O texto Uma escola para os MEUS filhos, que antes publiquei neste blogue, mereceu comentários que, de uma ou de outra forma, me surpreenderam. Procurarei reforçar a ideia central desse texto:
1. A escolaridade universal, gratuita e, até certo patamar, obrigatória para todos, começou por ser um sonho. Graças a pessoas que pelos séculos fora afirmaram a capacidade transformadora (num sentido positivo) da educação formal, o sonho realizou-se em certas partes do mundo. Noutras ainda não foi possível realizá-lo ou só é possível para uma minoria, ou deixou de ser possível...
2. Efectivamente, a escolaridade universal, gratuita e, até certo patamar, obrigatória para todos, uma vez implantada, não se constituiu como garantia, pode sofrer retrocessos. É, portanto, um sonho que implica alerta e defesa.
3. Temos a sorte de viver numa das partes do mundo em que a escolaridade universal, gratuita e, até certo patamar, obrigatória para todos se encontra consagrada na Constituição da República Portuguesa e na Lei de Bases do Sistema Educativo. Temos obrigação de estar alerta às ameaças que possa sofrer e estar prontos para a defender.
4. O nosso currículo está longe de ser perfeito, as nossas escolas denotam mútiplos problemas, mas o dever de cada um é, com sentido do que é razoável, contribuir para melhorar o que estiver ao seu alcance. Declarar que não gosta da escola - e isso acontece sobretudo em relação à pública - e abandoná-la, optanto por construir um currículo próprio para quem lhe é afectivamente próximo, não me parece, de facto, a melhor atitude cidadã.
5. Justifico a minha afirmação: se nos devemos preocupar com as crianças e jovens que estão sob o nosso cuidado directo, não podemos deixar de nos preocupar com todos os outros. Todos têm, afinal, os mesmos direitos no que respeita à educação. Por outro lado, as crianças e jovens que estão sob o nosso cuidado directo não podem aprender apenas e só o que cada um de nós acha que é relevante. Talvez aqui importe admitirmos que há pessoas com melhor preparação que a nossa para decidir e concretizar a sua aprendizagem formal
6. Finalmente, sublinho que não sou contra a escola privada ou o ensino doméstico, que reconheço como opções ou necessidades da sociedade. Desde que cumpram o núcleo central do currículo com a qualidade esperada, o seu lugar deve ser reconhecido.
Mas sou absolutamente contra a desvalorização da escola pública, que está na moda. Para isso têm, seguramente contribuído várias "estrelas" do mundo empresarial, artístico, intelectual... - o exemplo que dei no texto referido não é, infelizmente, único - que declaram "não gostar" dessa escola e, talvez de nenhuma, e apresentam a "sua" ideia de educação dos "seus"... Tendemos a concordar: estão no seu direito, não é? E, os outros? Bem... são os outros!
domingo, 31 de maio de 2015
sábado, 30 de maio de 2015
Ana Luísa Amaral: E Todavia
Da Comum Claridade
Há um saber qualquer
que há-de ser semelhante ao das
estrelas
no seu fino fio ausente a colisão:
é quando as coisas se complicam, ou
se abrem,
ou muito simplesmente
se incendeiam.
Estará decerto no amar esse saber,
e por isso talvez do coração
diziam os antigos ser o meio,
o centro do pensar.
Talvez assim também
entre a cor da paisagem
e o recordar de cor
um rosto, uma janela quase circular,
um levíssimo gesto antecipado,
pode haver o mais óbvio
comum a universo:
explosão de estrela nova gerando
outras estrelas, ou mesmo
revogando a antiga luz.
Mas em tal comprimento de energia
que o átomo que foi,
desconcertado,
de encontro ao mais vazio,
tenta reconcertar outro
caminho
de onde: novo saber,
um brilho novo,
transversal a tudo.
Quanto ao humano,
sublunar na sua imperfeição,
cinde-o a maravilha do cuidar,
e só lhe resta: amar –
o que perfaz em soma,
igual ao fogo de que é feito
a estrela –
sexta-feira, 29 de maio de 2015
O mito da meritocracia
Sobre a importância do contexto naquilo que chamamos "sucesso". Ou sobre a importância do Estado Social e do acesso à educação, para dar uma hipótese aos menos sortudos. Ou como fizemos um percurso notável no pós-25 de Abril, que importa continuar, ao invés de arrepiar caminho.
LUZ E SOM
Texto meu no último As Artes entre as Letras:
Em francês diz-se de alguns
espectáculos que são son et lumière. Som
e luz têm em comum a capacidade de inebriarem os nossos sentidos, mas do ponto
de vista físico, têm também em comum o facto de se deverem a ondas. Em ambos os
casos falamos de velocidade de onda, de comprimento de onda (a distância entre
dois pontos consecutivos equivalentes) e de frequência (o inverso do período,
sendo o período o tempo que uma onda demora a percorrer um comprimento de
onda). Como a velocidade num dado meio é sempre a mesma e como qualquer onda
avança de um comprimento de onda num período, comprimento de onda e frequência
são grandezas relacionadas uma com a outra.
Existe ainda um paralelo que diz
respeito às nossas limitações de percepção. Não conseguimos ouvir sons com
frequências menores do que 20 hertz e maiores do que 20.000 hertz (o hertz, a
unidade de frequência, é o inverso do segundo), o que significa com
comprimentos de onda maiores do que 17 metros e comprimentos de onda menores do
que 1,7 centímetros). E temos também uma espécie de “palas” na vista: não
conseguimos ver luz com frequência menores do que 750 terahertz e maiores do
que 400 terahertz (um terahertz é um bilião de hertz), o que significa com
comprimentos de onda maiores do que 400 nanómetros e menores do que 700
nanómetros (um nanómetro é um milionésimo do milímetro). A explicação tem a ver
com a nossa contingência da vida na Terra. Os nossos ouvidos desenvolveram-se,
no longo e lento percurso da evolução darwiniana, de modo a ouvir melhor os
sons que são comuns na Terra, incluindo o som da nossa voz (produzida pelas
nossas cordas vocais). Por seu lado, os nossos olhos desenvolveram-se, no
decorrer do mesmo percurso, para captarem ao máximo a luz que a nossa estrela –
o Sol – emite com maior intensidade. Na nossa retina existem receptores, os
cones, que optimizam a captação de três cores fundamentais do espectro visível
- o verde, o azul e o vermelho - enviando sinais eléctricos ao cérebro, através
do nervo óptico. São bem conhecidos os casos de animais que ouvem de uma
maneira mais ampla do que nós: por exemplo os cães captam sons entre os 15 e os
50.000 hertz, ao passo que os morcegos conseguem captar sons entre os 10 e os
120.000 hertz. Os cães conseguem captar infrassons, sons com menos de 20 hertz,
associados a terramotos. E os morcegos conseguem orientar-se no escuro
utilizando a sua maravilhosa possibilidade de ecolocalização: emitem
ultrassons, sons com mais de 20.000 hertz, que regressam aos seus ouvidos
depois da reflexão em obstáculos. Por sua vez, no que concerne à visão, as
abelhas conseguem ver luz ultravioleta, guiando-se por essa luz em campos de
flores na sua incansável tarefa de polinização.
