. Stern.

Mas se a própria associação G.W. Bush/bibliotecas foi causa de inúmeras manifestações de humor e a localização física da biblioteca deu origem a manifestações de repúdio, a sua localização etérea segue as mesmas pisadas humorísticas.

De facto, a Yuma Solutions, que trabalha há anos para a família Bush, hospedando sites para a campanha presidencial de 2000 e para as campanhias de Jeb Bush para governador da Flórida em 1998 e 2002, esqueceu-se de renovar o domínio www.GeorgeWBushLibrary.com.

A oportunidade foi prontamente aproveitada por uns Illuminati, mais concretamente uns iluminados do karaté, que registaram o nome. A Yuma Solutions desembolsou 35 000 dólares para ter de volta o domínio que custara menos de 10 dólares à Illuminati Karate.

sábado, 20 de dezembro de 2008

SOBRE "UNIVERSO, COMPUTADORES E TUDO RESTO"


Minhas respostas a questões colocadas por estudantes do Instituto Politécnico de Leiria sobre o meu livro "Universo, Computadores e Tudo o Resto":

P- No livro “Universo, Computadores e Tudo o Resto“, "tudo o resto" tem algum significado especial?

"Tudo o resto" quer dizer simplesmente que o livro trata de vários assuntos além do cosmos e das máquinas. Evidentemente que o Universo abarca tudo: vida e tudo o resto... Trata-se de uma referência ao livro "Life, Universe and Everything", terceiro volume da obra "Hitchhiker's Guide to the Galaxy", do escritor inglês Douglas Adams (falecido em 2001, já depois da publicação do meu livro). No primeiro volume dessa série já se colocava a questão sobre "vida, universo e tudo o resto" e o computador "Deep Thought" dava uma resposta que era apenas um número: 42. Esta mesma resposta é dada pelo calculador do Google (experimentem...) Parece uma brincadeira e é mesmo! O autor explicou um dia porque a resposta era 42:

"The answer to this is very simple. It was a joke. It had to be a number, an ordinary, smallish number, and I chose that one. Binary representations, base thirteen, Tibetan monks are all complete nonsense. I sat at my desk, stared into the garden and thought '42 will do.' I typed it out. End of story."

Portanto, embora o meu livro trate de assuntos sérios (é uma colecção de ensaios sobre ciência e cientistas, incluindo discussões de filosofia da ciência), o meu título é uma brincadeira com base noutra brincadeira.

P- Com o o aparecimento da nanotecnologia, do novo acelerador de partículas do CERN, dos últimos desenvolvimento da mecânica quântica e, mais em geral, da física moderna acredita que a física está mais próxima da «inteligência natural» da Natureza?

R- Sim, a ciência vai-se aproximando da Natureza que pretende descrever. Sem nunca lá conseguir chegar... Fazemos modelos cada vez melhores de uma realidade que é complicada e bastante esquiva. A "inteligência natural" da Natureza é uma metáfora, que remete para a existência de uma ordem natural, que é inteligível pelos humanos, embora de forma difícil e progressiva, e, por isso, sempre incompleta. Usando a analogia entre o Universo e o computador que discuto no livro, se o Universo é a máquina, as leis do Universo são o software dessa máquina. Um novo instrumento como o novo acelerador do CERN constitui um poderoso meio de procurar conhecer melhor as leis da física a um nível fundamental. Claro que nada nos diz sobre a vida nem sobre o resto...

P- Considerando os seus conhecimentos e experiência profissional, qual é a sua opinião acerca dos escritos antigos de Lucrécio e Plutarco?

R- Lucrécio é o autor de uma única obra, o poema "De Rerum Natura", em português "Sobre a Natureza das Coisas", que é o título de um blogue no qual escrevo com outros colegas. No manifesto do blogue escrevemos:

"O poeta latino Tito Lucrécio Caro, que viveu no século I a.C., escreveu um único livro: o poema De Rerum Natura. Nele defende a teoria atomista (Demócrito já tinha dito antes «Tudo no mundo é átomos e espaço vazio») mas fala, além de coisas da física e da química, de muitas outras coisas: biologia, psicologia, filosofia, etc. O blogue, que partilha o título com o poema de Lucrécio, fala também de várias coisas do mundo, procurando expor a sua natureza"

O poema de Lucrécio é admirável por defender a teoria atomística muito antes de ela ser conhecida cientificamente e, além disso, por discutir muitos domínios: vida e "tudo o resto", incluindo as questões da origem e evolução da vida. Quanto a Plutarco, outro autor que admiro, é um pensador grego da mesma época de Lucrécio, embora tenha escrito muitos mais livros que este. Defendeu a existência de uma inteligência animal de alguma maneira semelhante à dos humanos. Haveria, segundo ele, uma inteligência associada à vida. Os clássicos como Lucrécio e Plutarco continuam hoje a ser actuais e é por isso mesmo que são clássicos.

P- Acredita na existência de vida fora do planeta?

R- Sim, acho a coisa mais natural do mundo. Porque é que a vida só haveria de existir aqui? O Universo, que é infinitamente grande, deve ter vida em vários sítios, nós só não sabemos é onde. Continuamos a procurar... Aliás, pretendemos responder a um dos mistérios maiores da ciência actual que é o da origem da vida: Teve origem só na Terra? Teve origem noutro lugar ou lugares e foi trazida para a Terra?

Em 2009, ano do aniversário da publicação do livro "Astronomia Nova" de Kepler e ano das primeiras observações do céu com um telescópio efectuadas por Galileu, vai ser lançada uma sonda da NASA, a "Kepler", que pretende encontrar planetas extrasolares parecidos com a Terra, onde poderá eventualmente existir vida, embora não inteligente. Curiosamente, Kepler é um dos primeiros autores de ficção científica, portanto um antecessor de Douglas Adams. Ele foi o autor de "Somnium", em português "Sonho", onde descreve uma viagem espacial. Encontrar vida no Universo fora da Terra é um dos actuais sonhos do homem. A propósito ocorre-me uma anedota sobre um astrofísico a quem perguntaram se havia vida inteligente no Universo. Respondeu: "No Universo pode ser que sim, na Terra está visto que não".


O HUMOR CIENTÍFICO DE DAVID MARÇAL NO "INIMIGO PÚBLICO"

Encontrado fóssil de costela muito semelhante a uma mulher e um dente de lobo vegetariano

O registo fóssil finalmente apoia a ciência criacionista: "um igual e Deus desempata com voto de qualidade", gracejou um neo-criacionista ao IP. Os artefactos genesioliticos (do genesis) foram descobertos durante as escavações do Museu da Criação, em Cincinatti. "Foi só construir o Museu à volta, nem houve necessidade de retirá-los do lugar. Acaso? Evidentemente que não, isto é o que eu chamo design inteligente. Já reparou que os evolucionistas encontram supostos fósseis de dinossauros e putativos antecessores do homem a milhares de quilómetros dos sues museus de história natural?" Durante as escavações foram também descobertos um dente de lobo vegetariano que habitava o Jardim do Éden e um pedaço da arca de Noé. Do acervo do Museu da Criação constam ainda cerca de 1500 litros da água do grande dilúvio aprisionada nas calotes polares, um trilho de pegadas de Jesus Cristo sobre as águas, gafanhotos egípcios e uma oliveira à prova de água, capaz de sobreviver 150 dias submersa (encontrada no Alqueva) descendente do ramo com que voltou a pomba que Noé soltou para saber se já havia pé.

David Marçal

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

NOVE LIVROS PARA 2009


Meu artigo no "Público" de hoje:

Crise? Mas qual crise? Se há crise, ela não se nota no número e variedade de edições recentes nas livrarias. O difícil é escolher. Às portas do Natal, eis nove livros que podem ser boas prendas, pois prometem boas leituras agora e no ano de 2009. A ordem é a alfabética do primeiro autor.

