domingo, 7 de fevereiro de 2021

BANIR OU NÃO BANIR O CHEGA


Novo texto de Eugénio Lisboa: 

A minha ex-colega na embaixada de Portugal, em Londres, Ana Gomes, pessoa cuja inteligência, energia e coragem muito admiro – tendo um invejável percurso em defesa de grandes causas – fez recentemente uma participação à PGR no sentido de se ilegalizar o CHEGA. O assunto é complexo e o paradoxo democrático que implica não é de hoje. António Barreto, no Diário de Notícias, classifica expeditamente o acto da diplomata portuguesa, sem a ela explicitamente se referir, como estúpido e irracional. 

Acho curioso e um bocadinho bizarro um juízo tão expedito e sumário sobre uma perplexidade que tem preocupado os filósofos desde Platão para cá: a de saber-se se os tolerantes devem ou não tolerar os intolerantes. Há quem pense que sim, seja qual for o grau de intolerância, a bem da pureza da democracia. 

O notável filósofo Karl Popper chamou a isto o “paradoxo da democracia” porque, se por um lado, não aceitar tolerantemente a intolerância dos outros pode ferir a imagem da democracia, por outro, aceitá-la pode levar à morte dela. O problema não é de fácil solução, pelo que não deve ser despachado à pressa, com dois qualificativos injuriosos. No seu notabilíssimo livro – The Open Society and its Ennemies – Popper pronunciou-se, não só do alto da sua imensa cultura filosófica e científica, mas também ao sabor da sua experiência de cidadão austríaco que assistiu ao assalto ao poder congeminado pelas hostes de Hitler, que a República de Weimar não quis ilegalizar (mesmo depois de Hitler ter deixado bem claro ao que vinha). 

A democracia alemã jogou o jogo da democracia impoluta e os nazis aproveitaram-se dessa fraqueza para se alcandorarem ao poder, alterando então as regras para se perpetuarem nele. Ficou-se à espera do “crime cometido” para só então se poder “democraticamente” agir. Simplesmente, uma vez cometido o crime, já era tarde para o punir e corrigir.

Quando se diz que, só quando o CHEGA cometer um claro atentado violento (“tiros e pistolas”) contra a democracia, se poderá ilegalizá-lo, está-se a escancarar a porta a uma tirania. 

A verdade, repito, é que o partido nazi já tinha deixado bem claro ao que vinha, e não me parece particularmente sensato que se tenha ficado à espera de ele destruir toda a Europa, para, finalmente, se intervir. 

O CHEGA já deu claramente indícios de que não quer jogar o jogo da democracia e quem não quer jogar segundo as regras do jogo não deve sentar-se à mesa de quem joga. Pode ser que assim, como se diz, a democracia fique ligeiramente imperfeita, mas é preferível ficar com ela imperfeita a assistir ao seu suicídio, a bem da pureza.

A perfeição não é deste mundo e eu prefiro viver com uma democracia um bocadinho imperfeita a cair de novo na ignomínia de um regime regido por um tiranete. 

Os demagogos intolerantes e famintos de poder fazem-me e sempre me fizeram mau sangue. Como dizia o meu admirado Jean Rostand, grande biólogo, excepcional escritor e admirável pensador aforístico, “há, na intolerância, um grau que confina com a injúria”

Eugénio Lisboa

O ESPELHO BAÇO DO RACISMO

“Ninguém nasce odiando outra pessoa por sua cor da pele, sua origem ou sua religião. As pessoas podem aprender a odiar e, se podem aprender a odiar, pode-se ensiná-las a aprender a amar. O amor chega mais naturalmente ao coração humano que o contrário" (Nelson Mandela).

De um artigo de opinião, assinado por José António Saraiva, director executivo do semanário “SOL”, “A pátria está doente”, reproduzo este naco de prosa,  subtitulado “O ‘regresso’ do racismo” (06/02/2021):

“A extrema esquerda insiste constantemente na ideia de que os portugueses são racistas e deviam fazer mea culpa. Ou seja: andamos a explorar os negros em África e agora maltratamo-los aqui, em Portugal. Mais uma vez, é o nosso orgulho que sai amachucado.

Mas será verdade?

Os episódios racistas multiplicam-se em Portugal? Há violência estrutural sobre os negros? Alguém é recusado num emprego por ser negro? Os futebolistas negros não são tão adorados como os outros?

[Em registo  pessoal, embora Eusébio tenha sido alcunhado,  com amizade e respeito, por  “pantera negra”, como toda a regra tem excepção, Marega, em nossos dias, foi vítima de despudorado racismo verificado,  por o pontapé na bola embotar os sentimentos].

Em certas áreas, não haverá até hoje até uma  discriminação positiva dos negros, eventualmente por complexos de culpa, observável por exemplo nos anúncios televisivos (que quase todos incluem negros?). Ou nas telenovelas?

É certo que a maior parte dos negros em Portugal exerce profissões menos qualificadas, designadamente na construção civil. Mas isto resulta mais da falta de habilitações (e, às vezes, da falta de documentação) do que da cor da pele.

