segunda-feira, 8 de junho de 2015

ANTÓNIO MANUEL BAPTISTA (1924-2015)

Morreu o físico e divulgador de ciência António Manuel Baptista. Numa época em que um governo avesso à ciência ignora e, nalguns casos, afronta a cultura científica, fica a memória de um grande professor e um exemplar prosélito da ciência. muito activo num tempo em que a ciência não tinha a visibilidade que tem hoje. Muitos recordam com saudade os seus programas de rádio e televisão. Os seus livros continuam connosco, nas livrarias e bibliotecas. Que o seu exemplo nos sirva de alento para remar contra a actual maré de marginalização da ciência na nossa vida política e social.

domingo, 7 de junho de 2015

Debates da Fundação Francisco Manuel dos Santos na Feira do Livro de Lisboa

Dia 10 de Junho dois autores deste blogue irão debater na Feira do Livro de Lisboa sobre o estado e o rumo da ciência em Portugal, com moderação de Maria Helena Nazaré. Às 19h, na Praça da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Regulação ético-deontológica na investigação em Ciências da Educação


Em 12 de Setembro de 2014, a Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação (SPCE) aprovou em Assembleia Geral um documento importantíssimo que regula a investigação na área da Educação em Portugal. Foi redigido por um grupo de trabalho coordenado por Isabel Baptista, professora da Universidade Católica Portuguesa, e tem por título Instrumento de Regulação Ético-Deontológica (Carta Ética).

Nele se enunciam princípios e orientações que devem ser conhecidos quer por investigadores, quer por participantes e colaboradores em estudos, quer, ainda, pela sociedade em geral.

DEBATE SOBRE HOMEOPATIA

Transcrevo o meu debate com o homeopata Francisco Patrício, publicado ontem no Jornal I.

não há dúvidas...

O médico alemão Samuel Hahnemann descobriu que qualquer medicamento tem duas acções: uma acção primária, que corresponde ao que actualmente se conhece como efeito terapêutico, adverso ou colateral dos fármacos, e uma acção secundária ou reacção homeostática do organismo, que é conhecida por efeito rebound. 

Na homeopatia é o efeito rebound que é usado como efeito terapêutico, pois existe esta resposta do organismo como um todo e a nível celular a um estímulo terapêutico que é administrado pelo princípio da similitude, recuperando-se a homeostasia. Já na farmacologia convencional, quando os medicamentos são usados pelo princípio dos contrários (de forma enantiopática), o efeito rebound torna-se um efeito adverso e grave. 

O estudo do fenómeno do efeito rebound, os estudos da hormesis da toxicologia moderna e a abordagem recente intitulada como farmacologia paradoxal, entre outras, fundamentam cientificamente a homeopatia. O médico e cientista prof. dr. Marcus Zulian Teixeira fundamentou cientificamente o princípio da similitude na designada farmacologia moderna através de investigação sobre o efeito rebound. Da investigação básica salienta-se que os medicamentos dinamizados emitem sinais electromagnéticos específicos, sendo uma linha de investigação do Prémio Nobel da Medicina Jean Luc Montagnier. Outros estudos mostram que a nanoestrutura da água é diferente da do solvente de partida e que mesmo ultradiluições acima da 12CH (limiar do número de Avogadro) apresentam ainda nanopartículas do soluto inicialmente diluído, detectadas por microscopia electrónica. Estudos segundo a metodologia científica actual (duplamente cegos e randomizados) em seres humanos, em animais e em células com ultradiluições acima da 12CH mostram que os medicamentos homeopáticos têm um efeito diferente do placebo. 

Destaca-se ainda da investigação clínica até 2014 a existência de seis grandes revisões sistemáticas e metanálises de ensaios clínicos randomizados e controlados, cinco das quais indicam que a homeopatia tem efeito específico e superior ao placebo. Apenas uma publicação no “The Lancet” em 2005 pôs isso em causa. Mas foi bastante contestada quanto à sua metodologia: em 110 ensaios clínicos homeopáticos, seleccionou apenas oito para as conclusões finais. Desses oito, quatro apresentavam resultados positivos a favor da homeopatia e os outros quatro eram ensaios clínicos cuja metodologia feria marcadamente os princípios fundamentais da homeopatia. Assim, até aos dias hoje, só existem estudos que indicam que a homeopatia, quando aplicada segundo os princípios que a definem, é eficaz e eficiente. 
Francisco Patrício

... de que não funciona

A homeopatia é uma prática inventada há cerca de 230 anos pelo médico alemão Samuel Hahnemann, segundo a qual o poder curativo de qualquer substância (desde abelhas esmagadas a cicuta) é tanto maior quanto mais diluída ela for. A magia está alegadamente numas pancadas (“dinamizações”) dadas com os frascos numa superfície dura e flexível (originalmente, a sela do cavalo de Hahnemann). Este foi contemporâneo de Lamarck e morreu em 1843, ano em que nasceu Robert Koch, que viria a descobrir que muitas doenças são causadas por microorganismos. Décadas depois seria determinada a constante de Avogadro, que permite saber quantas moléculas há numa certa quantidade de matéria (num preparado homeopático 30C, a probabilidade de encontrar uma só molécula da substância original é equivalente à de ganhar o Euromilhões várias vezes).

A homeopatia surgiu quando a ciência moderna dava os primeiros passos e rapidamente se tornou evidente que os seus princípios não tinham fundamento científico. A ciência baseia-se em experiências e observações que possam ser repetidas e confirmadas de modo independente. A homeopatia é uma pseudociência, procura imitar a aparência da ciência. Para isso recorre a um conjunto de estratégias típicas que descrevo no meu livro “Pseudociência” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014), tais como figuras de autoridade, ou seja, dizer que uma coisa é verdade porque há pessoas muito importantes que dizem que é (“médico e cientista prof. dr. Marcus Zulian Teixeira”, “Prémio Nobel da Medicina Jean Luc Montagnier”, que ganhou o Nobel pela descoberta do vírus HIV nos anos 80, e não por divagações sobre “assinaturas electromagnéticas” quase aos 80 anos de idade). Outra é a linguagem aparentemente científica, usada sem qualquer significado (“efeito rebound”, “farmacologia paradoxal”). Lembra-se das pulseiras power balance com um “holograma quântico?” É a mesma coisa. Escolher a dedo os estudos que parecem mais favoráveis, ignorando os restantes, tal como escolher um postal sem olhar para a paisagem, é outra característica da pseudociência. A exigência para a medicina baseada na ciência são as revisões sistemáticas da literatura científica, como as feitas pela organização sem fins lucrativos Cochrane Collaboration. Se acreditam ter provas de que a homeopatia funciona, aceitem introduzir os remédios homeopáticos no mercado sujeitos às mesmas exigências dos medicamentos convencionais. Fica o desafio. 
David Marçal 

Talvez possa tirar medicina

Há quatro princípios fundamentais na homeopatia: uso de um medicamento único e individualizado para o total de sintomas do doente; o uso de medicamentos na forma dinamizada ou ultradiluída; e o princípio da similitude, o mais importante, que define que a cura de uma pessoa doente pode ser alcançada administrando-lhe o medicamento que produz sintomas semelhantes em utilizadores saudáveis. Assim, a sua afirmação de que “o poder curativo de qualquer substância é tanto maior quanto mais diluída ela for” não é correcta. A acção verifica-se, acima de tudo, segundo o princípio da similitude. 

