sábado, 14 de janeiro de 2023

O SILÊNCIO EM TEMPO DE TIRANOS

No tempo dos tiranos, o silêncio   
não chegava para salvaguardar  
o cidadão que usava esse artifício,   
pra, com ele, o tirano sossegar.      
  
Mais que o ataque frontal, o tirano   
temia o que escondia o mutismo   
do obstinado cidadão romano:   
no mutismo, anicha-se o abismo.   
  
Calar era fusível que ardia,   
quando chegava a desconfiança.   
Se o tirano, por fim, enlouquecia  
  
o silencioso perdia a esperança:  
restava-lhe acabar com a chicana   
e aguardar a guarda pretoriana.   
  
Eugénio Lisboa   
  
Isto continua válido, nas tiranias de hoje. Os que, como Traseia, se calam, para se não comprometerem, acabam como Traseia: executados pelo que não disseram. Investir no silêncio é um mau investimento. Morre-se à mesma, e sem glória.

Recensão ao livro "Pessoa, uma biografia", de Richard Zenith

Por João Boavida 

Recensão recentemente saída na Revista Portuguesa de Pedagogia, publicação da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

Chego ao fim das mil e duzentas páginas deste livro e quase fico a admirar tanto a personalidade de Fernando Pessoa como a capacidade de trabalho, a paciência e a perspicácia com que Richard Zenith tratou o tema da vida e obra do nosso maior poeta do século XX. O carácter exaustivo, ou quase, da obra é o maior contributo até hoje levado a cabo para compreender e avaliar a dimensão desta personalidade única da nossa cultura.

O livro, escrito originariamente em inglês, vai dando conta da realidade sociopolítica de Portugal, desde os finais do século XIX até à terceira década do século XX, quando Fernando Pessoa morreu. Faz, por isso, referência a factos da nossa história, talvez desnecessários se o livro tivesse sido escrito preferencialmente para portugueses, mas que se tornam úteis para o leitor estrangeiro. E como alguns desses acontecimentos estarão esquecidos, e outros, pela sua particularidade, serão desconhecidos da maioria dos portugueses, no final resulta uma obra enriquecida e proporcionando uma melhor compreensão da personalidade de Fernando Pessoa e da sua circunstância. 

Para nos dar a compreender a sua poética, Richard Zenith enquadra-o em factos da História de Portugal que são importantes, sobretudo a epopeia dos Descobrimentos, em influências literárias, António Vieira, o Romantismo (Shelley), o Simbolismo (Mallarmé, Verlaine, Rainbaud, Camilo Pessanha), Cesário Verde e um certo realismo sensorial, até ao Saudosismo (Teixeira de Pascoais). Mas também em mitos, desde a Caverna platónica até ao Sebastianismo, que a partir do desastre que lhe deu origem, tão grande influência exerceu no imaginário português. E, finalmente, num profetismo, de profundas raízes culturais e religiosas, de que o sapateiro Bandarra é talvez a sua mais expressiva manifestação, e que tem, através da ideia de um Quinto Império, reflexos e ideações importantíssimas na obra de Fernando Pessoa. 

Entre os aspetos mais cativantes estará a utilização, por Richard Zenith, de uma estrutura diacrónica que segue o poeta desde o nascimento até à morte, acompanhando de perto os factos, e produzindo contínuas interpretações, e sempre em ordem a uma visão de conjunto. Parece, de facto, ser esta estrutura a mais indicada, não tanto por ser a mais natural, mas sobretudo porque é a que melhor permite compreender a pessoa em causa – um Fernando Pessoa, tão nosso e tão integrado no tempo português e, simultaneamente, tão distante, tão afastado do nosso comum modo de ser. 

Sem esquecer, e dando-lhe a devida importância, os períodos que Pessoa viveu em Durban, enquanto jovem, pela influência que tiveram para a sua vida intelectual e poética, onde o inglês teve não só grande influência como foi, digamos, um companheiro constante do seu pensamento e da sua expressão poética e teorética. 

Esta biografia é, a vários títulos, admirável, e só foi possível por umas tantas qualidades de que Zenith deu mostras. 

Em primeiro lugar, uma capacidade de trabalho impressionante, na consulta e leitura de milhares de documentos: manuscritos ou dactilografados, soltos ou em cadernos, cartas, panfletos, poemas completos, começos de poemas, artigos para os jornais, manifestos, esboçados, ou mais desenvolvidos, textos quase sempre incompletos, obras em aberto à espera de continuação ou de acabamento; uns, longos, outros curtos, às vezes só uma frase, um breve apontamento, além de muitos horóscopos, tábuas cosmológicas, mapas astrológicos, interpretações cabalísticas, apontamentos múltiplos, de natureza mais ou menos filosófica e religiosa, escritos tanto em português, como em inglês e francês. 

Mesmo tendo em conta que a famosa arca de Pessoa já fora vasculhada, ordenada, catalogada e estudada por muita gente, e que Zenith terá encontrado muito trabalho feito, podemos imaginar o enorme e continuado esforço que esta obra exigiu. É certo que Richard Zenith era um dos investigadores que há muito vinha trabalhando sobre Fernando Pessoa, mas, mesmo assim, é admirável. 

Lembremos que é da sua autoria, juntamente com Carlos Filipe Moisés e Maria Helena Merlim Borges, uma obra editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 2012, intitulada Fernando Pessoa, o editor, o escritor e os seus leitores, que poderia chamar-se fotobiografia, embora seja mais do que isso pelos muitos contributos que a enriquecem, mas provavelmente não foi assim catalogada porque já fora publicada em 1981, pela Imprensa Nacional e o Centro de Estudos Pessoanos, Fernando Pessoa, uma fotobiografia, da autoria de Maria José de Lencastre.

Foi também necessária muita paciência, a Richard Zenith, para levar a obra a bom termo. Ler, adivinhar a difícil caligrafia, interpretar e comparar textos, cruzar informações, tentar situar cronologicamente milhares de papéis não datados (ou com datas fictícias) mas que era importante localizar em função da época e da idade de Fernando Pessoa; ir avaliando as suas obsessões, através de inúmeros registos que ia deixando; dar conta dos seus interesses, sempre em evolução, mas profundos, complexos, frequentemente ambíguos e sob pontos de vista racionalmente exigentes, ou mesmo ultrapassando a razão comum; articular textos da sua sempre adiada intervenção política, sofrendo com as desditas da Pátria (desde a descrença na decadente Monarquia, passando para a esperança na República, caindo novamente na desesperança republicana, renascendo com Sidónio Pais, morrendo com o seu assassinato, renascendo com Salazar e, já perto da morte, desiludindo-se do Estado Novo, sobretudo pela sua orientação controladora e repressiva, coisa que um artista não pode tolerar porque a liberdade é tudo para ele). 

Zenith acompanha com bom ritmo e uma profundidade adequada todo este processo procurando interpretar e explicar a complexidade intelectual de Pessoa, o que requer uma importante capacidade de teorizar e um enquadramento cultural muito rico. 