Há episódios racistas em Portugal? Claro que há. Como em todo o mundo. Mas nada tem feito mais pelo racismo que as organizações antirracistas. E as desastrada campanhas antirracistas. E as descabeladas afirmações de senhores como Mamadou Ba.

Esses sim: fomentam o racismo.

Parece mesmo que essas organizações antirracistas, para se justificarem, gostariam que a maioria dos portugueses fosse racista Era a forma de mostrarem a sua razão de existir. Se não houver racismo. Ou se o racismo for residual, para que servirão elas?”. 

(Fim de citação).

E aqui,  não resisto em lembrar o exemplo de ucranianos, refugiados da sua pátria em chamas de guerra e devastação económica com formação universitária, médicos, por exemplo, que tiveram de se sujeitar a trefas de pessoal da limpeza de hospitais. Terá sido por racismo dos portugueses para com os ucranianos brancos?!

Por este status quo ser uma questão que tenho dedicado atenção sem intuitos sociológicos, em outras razões,  para não ser acusado de exercício  ilegal de profissão, apenas por ter nascido em Angola, filho de pais metropolitanos  e ter  vivido em Moçambique durante 18 saudosos anos,  terra que me acolheu como sendo seu filho,  fui empurrado por ventos ciclónicos da “descolonização/Abril de 74”, tida pela esquerda portuguesa como “exemplar”.

Em consequência,  não consigo ficar indiferente a situações em que Mamadou Ba e Joacine Katar Moreira insultam constantemente os portugueses que acolheram em sua terra gentinha que distila  ódio por todos os poros enquanto  se promovem social e economicamente em Portugal, atirando para traz das costas ideologias tidas pretensamente como  humanitárias em que o dinheiro tudo corrompe, a exemplo de Judas  que entregou Cristo por trinta moedas.

Seja a título que for, numa época em que há crianças, neste jardim à beira-mar plantado, que passam fome e velhos que vivem  na rua, tenho como marginal estar-se a discutir o racismo como se fosse prioritário para um país que "deu novos mundos ao mundo", imperfeito porque imperfeita é a condição humana.

Mamadous e Joacines, em vez de ajudarem os países onde viram nascer a luz do dia, entretêm-se em conveniência rendosa própria  em lançar bidons de gasolina para a fogueira de pequenas labaredas de um discutível racismo em vez de água para apagarem um ódio que arde sem as proporções dantescas que lhe querem atribuir esquecendo as mordomias de que gozam nesta terra hospitaleira, mas não estúpida,  mesmo em dias invernosos de coronavírus. Haja um mínimo de consciência num mundo global de inconscientes. Será pedir muito?

Para que se não julgue  que sou um arrivista  que se aproveita desta ocasião para, como se diz na gíria, botar faladura, transcrevo abaixo um artigo por mim escrito e aqui publicado (29/06/2020), intitulado “O CAVALO DE TRÓIA DO RACISMO NEGRO":

 “Temos de aprender a vivermos como irmãos ou morreremos todo como loucos” (Martin Luther King). 

Por norma, associa-se o racismo à população branca de países maioritariamente brancos colhendo exemplo no nazismo quando Hitler, em defesa da eugenia,  se recusou, nos Jogos Olímpicos de Berlim (1936), a apertar a mão ao negro Jesse Owens vencedor de quatro medalhas olímpicas nesse evento. 

Em nosso tempo, com sinais de ódio fora de controlo, surge, em oposição ao racismo branco, o racismo negro qual Cavalo de Tróia que, insidiosamente, pela calada da noite, se vai infiltrando, sob o manto de falsa inocuidade, assumindo o papel de odiosa pena de Talião de remoto tempo do direito hebraico. Curiosamente, quando as negras esticam o cabelo para lhe tirar a crespura ou descoloram a negrura da tez, assiste-se a uma forma de racismo que descaracteriza a sua carga genética, tornando-as clientes habituais da famosa marca de cosméticos francesa L’Oreal que alterou o nome de um seu creme branqueador da pele para clareador da pele.

Há racimo negro quando matulões negros espancam selvaticamente desprotegidos adolescentes brancos, roubam descaradamente prateleiras de supermercados ou tossem intencionalmente para cima de verduras aí à venda filmando os seus actos para passarem na Net, vangloriando-se de ”justiceiros” em desforra de uma sociedade que têm como madrasta, e não cumprindo, como tal, o princípio de em Roma ser romano, atentando, pelo, contrário, sistematicamente contra as leis vigentes no país que os acolheu ao apedrejar os agentes policiais encarregados de as fazerem cumprir em manifestações anti-racistas. Lançam, desta forma, achas para a fogueira que reacende o racismo. 

Há racismo negro sempre que Joacine Katar Moreira insulta grosseiramente o Estado português que lhe concedeu a nacionalidade, abrindo-lhe o caminho para um lugar de destaque na Assembleia da República Portuguesa. Trata-se de uma tremenda ingratidão por parte desta deputada.