Aquilo a que chama “pancadas” são sucussões e está provado por métodos como a espectrografia que geram alterações. As ultradiluições são diferentes do solvente, existindo agregados supramoleculares de moléculas de água; é possível identificar medicamentos específicos, sinais electromagnéticos ou emissão de fotões. É uma nanomedicina. 

Não existe nenhum estudo que conteste a eficácia e eficiência do tratamento que contenha ensaios clínicos feitos de acordo com os princípios referidos. Na homeopatia não há doenças, há doentes únicos, o que não impede que seja posta à prova através destes ensaios clínicos controlados e randomizados. Prova disso é a mais recente meta- -análise e revisão sistemática de 2014 publicada no “Systematic Reviews”, que mostra que o tratamento individualizado tem um efeito superior ao placebo. Faltam mais ensaios por várias razões: negação da homeopatia e dos médicos que a investigam por preconceito, falta de apoios, falta de médicos com conhecimentos adequados.

Claro que há figuras de autoridade que servem de referência científica. Isso também não impede a contestação, desde que os críticos estudem a matéria. Não fica bem menosprezar cientistas como Montagnier só porque são idosos…
Não é médico nem engenheiro ou físico, senão compreenderia que, além de moléculas, há subpartículas atómicas e forças que comandam o universo. Numa ressonância magnética fotografam-se fotões emitidos pelos núcleos dos átomos de hidrogénio, ou seja, concentrações protónicas correspondentes a concentrações de água nos tecidos! Vai dizer que é um engodo por isso? E há medicamentos convencionais administrados pelo princípio da similitude, por exemplo, anticoncepcionais na síndrome pré-menstrual. Não me é permitido alongar, se não teria de lhe explicar como a ciência quântica é aplicada na medicina. Talvez possa inscrever-se num curso de Medicina e depois fazer homeopatia. Um grande médico americano, Constantin Hering, foi inicialmente um detractor e, quando a estudou a fundo, tornou-se um dos principais defensores de Hahnemann. 
Francisco Patrício 

Para quando uma pílula homeopática?

Patrício afirma que a acção da homeopatia se baseia “acima de tudo” no princípio da similitude. Tendo em conta que algumas das substâncias usadas são poderosos venenos (como o arsénico ou a beladona), o principio de as diluir até não sobrar nada também é importante para que o paciente sobreviva e marque a segunda consulta. A questão para Patrício (ou deveria dizer dr. Patrício?) continua a ser de autoridade. A sua, porque é médico, face à ausência da minha, porque não sou “médico nem engenheiro ou físico”. Enquanto for conveniente para Patrício, Montagnier terá autoridade, não obstante ter ganho o Nobel por um trabalho completamente diferente realizado há 30 anos. Os resultados de Montagnier acerca da “assinatura electromagnética das moléculas” não são passíveis de serem reproduzidos por outros grupos de investigação. Goste-se ou não, a reprodutibilidade dos resultados é uma característica da ciência, pois ninguém está imune à fraude e ao erro. Em 1999, a Fundação James Randi ofereceu um milhão de dólares a quem conseguisse demonstrar a existência da “assinatura electromagnética”, prémio que nunca foi reclamado.

Patrício contínua a abusar de linguagem aparentemente científica sem qualquer significado. É verdade que há várias técnicas em que contar o número de fotões permite saber a concentração de uma substância, mas isso em nada apoia a causa homeopática. E usa o Santo Graal das pseudociências: a palavra “quântica”! Há instrumentos usados na medicina cujo funcionamento se explica com a física quântica, mas o mesmo se aplica às máquinas de lavar roupa, já que estas têm transístores. Requer um tratamento de excepção para a homeopatia, pois reivindica que os ensaios clínicos sejam feitos “de acordo com os princípios da homeopatia”, e não de acordo com as exigências para qualquer outro tratamento. Rejeita os princípios da medicina baseada na ciência, mas paradoxalmente reclama um estatuto científico para os remédios homeopáticos. Se estes conseguissem provar a sua eficácia através de ensaios clínicos metodologicamente robustos, a homeopatia não seria alternativa, seria simplesmente... medicina. Mas não, os remédios homeopáticos são introduzidos no mercado com um regime especial em que a única coisa que têm de provar é que são... inócuos! Nisso estamos de acordo, são só água e açúcar. Patrício fala de anticoncepcionais. Porque não uma pílula anticoncepcional homeopática? A associação portuguesa de famílias numerosas certamente apoia a ideia. Claro que dá mais jeito um remédio para a gripe, que é uma doença que passa sozinha. 
David Marçal 

Investigadores reuniram-se em Lisboa para defender a ciência

Do Notícias ao Minuto:

http://www.noticiasaominuto.com/pais/398798/investigadores-reunem-se-para-debater-o-rumo-da-ciencia

"Um país que desperdiça os seus melhores está completamente perdido"

Notícia da Rádio Renascença, baseada em entrevista que lhes dei:

 “Europa 2020” fixa meta nos 3% de investimento público para a área científica. Portugal só investe metade. Carlos Fiolhais lamenta “falta de vontade política” para inverter uma tendência que está a expulsar cérebros nacionais para o estrangeiro. 02-06-2015 8:43 por André Rodrigues

A parcela de investimento público que Portugal destina à ciência e tecnologia é de 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB). Carlos Fiolhais, investigador da Universidade de Coimbra, na área da Física, defende que a dotação pública para o sector “devia duplicar” para ir ao encontro dos objectivos fixados pela União Europeia.

 Até 2020, Bruxelas quer atingir a média dos 3% de investimento público na área do conhecimento e da ciência, mas, do lado português, Carlos Fiolhais nota que há “falta de vontade política”, apesar de Portugal “ter assinado esses acordos europeus”. O professor diz que “assinar só não chega, é preciso planear uma estratégia para que assim seja”.

 Caso contrário, alerta o investigador, “vamos continuar a ter uma descontinuidade entre o mundo da ciência e o mundo real, das empresas, da sociedade”. Tudo resumido numa ideia simples: falta cultura científica em Portugal. E isso “não se resolve apenas pedindo mais dinheiro”. É preciso demonstrar que “aquilo que os cientistas fazem é útil para a sociedade e essa ligação entre ciência e sociedade tem de ser fortalecida”.