Finalmente, foi-lhe necessário grande perspicácia e capacidade interpretativa, pois não se limitou a descrever ou resumir os conteúdos, frequentemente difíceis e obscuros, mas foi fazendo, como já se disse, interpretações em função de uma personalidade sempre em evolução, mas com notáveis constâncias, oscilando o biógrafo entre a análise discursiva da vida e dos acontecimentos vividos por Pessoa, com constantes sínteses desse caudal de pensamento e de emoção, em ordem a uma ideia senão definitiva pelo menos o mais completa possível. 

Até porque a interpretação que Richard Zenith vai fazendo é de grande consistência teórica, e com vasto suporte cultural, como também já foi referido, conseguindo, deste modo, uma boa correspondência entre o biografado e o modo mais adequado de o dar a conhecer. 

E não por qualquer presunção intelectual, que o texto não denota, mas porque a própria complexidade de Fernando Pessoa o exige. Neste sentido, Richard Zenith mostra-se à altura da tarefa, terá alcançado um marco difícil de ultrapassar, e esta biografia passou a ser certamente uma obra incontornável para o conhecimento de Fernando Pessoa. 

Um dos aspetos mais cativantes desta obra está no evidente prazer com que Richard Zenith trata a pessoa de Pessoa, procurando compreendê-la, inserir-se no seu intelecto e dar dele notícia, como se fosse mais um heterónimo, tratando-o com evidente admiração, mas também com uma certa bonomia compreensiva e até algum humor. Ficamos a conhecer muito melhor o poeta, a sua reserva, a sua discrição, o seu silêncio, a sua figura fugidia, a sua quase sombra, a sua solidão procurada e cultivada, as suas imensas leituras, a sua enorme cultura, a sua extraordinária capacidade intelectual e, acima de tudo, o seu imenso talento poético. 

Porque Pessoa não foi somente o extraordinário poeta que toda a gente sabe, ou ouviu dizer, mas ele é também uma personalidade fora do comum, com grande imaginação e efabulação e uma aguda e multitemática capacidade de teorizar. 

E, mais ainda, com espantosos e perturbadores desdobramentos de personalidade, permitindo-se viver vidas paralelas, personalidades múltiplas com pensamentos e sentimentos correspondentes a cada uma delas. Porque, para lá das personalidades capazes de se manifestarem literariamente de modos tão diferentes, como são os heterónimos mais conhecidos – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares, além de Pessoa ele mesmo – criou e desenvolveu, desde muito cedo e ao longo da vida, inúmeras alternativas da sua personalidade, heterónimos de variada consistência e orientação psicológica e teórica, uns mais efémeros, outros mais persistentes, mas que nos revelam não só a riqueza do seu caráter como as enormes potencialidades que, pelos níveis de realização conseguidos para cada um, nos permite avaliar. 

Os heterónimos não são tanto uma estratégia poética, como o seriam se fosse um conjunto de pseudónimos, mas resultam duma necessidade de dar diferentes vozes às muitas vivências da sua pessoa; isto é, foram o modo de desdobrar personalidades e multiplicar realizações mentais e sensibilidades estéticas, cuja necessidade sentiu quase desde criança. 

Daí as dezenas de heterónimos que foi criando ao longo da vida, distribuindo as diferentes personalidades por papéis, conforme se tratava de poesia ou prosa, e segundo a preocupação era a literatura, a filosofia, a, política, a arte, o ocultismo, a telepatia, a astrologia, a religião e quase tudo o que sobre estes domínios se possa imaginar. Richard Zenith cria confrontos, pressupõe diálogos, debates entre Pessoa e os seus heterónimos, como se fossem outras pessoas (e talvez fossem) e dá ao texto o pretexto e a oportunidade de criar ou sugerir essa simultaneidade de personalidades. 

E assim vai acompanhando este processo de forma continuada, pondo, ao lado de Pessoa, o heterónimo Ricardo Reis, para o afastar de Ofélia Queiroz, que toda a vida o amou ingloriamente; ou o heterónimo António Mora, para discutir assuntos filosóficos e para-filosóficos; o Álvaro de Campos para nos transmitir as ânsias futuristas de abarcar todos os mundos e de poder embarcar para todos eles, quase sem sair do seu quarto, ou talvez por isso mesmo; o de Alberto Caeiro, para lhe revelar que a dimensão das coisas é não terem outra dimensão que aquela que o olhar lhes dá e, assim, se contrapor à sedução de mistérios e metafísicas que tanto o seduziram; ou um Bernardo Soares, que do seu escritório de amanuense da Rua dos Douradores, indaga as profundezas de uma alma aparentemente sem fundo e sem forma. 

Enfim, inúmeras personagens, porque a lista de heterónimos de Fernando Pessoa é enorme, incluindo um Alexandre Search, um Barão de Teive, um Charles Robert Anon, um Faustino Antunes, um Dr. Pancrácio, um Eduardo Lança, um I.I. Crosse, um Vicente Guedes, um Chevalier de Pas, um David Merrick, um Gaveston e muitos mais. Entretanto, vamos ficando a saber da vida e dos hábitos de Pessoa, do seu amor pela família, mas também do seu afastamento, dos sobrinhos que o adoravam pelas suas brincadeiras e palhaçadas, da sua delicadeza, do seu silêncio ou das suas palavras lentas e baixas que, no entanto, todos ouviam atentamente, do seu pequeno grupo de amigos, algo extravagante, do seu ensimesmamento natural e cultivado, da sua vida sexual, casta, ambígua e algo contraditória, das suas finanças sempre em rotura, dos seus calotes ou difíceis pagamentos, dos seus vícios do tabaco e do álcool, que o acabaram precocemente, dos seus projetos de ganhar dinheiro, que nunca deram em nada, das suas desastrosas iniciativas editorias, que delapidaram uma herança, etc. etc. 

Em resumo, pode dizer-se que Fernando Pessoa era o génio inevitável. Pela inteligência poderosa, de que desde cedo deu mostras; pela curiosidade insaciável, que o tornou um leitor voraz; pela propensão para o mistério e a capacidade de o viver e de o pensar; pelas suas características psicológicas ciclotímicas, e até pelo seu estilo de vida era, de facto, um ser excecional.

É certo que isto não é suficiente para produzir um génio, embora ajude, mas havia nele algo de muito mais, e que escapou à maior parte dos seus contemporâneos – a sua genialidade poética. É esta que dá razão de ser, unifica e engrandece todas estas características invulgares. 

O trabalho é enriquecido, ainda, por abundantes notas para cada capítulo, por Fontes e Referências, lista das Obras de Fernando Pessoa, Bibliografia Selecionada, Índice Remissivo, e uma diversificada e razoavelmente extensa documentação fotográfica. 

Em suma, para além de tudo o que foi dito relativamente a Fernando Pessoa, é um monumento, uma grande homenagem à cultura portuguesa. 

João Boavida
______________
Referência: Boavida, J. (2022). Recensão ao livro "Pessoa, uma biografia". Revista Portuguesa de Pedagogia, 56, e056008. https://doi.org/10.14195/1647-8614_56_08

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Tanta água doce e nenhuma poesia

Tanta água doce e nenhuma poesia.

E só imaginando vejo as aves!

Um toque álgido sinto todo o dia:

No céu ninguém cicia nem nas árvores.


Não sinto os braços, só sinto a partida.