Há racismo negro quando Mamadou Ba, senegalês de nascimento, naturalizado português, dirigente do SOS Racismo, incita os negros a manifestações  que fazem perigar vidas, assumindo  ele o papel de chefe da matilha de lobos esfaimados e vingativos e imputando a inocentes carneirinhos  a responsabilidade por actos cometidos pelos seus ancestrais, como se a história não devesse ser estudada em função da época em que os factos se passaram.

Suponhamos que estas situações vivenciadas em Portugal tinham lugar na Guiné ou no Senegal com portugueses naturalizados nesses países! Gozariam eles da mesma benevolência? Decididamente, respondo: não!  Como escreveu Sophia de Mello Breyner, "não se deve  criar em nome do anti-fascismo um novo fascismo.” Por idêntica razão defendo que em nome do anti-racismo branco não se deve ciar um racismo negro!

Honra seja feita a Moçambique independente, que trata como gente amiga os portugueses que aí vivem, viveram ou a ela retornam em visita saudosa não se deparando, inclusivamente, com a destruição iconoclasta de estátuas portuguesas do tempo colonial, resguardando-as em armazéns. O passado da história não se apaga rasgando páginas de livros ou fazendo desaparecer da memória de moçambicanos personagens portuguesas que dela fazem parte. 

Este é o conceito de justiça social que defendo, à outrance, livre de tochas que incendeiem uma sociedade, fazendo com que o homem seja lobo do próprio homem, em crítica sociológica de Thomas Hubber. O racismo, tenha a cor que tiver, não deve servir de arma de arremesso ao serviço de pessoas que, fazendo-se de vítimas, se tornam, elas próprias, algozes  que cinicamente deturpam a história a seu bel-prazer ou conveniência”.

As ilações a tirar do que aqui transcrevi, com origem no semanário SOL e no blogue “De Rerum Natura”, serão enriquecidas com comentários dos leitores porque ninguém é senhor da verdade absoluta. Aliás, já se interrogava Ortega Y Gasset e respondia, simultaneamente,  sobre a verdade: “O que é a verdade? A verdade é, frente ao dogma, discussão permanente!”

ISTO NÃO ASSUSTA OS PROFESSORES?

Mostrei a uma pessoa que, em termos profissionais, tem estado longe da educação, os Quatro Cenários da Educação do Futuro da OCDE, apresentados há poucos dias por essa organização, e de que deixei breve comentário neste blogue (Como será a escolaridade no futuro? Quatro cenários da OCDE - 2021). Essa pessoa, leu, no respeitante ao primeiro cenário, o que abaixo transcrevo e perguntou-me "isto não assusta os professores?". Não lhe soube responder, mas suponho que os professores pensam que se trata de um cenário utópico, que nunca há-de chegar à sua escola. Contudo, ele é bem concreto, faz parte do "novo normal" e já está dentro da escola.

                      (...)
"As escolas e suas redes podem usar economias de escala para planear e implantar recursos de maneira mais eficaz, aproveitando a digitalização e os sistemas de informação de dados. Surgiu uma divisão de tarefas mais marcada e uma maior diversificação dos perfis profissionais em contexto escolar. Um corpo docente reduzido, mas singular e bem treinado permanece encarregado de projectar conteúdos e actividades de aprendizagem, que podem ser implementados e monitorizados por robôs educacionais juntamente com outros funcionários com diversos acordos de trabalho (voluntários/pago, meio tempo/ integral tempo, presencial ou online), ou directamente por software educacional. Novas funções, como analistas de dados de aprendizagem, vão aumentar, situando-se em redes escolares ou em outros lugares («indústrias de aprendizagem»)."

sábado, 6 de fevereiro de 2021

QUE ME PERDOEM OS CRÍTICOS LITERÁRIOS

                                
“Casos, opiniões natureza e uso / Fazem que nos pareça nesta vida / Que não há nela mais que o que parece” (Luís de Camões).

 Acabo de ler que o escritor António Lobo Antunes  é dos 49 nomeados para o Prémio Literário Dublin 2004, com o livro: “Até que as pedras se transformem leves como a água” (Lusa, 04/02/2021).

Que me perdoem os críticos literários de eu simples sapateiro de Apeles ter escrito o texto, “Lobo Antunes e Saramago,duas personalidades nas antípodas” (“De Rerum Natura”, 04/02/2021). E, principalmente, reincida transcrevendo-o que a ocasião de júbilo para a literatura portuguesa entendo conceder. Assim:

“O post de Augusto Küttner de Magalhães António Lobo Antunes, aqui publicado em anterioridade, teve, entre outras, a legitimidade e a virtude de trazer para a discussão pública os traços de personalidade bem diferentes de “dois bons escritores portugueses” e de enfatizar o que de bom para as Belas-Letras os dois representam.

Uma coisa comum os irmana: o terem ambos estado recentemente em situação de doença grave, que fez perigar as suas vidas. Para António Lobo Antunes essa proximidade com a morte, julgo eu, tornou-o mais humano, e aproximou-o mais de Deus. No caso de José Saramago, julgo eu, ainda, exaltou-lhe a doxomania bem patente nas entrevistas que dá sobre os livros que publica numa espécie de mercantilismo literário.

