domingo, 19 de março de 2023

OS PODERES DO GATO E OS SEUS DIREITOS

Por Eugénio Lisboa

Na falta de tema, recorro ao gato. O gato é inesgotável e os outros temas disponíveis, no mercado, não são. Como é que os grandes poetas passaram a vida a esbanjar talento com temas de carregar pela boca, havendo o gato?! Isto só confirma uma suspeita que sempre tive: os grandes poetas serão grandes, mas não são inteligentes. Ainda bem: deixaram o gato para eu recorrer a ele, sempre que me não apeteça falar de coisas menores e áridas.

Depois dos Poderes do Gato, vieram os Direitos do Gato. E ainda a procissão vai no adro…

OS PODERES DO GATO

Os gatos olham-nos com uma atenção
que só mesmo os gatos conseguem ter:
olhar de cognição ou de paixão?
Olhamos e ficamos sem saber!

Tudo, no gato, é misterioso:
o que ele faz e também o que não faz!
É inteligente e ardiloso
e nada de que não seja capaz!

Quando o gato decide o que quer,
não adianta nada resistir-lhe: 
o gato acaba sempre por vencer, 

como se fôssemos nós a pedir-lhe!
Os gatos têm poderes ocultos,
que dominam vontades e tumultos!

Eugénio Lisboa 


OS  DIREITOS DO GATO 

Se a Declaração Universal
dos Direitos do Gato é pra valer,
isso quer dizer que em Portugal 
todo o gato tem muito a haver!

Ela garante comida e colo,
bom aquecimento e também cama
e tudo conforme o protocolo
que o gato impõe e proclama!

Com Declarações destas, não se brinca
e, desta, o gato nunca se esquece:
lê-a com atenção e logo vinca

o parágrafo que mais lhe apetece!
Direitos são direitos e o gato ganha,
em direitos, o campeonato!

Eugénio Lisboa 

A GENEROSIDADE DO GATO

Aos meus gatos todos, antigos e recentes. 

Nenhum animal foi tão caluniado
como o gato: que é egoísta,
que é arrogante e malcriado,
só falta dizer que é Maoísta!

Que é amado mas não sabe amar.
Que gosta de receber mas não dá!
Se o maçamos, manda-nos bugiar.
Que se julga oriundo de Bagdá!

Mas do que toda a gente se esquece
é de que o gato, como ninguém,
sem nunca pestanejar, nos oferece

sem “mas”, sem “se” e sempre sem “porém”,
a majestade e a esbelteza
da sua inconfundível beleza!

Eugénio Lisboa

Sim, queridos destinatários deste soneto, nunca se esqueçam do sumptuário cadeau royal que é um gato! É como possuir um Leonardo que nos tivesse sido oferecido e não comprado. Nunca se distraiam a não devidamente avaliarem o tesouro que não merecem!

Eu não posso olhar para ti

Eu não posso olhar para ti,

Sem que o coração seja o mesmo.

Até o sangue é outro

E parece quebrar o silêncio.

quarta-feira, 15 de março de 2023

O perdão maior está em dar a mão

O perdão maior está em dar a mão

Ao corpo que a pede e parte o rosto

Por não ter a mão nem ter o corpo

Que sofreu outrora com coração.

 

O perdão maior está em dar o pão

À boca que o pede de olho no corpo

Que lágrimas trouxe à boca e ao rosto

Por só para si querer todo o chão.

 

A justiça imane, o perdão maior,  

Está em perdoar quem foi injusto,

Num instante que seria de amor,

 

Em dar o coração, sem qualquer custo.

Do nosso corpo dar o astro melhor

Ao corpo que volta em sagrado lustro.

A história global da ciência em Portugal


 

Prefácio a Física de Partículas em Portugal (Origem e Desenvolvimento) (Gradiva)

 


Prefácio  (sem as notas)

A Génese da Física de Partículas em Portugal de Gustavo Castelo-Branco, Margarida Nesbitt Rebelo, João Varela

Nas últimas três a quatro décadas a ciência em Portugal cresceu muito. Hoje, é frequente lermos notícias sobre a ciência que fazemos. Não era assim há 35 anos. Praticamente não havia investigação científica nas Universidades e eram raros os doutoramentos feitos em Portugal. Alguns recém -licenciados conseguiram bolsas de investigação e realizaram o doutoramento no estrangeiro. Muitos regressaram e tiveram um papel pioneiro na modernização da ciência no país.

 Este livro incide sobre um campo específico da ciência e pretende descrever e ajudar a compreender a origem e desenvolvimento da Física de Partículas em Portugal. É um relato em forma de testemunho de acontecimentos e experiências vividas pelos autores. Simbolicamente, associamos a adesão de Portugal ao CERN em 1985 à génese da Física de Partículas no País. De forma a situar este evento no contexto internacional, consideremos a data da formulação do Modelo Padrão (em inglês Standard Model)  das Interacções Electromagnéticas, Fracas e Fortes como ponto de partida. Este modelo tem tido um enorme sucesso na descrição das partículas elementares e das suas interacções e ainda hoje constitui a base teórica neste domínio. Essencialmente o Modelo Padrão  acabou de ser construído por volta de 1967. A pergunta que se pode fazer é: o que se fazia em Portugal em Física de Partículas nessa altura? A resposta a esta pergunta é: muito pouco, quase nada.

 A Física de Partículas, cuja  origem reside na Física Nuclear,  é o ramo da ciência que estuda os componentes fundamentais da matéria. À medida que se foram conhecendo os constituintes elementares da matéria, a Física de Partículas constituiu -se como um domínio novo de investigação, distinto da Física Nuclear, da mesma forma que a Física Nuclear nasceu depois da Física Atómica. Pode considerar -se que a Física de Partículas como disciplina independente se iniciou com a descoberta do muão por Carl Anderson e Seth Neddermeyer em 1936 no âmbito dos estudos da radiação cósmica. O muão foi a primeira partícula descoberta sem relação com os constituintes do átomo. O ciclotrão fora inventado uns anos antes e as pesquisas em Física de Partículas passaram progressivamente a ser realizadas em aceleradores que permitiam colisões a energias consideradas elevadas. As experiências de Física de Partículas requerem energias mais elevadas que as de Física Nuclear para aceder a escalas mais pequenas. Por esta razão este domínio foi inicialmente denominado de Física de Altas Energias. É esse ainda actualmente o nome da Divisão da EPS (European Physical Society) que agrega os Físicos de Partículas: High Energy Physics (HEP). 