Quero o lugar ou júbilo onde outrora,

No tempo hibernal, tanta água corria

Como o pranto que hoje em mim se demora.   


Em meu chão é que as aves são abraços,

É que o canto é desejo e é porvir.

Era aí que levantavas, pai, os braços, 


Até tocarem o céu e o chão se abrir,  

E a lágrima brotar dos olhos baços...

E eu morrer para como tu sorrir.   

 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

A DOENÇA DE SER IMPÉRIO

Aos imperadores havidos e a haver

Há uma doença de ser império,
que é parecida com um carcinoma:
o império acresce, sem critério,
ao que originalmente foi Roma.

Império é doença prolongada,
que se arrasta, com muito sofrimento.
Tem vida longa e degenerada
e só a morte põe fim ao tormento!

Possuir tanto poder enlouquece
imperadores e quem lhes obedece.
O carcinoma, dentro deles tece, 

teia mortal que se não compadece.
Ser império é autodevorar-se,
com bárbaros à porta, a preparar-se!

Eugénio Lisboa

DIZER QUE A APRENDIZAGEM DEVERIA SER PENSADA NAO É ESTAR CONTRA OS ALUNOS, É ESTAR A SEU FAVOR

Carta do professor Daniel Arias Aranda gerou, no imediato, polémica nas redes sociais, esse não lugar de múltiplos caminhos. Para perceber a polémica, escolhi o caminho que a jornalista Andrea Parra faculta com o seu trabalho de investigação no qual mostra diversos pontos de vista.

Andrea Parra começou por entrevistar Arias Aranda, colocando o foco nas quatro medidas que este apontou para envolver os alunos no trabalho de aula. Num registo em vídeo, essas medidas são explicadas com mais pormenor (ver aqui).

Entrevistou vários professores da mesma faculdade que, apresentando posições diversas, não se pode dizer que subscrevam as palavras do colega. Uns, mais próximos delas, dizem que, nas aulas, os "alunos estão como que ausentes e isso é frustrante", que "o docente tenta fazer o que pode na aula com o fim de melhorar os resultados"; outros, mais distantes, dizem que os alunos de agora são diferentes dos de um passado ainda recente, que é preciso encontrar maneira de responder aos seus interesses, que os "tempos e o perfil do estudante mudaram, e devemos adaptar-nos",  que é preciso "promover metodologias mais activas em que o estudante seja o protagonista" (ver aqui ).

Também entrevistou o representante dos estudantes, para quem "a motivação dos universitários depende da qualidade da docência (ver aqui).

Arias Aranda parece ter trazido a lume um problema que, afinal, não o é propriamente, ou, se o for, não terá contornos tão marcados como o apresenta. Será assim? Com base no conhecimento que tenho da universidade, não me parece. Entendo que ele é bem real, ainda que de muito difícil abordagem. As razões são várias e passo aqui por cima delas, mas, penso que mais tarde ou mais cedo, teremos de o enfrentar com a seriedade que requer ou... não. Depende daquilo que, como educadores, desejarmos para as novas gerações, para a sociedade, para o futuro...

Tendo em conta o que li sobre este caso, considero, acima de tudo, que o gesto de Arias Aranda foi mal interpretado, como, de resto, aconteceu noutros casos em que professores se pronunciaram sobre o estado da aprendizagem.

Reconhecer que a aprendizagem conseguida nos diversos níveis de ensino se distancia daquela que deveria (e poderia) ser conseguida não é estar contra os alunos, mas a favor deles. É por se preocuparem com a sua formação que alguns professores se reconhecem como parte de uma engrenagem, tão difusa quanto eficaz, que lhes faz crer que chegaram onde não chegaram. Os alunos, sobretudo se estão na universidade, precisam saber isso. 

Vejo na expressão pública deste reconhecimento - que, em geral, fica reservado a desabafos de corredor - uma atitude ética, a que os professores não se deveriam eximir. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

CATS, WHAT ELSE?

Se um gatinho diverte muita gente, 
dois gatinhos divertem muito mais!
Os gatinhos não precisam de pente:
sabem pentear-se e tudo mais,

usando cuspo, coisa muito fina,
e a língua, que é boa como lixa.
Tudo isto, com graça e disciplina,
enquanto cocam uma lagartixa!

A lagartixa é pra brincar e não
pra comer: comida, só selecta,
isto é, de gato e não de cão! 

De vez em quando, uma costeleta,
não é dieta que o gato recuse,
e come-a com a graça de uma Duse!

Eugénio Lisboa

QUERIDO ALUNO, DIGO-TE QUE ME DEDICO A ENGANAR-TE

Por Isaltina Martins e Maria Helena Damião

O jornal online Voz de Cádiz Andalucía do passado dia 4 de Janeiro publicou uma carta de Daniel Arias Aranda, professor catedrático do Departamento de Organização de Empresas da Universidade de Granada. 

É uma carta que poderia ter sido escrita por um professor português de uma qualquer instituição de ensino superior, mas também, em certos aspectos, do ensino secundário e, até, básico. As suas palavras devem, portanto, inquietar-nos.
«Llevo impartiendo clases en la universidad cerca de 25 años, dos de ellos en la Universidad Complutense de Madrid y el resto en la Universidad de Granada. Por mis clases han pasado directivos de grandes empresas que tenían más o menos mi edad cuando les di clase y otros que, en sus generaciones respectivas, han ido ganándose un puesto en la sociedad gracias a su formación y a su esfuerzo... 
La primera asignatura que impartí fue en el curso 1997/98. Era Dirección Estratégica de la Empresa (sigo aún impartiéndola), entonces del plan antiguo de 5 años de Económicas y Empresariales. Tenía matriculados 524 alumnos en cada grupo. Era imposible distinguir las caras de los que se sentaban atrás en aquellas gigantescas aulas del Pabellón de Tercer Curso de la UCM. Eso sí, las aulas estaban llenas. Algunos alumnos se tenían que sentar en las escaleras porque no cabían.  
En las horas de tutoría, los alumnos hacían cola en la puerta de mi despacho. Responder todas las consultas, curiosidades, dudas… era tan agotador como satisfactorio. Las constantes preguntas de los estudiantes en clase me obligaban a llevar la materia muy preparada. Yo ya tenía 25 años y no recuerdo estudiar más que entonces.  
La asignatura era dura y las preguntas de desarrollo configuraban exámenes que duraban horas. Era imposible corregir todo aquello en menos de diez días. Las revisiones eran complejas (sobre todo para los que estaban entre el 4 y el 5). Todo lo anterior es tan sólo un eco del pasado. 