Existem, todavia, importantes
diferenças. As ondas de som exigem um meio material para se propagarem: pode
ser o ar, mas pode ser também a água ou o metal. O som é bastante mais rápido
na água ou num metal porque as partículas que constituem o meio estão mais
próximas umas das outras. Em contraste, as ondas de luz, embora podendo
atravessar o ar ou a água (são paradas por um meio metálico), conseguem também
propagar-se no vazio. A luz é mais lenta na água do que no ar, ao contrário do
que acontece com o som. Uma outra diferença é que as ondas de som são, em
geral, longitudinais, isto é, as oscilações do meio dão-se na direcção da
propagação, ao passo que as oscilações responsáveis pela luz (oscilações de
grandezas abstractas: campos eléctricos e magnéticos) são transversais, isto é,
perpendiculares à direcção de propagação. E uma outra diferença substancial, de
resto muito conhecida, entre som e luz consiste no facto de o som ser muito
mais lento do que a luz: no ar, em condições de temperatura normal, o som
propaga-se a 343 metros por segundo, ao passo que a luz no vazio se propaga a
uns estonteantes 300.000 quilómetros por segundo (no ar é praticamente a mesma
coisa). A velocidade da luz é, de resto, a maior possível para a transmissão de
informação no Universo. Nada no mundo pode ir mais rápido do que a luz!
As ondas de som e de luz, apesar
de muito diferentes, podem ter o mesmo comprimento de onda. A forma de luz
invisível conhecida por microondas, que usamos nas comunicações entre
telemóveis, têm comprimentos de onda entre um milímetro e um metro, portanto
com alguma sobreposição com os comprimentos das ondas sonoras audíveis. As
ondas de luz com comprimentos de onda superiores a um metro chamam-se ondas de
rádio (a separação entre microondas e ondas de rádio é apenas convencional, não
tendo a ver com qualquer diferente percepção para os humanos) têm também
comprimentos de onda que se sobrepõem com os de sons audíveis. As ondas sonoras
com mais de 17 metros são os tais infrassons, sons muito mais graves do que
aqueles que conseguimos ouvir.
Através do nosso conhecimento do som
e da luz, conseguimos usar a luz para enviar sons. Num estúdio de rádio o
locutor fala para um microfone. Toda uma electrónica converte esse som num
sinal eléctrico, que é emitido através de uma antena. Os sinais sonoros são
codificados em ondas de luz (ondas de rádio) e logo temos o som a propagar-se à
velocidade da luz. Um prodígio tecnológico que se realiza desde que há
telefonia sem fios.
Algo parecido se passa numa
simples sala onde alguém faz um discurso. Num microfone sem fios: o som captado
pelo microfone é convertido primeiro num impulso eléctrico e depois numa forma
de luz invisível que, atravessando o ar, é captada por uma antena, que o
transforma em corrente eléctrica. Um circuito adequado muda a corrente de novo
em som, emitido por altifalantes. O som natural de um orador a falar numa sala
com um microfone sem fios é completamente abafado pelo som intenso que sai das
colunas, um som que viajou entre microfone e colunas sob a forma de luz.
Som e luz, parecem tão distantes
e afinal ficaram tão próximos após o nosso conhecimento se ter apoderado deles
e a nossa técnica os ter entrelaçado.
AS REFORMAS DOS ACTUAIS PENSIONISTAS
“O comércio
e o crescimento económico associam-se com o mal e a infelicidade”.
Platão
Com a devida vénia, transcrevo da “Lusa” (24/05/2015) excertos de uma notícia que está a ser amplamente difundida nos noticiários televisivos da noite em que
escrevo este texto. Rezam esses nacos de prosa:
“A ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, afirmou no sábado à noite que é honesto dizer aos portugueses que vai ser preciso fazer alguma coisa sobre as pensões para garantir a sustentabilidade da Segurança Social’. Falando em Ovar, num evento organizado pela JSD local, Maria Luís Albuquerque admitiu a possibilidade de reduzir as pensões actuais, se isso significar uma melhor redistribuição social do esforço contributivo.
Se isso for uma distribuição mais equilibrada e razoável do esforço que tem de ser distribuído entre todos – actuais pensionistas, futuros pensionistas, jovens a chegar ao mercado de trabalho –, se essa for a solução que garante um melhor equilíbrio, é aí que nos devemos focar, disse”
Sem suporte académico que suporte
a minha incursão no complexo e esotérico mundo dos cifrões – embora esse
conhecimento não fosse, porventura, garantia suficiente tendo em vista o que se
passa, por exemplo, com o debacle de
alguns bancos portugueses sobre a supervisão de reputados académicos da ciência
económica – começaria por alvitrar que
se deixasse de recorrer aos fundos da Segurança Social para tapar buracos de
outras rubricas deficitárias do Orçamento de Estado. Cada um pague pelas
asneiras de que é responsável.
Quanto aos cortes nos actuais pensionistas, ou
daqueles em vésperas de se reformarem, que depositaram nos cofres do Estado os devidos descontos carecem eles
de justiça por falta de respeito por direitos
adquiridos em leitura arrevesada que deles se fazem em
função de interesses ocultos. Para
utilizar uma linguagem do meio desportivo, tão ao gosto na boca dos políticos, as regras do jogo não devem mudar a meio do
jogo. E, muito menos, se devem alterar os resultados do jogo com manobras de
secretaria de equilíbrio orçamental.
Num tempo em que o Estado
privatiza tudo que dá prejuízo (ou julga dar!), penso que o “negócio” das reformas
não será tão deficitário que não interesse à banca dele se apropriar no todo ou em complemento de aposentações ainda a tempo de serem acauteladas num futuro que se apresenta mais negro que as
asas do melro dos versos de Guerra
Junqueiro.
Entretanto, os detentores da governação do país têm vendido grande
parte do seu património imobiliário, acumulado ao longo dos anos, enquanto, em
contrapartida, promovem e inauguram construções faraónicas em período
pré-eleitoral (a carapuça tanto serve ao PSD como ao PS). E assim se cumpre o
aforisma: “Vão-se os anéis, mas fiquem os
dedos!”