Para se compreender a ausência de desenvolvimento desta área fundamental da Física em Portugal nos anos 1960 e 1970, há que ter em conta que, em  três universidades portuguesas - a  Clássica de Lisboa, a  de Coimbra e a  do Porto - havia vários físicos  nucleares, mas a transição para a Física de Partículas nunca se tinha dado de modo significativo. Acima não referimos a Universidade Técnica porque o IST - Instituto Superior Técnico nesse tempo nem sequer tinha um Departamento de Física. Claro que o fraco desenvolvimento científico em Portugal contribuía para esta situação da Física de Partículas. No entanto, o país tivera várias oportunidades para se desenvolver. Por exemplo, durante o período da Segunda Guerra Mundial Portugal podia ter captado vários dos cientistas que tiveram de abandonar a Alemanha e outros países europeus para escaparem à barbárie nazi. Não só não captámos estes cientistas como perdemos alguns dos nossos melhores cientistas que tiveram de sair do país para escapar da ditadura salazarista.

 Do ponto de vista da Física Experimental de Partículas, a situação em Portugal era desoladora, sobretudo por Portugal não ter aderido ao CERN, o grande laboratório europeu de Física de Partículas, quando criado em 1954. Nesse ano, doze países europeus incluindo a Grécia, país com riqueza equivalente a Portugal, fundaram o CERN. O desenvolvimento da Física de Partículas em Portugal está muito ligado à adesão ao CERN cerca de 30 anos mais tarde. Portugal começou assim com um grande atraso em relação ao mundo, mas podemos orgulhar -nos de, hoje em dia, já no século XXI, Portugal estar plenamente inserido na comunidade internacional de Físicos de Partículas. Para que isso pudesse ter acontecido foi instrumental a adesão de Portugal ao CERN. Contudo, é notável o facto da International Conference on High Energy Physics da EPS em 1981 ter tido lugar. O Departamento de Física do IST foi criado em 1980. Até essa data havia apenas a secção de Física.  em Portugal  o que se deveu em grande parte ao regresso a Portugal de vários físicos que fizeram carreira no estrangeiro e à existência de vários jovens acabados de formar. Isto contrasta com o cenário nacional aquando da conferencia desta série que teve lugar em Viena em 1968. Nesta conferência não participou nenhum físico com afiliação numa universidade ou centro de investigação português Vê -se, porém, na lista de participantes quase 20 físicos que vieram a receber o Prémio Nobel em Física. 

O objectivo dos autores deste livro é por um lado o de descrever na primeira pessoa a nossa experiência do que tem sido fazer Física de Partículas em Portugal desde a sua génese e por outro lado contribuir com alguma informação rigorosa e documentada para uma futura história desta disciplina em Portugal. Este não é um livro de História da Ciência ainda que os autores tenham tido o cuidado de fornecer uma lista de referências tão detalhada quanto possível de todas as fontes usadas para os factos e as descrições históricas apresentadas. Grande parte da experiência profissional internacional dos autores desenvolveu -se na Europa em  estreita relação com o CERN. Por outro lado, a sua vida profissional em Portugal esteve ligada ao IST em Lisboa. Também é importante referir que os EUA -  Estados Unidos da América contribuíram para a formação científica de dois dos autores numa fase inicial e crucial das suas carreiras. A Universidade de Coimbra tem também uma história rica e com impacto na Física de Partículas feita em Portugal. Este facto não se reflecte neste livro simplesmente porque os autores não têm competência para o descrever. Esperamos que outros testemunhos venham preencher esta lacuna. 

Assim, neste livro contamos os detalhes deste desenvolvimento, incluindo a Física Experimental e a Física Teórica. Considerámos relevante incluir no livro as nossas experiências pessoais como alunos de doutoramento, como posdocs5 e depois como professores e investigadores na área da Física de Partículas. Claro está que estas apresentações têm inevitavelmente algo de subjectivo, mas procuramos dar uma visão tão correcta quanto possível da origem e desenvolvimento da Física de Partículas em Portugal.

NOVIDADES DA GRADIVA EM MARÇO

 

NOVIDADE




Uma edição publicada no âmbito das comemorações do Centenário do Nascimento de Eduardo 



Lourenço que decorrerão em 2023.

 

Eduardo Lourenço, Correspondência com Jorge de  Sena


«O que não hesito chamar amizade, ainda que apenas epistolar, destes dois camaradas de letras iniciou-se, creio, com o envio, por Jorge de Sena, do inquérito sobre André Gide que se destinava e foi publicado em Unicórnio, em Maio de 1951. Quando ou como se conheceram pessoalmente não sei exactamente, mas sei que se dedicaram amizade, respeito e admiração mútua por cerca de 28 anos. Para mim, Eduardo Lourenço começou por ser o ‘Faria’, ainda meu contemporâneo na Faculdade de Letras de Coimbra, finalista quando eu, tardiamente ‘caloira’, começava a minha via-sacra de aluna ‘voluntária’, enquanto ele se desenhava já como diferente dos demais.»

Mécia de Sena, «Acerca desta correspondência»

Já disponível: "O que é uma lei física", de Richard P. Feynman. De €14,00 por €12,60.

Uma série de fascinantes palestras de Richard Feynman sobre a Natureza e a Ciência, recolhidas ao vivo pela BBC em 1964.

 

Richard Feynman foi um dos professores de Física mais originais de sempre. Nesta série de conferências, que é intemporal, oferece-nos um panorama da Física, clássica e moderna, enfatizando o que as leis físicas têm em comum. Trata-se de uma descrição simples, clara e elegante, recolhida ao vivo em 1964 pela BBC, de um conjunto de palestras sobre o que é a Natureza e o que é a Ciência. Um livro fascinante e eterno, pelo brilho e pelo entusiasmo do autor. Inimitável: só Feynman, que além de professor de Física foi arrombador de cofres e músico no Carnaval do Rio de Janeiro, pode ser Feynman!