 Os anos da crise ditaram “um recuo evidente” na política de consolidação da ciência e da investigação “que vinha a ser seguida nas duas últimas décadas”. Foi o tempo necessário para que os investigadores formados em Portugal perdessem a confiança no país, “sobretudo pela falta de perspectivas quanto a uma carreira estável e remunerada de acordo com a formação de excelência destes profissionais”.

 “Esse é o drama maior”, afirma o investigador da Universidade de Coimbra. As estatísticas oficiais revelam que 100 mil portugueses emigram anualmente. Quantos desses são doutorados ou mestres? “Provavelmente, não serão a maior parte, mas são em número significativo. Isso deve preocupar-nos”.

Se o cenário não for invertido, dificilmente os cérebros em fuga regressam a Portugal. Perde-se capital humano, e o país perde qualquer hipótese de obter retorno do investimento na formação destes cientistas. “E um país que desperdiça os seus melhores, está completamente perdido”, conclui Carlos Fiolhais.

Este é o assunto central do encontro nacional de cientistas que vai decorrer durante todo o dia no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. A iniciativa é da Associação Portuguesa de Sociologia à qual se juntaram outras associações dos ramos científico e das ciências sociais e humanas.

"Actividades educativas" dinamizadas por "agentes sociais"

A escola pública passou (ou, melhor, tem sido levada) a delegar uma parte substancial da função educativa que lhe cabe a "forças vivas da comunidade", tenham ou não vocação e formação para tanto, tenham ou não, ao menos, bom-senso.

De entre as várias portas que o currículo escolar abre, duas delas, a da "Educação para a cidadania" (nas suas múltiplas áreas: rodoviária, financeira, ambiental, para o empreendedorismo, para a saúde e sexualidade, para o risco, para a igualdade de género, para os media...) e a dos "Dias de..." (dos namorados, dos avós, da árvore, da criança, da mulher, da alimentação, da água...) estão escancaradas a quem possa ou queira dizer ou fazer qualquer coisa para o "bem das crianças": médicos e enfermeiros, funcionários de banqueiros e de empresários, psiquiatras e psicólogos, polícias e bombeiros... e, agora, os autarcas.

Se, por algum acaso, uma escola decidisse filtrar a (constante) entrada dos múltiplos "agentes sociais" que já é hábito serem chamados e se mostram disponíveis para "colaborar", seria, pela certa, acusada de se fechar sobre si própria, de impedir o contacto com a realidade, de estabelecer laços com a comunidade.

Acontece que deveria fazê-lo pois, em muitos casos, as "actividades dinamizadas" por esses "agentes sociais" se revelam, na expressão de John Dewey, "deseducativas", além de não acrescentarem nada à aprendizagem formal que um aluno deve fazer, prejudicam-na.

Este cenário explicará o que aconteceu no dia 1 de Junho, Dia Mundial da Criança, numa cidade do interior onde foram "dinamizadas actividades" para meninos do Jardim-de-Infância e do 1.º Ciclo, numa colaboração entre escolas, autaquia e Polícia de Segurança Pública (aqui). Uma foi parar à imprensa: tratava-se da simulação de um motim: enquanto alguns meninos faziam de polícias de intervenção, outros faziam de manifestantes, estes lançavam “pedras” (de papel) sobre aqueles.

Muitas opiniões, quase todas acentuando os efeitos perversos dessa simulação, mas, como é recorrente, o essencial não foi discutido: que função é a da escola e, para a exercer, que colaborações deve aceitar. Depois, seria de discutir alguns pormenores que fazem toda a diferença e que passo a enunciar.

1. Ao que percebi a ideia da actividade partiu da autarquia. Há que perguntar: pode e deve a autarquia impor ou, sequer, propor actividades educativas? Não, não pode nem deve. A instância mandatada para ensinar é a escola e é a escola que tem de determinar, com conhecimento e responsabilidade, as actividades que beneficiam a aprendizagem dos alunos. A ingerência da autaquia neste caso, foi perfeitamente abusiva e as escolas não deveriam tê-la aceitado.

2. A justificação da presidente da Câmara. Sem qualquer embaraço, explicou que houve "um fundamento e um propósito pedagógico". Com base nela, e contra toda a evidência, usou diversos argumentos "educativos", como se de uma especialista se tratasse. É evidente que ultrapassou o seu papel de autarca.

3. A publicitação de fotografias das crianças. Ao que li, mais de cem na página no Facebook da autarquia, possivelmente para que que pudesse comprovar a qualidade educativa desta entidade.

4. A participação da polícia. Em vez fazer aquilo para que está capacitada e em que é precisa, assumiu o papel dos professores, explicando isto e aquilo às crianças. Ao que parece "já realizou este tipo de iniciativa noutros pontos do país" sem o "mais pequeno sinal de contestação ou de crítica", disse a presidente da Câmara. Eu acredito e lamento.

5. Os professores tornados espectadores. O que terá acontecido para que tenham delegado a sua tarefa noutrem? Para que tenham entregado os alunos que se encontravam ao seu cuidado a pessoas que não têm formação para os ensinar? Foram convencidos ou obrigados? Não sabiam antecipadamente o que iria acontecer? Sabiam e acharam que seria correcto?

6. Os pais assistiam e nada fizeram, nem indignar-se. O reprentante da Associação muito tolerantemente, declarou que a acção "não foi muito feliz". Se nada se lhe tivesse sido perguntado, possivelmente nem a esta expressão chegaria.

Há, na verdade, um caminho longo e difícil a percorrer para que a escola consiga assumir-se como escola, com a segurança e o poder que lhe permite escolher quem deve colaborar com ela e para quê.

sábado, 6 de junho de 2015

A Cultura Clássica na escola de Paredes


Faz, por esta altura, três anos que Alexandra Azevedo, professora de Português e Latim, vendo o ensino da cultura e línguas clássicas desaparecer do nosso sistema educativo e tendo percebido a possibilidade que a figura de "Oferta de escola" (contemplada no currículo do Ensino Básico através do Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de Julho), poderia permitir uma mudança nesta área, apostou efectivamente nela.

Com fundamento em programas e recursos usados na Europa (em países como Inglaterra, França, Alemanha e Itália), com os quais tem tido contacto directo, estruturou um programa próprio, que intitulou Pari Passu (aqui, aqui, aqui). Disponibilizado gratuitamente na internet (aqui), foi acolhido em diversas escolas privadas e em pelo menos duas públicas: a sua, Escola Rodrigues de Freitas, no Porto, e a Escola Básica 2/3 de Paredes.