Hoy me dedico a engañar más que a enseñar. Me explico a continuación. Los grupos hoy son de unos 50 alumnos, de los cuales raramente viene a clase más de un 30%. Los que vienen, lo hacen en su mayoría con un portátil y/o un teléfono móvil que utilizan sin ningún resquemor durante las horas de clase. Las caras de los alumnos se esconden tras las pantallas. De hecho, me sé mejor las marcas de sus dispositivos que sus rasgos faciales. Es raro que alguien pregunte, por mucho que se les incite a hacerlo. Quince minutos antes de que acabe la clase ya están recogiendo sus cosas, deseosos de salir. 
Cada vez me siento más como un profesor del instituto de una serie mediocre de los 80 que como un catedrático. 
A menudo tengo que callarme porque el rumor generalizado se extiende por el aula y me da vergüenza mandar callar a universitarios constantemente. He separado a gente para que no hablen entre ellos, he expulsado alumnos del aula y me he llegado a marchar de clase ante el más absoluto desinterés. 
Como respuesta a este panorama y, siguiendo las cambiantes normativas universitarias (siempre peores que las anteriores), los profesores hemos tomado cartas en el asunto con las siguientes medidas
- El nivel de la asignatura ha bajado. Impartimos menos temas de manera mucho más superficial.
- Hacemos parciales tal y como establece la evaluación continua para tratar de aprobar a un mayor número de alumnos, pues un número de suspensos superior, a lo que la universidad establece como límite, conlleva una sanción que influye en el presupuesto del departamento, esclavizado a través del denominado contrato-programa. 
- El nivel de los trabajos y presentaciones de los alumnos no pasaría, en su mayoría, los estándares del teatrillo de Navidad de primaria. Pero eso, para nosotros es más que suficiente para poner un 5. 

De este modo, cumplimos el contrato-programa, el departamento es feliz, la universidad es feliz, nuestros alumnos aprueban, creen que saben algo y son felices y nosotros languidecemos ante la triste realidad. Soy consciente que para vosotros, soy sólo un estímulo más que compite con las redes sociales y el vasto imperio de internet. Evidentemente, soy más aburrido que un video de influencers de Tiktok. 

Por eso, te digo que me dedico a engañarte, querido alumno/a. Vives en una mentira que nosotros edulcoramos. Por eso, es mejor que si quieres seguir viviendo en tu burbuja, mientras puedas, no sigas leyendo, ya que voy a contar lo que hay detrás de Matrix.

Bueno, si sigues leyendo, lo haces bajo tu propia responsabilidad. No digas que no te advertí. Aquí van algunas realidades que no te van a gustar:  
Te faltan habilidades básicas indispensables en estudios superiores. No tienes capacidad de expresión. Tu vocabulario es muy básico y se limita a verbos débiles (hacer, ser, estar) en lugar de específicos como desarrollar, evolucionar, ampliar…  
Por ello, cuando entregas un trabajo o haces una exposición de un texto que has copiado de Wuolah, El rincón del vago u otros, donde plantas frases como «considerando la posibilidad de articular el concepto de selección adversa con las bases teóricas de la economía de las organizaciones…», sé de sobra que no lo has escrito tú porque, para más INRI, cuando te pregunto en clase sobre el significado de esa frase, no sabes qué contestar.

Por supuesto, al exponer en clase, la frase del punto anterior la has leído literalmente de tu móvil, del que no despegas los ojos aún enfrente de tus compañeros, y la has colocado en una transparencia de Powerpoint cuyo diseño en 1995 ya estaba obsoleto. El resto de tu presentación se limita al «efecto karaoke», leer los interminables párrafos que has cortado y pegado. 

No sabes estar. Sí, estar. Balbuceas, te encorvas, no fijas la mirada, llevas una o las dos manos en los bolsillos, vienes a una exposición en chándal o con leggins… No te dignas a respetar la institución milenaria que te acoge y que se llama universidad. No entiendes lo que eso significa y tampoco tienes ningún interés en saberlo.

Si tu expresión es limitada, tu escritura lo es más. Se nota que ya no se hacen dictados en educación secundaria. Caso aparte merecen los alumnos que no hablan español y no comprendo que hacen ocupando un asiento, especialmente aquellos provenientes del país creador de Tiktok.  
Jamás hubieras superado esta asignatura hace 10 o 20 años. De hecho, de tu clase, no más de 10 personas seguirían admitidas en estos estudios. Te lo dice un licenciado que acabó dos titulaciones en la Universidad Carlos III de Madrid donde tras 4 convocatorias suspensas de una asignatura, ibas a la calle.  
Tu nivel de lenguas extranjeras es nulo. Doy clases en un Máster íntegramente en inglés donde apenas hay españoles y el nivel de los estudiantes extranjeros es infinitamente superior. De hecho, el máster es lo único que alimenta mi motivación a enseñar.  
Las habilidades blandas brillan por su ausencia. ¿Liderazgo, resiliencia, trabajo en grupo? Son básicas para cualquier empleo. Cuando me escribes un email para decirme que te has peleado con tus compañeros de grupo o envías a tu madre a una revisión de exámenes, mi perplejidad no cabe en mi persona. Hace años que no recomiendo a ningún alumno para ninguna empresa. 
Vives anestesiado por las redes sociales. ¿Te crees que no me entero? Mientras doy clase veo tu cara de soslayo tras la pantalla con risitas y yo sé que explicar la cadena de valor de la empresa es de todo menos gracioso. No estás en clase, estás en Instagram. Pero yo me hago el tonto y miro para otro lado. Estos puntos son sólo la cima del Iceberg. Los profesores estamos hartos de formarnos en técnicas docentes multidiversas y de pelajes exóticos para motivar al alumnado. Lo que está claro es que si tú, estudiante, no tienes interés, yo no puedo plantarlo en ti. Pero sí puedo hacerte creer que vales, aunque sepa que es mentira. Me he convertido en un experto en hacerlo porque el sistema me lo exige y cumplo. Y rezo por que esto sólo me ocurra a mí, y como mucho en mi facultad, pero no ocurra en Medicina o Ingeniería de caminos, sobre todo cuando cruce un puente o, Dios no lo quiera, esté en la camilla de un quirófano. 
Podemos echarle la culpa a la universidad pública y tiene bastante, pero no toda. «Si quieren calidad, que se vayan a la privada», he escuchado por ahí. Y los números van apuntando en esa dirección. Quizás, el pago de una matrícula de cuatro ceros aumente la motivación en lugar de las irrisorias tasas académicas públicas. Puede que la universidad pública reaccione cuando la privada le coma la tostada, cosa que está haciendo muy bien.  
Lo que está claro es que si tú, estudiante, no tienes interés, yo no puedo plantarlo en ti. Pero sí puedo hacerte creer que vales, aunque sepa que es mentira. No obstante, mis evaluaciones docentes son muy buenas y las he publicado. Pero no soy una excepción. Cuando hablo con compañeros coinciden con mi visión. Escribir esto es arriesgado y es más cómodo callar y obrar. Lo entiendo perfectamente, patada y al área es la actitud mayoritaria. 
No quiero terminar exponiendo un problema sin dar soluciones. Las hay. Pero para ello, hay que romper el paradigma en que estamos sumergidos y ser muy valientes. He aquí algunas propuestas incómodas 
- No somos todos iguales. Hay estudiantes con vocación e interés eclipsados por la mediocridad imperante. Centrémonos en ellos. La universidad es para formar a las élites intelectuales. Antes de que me llaméis facha, esa frase es del insigne Gregorio Peces-Barba, mi rector cuando estudiaba en la Universidad Carlos III, padre de la Constitución y socialista de los de verdad (cómo han cambiado las cosas). La Formación Profesional forma grandes profesionales que no han de ser universitarios.  
- Devolvamos al profesorado universitario las competencias perdidas como autoridad intelectual a la hora de diseñar planes de estudio, modelos de enseñanza y currículum. No podemos esperar dos años a que la ANECA dé el visto bueno a una modificación de los planes de estudio. El mundo cambia demasiado rápido para seguir impartiendo contenidos obsoletos.  
- Reforcemos las capacidades básicas en enseñanzas no universitarias: Enseñar a pensar, a enfrentarse a obstáculos, a expresarse, a tener modales, a leer y escribir bien en español e inglés, a tener tolerancia a la frustración y, sobre todo, a buscar la superación constante. 
- Eliminemos cualquier rastro de gadgets tecnológicos en la enseñanza (lo que incluye ordenadores portátiles). Darle un Chromebook a un niño de 10 años es como darle una cuchilla de afeitar a un bebé. SEÑORES TECNO-PROGRES LEAN ESTO POR FAVOR: Cruzar un puente no te hace ingeniero de caminos, de la misma manera que tener un ordenador no te hace nativo digital. Mis alumnos no saben, en su mayoría, elaborar un Excel o dar formato a un texto en Word. Las TICs a edades tempranas sólo sirven para distraer. La plasticidad neuronal se desarrolla con lápiz y papel, no con la dictadura de los teclados.  
- Hacer sentir a los chavales orgullosos de quienes son y donde están, con admiración hacia lo que les rodea y hacia otras culturas. Fomentar la curiosidad innata y el respeto. Crear descubridores y jamás plantar la semilla del odio o la desolación. Huir de los nacionalismos, siempre manipuladores y huir de los populismos, de cualquier cosa negativa que acabe en ismo. La mente de un niño es sagrada.  
- Fomentar la cultura de la competición y la colaboración en todo tipo de enseñanzas. El esfuerzo conlleva recompensa, a veces a largo plazo. Los mejores serán premiados y los peores se quedarán fuera de juego y, si quieren volver a entrar tendrán que esforzarse más, o bien, centrarse en otro juego, esto se llama flexibilidad académica. Si tu hijo es malísimo en matemáticas, pero le encanta tocar la guitarra, quizás tengas que ponerle un profesor particular en guitarra y no en mates. Y el sistema ha de aceptar esto. Saquemos lo mejor de cada individuo. 
- Con 18 años no sabes, salvo que tengas una vocación innata, que es lo que quieres estudiar (yo no lo sabía, pero tuve suerte al elegir). Flexibilicemos los primeros años universitarios y de FP. Las titulaciones no han de ser bloques de cemento. ¿Empiezas Informática y no te gusta? Hagamos pasarelas. Implantemos el 'major' y el 'minor' como en EE. UU. Que una mala decisión no frustre una vida. En fin, querido estudiante, esto es lo que hay. Quizás seas la excepción a todo lo escrito, ojalá sea así, pero los números me dicen que las probabilidades son inferiores al 10%. En todo caso, no busques la solución en el Estado, ni en los sindicatos, ni en los cantos de sirena de los -ismos, ni en las redes sociales. La solución está en ti. Si tú cambias, el mundo cambia. 
Y si no quieres cambiar, no te preocupes, te seguiremos engañando, haciéndote creer que lo estás haciendo muy bien».