Mas reconheço falecerem-me conhecimentos para penetrar na insondável mente humana e seus desígnios. A outros caberá essa missão que poderá explicar o sadismo de José Saramago em chocar a opinião pública com o seu deambular incansável em temas de carácter religioso arreigados no povo por tradição, como diria Fialho de Almeida, para se alcandorar ainda mais alto ao Olimpo da fama. Seja com a preciosa ajuda dos seus apoiantes incondicionais ou seja, ainda, no papel de vítima perante os que dele discordam, num país que, segundo ele próprio diz, incorre no risco de desrespeitar o direito à liberdade de opinião numa espécie de retorno a fogueiras inquisitoriais. E aqui a sua razão pode encontrar caboucos sólidos na opinião de um juiz norte-americano: “O direito à liberdade de expressão não protege o direito de ter razão, mas o direito a não a ter”. Ou seja, os que discordam da sua razão devem respeitar o direito de Saramago em não ter razão.

Aliás, as críticas que lhe são feitas devem alinhar pelo mesmo diapasão. Os que discordam dos seus obcecantes e desvairados ataques à fé cristã têm o direito a não terem razão ou de darem razão ao Papa Bento XVI: “Quem quiser fugir das incertezas da fé terá de suportar as incertezas da ausência de fé, e nunca poderá dizer que a fé não é a verdade”.

Falemos agora de António Lobo Antunes e dos seus traços de personalidade que o colocam nos antípodas de José Saramago. Ou melhor, deixemos ser Laurinda Alves a falar dele numa bela crónica, intitulada “É bom beijar um homem e eu não sabia” (“I”, 24/25 Outubro 2009), sobre uma entrevista dada na RTP a Judite de Sousa. Escreve ela, a certa altura:

“António Lobo Antunes, o escritor que não gosta de falar de si nem gosta particularmente de ser entrevistado, aceitou ir ao programa de Judite de Sousa na quinta-feira passada e deu uma entrevista colossal. Falou de livros e escritas, hábitos e gostos, amigos e programas, e também de homens e mulheres marcantes na sua vida. Disse coisas maravilhosas naquele seu tom grave, meio surdo. De quem por princípio desconfia mas acaba sempre por demonstrar uma ternura fundamental. (…) Falaram sobre tempos antigos e coisas de agora, divagaram sobre o sentido da vida, nomearam Deus e elevaram a conversa a níveis de transcendência. Tocaram fatalmente nas questões que envolveram a doença e a convalescença do escritor. ‘O que passei a fazer diferente? Olhe, passei a beijar os meus amigos. É bom beijar um homem e eu não sabia’”.

Aceitemos, pois, a dádiva divina (ainda mesmo que a Saramago não agrade, porventura, a expressão) de termos em nossa contemporaneidade dois vultos grandes da cultura, e aceitemos, também, os traços idiossincráticos de duas personalidades tão diferentes mas afinal tão próximas do génio que os caracteriza como património literário de uma aldeia global sem fronteiras. Perante a intransigência de José Saramago em aceitar os princípios da fé cristã não se deixará de cumprir o propósito do filósofo Martin Buber: 

"Deus não me pedirá contas de eu não ter sido Francisco de Assis ou mesmo Jesus Cristo. Deus vai-me pedir contas de não ter sido eu completa e intensamente”. 

Ora, inegavelmente, Saramago é uma personalidade que vive o seu eu “completa e intensamente”. Pelo menos por este lado, o Nobel da Literatura pode dormir descansado! (Fim de citação).

De Jean de La Buyére, a promessa, “sê atrevido e terás sucesso”. Apesar desta promissória que a tenho por enganosa, porque nem sempre cumprida, mais do que temo, apavoro-me que o leitor ponha a minha cabeça no cepo da opinião pública interrogando-me: Quem te mandou a ti, sapateiro, tocar rabecão correndo eu riscos que a promissória optimista de Jean de La Bruyére te não contempla? E o machado do carrasco decapita-me em pena merecida ou não, sem apelo nem agravo! Até para evitar veleidades minhas futuras.

FAREED ZAKARIA E O FUTURO DO MUNDO


Meu artigo publicado no jornal I de ontem:

Nascido em Mumbai (ex Bombaim, a cidade que a coroa portuguesa transferiu para a coroa inglesa como dote de D. Catarina de Bragança), mas emigrado há muitos anos para os Estados Unidos, Fareed Zakaria é uma das figuras mais conhecidas nos média internacionais. Os portugueses podem vê-lo e ouvi-lo na RTP3 no programa GPS - Global Public Square, emitido semanalmente na CNN, ao vivo de Nova Iorque, chegando a mais de 200 milhões de lares em todo o globo. O programa começou a ser emitido em 2008 e continua de vento em popa. Há um arquivo na RTP Play: o último que vi foi o episódio 58 da actual temporada, de 30 de Janeiro, que tratou do novo presidente americano e da vacinação contra a COVID-19. Zakaria, no seu take inicial, declarou que se devia passar para o dobro a meta de Biden de vacinar um milhão de americanos por dia. Biden passou logo para milhão e meio.