Esta última disponibiliza, sem interrupções, o Pari Passu, desde o seu início, estando, portanto, a terminar, o seu terceiro ano de aplicação. Muito justamente, a comunicação social deu-lhe visibilidade, num momento em que o Ministério da Educação e Ciência reforça a área acima referida, confirmando a sua importância no currículo, acolhendo trabalho pedagógico produzido no nosso país e proporcionando meios logísticos para ajudar as escolas a integrá-la no seu Projecto Educativo.

Irão os puns destruir o nosso planeta?

Extracto de "Irão os Puns destruir o nosso planeta?" de Glenn Murphy, que acaba de sair na Gradiva:



Biocombustíveis: centrais eléctricas e etanol celulósico (grassoline)

 E se os mais importantes combustíveis do mundo não fossem extraídos das profundezas da Terra, mas crescessem em florestas, campos, parques e jardins? E se a gasolina e o diesel poluentes que são queimados nos motores pudessem ser substituídos por combustíveis não poluentes, reciclados a partir de relva cortada, papel usado ou serradura? E se fosse possível fornecer energia aos automóveis, autocarros, eléctricos e comboios ao mesmo tempo que limpávamos o ar do dióxido de carbono, reflorestávamos prados e florestas e tornávamos o mundo mais verde? Bem-vindo ao maravilhoso mundo dos biocombustíveis...

O quê? A sério? Os automóveis e os autocarros podem mesmo funcionar com «sumo de plantas»? Claro que sim. De certa forma, até já o fazem.

A sério? Sim. Aprende como...

  O petróleo (ou a gasolina) que a maioria dos automóveis utiliza vem dos corpos fossilizados de antigas plantas (e animais). Enquanto estavam vivos captaram energia do sol e transformaram-na em energia química dentro dos seus corpos. Após milhões de anos, os corpos ricos em energia – enterrados bem fundo por baixo dos solos ou dos fundos marinhos –, acabaram por se transformar em carvão ou petróleo. São por nós localizados, prontamente extraídos e convertidos em petróleo,rico em energia. Por isso, aquilo que bombeamos e queimamos nos nossos motores é, na verdade, um combustível de origem vegetal e, por isso, os nossos automóveis já usam – em certa medida – sumo de plantas. Um sumo altamente energético que, por sua vez, recebeu a sua energia do sol.

OK... Então o que é que os biocombustíveis têm de especial? Os biocombustíveis são uma espécie de petróleo mas melhor e menos poluente. São sumo de planta: versão 2.0. O produto final é um álcool de combustão rápida chamado etanol, fabricado com diversos elementos, desde milho e soja a ervas daninhas, papel usado e aparas de madeira.

A grande vantagem dos biocombustíveis é que – ao contrário dos combustíveis derivados de fósseis, como o diesel e o petróleo – têm potencial para serem neutros em carbono. Isto significa que apanham pelo menos tanto dióxido de carbono da atmosfera quanto o que libertam quando são queimados.

BIOCOMBUSTÍVEIS
 MILHO
SOJA
ERVAS
 DANINHAS
PAPEL
APARAS DE MADEIRA

E como se fazem? Calculo que não baste atulhar o depósito de gasolina de ervas daninhas... Não, claro que não. Os biocombustíveis são feitos colhendo (ou reciclando) resíduos de plantas, transportando-os para uma unidade de transformação e – habitualmente – deixando-os fermentar em enormes cubas de levedura, onde transformam os açúcares das plantas ricas em energia no combustível etanol próprio para utilização. Para plantas de cultivo ricas em açúcar, como o milho, a soja e o açúcar de cana, o processo é relativamente rápido e simples. No caso de vegetação mais dura e lenhosa e ervas daninhas é um pouco mais difícil, já que será preciso quebrar as suas paredes celulares mais duras para se chegar aos açúcares da planta, no seu interior.

 Então de que estamos à espera? Por que não transformamos todo esse milho e açúcar em combustível para os motores? Bem, muitos países, incluindo a Indonésia, o Brasil e os Estados Unidos, já o tentaram – plantando milhões de hectares de milho, soja e cana-de-açúcar para esse fim –, mas acabaram por verificar que cultivar grãos comestíveis para produzir biocombustíveis parece fazer mais mal do que bem.

Porquê?

 Para começar, é difícil plantar, cultivar, transportar e processar estas colheitas sem usar mais energia do que aquela que, eventualmente, se obtém delas como combustível. E, como todas as ceifeiras-debulhadoras, camiões e outras máquinas utilizadas para processar as colheitas usam combustíveis fósseis, acaba por se emitir mais carbono do que aquele que se poupa produzindo os biocombustíveis. As colheitas para biocombustíveis também desalojam colheitas usadas para a alimentação, para além de que são necessárias centenas de litros de água e de fertilizante para fazer crescer um campo destas colheitas. Isto provoca escassez local de alimentos e de água, bem como a poluição das águas subterrâneas e danos no solo. Pior ainda, as florestas, prados e pastagens estão a ser «limpos» para arranjar espaço para as plantações com vista a biocombustíveis, destruindo os habitats naturais de plantas e animais e libertando do solo carbono aí armazenado. Em resumo, não é a melhor solução.

Ohh. Então voltamos ao ponto de partida? Estamos presos à gasolina poluente? Talvez não... se trabalharmos para, em vez dela. produzirmos grassoline – ou etanol celulósico –, que deriva de plantas não comestíveis e desperdícios vegetais, incluindo plantas silvestres e ervas, caules de milho não aproveitados após as colheitas, aparas de madeira, serradura e restos de madeira e papel (que sobra do seu fabrico) e até lodo verde espesso (ou algas) que crescem nas superfícies de lagos poluídos. Estas plantas e produtos delas derivados não requerem mais terra ou água e a energia usada para as recuperar e processá-las pode ser contrabalançada com a energia que acaba por poupar com a sua combustão. Parece bem.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

CIENTISTAS PELA CIÊNCIA

 O jornalista Nicolau Ferreira dá conta no Público de hoje de uma reunião de cientistas no Instituto de Ciências Sociais na terça-feira passada que reuniu representantes de várias associações, que foram unânimes em condenar o desastre em curso na ciência nacional, no mandato de Nuno Crato que agora se aproxima do fim. O jornalista destaca uma das coisas que disse:

"Carlos Fiolhais, físico e divulgador de ciência da Universidade de Coimbra, e que deu voz às críticas à política científica no último ano, está preocupado com a próxima geração de cientistas. “Os jovens têm a perspectiva de deixar o país, isso é bom para eles mas é mau para nós”, disse o físico no painel da manhã. “O nosso futuro será o futuro deles.”"

quarta-feira, 3 de junho de 2015

ENTREVISTA NO DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Minhas respostas à jornalista Cláudia Pinto do Notícias Magazine, com base nas quais foi publicado um resumo:

P- Na sua opinião, dentro da sua área profissional, quais os desafios para as crianças de hoje? 