Para esta edição, o físico Carlos Fiolhais, autor do prefácio, reviu a sua tradução. Para ele, «Feynman deve ser conhecido pelas novas gerações, porque a sua inteligência continua hoje a iluminar-nos».

Destaques e Relançamentos
"O Significado de Tudo", de Richard P. Feynman.


O Significado de Tudo
Richard P. Feynman

 

€9,59 8,63


Em três conferências inesquecíveis, Feynman - o cientista e o cidadão - reflecte sobre a ciência e a sociedade, o conflito entre a ciência e a religião, sobre a guerra e a paz, o nosso fascínio universal pelos discos voadores, a fé nas curas milagrosas e na telepatia, as desconfianças do povo em relação aos políticos - sobre as grandes preocupações do cidadão-cientista moderno.
"O Prazer da Descoberta", de Richard P. Feynman.


O Prazer da Descoberta
Richard P. Feynman

 

€12,11 10,90


Das reflexões sobre o lugar da ciência na nossa cultura às descrições das propriedades fantásticas da física quântica ou ao discurso de aceitação do Prémio Nobel, este livro vai fascinar qualquer pessoa interessada em Feynman e no mundo das ideias. Quase todos os textos agora publicados são, pela primeira vez, tornados acessíveis ao grande público.
"QED - A estranha teoria da luz e da matéria", de Richard P. Feynman.


QED - A estranha teoria da luz e da matéria
Richard P. Feynman

 

€14,00 12,60


Richard P. Feynman, um dos físicos teóricos mais célebres do mundo, apresenta aqui a teoria da electrodinâmica quântica com a clareza, o rigor e a perfeição que tornaram famosas as suas conferências. Pressupondo que os leitores possuem poucas bases científicas, procura sempre ilustrar as interacções da luz com exemplos de fenómenos que todos podemos observar no quotidiano.
"Antero ou a Noite Intacta", de Eduardo Lourenço.


Antero ou a Noite Intacta
Eduardo Lourenço

 

€13,63 12,27


«Não há na nossa literatura, nem mesmo Camões, poeta tão naturalmente universal como Antero de Quental, dada a natureza ideal e intemporal da sua inspiração e o conflito que a alimenta, pura interpretação do espírito por si mesmo no meio de um mundo incompreensível. Nenhum objecto empírico, natural ou histórico, é, ao menos nos Sonetos, matéria determinante da sua poesia. Os Açores como qualquer outro. É como se estivesse só no Universo, ilha pura, sem qualquer arquipélago.»
"Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista", de Eduardo Lourenço.


Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista
Eduardo Lourenço

 

€13,63 12,27


«O neo-realismo de que nos ocupamos é, antes de tudo, um fenómeno cultural, ideológico e literário, português. Quer dizer, encontra-se inserto como actor e sujeito de drama num contexto preciso que é o da nossa específica história desde 1936 até aos dias de hoje. Este dado é mais relevante que a referência, mesmo a menos abstracta e eivada de ilusões, a uma superestrutura ideológica condicionante. Para os autores neo-realistas (e não só para eles) essa casa habitável nunca existiu nem pôde existir senão como sonho recusado ou mito encarnado algures, sobre o qual a sua pessoal experiência de portugueses não tinha apoio algum.»
"A Conspiração", de Will Eisner.


A Conspiração
Will Eisner

 

€14,64 13,18


Will Eisner, o grande mestre da banda desenhada americana, concluiu A Conspiração no seu último mês de vida, considerando-a a obra mais poderosa de toda a sua carreira. Profundamente perturbado pelo facto de os Protocolos dos Sábios de Sião - um alegado plano de domínio mundial escrito por líderes judeus - continuarem a ser publicados e distribuídos em todo o mundo, Eisner esperava que o seu relato gráfico desta injuriosa fraude pudesse alcançar uma audiência muito mais alargada do que a de qualquer obra académica sobre o assunto.

Nesta história extraordinária, Eisner leva o leitor numa viagem que tem início na Paris de finais do século XIX, onde um agente da polícia secreta russa plagia uma velha obra filosófica francesa, fabricando um documento com o qual se pretendia provar a existência de uma conspiração judaica contra a civilização cristã. Concebido como um esquema antissemita para desviar as atenções do regime repressivo do czar, o texto dos Protocolos foi inicialmente publicado na Rússia em 1905. E o sucesso da falsificação superou em larga medida as ambições propagandísticas dos seus criadores.
"História da Cultura em Portugal, vol. 1", de António José Saraiva.


História da Cultura em Portugal, vol. 1
António José Saraiva

 

€15,14 13,63


António José Saraiva foi professor e historiador de Literatura portuguesa. Publicou uma vastíssima e importante bibliografia, considerada uma referência nos domínios da História da Literatura e da História da Cultura portuguesas, amadurecida quer na edição de obras e no estudo de autores individualizados, quer através da publicação de livros de grande fôlego como a História da Cultura em Portugal (uma obra em quatro volumes) ou, em parceria com Óscar Lopes, a História da Literatura Portuguesa.

terça-feira, 14 de março de 2023

SONETO: MODO DE USAR

Use o soneto pra dizer amor.
Use o soneto para odiar.
Use-o também para cozinhar.
Use-o para abanar o torpor.

E também serve para limpar nódoa,
quando ela tomba no nosso pano
e ali causa não pequeno dano:
o soneto, serve, então, de antinódoa!

O soneto presta-se a ir à guerra, 
pra esborrachar as ventas ao tirano
e afocinhá-lo, com força, na terra!

Quando o tirano se põe ufano,
então o soneto caga-lhe em cima,
com gosto e porreiríssima rima!