Amor, só tu farás luz dos meus passos

I)
Um só anelo: o rubro sol-pôr tanger.
Durar muito o que tem de acontecer
E o que aconteça seja amor de morrer.
II)
Amor, só tu farás luz dos meus passos
E falarás pelo meu coração.


domingo, 8 de janeiro de 2023

APOCALYPSE NOW

Vai hoje findar um ano terrível,
como aquele que Victor Hugo glosou: 
ao horrível juntou-se o inconcebível
e o inferno em nós sedimentou.

A decência que existia pifou,
num mundo em pavoroso descontrolo:
o fusível da cautela estoirou,
deixando a nossa vida sem miolo.

A destruição, o estupro, o incêndio,
a ausência de luz e de calor
fizeram manual de vilipêndio!

O homem inventou novo terror,
que a tantos outros soube acrescentar,
para, com mais vigor, tudo arrasar.

Eugénio Lisboa 

Este soneto foi escrito no dia 31 de Dezembro do ano passado, mas não quis, nessa altura, enviá-lo aos meus amigos, para não ensombrecer essa data. O título, APOCALYPSE NOW, foi obviamente roubado ao admirável filme de Francis Ford Coppola, por sua vez moldado livremente na inquietante novela de Joseph Conrad, HEART BOF DARKNESS.

O MERCADO DOS TRABALHOS ACADÉMICOS

"Compra de teses é batota, mas não é crime" é o título, muito apelativo, de um artigo saído na edição mais recente do semanário Expresso. As suas autores, Joana Pereira Bastos e Isabel Leiria, detêm-se num negócio que, sendo antigo, foi, em tempos mais recentes, reformulado, ampliado e consolidado. A internet agilizou-o e normalizou-o. Deixou de ser um acordo mais ou menos obscuro e, por isso, mais ou menos, sigiloso entre quem precisa de obter trabalhos académicos sem os querer fazer e quem se "especializou" em fazê-los; os anúncios começaram a surgir, com especificação de produtos, preços e contactos, tornando o processo "transparente". 

Esta foi a conclusão a que cheguei em 2009, quando procurei (e encontrei) esses anúncios (ver aqui). As jornalistas foram, evidentemente, mais longe do que eu. Em resultado, escreveram:

Na "internet não faltam anúncios de empresas que oferecem «apoio» na elaboração de teses de mestrado, artigos científicos, monografias, relatórios, ensaios ou dissertações. Num dos sites mais populares e há mais tempo a operar neste sector, a «ajuda» é descrita de forma vaga, mas ao telefone é traduzida sem rodeios: «Fazemos tudo o que for preciso, incluindo a escrita integral» (...). Noutro site (...) vai-se direto ao assunto: «Aqui pode comprar ou encomendar o seu trabalho académico»".

Os preços, talvez devido à concorrência, ao aumento do número de clientes ou à menor  exigência académica, desceram: convenhamos que pagar 800 euros por uma tese de mestrado, como se refere na notícia, não é caro. Logo, é apelativo. Pelo menos para quem o sentido da educação não é claro os limites éticos são vagos.

A questão, muitíssimo pertinente, que as jornalistas colocam é se, no caso, a lei anda a par com a ética. Auscultado um jurista, parece que não. Mas, vamos por partes, pois a explicação pode servir a quem se preocupe com o assunto.
Sob o ponto de vista ético, fazer-se passar por autor de um trabalho que foi comprado a outrem, que o produziu, é, sem dúvida, fraude. É fraude, digo eu, depois de ter revisto alguns documentos, porque há o propósito deliberado de enganar (pessoas e instituição) para obter um proveito próprio.