E quando não houver mais
anéis? Sobram dedos gangrenados pelos cortes das actuais pensões e pelo avanço
da corrupção com os seus nefastos efeitos na economia nacional denunciados por
Vasco Pulido Valente:
“Talvez convenha perceber duas coisas sobre corrupção. Primeira, onde há poder há corrupção. E onde há pobreza há mais corrupção. Destes dois truísmos resulta necessariamente que quanto maior é o poder ou a pobreza maior é a corrupção”.
Ou seja, em verdadeiro atentado a uma
justiça social, aumentar a pobreza com
cortes das pensões da classe média (em vias de desaparecimento) é uma perigosa forma de aumentar as chorudas e duvidosas contas bancárias dos ricos e diminuir o pão de cada dia dos que o ganharam com o suor do rosto. Não
haverá por aí uma alma caridosa social-democrata que explique isto à ministra Maria Luís
Albuquerque?
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Uma escola para os MEUS filhos
Um senhor muito rico, empresário com formação em economia e física, e com invenções e negócios admiráveis na área das tecnologias (onde se incluem os jogos de computador), declarou em entrevista recente que não gostava da escola onde os seus cinco filhos andavam. Então, à semelhança de várias outras pessoas com poder, criou uma escola especialmente para eles e para filhos de empregados de uma das suas empresas.
Essa escola:
- Tem um nome latino, sendo de inferir que a formação clássica estará presente, isto quando vários países, como a França, a afastam da escola pública;
- Não tem página de internet nem ligações a redes sociais, isto quando a escola pública é pressionada para se publicitar.
Além disso, essa escola dá corpo a ancestrais sonhos pedagógicos (não adianta nada de novo):
- Não constitui classes;
- Dá primazia aos gostos individuais dos alunos;
- Aposta na exploração do real pelos alunos e, à medida que isso acontece, vão sendo guiados na sua aprendizagem.
Desta notícia retiro duas tristíssimas ilações:
1) Quem pode, em vez de procurar fazer qualquer coisa (de modo altruísta, sem esperar qualquer contrapartida) pela escola pública, a que é para os filhos de toda a gente, cria uma escola para os seus próprios filhos;
2) Esta escola, como várias outras com semelhante origem, integra o que se apregoa como desadequado para os filhos dos outros - a formação clássica - e retira o que se apregoa bom para esses mesmos filhos - a pesquisa pelo espaço cibernaútico e a exposição pública.
Só mais uma nota: esta escola tem menos de duas dúzias de alunos, por isso, sim, pode concretizar os referidos sonhos pedagógicos, que não se podem, naturalmente, transpor para uma escola de centenas de alunos, daquelas que o tal senhor não gosta.
Essa escola:
- Tem um nome latino, sendo de inferir que a formação clássica estará presente, isto quando vários países, como a França, a afastam da escola pública;
- Não tem página de internet nem ligações a redes sociais, isto quando a escola pública é pressionada para se publicitar.
Além disso, essa escola dá corpo a ancestrais sonhos pedagógicos (não adianta nada de novo):
- Não constitui classes;
- Dá primazia aos gostos individuais dos alunos;
- Aposta na exploração do real pelos alunos e, à medida que isso acontece, vão sendo guiados na sua aprendizagem.
Desta notícia retiro duas tristíssimas ilações:
1) Quem pode, em vez de procurar fazer qualquer coisa (de modo altruísta, sem esperar qualquer contrapartida) pela escola pública, a que é para os filhos de toda a gente, cria uma escola para os seus próprios filhos;
2) Esta escola, como várias outras com semelhante origem, integra o que se apregoa como desadequado para os filhos dos outros - a formação clássica - e retira o que se apregoa bom para esses mesmos filhos - a pesquisa pelo espaço cibernaútico e a exposição pública.
Só mais uma nota: esta escola tem menos de duas dúzias de alunos, por isso, sim, pode concretizar os referidos sonhos pedagógicos, que não se podem, naturalmente, transpor para uma escola de centenas de alunos, daquelas que o tal senhor não gosta.
AINDA A PSEUDO-AVALIAÇÃO DA CIÊNCIA NACIONAL
Ao contrário do que se passou com José Mariano Gago, para o ministro Nuno Crato a ciência não foi uma prioridade política. Tal como na educação, tratava-se simplesmente de cortar sem um critério racional. Mandou fazer cortes e mais cortes no sistema científico-tecnológico português, para além dos cortes no ensino superior, esquecendo que a ciência representava o meio por excelência de ganhar o futuro. Mas. na ciência, foi bastante pior do que cortar. Os recursos disponíveis, quaisquer que eles fossem, deviam ter sido atribuídos de um modo aberto e racional. Mas, com uma tenebrosa gestão na Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), passaram a ser atribuídos de um modo secreto e irracional, completamente ao revés do espírito científico. Em vez de uma política participada, aberta aos contributos da comunidade científica, houve uma exercício autocrático de poder..
A pseudo-avaliação das unidades científicas foi um dos exemplos mais evidentes do descalabro na ciência em Portugal. A FCT, com o apoio do ministro, encomendou à European Science Foundation (ESF) uma avaliação das unidades científicas nacionais que, soube-se depois, continha uma cláusula escondida: Metade das unidades devia ser excluída logo na 1.ª fase do processo. Quando houve a percepção de que os resultados catastróficos dessa “avaliação” provinham dessa regra nunca anunciada e nunca justificada, a FCT tentou iludir a realidade, mentindo a esse respeito. Desmentiu o que estava à vista de todos. Mas não foi apenas uma "poda", não se tratou apenas da eliminação sumária de metade das unidades onde se praticava ciência em Portugal. Acontece que a metade escolhida não era formada pelos melhores centros em várias áreas (bastava consultar índices de produção científica). Os peritos da ESF eram em número insuficiente e, em muitos casos, pouco qualificados. Não existiu, em muitos casos, uma avaliação por especialistas. Muitos pareceres não faziam, em largos excertos, qualquer sentido. Tal resultou em parte do facto de, na 1.ª fase, as unidades nem sequer terem sido visitadas, como manda a lei. O Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), reconhecendo a validade de muitas reclamações, afirmou que o processo era um “falhanço pleno”.