Eugénio Lisboa

PENSAMENTO DO DIA (AVISO POR CAUSA DAS COISAS)

A tirania está sempre melhor organizada do que a liberdade.
Charles Péguy 

Enquanto passamos o nosso tempo a fruir descontraidamente esse tesouro que é a liberdade, o candidato a tirano vai semeando a desordem e o barulho, armando-se e organizando-se até aos dentes, PARA PODER INTERVIR E SALVAR O PAÍS DO CAOS QUE SEMEOU. 

A liberdade deve organizar-se melhor que o tirano, para poder batê-lo no próprio terreno.

A liberdade deve andar à frente do tirano. 

NÃO DEVE DEIXÁ-LO TORNAR-SE INDISPENSÁVEL OU MESMO INEVITÁVEL. 

O tirano não é particularmente inteligente, mas é muito manhoso. Saibamos derrotá-lo também nesse terreno. 

Não deixemos que a tirania se instale, para só então lutarmos contra ela. Nessa altura ela estará armada e a liberdade desarmada.

Como recomendava Chesterton, não devemos gritar, só quando já estamos feridos, devemos fazê-lo antes, para fugirmos à possibilidade da ferida. 

Ataquemos, com vigor, os candidatos a tiranos, para não termos de lutar contra eles quando já forem poder.

Que eles saibam que somos um exército bem preparado e bem armado e que lhes conhecemos os pontos fracos – que são muitos e estão bem à vista. 

A tirania não tem obrigatoriamente de triunfar: podemos atrapalhá-la e destruí-la no ovo.

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 13 de março de 2023

domingo, 12 de março de 2023

A MINHA PROFESSORA DE FILOSOFIA

À memória de Maria Luísa Soares, 
minha inesquecível professora de Filosofia. 

A minha professora de Filosofia,
carinhosamente chamada “a mamba”,
nada tinha de cobra que assobia,
mas, como ela semeava, caramba!

Inteligente, culta e sedutora,
sabia ensinar e inspirar:
ensinando, ensinava a doutora
o saber e a arte de pensar!

Fazia-nos ler, além do manual,
textos excitantes de pensadores,
que nos lançavam em voo astral.

Cheia de alegria e de pudores,
abria-nos portas insuspeitadas
para riquezas nunca antes visitadas! 

Eugénio Lisboa

sábado, 11 de março de 2023

PENSAMENTO DO DIA

O IDEAL CRISTÃO NUNCA FOI TESTADO E REPROVADO. 
FOI CONSIDERADO DIFÍCIL E NUNCA FOI EXPERIMENTADO. 
G. K. Chesterton, 
escritor católico 

Seria uma ideia refrescante, ao fim de dois mil anos, a Igreja Católica experimentar seguir o guião do Cristianismo. Seria uma boa e grande surpresa, para padres, bispos, cardeais e Papas. 

Teríamos uma Igreja Católica muito diferente desta que temos. Mas seria provavelmente necessário fechar o Vaticano. Alguns perderiam empregos sumptuários, mas, em vez de "empregos", teriam missões a cumprir. Ficariam menos ricos, exteriormente, mas infinitamente mais ricos, interiormente. E a Igreja Católica deixaria de ser o ANTI-CRISTO que tem sido.

A pompa seria substituída pela mais severa humildade franciscana. As belas palavras do Sermão da Montanha deixariam de ser retórica vazia. Um bispo ou um cardeal deixariam de existir, assim deixando de ser uma afronta a tudo quanto Cristo viveu e pregou. 

Cristo crucificado, dentro da majestade de pedra de uma catedral é uma infame contradição.

Eugénio Lisboa

sexta-feira, 10 de março de 2023

O COMEÇO DA AVENTURA

À memória do Sr. Cruz, 
homem bom como o pão, 
e rei do Infulene! 

Correr pelo mato, no Infulene,
descobrir o cheiro da liberdade,
o negro da pele, fresco e perene,
os desejos à solta, em tempestade,

a fúria de viver e de comer,
um mundo sem limites, a abrir,
afastar, com destreza, o sofrer,
a certa glória, futura, a sorrir!

As leituras boas e clandestinas, 
o cinema às dezassete e cinco,
no Scala, que se lixem as rotinas!

O gostoso aprender, com afinco,
sentirmo-nos crescer em sítio vasto,
onde tudo é bom, saboroso e fasto! 

Eugénio Lisboa

João Luís Barreto Guimarães, em Coimbra, 11 de Março,, 16 h

 João Luís Barreto Guimarães, o mais recente premiado Pessoa, estará amanhã, sábado, 11 de Março, pelas 16h,  em Coimbra, na Livraria Almedina Estádio, para assinar o seu último livro «Aberto todos os dias» (Quetzal). A obra será apresentada por Carlos Fiolhais.


quinta-feira, 9 de março de 2023

quarta-feira, 8 de março de 2023

A ERA DOS “SENSITIVE READERS”

Por Eugénio Lisboa

Quando George Orwell cunhou, para a posteridade, a NEWSPEAK (NOVILÍNGUA), criada pelo Ministério da Verdade, para esconder as coisas mais horríveis, sob o casto manto das palavras bem escolhidas, pensava que essas picardias eram só próprias dos regimes totalitários. As maiores ignomínias eram descritas num estilo altamente purificador, que lhes dava um ar de inocente formulação erudita. O horror era desinfectado pela filologia ao seu serviço. 

A verdade, porém, é que Orwell se enganou. O Newspeak está agora em vigor nas democracias e invade o mundo editorial, com a emergência dos “sensitive readers”, que acabam de descobrir um novo nicho de emprego. Estes leitores, mais do que provavelmente, grosseiramente iletrados, como é sempre o caso dos censores, passam a funcionar junto dos editores, com o fim benévolo de catarem, em Homero, Virgílio, Camões, Garrett. Camilo, Eça, Régio ou Pessoa, ou Faulkner ou Lawrence ou Proust ou Garcia Marquez, qualquer palavra mais grosseira ou menos conveniente.

Mas aquilo que eles são, isto é, CENSORES, é, por sua vez, censurado e eles passam a ser apenas LEITORES SENSÍVEIS. Dá-se assim aos assassinos da cultura, perdão, aos vigilantes da cultura, o poder egrégio de corrigirem os deslizes indesculpáveis dos grandes criadores de cultura. Tudo a bem da protecção de sensibilidades mais finas e subtis de leitores a quem incomodam muito palavras obscenas como “descobrimentos”, “gordo”, “feio” , “coxo”, “cego”, etc.