Zakaria é licenciado na Universidade de Yale e doutorado em Ciências Políticas pela Universidade de Harvard (onde estudou sob a orientação de Samuel Huntington, o autor de O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, Gradiva, 1999). Depois de uma curta carreira académica foi editor da Foreign Affairs, da Newsweek e da Time, e é, actualmente, para além do seu programa na CNN, autor de uma coluna semanal no The Washington Post. É também autor de uma meia dúzia de livros, dos quais quatro estão traduzidos em português, todos eles na Gradiva, uma editora que se tem distinguido na área das relações internacionais. Por ordem cronológica de publicação entre nós elenco: O Futuro da Liberdade. A Democracia Liberal nos Estados Unidos e no Mundo (2004) e O Mundo Pós-Americano (2008), A Ordem Liberal Internacional Terá Chegado ao Fim? (2019) e, saído em Novembro passado (um mês depois do original saído na W.W. Norton), Dez Lições para um Mundo Pós-Pandemia. As teses destes bestsellers internacionais são muito oportunas: no primeiro lembra que a constitucionalismo liberal precedeu a democracia, prevenindo-nos dos perigos das democracias iliberais; no segundo fala da emergência de novas potências como a China e a Índia; no terceiro discute com o historiador britânico Niall Ferguson a sobrevivência do sistema liberal internacional; e no último faz um exercício de prospectiva sobre o mundo que virá após a actual pandemia.

A tradução de Dez Lições para um Mundo Pós-Pandemia foi de Inês Fraga e Sara Lutas (a Gradiva é das poucas editoras a colocar o nome dos tradutores na capa) e a revisão literária de Hélder Guégués, o autor de Em Português Se Faz Favor (Guerra e Paz, 2015). A capa, de Armando Lopes, serve-se de uma imagem da Terra cuja sombra tem o perfil do novo coronavírus. O vírus tornou-se do tamanho do mundo, apesar da sua pequenez. Diz Zakaria logo no início: “Na verdade, o novo coronavírus mede cerca de 1/10 000 em relação ao tamanho do ponto final desta frase.” O autor foi uma das pessoas que previram a pandemia, como lembra a contracapa. Com efeito, em 25 de Junho de 2007, no seu programa da CNN, afirmou que “uma das maiores ameaças que os Estados Unidos têm de enfrentar não é, de todo, grande. Na verdade, é minúscula, microscópica, dezenas de vezes mais pequena do que a cabeça de um alfinete.”

Depois de uma introdução e antes de uma conclusão são dadas as “dez lições” sobre o futuro do mundo. Alinho aqui os títulos, escolhendo uma citação que resuma o conteúdo de cada um;

1— “Apertem os cintos”. É a hora de travar o ritmo acelerado da humanidade em direcção ao futuro: “Não fizemos seguro. Nem sequer pusemos os cintos de segurança. O motor aquece. Partes sobreaquecem e, por vezes, até pegam fogo. Tive­mos alguns acidentes, cada qual um pouco pior do que o anterior. Portanto, arrefecemos o veículo, afinamos a suspensão, reparamos a carroçaria e decidimos fazer melhor. Todavia, continuamos num ritmo de corrida e em breve estamos a acelerar rumo a um terreno novo e ainda mais acidentado. É muito arriscado.”

2— “O que importa não é a quantidade, mas a qualidade do governo”. É uma defesa de governos pequenos, mas eficientes (o que não temos em Portugal!): “Aumentar pura e simplesmente o tamanho de um governo pouco faz para resolver os problemas sociais. Um bom governo consegue‑se com um poder limitado, mas com linhas claras de autoridade. Consegue‑se por meio da autonomia, da discrição e da capacidade de os funcionários pensarem por si. Exige que se empregue gente brilhante e dedicada, inspirada pela possibilidade de servir o seu país e ser respeitada por isso.”

3— “Os mercados não são suficientes”. O autor cita um editorial do Financial Times de 3 de Abril de 2020, cujo teor foi algo inesperado: “Os governos terão de desempenhar um papel mais activo na economia. Têm de encarar os serviços públicos como investimentos, e não como passivos, e também procurar formas de tornar os mercados de trabalho menos inseguros. A redistribuição de riqueza tornar‑se‑á de novo um tema fulcral, e os privilégios dos idosos e dos ricos serão postos em causa.” 

4— “As pessoas deviam ouvir os especialistas — e os especialistas deviam ouvir as pessoas.” Segundo Zakaria: “Vamos precisar de mais especialistas, não de menos, para gerir os negócios das nações — de grandes empresas a pequenos concelhos — durante estes tempos. Isso faz deles, inevitavelmente, uma espécie de elite, um grupo cujo conhecimento lhes confere autoridade e poder. A alternativa é impensável na era moderna: o governo por instinto e a celebração da ignorância. (…) Mas especialistas e elites deveriam envidar grandes esforços para pensar sobre como estabelecer uma ligação às pessoas.”