Na 2.ª fase, a arbitrariedade continuou, com atropelo das regras estabelecidas pela FCT e visitas feitas, nalguns casos, por não especialistas. Em suma, a “avaliação” da FCT-ESF não teve nunca a necessária qualidade. Em verdade se diga que os financiamentos também não seguiram a avaliação, tendo sido efectuados para os centros apurados na 2.ª fase com base essencialmente nos pedidos que eles tinham efectuado (a FCT falou de "modulação", mas eram apenas cortes mais ou menos arbitrários). Não admira que os protestos dos investigadores tenham de novo chovido. Das 178 unidades da 2.ª fase (eram 322 à partida) 123 protestaram. Tal como na 1.ª fase, a reclamações da 2.ª fase permaneceram sem resposta atempada e adequada. Só para dar um exemplo do despautério governamental: numa altura de austeridade do Orçamento de Estado, a FCT decidiu atribuir chorudos financiamentos públicos a fundações privadas. Lá fora, as fundações privadas ajudam o Estado, em Portugal é o Estado que ajuda as fundações privadas
Em 7 de Abril passado, demitiu-se o presidente da FCT, confrontado não só com os continuados protestos perante o desconchavo, mas também com a sua ocupação do cargo a tempo parcial. A manifesta falta de qualidade da gestão da FCT poderia ter a ver com a falta de tempo do seu presidente, que continuava professor no Imperial College de Londres. Foi então nomeada uma presidente interina, que ainda não reconheceu os erros que prejudicaram e prejudicam gravemente o sistema científico português. A pseudo-avaliação da FCT-ESF, caucionada do início ao fim por Nuno Crato, lançou o descrédito sobre a FCT e o Ministério da Educação e Ciência, não podendo ser reparada com remendos. Não há, de facto, nenhuma maneira de endireitar a sombra de uma vara torta.
terça-feira, 26 de maio de 2015
"É claro que há muitos estudos que ainda precisam ser feitos"
"Todos estão interessados em saber como as tecnologias digitais, especialmente a internet, afetam o cérebro. A primeira coisa a saber é que viver afeta o cérebro. O cérebro muda a todo instante de nossas vidas. Tudo que é feito durante o dia vai afetar o cérebro. A razão disso é que o cérebro humano se desenvolveu para se adaptar ao ambiente, não importando qual fosse esse ambiente (...)
Há várias perguntas diferentes a serem respondidas. Eu acho que há três grupos abrangentes. O primeiro é o impacto das redes sociais na identidade e nos relacionamentos. O segundo é o impacto dos videogames na atenção, agressividade e dependência. E o terceiro é sobre o impacto dos programas de busca no modo como diferenciamos informação de conhecimento, como aprendemos de verdade.
É claro que há muitos estudos que ainda precisam ser feitos, mas certamente há cada vez mais evidências sobre aspectos positivos e negativos (...) é importante começar a fazer pesquisa básica porque, até agora, está claro que coisas boas e coisas ruins estão acontecendo de um modo que não haviam acontecido em gerações passadas.Os extractos acima reproduzidos são retirados de uma entrevista feita em 2012 a Susan Greenfield, neurologista que se especializou em fisiologia cerebral. Apesar de já não ser recente, vale a pena lê-la (aqui) pela ponderação que nela transparece acerca do uso das tecnologias da informação e da comunicação na escola. Numa altura em que esse uso é imposto em múltiplos países com a promessa de aprendizagem e motivação garantidas, a prudência científica tende a ser esquecida.
NOITE da LUZ - 8 de Junho
Informação recebida da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa:
Dia 8 de Junho, no âmbito do Ano Internacional da Luz 2015, a Biblioteca e os Setores Departamentais da FCT/UNL convidam para uma noite inesquecível para celebrar a LUZ.
Múltiplas atividades vão acontecer e contamos com a vossa presença (programa em anexo e aqui: http://bibliotecaunl. blogspot.pt/).
Duas da atividades desta noite requerem inscrição prévia "Comes&Bebes" e " Passeio dos Iluminados". As inscrições devem ser feitas até dia 02 de Junho aqui: http://goo.gl/forms/ xQJZ2fHlSP
O levantamento da senha para "Comes&Bebes" e peitorais para o "Passeio dos Iluminados" tem de ser feito nos dias 4 e 5 de Junho na Secretaria da Biblioteca.
Os primeiros 150 inscritos têm direito a um menu de "Comes&Bebes" grátis!
Esperamos vê-lo por cá e não se esqueça de trazer uma almofada (ou cadeira de praia) para a sessão de cinema.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
"NÚMERO ZERO", DE UMBERTO ECO
Informação recebida da Gradiva:
Número Zero, o novo romance de Umberto Eco, já à venda
A Gradiva acaba de lançar, Número Zero, de Umberto Eco, um romance de um autor exímio a contar histórias, onde não falta a reflexão e a ironia.
Número Zero é um romance que não deixa ninguém indiferente à reflexão sobre os jornais e a missão do jornalismo. A pretexto da criação de um novo jornal diário, a notícia está no centro das atenções (ou uma certa ideia de notícia), assim como os leitores (ou a percepção que se pretende ter deles), a par das regras e intenções em que assenta esta publicação (ou a «fachada» que ilude a realidade). Interesses que pouco ou nada têm a ver com a produção de boa informação ditam o que a redacção deverá desenvolver. Poderá um órgão de comunicação social servir para ter os inimigos na mão e chegar aonde se quer?
Um jornal que está a dar os primeiros passos muito tem para decidir. E esta obra de Umberto Eco torna-se, nesta vertente, uma espécie de «manual» de decisões onde a qualidade do produto final está longe das preocupações de topo. Sendo esta uma obra de ficção, a leitura que pode ser feita do que lá se escreve vai além da boa leitura que a narrativa proporciona. Esta tem todos os ingredientes de uma trama que atrai – amor, poder, conspiração, morte – reunidos com a mestria de um autor que é um excelente contador de histórias
Na redacção não falta um redactor paranóico que segue atrás de pistas que remontam ao fim da Segunda Guerra Mundial. Investiga, soma factos e conclui. Mas as suas conclusões têm um resultado inesperado. Para si. Para o jornal. Para os próprios colegas. O jornalista convencera-se de que fizera uma descoberta que era «dinamite» a respeito de Mussolini. Contudo, esse é apenas um ponto num enredo que segue pelos meandros da política, envolvendo o Vaticano, a máfia, os juízes e os serviços secretos.
Aqui se apresenta um pequeno excerto da obra:
O que faço agora? Se ponho o nariz de fora, arrisco. Convém-me esperar aqui, na pior das hipóteses estão lá fora à espera que eu saia. E eu não saio. Na cozinha há vários pacotes de biscoitos e carne enlatada. De ontem à noite ficou-me também meia garrafa de uísque. Pode servir para deixar passar um dia ou dois. Deito duas gotas (e depois, talvez, mais duas gotas, mas só da parte da tarde, porque beber de manhã estupidifica) e tento voltar ao início desta aventura, sem precisar sequer de consultar a disquete, porque me lembro de tudo, pelo menos por agora, com lucidez.