- João Lobo Antunes, “O Eco Silencioso”, Gradiva. Mais outra colecção de ensaios do conhecido professor de Medicina da Universidade de Lisboa e neurocirurgião, que é um dos nossos melhores pensadores e prosadores. Dá gosto ler tão perfeita combinação de pensamento e escrita.

- Sofia Jorge Araújo, Sónia Martins e Ana Godinho, “Descobre a Ciência 9. Descobre a Vida!”, Bizâncio. Três biólogas portuguesas, algumas a trabalhar no estrangeiro, escreveram um livro que serve de introdução à moderna biologia para crianças dos quatro aos doze anos a partir de experiências simples realizadas em escolas do Porto e de Edimburgo. A adesão dos infantes foi tão entusiástica num como noutro lado. É o nono volume de uma série iniciada há nove anos.

- Joaquim Fernandes, “O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos”, Círculo de Leitores e Temas e Debates. Um historiador e jornalista reuniu, após consultar as bibliotecas, um conjunto de esclarecedoras fichas sobre portugueses esquecidos que não mereciam sê-lo, tendo-me pedido um prefácio. Ao percorrê-las concluí que é muito injusta a amnésia nacional!

- Donald S. Johnson e Juha Nurminen, “História das Viagens Marítimas”, Sete Mares. Dois marinheiros, o primeiro norte-americano e o segundo finlandês, navegam com mestria pela história das navegações, num volume de luxo profusamente ilustrado (traduzido por António Costa Canas, um marinheiro português especialista na expansão marítima portuguesa). Os feitos dos portugueses são devidamente assinalados.

- Fernando Cabral Martins (coordenação), “Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português”, Caminho. Uma obra de vulto (quase mil páginas!), verdadeiramente enciclopédica, da autoria de uma plêiade de especialistas, sobre o maior vulto da nossa literatura do século passado e o movimento no qual se enquadra.

- Philip Roth, “O Fantasma Sai de Cena”, Dom Quixote. Mais uma obra de ficção, com a mesma profundidade e elegância de outras, daquele que é um dos maiores escritores vivos de língua inglesa. O tema é a velhice do escritor Nathan Zuckerman, o “alter ego” de Roth presente em vários outros romances, que no final desaparece de cena. O livro acaba mesmo com a frase: “Desaparece para sempre”.

- António Sérgio, “Ensaios sobre Educação”, Imprensa Nacional. Numa altura em que a educação nacional dá provas de continuar em crise, vale a pena averiguar quais são as raízes profundas dessa crise, nos textos de um dos intelectuais portugueses que mais se preocuparam com o nosso atraso educativo. Lembre-se que Sérgio foi ministro da Instrução Pública, mas só por dois meses e dez dias...

- Nuno Artur Silva e Inês Fonseca Santos (coordenadores), “Antologia do Humor Português”, Texto. Se alguém pensa que Portugal é um país sorumbático, perderá essa ideia ao ler esta miscelânea, onde podemos rir com a verve de Jorge de Sena, Mário-Henrique Leiria, Alexandre O’Neill, Luiz Pacheco e muitos outros, alguns deles contemporâneos. Rir pode ser um bom remédio em alturas de depressão.

- A. Mark Smith e Arnaldo Pinto Cardoso, “O Tratado dos Olhos de Pedro Hispano”, Alêtheia, FMR e Fundação Champalimaud. Edição que é um regalo para a vista da pena de um historiador norte-americano e de um teólogo português sobre um dos “portugueses esquecidos” que mais fama mundial alcançaram: Pedro Hispano (1205?-1277), médico, filósofo e o único papa português até à data, sob o nome de João XXI (o número foi engano, pois devia ser João XX). O seu “Tratado dos Olhos” revelou-se útil durante séculos, tendo servido a Miguel Ângelo para procurar cura para uma doença oftalmológica contraída quando pintava a Capela Sistina.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O Técnico, o Tribunal de Contas e a comunicação social - II


A Universidade portuguesa tem conhecido profundas alterações nas últimas décadas, não apenas a nível da governação – nomeadamente a partir da Lei 108/88 da Autonomia Universitária –, mas especialmente a nível do modelo de universidade que desenvolvemos, um modelo em que a investigação foi assumindo progressivamente o papel que detém actualmente. As últimas décadas foram assim anos de consolidação de um modelo universitário em que a qualidade académica é indissociável da qualidade científica.

O vigor das escolas nacionais pode ser apreciado nos números de que nos deu conta o «Reviews of National Policies For Education - Tertiary Education In Portugal - Examiners' Report», publicado em 6 Dezembro 2006. De facto, no período entre 1995 e 2005 aumentou 17% o número de estudantes a estudar em universidades e 70% o número de licenciados e pós-graduados. Por seu lado, no período entre 1993 e 2001 as publicações em revistas científicas indexadas cresceram 67% enquanto em revistas indexadas de elevado impacto científico aumentaram 123%.

Não obstante o sucesso que estes números indicam – e serão certamente modestos comparados com os equivalentes em 2008 -, parece consensual que é necessário preparar o sistema universitário português para os desafios futuros na formação e na criação de cultura, conhecimento e tecnologia, desafios que se colocam já numa escala global. A pergunta que se impõe é obviamente qual o modelo que melhor responde a estes desafios.

Feita esta pergunta, recordemos a orientação que seguimos até hoje e que não difere muito da que foi proposta no século XIX por Wilhelm von Humboldt e da qual constava, como intenção primeira, o saber e a sua constante procura. Embora Humboldt reconhecesse que a investigação e o saber dela decorrente poderiam apontar para finalidades práticas, recusou um fim último mercantilista para a Universidade, isto é, recusou que o seu papel se reduzisse à formação de profissionais. Mesmo aceitando a necessidade de revisitarmos esta orientação de modo crítico, devemos apenas afinar os pormenores que a concretizam, não devemos, pura e simplesmente ignorá-la ou negá-la.

Estas reflexões surgiram a propósito do relatório do Tribunal de Contas sobre o Técnico, que provocou a epifania mediática a que já me referi, nomeadamente durante a sua discussão ontem num plenário muito concorrido do Conselho Científico e hoje numa Assembleia de Representantes convocada para o efeito.

Não me vou deter nos detalhes destas reuniões, que posso apenas classificar como épicas, mas vale a pena transcrever o ponto 4 da moção aprovada (ficheiro em formato pdf) no Conselho Científico, moção que resume o sentimento geral das duas reuniões:
Reafirmar a sua estranheza por os orgãos de soberania, Assembleia da Républica e Governo, continuarem a ignorar as contradições legislativas actualmente existentes entre o enquadramento legal da autonomia universitária e a normativa burocrática, antiquada e verdadeiramente impeditiva do funcionamento normal de uma universidade no século XXI, que hoje se pretende aplicar com base em normas jurídicas que regem a administração central do Estado.
Quiçá por deformação profissional, nunca percebi porque razão temos uma legislação complexa, contraditória e por conseguinte ineficiente. Ultrapassa-me que uma mesma lei possa ter várias interpretações, umas mais espirituais, outras mais literais, ou que proporcione pareceres jurídicos de nomes sonantes da praça a asseverar algo e o seu contrário. Muito menos entendo que numa altura em que a sociedade da informação, a inovação e o desenvolvimento tecnológico enchem a boca de todo o político que se preze, não se perceba que asfixiar as Universidades com a recente esquizofrenia burocrática impedirá que estas cumpram o seu papel, ou antes, matará as Universidades como hoje as conhecemos.

O que surgirá dessas cinzas não será certamente uma fénix renascida muito menos o modelo de Universidade de que necessitamos para responder aos desafios do futuro. Mais do que nunca, ter boas universidades (e bons cientistas) é um factor decisivo para o país. Mas as recentes alterações legislativas não configuram a Universidade de que precisamos. Acho que está na hora de as Universidades serem motores da reforma que urge e não meros espectadores de reformas que não passam de sentenças de morte.

Did Early Global Warming Divert A New Glacial Age?