5— “A vida é digital”. São necessárias competências digitais, mas elas só por si não chegam: “Du­rante grande parte da História, os seres humanos foram elogiados por muitas qualidades além do seu poder de cálculo — bravura, lealdade, generosidade, fé e amor. O movimento da vida digital é amplo, rápido e real. Mas talvez uma das suas consequências mais profundas seja levar‑nos a estimar as coisas em nós que são mais humanas.”

6— “Aristóteles tinha razão: somos animais sociais”. O autor olha já para o fim do desconfinamento: “Os humanos criam as cidades e as cidades criam os humanos — são dois lados da mesma moeda. Mesmo quando enfrentam calamidades, as cidades crescem e perduram, porque a maioria é naturalmente propícia a participar, colaborar e competir. As razões para viver em meios urbanos podem variar — trabalho, companheirismo, entre­tenimento, cultura, ou uma combinação de tudo isto. Todavia, no cerne de todos estes motivos esconde‑se a necessidade profunda de interacção social.”

7— “A desigualdade vai piorar”. Como a pandemia está a agravar desigualdades, Zakaria pede igualdade na saúde: “Se, como é altamente provável, tivermos de enfrentar outra pandemia, temos de reconhecer que é necessário dar prioridade à segurança e à saúde, seja dos ricos seja dos pobres. Este é o tipo de igualdade a que deveríamos aspirar.”

8— “A globalização não está morta”. Depois de discutir a ascensão da China, alavancada pela globalização, chama a atenção para os perigos da deflagração de um conflito com os Estados Unidos: “a globalização não está morta. Mas podemos matá‑la.”

9— “O mundo está a tornar‑se bipolar”. Aprofunda a relação entre a China e os Estados Unidos: “Perante os contornos da política internacional do futuro, torna‑se claro que a bipolaridade é inevitável. Uma guerra fria permanece em cima da mesa.”

10— “Por vezes os mais realistas são os idealistas”. Explicando melhor: “O idealismo que subjaz ao liberalismo é simples e prático. Se as pessoas cooperarem, conseguirão alcançar melhores resultados e soluções mais duradouras do que se agissem isoladamente. Se as nações conseguirem evitar a guerra, os seus povos estarão mais tempo na liderança, serão mais ricos e terão vidas mais seguras. Se se tornarem interligadas no âmbito económico, todos iremos sair a ganhar.”

A mim parecem-me previsões clarividentes, apesar de o futuro ser sempre uma caixa de surpresas. Muito provavelmente vai acertar mais vezes, como já acertou com o surgimento do vírus. Zakaria reúne duas grandes qualidades: uma é a sua enorme preparação e outra é a agilidade do seu raciocínio. Não se tem furtado a tomar posições: esteve de início a favor da invasão do Iraque para a seguir reconhecer que foi um disparate e colocou-se ao lado de Obama logo que este concorreu a presidente nas primárias dos Democratas. Do ponto de vista religioso, reconhece-se muçulmano, mas afirma-se secular: diz que está algures entre o deísmo e o agnosticismo. Tem também algumas máculas: por exemplo, em 2012 foi suspenso por uma semana pela Time e pela CNN devido a uma acusação de plágio: uma citação não sinalizada que o próprio reconheceu ter sido um “erro terrível”.

Além do mais, Zakaria escreve bem, num estilo jornalístico tão sedutor como bem documentado (como mostra a quantidade enorme de notas no final). Deixo ao autor a última palavra, tirando-a do final da obra: “Os soldados que morreram durante a Segunda Guerra Mundial deram‑nos a oportunidade para construir um mundo melhor e mais pacífico. Por isso, também no nosso tempo, esta pandemia horrenda nos está a dar uma oportunidade de mudança e reforma. Abriu um caminho para um novo mundo. Está do nosso lado aproveitá‑la ou desperdiçá‑la. Nada está escrito.”

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

OS MAMÕES DA POLÍTICA!


 “Atrás de mim virá quem de mim bom fará” ( ditado popular).

Da minha lavra, uma correcção ao ditado em epígrafe: "Atrás de mim virá quem o mesmo ou pior fará"!

Costumava eu dizer aos meus alunos que nem sempre se verifica o aforismo latino: “Vox populi, vox Dei”. Para o efeito, apresentava eu ditados que se contradiziam que deles me  não lembro que a memória vai sendo destruída como os edifícios velhos que ruem com o peso da idade.

Confesso que tenho sido implacável para com a nomeação de uma corte de familiares que são nomeados para acompanhar o pater familia em cargos governativos. E apresentava exemplos da prática socialista, em que todos os meios eram postos ao serviço desse desiderato. Como  exemplo desse verdadeiro regabofe político o caso, entre outros, do governo dos Açores sob a liderança de Carlos César.

Com desmedido estupor meu vejo agora, essas minhas críticas encontrarem terreno fértil no PSD “tendo como objectivo “destronar a liderança socialista no arquipélago”. Nunca a palavra “destronar” teve uma aplicação tão ambígua por o seu verdadeiro significado, no caso presente, ser “ocupar” a liderança socialista no arquipélago com todos os defeitos ampliados de esbanjamento dos dinheiros públicos.