O medo de morrer dá fôlego às memórias.
Para este jornal diário chamado Amanhã, o passado ensombra o presente e transforma o futuro.
SOBRE O AUTOR
Umberto Eco nasceu em Alessandria, em 1932. Filósofo, medievalista e semiólogo, estreou-se na narrativa com O Nome da Rosa (Prémio Strega 1981), a que se seguiram O Pêndulo de Foucault, A IIha do Dia Antes, Baudolino, A Misteriosa Chama da Rainha Loana e O Cemitério de Praga.
Entre as suas numerosas obras ensaísticas (académicas e outras), destacam-se: O Signo, Os Limites da Interpretação, Kant e o Ornitorrinco, A Passo de Caranguejo, Obra Aberta, Dizer Quase a Mesma Coisa - Sobre a Tradução e Como se Faz uma Tese em Ciências Humanas. Organizou ainda os livros ilustrados História da Beleza, História do Feio e História das Terras e dos Lugares Lendários.
Reabre o Planetário do Porto
Mensagem recebida do Planetário do Porto
Em nome do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto tenho a honra de convidar para a inauguração do sistema de projeção digital fulldome do Planetário do Porto – Centro Ciência Viva, que se realizará às 16 horas do dia 2 de junho de 2015.
Daniel F. M. Folha
Diretor Executivo do Planetário do Porto - Centro Ciência Viva Centro de Astrofísica da Universidade do Porto
Incluído no programa da inauguração está a estreia em Portugal do filme imersivo fulldome "Vida - uma história cósmica". Como começou a vida na Terra? Esta questão é a base deste filme imersivo, produzido pela Academia de Ciências da Califórnia. Narrado pela atriz Jodie Foster, na versão original, e pelo ator Diogo Infante, na versão portuguesa exclusiva para o Planetário do Porto, "Vida - uma história cósmica", transporta a audiência numa viagem através dos tempos. Graças a visualizações científicas espetaculares, os visitantes são levados numa experiência imersiva, desde o mundo microscópico de uma célula, recuando até ao nascimento das primeiras estrelas e à origem dos próprios elementos, mergulhando até ao fundo do oceano da Terra primitiva e por uma viagem através dos estratos da Terra.
Planetário do Porto
Rua das Estrelas 4150-762 Porto
T. +351. 226 089 800
geral@planetario.up.pt
Em nome do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto tenho a honra de convidar para a inauguração do sistema de projeção digital fulldome do Planetário do Porto – Centro Ciência Viva, que se realizará às 16 horas do dia 2 de junho de 2015.
Daniel F. M. Folha
Diretor Executivo do Planetário do Porto - Centro Ciência Viva Centro de Astrofísica da Universidade do Porto
Incluído no programa da inauguração está a estreia em Portugal do filme imersivo fulldome "Vida - uma história cósmica". Como começou a vida na Terra? Esta questão é a base deste filme imersivo, produzido pela Academia de Ciências da Califórnia. Narrado pela atriz Jodie Foster, na versão original, e pelo ator Diogo Infante, na versão portuguesa exclusiva para o Planetário do Porto, "Vida - uma história cósmica", transporta a audiência numa viagem através dos tempos. Graças a visualizações científicas espetaculares, os visitantes são levados numa experiência imersiva, desde o mundo microscópico de uma célula, recuando até ao nascimento das primeiras estrelas e à origem dos próprios elementos, mergulhando até ao fundo do oceano da Terra primitiva e por uma viagem através dos estratos da Terra.
Planetário do Porto
Rua das Estrelas 4150-762 Porto
T. +351. 226 089 800
geral@planetario.up.pt
2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS
Novo texto de Galopim de Carvalho
FALANDO DOS SOLOS (17)
Bio-rexistasia
Numa concepção do solo como um fenómeno geológico, introduzida pelo geólogo americano Cutis Fletcher Marbut (1863-1935), o geógrafo francês Henri Herhart (1898-1982) publicou, em 1956, uma interessante e original teoria “La genèse des sols en tant que phénomène géologique: Esquisse d'une théorie géologique et géochimique, biostasie et rhexistasie”, com uma segunda edição na Masson, Paris, em 1967.
Segundo o autor francês, certas regiões do globo estiveram ou estão numa situação que referiu por biostasia, (do grego bios, vida, e státis, estabilidade) isto é, uma situação de equilíbrio biomorfológico, expresso principalmente por uma muito vasta e densa cobertura vegetal, de longa duração e estável. Tal acontece porque, durante períodos muito longos, não se verificaram variações sensíveis das condições ambientais sob as quais essa cobertura se desenvolveu, situação exemplificada pela actual floresta quente-húmida amazónica. O equilíbrio biológico próprio deste tipo de cobertura vegetal protege o solo da erosão mecânica, mas é favorável à alteração química em profundidade e subsequente evacuação dos materiais solubilizáveis. O período biostásico é sempre um intervalo de tempo longo, à escala geológica, e de pedogénese intensa. Por seu lado, rexistasia (do grego rhexis, rotura, e státis, estabilidade) refere, ao contrário, um tempo muito mais curto, caracterizado pela rotura daquele equilíbrio e consequente destruição da cobertura vegetal, com exposição do solo à erosão mecânica. As causas desta interrupção são geralmente devidas a mudanças climáticas, mais ou menos acentuadas e bruscas, quer no sentido do arrefecimento, quer no da elevação da temperatura, acompanhada de secura, conduzindo à desertificação.
Durante os longos períodos biostásicos, a manutenção de condições de humidade e de temperatura relativamente elevadas e estáveis, associadas à exuberância da cobertura vegetal dela dependente, conduzem a intensa alteração das rochas e a profunda evolução dos solos, proporcionando, contudo, acentuada protecção destes materiais, face aos agentes de erosão mecânica. Praticamente, só os produtos solúveis resultantes da decomposição são mobilizados e arrastados pelas águas de infiltração, no trabalho de lavagem que exercem ao atravessá-las antes de atingirem os cursos de água. Neste contexto, poderá falar-se de erosão química.
Com efeito, ricos de substâncias químicas em solução (iões como Ca2+, Mg2+, K+, Na+, CO3H-, CO2-, PO4H2-, SO42-, etc., e moléculas como SiO2) os rios promovem o seu transporte até aos locais de sedimentação, onde esta se processa por mera precipitação química destas substâncias ou através da acção de seres vivos que, previamente, as incorporam na construção dos seus esqueletos, isto é, por via bioquimiogénica. Em síntese e por outras palavras, diremos que, no que se refere à sedimentogénese em períodos de biostasia, a sedimentação terrígena é reduzida, ao contrário da sedimentação química e/ou bioquímica. O material terrígeno resultante da alteração neste tipo de ambiente e que tinge a água dos rios é predominantemente argiloso, impregnado de óxidos de ferro.