Sob o ponto de vista legal, as jornalistas apuraram, junto de um advogado (cf. na notícia), que a situação "constitui um ilícito disciplinar que pode levar à expulsão da universidade e à anulação do grau, segundo o regulamento interno de cada instituição" mas não é "necessariamente crime (...) já que há um vazio legal". Vou tentar reproduzir as palavras do especialista: quem (pessoas individuais e empresas) faz trabalhos originais por encomenda para os vender não comete qualquer crime e quem os encomenda e compra também não.
(Distinto deste caso é o plágio, em que a lei e a ética estão próximas: apresentar-se como autor de um trabalho feito por outrem, ainda que "descaracterizado" é, ao mesmo tempo, reprovável e crime).

Outros dois especialistas, que conhecem a realidade de ensino superior português (cf. na notícia), disseram que o nosso "mercado" é mais modesto do que noutros países, como Inglaterra. Aqui, autoridades e universidades tomaram medidas: respectivamente, ilegalizar o negócio e reduzir os trabalhos em favor de exames.

Duvido que estas medidas, de carácter repressivo e estratégico, funcionem só por si. Reconheço que são necessárias para deter o problema, mas o seu valor educativo é limitado. Haveria que tomar medidas decorrentes deste valor. Refiro duas que se me afiguram inadiáveis:
reafirmar, desde a primeira hora de formação e por todos os meios, princípios com os quais a universidade está comprometida, que fazem parte da sua essência, como a verdade e a honestidade intelectual, explicitando-os, trabalhando-os e, sobretudo, dando o exemplo. Mas também chamando os estudantes a esses princípios sempre que deles se desviem; 
revalorizar a docência, considerando-a uma acção tão nobre quanto a investigação. Não obstante o discurso de Bolonha, é esta, não a docência, que contribui para a carreira do professor, podendo conferir-lhe prestígio. Seria preciso também reduzir a burocracia "plataformizada" e "na hora", que lhe rouba tempo e disponibilidade mental. Alguém que se dedique aos alunos, que se sente com eles para falar sobre um trabalho ou um teste, está, obviamente, fora da realidade e... a atrasar a disponibilização de dados!

«A SEGUNDA VINDA» DE W. B. YEATS

 

No final da recensão  que há algum tempo fiz ao livro «Civilização» de Kenneth Clark falei de um poema do irlandês W. B. Yeats (1865-1939) agrado de Clark (e que ele cita, embora parcialmente, no livro: é um poema muito famoso (“The Second Coming”), de 1919, e muito pessimista (viria aí uma época de trevas). Yeats escreveu-o quando a sua esposa estava a recuperar da gripe de 1918-1919 que quase a matou e no rescaldo da Primeira Grande Guerra.

O nosso estimado leitor Herculano Esteves, mandou-me esta sua tradução, com sua licença. compartilho com os leitores deste blogue:. Não é fácil traduzir poesia, pelo que fica, para comparação, o original em inglês. A tradução é tanto mais oportuna quanto está a sair uma biografia de Yeats da autoria de Cristina Carvalho.

A SEGUNDA VINDA

          Às voltas e às voltas na orla da espiral

          O falcão já não ouve o falcoeiro;

          Tudo se esboroa; nada se segura por dentro;

          A anarquia pura solta-se sobre a terra,

Solta-se uma maré ensanguentada, e por todo o lado

Afoga-se a cerimónia da inocência;

Os melhores estão sem crença,

Os piores carregados de intensão apaixonada.

 

Sem dúvida, uma revelação está próxima;

Sem dúvida, a Segunda Vinda está próxima.

A Segunda Vinda! Mal a pus por palavras

Uma imagem imensa saída do Spiritus Mundi

Perturba essa minha visão: algures nas areias do deserto

Uma forma, corpo de leão e cabeça humana,

Fitar esbranquiçado e impiedoso como o sol                           

Mexe as lentas coxas e sobre ela toda,

          A rodopiar, sombras de desertados pássaros fora de si.

          A escuridão cai outra vez; mas eu sei agora

          A pedra de um sono de vinte séculos

Rearranja-se em pesadelo embalada num berço.

          Que besta crua, chegou por fim a hora dela,

          Se arrasta para nascer em Belém?


THE SECOND COMING

Turning and turning in the widening gyre  

The falcon cannot hear the falconer;

Things fall apart; the centre cannot hold;

Mere anarchy is loosed upon the world,

The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere  

The ceremony of innocence is drowned;

The best lack all conviction, while the worst  

Are full of passionate intensity.

 

Surely some revelation is at hand;

Surely the Second Coming is at hand.  

The Second Coming! Hardly are those words out  

When a vast image out of Spiritus Mundi

Troubles my sight: somewhere in sands of the desert  

A shape with lion body and the head of a man,  

A gaze blank and pitiless as the sun,  

Is moving its slow thighs, while all about it  

Reel shadows of the indignant desert birds.  

The darkness drops again; but now I know  

That twenty centuries of stony sleep

Were vexed to nightmare by a rocking cradle,  

And what rough beast, its hour come round at last,  

Slouches towards Bethlehem to be born?

sábado, 7 de janeiro de 2023

Paisagens: Interiores. Ensaios foto-poéticos

CONVITE

No dia 10 de janeiro, às 18 horas, ocorrerá a inauguração de uma nova exposição de ensaios foto-poéticos de João Maria André e de Elsa Margarida Rodrigues, no Centro Cultural do Penedo da Saudade, em Coimbra, com o título Paisagens: Interiores. 

Apresentará a exposição Isabel Calado e o evento contará com a colaboração de Inesa Markava, bailarina, e de atrizes e atores da Cooperativa Bonifrates. 

A exposição manter-se-á no Centro Cultural do Penedo da Saudade até ao dia 12 de fevereiro. 

A vossa presença e visita será motivo de grande alegria.

AD PATRES

Ad patres irei, decerto, em breve,
porque toda a corrida tem fim.
Se a terra será pesada ou leve,
pouco interessa ao crescer do capim.

Na terra, que não existe, dos patres,
a vida não é boa nem é chata:
por mais que nos encomendem os padres,
na morte, nada se ata nem desata.

A terra dos patres é só o nada,
o qual nada não é coisa nenhuma.
O nada é, da morte, a coutada

e é ausência que se avoluma.
A morte é apenas vida calada,
desabitada cidade murada!

Eugénio Lisboa

Amo esta chuva que vou perder

I)

Ipomeia, muro.

Poema, rumor, sopro.

Choupos, ar puro.

Riso, amor.

Mãos, alba do corpo.

Ventre, flor.

II)

Amo esta chuva que vou perder.

E o corpo dele próprio mais perto,

Como se fosse todo um deserto

Que em vida nunca mais fosse arder.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

REFORÇAR UM BOCADINHO O PESO DOS EXAMES

O já clássico antagonismo entre "avaliação formativa" e "avaliação sumativa" tem, de quando em vez, acessos delirantes em favor da primeira, com condenação da segunda.

Mas isto só na aparência porque a prática corrente é esquecer-se (ou ignorar-se!) a origem das duas designações, bem como o seu significado e pertinência pedagógica. Rapidamente se retorcem os procedimentos da avaliação formativa (ou, numa terminologia mais recente, "formadora", expressão, que, de resto, desvirtua o seu sentido) para se obterem pontuações cujo fim é tomar decisões de classificação, transpostas para pautas.

E para se obterem essas pontuações, avalia-se o que é escolar e o que não é, o que se sabe avaliar e o que não se sabe; o que é quantificável e o que não é; o que é legítimo avaliar e o que não é... 