R- As crianças vêm ao mundo cheias de curiosidade e só temos que aproveitar da melhor maneira essa "mola" interior que as leva a descobrir o mundo. Só temos que estimular a curiosidade, que é a fonte de toda a ciência. Esse é um dos maiores desafios da sociedade. Temos de ser capazes, nos nossos jardins de infância e nas nossas escolas de ensino básico, de desenvolver o apetite de saber que as crianças já têm naturalmente. Um bebé começa por olhar e agarrar o mundo. A sua mente, em crescimento, está ligada aos olhos e às mãos. Crescerá tanto mais quanto mais observar e mexer. Logo perguntará "porquê". O que temos de fazer é levar as crianças a descobrir os porquês proporcionando-lhe experiências simples, em que se se muda uma coisa ou outra para ver que diferença faz. Pode ser simplesmente construir um barco de plasticina, tentando pô-lo a flutuar. Ou ver o que acontece a uma balão cheio de ar dentro de um frigorífico. Ou ainda verificar se um papel embrulhado cai mais depressa do que o mesmo papel direito. É ciência a brincar, mas a ciência a brincar é o começo da ciência a sério. O método experimental, que caracteriza a ciência que tem sido um dos meios mais extraordinários de progresso dos humanos deve ser transmitido o mais cedo possível. É um legado precioso que recebemos de Galileu, Newton, Einstein e outros e uma das missões maiores dos educadores consiste em passá-lo à próxima geração, para que ela viva melhor no mundo.

 P- Considera que a infância de hoje se precipita pelas novas tecnologias e pelo afastamento do do mundo real?

R-  Sim, há esse perigo. O virtual, omnipresente nos computadores e televisões, desperta muito interesse, mas o real existe e está primeiro. Vivemos num mundo onde batemos com a cabeça na parede se não tivermos cuidado. Crianças e jovens a espreitar permanentemente para mundos virtuais nos seus tablets e smartphones perdem facilmente a noção do mundo real. O mundo não é um ecrã de computador, onde possamos mudar coisas com um clique. Eu, que sou físico e gosto muito de computadores (faço muitas experiências no ecrã!), não quero banir o virtual, até porque tal é impossível. Mas gostava que ele fosse usado com conta, peso e medida. O controlo dos pais, dos educadores e professores é, a meu ver, imprescindível. Estou em crer que nada pode substituir as brincadeiras ao ar livre, andar de bicicleta ou jogar à bola por exemplo. Quando se cai os joelhos ficam esfolados mas aprende-se. A criança fica amiga de quem a ajuda a levantar-se. E, além do mais, é uma lição de vida falhar e recomeçar após um falhanço. Há também a questão da saúde: quem ficar sentado num sofá com um comando na mão engrossa as estatísticas da obesidade infantil, ficando na mira de várias doenças.

P- Em que medida o futuro destas crianças está comprometido ou será influenciado pela forma como a infância é vivida hoje? 

R- O ambiente familiar, o jardim de infância e a escola básica são, de facto, incubadoras de futuro. Toda a atenção que lhes pudermos dar é pouca, porque é pouca toda a atenção que pudermos dar ao futuro. Woody Allen disse que o futuro o interessava muito porque era lá que ela ia passar o resto dos seus dias. As aprendizagens feitas na escola básica vão determinar as outras aprendizagens, noutras escolas e ao longo da vida. Já referi a iniciação à ciência com actividades simples, mas posso falar da matemática. Crescemos quando aprendemos primeiro a contar e depois a fazer operações simples. Contar é um gesto natural e somar também é intuitivo. Há, porém, que treinar contas e a tabuada acaba por ficar na memória. Se substituirmos os exercícios mentais pelo uso de calculadoras, estamos a criar adultos dependentes de máquinas. Eu costumo dizer que no 1.º ciclo do básico se podem fazer contas com calculadoras, mas só do tipo: "se tiveres quatro calculadoras e tirares uma com quantas calculadoras ficas". 

P- Quais as perguntas que as crianças devem fazer, ou seja, que tipo de conhecimentos deveriam ter e perguntar aos pais e educadores? 

R- Eu não dou perguntas às crianças, mas gosto que elas me façam perguntas. Umas querem saber por que é que o céu é azul, outras querem saber por que razão as plantas não se movem como os animais, outras ainda querem saber por que os aviões se aguentam no ar. É sempre um desafio responder de um modo simples mas verdadeiro. O importante é encorajar o aparecimento de questões. Dizer aos infantes para perguntarem e voltarem a perguntar. E para procurarem eles próprios ver qual será a melhor resposta. 

P-. Qual é o papel dos pais e dos educadores de hoje? 

R- Pais e educadores nunca poderão esquecer que são pessoas em quem as crianças confiam e, por isso, devem ser exemplos. Eles serão sempre referências para as crianças. Os pais, que deram o seu código genético, dão também aos filhos os primeiros cuidados, enquanto lhes inculcam as primeiras noções comportamentais. Os educadores, por sua vez, transmitem uma selecção do vasto património da humanidade assim como as regras de vida em sociedade. Pais e educadores não podem apontar em sentidos diferentes, sob pena de confundirem as crianças. Não se podem esquecer nunca que, muito para além dos saberes, lhes cabe transmitir valores.

PORTUGAL EM 2020

Meu depoimento no JN de ontem (número de aniversário):


O ano de 2020 não tarda muito. A União Europeia fixou algumas prioridades para o crescimento. Este deve ser inteligente (apostando na educação, na ciência e na inovação), sustentável (privilegiando um economia com menos carbono) e inclusivo (favorecendo o emprego e reduzindo a pobreza). Tudo isto são boas ideias que Portugal está obrigado a adoptar.  Mas não será fácil se não se começar já e não se avançar com decisão. Por exemplo, a Europa quer aumentar para 40% a percentagem da população na faixa dos 30-34 anos que possui um diploma do ensino superior, partindo dos 38% actuais. Mas Portugal tem hoje apenas 29%, muito abaixo da meta europeia. Outro exemplo, a União Europeia quer aumentar o investimento na ciência em tecnologia para 3% do PIB a partir  do valor actual de 2,1%. O problema de Portugal é que só tem 1,4%, tendo descido nos últimos quatro anos do valor de 1,6% onde já esteve. Teremos, para atingirmos a média europeia, de passar em poucos anos para mais do dobro. Vejo, olhando para o passado recente, muitas dificuldades a transpor. Mas oxalá se consiga. A educação e a ciência têm de ser impulsionadas se queremos ganhar o futuro.


terça-feira, 2 de junho de 2015

"Estratégias de Especialização Inteligentes"