Já referi por algumas vezes que a acção humana deixou marcas indeléveis no nosso planeta muito antes do que a maioria assume, nomeadamente em Agosto referi o artigo da PNAS que sugeria ter sido a caça intensiva a causa da extinção em massa de animais pré-históricos em terras do TAZ.

Uma das minhas leituras diárias, a ScienceDaily, publica hoje um artigo muito interessante sobre um tema que normalmente aquece as nossas caixas de comentários, as alterações climáticas e a acção humana.

Ontem, no artigo «Cosmic Rays Do Not Explain Global Warming, Study Finds», a Sciencedaily dava conta de um estudo conjunto das Universidades de Oslo e da Islândia, do NILU (Norwegian Institute for Air Research) e do CICERO (Center for Climate and Environmental Research) que confirmava indicações anteriores de que os raios cósmicos não contribuem, pelo menos significativamente, para as alterações climáticas da Terra.

No artigo de hoje, é discutida a comunicação à American Geophysical Union de Stephen Vavrus, um climatólogo da Universidade de Wisconsin que, em conjunto com John Kutzbach e Gwenaëlle Philippon, sugere que foi e tem sido a acção humana nos últimos 5000-8000 anos, ou seja, sensivelmente desde o advento da História, que evitou que vivamos numa nova era glaciar. Vale a pena ler todo o artigo, de que transcrevo a última parte:

«But looking farther back in time, using climatic archives such as 850,000-year-old ice core records from Antarctica, scientists are teasing out evidence of past greenhouse gases in the form of fossil air trapped in the ice. That ancient air, say Vavrus and Kutzbach, contains the unmistakable signature of increased levels of atmospheric methane and carbon dioxide beginning thousands of years before the industrial age.

"Between 5,000 and 8,000 years ago, both methane and carbon dioxide started an upward trend, unlike during previous interglacial periods," explains Kutzbach. Indeed, Ruddiman has shown that during the latter stages of six previous interglacials, greenhouse gases trended downward, not upward. Thus, the accumulation of greenhouse gases over the past few thousands of years, the Wisconsin-Virginia team argue, is very likely forestalling the onset of a new glacial cycle, such as have occurred at regular 100,000-year intervals during the last million years. Each glacial period has been paced by regular and predictable changes in the orbit of the Earth known as Milankovitch cycles, a mechanism thought to kick start glacial cycles.

"We're at a very favorable state right now for increased glaciation," says Kutzbach. "Nature is favoring it at this time in orbital cycles, and if humans weren't in the picture it would probably be happening today."

Importantly, the new research underscores the key role of greenhouse gases in influencing Earth's climate. Whereas decreasing greenhouse gases in the past helped initiate glaciations, the early agricultural and recent industrial increases in greenhouse gases may be forestalling them, say Kutzbach and Vavrus.

Using three different climate models and removing the amount of greenhouse gases humans have injected into the atmosphere during the past 5,000 to 8,000 years, Vavrus and Kutzbach observed more permanent snow and ice cover in regions of Canada, Siberia, Greenland and the Rocky Mountains, all known to be seed regions for glaciers from previous ice ages. Vavrus notes: "With every feedback we've included, it seems to support the hypothesis (of a forestalled ice age) even more. We keep getting the same answer."
»

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Um padre em defesa da evolução

Francisco José Ayala é o Donald Bren Professor of Biological Sciences, Ecology & Evolutionary Biology e professor de filosofia na UCIrvine. Ayala, que esteve presente no Beyond Belief 2007, é membro do President's Committee of Advisors on Science and Technology e foi presidente da American Association for the Advancement of Science, que tem como missão «desenvolver a ciência e servir a sociedade», tarefa que cumpre, entre muitas outras actividades, publicando a revista Science, a revista de Ciência mais lida no mundo.

O biólogo que estuda a evolução foi igualmente padre dominicano e o último número da Scientific American- Brasil tem um perfil do ex- padre que nunca viu conflito entre evolução e fé - mas reconhece que convencer o público americano disso continua um desafio - e que considera que «o raciocínio moral, ou seja, a inclinação para fazer julgamentos éticos ao avaliar as ações em termos de bem e mal, é enraizada em nossa natureza biológica. É um resultado necessário de nossa inteligência elevada. Mas (2) os códigos morais que guiam nossas decisões como sendo boas ou más são produtos da cultura, incluindo as tradições religiosas e sociais.»

Gostei de ler o perfil de Ayala, que não consegui encontrar online mas um nosso leitor do outro lado do Atlântico gentilmente nos enviou, do qual transcrevo algumas partes que considerei relevantes:

«Após quase 40 anos pregando sobre a evolução para fiéis cristãos, o respeitado biólogo evolucionista da University of California, em Irvine, esmerilhou seus argumentos até ficarem bem afiados. Ele tem várias histórias e exemplos prontos, e algumas táticas de choque ao alcance das mãos. Uma entre cinco gravidezes acaba em aborto espontâneo, ele costuma lembrar nas palestras. Em seguida ele pergunta, de forma incisiva, como em uma entrevista para a revista U.S. Catholic, no ano passado: "Se Deus projetou o sistema reprodutivo humano, seria Deus o maior aborcionista de todos?". Com esses exemplos, ele explica, "eu quero combater os argumentos deles".

Ayala, 74 anos, está se preparando para um 2009 excepcionalmente cheio de compromissos. O ano marca o bicentenário do nascimento de Charles Darwin e o sesquicentenário da publicação da Origem das Espécies, e a batalha entre a evolução e o criacionismo certamente recrudescerá.

Ayala diz que há uma grande necessidade de que os cientistas envolvam pessoas religiosas nas discussões. Para exemplificar, ele carrega com dificuldade o Atlas of Creation, um calhamaço de 5,5kg e de dimensões de 28 x 43 cm, enviado pelo correio pelo criacionista muçulmano Adnan Oktar, da Turquia, para cientistas e museus por todos os Estados Unidos e França. O livro, ricamente ilustrado, associa a teoria de Darwin a horrores, incluindo o fascismo e o demônio.

Nos Estados Unidos, o Discovery Institute, em Seattle, que promove projetos de desenhos inteligentes, publicou livros de biologia questionando a evolução e promove o filme Expelled: no intelligente allowed (2008) para argumentar que cientistas anti-darwinistas são perseguidos. A candidata republicana à vice-presidência dos Estados Unidos, Sarah Palin, defende que o criacionismo deva ser ensinado ao lado da evolução, nas escolas. Segundo uma pesquisa da Pennsylvania State University, um entre oito professores de biologia já trata o criacionismo como alternativa válida.

Apesar dos esforços de engajamento por parte de cientistas e decisões constitucionais contra eles, os criacionistas e defensores da teoria do "projeto inteligente" não estão ficando mais fracos, adverte Ayala. "Eles estão se tornando, sim, mais visíveis." (...)

Freqüentemente, alunos iniciantes do curso de biologia de Ayala dizem que responderão as perguntas das provas como ele deseja, mas na verdade eles rejeitam a evolução por causa de suas crenças cristãs.

Anos mais tarde, depois de aprenderem mais sobre ciência, eles decidem abandonar a religião. Os estudantes parecem chegar à conclusão de que as duas abordagens são incompatíveis.
Isso o entristece, diz Ayala. Ele gostaria que os fiéis conciliassem sua fé com a ciência. Extraindo o que pode dos cinco anos preparatórios para ordenação como dominicano, Ayala usa a evolução para ajudar a responder um paradoxo central do cristianismo - como um Deus onisciente, amoroso, pode permitir o mal e o sofrimento?

A natureza é mal projetada - com estranhezas como pontos cegos dentro do olho humano e um excesso de dentes espremidos dentro de nossas mandíbulas. Parasitas são sádicos e predadores cruéis. A seleção natural pode explicar a brutalidade da natureza, argumenta Ayala, e remove o "mal" - um ato intencional de livre-arbítrio - do mundo vivo. (...)

