Dois curtos videos destes espectáculos no Museu da Ciência de Coimbra:
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Oito competências-chave
1. Como é sabido, em 2001 o Ensino Básico Português sofreu uma reorganização curricular.2. A lógica dessa reorganização, à semelhança doutras que foram realizadas noutros países, assenta, não em conteúdos, mas em competências.
3. A noção de “competência”, constante no Currículo Nacional do Ensino Básico vigente, tem levantado, entre os professores, inúmeros problemas de entendimento, de operacionalização e de utilização.
4. Não, não são (todos) os professores que entendem mal. A noção é que, tal como se apresenta, é equívoca. Isto é reconhecido, preto-no-branco, pelos principais mentores do Movimento de Reorganização Curricular por Competências (posteriormente, noutro texto, poderei apresentar algumas das suas explicações).
5. Face às muitas dúvidas levantadas pelos professores desde 2001 até ao presente, a tutela e os especialistas que advogam a noção tem divulgado inúmeros documentos que a abordam. Também se têm publicado muitos artigos em revistas de educação, bem como vários livros técnicos e de divulgação.
6. Uma das muitas dúvidas dos professores é a seguinte: qual o lugar dos conteúdos num ensino organizado por competências?
7. Têm os professores razões para expressarem tal dúvida, pois uma das “mensagens” (entre o explicito e o subliminar) que passa quando se aborda a noção de “competência” é que os conteúdos serão contemplados na condição de servirem para se adquirirem de competências, estas sim o cerne do ensino.
8. Que outra conclusão se pode tirar das seguintes frases retiradas do documento curricular acima referido: a competência “integra conhecimentos, capacidades, atitudes, estratégias…” e “a aquisição progressiva de conhecimentos é relevante se for integrada num conjunto mais amplo de aprendizagens e enquadrada por uma perspectiva que coloca no primeiro plano o desenvolvimento de capacidades de pensamento e de atitudes favoráveis à aprendizagem”?
9. Ainda assim, nesse documento, depois de apresentadas as competências gerais (que são dez) e a sua operacionalização transversal (que soma quarenta e seis), são apresentadas as áreas disciplinares com as respectivas competências (cujo número varia).
Mas, muito importante, reconhece-se a existência de áreas disciplinares, sinal, digo eu, de que há conhecimentos que podem e devem ser tratados com os alunos.
10. Ora, foi noticiado recentemente que o Conselho de Escolas, além de se preparar para apresentar proximamente uma proposta para nova revisão curricular do Ensino Básico (outra!), ela assentará em competências estabelecidas pela União Europeia.
11. Li que o presidente deste orgão consultivo do Ministério da Educação, sublinhou a necessidade de formarem áreas de competências, áreas curriculares com disciplinas ou conjuntos de disciplinas: "Se temos uma competência histórico-geográfica para desenvolver com os alunos, não precisamos de ter uma disciplina de História e outra de Geografia. Poderão juntar-se", exemplificou.
12. Apesar do exemplo não entendi bem; melhor não entendi a ligeireza com que se descartam disciplinas fundamentais, como a História e a Geografia, ao mesmo tempo que se introduzem estranhas temáticas como "empreendedorismo".
13. E muito menos entendi o que se segue: “O importante é que a nível do Ensino Básico se consigam desenvolver as oito competências-chave (...): comunicação na língua materna e em línguas estrangeiras, competência a Matemática e competências básicas em Ciências e Tecnologia, competência em Tecnologia Digital, Aprender a Aprender (ter competências para aprender sempre), competências sociais e cívicas, espírito de iniciativa e empreendedorismo, consciencialização da identidade cultural e a sua expressão."
Esperemos para ver o que se segue. Mas o que se segue será nesta linha, pois está estabelecido na União Europeia que assim seja.
Notas:
Para escrever este texto consultei um artigo do jornal Público, que se pode encontrar aqui. No De Rerum Natura escrevi dois textos sobre a questão das competências: aqui e aqui.
Pedro Nunes finalmente editado: entrevista com Henrique Leitão
A recente publicação de De Arte Atque Ratione Navigandi, de Pedro Nunes, é um momento singular nos estudos de História da Ciência portuguesa. O Jornal de Mathemática Elementar entrevistou Henrique Leitão, investigador do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia, Pólo da Universidade de Lisboa, e Coordenador da Comissão Científica encarregue da publicação das Obras de Pedro Nunes, pela Academia das Ciências de Lisboa. Reproduzimos essa entrevista por gentil autorização do Director.Jorge Nuno Silva (JNS): Foi publicado há alguns meses o vol. IV da edição das Obras de Pedro Nunes, de título De arte atque ratione navigandi, que é geralmente considerada a mais importante obra de Nunes. Podes dizer-nos alguma coisa acerca disso?
Henrique Leitão (HL): O De arte atque ratione navigandi [Sobre a arte e a ciência de navegar] é habitualmente considerado o mais importante livro de Pedro Nunes, e por isso também muito possivelmente o mais importante livro da ciência portuguesa. É uma obra notável, que aguardava há muitos anos, na verdade há muitas décadas, uma edição moderna, com tradução e notas, como a que foi agora apresentada.
JNS: Por que é que este livro demorou tanto tempo – várias décadas – a ser publicado?
.
HL: Porque levar a cabo uma publicação deste género é um empreendimento muito especial, que exige a conjunção feliz de vários factores, uma conjunção que raramente se dá.
JNS: Quais factores?
HL: Bem, para começar, um trabalho deste tipo, como é a edição de obras matemáticas do século XVI, só pode ser empreendido devido a um enquadramento institucional único. Por um lado a Fundação Calouste Gulbenkian, que desde a primeira hora e ao mais alto nível (através de vários administradores e directores, mas sobretudo o Prof. Diogo de Lucena) se empenhou nesta iniciativa, financiando-a, acompanhando-a, e removendo todas as dificuldades que sempre surgem em projectos deste tipo. Por outro lado, porque a Academia das Ciências de Lisboa se acometeu a este projecto com toda a decisão. Quem chefia a edição é um distinto académico e matemático, o Prof. Fernando Dias Agudo, sem a liderança do qual pouco ou nada teria sido possível fazer. É bom que todos saibam que Portugal contraiu uma dívida enorme para com estas duas pessoas, porque sem eles seguramente não haveria edição moderna das obras de Nunes.
Depois do enquadramento institucional era preciso que existisse a competência técnica e científica para o fazer. E sobre isto o que tenho a dizer é que sou o coordenador da Comissão Científica, e tem sido para mim um prazer e uma honra, e mais que tudo, uma contínua aprendizagem, trabalhar com o notável grupo de especialistas que constituem a Comissão Científica, que além de muito competentes nos seus campos têm sabido manter um espírito de entreajuda e uma dedicação ao trabalho incansáveis.
JNS: Quer dizer que no passado não houve esta conjunção?
HL: Sim, acho quase nunca a houve. Parece-me que em tentativas anteriores às vezes havia dinheiro e interesse das instituições, mas não havia talento nem know-how; outras vezes havia o saber, mas não existiam os recursos materiais. Não se deve minimizar a dificuldade de uma edição destas. Contam-se pelos dedos das mãos os países que têm instituições e pessoas com a capacidade, a determinação, e o saber para se acometerem a empreendimentos deste tipo.
JNS: O aparecimento desta obra teve algum impacto fora de Portugal?
HL: Bem, é preciso ver que se trata de um livro muito técnico, de acesso difícil, e para mais está em latim com tradução portuguesa. Portanto, uma obra para especialistas. Dito isto, sim, os especialistas estrangeiros que conhecem a obra estão muito satisfeitos com o seu aparecimento. Mas o principal nem sequer é isso. O principal é que Pedro Nunes se tornou num objecto de estudo fora de Portugal. Há historiadores estrangeiros a trabalhar sobre a sua obra, há congressos internacionais, etc.
JNS: E em Portugal, qual tem sido a reacção à publicação do livro?
HL: Tem sido muito bem recebido, diria eu. Não só os especialistas e os colegas se têm mostrado muito interessados, mas também os meios de comunicação perceberam que se tratava de uma ocasião muito especial. Devo dizer que só tive umas raras decepções, de pessoas que passaram anos a lamentar-se de que este livro não existia e agora não tiveram qualquer palavra (nem de elogio, nem de crítica, nem de comentário) para saudar o seu aparecimento. Mas isso foram excepções. Em geral o livro tem sido muito bem recebido.
JNS: Podes dar-nos uma ideia do conteúdo do livro e por que é que é tão importante?
HL: Isso é quase impossível! É tanta coisa. Repara: é a obra-prima de um matemático que era muito criativo e que juntou o melhor que tinha feito num só livro…Mas, bem, vou tentar. No livro está a melhor análise e crítica dos problemas técnicos com que se debatia a cartografia do século XVI e a proposta (revolucionária) da projecção em latitudes crescidas; estão lançadas as bases da navegação teórica, com a apresentação detalhada dos princípios matemáticos dessa nova disciplina; está um estudo matemático da curva loxodrómica, a primeira curva com um ponto assimptótico no espaço real conhecida na história da matemática; está a proposta de novos instrumentos e procedimentos náuticos; está a primeira explicação matemática da história do relógio de Acaz; está a identificação de um conjunto de erros matemáticos no livro de Copérnico; está a mais importante análise do problema dos barcos a remos publicada entre Aristóteles e Euler, etc. etc. Não conheço nenhum outro livro científico de autoria portuguesa que se lhe aproxime em criatividade, brilhantismo e impacto.
JNS: Sabemos que foste o coordenador de uma equipa que trabalhou na publicação deste livro, mas toda a gente está sobretudo impressionada com tuas anotações, quase 300 páginas de notas e comentários pormenorizados e eruditos. Uma coisa de uma dimensão e uma profundidade muito invulgar entre o que é habitual ver-se feito pelos historiadores nacionais.