Rio Amazonas
Nos períodos de desnudação da cobertura vegetal, resultante das crises rexistásicas, a floresta deixa de proteger a superfície do solo que, em consequência do período anterior, está profundamente alterado e, portanto, facilmente atacável pela erosão. Os materiais postos em jogo no transporte e sedimentação subsequentes são essencialmente detríticos e reflectem, na parte inferior das séries sedimentares que alimentam, os produtos da capa de alteração (a primeira a ser erodida) e, na parte superior, os materiais não alterados do substrato desnudado, sujeito, sobretudo, a desagregação e erosão mecânicas. O período rexistásico é um período de morfogénese intensa, não necessariamente longo, e a ele se associam escassez de sedimentação química e/ou bioquímica, em contraste com a grande importância de sedimentação detrítica, muitas vezes de carácter torrencial bem marcado e sempre revelador de maior ou menor imaturidade.
A dialéctica biostasia versus rexistasia, tal como a concebeu Ehrart, reforçou a dimensão geológica dos solos, na medida em que estes são também testemunhos das paisagens continentais suas contemporâneas, quer nos aspectos físicos (relevo, clima) quer biológicos, em particular, a vegetação.
Os constituintes minerais do solo (areia, argila) ficam, muitas vezes, com marcas características dos ambientes a que estão submetidos. O mesmo acontece com os solos do passado, e as marcas que levaram consigo, na sequência da erosão, acabaram por transitar para as rochas sedimentares detríticas, hoje patentes em sequências estratigráficas nas quais, como nas páginas de um livro, as procuramos ler e interpretar.
FALANDO DOS SOLOS (17)
Bio-rexistasia
Numa concepção do solo como um fenómeno geológico, introduzida pelo geólogo americano Cutis Fletcher Marbut (1863-1935), o geógrafo francês Henri Herhart (1898-1982) publicou, em 1956, uma interessante e original teoria “La genèse des sols en tant que phénomène géologique: Esquisse d'une théorie géologique et géochimique, biostasie et rhexistasie”, com uma segunda edição na Masson, Paris, em 1967.
Segundo o autor francês, certas regiões do globo estiveram ou estão numa situação que referiu por biostasia, (do grego bios, vida, e státis, estabilidade) isto é, uma situação de equilíbrio biomorfológico, expresso principalmente por uma muito vasta e densa cobertura vegetal, de longa duração e estável. Tal acontece porque, durante períodos muito longos, não se verificaram variações sensíveis das condições ambientais sob as quais essa cobertura se desenvolveu, situação exemplificada pela actual floresta quente-húmida amazónica. O equilíbrio biológico próprio deste tipo de cobertura vegetal protege o solo da erosão mecânica, mas é favorável à alteração química em profundidade e subsequente evacuação dos materiais solubilizáveis. O período biostásico é sempre um intervalo de tempo longo, à escala geológica, e de pedogénese intensa. Por seu lado, rexistasia (do grego rhexis, rotura, e státis, estabilidade) refere, ao contrário, um tempo muito mais curto, caracterizado pela rotura daquele equilíbrio e consequente destruição da cobertura vegetal, com exposição do solo à erosão mecânica. As causas desta interrupção são geralmente devidas a mudanças climáticas, mais ou menos acentuadas e bruscas, quer no sentido do arrefecimento, quer no da elevação da temperatura, acompanhada de secura, conduzindo à desertificação.
Durante os longos períodos biostásicos, a manutenção de condições de humidade e de temperatura relativamente elevadas e estáveis, associadas à exuberância da cobertura vegetal dela dependente, conduzem a intensa alteração das rochas e a profunda evolução dos solos, proporcionando, contudo, acentuada protecção destes materiais, face aos agentes de erosão mecânica. Praticamente, só os produtos solúveis resultantes da decomposição são mobilizados e arrastados pelas águas de infiltração, no trabalho de lavagem que exercem ao atravessá-las antes de atingirem os cursos de água. Neste contexto, poderá falar-se de erosão química.
Com efeito, ricos de substâncias químicas em solução (iões como Ca2+, Mg2+, K+, Na+, CO3H-, CO2-, PO4H2-, SO42-, etc., e moléculas como SiO2) os rios promovem o seu transporte até aos locais de sedimentação, onde esta se processa por mera precipitação química destas substâncias ou através da acção de seres vivos que, previamente, as incorporam na construção dos seus esqueletos, isto é, por via bioquimiogénica. Em síntese e por outras palavras, diremos que, no que se refere à sedimentogénese em períodos de biostasia, a sedimentação terrígena é reduzida, ao contrário da sedimentação química e/ou bioquímica. O material terrígeno resultante da alteração neste tipo de ambiente e que tinge a água dos rios é predominantemente argiloso, impregnado de óxidos de ferro.
Rio Amazonas
Nos períodos de desnudação da cobertura vegetal, resultante das crises rexistásicas, a floresta deixa de proteger a superfície do solo que, em consequência do período anterior, está profundamente alterado e, portanto, facilmente atacável pela erosão. Os materiais postos em jogo no transporte e sedimentação subsequentes são essencialmente detríticos e reflectem, na parte inferior das séries sedimentares que alimentam, os produtos da capa de alteração (a primeira a ser erodida) e, na parte superior, os materiais não alterados do substrato desnudado, sujeito, sobretudo, a desagregação e erosão mecânicas. O período rexistásico é um período de morfogénese intensa, não necessariamente longo, e a ele se associam escassez de sedimentação química e/ou bioquímica, em contraste com a grande importância de sedimentação detrítica, muitas vezes de carácter torrencial bem marcado e sempre revelador de maior ou menor imaturidade.
A dialéctica biostasia versus rexistasia, tal como a concebeu Ehrart, reforçou a dimensão geológica dos solos, na medida em que estes são também testemunhos das paisagens continentais suas contemporâneas, quer nos aspectos físicos (relevo, clima) quer biológicos, em particular, a vegetação.
PROJECTO DIÁLOGOS: MEDEIA EM COIMBRA
No
dia 28 de Maio, pelas 17h30, no Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de
Coimbra, irá realizar-se a Conferência Diálogos:
Medeia de Eurípides – o conflito
entre paixão e razão.
Serão
oradores os Professores Delfim Leão e Alexandre Sá, da Universidade de Coimbra.