De facto, seria imperdoável permitir-se que gente de pele tão fina se magoasse, ao encontro de tais palavrões. É mais uma das muitas invenções estapafúrdias que as universidades americanas, com grande alarido, exportam regularmente, para um mundo gulosamente desejoso de se pôr à la page com a sabedoria do Tio Sam.

Nós, cá em Portugal, costumávamos ser os últimos a consumir as pérolas de sabedoria que atravessavam o Atlântico, mas as coisas andam a mudar. Tornámo-nos mais atentos, mais depressa modernaços, passámos a consumir mais fluentemente expressões como “sair do armário” & outras, que gostamos de manipular a torto e a direito, para não parecermos demasiado antiquados.

Por mim, faço sinceros votos por que, pelo menos, um ou outro editor mais destemido, da nossa praça lusíada, consiga resistir a esta imensa maré de imbecilização, que nos chega, impetuosa, da pátria de Sherwood Anderson. 

O Novo mundo deve ter coisa melhor a oferecer-nos: não precisamos de ter orgasmos com este lixo. 

Eugénio Lisboa

domingo, 5 de março de 2023

UM JOSÉ CRAVEIRINHA CENTENÁRIO BREVE TESTEMUNHO

Por Eugénio Lisboa

Assinalar – celebrar – o centenário de José Craveirinha tem, para mim, um sabor agridoce. Como fomos contemporâneos, conterrâneos, amigos, assíduos conviventes de um saboroso convívio e opositores a um mesmo regime, que ambos detestávamos, falar num José Craveirinha centenário torna-me, a mim, bastante antigo (roubo este “antigo”, em vez de idoso, ao Rui Knopfli). 

José Craveirinha foi, em grande parte da sua poesia, um poeta da indignação e da luta. Com uma vigorosa e bem apetrechada eloquência, ele soube encolerizar admiravelmente o seu discurso poético, fazendo dele uma coisa que muita poesia comprometida não conseguiu fazer: uma síntese bem fundida de vituperação e arte poética, que lhe dá singular poder. 

Não basta estar indignado, para ser um grande poeta da indignação e da imprecação. Muito menos, de uma comovida mobilização, em grande estilo. Para isso, é preciso ser poeta, isto é, dominar a linguagem poética e os recursos da sua retórica. Há grandes poetas indignados, como foi, por exemplo, Pablo Neruda, que foi também grande poeta, na secção não indignada do seu lirismo. E há também gente justamente indignada que faz má poesia da indignação.

O escritor inglês, George Orwell, pediu emprestado ao seu paradoxal contemporâneo, G. K. Chesterton, uma expressão rica de significado, referindo-se aos “good bad books” (bons livros maus), ou seja, livros que, por diversas razões, são importantes e duradouros, embora, como objectos literários, sejam mais ou menos descartáveis. 

Um exemplo, entre muitos que poderia dar, é o do célebre A CABANA DO PAI TOMÁS. Este romance, sobre a escravatura nos Estados Unidos da América, publicado em 1852, da autoria da escritora Harriet Beecher Stowe, foi um dos grandes mobilizadores que levaram à guerra civil que, entre outras coisas, terminou com a escravatura, naquele país. Foi, portanto, um livro importante, um livro “bom”, mas ninguém ousaria classificá-lo como uma obra-prima da literatura americana. A CABANA DO PAI TOMÁS é, pois, aquilo que Chesterton cunhou como um “good bad book”. Eu preferiria chamar-lhe um “importante mau livro”. 

Trata-se de livros despretensiosos, literariamente, mas úteis, ao longo de um período bastante alargado. Deste tipo de obras, diz Orwell, sucintamente: “a espécie de livros que não tem pretensões literárias, mas que permanece legível, quando outras produções mais sérias perecem.” 

A este grupo de livros, não pertencem só livros de combate e indignação política. Orwell cita como exemplos, os livros com o protagonista Sherlock Holmes ou o ladrão de casaca Raffles. Poderíamos juntar-lhes os livros de Emílio Salgari, de Júlio Verne ou, na poesia, Castro Alves, bem menor, como poeta, do que outros grandes nomes da poesia brasileira. Nomes muito badalados do neorrealismo português foram “importantes” mas não necessariamente grandes poetas ou ficcionistas.

Mas o caso que eu hoje gostaria de pôr em paralelo com José Craveirinha é o do seu homólogo Agostinho Neto. Foram ambos lutadores pela independência dos seus respectivos países, Moçambique e Angola. E ambos utilizaram, como arma mobilizadora de luta, a poesia. Mas uma diferença fundamental os separa: SAGRADA ESPERANÇA, de Neto é um “good bad book”, ao passo que a poesia de José Craveirinha é um “good good book”. Craveirinha usa de uma sábia e extremamente eloquente arte poética, para veicular a indignação que o consome, ao passo que a oficina poética de Neto é indigente ou mesmo inexistente.

Pode haver, nisto tudo, alguma inevitável injustiça, mas a injustiça faz parte do nosso mundo. Orwell vai até ao ponto de dizer que A CABANA DO PAI TOMÁS tem grandes possibilidades de sobreviver às literariamente aclamadas obras de uma Virginia Woolf ou de um George Moore. Às vezes, o excesso de excelência pode ser mais mortífero do que a falta dela, se houver outros factores de apelo. 

Duvido que alguns excelentes escritores angolanos do nosso tempo tenham vida garantidamente mais longa do que Agostinho Neto, o qual, na minha opinião, é, como poeta, uma figura insignificante. José Craveirinha apostou, por via do seu talento, nos dois tabuleiros: o da luta, que é sempre apelativa, e o da arte poética, o do grande domínio da palavra sonora – talvez bebida em Junqueiro e Hugo –, o domínio do “som” (parafraseando Valéry), em suma, o de uma oficina bem apetrechada. 