HL: O que se passa é que o livro é muitíssimo importante, mas não é de leitura fácil. Imediatamente me dei conta que para tornar o livro minimamente acessível era preciso explicar muitas coisas ao leitor, identificando fontes, fornecendo algum contexto, esclarecendo as múltiplas pistas de influência do texto, etc. Como o livro é extenso, isso acabou por traduzir-se em muitas notas. Mas gostava de sublinhar o essencial: são apenas Notas; não são os estudos pormenorizados que o livro ainda precisa e que agora se espera (melhor: se reclama) que os historiadores venham a fazer. Se eu tivesse que produzir estudos detalhados de tudo o que está no livro, 300 páginas não chegavam; seriam precisas 3000…
JNS: Há cerca de dois anos foste eleito para a Académie Internationle d’Histoire des Sciences, uma distinção muito rara. És o único historiador da ciência português actualmente membro. Isso teve a ver com o teu trabalho com este livro?
HL: Talvez não directamente com este livro, mas penso que com toda a edição das obras de Pedro Nunes, sim. Espero que a partir de agora se venham a eleger mais portugueses – por exemplo, especialistas em jogos matemáticos que fazem no nosso país uma investigação única no mundo!
JNS: Este é um momento singular para os estudos da história científica portuguesa.
HL: Sim, e embora eu seja parte directamente interessada, acho que consigo ser suficientemente frio e distante para julgar correctamente. E confirmo: sim, a publicação do vol IV das Obras de Pedro Nunes, o mais importante texto da nossa história científica, é certamente um momento especial nos estudos de história da ciência portuguesa.
JNS: E depois disto? O que vais fazer?
HL: Bom, tenho vários outros projectos em carteira, porque houve muitas coisas interessantes na história da matemática portuguesa que ainda estão completamente por contar. Há muitas obras e mesmo muitos matemáticos que ainda estão completamente inéditos. Talvez não exista nada com o nível de Pedro Nunes, mas é preciso nunca esquecer que as pessoas que habitualmente dizem que “não houve nada” na história científica do nosso país, não o dizem em resultado do seu estudo, mas simplesmente porque têm algum interesse (ideológico, político, etc.) investido na manutenção dessa ideia. Há muito ainda para contar. Uma coisa é certa: o Jornal de Mathemática Elementar será sempre o primeiro a saber as novidades!
JNS. Toma atenção, a promessa fica registada!!
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
P53 A GUARDIÃ DO GENOMA

Novo texto do bioquímico António Piedade saído em "O Despertar" (na figura o p53 a examinar o DNA):
O nosso corpo é composto por muitos milhões de células. Estas resultaram da divisão de uma única célula, o ovo, ou zigoto, resultante da fecundação de um óvulo, da nossa mãe, por um espermatozóide, do nosso pai. Desde então, uma intensa e actividade de divisão celular ocupa uma significativa parte do tempo do ciclo de vida da maior parte de tipo de células dos diferentes tecidos e órgãos de que somos compostos. Estima-se um número astronómico de divisões da ordem das 10 mil triliões de vezes ao longo de toda uma vida (ver aqui).
Porque é que as células do nosso corpo se dividem tanto? Uma razão principal tem a ver com a necessidade em substituir aquelas células que, ao serviço das funções vitais, se degradam, se esgotam e deixam de estar capazes de contribuir para um estado de saúde. A maior parte das células, ao fim de um determinado tempo que varia de tecido para tecido (por exemplo, maior para as células cerebrais, menor para os glóbulos vermelhos), são “eliminadas” por uma espécie de morte celular programada que designamos por apoptose e que garante uma boa funcionalidade dos tecidos. O espaço que fica livre pela morte celular é ocupado por células resultantes da divisão de outras células “ainda boas”. Assim a velocidade de substituição é regulada (entre outros factores) pela densidade de células vizinhas: quando as células perdem o sentido do espaço, quando ficam sem tacto para com a geografia do tecido a que pertencem, então dividem-se sem regra, com uma gula desmesurada, violentando a arquitectura funcional, originando tumores que tanto podem ser benignos como cancerosos.
Refira-se, como curiosidade, que a morte celular maciça por apoptose ocorre em inúmeras situações ao longo do desenvolvimento do nosso corpo, como sejam a abertura de fendas e “rasgos” em terminados folhetos de células do embrião que fomos, dando origem às aberturas para os nossos olhos, para as narinas, etc.
Podemos pois afirmar que a morte celular é um processo necessário à vida harmoniosa de qualquer organismo pluricelular.
E agora surgem as perguntas: O que é que comanda esta morte celular? Que conjunto de mecanismos controlam o fado de cada célula tendo em vista a manutenção da estabilidade complexa do organismo? O que é que decide se uma dada célula entra em apoptose e “morre” ou, pelo contrário, inicia o processo de duplicação de conteúdos que caracteriza a divisão de um célula em duas iguais?
António Piedade
Há 30 anos (ver aqui e aqui), dois grupos de cientistas isolaram e identificaram uma proteína do citoplasma celular que migrava o mesmo que um marcador com o peso de 53 kDa (Da = Dalton é a unidade de massa atómica, que é aproximadamente equivalente à massa de um átomo de hidrogénio) num gel de electroforese de proteínas (SDS-PAGE). Apesar de hoje sabermos, com base na composição em aminoácidos, que a sua massa é cerca de 43,7 kDa, o valor então encontrado serviu para a baptizar com a designação p53. Ou seja, proteína com 53 kDa de massa, alcunha p53. Os seus descobridores associaram inicialmente a p53 com o desenvolvimento de tumores, mas muita tinta correu e muitas árvores foram abatidas desde então à custa das investigações efectuadas para compreender o papel desta proteína. Publicaram-se pelo menos 50 mil artigos nestes 30 anos sobre a p53: 4 artigos e meio por dia! ver aqui.
Ao longo deste trilho de árvores que se desfolharam em artigos sobre a p53, descobrimos que esta proteína globular desempenha um papel charneira, integrador e verificador da qualidade da informação genética da célula.
Sabemos hoje que a p53 está presente em inúmeras encruzilhadas do metabolismo celular, cabendo-lhe o papel de decidir o futuro da célula. Se a qualidade da informação contida no genoma celular estiver abaixo do reparável, devido, por exemplo, a mutações causadas por agentes cancerígenos, genotóxicos, então a p53 activará as vias que desaguam no evento apoptótico. Caso a estabilidade genética esteja assegurada garantindo uma aceitável transmissão da informação genética, para as células filhas, então a p53 activará os procedimentos que promovem a divisão celular se, claro está, esta for necessária para a coesão e funcionalidade dos tecidos onde a célula que a alberga está inserida. Numa outra perspectiva, funciona como uma espécie de supressor de tumores e daí a sua importância para o desenvolvimento de novas terapêuticas anticancerígenas (ver aqui ).
Esta guardiã da qualidade genómica e, consequentemente, proteómica da célula, está presente, com pequenas variações, em todas as formas celulares conhecidas (bactérias, protozoários, células eucariotas animais e vegetais, etc.). Isto implica que o aparecimento do protótipo da p53 é muito antigo na história da vida na Terra, sendo anterior à evolução e diferenciação das diversas formas celulares. Ou seja, a p53 rege o destino celular há mais de três biliões de anos.
Novos olhares sobre a História da Ciência em Portugal
Simpósio sobre História da Matemática na Academia das Ciências de Lisboa, na próxima Segunda-feira, dia 14 de Dezembro de 2009.
O Simpósio que tem por título Novos olhares sobre a História da Ciência em Portugal I: As Ciências Matemáticas, encerrará com a apresentação do vol. 4 das Obras de Pedro Nunes (De arte atque ratione nauigandi).
Programa:
9h30 Abertura. Presidente da Academia das Ciências de Lisboa
Prof. Doutor Eduardo de Arantes e Oliveira
10h00 Cmdt. José Manuel Malhão Pereira
«Os Cosmógrafos-Mor, o ensino da náutica, e as ciências matemáticas em Portugal».
10h45 Dr. André Ferrand de Almeida
«Expedições científicas e a cartografia do Brasil no séc. XVII».
11h30 Intervalo para café
12h00 Prof. Henrique Leitão
«Ciências matemáticas em colégios da Companhia de Jesus em Portugal, 1540-1759».
12h45 Intervalo para Almoço
14h30 Ten-Cor. José Paulo Berger
«A Matemática e a fortificação na formação dos Engenheiros Militares até à Guerra Peninsular».
15h15 Prof. João Filipe Queiró
«A Matemática na Universidade de Coimbra do século XVI aos princípios do séc. XX».
16h00 Intervalo para café
16h15 Prof. Luís Saraiva
«A Matemática nas Memórias da Academia das Ciências de Lisboa no século XIX».
17h30 Apresentação do vol. IV das Obras de Pedro Nunes.
Prof. Doutor Fernando Dias Agudo
A entrada é livre. Estão todos convidados a aparecer.
O Simpósio que tem por título Novos olhares sobre a História da Ciência em Portugal I: As Ciências Matemáticas, encerrará com a apresentação do vol. 4 das Obras de Pedro Nunes (De arte atque ratione nauigandi).
Programa:
9h30 Abertura. Presidente da Academia das Ciências de Lisboa
Prof. Doutor Eduardo de Arantes e Oliveira
10h00 Cmdt. José Manuel Malhão Pereira
«Os Cosmógrafos-Mor, o ensino da náutica, e as ciências matemáticas em Portugal».
10h45 Dr. André Ferrand de Almeida
«Expedições científicas e a cartografia do Brasil no séc. XVII».
11h30 Intervalo para café
12h00 Prof. Henrique Leitão
«Ciências matemáticas em colégios da Companhia de Jesus em Portugal, 1540-1759».
12h45 Intervalo para Almoço
14h30 Ten-Cor. José Paulo Berger
«A Matemática e a fortificação na formação dos Engenheiros Militares até à Guerra Peninsular».
15h15 Prof. João Filipe Queiró
«A Matemática na Universidade de Coimbra do século XVI aos princípios do séc. XX».
16h00 Intervalo para café
16h15 Prof. Luís Saraiva
«A Matemática nas Memórias da Academia das Ciências de Lisboa no século XIX».