Ayala se formou em física pela Universidade de Madri, depois trabalhou no laboratório de um geneticista enquanto estudava teologia na Pontifícia Faculdade do Colégio de San Esteban, em Salamanca, Espanha. Quando foi ordenado, em 1960, já havia decidido seguir o caminho da ciência em vez da vida religiosa. No convento o darwinismo nunca foi visto como um inimigo da fé cristã. Assim, um ano depois, quando Ayala se mudou para Nova York para fazer o doutorado em genética, a visão predominante nos Estados Unidos, de uma hostilidade natural entre evolução e religião, foi um choque para ele.

Desde então, Ayala tenta tratar do ceticismo religioso em relação à teoria de Darwin. A princípio, ele lembra, seus colegas cientistas eram desconfiados e assumiam a posição que pesquisadores não deveriam entrar em discussões religiosas. Em 1981, quando o legislativo do estado de Arkansas votou por dar ao criacionismo um espaço igual nas escolas, o sentimento começou a mudar. A National Academy of Sciences preparou um dossiê amicus curiae (amigo da corte papal) para um caso na Suprema Corte, envolvendo a "Lei da Criação" do estado da Louisiana, e pediu a Ayala que liderasse a empreitada. O livreto se tornou o Science and creationism: a view from the Natonal Academy of Sciences, de 1984.

Para a segunda edição, em 1999, Ayala apresentou a idéia de incorporar as palavras de alguns teólogos, mas lembra: "Quase fui devorado vivo". Na terceira edição, publicada neste ano, uma seção apresenta declarações de quatro denominações religiosas e três cientistas sobre a compatibilidade da evolução com as crenças religiosas.»

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Avaliar a Educação - II

Transcrevemos o artigo de opinião de Maria Regina Rocha, publicado no sítio do "Sol", e que surge na sequência de outro publicado no De Rerum Natura.

A solução: 12 verdades para um ensino de qualidade em Portugal

Estamos em 2008, no século XXI, e não nos idos anos 70 do século passado: a experiência de todos estes anos leva-nos a considerar que é preciso ter a coragem de dizer 12 verdades, se queremos realmente que se faça uma reforma na Educação, para que haja um ensino de qualidade.

1.ª – O ensino unificado (5.º ao 9.º ano) não serve. Deveriam existir, pelo menos, dois currículos (eventualmente três), um deles com uma maior componente técnica, currículos diferentes não só no que respeita ao número, natureza das disciplinas e carga horária das mesmas como aos respectivos programas.

2.ª –A ausência de reprovações não responsabiliza nem alunos, nem pais, nem professores e compromete negativamente toda a aprendizagem dos alunos com dificuldades, mas a reprovação por si só também não tem a desejada eficácia. Por isso, a partir do 4.º ano, as disciplinas deveriam ter os programas organizados por níveis de aprendizagem, progredindo o aluno em cada disciplina de ano para ano por níveis, não podendo aceder ao nível seguinte sem o domínio do que é essencial do nível anterior.

3.ª – A abolição dos exames foi um erro. A existência de exames (provas de avaliação externa) com um peso de 50% é essencial para a responsabilização de todos os intervenientes no processo educativo, desde o 4.º ano de escolaridade e a todas as disciplinas (no 4.º, no 6.º, no 9.º no Ensino Básico; em cada disciplina terminal no EnsinoSecundário).

4.ª – Os currículos estão desajustados. É necessário que tenham um número equilibrado de disciplinas, devendo desaparecer do mesmo disciplinas instrumentais como, por exemplo, «Área de Projecto» e «Estudo Acompanhado».

5.ª – Os programas são responsáveis por muitos dos problemas da falta de competência dos nossos alunos. Deveriam ser claros, com os conteúdos muito bem explicitados (nomeadamente quanto ao grau de aprofundamento) e os objectivos muito bem definidos, sendo referidos os graus mínimos de consecução em cada ano.

6.ª – A escala de classificação de níveis de 1 a 5 aplicada do 5.º ao 9.º ano é má, pois propicia o laxismo e não incentiva as realizações dos alunos. Na escala de 0 a 20, um aluno que tenha 10 valores esforça-se e vê o seu esforço recompensado, passando a sua nota, por exemplo, para 12 ou 13, mas, na escala de 1 a 5, o mesmo esforço num aluno que tenha obtido 3 não o faz mudar de nível (continua no 3), o que, naturalmente, o desmotiva.

7.ª – O número de alunos por turma é outro dos problemas: turmas de 24 a 28 alunos não são compatíveis com uma aprendizagem de qualidade no tempo presente. As turmas deveriam ter 20 alunos.

8.ª – Os tempos lectivos de 90 minutos e de 135 minutos não servem. É mais adequado cada aula de uma disciplina ter apenas 50 minutos, havendo um intervalo de 10 minutos entre a aula de uma disciplina e a de outra, para que os alunos possam vir até ao pátio de recreio, respirar fundo, falar à vontade, correr, brincar, ir à casa de banho, voltando para a aula seguinte com a capacidade de concentração e de trabalho renovada (exceptuam-se, naturalmente, as disciplinas de cariz laboratorial: 50 minutos + 50 minutos).

9.ª – O absentismo dos alunos e a indisciplina são factores que comprometem a sua aprendizagem. O recente estatuto do aluno não foi feliz nas soluções propostas. É fundamental a incidência da responsabilização nos alunos e nos pais e encarregados de educação.

10.ª – A formação inicial de natureza pedagógica e de natureza didáctica deveria obedecer a directrizes muito claras da responsabilidade do Ministério da Educação, nomeadamente a indicação das disciplinas de pedagogia, das de didáctica e seu conteúdo (por exemplo, em Português, como se ensina o aluno a desenvolver a competência de leitura ou a competência de escrita, entre outras), bem como dos aspectos a ter em conta no estágio, uniformemente em todo o país.

11.ª – A formação contínua tem sido muito heterogénea. Também aqui deveria haver uma intervenção directa do Ministério da Educação no que respeita aos objectivos e conteúdos, bem como à organização e à qualidade.

12.ª – A avaliação de professores deve ser feita tendo como referente um perfil de bom professor no quadro dos grandes objectivos do Sistema Educativo – definido pelo Ministério da Educação, e não deixado ao arbítrio de cada escola, com o pretexto da autonomia. A Educação é um desígnio nacional: a tutela não pode alhear-se desta responsabilidade.

Maria Regina Rocha

O Técnico, o Tribunal de Contas e a comunicação social

Devo confessar que fiquei comovida com o ênfase que alguns meios de comunicação resolveram devotar ao Técnico nos últimos dias, em particular durante o fim de semana. Espero que este súbito interesse se mantenha e que vejamos esses mesmos media reportarem o muito que de bom se faz no Técnico em termos de investigação científica e de prestação de serviços à comunidade.

De facto, só posso interpretar como sendo uma epifania científica o interesse mediático que se seguiu à amplamente noticiada auditoria do Tribunal de Contas e considerar que este interesse se manterá depois de esclarecidos e dissipados os boatos que correm céleres sobre alegadas malfeitorias levadas a cabo pela gestão do Técnico. Nomeadamente, pela parte que me toca, convido desde já todos a testemunharem algumas das iniciativas em que estou envolvida, como sejam a Semana da Química, as Jornadas de Engenharia Química e Biológica ou as Olimpíadas da Química.

Embora considere que a esmagadora maioria dos portugueses não se revê nos comentários que a notícia suscitou, por exemplo no Sol, acho de facto que merecemos todos, os funcionários docentes e não docentes do Técnico, um pouco mais de consideração pública que a manifestada nos últimos dias e não estou apenas a falar do comentador que exigia «Esquadrões da Morte para abater estes canalhas corruptos já».

De facto, a referida auditoria não revelou nem cheiro de corrupção, o Tribunal de Contas detectou apenas alguns problemas de procedimentos, como aqueles cuja interrupção por parte da direcção do Técnico nos está a deixar à beira de um ataque de nervos, os já referidos reembolsos e a prática corrente de cada cientista ser responsável pela execução dos respectivos projectos.