Dito o que, termino este breve testemunho com esta proposta um tanto subversiva: tudo visto, tendo lido e relido a poesia deste meu Amigo, creio, hoje, que, de um ponto de vista propriamente poético, o Craveirinha lírico do seu admirável MARIA, obra de final de vida (1998), é o que de melhor, mais depurado e mais belo ele nos deixou.

Eugénio Lisboa

sábado, 4 de março de 2023

GOSTAR DE SER GATO

Dedico este soneto a todos os meus gatos e seus amigos,vivos e mortos
(recebi reclamações tanto do Aquém como do Além): 
Generala, Jim, Jules, Secotine, Ísis, Gueixa, Bowie, Matilde, Lua e Lindo. 

Ser um gato de quem gosta de gatos
seria, para mim, um grande gosto:
eu nem precisaria de caçar ratos,
porque, antes e depois do sol posto,

tinha papinha boa e à farta!
Ser gato é o supremo desejo
de quem não gosta da vida em Esparta,
onde se regateia até um beijo!

Ser gato é a arte de não fazer
nada, mas, mesmissimamente, nada
e programar, com cuidado, o prazer!

O gato dorme bem numa bancada,
mas prefere, de longe, cama fofa
ou uma bem aquecidinha alcofa!

Eugénio Lisboa

Contestações a mais ou soluções a menos?

Por Cátia Delgado

As sucessivas greves dos professores têm abarcado diversas fações, enleados que estão estes profissionais em diversas reivindicações, sobressaindo, sobretudo, a recuperação do tempo de serviço que lhes é devido e o aumento dos salários para fazer face ao aumento do custo de vida.

Pese embora as questões (legítimas) que estão em cima da mesa, gostaria de elencar duas, por vezes esquecidas, e que me parecem primordiais para alcançar uma Escola Pública de qualidade

A primeira prende-se com a sucessiva acumulação de funções da escola (e consequentemente dos professores) que, à partida, não lhe pertenciam, mas que, por comodismo e falta de competência das instituições estatais, para ela transitaram, como sejam a resposta às carências sociais de famílias desfavorecidas, dependendo, por exemplo, das refeições ali oferecidas, a guarda de crianças, antes e após o horário letivo, porque não existe uma política social que apoie os pais de crianças e jovens, para que os possam acompanhar devidamente, deixando também essa função para os agentes escolares. Ou seja, assistimos à transformação da escola num departamento da “segurança social”.

A segunda, resultante da primeira, tem que ver com a distorção do papel dos professores, à partida, intelectuais. Com o objetivo último de ensinar, esperar-se-ia que estes profissionais pudessem, com as devidas condições temporais e mentais, dedicar-se à planificação da sua ação, tendo em vista uma verdadeira e profunda transformação dos seus alunos, não que se limitassem a assegurar que demonstrem competências para replicar no dia a dia e, mais tarde, no mercado de trabalho. Tal sucede devido ao excesso de funções que acumulam e os desviam do seu verdadeiro propósito, cingindo-se à réplica de orientações e normas definidas por agentes externos à escola e, por isso, desprovidos do conhecimento da realidade. 

Estes professores “técnicos” contribuirão para gerações culturalmente iletradas, que pouco contribuirão para a evolução do país (e do mundo). Mas, talvez seja esse o objetivo, já que, tendencialmente, interessa que Portugal seja um bom “servidor da Europa”, como podemos ouvir na entrevista que António Carlos Cortez e Elsa Estrela deram à SIC Notícias e que vale a pena ver, ouvir e refletir.

sexta-feira, 3 de março de 2023

Em defesa da Escola Pública:

 Recebido dos professores da  Escola Secundária de Rio Maior :

Como professores da Escola Secundária de Rio Maior e tendo participado com dezenas de colegas do município, em momentos de reflexão e de reivindicação, dirigimos-lhe esta missiva na firme esperança de o sensibilizar para o gravíssimo problema que enferma o setor educativo do nosso país.

Há intermináveis anos, sim, parece não terem fim, que os professores se queixam de que o estado da Educação está calamitoso e disruptivo, que se encontram exaustos e que, no que concerne aos governantes, se têm sentido menosprezados pela ausência de interesse e de vontade em resolver os gravíssimos problemas que a Escola Pública atravessa, desde há longa data. 

Os professores sentem que o Governo, perante o estado de esgotamento de uma classe, limita-se a burocratizar cada vez mais as escolas e, de uma maneira ofensiva para com as reivindicações dos docentes, apenas tem palavras de intimidação e de privação do seu direito à greve e à manifestação pública do seu descontentamento. A forma particularmente infeliz como a tutela tem gerido esta crise na Educação, espelha a falta de valores, de cultura e de espírito de cidadania que atrofiam a nossa sociedade.

Se os problemas na Educação estão longe de ser um exclusivo português, a forma como são solucionados, digo, ignorados, mostra muito sobre o povo que somos.

Senão, vejamos:

-no presente ano, a vizinha Espanha optou por uma grande reforma orgânica na Educação com a valorização dos seus profissionais;

- a falta de professores, em França, mereceu uma intervenção direta do presidente Macron, que começou por garantir que nenhum professor poderia ganhar menos de 2.000€ e, para atrair jovens para a profissão, melhorou consideravelmente as condições de trabalho da classe docente;

- nos EUA, confrontados com a falta de 100 mil professores, a presidência atribuiu extraordinariamente 9 mil milhões de dólares, apenas para a contratação de mais professores;

- a Finlândia reservou 10 mil milhões de euros para a Educação e 2 mil milhões para atrair mais jovens para a profissão

- a propósito do “equilíbrio das nossas contas públicas", Fernando Medina, em entrevista à TVI, disse recentemente: "O país não tem só professores”. Fernando Medina tem razão. O país não tem só os professores. Tem o escândalo da TAP (3.200 milhões) para pagar, os desmandos dos bancos (22.049 milhões, segundo números recentes do Tribunal de Contas) para amortizar, a Jornada Mundial da Juventude (80 milhões) para organizar, a Brisa (140 milhões) para compensar, a Ucrânia (250 milhões) para ajudar, mais, entre tantas outras “liberalidades”, os politicamente muito convenientes aumentos dos magistrados e juízes, de 2019, e as milionárias e imorais indemnizações de agora e do futuro, para continuar a “honrar”.