Há poucos dias o Público, dava a conhecer um texto de João Costa, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que merece ser lido com a mais cuidada atenção (aqui). Eis um extracto desse texto:
"Durante anos, os cientistas sociais e os investigadores em humanidades tiveram a liberdade de colocar as questões relevantes e definir a agenda de investigação, sendo a relevância e pertinência dessas questões avaliada por pares. Por isso mesmo, essas áreas progrediram. 
Este paradigma corre o risco de se alterar radicalmente. Em vários países da Europa, aprovam-se as chamadas Smart Specialization Strategies, Estratégias de Especialização Inteligentes, que identificam temas prioritários para uma agenda de investigação com o propósito de servir diretamente o crescimento das economias. 
De acordo com estas estratégias, os temas de projetos de investigação devem estar alinhados com os temas prioritários que forem definidos e que supostamente contribuírem para o desenvolvimento da economia dos países, como se não fosse verdade que grande parte dos contributos da ciência e tecnologia atuais existem porque surgiram e amadureceram sem impacto imediato durante anos. 
Claro que Portugal não hesitou em definir a sua Estratégia de Investigação e Inovação para uma Especialização Inteligente (ENEI), num extenso documento que, em linha com esta política europeia, submete a investigação científica a desígnios meramente economicistas e elimina a investigação fundamental do elenco prioritário ..."

A educação de adultos pode ter retornos elevados

Segue-se um texto sugerido pelo nosso leitor Manuel Silva (que pode ser encontrado aqui).  É sobre a educação de adultos, no caso a educação superior, um campo, diz ele, "sobre o qual é lançado o mesmo anátema que levou à desvalorização da cultura clássica na formação dos jovens e no ensino em geral (em todos os níveis)"

Ainda que a focagem seja posta sobretudo no retorno económico, deixando de lado o "aprender por gosto", vale a pensa lê-lo.
Os dados dizem respeito à Suécia pelo que são devidas cautelas na extrapolação para outros países mas, ao mesmo tempo, os benefícios superam os custos para o Estado mesmo em cenários pessimistas. 
Ou seja, o financiamento de educação superior iniciada por adultos compensa, tanto a nível individual como da sociedade como um todo. Estas são conclusões de Anders Stenberg e Olle Westerlund (...) um think tank alemão especializado em economia do trabalho, e no qual analisam a evolução nas duas décadas seguintes dos rendimentos de adultos suecos que se inscreveram em cursos de formação superior em 1992 (tendo nessa altura idades compreendidas entre 29 e os 55 anos). 
O investimento vale a pena defendem: “As nossas estimativas preferidas implicam efeitos positivos sobre os salários brutos de aproximadamente 5,5% para os homens e 10% para as mulheres. (…) Cálculos grosseiros indicam que os benefícios para a sociedade superam os custos, mesmo com hipóteses pessimistas.” Os autores sintetizam a investigação em cinco tópicos: Em média, a educação superior garante salários mais elevados. Os benefícios são superiores para mulheres do que para os homens. É preciso esperar uns dez anos até que os efeitos se façam sentir, pelo que neste tipo de estudos é essencial olhar para o longo prazo. Os benefícios para a sociedade (ganhos de produtividade e melhorias de saúde, por exemplo) compensam os custos com a perda de horas trabalhadas e o investimento em formação. 
Os resultados não podem ser transpostos para outros países, mas indicam que a educação de adultos pode ter retornos elevados.

ENSINAR A FALHAR E RECOMEÇAR

Minha entrevista sobre educação infantil ao Notícias Magazine, que saiu no domingo passado:

http://www.noticiasmagazine.pt/2015/os-desafios-de-educar-uma-crianca-hoje/

Prevenção do insucesso escolar

Artigo recebido do psiquiatra Nuno Pereira: 

 Com as políticas de democratização do acesso ao ensino, as escolas apresentam um universo estudantil muito heterogéneo. A origem social dos alunos determina à partida diferenças na bagagem cultural e linguística, no apoio pedagógico familiar e nas expectativas escolares e profissionais. Por outro lado, a escola com um sistema uniforme de programas e de processos de ensino e avaliação, com níveis de excelência, funciona como um mecanismo de exclusão natural e de reprodução de desigualdades sociais. Têm maior probabilidade de sucesso os alunos de meios mais favorecidos, portadores duma cultura familiar semelhante à exigida pela escola. Beneficiam também do apoio de pais mais cultos e/ou de explicadores pagos. E quanto maior o aproveitamento escolar, mais altas as expectativas de prosseguimento dos estudos. Já os alunos mais desfavorecidos económica, social e culturalmente apresentam maiores dificuldades em atingir os objetivos estabelecidos. E o insucesso acumulado vai baixando as expectativas com o consequente abandono escolar. No atual sistema educativo, primeiro cria-se a doença do insucesso, depois corre-se a administrar os remédios.

As medidas governamentais e privadas de combate ao insucesso escolar nos ensinos básico e secundário - para além da oferta habitual de mais do mesmo através de aulas suplementares e de apoio à realização de trabalhos de casa - podem ser resumidas grosso modo em dois grupos: estratégias de homogeneização de turmas e estratégias de autonomização dos alunos. Globalmente, têm alguma eficácia pelo facto de serem implementadas por pessoas motivadas e pelo reforço de atenção recebido pelos alunos e pelas suas famílias. As estratégias de homogeneização de turmas constam da diferenciação pedagógica por meio da separação transitória por níveis de competência dos alunos, o que promove a discriminação e a estratificação social, para além de complicar significativamente a organização escolar. As estratégias de autonomização dos alunos baseiam-se no desenvolvimento da competência de aprendizagem de estudo autónomo. Quer as iniciativas privadas com apoios tutoriais a alunos com dificuldades realizados por técnicos exteriores à escola selecionada, quer o extinto Estudo Acompanhado como área específica com professores da própria escola apresentam o inconveniente do ensino de técnicas de estudo descontextualizadas das disciplinas, além de que no primeiro caso há ainda a discriminação dos alunos de baixo desempenho e a mobilização de extraordinários recursos humanos e financeiros. 

 A escola assume como missão integrar e ensinar todos os alunos, dentro dos mesmos elevados padrões académicos. Mas como resolver o problema da escola única e obrigatória para um público tão diverso? Quais os melhores niveladores das diferenças, que superem o fatalismo sociológico? É necessário que as soluções além de eficazes sejam eficientes, isto é, máximo rendimento com mínimo de recursos.