Assim, a única coisa que esta auditoria mostra claramente é a necessidade de legislação específica para as Universidades, se for considerado que se deve manter a dinâmica a que nos habituámos, no Técnico pelo menos, e que resultou aparentemente de uma interpretação errada pelas universidades nacionais da lei da autonomia. De facto, parece que a lei da autonomia universitária, que nos obriga a procurar individualmente financiamentos próprios para sobreviver, não nos deixa gastar essas verbas de acordo com as especificações dos organismos que as concedem.

Por exemplo, não faz muito sentido que uma deslocação ao estrangeiro – mesmo no âmbito de um projecto europeu, luso-brasileiro ou afins - continue a ser o acto de gravidade extrema que assumiu pela mão de António de Oliveira Salazar. Também não faz muito sentido que, ao mesmo tempo que se promove o Simplex, se exija a todos os membros do Conselho Administrativo que leiam, autorizem e assinem as dezenas de milhares de documentos que resultam da execução material dos projectos dos seus colegas (e envolvem viagens ao estrangeiro, para conferências ou para realizar trabalho).

De facto, uma das notícias que circulou célere foi a alegada ilegalidade de 120 milhões de euros de despesa em 2006, que muitos assumiram que algum «canalha corrupto» tinha metido ao bolso, e que na realidade corresponde apenas a documentos de despesa, por exemplo dos meus reagentes, que assinei eu e não todos os cinco membros do dito Conselho Administrativo.

Eu não percebo nada de direito administrativo, mas fiz parte de várias Assembleias de Representantes – quase uma centena de docentes, não docentes e alunos – que discutiram e aprovaram os prémios ao desempenho de funcionários não docentes agora muito contestados (e os suplementos de presidentes-adjuntos dos Conselhos Científico e Pedagógico a que parece não terem direito porque embora sejam contemplados para as funções correspondentes a designação presidente-adjunto não o é...). Lembro-me claramente de alguém ter suscitado a dúvida sobre se estes, embora inscritos nos estatutos do Técnico, seriam legais face à lei 14/2003. A dúvida foi encaminhada para o gabinete jurídico da Reitoria e para a Inspecção Geral de Finanças que deram o seu beneplácito à prática - que substitui o pagamento de horas extraordinárias e me parece ser mais encorajadora da excelência do desempenho dos nossos funcionários que qualquer SIADAP que se invente.

Parece também, e aqui não percebo os pormenores, que há um mapa anexo às contas ou quejandos que não está construído de acordo com o formalismo habitual e essa será outra das «irregularidades» encontradas, entretanto corrigida como todas as outras.

Há mais Universidades que foram ou estão a ser auditadas pelo Tribunal de Contas e estou certa que em todas as Universidades em que a investigação científica tem um peso grande serão detectadas irregularidades análogas. De facto, é muito complicado fazer ciência com as mesmas regras que regem uma qualquer repartição pública. Espero, para bem do País e da ciência nacional, que o relatório publicado há dias seja uma advertência aos poderes nacionais de que não basta louvar o progresso tecnológico, é preciso dar condições para que esse progresso aconteça. Aliás, na conjuntura actual urge mesmo que se considere legislar para remover a asfixia que tolhe a investigação científica e obsta a que esse progresso possa ter lugar.

NOVOS LIVROS DA IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA


Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra (na foto, placas de agradecimento ao Dr. Sousa Martins, na base da sua estátua em, Lisboa, no Campo dos Mártires da Pátria):

Sousa Martins: Ciência e Espiritualismo

A Coordenadora Científica do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX e o Director da Imprensa da Universidade de Coimbra, têm o prazer de convidar para a apresentação do livro Sousa Martins: Ciência e Espiritualismo, de Sara Repolho, que terá lugar no dia 16 de Dezembro, pelas 17h30, no CEIS20. A apresentação da obra será feita pelo Senhor Dr. José Morgado Pereira.

José Tomás de Sousa Martins, nascido em 1843 em Alhandra (Vila Franca de Xira), marca a medicina e a sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX. Médico e professor de Medicina, orador brilhante dotado de humor e inteligência, homem de actividade inesgotável e praticante incansável da caridade aos mais desfavorecidos, exerce forte influência nos colegas de profissão, nos alunos, nos pacientes... Esta influência desenvolve-se, transforma-se e ultrapassa os grilhões do tempo. A figura de Sousa Martins é modelada, assumindo contornos de santo laico, num culto actual, visível no Campo dos Mártires, em Lisboa, em torno da sua estátua, e no cemitério de Alhandra, onde está sepultado. Pretende-se nesta obra analisar os diferentes planos da acção de Sousa Martins, enquanto médico e enquanto ‘santo’, e as práticas de culto dos crentes que a ele recorrem.

Sara Repolho é licenciada em Psicologia, no ramo de Psicologia Pedagógica, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. É mestre em História das Ideologias e das Utopias Contemporâneas, com especialização em História da Ciência, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Tem exercido Psicologia com crianças e jovens, no âmbito das dificuldades de aprendizagem e problemas de desenvolvimento. É investigadora não doutorada do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – CEIS20, afecta ao Grupo de História e Sociologia da Ciência. Encontra-se a preparar doutoramento em Ciências e Tecnologias da Saúde, na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.

Cultura: Imagens e Representações

A Directora do Arquivo da Universidade de Coimbra, a Coordenadora Científica do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra e o Director da Imprensa da Universidade de Coimbra têm o prazer de convidar para a apresentação do n.º 8 da Revista Estudos do Século XX, com o tema Cultura: Imagens e Representações, coordenada pelo Senhor Doutor Vitor Neto. A apresentação será feita pelo Senhor Doutor Norberto Cunha, na Sala D. João III do Arquivo da Universidade de Coimbra, no dia 17 de Dezembro de 2008, pelas 18h00.

Como em centúrias anteriores a cultura, as imagens e as representações foram dimensões fundamentais da totalidade social no século XX. Exprimindo-se no campo teórico, ou no plano das imagens e estas componentes da realidade manifestaram-se também na política, no ensino, na estética e na literatura. As representações da cultura foram igualmente uma das características mais significativas das “ideologias” do século passado. Na verdade, a super-estrutura cultural, nas suas diferentes manifestações, assumiu-se como vanguarda, como compromisso, ou como uma forma conservadora no processo histórico-cultural dialéctico correlacionado com a economia, a sociedade, o político (e a política). A cultura funcionou ainda como a mundovisão dos cidadãos na sua relação entre si, com o mundo e a natureza. Imersos nas suas actividades económicas, os homens produziam (e produzem) o seu sistema de representações acerca da sociedade e do universo, criavam (e criam) as suas visões sobre a realidade num momento muito marcado pela chamada “civilização da imagem”. A cultura, nas suas relações com a civilização, a política e o seu discurso, a ciência, as imagens e as suas crises, a criação cinematográfica e pictórica, a pedagogia, a memória, os mitos e os ritos revela uma das dimensões da realidade de um século politicamente dramático (se não trágico) e culturalmente rico e diversificado.

Colaboram na revista Alan Dowty, Georges Contogeorgis, Maria Bernardete Ramos Flores, Antonio Carlos Peixoto, Isabel Calado, Heloisa Paulo, Ana Isabel Martins, Massimo Morigi e Stefano Salmi, José Alexandre Cardoso Marques, Fausto Cruchinho, Paulo Cunha, Isabel Nogueira, António Augusto Simões Rodrigues e António Manuel Matoso Martinho, Augusto Monteiro, Luís Mota, Clara Isabel Serrano, Fernando Fava, Miguel Dias Santos, Fernando Tavares Pimenta, José Luís Lima Garcia, Sérgio Neto, João Rui Pita, Manuel Correia e José Morgado Pereira.
A revista Estudos do Século XX é dirigida por Maria Manuela Tavares Ribeiro.