As acrobacias avaliativas são, de resto, um tema riquíssimo a que alguém deveria prestar a devida atenção, na certeza de que o seu estudo seria de grande interesse... 

Uma coisa é certa, no actual discurso pseudo-pedagógico instalado nas escolas, muito derivado do ex-designado projecto MAIA, a avaliação sumativa (essa que, em geral, implica  testes e exames em determinados períodos do ano lectivo com fins de prestação de contas e de atribuição de notas, certificados e diplomas) não tem boa fama. 

Porém... na sequência do anúncio, por parte do Ministério da Educação, de que os exames vão ser retomados para efeitos de entrada no ensino superior, um Secretário de Estado da Educação [explicou que]
Havia instituições onde os exames nacionais podiam ter um peso de cerca de 45% e a ideia é subir para um mínimo de 50% e um máximo de 60 para 65%, no sentido de reforçar um bocadinho aqui o peso dos exames (...) os exames têm um “papel regulador e introdutor de alguma comparabilidade, alguma justiça social”, uma vez que estão a concorrer alunos de todo o país e todo o tipo de escolas, onde as avaliações podem ser muito díspares. “O que nós observamos é que nas disciplinas em que há exame, o comportamento padrão das notas é mais próximo entre si, quer entre diferentes regiões do país que quer entre escolas públicas e privadas”, acrescentou (ver aqui).

Não quero com isto dizer que o Secretário de Estado em causa esteja errado, o que quero dizer é que o mesmo Ministério da Educação que tem tão mal tratado a avaliação sumativa, quer, agora (voltar?) a valorizar "um bocadinho" uma das suas expressões: os exames.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Um professor não é...

Por Cátia Delgado 

Num momento particular em que se vê de novo o fervilhar da classe docente – dotada de capacidade intelectual e consciência crítica, capaz de fazer valer princípios que, por inerência, são os da escola pública e que concordam com o bem superior dos nossos alunos –, destaco um ponto que deveria estar na primeira linha das contestações: a identidade profissional do professor.

Os mal-entendidos que a rodeiam comprometem todos os outros tópicos em discussão. Para os que a pretendam rever, um bom começo será o esclarecimento do que o professor não é. 

De modo ilustrativo, recorro à negação, tão bem colocada por Jorge Larrosa, na sua obra de 2019 “Esperando no se sabe qué: Sobre el oficio de profesor” (p. 329): 
Um professor não é um guru.../ Um professor não é um iniciador.../ Um professor não é um mediador.../ Um professor não é um autor.../ Um professor não é um treinador.../ Um professor não é um produtor.../ Um professor não é um gestor.../ Um professor não é um prestador de serviços.../ Um professor não é um pai (nem uma mãe).../ Um professor não é um companheiro.../ Um professor não é um amigo.../ Um professor não é um líder.../ Um professor não é um ativista.../ Um professor não é um conselheiro espiritual.../ Um professor não é um conselheiro emocional.../ Um professor não é um sedutor.../ Um professor não é um motorista.../ Um professor não é um guia.../ Um professor não é um comunicador.../ Um professor não é um moderador.../ Um professor é um professor...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

FAZER COMO SÍSIFO

Para a minha Amiga Maria Helena Damião 
Sísifo empurrava o penedo,
sabendo que voltaria a cair:
até pareceria um arremedo
de fazer um jogo de repetir.

Insistir, sabendo que se não ganha
ilustra fibra de grande nobreza:
quem se esforça e logo se amanha
desconhece o percurso da grandeza!

Saber lutar, sem nunca aproveitar,
empurrar para cima o penedo,
sabendo que ele vai voltar

é a marca dos que não têm medo
do esforço nunca recompensado:
é glória do lutar armadilhado!

Eugénio Lisboa

O futuro, que afinal já foi

Por João Boavida

O Romantismo começou por atacar a harmonia iluminista e racionalista, valorizando o excesso, a inspiração, as forças da natureza, as dinâmicas profundas das pessoas e dos povos. Ou seja, forças mais ou menos obscuras que, não sendo propriamente maneiras irracionais do agir humano, fogem em boa parte ao controlo racional e vão mergulhar em zonas em que a racionalidade deixa de ser central, ou até predominante.

Entre muitos outros fatores e a influência de muita gente, as convicções racionalistas perderam terreno com o contributo das psicologias da profundidade, ou abissal, ou seja, de zonas até então ignoradas, ou só intuídas vagamente. 

Pelos trabalhos de Carl Gustavo Jung, que foi beber a Schopenhauer o valor e peso do irracionalismo, ficamos a saber do inconsciente coletivo, essa parte da essência humana que não controlamos conscientemente e que nos é transmitida pelo envolvimento cultural e humano, para além do mesmo Jung ter estudado os sonhos, os mitos, a psicologia das religiões e outros domínios afins. E pelos estudos de Sigmund Freud, que descobriu, por baixo da nossa camada racional, outras, mais obscuras e difíceis de controlar (como o subconsciente e, mais profundo ainda, o inconsciente) fomos confrontados com campos novos e assustadores no comando da alma humana.

A descoberta destes novos domínios e forças não só revelou dimensões que só vagamente pressentíamos, com alterou muitos dos nossos comportamentos e motivações, proporcionando inúmeros campos de exploração e de realização artística. 

A razão, a análise objetiva, o juízo correto e as operações racionais logicamente válidas veem reduzidos o seu âmbito e valor ao descobrirem-se estas vastíssimas e desconhecidas forças motivacionais. As racionais continuam a ser valiosas, certamente, até porque são o que mais nos especifica e distingue da restante natureza, mas estão longe de ser, e de poder compreender, toda a nossa realidade. 

E, por outro lado, vêm realçar o quanto precisamos de treino, de bons hábitos e de melhores práticas para as desenvolver, porque estão longe de um acesso imediato, espontâneo e generalizado. Nada é dado de mão beijada, os níveis mais elevados de comportamento humano e da organização social precisam de educação. O que há a fazer, portanto, é educar cada geração sistemática, repetida e insistentemente porque o que se consegue num lugar, pode ficar longe, noutro, e o que se alcança numa geração pode perder-se na seguinte. 

Foram essas forças que a criação artística começou a valorizar e a explorar, e o facto de a razão estar sempre pronta para fugir ao nosso domínio e ceder a forças que dominamos mal, ou não dominamos mesmo, pode ser uma perda, em termos racionalistas, e em certo sentido é, mas a descoberta de novos campos e de muitas dinâmicas novas e complexas foi uma bênção para a criação artística e os domínios da sua manifestação.

Por outro lado, as ideias humanistas e iluministas não resistiram ao brutal ataque que resultou de duas guerras mundiais, e o absurdo que sacrificou milhões de vidas e destruiu a Europa não podia deixar de influenciar o pensamento e a arte. Que força tinha a razão humana se tais desastres não evitou? Podíamos continuar a acreditar nela? Qual é o seu verdadeiro peso nos comportamentos humanos?