Com essa finalidade, segundo o “Expresso”, o PSD de José Manuel Bolieiro, antigo presidente da câmara de Ponta Delgada, juntou-se num acordo político com o PPM e o CDS-PP, válido para duas legislaturas, e fez acordos de incidência parlamentar com o Chega e o Iniciativa Liberal.

E prossegue a notícia, que apesar das críticas ao anterior governo, o novo executivo tem mais um secretário regional e mais um subsecretário regional — cada um destes tem um chefe de gabinete, dois adjuntos e um secretário pessoal, revela o semanário “Expresso. Para além disso, há também mais dois adjuntos e uma secretária pessoal, mais oito diretores regionais ou cargos equiparados, e mais dez técnicos especialistas nos gabinetes dos membros do governo regional que recebem pelo menos o equivalente à remuneração de um adjunto, cerca de 3300 euros brutos.

O mesmo jornal aponta ainda para cerca de uma dezena e meia de familiares, ligados ao governo ou aos partidos que o compõem, já nomeados para cargos públicos ou em vias de o serem.

O líder do CDS-PP Açores, Artur Lima, que é vice-presidente do governo regional, desvalorizou as estimativas do jornal quando ao acréscimo dos gastos com o executivo de direita. Lima afirmou que “as contas fazem-se no fim” e garante que “no fim vão ver que este governo será mais poupado. Serão feitos cortes em direções de serviços, chefias de divisão, chefias atípicas, cargos criados de nomeação política, etc.” (Fim de citação).

Como eu gostaria, a exemplo de Schopenhauer, que a minha memória agisse como a lente convergente na câmara escura que reduz todas as dimensões e produz, dessa forma uma imagem bem mais bela do que o original. Mas não! A  câmara escura da minha memória, neste caso, dá-me a imagem de mudar para ficar tudo na mesma, ou ainda pior, por o poder corromper, por ser  próprio da natureza humana com raras excepções, cada vez mais raras ou mesmo nenhuma.

E assim caminha “cantando e rindo” este país republicano, correndo o risco de colapso económico, sem rei nem roque,  mas com uma corte de reizinhos que tudo querem,  tudo podem e tudo fazem a seu bel-prazer!

Apresentação do livro "Homo Ignarus: Ética Racional para um Mundo Irraci...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

O [ETERNO] CONFLITO DE GERAÇÕES


                                                 (Duas gerações: eu e meu filho Nuno)

Reproduzo o “post”, da minha autoria, publicado neste blogue (07/11/2007), "O conflito de gerações", por o ter sempre actual num mundo educativo  em eterna convulsão em que pais saudosos evocam constantemente o jargão “no meu tempo”,  como se, esse tempo, fosse uma época de ouro livre de mácula com filhos bem comportados e respeitadores. Acrescento, como tal, ao título inicial, a palavra "eterno": "O eterno conflito de gerações”. Segue-se essa reprodução na íntegra:


“Transformou-se num lugar-comum atribuir às gerações actuais a responsabilidade pela perdição do mundo. Todos “sacodem a água do capote” (expressão usada na gíria militar), alijando as responsabilidades próprias. Os nossos pais disseram-no em relação a nós e nós, por nossa vez, dizemo-lo em relação aos nossos filhos.

Mais afoito, porque o fez publicamente, o médico inglês Ronald Gibson (1909-1989), numa conferência pública, começou por citar quatro frases denunciantes do comportamento dos jovens que levam à desesperança no futuro. São elas:

1. “A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais, são simplesmente maus”.

2. “Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível”.

3. “O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe”.

4. “Esta juventude está estragada até ao fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de antigamente… A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura”.

Houve uma aquiescência na sala! E o conferencista ficou satisfeito com a aprovação geral. E o leitor?

Antes de dar o seu veredicto, impõe-se um esclarecimento sobre os autores das frases. Foi o que o médico fez. Assim, a primeira frase é de Sócrates (470-399 a.C.), a segunda de Hesíodo (720 a.C.), a terceira de um sacerdote do ano 2000 a.C., a quarta encontrou-se escrita num vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia tendo mais de 4000 anos" (fim de citação).

Saibamos aproveitar a lição. De futuro, quando invectivarmos a juventude, não digamos “a juventude deste nosso tempo”. Digamos, a juventude - “tout court”. Desta forma, distribuiremos o mal pela poeira dos tempos, podendo a badalada polémica sobre a “juventude rasca” encontrar alibi em críticas com origem há quatro milénios.

P.S.: No tempo em que esta foto foi tirada, não sabíamos, nem eu nem o meu filho, o que era isso de conflito de gerações, que foi fazendo o seu percurso devagar, devagarinho!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Tempos de pandemia: a importância da ciência - Vídeo da Texto com Carlos Fiolhais e João Paiva

PREFÁCIO DE PETER SINGER AO LIVRO "HOMO IGNARUS: ÉTICA RACIONAL NUM MUNDO IRRACIONAL" DE STEVEN GOUVEIA

Peter Singer, professor em Princeton e Melbourne, é um dos mais reputados filósofos contemporâneos. O livro sobre ética foi publicado pela MinervaCoimbra:

Ao longo da minha carreira académica, escrevi sobre diversas questões de ética aplicada. Um dos meus primeiros artigos, “Fome, Afluência e Moralidade”, publicado em 1972, abordou o problema da pobreza distante. Continuo presentemente a escrever sobre esse tema. Aquando da escrita deste prefácio, a minha publicação mais recente é a edição do décimo aniversário revista do meu livro A Vida Que Podemos Salvar. 