O Tempo de Pedra

Terá lugar no próximo dia 18 de Dezembro, pelas 17h30, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, a apresentação do livro O Tempo de Pedra, da autoria do Professor Doutor Rui Pena dos Reis, edição que se enquadra nas comemorações, em Portugal, do Ano Internacional do Planeta Terra. A apresentação será feita pelo Professor Doutor Filipe Duarte Santos, coordenador do Projecto SIAM – “Climate Change in Portugal. Scenarios, Impacts and Adaptation Measures”.

O presente trabalho tem como temática essencial a questão do tempo geológico e a sua relação com os grandes eventos de transformação da Terra, tal como testemunha o registo geológico do planeta. Em primeiro lugar, é apresentada uma visão interior do tempo, uma perspectiva pessoal do conceito na sua acepção mais vasta. Em seguida, o tempo é definido e discutido numa perspectiva de evolução histórica, sendo ainda abordadas as metodologias e os conceitos associados à sua definição. Os grandes temas da transformação da Terra, com ênfase na história climática, são tomados em seguida, a par dos códigos de leitura dos testemunhos do tempo, presentes nas rochas. Por fim, discute-se a questão do tempo actual no quadro da relação entre os seres humanos e as variáveis naturais.

Rui Paulo Bento Pena dos Reis é natural de Assentis, Torres Novas, onde nasceu em 15 de Junho de 1952. Graduado em Geologia pela Universidade de Coimbra em 1976, fez estudos de pós-graduação em França, na Universidade de Nancy 1, em Geoquímica, Petrologia e Metalogenia. Doutorou-se em Estratigrafia e Paleontologia na Universidade de Coimbra em 1984, onde é actualmente professor no Departamento de Ciências da Terra. De 1996 a 2000 foi director do Departamento de Geologia do Instituto Geológico e Mineiro, organismo do Ministério da Indústria. Nos últimos anos, tem cooperado estreitamente com universidades e companhias no domínio da pesquisa e exploração de hidrocarbonetos, estando associado à criação de formação especializada nesta área do conhecimento. É autor de numerosos trabalhos acerca da estratigrafia e geo-história de Bacia Lusitânica.

Galileu na primeira pessoa



Informação recebida da Didáctica:

Título: Chamo-me Galileu Galilei
Autor: Guilherme de Almeida
Formato 15 x 21,5 cm
64 páginas
ISBN 978-972-650-820-5. Totalmente a cores.
Ilustrações de Jorge Miguel
Didáctica Editora, Lisboa.

Este livro conta, na primeira pessoa, a vida e a obra do grande Galileu Galilei. Utiliza uma linguagem acessível, adequada aos jovens, mas os seus conteúdos, serão igualmente úteis a estudantes e também a pessoas crescidas. Totalmente ilustrado a cores.

Natural de Pisa, na Itália, Galileu Galilei (1564-1642) foi o pioneiro do método científico moderno. Fez avançar a Física, as ciências dos materiais e a Astronomia. Os seus trabalhos inspiraram Isaac Newton.

Galileu aperfeiçoou o telescópio e as suas observações iniciaram a queda da antiga concepção geocêntrica do Universo. As descobertas que fez com o telescópio revolucionaram a maneira como se passou a ver o Universo e o lugar do Homem no Universo. Contribuiu decisivamente para a aceitação gradual do modelo heliocêntrico de Copérnico e para o nascimento de uma nova Física. Tudo isto representou um enorme avanço, continuado por Kepler, Newton e outros.

Muitas das conclusões de Galileu desagradaram à Igreja Católica, então muito poderosa, que entendeu que as suas descobertas contrariavam a interpretação literal da Bíblia (que então se fazia). Por isso foi advertido pela Inquisição, em 1616, e condenado, em 1633. No entanto, pela intervenção do Papa João Paulo II, mesma Igreja acabou por lhe dar razão, em 1992. A História reconheceu-o como o pai da ciência moderna.

Comemoram-se (em 2009) 400 anos sobre o início das observações astronómicas com telescópios, feitas por Galileu Galilei, em 1609. Por isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou o ano 2009 como
Ano Internacional da Astronomia (AIA2009).

O AIA2009 é um acontecimento a nível mundial em que Portugal também participa, sob a coordenação da Sociedade Portuguesa de Astronomia. Esta comemoração tem por objectivo ajudar as pessoas a redescobrir o seu lugar no Universo através da observação astronómica. E também estimular o interesse e a divulgação da astronomia e da ciência em geral, especialmente entre os jovens. Mais informação em http://www.astronomia2009.org.

OS PROFESSORES EM BADAJOZ

No país vizinho, na Província da Extremadura, o Governo Regional tem uma campanha de anúncios na televisão e na rádio a valorizar os professores e a enaltecer o seu trabalho. Veja aqui o vídeo. A Junta da Extremadura chama a esta campanha "Valoración Docente".

O TOP TEN DOS MELHORES LIVROS DE CIÊNCIA DE 2008 SEGUNDO A AMAZON

É interessante ver (clique aqui) a "lista dos dez mais" de entre os livros de ciência publicados em 2008 e escolhida pela Amazon. De entre eles sete são sobre biologia e medicina (alguns títulos sobre evolução são bem oportunos porque se aproxima o ano Darwin), dois sobre física e um sobre ciência em geral.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A educação nacional e a avaliação dos professores


Nova crónica sobre educação de Rui Baptista:


Segundo Roland Barthes, “a existência de uma erótica do novo, faz com que o antigo seja sempre suspeito”. Mas, com o saudosismo que a idade me permite, não posso deixar de evocar os meus tempos de aluno do então chamado ensino primário em que eram exigentemente avaliados os conhecimentos da leitura, da escrita e da resolução de problemas matemáticos, com exames de passagem da 2.ª para a 3.ª classe e exame final da 4.ª classe. Vivia-se também em tempo de grande prestígio para o exercício da docência no ensino liceal (que os ventos da mudança “alcunharam” de secundário) que mereceu de Clara Pinto Correia uma bela crónica, intitulada “O render dos heróis”, de que transcrevo um excerto:


“A barbárie não anda longe. Nunca andou. É contra o seu fundo de trevas que se desenha o brilho da civilização. É nesse mesmo fundo que, de tempos a tempos, o brilho se dissolve e a escuridão total desce sobre a floresta. É cíclico. Já aconteceu antes. Mais que uma vez. Não temos nenhuma razão, pelo contrário, para pensar que não volte a acontecer. Para evitar que assim seja temos nos professores do liceu a mais importante das nossas armas. Devíamos beijar-lhes as fímbrias do manto”.


Em contrapartida, hoje, com o laxismo de deixar passar toda a gente, brada aos céus a falta de cultura geral (e específica) de alguns dos alunos do ensino secundário e mesmo do ensino universitário. Apenas um pequeno e elucidativo exemplo: o “Jornal Nacional” da TVI (29/01/2003), ao entrevistar alunos da Faculdade de Letras de Lisboa perguntou a um deles o nome do autor de “Os Maias”. Por mais incrível que pareça, foi atribuída a autoria a Egas Moniz deixando, dessas forma, pairar a dúvida se se estaria a referir a Egas Moniz, fidalgo do século XII, exemplo de honradez, ou a Egas Moniz Prémio Nobel da Medicina de1949. Trazia ele atrás de si doze anos de escolaridade anterior porque nessa altura só existiam as velhas oportunidades!


Sendo alguns destes alunos futuros professores do actual ensino secundário ou mesmo universitário, não será a altura de diagnosticar, avaliar e procurar soluções para o estado calamitoso do nosso sistema de ensino que faz com que a ignorância dele se tenha apossado transformando-o numa triste e desalentadora chaga nacional? Até que ponto poderemos continuar a fazer ouvidos de mercador às palavras de António José Saraiva, uma referência incontornável da cultura portuguesa, quando nos adverte:”Não se deve confundir a vida política com um estado de agitação convulsiva em que não há regras e em que cada aventureiro (…) manipulando manifestações de rua, impõe a sua lei, como aconteceu nos meses seguintes ao 25 de Abril. A regra do jogo é indispensável a qualquer sociedade organizada”? (Crónicas de António José Saraiva, Quidinovi, 2004, p.671).