17h30 Apresentação do vol. IV das Obras de Pedro Nunes.
Prof. Doutor Fernando Dias Agudo
A entrada é livre. Estão todos convidados a aparecer.
SMS porque, afinal, estamos a educar para a vida
Detenho-me no romance que Luísa Costa Gomes publicou recentemente e de que já aqui demos notícia. Apesar de ter por título Ilusão (ou o que quiserem), contém páginas de um realismo puro e... atroz sobre o ensino e a aprendizagem, sobre o funcionamento dos sistemas educativos ocidentais e o modo como as sociedades que os legitimam vêem a escola, as crianças, os jovens e os seus professores. E, a embrulhar tudo isto, as concepções de educação formal de alguns académicos e da generalidade dos decisores políticos, o discurso a que se agarram e a sua filiação epistemológica, marcadamente relativista, subjectivista e contextualista. No diálogo que se segue entre a dedicada professora Teresinha e o seu marido (páginas 30-32) podemos encontrar um cenário com todos estes ingredientes:
“Ao jantar, fez-me o relatório desses dois dias. «Cedo me apercebi de que não tinha meios para seguir profunda e verdadeiramente aqueles cinco alunos. Primeiro visualizei os meus objectivos, depois imaginei as estratégias e técnicas para mais adequadas à sua prossecução. Achei que devia negociar caso a caso o processo de ensino-aprendizagem. Propus aos alunos a iniciação de uma relação de diálogo biunívoco professor-aluno e de confiança mútua e depois aproveitei o ambiente criado para lhes dar a conhecer o projecto de contratos de leitura. Houve uma certa e natural resistência à ideia da obrigação de ler um livro à escolha para ganhar um ponto a somar à avaliação do período mas digamos que tive uma boa margem de sucesso, dado que aceitaram todos excepto o Fábio, o Márcio e o Dédalo. A Cindy não se pronunciou e a Jessica teve uma reacção em que exprimia uma agressividade normal. É normal que os alunos reajam com desconfiança e até um certo grau de violência verbal a uma proposta nova que lhes é feita na ecola. Faz parte do psiquismo do ser humano essa relutância em mergulhar no desconhecido. Elaborei então uma reapreciação da situação e dos novos desafios que se me colocam. Decidi concentrar-me na Jessica. Anteontem dei-lhe uma hora suplementar de apoio a Português, penso que a relação de ensino-aprendizagem, firmemente ancorada numa boa relação afectiva de responsabilidade e de autonomização permitiu grandes sucessos. Ela ainda claudica muito na composição, e temos teste para a semana. Distrai-se facilmente e é virtualmente impossível fazê-la desligar o telemóvel. Então ocorreu-me um pensamento, daqueles que se têm uma vez na vida, sabes? Porque não fazê-la escrever SMS? Porque não usar a sua experiência na comunicação bem sucedida com os seus pares?». »Parece-me conveniente», disse eu. «É uma coisa que faz parte da vida, não é uma matéria abstracta. Para a motivar tenho de ter uma estratégia em que ela veja o resultado prático rapidamente. Para lhe estimular a auto-estima. Sem auto-estima, mais vale arrumarmos já o material didáctico. Porque isso é que é uma estratégia de sucesso. Não podemos estar à espera de que eles tenham paciência para aprender coisas que não têm a ver com a vida deles, com a vida de todos os dias. Eles têm de sentir que a escola é deles. Afinal é aí que passam noventa por cento do seu tempo.» «O ensino tem de ser centrado no aluno!», ajudei. «Não vês que é exactamente o que estou a fazer? E disse à Jessica: «Fazes uma composição como se estivesses a escrever mensagens aos teus amigos. Experimenta. E ela aceitou o desafio.» A Teresinha estendeu-me então meia folha, mal rasgada ao meio e muito amarrotada: «k ir ao kumersial? Tou tesa!vi la uma caia bué! Bora ao kafe! Ta de xuva! Fdse! Tnsmoney? Não! Atao nao da.» «É um princípio», disse eu. «Isto é uma lança em África», disse ela. «A Jessica é extremamente viva e esperta e aprende depressa. Tem aspectos cognitivos muito pragmáticos, muito ligados à vida de todos os dias e uma imaginação concreta com potencial. Consegui finalmente que fizesse um contrato de leitura para a disciplina. Depois de uma negociação interessante, comprometeu-se a ler os bilhetes de autocarro e os menus do McDonald. São coisas da vida de todos os dias e afinal nós estamos a educar para a vida."
“Ao jantar, fez-me o relatório desses dois dias. «Cedo me apercebi de que não tinha meios para seguir profunda e verdadeiramente aqueles cinco alunos. Primeiro visualizei os meus objectivos, depois imaginei as estratégias e técnicas para mais adequadas à sua prossecução. Achei que devia negociar caso a caso o processo de ensino-aprendizagem. Propus aos alunos a iniciação de uma relação de diálogo biunívoco professor-aluno e de confiança mútua e depois aproveitei o ambiente criado para lhes dar a conhecer o projecto de contratos de leitura. Houve uma certa e natural resistência à ideia da obrigação de ler um livro à escolha para ganhar um ponto a somar à avaliação do período mas digamos que tive uma boa margem de sucesso, dado que aceitaram todos excepto o Fábio, o Márcio e o Dédalo. A Cindy não se pronunciou e a Jessica teve uma reacção em que exprimia uma agressividade normal. É normal que os alunos reajam com desconfiança e até um certo grau de violência verbal a uma proposta nova que lhes é feita na ecola. Faz parte do psiquismo do ser humano essa relutância em mergulhar no desconhecido. Elaborei então uma reapreciação da situação e dos novos desafios que se me colocam. Decidi concentrar-me na Jessica. Anteontem dei-lhe uma hora suplementar de apoio a Português, penso que a relação de ensino-aprendizagem, firmemente ancorada numa boa relação afectiva de responsabilidade e de autonomização permitiu grandes sucessos. Ela ainda claudica muito na composição, e temos teste para a semana. Distrai-se facilmente e é virtualmente impossível fazê-la desligar o telemóvel. Então ocorreu-me um pensamento, daqueles que se têm uma vez na vida, sabes? Porque não fazê-la escrever SMS? Porque não usar a sua experiência na comunicação bem sucedida com os seus pares?». »Parece-me conveniente», disse eu. «É uma coisa que faz parte da vida, não é uma matéria abstracta. Para a motivar tenho de ter uma estratégia em que ela veja o resultado prático rapidamente. Para lhe estimular a auto-estima. Sem auto-estima, mais vale arrumarmos já o material didáctico. Porque isso é que é uma estratégia de sucesso. Não podemos estar à espera de que eles tenham paciência para aprender coisas que não têm a ver com a vida deles, com a vida de todos os dias. Eles têm de sentir que a escola é deles. Afinal é aí que passam noventa por cento do seu tempo.» «O ensino tem de ser centrado no aluno!», ajudei. «Não vês que é exactamente o que estou a fazer? E disse à Jessica: «Fazes uma composição como se estivesses a escrever mensagens aos teus amigos. Experimenta. E ela aceitou o desafio.» A Teresinha estendeu-me então meia folha, mal rasgada ao meio e muito amarrotada: «k ir ao kumersial? Tou tesa!vi la uma caia bué! Bora ao kafe! Ta de xuva! Fdse! Tnsmoney? Não! Atao nao da.» «É um princípio», disse eu. «Isto é uma lança em África», disse ela. «A Jessica é extremamente viva e esperta e aprende depressa. Tem aspectos cognitivos muito pragmáticos, muito ligados à vida de todos os dias e uma imaginação concreta com potencial. Consegui finalmente que fizesse um contrato de leitura para a disciplina. Depois de uma negociação interessante, comprometeu-se a ler os bilhetes de autocarro e os menus do McDonald. São coisas da vida de todos os dias e afinal nós estamos a educar para a vida."
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Substitutos? Naaah!
Apareceu recentemente nos cinemas um filme intitulado "Substitutos" ("Surrogates" no original em inglês). Segundo esse filme, os robôs viveriam por nós apesar de comandados pelo nosso cérebro através de uma ligação remota. Ficção científica e show-business. O habitual em Hollywood.
Podem ver aqui o trailer do filme:
É preciso saber distinguir a ficção da realidade. Os robôs representados no filme estão fora do nosso alcance, isto é, nem são possíveis hoje, nem é realista admitir que sejam tecnicamente possíveis em menos de 30 anos.
No entanto, a robótica actual tem sido usada para ajudar as pessoas. Não para as substituir, mas para permitir que realizem tarefas de uma forma mais simples e mais confortável. Um BOM exemplo é a utilização de robôs para melhorar a performance física daqueles que perderam qualidades motoras: por acidente, doença ou devido à idade. A Honda, por exemplo, lançou recentemente um protótipo que permite auxiliar a locomoção humana.
:-)
Podem ver aqui o trailer do filme:
É preciso saber distinguir a ficção da realidade. Os robôs representados no filme estão fora do nosso alcance, isto é, nem são possíveis hoje, nem é realista admitir que sejam tecnicamente possíveis em menos de 30 anos.
No entanto, a robótica actual tem sido usada para ajudar as pessoas. Não para as substituir, mas para permitir que realizem tarefas de uma forma mais simples e mais confortável. Um BOM exemplo é a utilização de robôs para melhorar a performance física daqueles que perderam qualidades motoras: por acidente, doença ou devido à idade. A Honda, por exemplo, lançou recentemente um protótipo que permite auxiliar a locomoção humana.
:-)
Professores? Mas o que é isso?
Do outro lado do Atlântico, chega à caixa de correio do De Rerum Natura a brincadeira que, a seguir, se reproduz:
O ano é 2209 - ou seja, daqui a 200 anos - e uma conversa entre avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:
“Vovô, por que o mundo está acabando?”.
A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom vem a resposta:
“Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo."
“Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?”
O ano é 2209 - ou seja, daqui a 200 anos - e uma conversa entre avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:“Vovô, por que o mundo está acabando?”.
A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom vem a resposta:
“Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo."
“Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?”
O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.
“Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?”
“Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.”
“E como foi que eles desapareceram, vovô?”
“Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa. Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos. Estes foram ensinados a dizer: "estou pagando e você tem que me ensinar", ou "para quê estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você", ou ainda "meu pai me dá mais de mesada do que você ganha." Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo gerenciar a relação com o aluno. Os professores eram vítimas da violência física, verbal e moral que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo. Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. "Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular", diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de ideias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério. Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor. As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas bem sucedidas eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas... Ah, mas teve um fator chave nessa história toda. Teve uma época longa chamada ditadura, quando os milicos colocaram os professores na alça de mira e quase acabaram com eles, foram perseguidos, aposentados, expulsos do país, em nome do combate aos subversivos e à instalação de uma república sindical no país. Eles fracassaram, porque a tal república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram uma tal de educação libertadora que ninguém nunca soube o que é, fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos... Foi o tiro de misericórdia nos professores. Não sei o que foi pior se os "milicos» ou os tais «subversivos»."
“Não conheço essa palavra. O que é um milico, vovô?"
“Era, meu filho, era, não é. Também não existem mais..."
Comerciais divertidos e... tecnológicos.
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O que vale um livro?
Texto de João Boavida, na sequência de outro aqui recentemente publicado: Aparição, há cinquenta anos.

Um livro pode ser muita coisa. Alguns, os melhores, são aqueles que, pela sua força, pela profundidade com que nos atravessam nos obrigaram a profundas reformulações, nos despertaram para evidências antes ignoradas e nos formam a personalidade. Em certos casos transformam as nossas vidas. Às vezes é uma questão de oportunidade, de ocasião. Felizes os que encontram o livro necessário na hora certa.
Vem isto a propósito da Aparição, de Vergílio Ferreira, de que antes falei. Muitos jovens foram obrigados a lê-lo nos liceus e terão bocejado ou dito mal do autor; outros terão tido sentimentos muito diferentes. Para mim foi uma obra fundamental. Apanhou-me com quinze ou dezasseis anos e foi um livro com o qual andei em luta mas que me deixou um rasto fundo para o resto da vida.
A melhor homenagem será talvez dar conta da emoção daquela leitura primitiva, e dos sentimentos ambíguos e contraditórios que me provocou. Por um lado, a incompreensão ainda de muitas passagens do texto, e do sentido profundo que me parecia escapar e simultaneamente julgava intuir com alguma clareza; por outro a força profunda que o texto transmitiu e que me tocou fundo. A intensidade das ideias e dos sentimentos, mais intuídos que explicados ou descritos, por um lado, e por outro a espessura das palavras, a bela densidade que elas conseguiam e que arrebatava. Tudo isto foi para mim uma experiência inigualável. Devo a este livro o impacto profundo da descoberta do eu, essa condição indispensável para toda a vida intelectual e moral. Pela primeira vez senti a força da pessoa que eu era, e ao mesmo tempo percebi a sedução e o perigo que isso poderia representar. E, portanto, como a aventura da vida de cada um era simultaneamente espantosa e angustiante, e como quase tudo estava nas nossas mãos.
Para um jovem a sair da adolescência, que contributo maior se pode esperar de um livro? A descoberta do eu até à evidência mais frontal e quase insuportável de nós face a nós mesmos; a força das ideias e a sua profunda e insuperável relação com a pessoa que há em nós, com o que somos e podemos vir a ser. E ainda a qualidade estética que transforma a obra literária na realidade pura; qual dos contributos foi mais importante?
Lembro-me das longas sugestões provocadas pela capa de Sebastião Rodrigues, naquela segunda edição da Portugália: uma estilização pesada do templo de Diana e um sol alentejano soberano e dominante. E a incredulidade perante a frase da contra-capa em que Gaspar Simões dizia: “eis-nos sem dúvida perante um dos melhores romances escritos em língua portuguesa depois de Eça de Queirós”. Como podia Gaspar Simões dizer tal coisa? E, todavia, e minha emoção face à força do texto ali estava para o confirmar. A verdade é que, se em termos estéticos era diferente do que lera até então, o principal do livro não estava aí, embora, como se sabe, não se possa separar o conteúdo da forma. Mal do livro que não consegue harmonizar estas duas componentes. Mas este conseguiu-o estabelecendo connosco uma relação difícil mas profunda, uma espécie de sucção em que a evidência do eu, a “aparição” do eu ao autor e o que isso significava seduzia e perturbava, mas também projectava e estimulava de uma maneira como nunca antes tinha sentido.
Como disse, há momentos certos no crescimento e na vida para ler um livro, e há momentos errados, ou menos adequados. Tive a sorte de ler Aparição na altura certa. Ou talvez um pouco cedo, quem sabe? Mas aquilo a que me obrigou foi uma das razões da sua força e da sua profunda e duradoura influência. Naquela idade, foi um dínamo para a minha formação. Como esquecê-lo?

Um livro pode ser muita coisa. Alguns, os melhores, são aqueles que, pela sua força, pela profundidade com que nos atravessam nos obrigaram a profundas reformulações, nos despertaram para evidências antes ignoradas e nos formam a personalidade. Em certos casos transformam as nossas vidas. Às vezes é uma questão de oportunidade, de ocasião. Felizes os que encontram o livro necessário na hora certa.
Vem isto a propósito da Aparição, de Vergílio Ferreira, de que antes falei. Muitos jovens foram obrigados a lê-lo nos liceus e terão bocejado ou dito mal do autor; outros terão tido sentimentos muito diferentes. Para mim foi uma obra fundamental. Apanhou-me com quinze ou dezasseis anos e foi um livro com o qual andei em luta mas que me deixou um rasto fundo para o resto da vida.
A melhor homenagem será talvez dar conta da emoção daquela leitura primitiva, e dos sentimentos ambíguos e contraditórios que me provocou. Por um lado, a incompreensão ainda de muitas passagens do texto, e do sentido profundo que me parecia escapar e simultaneamente julgava intuir com alguma clareza; por outro a força profunda que o texto transmitiu e que me tocou fundo. A intensidade das ideias e dos sentimentos, mais intuídos que explicados ou descritos, por um lado, e por outro a espessura das palavras, a bela densidade que elas conseguiam e que arrebatava. Tudo isto foi para mim uma experiência inigualável. Devo a este livro o impacto profundo da descoberta do eu, essa condição indispensável para toda a vida intelectual e moral. Pela primeira vez senti a força da pessoa que eu era, e ao mesmo tempo percebi a sedução e o perigo que isso poderia representar. E, portanto, como a aventura da vida de cada um era simultaneamente espantosa e angustiante, e como quase tudo estava nas nossas mãos.
Para um jovem a sair da adolescência, que contributo maior se pode esperar de um livro? A descoberta do eu até à evidência mais frontal e quase insuportável de nós face a nós mesmos; a força das ideias e a sua profunda e insuperável relação com a pessoa que há em nós, com o que somos e podemos vir a ser. E ainda a qualidade estética que transforma a obra literária na realidade pura; qual dos contributos foi mais importante?
Lembro-me das longas sugestões provocadas pela capa de Sebastião Rodrigues, naquela segunda edição da Portugália: uma estilização pesada do templo de Diana e um sol alentejano soberano e dominante. E a incredulidade perante a frase da contra-capa em que Gaspar Simões dizia: “eis-nos sem dúvida perante um dos melhores romances escritos em língua portuguesa depois de Eça de Queirós”. Como podia Gaspar Simões dizer tal coisa? E, todavia, e minha emoção face à força do texto ali estava para o confirmar. A verdade é que, se em termos estéticos era diferente do que lera até então, o principal do livro não estava aí, embora, como se sabe, não se possa separar o conteúdo da forma. Mal do livro que não consegue harmonizar estas duas componentes. Mas este conseguiu-o estabelecendo connosco uma relação difícil mas profunda, uma espécie de sucção em que a evidência do eu, a “aparição” do eu ao autor e o que isso significava seduzia e perturbava, mas também projectava e estimulava de uma maneira como nunca antes tinha sentido.
Como disse, há momentos certos no crescimento e na vida para ler um livro, e há momentos errados, ou menos adequados. Tive a sorte de ler Aparição na altura certa. Ou talvez um pouco cedo, quem sabe? Mas aquilo a que me obrigou foi uma das razões da sua força e da sua profunda e duradoura influência. Naquela idade, foi um dínamo para a minha formação. Como esquecê-lo?
João Boavida
Imagem: Leitura, de Renoir
"Cagnotte" e lugares para o futebol
As crianças e os jovens devem estar na escola? Com certeza. Mas, será legítimo recorrer a todos os meios para conseguir esse fim que é tê-los numa sala de aula?Em França está a ser implementada uma medida destinada a diminuir o absentismo que tem, entre os seus defensores convictos, reitores, o Alto Comissário para as Solidariedades Activas, o ministro da Educação, etc. Essa medida, noticiada na TSF, é a seguinte:
"E se a turma do seu filho ganhasse um jackpot, digamos 10.000 euros ao fim do ano como prémio pela assiduidade à escola, aplaudiria?Pode o leitor ouvir a notícia aqui e valerá a pena ouvi-la, pois nela se avançam outras medidas, aparentemente mais construtivas, para ter os alunos na escola.
Pense duas vezes... A experiência - cagnotte, como lhe chamam os jornais franceses, enquanto a experiência vai alastrando (...) - começou ontem em três escolas profissionais (...). Cagnotte (...) é do jargão do jogo a dinheiro. O conceito é simples: se toda a turma for assídua a escola põe no bolo, no monte, 2000 euros. A coisa pode chegar ao jackpot de 10.000 euros no fim do ano se todos atinarem (...).
Os sindicatos dos professores pediram já a retirada desta medida, considerando que a assiduidade é o primeiro dever do aluno. Uma federação de estudantes liceais contesta a medida que define como inútil, estúpida e perigosa, e propõe a redução do número de alunos por turma, por exemplo (...).