Em Portugal, com um investimento na Educação que, em comparação com outros países, envergonha o nosso país, para combater a falta de atratividade da profissão, mantém-se um vencimento de início de carreira pouco superior ao salário mínimo, que é o mesmo que dizer a um jovem esperançoso na profissão escolhida por opção e vocação: Se queres ser professor, pega nas tuas malas e arranja um carro, mete-te à estrada, paga as contas de combustível e de alojamento e desenrasca-te (perdoe-nos o simplismo da expressão).

Depois de uma sucessiva perda do poder de compra, desde 2010, o Estado para a compensar e fazer face a uma inflação exorbitante, que atingiu os 7,9% no ano passado, limitou-se a dar aos professores um aumento miserável, pouco além dos 2%, degradando ainda mais a sua condição salarial.

Já em 2006, quando Maria de Lurdes Rodrigues, orgulhosamente, afirmou "ter perdido os professores, mas ganho a população e os pais", na mesma altura, o presidente francês fazia um comunicado à nação, agradecendo publicamente aos professores o seu contributo pelo progresso que o país tinha alcançado.

Perante esta realidade, perguntamos o que será preciso para se compreender, de uma vez por todas, os motivos de indignação dos professores?

Constituirá algum mistério o facto de o país estar constantemente a ser ultrapassado por outros nos rankings internacionais de desenvolvimento?

Por conseguinte, em rigor, quando o pensamento político para a Educação não vai além de uma legislatura, incapaz de pensar a Educação a médio e longo prazo e de contar com a colaboração dos professores – vistos sempre como uma despesa e como adversários a reprimir – o sistema de ensino no nosso país só pode piorar.

A todo este desprezo, soma-se a passividade de uma sociedade que, após dois meses de um visível sentimento de revolta dos professores, que se têm esforçado por denunciar o estado calamitoso em que se encontra a Escola Pública, ainda não foi capaz de exigir que se faça um debate público alargado acerca dos graves problemas da Educação em Portugal, onde se inclui a preocupante falta de professores e o futuro do país. 

Aos detratores dos professores, destes que estiveram abnegadamente com os alunos e com os pais no momento completamente avassalador, que há bem pouco tempo vivemos, àqueles interessa-lhes, apenas, ter uma escola de portas abertas (vulgus, armazém), mesmo sem condições, vocacionada somente para tomar conta dos mais desfavorecidos, acabando esta situação por denunciar a mentalidade limitada, que tomou conta de toda uma sociedade que não luta pelos seus merecidos direitos a serviços públicos de qualidade. 

Unidos em Defesa da ESCOLA PÚBLICA

1) A luta dos professores e técnicos superiores da Escola é uma luta genuína, com foco em valores como a justiça, o respeito, a valorização e a dignidade, e sem qualquer interesse sindical ou político.

2)A educação é a base de uma sociedade desenvolvida e a maior promotora de mobilidade social. Uma sociedade que não investe significativamente na educação e no conhecimento compromete o seu futuro.

3) os "professores são os pedreiros do mundo", pois estão na base da conceção da sociedade e de algo fundamental numa sociedade desenvolvida, o "Elevador Social".

4) É urgente o combate à precariedade e instabilidade de alguns professores e técnicos superiores, sistematicamente contratados e deslocados, votados a um baixo rendimento devido aos encargos financeiros acrescidos e não vislumbrando uma merecida estabilidade nas suas vidas.

5) É urgente reduzir o trabalho burocrático, a sobrecarga de trabalho que pouco ou nenhum benefício traz para o processo educativo e que limita o tempo disponível para apostar na qualidade, inovação e humanização da Escola, assim como o tempo pessoal/relacional dos seus profissionais.

6) É urgente um novo modelo de avaliação de desempenho que não defina quotas, que não estrangule e bloqueie a progressão na carreira.

7) É urgente a recuperação do tempo de serviço retirado aos professores (6 anos + 6 meses + 23 dias), ainda que faseada.

8) É urgente a atribuição de remunerações dignas aos profissionais da educação, alinhadas com o seu investimento formativo e as suas responsabilidades.

9) É urgente combater o facilitismo que tem sido introduzido pelos sucessivos governos no sistema educativo, tal como a perda de autoridade dos profissionais de educação.

10) É urgente tornar a profissão de professor uma PROFISSÃO NOBRE, prestigiada e mais atrativa, tanto para os que já a exercem como para os jovens, caso contrário, muitos docentes continuarão a optar por sair do ensino e poucos jovens estarão interessados na carreira de professor, pelo que, tendo em perspetiva o número de aposentações num futuro próximo, não haverá professores suficientes para as necessidades do país.

11) A persistente desvalorização dos profissionais da educação na sociedade portuguesa e a contínua degradação do quotidiano da escola pública têm conduzido a uma crescente insatisfação profissional, tornando-se estes profissionais uma das classes que acusa um maior desgaste e exaustão e apresentando, muitos deles, problemas de saúde mental que importa mitigar e, sobretudo, prevenir.

Por uma ESCOLA PÚBLICA de QUALIDADE

quarta-feira, 1 de março de 2023

POR QUE ESCREVEM OS ESCRITORES? RESPOSTAS PERIGOSAMENTE REVELADORAS

Por Eugénio Lisboa

É bem verdade que a indiscrição não está muitas vezes nas perguntas, mas sim nas respostas. Porque mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. E, quase tão depressa como se apanha um mentiroso, apanha-se um pretensioso trapalhão.

O meio literário está cheio de gente desta, que muito polui a atmosfera que todos respiramos. Candura, coragem, simplicidade e o gosto do “franc parler” é o que menos se vê. 