Passados anos (esta crónica é do ano de 1983), onze sindicatos em representação dos professores continuam a manifestar-se contra o sistema de avaliação proposto pelo Ministério da Educação que enquadra num mesmo modelo avaliativo docentes do ensino infantil ao ensino secundário como se a exigência científica e pedagógica dessa docência pudesse assumir a forma de “prêt-à-porter” em repetição de um espartilho representado anos antes por um estatuto de carreira docente única que não encontra paralelo em outros países europeus. E o mais curioso disto é que nesse aspecto nenhuma discordância separa a tutela dos tutelados. Ou parece separar.

Embora, como reconheceu Jeff Busch, referindo-se a uma reforma educativa no estado da Florida, nos Estados Unidos, de que era governador, “quem não mede não se preocupa com as coisas”, a crise actual portuguesa é bem mais ampla do que a questão da avaliação. Exige uma profunda e radical política que retire Portugal do atoleiro que lhe tolhe o passo na senda dos melhores resultados escolares do resto da União Europeia. As notícias sobre o sistema de avaliação dos professores, que têm enchido páginas e páginas dos jornais, ocupado horas e horas de tempo de antena radiofónica e passado até à náusea nos ecrãs de televisão, fazem correr o risco do acessório se transformar em principal.


Para a isso obstar, a reforma do sistema educativo do ensino infantil ao universitário merece ser encarada na sua globalidade e não como um remendo em esburacada manta de retalhos. Mas haverá coragem e vontade política em promulgar a necessária e urgente legislação sem ser sob pressão sindical ou de lobbies de outra natureza? Caso contrário, é melhor deixar tudo como está porque, nas palavras pessimistas (ou realistas?) de Albert O. Hirschman, “sempre que se propõe uma reforma, é verdade, primeiro, a reforma não vai alterar em nada o que já existe; segundo, a reforma vai produzir efeitos exactamente contrários aos que pretende ter; terceiro, a reforma vai prejudicar o que havia de positivo na reforma anterior”.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Presunção e Água Benta


Há quase dois anos, Bento XVI referiu que o uso da razão sem mediação pela fé causa uma esquizofrenia terrível, ou mais concretamente:

«Deve admitir-se que a tendência para se considerar verdade apenas aquilo que pode ser experienciado constitui uma limitação à razão humana e produz uma esquizofrenia terrível, causa da existência do racionalismo, materialismo e hipertecnologia».

Na altura, tive uma certa dificuldade em perceber o que fosse a hipertecnologia denunciada como um mal por Bento XVI assim como tive muitas dúvidas sobre se o uso da razão nos descrentes origina uma acumulação excessiva de dopamina nas fendas sinápticas e como tal produz alucinações, delírios e percepções irreais sortidas. Mas percebi, dadas as prioridades anunciadas do seu papado, proeminentes entre elas a bioética, o apelo aos cientistas católicos para que «exprimissem o carácter razoável da sua fé».

Depois de ler a profusão de documentos, entrevistas e declarações debitadas pelo Vaticano sobre o tema, não considerei nada razoáveis, bem pelo contrário, as lucubrações da fé sobre ciência, em especial sobre biomédica/bioética. Para o cardeal Ratzinger, e podemos apenas supor que para Bento XVI, o homem não «tem direito pleno sobre a sua natureza biológica», acrescentando «O nosso estatuto ontológico como criaturas feitas à imagem de Deus impõe limites à nossa auto determinação (biológica). A soberania (sobre o nosso corpo) de que dispomos não é ilimitada».

Lucubrações irrazoáveis sobre ciência e cientistas não são apanágio do actual Papa, há dois anos o cardeal Alfonso Lopez Trujillo, responsável pelo Conselho Pontifical da Família, o mesmo que disse que o HIV é suficientemente pequeno para passar através de «poros» dos preservativos e que condenou veeementemente a clonagem terapêutica, afirmou que os cientistas que trabalham com células estaminais deveriam ser excomungados automaticamente. O cardeal Trujillo afirmou ainda que a excomunhão latae senentiae deveria ser estendida aos políticos que aprovassem leis permitindo a investigação em células estaminais, mesmo aquelas obtidas sem destruição de embriões - devidamente condenadas por Monsenhor Elio Sgreccia, que preside à Academia Pontifícia para a Vida.

Este último dignitário afirmou numa entrevista à Rádio Vaticano que o método para obter células estaminais desenvolvido por cientistas da Advanced Cell, em Alameda, Califórnia, «não resolve os problemas éticos» desta área de investigação. O novo método - descrito na Nature - consiste em colher um embrião numa fase muito primitiva de desenvolvimento e retirar-lhe uma única célula, que pode dar origem a uma estirpe de células estaminais embrionárias. O embrião, excedentário de fertilização in vitro, não é destruído no processo e mantém todo o seu potencial de desenvolvimento. Contudo, notou Sgreccia, o novo método não tem em conta que mesmo aquela única célula removida pode evoluir para um ser humano totalmente desenvolvido. Ou seja, segundo o Vaticano uma célula totipotente tem a mesma ou mais dignidade* que um ser humano.

As irrazoabilidades papais e as considerações avulsas de outros altos dignitários sobre bioética foram agora reunidas num único documento ainda menos razoável (documento completo em formato pdf). A instrução Dignitas personae, que a Congregação para a Doutrina da Fé divulgou sexta-feira e substitui a agora obsoleta Donum vitae , transcreve as considerações «científicas» de todos estes experts em biologia em geral e embriologia em particular num documento que consideram dever «ser colocado no centro da reflexão ética sobre a investigação biomédica».

Ou seja, esta é uma instrução doutrinária destinada essencialmente a controlar o trabalho dos cientistas, no tom que deu o mote ao papado de Bento XVI, «que não se trata de impor aos não-crentes uma perspectiva de fé, mas sim de interpretar e defender os valores radicados na natureza mesma do ser humano». Ou seja, não é «uma colecção de proibições», nem uma interferência na ciência mas sim «uma série de indicações para que a ciência se coloque verdadeiramente ao serviço da vida, e não da morte ou da arbitrária e perigosa manipulação das pessoas humanas».

Assim, a Dignitas personae avisa a comunidade em geral e a científica em particular que os recentes avanços em investigação em células estaminais, terapia genética e experiências com embriões violam princípios morais e levantam questões «éticas» sérias para os investigadores e outros professionais, mesmo aqueles não dados a práticas pecaminosas que, de acordo com o Vaticano, têm o dever de recusar material biológico obtido por outrem de forma não ética. Assim o Vaticano lança uma admoestação aos cientistas: «Não devem colaborar com o mal»!

Mas se é a investigação científica que está na berlinda, porque a «filosofia geral é que todo o ser humano tem direito a nascer da união dos pais», são condenadas igualmente quer a contracepção, um «pecado de aborto, sendo gravemente imoral» quer a reprodução medicamente assistida que envolva inseminação artificial - e, claro, o diagnóstico precoce e o congelamento dos embriões excedentários, «que são e permanecem titulares dos direitos essenciais e que, portanto, devem ser tutelados juridicamente como pessoas humanas».

A Dignitas personae detém-se no entanto na ciência, reprovando em particular a execrada investigação em células estaminais, considerada «cooperar com o mal» e «um escândalo» que não «está ao serviço da humanidade». Claro que a engenharia genética é um anátema em quaisquer circunstâncias «porque o homem nunca poderá substituir o Criador» e a terapia génica levanta dúvidas porque favorece «uma mentalidade eugénica». De igual forma, é condenado clonar genes humanos em animais por tal abominação constituir uma grave ofensa à dignidade humana - tenho uma dúvida transcendente sobre se bactérias e leveduras estão incluídas e se, por exemplo, os diabéticos que se injectam com insulina estarão a cometer um pecado grave.