Face à irracionalidade e ao barbarismo a que se chegou era inevitável que a crença na humanidade enfraquecesse muito, e que a ideia de um estado definitivo de racionalidade nas relações entre as pessoas e os povos entrasse em descrédito, provocando angústias de que certas filosofias e movimentos artísticos e contestatários foram sendo manifestações visíveis e bem demonstrativas.

Ora, nestas condições, a arte, que já tinha descoberto, com o Romantismo, as forças obscuras da inspiração, foi confrontada com campos novos, confusos mas fortíssimos, de algum modo até irracionais, e que implicaram – era inevitável – alterações profundas nos quadros e nos padrões criativos e interpretativos até aí mais ou menos estabelecidos. Claro que sempre houve exceções, (a pintura de Hieronymus Bosch, séculos XV-XVI, é um belíssimo exemplo das forças obscuras que podem mobilizar a arte) mas, dum modo geral, essas forças subterrâneas eram desconhecidas, e, sobretudo, reprimidas pela integração em quadros inteligíveis e racionalizadores, e com padrões de qualidade que a arte sempre teve como preocupação fundamental.

É óbvio que a literatura não podia ficar de fora desta vaga transformadora. Talvez possamos dizer que a grande contribuição é a do romance, sem esquecer a poesia e o teatro, por exemplo. Mas é com o romance dos séculos XIX e XX (e alguns bons exemplos anteriores, de que já aqui se falou), que trazendo a narrativa literária do céu à terra e das altas cavalarias e aristocracias à vida corrente, operária, burguesa, campesina, em todo o caso plebeia, vem valorizar tudo o que até aí era desprezível, ou sem valor social e humano, alargando temas e formas de realização, o que significa que as técnicas e os modos de fazer se diversificaram, multiplicaram e alteraram profundamente. 

Depois, há autores como Dostoiévski, que pela capacidade de revelar personalidades caóticas, perversas, cruéis, com comportamentos moralmente repugnantes, ou angélicas e de grande elevação moral, as transformou em temas literários de primeira grandeza, revelando o tal fundo obscuro e inconsciente que os psicólogos referidos vieram descobrir e estudar. De facto, o grande interesse, ainda hoje, de Dostoievski não é propriamente a qualidade da escrita, que podia ser melhor, mas a capacidade de intuir o mais fundo da alma humana, mesmo nas manifestações mais aberrantes, e descrevê-las inserindo-as nas situações e à luz das convulsões sociais e psicológicas do seu tempo, aliás numa premonição notável dos acontecimentos que depois se deram na Rússia e em toda a Europa. 

Problemas morais, e existenciais, que sempre dilaceram os homens, como o bem e o mal, a culpa e o remorso, a condenação e a salvação são dominantes nas suas obras. E, talvez, acima de tudo, o que tem a ver com a relação da teologia com a ética, de grandes tradições na nossa cultura mas que os racionalistas desvalorizaram pela crença excessiva na componente racional dos comportamentos humanos. Dostoiévski recupera todos esses problemas com uma força criativa impressionante expondo-nos as feridas profundas que se estavam a abrir, ou já estavam abertas, e de que o vazio moral dos nossos dias é consequência e exemplo. 

Quando se lê o Manifesto Futurista, de Filippo Marinetti ou o famoso Manifesto anti-Dantas, de Almada Negreiros (ou quando se lê, por exemplo, a Ode Marítima, de Álvaro de Campos, que nada tem que ver com os referidos manifestos) não podemos deixar de ser tocados pela premência de romper quadros anteriores, visto já não representarem as novas realidades psicológicas e sociais, nem a nova dinâmica que se adivinha por todo o lado. O futuro era, para eles, uma realidade fulgurante, embora nebulosa, uma enorme força atrativa mesmo que sem grande rumo. 

E as vanguardas, tão pujantes e irreverentes em todo o século XX, não só encontraram campos novos, vastos e riquíssimos, como foram, por sua própria natureza, à procura deles. Era preciso dar conta destas novas realidades, ir ao seu ao encontro, acertar o passo e ser dessa novidade a cúpula, o zénite. Foi sobretudo este impacto renovador que as identificou e dinamizou. Se é certo que reagiram a um “falso artisticismo”, o que provocou quase sempre revoluções formais, a sua intenção fundamental era a inovação pela libertação dos condicionalismos que as novas realidades psicológicas, sociais estavam a exigir. 
 
É claro que o futuro, à custa de se presentificar cada vez mais rapidamente, em muitos casos depressa se esgotou e ficou para trás, e que muitos dos movimentos pujantes que pareciam capazes de projetar sempre o futuro em novas formas, acabaram por ser, em muitos casos, devorado pela própria pressa e sofreguidão. A vertigem da inovação acabou por transformar muitos projetos inovadores em simples velocidade, e esta, em valor, e, assim perdendo metas à custa de fazer do incessante correr a própria meta. 

E, por isso, hoje restam muitos cacos, ao lado de coisas magnificamente conseguidas, e de que a famosa ode pessoana é um bom exemplo. Tudo isso teria, necessariamente, que alterar os cânones artísticos. Até porque, muito daquilo que era desconhecido, ou reprimido, transformou-se em tema privilegiado, e em muitos casos até dominante. As inúmeras novidades formais que foram tentadas não são mais do que esforços para encontrar as formas adequadas ou mais suscetíveis de expressar essas novas realidades. Mas que não podiam deixar de ser fonte de desentendimentos, de reações, e até de aversões mais ou menos militantes, porque estavam em causa, como sempre estão, alterações canónicas de maior ou menor amplitude.

Por tudo isto, a arte moderna é o resultado de um vasto e indefinido campo de influências e de forças que estão longe de ser dominadas, ou até de o quererem ser, mas que refletem a pretensão a ser, delas, concretização estética. E a sua eventual complexidade, ambiguidade e ininteligibilidade, resultante da multiplicação e reconversão da ângulos e perspetivas, teria forçosamente que refletir, a muitos níveis, essa revolução.

É bom não esquecer que a revolução industrial veio levantar problemas nunca antes vividos, e transformar modelos de vida, de sensibilidade e de entendimento com séculos e séculos de vigência. Era inevitável pois que a chamada arte moderna procurasse traduzir tudo isto, mas também era de prever que iria criar anticorpos e reações um pouco por todo o lado. É hoje evidente que muito do que foi tentado não tinha condições para vingar, e todos os que, sem talento, tentaram navegar as novas ondas, talvez pensando que as condições de matéria e forma podiam subverter-se sem males de maior, perderam e continuam a perder a batalha. Entretanto, imensos contributos modernos foram já assimilados e tornados indispensáveis, nos atuais cânones.

Neste sentido, a arte moderna – das artes plásticas, à música, da arquitetura à literatura – é um extraordinário campo, de glórias e de desgraças, de sucessos e de insucessos, de aceitações e de repúdios, mas que o tempo já vai separando, e continuará a separar. 

João Boavida

Quando um amigo te trai

Quando um amigo te trai,

Deixa-o atravessar a terra,

E, ao regressar, o teu olhar,

A tua fadiga, a tua tristeza.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Toca-me quando dizes o meu nome

Toca-me quando dizes o meu nome.

É como se fosse tudo o que eu tento.

O nome é o peito que se consome,

Que mesmo longe eu ouço contra o vento.

 

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...