A experiência está lançada, pode alastrar a metade das escolas profissonais da região de Paris. A polémica enche os jornais franceses que vão dando notícia, entretanto, de outros truques de escolas, porventura pressionadas pela exigência de estatísticas favoráveis. O liceu de Marselha, por exemplo, já começou a oferecer lugares para o futebol (...) para os alunos mais assíduos."
domingo, 6 de dezembro de 2009
Os gastos (inúteis) na educação
Convidado a comentar o recente estudo sobre o nível de literacia na leitura dos portugueses, do qual acabámos de dar conta no De Rerum Natura, João Salgueiro referiu que o problema não se resolve com um investimento maior em Educação.
Afirmou este economista: "Se há indicador em que não estamos mal é no volume de recursos que dedicamos à Educação e temos dos piores resultados no desempenho". A causa "está no funcionamento do sistema de educação e no sistema económico".
A mesma opinião foi formulada, há uns anos, por um outro economista, Paulo Trigo Pereira, em entrevista ao jornal Público: "Opta-se, por aumentar a despesa pública em educação. Só que isso pode não resolver nada. Aliás, o que vemos é que Portugal gasta mais na educação por aluno do que grande parte dos países europeus (...) o acréscimo de despesa não está a ser orientado para aquilo em que é mais eficaz do ponto de vista do sucesso educativo. Com o problema de finanças públicas que temos, é fundamental gastar melhor. Mas para isso é preciso conhecer a realidade, ter dados, analisá-los, ter metas quantificadas e ver se foram cumpridas ou não."
Afirmou este economista: "Se há indicador em que não estamos mal é no volume de recursos que dedicamos à Educação e temos dos piores resultados no desempenho". A causa "está no funcionamento do sistema de educação e no sistema económico".
A mesma opinião foi formulada, há uns anos, por um outro economista, Paulo Trigo Pereira, em entrevista ao jornal Público: "Opta-se, por aumentar a despesa pública em educação. Só que isso pode não resolver nada. Aliás, o que vemos é que Portugal gasta mais na educação por aluno do que grande parte dos países europeus (...) o acréscimo de despesa não está a ser orientado para aquilo em que é mais eficaz do ponto de vista do sucesso educativo. Com o problema de finanças públicas que temos, é fundamental gastar melhor. Mas para isso é preciso conhecer a realidade, ter dados, analisá-los, ter metas quantificadas e ver se foram cumpridas ou não."
Um "mundo às avessas"
"O que se passa hoje no ensino é um reflexo daquilo que nós vivemos também na sociedade. E o que se passa no ensino é exemplo do absurdo e do mundo às avessas.
Esta expressão do mundo às avessas é uma expressão clássica de Gil Vicente e de Luís de Camões. E porque é que eu digo que vivemos num mundo às avessas? É porque, no fundo, o professor não tem de reflectir sobre aquilo que é o seu ensino e as suas responsabilidades do acto de ensinar, mas está, neste momento transformado num servidor do estado, tem que obedecer, tem que cumprir, tem de aceitar aspectos extremamente imbecilizantes que aparecem nos programas quer do básico quer do secundário e que testemunham (…) uma grande ignorância (…) uma falta de amor pela língua portuguesa, pela cultura portuguesa, pelo património que herdámos.
E todas estas alterações são feitas com palavras que se envolvem numa capa protectora, que é o progresso e a democracia. Com elas tentam fechar todas as pessoas que querem fazer alguma crítica porque aqui estamos a ir contra o progresso e a democracia. E sabemos antecipadamente que qualquer critica que façamos não vai ter qualquer resultado."
Estas palavras são da Professora Maria do Carmo Vieira, que Mário Crespo, Henrique Medina Carreira e Nuno Crato convidaram para uma conversa sobre a Educação em Portugal no programa de televisão Plano Inclinado, que pode ser visto na íntegra aqui.
A PEDAGOGIA DA IGNORÂNCIA
“A unidade do saber, nunca dada, propõe-se como uma tarefa a empreender. Como uma tarefa impossível, talvez, e desencorajante de qualquer modo. Mas esta tarefa define a mais alta exigência da cultura” (Georges Gusdorf, “Da História das Ciências à História do Pensamento”, Presença, 1988).
Um comentário de Manuel de Castro Nunes ao meu último post “A Revisão do Estatuto da Carreira Docente, a Ministra e os Sindicatos” (3/12/2009), chama a atenção para o facto de a pedagogia não estar informada pela filosofia.
Ora, este oportuno comentário leva-me à seguinte inquietação: que posso eu dizer (embora a Filosofia tenha sido a disciplina que mais me entusiasmou no meu longínquo sétimo ano do então ensino liceal) sobre uma temática em que me tenho como um simples amador, isto é, aquele que ama?
Não querendo ir além da sandália, sei que para Platão “a essência de toda a verdadeira educação (páideia) é a de dar ao homem o desejo e a ânsia de se tornar num cidadão perfeito, o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento”. Sei, igualmente, que a Filosofia (originalmente a explicação racional de todas as coisas) e a Ciência (despojada da verdade absoluta pela refutabilidade de Karl Popper), por vezes, se antagonizam.
Assim, Jean-Pierre Changeux (1983) não se coíbe de criticar o papel frenador da filosofia aristotélica no desenvolvimento da Ciência por, ao debruçar-se, durante séculos, sobre o funcionamento da máquina humana, "ter considerado o cérebro como um sistema de arrefecimento do sangue e o coração como sede dos sentimentos". Ora o coração (mais propriamente o miocárdio), como é consabido, não passa de uma mera bomba muscular aspirante-premente que não ama e não odeia, que não rejubila e não sofre, que não age e não sonha! Mas ainda hoje, na tradição popular, é difícil aceitar esta realidade, o que obriga, até, o próprio conhecedor do papel do sistema límbico a levar a mão ao peito, no sítio em que o coração galopa em louco tropel, para exprimir à sua amada o fogo da paixão que lhe corrói as entranhas. Não estou a ver que o conhecimento moderno da neurofisiologia possa levar um jovem actor, no desempenho da personagem de Romeu, a levar a mão à cabeça para declarar o seu amor a Julieta.
Para Georges Gusdorf “a biologia aristotélica só foi verdadeiramente ultrapassada após um intervalo de 2000 anos”. Ficou-se este facto a dever aos estudos de William Harvey que, no século XVII, lançou as bases científicas do funcionamento do sistema circulatório. Neste mesmo século, segundo Jacques-Michel Robert (1982), “Descartes localizou o elo da ligação da alma com o corpo na glândula pineal”, que fisiologistas de inspiração filogenética, confrontados com o seu obscuro significado funcional, disseram ser o vestígio de um olho por nós herdado dos répteis. Os saberes actuais dizem-nos que ela segrega uma hormona (melatonina), necessária ao ritmo biológico do dia e da noite. Entretanto, Peter Medawer, Prémio Nobel da Medicina de 1960, reconhece que “a ciência não pode responder às questões últimas do sentido da vida”. Ou seja, a Ciência e a Filosofia continuam a ter lugares próprios nos ramos da frondosa árvore da sabedoria.
Mas nada das complexas relações entre Ciência e Filosofia tem preocupado os políticos que regem os destinos da educação em Portugal, nomeadamente Valter Lemos,docente de uma escola superior de educação, ex-secretário de Estado da Educação, com um mestrado à la minute (“Master of Education, Boston University”), Ana Maria Bettencourt, professora de uma outra escola superior de educação, presidente do Conselho Nacional de Educação, e, “last but not least”, a actual ministra da Educação, Isabel Alçada, também ela detentora do mestrado de Boston, professora da Escola Superior de Educação de Lisboa. Mas devemos sobretudo chamar à pedra Ana Benavente que muito se esforçou, quando secretária de Estado da Educação, para que o magistério do 3.º ciclo do ensino básico recaísse, simultaneamente, sobre licenciados universitários e das Escolas Superiores de Educação.
Um comentário de Manuel de Castro Nunes ao meu último post “A Revisão do Estatuto da Carreira Docente, a Ministra e os Sindicatos” (3/12/2009), chama a atenção para o facto de a pedagogia não estar informada pela filosofia.
Ora, este oportuno comentário leva-me à seguinte inquietação: que posso eu dizer (embora a Filosofia tenha sido a disciplina que mais me entusiasmou no meu longínquo sétimo ano do então ensino liceal) sobre uma temática em que me tenho como um simples amador, isto é, aquele que ama?
Não querendo ir além da sandália, sei que para Platão “a essência de toda a verdadeira educação (páideia) é a de dar ao homem o desejo e a ânsia de se tornar num cidadão perfeito, o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento”. Sei, igualmente, que a Filosofia (originalmente a explicação racional de todas as coisas) e a Ciência (despojada da verdade absoluta pela refutabilidade de Karl Popper), por vezes, se antagonizam.
Assim, Jean-Pierre Changeux (1983) não se coíbe de criticar o papel frenador da filosofia aristotélica no desenvolvimento da Ciência por, ao debruçar-se, durante séculos, sobre o funcionamento da máquina humana, "ter considerado o cérebro como um sistema de arrefecimento do sangue e o coração como sede dos sentimentos". Ora o coração (mais propriamente o miocárdio), como é consabido, não passa de uma mera bomba muscular aspirante-premente que não ama e não odeia, que não rejubila e não sofre, que não age e não sonha! Mas ainda hoje, na tradição popular, é difícil aceitar esta realidade, o que obriga, até, o próprio conhecedor do papel do sistema límbico a levar a mão ao peito, no sítio em que o coração galopa em louco tropel, para exprimir à sua amada o fogo da paixão que lhe corrói as entranhas. Não estou a ver que o conhecimento moderno da neurofisiologia possa levar um jovem actor, no desempenho da personagem de Romeu, a levar a mão à cabeça para declarar o seu amor a Julieta.