Achei especialmente divertido o capítulo devotado ao «uso de "material biológico" humano de origem ilícita» pela tortuosidade a que se obrigaram os seus redactores. Embora a produção desse material ilícito seja «sempre uma desordem moral grave», os laboratórios que o utilizem na produção de vacinas -quando este «foi produzido fora do seu centro de investigação ou que se encontra no comércio» -, devem apenas evitar «o perigo de escândalo», isto é, que se saiba que estão a trabalhar com os tais materiais.

Tudo isto porque no caso de vacinas preparadas a partir de fetos abortados, o Vaticano produziu há anos um documento que permite a vacinação «imoral» de crianças católicas embora exorte os católicos a lutarem contra as companhias que produzem imoralmente tais vacinas, especialmente a vacina contra a rubéola para que não há alternativas «morais».

O sofisma na base da decisão consiste em considerações de extrema ratio, isto é, a obrigação moral de evitar colaboração material passiva com um «crime»(ser vacinado com uma vacina ilícita) não é obrigatória se existir um inconveniente grave, nomeadamente quando existe «coerção moral da consciência dos pais que são forçados a agir contra a sua consciência ou então pôr em risco a saúde dos seus filhos e de toda a população. Esta é uma escolha alternativa injusta, que deve ser eliminada tão cedo quanto possível».

Mas se os desenvolvimentos científicos tornaram impossíveis de aceitar pelos crentes posições como a do Papa Leão XII que, durante uma epidemia de varíola em 1829, decretou que «aquele que permitir ser vacinado deixa de ser um filho de Deus», em relação aos cientistas não há esses pruridos.

Assim, de acordo com o Vaticano, os cientistas têm «o dever de recusar o referido "material biológico" – mesmo na ausência de uma certa relação próxima dos investigadores com as acções dos técnicos da procriação artificial ou com a dos que praticaram o aborto, e na ausência de um prévio acordo com os centros de procriação artificial – resulta do dever de, no exercício da própria actividade de investigação, se distanciar de um quadro legislativo gravemente injusto e de afirmar com clareza o valor da vida humana.»

Repetindo o que já disse n'«As Bananas da Discórdia», estas proibições absurdas, o obscurantismo e imiscuição indevida na ciência são o que tornam o discurso dos teólogos cada vez mais irrelevante. Infelizmente, há umas quantas pessoas que levam a sério estes dislates e os tentam transpor para a letra da lei dos respectivos países, como aconteceu em Itália durante o referendo de 2005 sobre fertilização medicamente assistida.

Esperemos que a este documento infeliz não se sigam manifestações anti-ciência dos mais fanáticos. Mas certamente que a Dignitas personae dará munições à Igreja americana nas guerras culturais, nomeadamente no que respeita à anunciada intenção de Barack Obama de reverter o veto de George W. Bush na limitação das pesquisas com células embrionárias. Além disso, não é necessário grande presciência para prever que o documento será recorrente na argumentação dos bispos franceses durante os debates parlamentares sobre a Bioética, previstos para 2009.

*Na encíclica Evangelium Vitae pode ler-se, no meio de uma imensidão de platitudes e da condenação reiterada do aborto, eutanásia e contracepção, que «a vida na sua condição terrena não é um valor absoluto». O ponto 57 da encíclica resume a posição da ICAR sobre a inviolabilidade da vida humana: apenas condena «a eliminação directa de um ser humano inocente». Ou seja, não há problemas com a eliminação directa de «culpados» (quiçá os homossexuais que se pretende proteger com a directiva da ONU a que o Vaticano se opõe veementemente) e com mortes indirectas ou «colaterais» (quiçá das «guerras justas» sancionadas no catecismo de 1997).

Quando maior não é melhor... ou será?

Os machos de aranhas Latrodectus hasselti, da família da viúva negra, evoluiram um comportamento sexual bizarro que passa pelo suicídio na hora da cópula. Este comportamento parece ser uma vantagem evolutiva que confere ao suicida maiores hipóteses de passar os seus genes, não só porque uma cópula canibal é mais demorada (cerca de meia hora, contra 6 minutos quando o macho escapa incólume) e permite a fertilização de um maior número de ovos mas também porque depois da refeição a viúva negra tem menos apetência por outros parceiros.

Mas o comportamento sexual bizarro destas aranhas não se esgota no suicídio copulatório. Michael Kasumovic descobriu que os Casanovas da espécie são os machos mais pequenos que têm mais sucesso em reproduzir-se que machos maiores.

De facto, embora os machos maiores derrotem os mais diminutos em competições para acasalamento, os machos pequenos, que amadurecem mais depressa e são mais rápidos, são os latin lovers destas aranhas.

Publicado no último número do Journal of Evolutionary Biology, o artigo «A change in competitive context reverses sexual selection on male size» mostra a importância da maturação na definição do sucesso de acasalamento e paternidade. Os cientistas simularam dois contextos competitivos em que favoreceram o desenvolvimento de machos de dimensões diferentes. Os machos maiores tinham mais sucesso no acasalamento e em garantir a descendência quando em competição directa com os menores. No entanto, se a experiência emulasse a mais rápida maturação dos machos pequenos estes exibiam uma taxa de paternidade dez vezes maior que a dos seus competidores.

A corte nestas viúvas negras dura em média cerca de 50 minutos quando há competição entre machos e cerca de quatro horas e meia quando há apenas um pretendente. Como refere o autor principal do estudo:

«The results reveal that big males don't get it all their own way.

Large size and weaponry are strong predictors of a male's competitive strengths because those traits help them dominate smaller males when they compete for food and mating rights. However, evidence from studies of midges, dung flies and seed beetles reveals that smaller males develop sooner than larger males and often mate before larger competing males arrive on the scene. Size isn't the only ruler by which we can measure a male's quality. Many other factors, including maturation time, are critical in that definition.»

sábado, 13 de dezembro de 2008

O IMPOSSÍVEL ACONTECE


Minha crónica de hoje no "Sol":

Que não é impossível escrever um bom livro sobre o impossível prova-o “A Física do Impossível”, do físico norte-americano Michio Kaku, que acaba de sair na Bizâncio.


O impossível é uma questão fascinante. Tal como o autor podemos interrogar-nos: Mas impossível porquê? Por mera dificuldade técnica, o que significa que é afinal possível? Ou por absoluta impossibilidade científica, o que significa que é impossível de todo? Mas existirão estas impossibilidades totais e permanentes? Não é verdade que hoje sabemos muito mais que ontem e que amanhã saberemos ainda mais e que, por isso, o que declaramos impossível hoje pode já não o ser amanhã?


Kaku, o grande divulgador de ciência que já nos tinha dado “Visões – Como a Ciência Irá revolucionar o século XXI” e “Mundos Paralelos” (ambos na Bizâncio) e “O Cosmos de Einstein” (na Gradiva), divide os impossíveis em três classes:


I) O que, embora pareça impossível, é afinal possível porque não viola nenhuma lei da física, e será provavelmente concretizado neste século ou no próximo.


II) O que, embora pareça impossível, pode ser possível porque a ciência de base está actualmente na sua infância e, apesar de muito difícil, será provavelmente concretizado neste milénio ou nos próximos mil milénios.


III) O que é mesmo impossível e, por isso, nunca acontecerá, por violar leis da física que hoje conhecemos bem. Mas, se um dia, essas leis vierem a ser revistas...


Na primeira classe, o autor inclui a invisibilidade e o teletransporte (está-se a trabalhar nisso e há avanços recentes). Na segunda, as viagens no tempo e as viagens às estrelas (está-se a especular sobre isso). Na terceira, as máquinas de movimento perpétuo, isto é, máquinas que funcionariam graças à criação de energia a partir do nada, e a precognição. Há, como sempre houve, muitos impostores a tentar ganhar dinheiro com coisas impossíveis da classe III e é preciso ser céptico.


Kaku escolheu a física fascinado por Einstein e pelos filmes de ficção científica. Esta sua obra mistura sabiamente as duas coisas.

PENSAR E VIVER SEM TRINCHEIRA

Texto  do meu colega e amigo Andrés Palma Valenzuela, professor na Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Granada. Foi  recent...