Delfim Leão apresentará a comunicação Em Defesa de Medeia? O Horizonte Literário e Jurídico da Medeia de Eurípides e Alexandre Sá A Medeia Enquanto Paradigma Fraturante.
No
decurso da Conferência haverá Leitura
encenada de excertos da Medeia pelo
grupo de teatro “Thíasos” / FESTEA – Festivais de Teatro de Tema Clássico.
Esta
Conferência enquadra-se no âmbito da colaboração entre o Projeto Diálogos e a
Universidade de Coimbra: Rómulo - Centro Ciência Viva; Centro de Estudos Clássicos
e Humanísticos; Instituto de Estudos Clássicos e Grupo de Teatro “Thíasos” /
FESTEA.
O
Projeto Diálogos, apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, visa promover uma
reflexão a partir de textos fundamentais da história do pensamento ocidental.
Aqui se inscreve a Medeia de
Eurípides.
Maria
Helena da Rocha Pereira refere na Introdução da Medeia de Eurípides, na edição da Fundação Gulbenkian que “(...) é na forma que Eurípides deu à
história que o mito cristalizou, foi assim que ele se transformou em motivo de
inspiração de pintores e poetas desde a Antiguidade aos nossos dias”.
Analisar,
hoje, um texto como a Medeia, numa abordagem
transdisciplinar, mostrando a força e persistência de mitos que deram forma à consciência
ocidental, é um exercício revelador do sortilégio da poesia e da literatura
como meios de irradiação do conhecimento e de construção de um pensamento
crítico.
Sejam
bem-vindos!
Nota de
Delfim Leão
Embora a ação de Medeia
nos remeta para o passado remoto de Corinto e, por conseguinte, para um
tempo heroico de personagens de exceção, a audiência que assistiu à sua
apresentação, nas Grandes Dionísias de 431, vivia numa pólis específica, que se
encontrava organizada segundo uma estrutura social concreta. Por este motivo, o
público ateniense, na apreciação do drama euripidiano, terá por certo ponderado
também a situação jurídica de uma mulher exilada, com uma descendência
reconhecida pelo marido, que estava a ponto de ser trocada por outra mulher, de
estatuto mais elevado e que oferecia uma ligação mais proveitosa para Jasão.
Além disso, acrescia ainda o facto de Medeia se movimentar com uma determinação
varonil numa sociedade dominada por homens e respetiva mundividência familiar,
política e legal. Numa primeira abordagem, a situação jurídica desta mulher é bastante
difícil ou mesmo até insustentável: a um historial altamente violento e
comprometedor, motivado pelo impulso amoroso de seguir Jasão, a quem se
encontrava ligada sem um vínculo matrimonial legalmente reconhecido, juntava-se
ainda a contingência de ser bárbara, de praticar a feitiçaria e de recorrer ao
crime hediondo de matar os filhos, quando o instinto maternal a deveria levar a
protegê-los. A conjugação destes fatores relega Medeia para as margens da
existência em sociedade e torna-a, à partida, numa pessoa indesejável em
qualquer comunidade politicamente organizada. Ainda assim, importantes
personagens do drama – como a Ama, o Coro e Egeu – reconhecem-lhe certa dose de
razão que, se não justifica por inteiro a sua atuação extrema, ajuda a sustentar
a justeza dos motivos de agravo relativamente a Jasão.
Nesta análise, irá ser privilegiada uma abordagem
jurídica do desenlace trágico da atuação de Medeia e Jasão, não com o objetivo de
absolver ou condenar em definitivo a conduta de qualquer um deles (até porque
isso não seria viável), mas antes para tentar reproduzir alguns dos constrangimentos
legais que, a par de fatores éticos, religiosos, culturais e estéticos, terão
pesado na apreciação do público que assistiu à estreia da peça.
Texto: Eurípides. Medeia (vv. 160-172) [tradução de M.H.
da Rocha Pereira]
[fala
da Ama]
Traindo a minha senhora e
os seus próprios filhos, Jasão repousa no tálamo régio, tendo desposado a filha
de Creonte, que manda nestas terras; e Medeia, desgraçada e desprezada, clama pelos
juramentos, invoca as mãos que se apertaram, esse penhor máximo, e toma os
deuses por testemunhas da recompensa que recebe de Jasão.
NEW POLICY FROM ELSEVIER IMPEDES OPEN ACCESS AND SHARING
Informação recebida do Serviço Integrado de Bibliotecas da Universidade de Coimbra. Lembro que a Elsevier foi a organização contratada pela FCT para um estudo bibliométrico da produção científica nacional.
Global coalition of organizations denounce the policy and urge Elsevier to revise it
Washington, DC and Göttingen, Germany – Elsevier’s new sharing and hosting policy represents
a significant obstacle to the dissemination and use of research
knowledge, and creates unnecessary barriers for Elsevier published
authors in complying with funders’ open access policies, according to an
analysis by the Scholarly Publishing and Academic Resources Coalition
(SPARC) and the Confederation of Open Access Repositories (COAR).
“Elsevier’s
policy is in direct conflict with the global trend towards open access
and serves only to dilute the benefits of openly sharing research
results,” said Heather Joseph, Executive Director of SPARC and Kathleen
Shearer, Executive Director of COAR, in a joint statement. “Elsevier
claims that the policy advances sharing but in fact, it does the
opposite. We strongly urge Elsevier to revise it.”
The
new stance marks a significant departure from Elsevier’s initial
policy, established in 2004, which allowed authors to self-archive their
final accepted manuscripts of peer-reviewed articles in institutional
repositories without delay. While the stated purpose of the new
revision is, in part, to roll back an ill-conceived 2012 amendment
prohibiting authors at institutions that have adopted campus-wide Open
Access policies from immediate self archiving, the net result of the new
policy is that Elsevier has placed greater restrictions on sharing
articles.
Twenty-three groups today released the following statement in opposition to the policy:
“On
April 30, 2015, Elsevier announced a new sharing and hosting policy for
Elsevier journal articles. This policy represents a significant
obstacle to the dissemination and use of research knowledge, and creates
unnecessary barriers for Elsevier published authors in complying with
funders’ open access policies. In addition, the policy has been adopted
without any evidence that immediate sharing of articles has a negative
impact on publishers’ subscriptions.
“Despite
the claim by Elsevier that the policy advances sharing, it actually
does the opposite. The policy imposes unacceptably long embargo periods
of up to 48 months for some journals. It also requires authors to apply a
"non-commercial and no derivative works" license for each article
deposited into a repository, greatly inhibiting the re-use value of
these articles. Any delay in the open availability of research articles
curtails scientific progress and places unnecessary constraints on
delivering the benefits of research back to the public.