Comecemos pelo défice linguístico e cultural. O método privilegiado no enriquecimento do património verbal e da cultura geral assenta na leitura, função determinante na aprendizagem e no êxito escolar e profissional. Sem ignorar que os pais constituem os melhores modelos, cabe à escola e aos professores de todas as disciplinas (e não só de Português) o papel de inspirar o gosto pela leitura, no sentido de a converter em hábito aprazível. Importa promovê-la a atividade extracurricular fundamental e instruir os pais para impor limites ao uso de televisão, jogos eletrónicos e outras tecnologias, que desencaminham os jovens da leitura. 

Passemos à desigualdade de apoios pedagógicos familiares. Formar alunos autónomos minimiza naturalmente a influência dos apoios externos à escola, o que coloca os alunos de contextos familiares diversos em condições mais equitativas. A capacidade de gerir a própria aprendizagem com estratégias autorreguladas, não só determina mais sucesso no percurso escolar, como também garante a continuidade formativa ao longo da vida. A prática pedagógica consiste em integrar nas várias disciplinas o desenvolvimento da competência de aprendizagem. Cumpre a cada professor ensinar técnicas de estudo na sua disciplina para que o aluno consolide e desenvolva após a aula a matéria dada. Ações de formação para professores sobre métodos de estudo colmatariam as falhas existentes neste campo. O foco da ajuda ao envolvimento dos pais deve incidir no controlo decrescente do horário de estudo e do local de estudo.

Os casos sociais e psicológicos não são da competência dos professores, que os devem sinalizar e encaminhar para os serviços especializados dentro e fora da escola. Em suma, no plano académico numa escola para todos, para nivelar as condições dos alunos à entrada e prevenir o insucesso escolar urge cultivar o hábito da leitura em atividade extracurricular e ensinar a estudar de modo autónomo no âmbito de cada disciplina. 

Nuno Pereira (psiquiatra)

segunda-feira, 1 de junho de 2015

2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS


Novo post sobre solos de Galopim de Carvalho:

Importância dos solos

 Inspirados na frase que ficou célebre do grande mestre da Renascença, Leonardo da Vinci (1452-1519), são muitos os que, de quando em vez, nos lembram que “não se pode amar aquilo que não se conhece”. Afirmação, tornada lugar comum, tem plena e justa aplicação face a tudo, material ou imaterial, o que nos rodeia. E os solos são parte importante desse tudo.

É neste contexto e no propósito de promover, a nível mundial, um melhor conhecimento acerca do solo, como base para o desenvolvimento agrícola e subsequente segurança alimentar, que a Assembleia Geral das Nações Unidas, reunida a 20 de Dezembro de 2013, aprovou a Resolução n.º 68/232 que estabeleceu o dia 5 de Dezembro como Dia Mundial do Solo e o ano de 2015 como Ano Internacional dos Solos.

No que nos diz respeito, professores, investigadores e divulgadores de ciência, cabe-nos providenciar para que esta mensagem entre e permaneça nas nossas escolas e seja pretexto para incluir nos programas curriculares conceitos fundamentais da ciência dos solos. Indispensáveis à formação dos alunos, os professores que ensinam Geografia, Biologia e/ou Geologia, devem transmitir estes conceitos, no conteúdo e na forma adequados aos diferentes patamares de escolaridade, sem esquecer outros, não menos importantes, de cariz económico e social relacionados com a utilização do solo.

Para além do seu significado como fenómeno geológico do presente e do passado, o solo tem capital importância no desenvolvimento e manutenção da vida subaérea, com reflexo evidente na sociedade humana. Suporte fundamental da biosfera acima das terras emersas, está na base da cadeia alimentar dos animais e do homem. O solo fornece às plantas o indispensável complemento alimentar do que lhes é facultado pelo CO2 atmosférico. Esse complemento consiste nas substâncias químicas provenientes quer da manta morta, quer da alteração das rochas do subsolo.

 Sendo certo que dispomos hoje, como nunca, de valiosa informação científica sobre o solo, torna-se urgente aumentar, a nível das populações, a consciencialização e a promoção da sustentabilidade deste recurso que sabemos ser degradável, frágil e irremediavelmente finto. Desde sempre alvo da erosão natural, o solo está hoje, mais do que nunca, sujeito a agressões físicas, químicas e biológicas (resultantes de práticas de exploração intensivas e incorrectas) e à destruição decorrente do alastramento da urbanização e de um vasto conjunto de realizações próprias da sociedade moderna, com destaque para rodovias, barragens e aeroportos.

 As alterações climáticas, a desertificação e a seca (que já ameaçam o Alentejo) são uma realidade, constituindo desafios de dimensão mundial que a todos devem preocupar e que sabemos serem objectivo da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, assinada no Rio de Janeiro, em 2010, por 192 países.

Assim, têm sido desenvolvidos esforços no sentido de condicionar a gestão do solo, quer quanto à satisfação das necessidades do presente, quer à das futuras gerações, tendo em vista não apenas a sua utilidade na agricultura, silvicultura e pecuária, mas também nos aspectos do terreno em termos de beleza paisagística.

 Nestes termos e no que se refere a Portugal, a Sociedade Portuguesa da Ciência do Solo, consciente deste grave problema, procedeu, em 1975 (já lá vão quatro décadas), à adaptação para o nosso país da European Soil Charter, divulgada em 1972, pelo Comité dos Ministros do Conselho da Europa, cujos artigos se transcrevem:

 1º - O solo é um dos bens mais preciosos do património natural.

2º - O solo é um recurso natural limitado, facilmente degradável e perecível.

3º - A política de ocupação do solo deve ser gizada em função das propriedades do solo, da ecologia e das necessidades permanentes do país.

4º - A qualidade do solo deve ser preservada e, sempre que possível, restaurada ou melhorada

 5º - O solo deve ser protegido contra a erosão e contra as inundações. Cabe à conservação do solo lugar de relevo no planeamento das actividades nacionais.

6º - O solo deve ser protegido contra a poluição.

7º - Os solos mais férteis e produtivos devem ser reservados para a agricultura, mediante promulgação de leis que impeçam a usurpação dos mesmos por outras actividades.

8º - Nos projectos de engenharia civil devem-se prever as repercussões desfavoráveis das grandes obras no solo e as verbas necessárias para a sua protecção e restauração.

9º - Deve ser incrementada a inventariação do solo e assegurada a vigilância contínua deste recurso.

10º - A investigação científica, a colaboração interdisciplinar e a extensão agrária devem ser estimuladas e fortalecidas com o fim de racionalizar a utilização do solo e, sem o degradar, aumentar o produto agrícola.

11º - A conservação do património-solo deve ser incluída nos programas de ensino primário, secundário e superior e constituir preocupação constante dos cidadãos.

12º - O Estado e as autarquias locais devem planear e gerir racionalmente os recursos do solo, a bem do povo português.