Ler entrevistas feitas a escritores é quase sempre um dever penoso. Quando se pergunta a escritores de que ambiente precisam para arrancarem com a escrita, as respostas oscilam frequentemente entre o cómico e o patético. Uns precisam de sol, outros de chuva, outros, ainda, de nevoeiro. Alguns, que precisam fervorosamente de chuva, se não chove, usam um regador que faça chuva artificial. Quando se usava caneta, havia escritor que só funcionava com uma caneta especial. Alguns só operam se as secretárias em que escrevem estiverem voltadas a nascente, outros, se estiverem para poente.

A grande romancista americana Willa Cather precisava, para aquecer o motor da escrita, de ler uma passagem da Bíblia. Stendhal, em vez da Bíblia, usava o Código Civil, para o mesmo efeito. Hemingway aquecia o motor, aparando meia dúzia de lápis, Virginia Woolf, só escrevendo de pé e Edgar Poe, não conseguia escrever um poema sem um gato siamês em cima do ombro. Há para todos os gostos, o que é preciso é ser interessante e sugerir, sibilinamente (ou acreditar nisso, o que é pior), que o escritor em causa é accionado por poderes misteriosos.

A excepção a esta regra deprimente foi, por acaso, uma enorme escritora do século XX, a grande Colette, que a essa peculiar pergunta, respondeu que, para escrever, só necessitava de uma caneta, tinta e papel. Colette era só uma prodigiosa escritora e não precisava de posar de vestal oracular. Porém, no melhor pano, cai a nódoa. 

Mas o propósito que aqui me traz é outro: não sondar de que motor de arranque precisa o escritor para começar a escrever, mas antes a razão por que escreve. Nas respostas que grandes e menos grandes escritores têm dado a esta pergunta, também há de tudo. Desde as coisas mais grandiloquentes até às confissões mais cândidas e nuas.

Fernando Pessoa, por exemplo, não fazia a coisa por menos disto: “Eu escrevo para salvar a alma.” Clarice Lispector escrevia igualmente por razões egrégias: “Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.” Gabriel Garcia Marques tinha também altas ambições, embora fossem ambições não propriamente literárias: “Para que meus amigos me amem mais.” Tratava-se, em suma, não de amar, mas de ser amado. George Orwell, movido por razões nobres, era contido e modesto: “Quando me sento para escrever um livro, não digo a mim mesmo: ‘Vou produzir uma obra de arte’. Escrevo porque existe uma mentira que desejo expor, um facto para o qual quero chamar a atenção e a minha preocupação principal é atingir um público.” O grande jornalista, cronista e ficcionista brasileiro, Fernando Sabino, é a despretensão em pessoa: “Não sei por que escrevo. Eu nasci, virei homem e vou morrer.” O grande Carlos Drummond de Andrade, tenta, com modéstia e um uso cauteloso do “talvez”, dizer alguma coisa sobre por que escreve: “Sou uma pessoa que gosta de escrever, que conseguiu talvez exprimir algumas de suas inquietações, seus problemas íntimos, que os projectou no papel (…)”. João Cabral de Melo Neto, o engenheiro, ensaia, com modéstia e exemplar fuga ao pretensiosamente transcendente, sondar a razão de ser do seu ofício de grande poeta: “Eu sinto que me falta alguma coisa. Então, escrever é uma maneira que eu tenho de me completar. Sou como aquele sujeito que não tem perna e que usa uma perna de pau, uma muleta. A poesia preenche um vazio existencial. Às vezes eu escrevo porque quero dizer determinada coisa que eu acho que não foi dita; às vezes porque me interessa que conheçam meu ponto de vista. Às vezes, escrevo também por prazer.” Manuel Bandeira diz, sucintamente, uma coisa que também sinto: “Na verdade, faço versos porque não sei fazer música…” Truman Capote é desavergonhadamente radical: “Sou um estilista: preocupa-me mais onde colocar uma vírgula do que ganhar o Prémio Nobel.” O grande William Faulkner, escafandrista de infernos americanos e universais, não está com papas na língua e, à pergunta “por que escreve” responde curto e limpo: “Para ganhar a vida.” Mas o melhor de todos é Umberto Eco, com o seu lavado “Porque gosto.”

Mas não quero terminar esta breve excursão pelas declaradas motivações desse bicho estranho que é o escritor, sem aqui traduzir, para vosso entretenimento, esta deliciosa passagem do prefácio que Robert J.Burdette escreveu para o seu livro THE RISE AND FALL OF THE MUSTACHE AND OTHER HAWKEYETEMS: 
“O aparecimento de um novo livro é uma indicação de que um outro homem descobriu como missão entregar-se ao robusto cumprimento de um dever, accionado pelo mais nobre dos impulsos que podem incentivar a alma de um homem à acção. É a mais orgulhosa vanglória da profissão de literato que nunca homem nenhum publicou um livro por motivos egoístas ou propósitos ignóbeis. Têm-se publicado livros para consolação dos aflitos, para guia dos que andam ao deus dará, para alívio dos destituídos, para esperança dos penitentes, para elevar acima de tristezas e medos as almas sobrecarregadas, para a melhoria geral da condição humana, para o triunfo do certo sobre o errado, do bem contra o mal, para a vitória da verdade. Este livro é publicado para eu ganhar dois dólares por exemplar.” 
Eugénio Lisboa

Nota de leitura não obrigatória: Confesso que me dá bastante jeito escrever, com um gato ao meu lado. Nada de transcendente: é só uma ajuda. Por outro lado, escrevo para tornar mais claras um certo número de perguntas. Quanto às respostas, isso é demasiada areia para o meu camião. Ficam para outros mais atrevidos.

GATO É SUBSTANTIVO E ADJECTIVO

Para os meus amigos felinos: 
Ísis, Lua e Lindo, companheiros!
Dizer que há gatos e gatos é
uma grande calúnia, sem perdão:
gostar de gato é gostar bué,
seja em Leiria ou Roterdão,

seja gato ruivo ou cinzentão!
Pois gato é gato sem qualitativo:
gato não pede qualificação,
porque é substantivo e adjectivo,

tudo ao mesmo tempo: substantivo
indica felino pequeno, porém,
o termo gato é também adjectivo:

gato quer dizer beleza e desdém,
passada esbelta de grande alteza,
um mundo de vigor e de certeza!

Eugénio Lisboa

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...