“Furthermore,
the policy applies to "all articles previously published and those
published in the future" making it even more punitive for both authors
and institutions. This may also lead to articles that are currently
available being suddenly embargoed and inaccessible to readers.
“As
organizations committed to the principle that access to information
advances discovery, accelerates innovation and improves education, we
support the adoption of policies and practices that enable the
immediate, barrier free access to and reuse of scholarly articles. This
policy is in direct conflict with the global trend towards open access
and serves only to dilute the benefits of openly sharing research
results.
“We
strongly urge Elsevier to reconsider this policy and we encourage other
organizations and individuals to express their opinions.” The statement
is available here and we welcome others to show their support by also endorsing it.
The statement has been signed by the following groups:
COAR: Confederation of Open Access Repositories
SPARC: Scholarly Publishing and Academic Resources Coalition
ACRL: Association of College and Research Libraries
ALA: American Library Association
ARL: Association of Research Libraries
Association of Southeastern Research Libraries
Australian Open Access Support Group
IBICT: Brazilian Institute of Information in Science and Technology
CARL: Canadian Association of Research Libraries
CLACSO: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales
COAPI: Coalition of Open Access Policy Institutions
Creative Commons
Creative Commons (USA)
EIFL
Electronic Frontier Foundation
Greater Western Library Alliance
LIBER: European Research Library Association
National Science Library, Chinese Academy of Sciences
OpenAIRE
Open Data Hong Kong
Research Libraries UK
SANLiC: South African National Licensing Consortium
University of St Andrews Library
DELEGAÇÃO DA FENPROF REUNIU COM A NOVA PRESIDENTE DA FCT
Informação recebida da FENPROF:
Em 15/5, a FENPROF reuniu a seu pedido
com a nova Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), Prof. Maria
Arménia Carrondo.
A FENPROF apresentou as suas discordâncias com a política que
tem sido seguida por este governo para a Ciência, da qual a FCT tem sido um
instrumento privilegiado, tendo apontado as seguintes questões fundamentais:
-
o aumento muito significativo da desigualdade no
financiamento das unidades de investigação, tendo muitas ficado sem qualquer
apoio financeiro e muitas outras com um apoio que não chega para as despesas de
funcionamento corrente, em resultado de uma decisão de excluir a priori metade
das unidades da 2ª fase da avaliação;
-
as inúmeras violações dos regulamentos da
própria FCT e da legislação geral sobre os procedimentos na administração
pública, que levaram a uma contestação generalizada na comunidade científica e
à interposição de recursos para os
tribunais e para o ministério público;
-
a redução significativa do número de contratos
para investigadores FCT e a manutenção dos que conseguiram continuar empregados
sob contratos precários, em violação da directiva comunitária contra contratos a
termo resolutivo sucessivos.
-
a grande redução do número de bolsas de
doutoramento e a prioridade dada à atribuição dessas bolsas a programas de
doutoramento previamente aprovados pela FCT, com critérios muito contestáveis,
deixando a descoberto em várias instituições algumas áreas científicas e
prejudicando gravemente os candidatos mais novos.
A respeito destes problemas, a FENPROF defendeu que o processo
de avaliação deve ser anulado e as unidades financiadas de acordo com a
anterior avaliação, enquanto um sistema idóneo e equitativo não for posto em
prática.
A FENPROF defendeu ainda que as instituições devem ter os seus
orçamentos reforçados na proporção dos salários dos investigadores contratados,
por forma a terem condições de abrir concursos para a carreira de investigação
científica.
Defendeu ainda a necessidade de aumentar significativamente as
bolsas de doutoramento que apoiem os jovens que querem desenvolver investigação
nas instituições da sua escolha.
A Presidente da FCT afirmou que à Fundação competia executar
as políticas para a Ciência que eram decididas a nível governamental e, ainda,
que não lhe competia contratar por tempo indeterminado os investigadores, sendo
essa uma competência exclusiva das instituições do ensino superior e unidades
com autonomia administrativa e financeira.
Disse ainda que esta foi a primeira vez em que todas as
unidades de investigação foram simultaneamente avaliadas, incluindo nesse exercício
os Laboratórios Associados. Informou que serão em breve publicados os
resultados das audiências prévias de carácter científico e das reclamações de
natureza administrativa. Referiu que, em cooperação com o CRUP, estavam a ser
avaliadas as reclamações que se baseavam em erros grosseiros.
Afirmou ainda que o seu mandato duraria apenas até ao final de
2015, tendo como prioridades o encerramento do processo de avaliação das
unidades e a articulação da Fundação com as regiões, quanto à aprovação dos projectos
financiados pelos fundos europeus de apoio ao desenvolvimento regional, cuja
tipologia está dependente de decisões tomadas a esse nível pelas Comissões de
Coordenação e Desenvolvimento Regional. Esclareceu que a FCT será necessária
para analisar e avaliar os projectos propostos, competência que não existe a
nível regional.
A FENPROF fez chegar queixas da comunidade
científica relativamente à enorme burocracia nos concursos a projectos, a qual é considerada,
por muitos investigadores responsáveis, maior do que a relativa a
concursos para projectos europeus, o que foi refutado pela Presidente.
A FENPROF concluiu desta reunião que uma inflexão positiva para a área da Ciência só será
possível com um novo governo que tenha uma política diferente, na transparência
e valorização deste sector, e, em particular, nas condições de estabilidade dos
contratos dos investigadores.
Em síntese, a FENPROF continua
a defender, ao contrário da actual prática da FCT e do MEC:
-
que a
FCT e o MEC cumpram as “melhores práticas internacionais” que tanto apregoam,
em particular a Carta Europeia dos Investigadores (recomendação da Comissão
Europeia de 2005), a Recomendação da UNESCO (1997) subscrita pelo governo
português, e a Directiva Comunitária 1999/70/CE relativa à ilegalidade de
sucessivos contratos precários para vagas permanentes, e que obriga também o
governo português, criando-se, assim, efectivas condições de estabilidade para
os investigadores contratados;
-
a
anulação do processo de avaliação das unidades de investigação e a manutenção
temporária das anteriores regras de financiamento até que uma nova avaliação
transparente e independente seja levada a cabo;
-
que os
contratos de investigação – que deveriam substituir as bolsas pós-doutoramento
– sejam celebrados no âmbito da carreira de investigação científica, ou seja, do
ECIC;
-
o aumento
das bolsas de doutoramento, sendo os candidatos livres de escolher a
instituição de acolhimento.
22/05/2015
O Departamento do Ensino Superior e Investigação
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