Para Georges Gusdorf “a biologia aristotélica só foi verdadeiramente ultrapassada após um intervalo de 2000 anos”. Ficou-se este facto a dever aos estudos de William Harvey que, no século XVII, lançou as bases científicas do funcionamento do sistema circulatório. Neste mesmo século, segundo Jacques-Michel Robert (1982), “Descartes localizou o elo da ligação da alma com o corpo na glândula pineal”, que fisiologistas de inspiração filogenética, confrontados com o seu obscuro significado funcional, disseram ser o vestígio de um olho por nós herdado dos répteis. Os saberes actuais dizem-nos que ela segrega uma hormona (melatonina), necessária ao ritmo biológico do dia e da noite. Entretanto, Peter Medawer, Prémio Nobel da Medicina de 1960, reconhece que “a ciência não pode responder às questões últimas do sentido da vida”. Ou seja, a Ciência e a Filosofia continuam a ter lugares próprios nos ramos da frondosa árvore da sabedoria.
Mas nada das complexas relações entre Ciência e Filosofia tem preocupado os políticos que regem os destinos da educação em Portugal, nomeadamente Valter Lemos,docente de uma escola superior de educação, ex-secretário de Estado da Educação, com um mestrado à la minute (“Master of Education, Boston University”), Ana Maria Bettencourt, professora de uma outra escola superior de educação, presidente do Conselho Nacional de Educação, e, “last but not least”, a actual ministra da Educação, Isabel Alçada, também ela detentora do mestrado de Boston, professora da Escola Superior de Educação de Lisboa. Mas devemos sobretudo chamar à pedra Ana Benavente que muito se esforçou, quando secretária de Estado da Educação, para que o magistério do 3.º ciclo do ensino básico recaísse, simultaneamente, sobre licenciados universitários e das Escolas Superiores de Educação.
Não admira, portanto, que os esforços de Nuno Crato, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, para libertar o ensino da Matemática (e outras matérias do ensino não superior) das teorias do "eduquês" tenham caído em saco roto. As Ciências da Educação emanadas das escolas superiores de educação, com uma representação em força de docentes seus nos últimos governos, não prenunciam nada de bom para um ensino em que a docência se centre no conhecimento científico das matérias a ensinar e, só depois, na arte de ensinar. Ensinar o que se sabe deficientemente mais do que simples “romantismo” constitui, para os cérebros juvenis, uma atitude criminosa.
E se, para Manuel Castro Almeida, "a pedagogia não está informada pela filosofia", não o está, também, pelo conhecimento científico. E se, como ele acrescenta, “há mais mundo do que imaginamos debaixo dos nossos pés”, esse mundo não tem estado ao alcance da pedagogia do facilitismo que tem enformado o nosso ensino.
Li algures que “viver é intervir e estar atento”. Ora parece-me que os responsáveis pelo destino do nosso sistema educativo se excedem nas intervenções mas falham em estarem atentos aos diagnósticos e às terapias que o possam libertar do seu estado de fraqueza mórbida. Os testes PISA fizeram um diagnóstico que diz isso mesmo. Faltam as terapias!
CERCADOS PELO FOGO
Informação recebida das Edições MinervaCoimbraNo dia 10 de Dezembro, pelas 17h00, no Auditório do Departamento de Engenharia Mecânica, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra será apresentado o livro Cercados pelo fogo - Parte 2, da autoria de Domingos Xavier Viegas. A apresentação será feita pelo Dr. Duarte Nuno Caldeira, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses.
Sobre o livro: Depois de publicado em 2004 um volume com este mesmo título, neste relatam-se e analisam-se acidentes ocorridos nos incêndios florestais que ocorreram em Portugal e Espanha no ano de 2005, causando várias mortes. Trata-se de um trabalho de investigação científica levado a cabo pelo autor e pela sua equipa, que visa melhorar a segurança pessoal de cidadãos comuns e dos próprios bombeiros. Assim, destina-se ao público em geral, constituindo uma leitura indispensável para todos aqueles que trabalham ou vivem junto da floresta e aqueles que estejam empenhados na defesa da Natureza e da Vida.
Sobre o autor: Licenciado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico e doutorado em Aerodinâmica pela Universidade de Coimbra em 1981. É, desde 1992, professor catedrático do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia desta universidade. Entre outras funções que exerce, é membro do Conselho Nacional de Educação e director do Laboratório de Estudos sobre Incêndios Florestais.
O nosso nível de literacia
Foi recentemente realizado um estudo sobre o nível de literacia na leitura dos portugueses.
Como se saberá, este tipo de literacia envolve competência para ler e compreender o que se lê, de modo a dar resposta a problemas concretos.
Tal estudo, realizado pela Data Angel Policy Research Incorporated e coordenado por Scott Murray, foi apresentado na passada semana na Fundação Calouste Gulbenkian, confirmando os dados a que chegou outros apurados em estudos anteriores: são graves as deficiências nas competências de literacia da nossa população.
Em concerto, e de modo muito sumário, este estudo evidenciou que em cada cinco sujeitos apenas um possui um nível médio de literacia. O que é o nível mais baixo do conjunto de países investigados.
Notas:
- O relatório do referido estudo, intitulado A dimensão económica da literacia em Portugal: uma análise, pode ser consultado aqui.
- A referência ao mesmo no Portal da Educação, pode ser consultada aqui.
- Uma notícia de jornal da autoria de Isabel Teixeira da Mota, pode ler-se aqui.
Como se saberá, este tipo de literacia envolve competência para ler e compreender o que se lê, de modo a dar resposta a problemas concretos.
Tal estudo, realizado pela Data Angel Policy Research Incorporated e coordenado por Scott Murray, foi apresentado na passada semana na Fundação Calouste Gulbenkian, confirmando os dados a que chegou outros apurados em estudos anteriores: são graves as deficiências nas competências de literacia da nossa população.
Em concerto, e de modo muito sumário, este estudo evidenciou que em cada cinco sujeitos apenas um possui um nível médio de literacia. O que é o nível mais baixo do conjunto de países investigados.
Notas:
- O relatório do referido estudo, intitulado A dimensão económica da literacia em Portugal: uma análise, pode ser consultado aqui.
- A referência ao mesmo no Portal da Educação, pode ser consultada aqui.
- Uma notícia de jornal da autoria de Isabel Teixeira da Mota, pode ler-se aqui.
sábado, 5 de dezembro de 2009
Aparição, há cinquenta anos
Texto de João Boavida quando faz cinquenta anos que o romance Aparição de Vergílio Ferreira foi dado à estampa.
Ainda ninguém se lembrou, que eu saiba, mas decorre este ano, 2009, o quinquagésimo aniversário da publicação do romance Aparição, de Vergílio Ferreira. Estamos todos fartos de comemorações, mas nestes tempos de publicações às toneladas é justo falar deste livro pelo grande impacto que teve: local e nacional, à esquerda e à direita.
O livro produziu, na Évora do final dos anos cinquenta, em que decorre a acção, algum burburinho, com o reconhecimento das pessoas que teriam inspirado as personagens, e inferências sobre realidade e ficção, o que foi e não foi, como foi e como terá sido. Mas o importante não estava aí. A sua grande influência foi na literatura portuguesa do século XX, porque veio abanar o mundo literário de então e os padrões dominantes. Sobretudo os de um realismo social – o neo-realismo – que entendia a literatura como forma de denúncia e combate das injustiças sociais e das formas de exploração pelo capital e pelo latifúndio, impondo uma arte ao serviço dessa luta e remetendo o estético e formal para uma segunda linha. O que acabava por influir nos cânones de apreciação com esquemas psico-afectivos, culturais e estéticos que dominavam os editores, os críticos e os leitores.

Vergílio Ferreira introduziu a problemática do Eu, na linha de Albert Camus, André Malraux, Jean-Paul Sartre, é certo, mas com uma preocupação estética que afirma como prioritária. Poderemos dizer que é nessa síntese da importância do formal com a temática humanista que assenta a importância da sua renovação e se encontra a explicação para as ondas de aceitação e de rejeição que o livro provocou.
Agora parece-nos simples, mas estas situações causam em geral polémica e controvérsia que só o tempo acalma. Vergílio Ferreira trouxe para a literatura o tema do homem, colocou o homem concreto, a evidência do sujeito com sua fragilidade e grandeza no centro das preocupações estéticas e dos temas importantes, segundo ele, acabando por criar novos cânones de produção e apreciação. É certo que seguia os existencialistas, como disse, mas estes respondiam com a angústia do homem concreto e sua afirmação à cegueira das ideologias que, em nome do Homem e da Humanidade em abstracto o tinham esquecido provocando, e continuando a provocar a sua destruição em quantidades assombrosas, e impensáveis depois do Iluminismo e do Racionalismo.
Ora, para uma certa ortodoxia política e cultural então dominante, que vivia e sofria a ditadura salazarista e sonhava derrubá-la, o livro era uma manifestação da ideologia burguesa decadente e servia os interesses da política instalada. Muitos outros, porém, perceberam a sua novidade e importância, separando as coisas. Daí as polémicas directas e indirectas que provocou. Para o realismo social a problemática do eu existencial, a angústia individual na base do eu como produtor de arte, era o sinal de uma alienação moral e social inaceitáveis, porque o eu era insignificante, não tinha significado, não devia ter face aos grandes e imparáveis movimentos de libertação dos povos. As problemáticas individuais só atrapalhavam e as preocupações estéticas em excesso confundiam escondendo o essencial.
Ao revalorizar o formal, afirmando o seu valor intrínseco Vergílio Ferreira demonstrou, mais uma vez, que o essencial da arte está na força que emana dos criadores e não nos cânones que de fora lhes querem impor, ou manter para além do que a própria arte manda. A qualidade de Aparição mostra que ele tinha razão. A arte deve impor-se por si e o estético – no sentido de perfeita harmonia entre a forma e o conteúdo - é o grande e único critério. O resto é lixo que o tempo varre.
Ainda ninguém se lembrou, que eu saiba, mas decorre este ano, 2009, o quinquagésimo aniversário da publicação do romance Aparição, de Vergílio Ferreira. Estamos todos fartos de comemorações, mas nestes tempos de publicações às toneladas é justo falar deste livro pelo grande impacto que teve: local e nacional, à esquerda e à direita.