Galopim de Carvalho

Carlos Fiolhais e David Marçal na Feira do Livro de Lisboa

Domingo, às 17h, junto aos pavilhões da Gradiva.

domingo, 31 de maio de 2015

Oferta de escola: Introdução à Cultura e Línguas Clássicas

Como é bem sabido, nas décadas mais recentes a cultura e, sobretudo, as línguas clássicas - latim e grego - foram sendo afastadas do sistema educativo português, tendo chegado praticamente à extinção.

Vários professores dos diversos níveis de escolaridade não desistiram, no entanto, de as ensinar, fosse em contexto formal fosse em contexto não formal.

Algum do trabalho desses professores foi agora reunido e acolhido pelo Ministério da Educação e Ciência, que o disponibliza a todos Agrupamentos de escolas/Escolas não agrupadas que o queiram aproveitar.

Assim, a partir do próximo ano lectivo, as escolas com Ensino Básico que considerem pertinente integrar uma componente de cultura e línguas clássicas no seu Projecto Educativo  poderão enquadrá-la na "Oferta de Escola" dos 1.º, 2.º e/ou 3.º Ciclos,

Para apresentar essa componente e o quadro curricular em que se insere, realizar-se-á, no dia 5 de Junho, no Conservatório de Música de Coimbra, um seminário aberto à comunidade educativa, com especial destaque para directores, professores e formadores de professores.

Um "programa altamente estruturado de formatação ideológica"

“Não fomos informados previamente, não nos pediram autorização, o que deveria ter sido feito dado o conteúdo gravíssimo deste programa, onde a sociedade é apresentada como sendo exclusivamente regida por relações económicas e que exclui tudo o que sejam relações de solidariedade e de afecto” [tudo isto] “vai contra o que tenta ensinar ao filho” [e também contra] “os valores da escola pública” (Mariana Santos, mãe).
“Não queremos que a escola pública obrigue os nossos filhos a serem empreendedores competitivos obcecados pelo sucesso” contestam o que consideram ser “um programa altamente estruturado de formatação ideológica” (Carta aberta  de vários pais enviada à comunicação social).
No início deste mês, no jornal Público, Clara Viana, deu a conhecer a surpresa e indignação de uma mãe ao descobrir na mochila do seu filho de seis ou sete anos um folheto que lhe havia sido oferecido na escola por alguém que foi lá "educar para...". Outros pais se lhe juntarem, protestaram em conjunto e a imprensa deu-lhe eco, em artigos como o de José Soeiro, publicado no Expresso.

Mas, que folheto era esse que tanta agitação provocou entre pais e jornalistas?
Era de "educação para o empreendedorismo".

E, sendo sobre "educação para o empreendedorismo", justificava-se tanta agitação?

Dou, desde já, a minha opinião: sim, justificava. Melhor, justifica. Explico as minha razões.

1. A "educação para o empreendedorismo" como componente curricular

1.1. A "educação para o empreendedorismo" constitui, efectivamente, uma orientação (com força de directriz) de instâncias internacionais, como a OCDE e a UE, para todos os níveis da educação escolar, desde o Jardim de Infância até ao final do Ensino Superior), estando estas instâncias muito atentas ao seu cumprimento. Para se perceber melhor o que digo, leiam-se dois relatórios publicados durante este ano: Perspetivas da Política da Educação 2015: Concretização das Reformas, da OCDE e Country Report Portugal 2015, da UE (páginas 42-49).

No primeiro, salienta-se Portugal pela positiva no que respeita à ponte que tem estabelecidos entre escolas e empresas; no segundo recomenda-se que a educação permaneça na agenda política como um dos principais motores do crescimento económico sustentável e da produtividade, e nele se acrescenta que a revisão curricular mais recente "despreza várias competências chave transversais como a capacidade empreendedora".

1.2. Passando para o plano nacional, a "educação para o empreendedorismo" encontra-se consagrada como uma das quinze áreas de Educação para a Cidadania. No sítio online da Direcção-Geral de Educação, constam as linhas gerais que a devem guiar, bem como documentos de referência, recursos educativos e tudo o mais que seja preciso para o seu ensino. Dá-se também destaque a ligações úteis, colaboradores, concursos, etc.

1.3. E, chegamos às escolas, que no Projecto Educativo devem integrar uma ou várias "Educações para...". Não tenho dados em mão, mas estou convenciada de que, a par da "Educação para a saúde" e da "Educação sexual", escolhem a "Educação para o empreendedorismo" e  a "Educação financeira".

Se atendermos a 1.1. e 1.2. concluimos que estão a cumprir orientações internacionais e nacionais. Podem, é certo, optar por outra(s) "Educação(ões) para..." que se afigurarão mais formativas, como a "Educação para os Direitos Humanos" ou a "Educação para a Paz", mas estas não têm, nem de perto nem de longe, o suporte institucional e logístico que aquelas têm.

2A força da "educação para o empreendedorismo"

Efectivamente, esse suporte inclui tudo o que as escolas precisam e nem imaginam que precisam para que os mais e menos jovens se tornem, diz-se, gestores das (suas) finanças e empreendedores de excelência.

Tudo é feito com o máximo de profissionalismo: os documentos parecem mesmo curriculares; as metodologias e os recursos parecem mesmo pedagógicos. Usa-se a linguagem que seduz: "abordagens activas e significativas", "ir ao encontro do interesse dos alunos", "proporcionar a expressão da sua natural criatividade", "trabalho colaborativo e autónomo"... Há concursos, prémios e muita animação.

Neste rol incluem-se as tais pessoas de que fala a mãe a que aludi no início deste texto: representantes “do mundo empresarial” ou, como a evolução da abordagem escolar desta matéria tem ditado, de consórcios. Trata-se de pessoas que não são educadores, não têm credenciais para ensinar mas levam “o empreendedorismo para dentro das salas de aula”.

Pelas razões que apontámos em 1 a que se juntam outras - não parecerem fechadas à sociedade, porque as autarquias assim o preferem ou exigem, pela falta de reflexão sobre o que realmente subjaz a estas "Educações para...", sobre a legitimidade de se aceitarem e sobre a ponderação ética que a aceitação requer -, as escolas escancaram-lhes a porta da frente e entregam-lhe, de bandeja, as crianças para que as doutrinem à vontade.

E, como Clara Viana apurou, são aos milhares em Portugal e aos milhões pelo mundo.

Os pais acima citados, tendo percebido isso mesmo, destacam, no meu entender muitíssimo bem, que estamos perante uma "formatação ideológica" segundo um "programa altamente estruturado".

Não é, na verdade, obra de amadores mas de técnicos altamente qualificados que conseguiu legitimidade curricular nos vários níveis de decisão curricular, desde o mais macro ao mais micro. Assim, entra pela porta da frente das escola para fazer exactamento o contrário daquilo que esta instituição tem por missão fazer: educar.

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...