O livro produziu, na Évora do final dos anos cinquenta, em que decorre a acção, algum burburinho, com o reconhecimento das pessoas que teriam inspirado as personagens, e inferências sobre realidade e ficção, o que foi e não foi, como foi e como terá sido. Mas o importante não estava aí. A sua grande influência foi na literatura portuguesa do século XX, porque veio abanar o mundo literário de então e os padrões dominantes. Sobretudo os de um realismo social – o neo-realismo – que entendia a literatura como forma de denúncia e combate das injustiças sociais e das formas de exploração pelo capital e pelo latifúndio, impondo uma arte ao serviço dessa luta e remetendo o estético e formal para uma segunda linha. O que acabava por influir nos cânones de apreciação com esquemas psico-afectivos, culturais e estéticos que dominavam os editores, os críticos e os leitores.

Vergílio Ferreira introduziu a problemática do Eu, na linha de Albert Camus, André Malraux, Jean-Paul Sartre, é certo, mas com uma preocupação estética que afirma como prioritária. Poderemos dizer que é nessa síntese da importância do formal com a temática humanista que assenta a importância da sua renovação e se encontra a explicação para as ondas de aceitação e de rejeição que o livro provocou.
Agora parece-nos simples, mas estas situações causam em geral polémica e controvérsia que só o tempo acalma. Vergílio Ferreira trouxe para a literatura o tema do homem, colocou o homem concreto, a evidência do sujeito com sua fragilidade e grandeza no centro das preocupações estéticas e dos temas importantes, segundo ele, acabando por criar novos cânones de produção e apreciação. É certo que seguia os existencialistas, como disse, mas estes respondiam com a angústia do homem concreto e sua afirmação à cegueira das ideologias que, em nome do Homem e da Humanidade em abstracto o tinham esquecido provocando, e continuando a provocar a sua destruição em quantidades assombrosas, e impensáveis depois do Iluminismo e do Racionalismo.
Ora, para uma certa ortodoxia política e cultural então dominante, que vivia e sofria a ditadura salazarista e sonhava derrubá-la, o livro era uma manifestação da ideologia burguesa decadente e servia os interesses da política instalada. Muitos outros, porém, perceberam a sua novidade e importância, separando as coisas. Daí as polémicas directas e indirectas que provocou. Para o realismo social a problemática do eu existencial, a angústia individual na base do eu como produtor de arte, era o sinal de uma alienação moral e social inaceitáveis, porque o eu era insignificante, não tinha significado, não devia ter face aos grandes e imparáveis movimentos de libertação dos povos. As problemáticas individuais só atrapalhavam e as preocupações estéticas em excesso confundiam escondendo o essencial.
Ao revalorizar o formal, afirmando o seu valor intrínseco Vergílio Ferreira demonstrou, mais uma vez, que o essencial da arte está na força que emana dos criadores e não nos cânones que de fora lhes querem impor, ou manter para além do que a própria arte manda. A qualidade de Aparição mostra que ele tinha razão. A arte deve impor-se por si e o estético – no sentido de perfeita harmonia entre a forma e o conteúdo - é o grande e único critério. O resto é lixo que o tempo varre.
João Boavida
UMA VISITA A BIRMINGHAM
Na continuação das minhas crónicas de viagem, desta vez conto a ida a uma grande cidade que é um destino turístico improvável mas, mesmo assim, muito interessante (na foto uma imagem do Thinktank, o Museu de Ciência de Birmingham):Birminghan, a maior cidade inglesa depois de Londres, fica no interior profundo da Inglaterra, no meio do meio (a região é mesmo chamada Midlands, literalmente “terras do meio”). O aeroporto internacional de Birmingham permite conexões à Europa Continental, evitando passar por Londres.
A Revolução Industrial começou aqui, dada a existência de abundantes recursos naturais como o carvão. Não admira por isso que a cidade tenha ganho uma reputação de “feia, porca e má”. É uma fama hoje tornada injusta: Birminghan empreendeu há muito num plano de remodelação urbana que lhe permite hoje apresentar-se limpa (até entrou para o “top-ten” das cidades mais limpas de Inglaterra!) e bonita (tem havido, por exemplo, um programa de plantação de árvores, que leva Birmingham a reclamar o lugar de cidade com mais árvores em todo o Reino Unido). Os canais, que alguns dizem serem mais do que em Veneza (para alguns Birmingham disputará com Brugges o título de “Veneza do Norte”, mas trata-se de um exagero, a encantadora Brugges não permite meças a esse nível), foram limpos.
O centro de Birmingham, em torno de estação ferroviária de New Street (que no tempo da Revolução Industrial foi uma das primeiras estações do mundo, uma vez que o comboio nasceu por essa altura e por estes lados), é uma zona de comércio. A própria estação está hoje embebida no meio de um centro comercial. Saindo da estação ao longo da New Street – uma rua pedonal frequentada por gente de muitas raças e cores, que dão à baixa um ar cosmopolita - na encontra-se um prédio de forma muita estranha, uma espécie de cogumelo gigante, com uma cobertura de escamas de alumínio – é o edifício dos Selfridges, que é um marco de um certo estilo de arquitectura dos anos setenta hoje reconhecidamente datado (entrando lá dentro, o ambiente não difere muito do de um bar da “Laranja Mecânica”, um dos primeiros filmes de Stanley Kubrick). O estilo contrasta fortemente com o da igreja neogótica próxima e com muitos outros edifícios em redor. Arquitectonicamente, Birmingham é uma cidade de contrastes: os estilos arquitectónicos aparecem salpicados e até as casas vitorianas, tão comuns noutras cidades inglesas (Londres, Manchester, etc.), se encontram aqui mas sem vizinhas com quem possam falar.
Tão contrastante como a arquitectura é o nível do comércio na “down-town”. Há de tudo e para todos. Como é próprio da baixa das grandes cidades compra-se e vende-se de tudo. Quem achar o comércio do bizarro Selfridges bom demais encontrará muito perto um armazém com tecto de chapa de zinco que, lá dentro, é uma autêntica Feira de Carcavelos.
Chove, chove sempre, por todo o lado. Os turistas podem, como é proverbial, refugiar-se da chuva nos museus ou nas igrejas: o Museu de Birmingham, bem perto da estação de New Street, alberga uma colecção de pré-rafaelistas e também alguns impressionistas e a Igreja principal, com o seu verde cemitério à volta, vale também uma visita não só para fugir da chuva mas para conhecer melhor a Church of England.
Mas o melhor museu, na opinião deste visitante, é o “Thinks Tank”, situado num grande e moderno edifício chamado Milennium, sempre a “walking distance” da estação. Trata-se de um museu de ciência que alberga desde uma interessantíssima colecção de máquinas históricas, no rés do chão, que nos faz mergulhar nas entranhas da Idade Industrial, em minas, fábricas de têxteis, oficinas, etc., até uma galeria interactiva, no cimo, que nos faz entrar directamente no futuro. Os temas aqui são, como não poderiam deixar de ser, as nanotecnologias, a biónica, a engenharia genética, os novos materiais, o aeroespacial, etc. Entre esses pisos encontra-se uma galeria para as crianças brincarem com a ciência. Destacam-se as actividades de medicina e biologia, ciências que estão progressivamente a ganhar lugar nos museus de ciência.
E o melhor do museu é, sem dúvida, o grande “hall” das máquinas, que faz lembrar o do “Science Museum” de Londres e que alberga desde máquinas a vapor gigantes, algumas das quais ainda funcionam, até uma locomotiva descomunal, que repousa cansada depois de durante muitos anos ter feito o serviço de Londres para Glasgow. As máquinas a vapor estão no sítio certo, pois foram elas que aqui proporcionaram a tal revolução industrial que transformou radicalmente a cidade.
O inventor da máquina a vapor – James Watt – que andou por estas paragens é adequadamente recordado no “Thinktank”. Não se pense que ele era um mecânico: ele era um cientista que integrou uma sociedade de cientistas livres pensadores, a “Lunar Society” que, no século XVIII, se juntava aqui todos os meses, ou melhor, todas as luas novas. E fica bem lembrar que um amigo de Watt foi o português, natural de Aveiro, João Jacinto Magalhães que, na altura, estava exilado em Inglaterra e que foi um grande intermediário de ideias e instrumentos científicos.
Um outro museu de Birmingham que vale a pena ver, encontra-se a um quarto de hora de New Street. É preciso tomar o comboio até à estação da Universidade. A Universidade de Birmingham é enorme e dispõe de um verdíssimo “campus”, onde não falta uma torre florentina (parecida com a torre do “campus” de Berkeley, em São Francisco, EUA) e um edifício ao estilo de palácio oriental onde está o gabinete do “chancellor” universitário. Pois no interior do campus encontra-se um edifício neo-clássico que alberga uma pequena mas notável colecção de arte, a “Barber Collection”. O edifício tem no rés-do-chão um auditório para espectáculos e no piso de cima as famosas colecções: há um quadro apenas de cada artista, mas tratam-se sempre de artistas famosos. Vem-nos à memória o nome de Gulbenkian e a semelhança torna-se mais notória quando ficamos a saber que Barber era um “wealthy man” que investiu a sua fortuna em obras de arte para depois a doar generosamente à universidade.
Outra visita que se pode fazer facilmente de comboio a partir da New Street de Birminghan é a Stratford upon Avon, a encantadora terra natal de Shakespeare. Paradoxalmente o berço da indústria não é longe do berço do maior bardo da literatura anglo-saxónica...
Ir a Inglaterra para a maioria dos portugueses é sinónimo de ir a Londres. Está bem que Londres vale não uma mas várias visitas, mas por que não ir, pelo menos uma vez, a Birmingham e às Midlands?
MUSEU DA CIÊNCIA FESTEJA HOJE 3 ANOS
Informação recebida do Museu da Ciência de Coimbra:
ANIVERSÁRIO COM VIAGEM MUSICAL AOS TEMPOS DE DARWIN
No dia em que celebra o 3.º aniversário, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) abre portas a crianças e adultos para uma tarde de demonstrações científicas que culminará ao som de Mozart, Haydn, Domingos Bomtempo e Schubert, pela voz da soprano Filipa Lã com pianoforte de Helena Marinho.
É um monumento único da arquitectura científica europeia e no dia 5 de Dezembro vai ser inundado pelos sons de Mozart, Haydn, Domingos Bomtempo e Schubert, num final de tarde onde a ciência e a música farão o público "viajar" à época de um dos maiores cientistas de todos os tempos: Charles Darwin. O Museu da Ciência da UC comemorará o 3.º aniversário com uma tarde de demonstrações científicas no Laboratorio Chimico que culminará com um recital de canto e pianoforte pela voz da soprano Filipa Lã e pela música de Helena Marinho. A entrada é livre.
"Foram anos de intenso trabalho de todos - equipa do museu e muitos colaboradores - que nos permitiu ir cimentando um projecto de divulgação da ciência e, simultaneamente, de preservação do património científico da Universidade de Coimbra", explica o director do Museu da Ciência da UC, Paulo Gama Mota.
Em dia de aniversário, todos poderão também visitar gratuitamente aquele que, em 2008, foi considerado o melhor museu da Europa em Ciência. Das 10 às 18 h, o Laboratorio Chimico abre assim as portas a todos aqueles que, consigo, queiram comemorar o final de um ano marcado pelo lançamento da 2.a fase de construção do Museu da Ciência da UC, que se estenderá em breve ao vizinho Colégio de Jesus, permitindo um acréscimo de 13 mil metros quadrados às actuais instalações.
O programa das comemorações prossegue às 17 h, com a intervenção, entre outros, do director do Museu da Ciência da UC, Paulo Gama Mota.
Às 17h30 arranca um espectáculo de novas demonstrações científicas que prometem deslumbrar.
Finalmente, às 19 horas, terá início o recital de canto e pianoforte, com Filipa Lã (canto) e Helena Marinho (pianoforte). Pelo primeiro laboratório universitário português, erigido no século XVIII, ecoarão então sons contemporâneos de Charles Darwin, entre composições de Mozart, Haydn, Domingos Bomtempo e Schubert.
Helena Marinho tem-se apresentado nas principais salas e festivais portugueses, e também nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Suécia e Noruega. Entre outros, protagonizou recitais e concertos de música no Museu Gulbenkian, Teatro S. Luís, ACARTE e CCB, Auditório Carlos Alberto, Teatro Helena Costa, Fundação Eng.º António de Almeida, Teatro São João, Teatro do Campo Alegre e na Casa da Música.
Dividida entre o canto e a investigação em Música, Filipa Lã realizou vários concertos de canto e piano em Inglaterra, Irlanda, Austrália e Espanha. Como investigadora apresentou o seu trabalho de investigação em várias conferências internacionais de renome sobre Voz, sendo-lhe atribuídos dois prémios de investigação “Jovens Investigadores”, atribuídos pela “Society for Education, Music and Psychology Research” (2005), em Portual, e pela “European Society for the Cognitive Sciences of Music”, (2007), na Estónia.
Um ano de sucessos
Depois de, em 2008, ter ganho o prémio Micheletti para o melhor museu de Ciência, Técnica e Indústria, o Museu da Ciência da UC voltou a ser reconhecido em 2009, desta vez com o Prémio ENOR de Arquitectura - Portugal. O galardão foi atribuído pela qualidade do projecto de reabilitação do Laboratorio Chimico, da autoria de João Mendes Ribeiro, Carlos Antunes e Desirée Pedro. Esta foi a primeira vez que o prémio ibérico distinguiu um projecto de reabilitação de um edifício.
Mas o 3.º ano do Museu da Ciência viu nascer outros projectos de sucesso. O Museu juntou-se, desde o primeiro momento, às celebrações do Ano Internacional da Astronomia 2009 (AIA2009), acolhendo a comissão organizadora nacional. De resto, é o autor do "projecto especial" ("special project") do AIA 2009 "The Sky: Yours to Discover" (em português "Descobre o Teu Céu), um concurso que pretende que crianças e famílias de todo o mundo redescubram o céu e criem novas constelações e as suas histórias.
Um dos pontos altos do terceiro aniversário do Museu da Ciência foi em Maio, quando acolheu, vinda directamente da NASA, uma pedra da Lua recolhida por James Irwin durante a missão Apollo 15 (26 de Julho a 7 de Agosto de 1971), considerada pela Agência Espacial Norte-Americana a missão tripulada mais bem sucedida de sempre.
Em 2009, o Museu juntou-se ainda às comemorações do bicentenário do nascimento de Charles Darwin e dos 150 anos do seu livro mais famoso, "A Origem das Espécies": lançou a exposição alusiva à vida e obra do naturalista "Darwin 150, 200" e trouxe a Coimbra alguns nomes de peso da Ciência em Portugal - como o biólogo Alexandre Quintanilha ou o paleontólogo Octávio Mateus - para revelarem ao público o impacto da Teoria da Evolução.
Mas não só de Ciência se fez o ano de 2009. O Museu aliou o rigor científico à arte, acolhendo a exposição "O Laboratório Invisível", um projecto do artista plástico austríaco Herwig Turk e do investigador Paulo Pereira que questiona a objectividade e os procedimentos científicos.
O Laboratorio Chimico foi ainda palco de encontros de Design e Arte e, com especialistas em Literatura, mergulhou com o público nas terras, gentes e céus retratados na obra de Luís de Camões, redescobrindo assim a Geografia, a Antropologia e a Astronomia por detrás da epopeia "Os Lusíadas". De resto, também o Teatro esteve em destaque no Museu da Ciência: em Setembro, a instituição juntou-se à comemoração da Noite Europeia dos Investigadores, com a exibição de três peças satíricas alusivas a temas científicos que contaram com a participação de alguns cientistas conhecidos do público.
5 de Dezembro
MÚSICA PARA CANTO & PIANOFORTE DO TEMPO DE DARWIN…
FILIPA LÃ, soprano
HELENA MARINHO, pianoforte
W. A. MOZART (1756-1791)
Ariette - Oiseaux, si tous les ans, K.307
Ariette - Dans un bois, K. 308
Abendempfindung an Laura, K. 523
An Chloe, K. 524
J. HAYDN (1732-1809)
Sailor’s Song
She Never Told Her Love
The Mermaid’s Song
INTERVALO
D. BOMTEMPO (1775-1842)
Fantasia Op. 6, sobre um tema de Paisiello
F. SCHUBERT (1797-1828)
Frühlingsglaube, Op. 20
Lied der Mignon, Op. 62
Die Forelle, Op. 32
MODINHAS E LUNDUS DOS SÉCULOS XVIII E XIX
Tranquiliza, doce amiga
Menina você que tem
Graças ao Ceos (lundum)
Tenho um bicho cá por dentro
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Os 'realistas'
Destacamos a opinião do médico J.L. Pio Abreu no "Destak" de hoje:
Desde há algum tempo que em Portugal apareceram uns espécimes de sucesso. Classificam-se a si próprios de realistas mas, na verdade, são uns pessimistas desbragados. Para eles, tudo vai mal e não há solução para este país. O seu sucesso pessoal vem da procura que têm na Comunicação Social, onde assinam colunas e programas. Literalmente, alimentam-se daquilo que escrevem ou dizem. Imagino que leiam ou oiçam as suas próprias opiniões e, tão deprimidos ficam, que a próxima sairá mais negra ainda.
Os realistas-pessimistas têm história. No passado estiveram perto do poder, com oportunidade de aplicar na prática as ideias que apregoavam. Resta saber se o conseguiram ou não, porque uma coisa é dizer, outra é fazer. Mas todos saíram de lá e nota-se que estão zangados. Chega-lhes agora o palco mediático e o convencimento de que alguém tome por boas as suas negras profecias.
Como a mudança é permanente e o futuro uma incógnita, os pessimistas até podem estar certos. Não pelas razões que aduzem nem com o fim que profetizam, pois cada um tem a sua opinião. Mas temos pela frente o aquecimento global, a superpopulação, a falta de água, os terramotos, o princípio da entropia e, evidentemente, o facto mais do que seguro de que todos nós haveremos de morrer.
Não faltam realidades para os argumentos pessimistas. De facto, as pessoas saudáveis são pouco realistas e preferem as suas ilusões. Mas são essas pequenas ou grandes ilusões que nos fazem viver e, com altos e baixos, alcançar o que antes parecia impossível.
J. L. Pio de Abreu
Desde há algum tempo que em Portugal apareceram uns espécimes de sucesso. Classificam-se a si próprios de realistas mas, na verdade, são uns pessimistas desbragados. Para eles, tudo vai mal e não há solução para este país. O seu sucesso pessoal vem da procura que têm na Comunicação Social, onde assinam colunas e programas. Literalmente, alimentam-se daquilo que escrevem ou dizem. Imagino que leiam ou oiçam as suas próprias opiniões e, tão deprimidos ficam, que a próxima sairá mais negra ainda.
Os realistas-pessimistas têm história. No passado estiveram perto do poder, com oportunidade de aplicar na prática as ideias que apregoavam. Resta saber se o conseguiram ou não, porque uma coisa é dizer, outra é fazer. Mas todos saíram de lá e nota-se que estão zangados. Chega-lhes agora o palco mediático e o convencimento de que alguém tome por boas as suas negras profecias.
Como a mudança é permanente e o futuro uma incógnita, os pessimistas até podem estar certos. Não pelas razões que aduzem nem com o fim que profetizam, pois cada um tem a sua opinião. Mas temos pela frente o aquecimento global, a superpopulação, a falta de água, os terramotos, o princípio da entropia e, evidentemente, o facto mais do que seguro de que todos nós haveremos de morrer.
Não faltam realidades para os argumentos pessimistas. De facto, as pessoas saudáveis são pouco realistas e preferem as suas ilusões. Mas são essas pequenas ou grandes ilusões que nos fazem viver e, com altos e baixos, alcançar o que antes parecia impossível.
J. L. Pio de Abreu
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