Muitas pessoas, desde bilionários como Dustin Moskovitz e Cari Tuna, até aos estudantes de pós-graduação Toby Ord e Will MacAskill, que iniciaram o movimento do Altruísmo Eficaz, foram influenciados pelos argumentos que aí defendi. Tal levou a que centenas de milhões de dólares adicionais tenham contribuído para instituições de caridade altamente eficazes, ajudando pessoas em extrema pobreza, salvando muitas vidas, restaurando visão ou melhorando a saúde a muitas outras. Mas não precisa de ser milionário para fazer a diferença. Como o leitor irá notar no primeiro capítulo deste livro, todos nós podemos agir para melhorar o mundo. 

Em 1975, publiquei Libertação Animal, que procurava responder à pergunta: Como devemos tratar os animais não humanos? Com base em factos empíricos relevantes para o debate, defendi que a maneira com que lidamos com os animais não humanos é indefensável e que nós, como sociedade e também como indivíduos, devemos fazer algo a este respeito. Muita coisa mudou desde então e algum progresso aconteceu efectivamente, mas há ainda um longo caminho a percorrer. 

A minha posição sobre o problema da eutanásia também é bem conhecida: afirmo que, em algumas circunstâncias, não há nada de moralmente problemático em ajudar alguém a morrer, quando essa pessoa é competente, bem informada e reflectiu sobre as opções que lhe foram oferecidas. Muitas das minhas posições eram altamente controversas quando as publiquei pela primeira vez, e algumas continuam a sê-lo. 

Neste livro, Steven S. Gouveia analisa estes e outros problemas éticos em detalhe, contrastando as várias posições existentes. Por exemplo, no sétimo capítulo, sobre ética animal, o autor explora a variedade de posições que podemos encontrar entre os defensores dos animais. É minha esperança que este tipo de discussão racional e troca de argumentos possa conduzir a algum progresso. 

É, portanto, importante reconhecer que, embora a Ética, como disciplina da Filosofia, seja uma reflexão abstracta e ponderada sobre várias ideias teóricas, esta área de investigação tem uma aplicação prática e pode influenciar, para o bem ou para o mal, o mundo real. 

Além dos temas sobre os quais trabalhei, o leitor encontrará distintos tópicos que são interessantes e relevantes para o mundo em que vivemos actualmente. Esses tópicos incluem como devemos pensar eticamente sobre as novas tecnologias, como a Inteligência Artificial, e a relação entre humor, ética e liberdade de expressão. 

O objetivo de Steven é claro: podemos fazer mais para alcançar um mundo cada vez mais justo e ético. Mesmo que o leitor não concorde com todas as ideias aqui apresentadas, deve haver uma aceitação geral de que debate rigoroso como apresentado neste livro é o caminho para o progresso ético. Espero que este livro introduza muitos leitores a novas ideias e que o faça pensar nas suas crenças mais básicas e, talvez, reformular algumas de suas ideias pré-estabelecidas sobre estes temas. E também desejo que, reflectindo sobre questões éticas, o leitor queira saber não somente o que é eticamente correcto, mas que deseje ser melhor, algo que, como irá ver, está ao alcance de cada um de nós.

Princeton, 10 de Dezembro de 2019

 Peter Singer 

A CRIAÇÃO DA OITAVA FACULDADE DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Porque, segundo Hugo Belfi, "as memórias são como as palavras, o tempo e a distância corroem-nas como o ácido", julgo de interesse rememorar as vicissitudes temporais pelas quais passou a criação da oitava faculdade da vetusta Universidade de Coimbra – a Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física – e o excepcional acolhimento da Academia Coimbrã, mormente, por parte do falecido Reitor, Professor Doutor Rui Alarcão.

Justo é referir, outrossim, a presença do, ao tempo, professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia (UC), José Joaquim Teixeira Dias, a meu convite pessoal, candidato a Reitor desta Universidade, que manifestou  o seu total apoio à respectiva criação.

Para o efeito, reproduzo a foto de um meu texto em defesa da sua criação que ia sendo adiada no marasmo do tempo de uma cidade que estava, e está, parada no tempo, vendo crescer outras urbes como Braga e Aveiro:

DEPOIMENTO SOBRE A CRÍTICA

 Novo texto de Eugénio Lisboa:

 

Recupero aqui um depoimento sobre a crítica, que me foi pedido em 2003. Há, por isso, uma ou outra passagem datada, como, por exemplo, aquilo que digo da Colóquio / Letras, que é hoje muito menos justificado. No seu todo, porém, o texto parece-me actual. 

Suponho que, ao falar-se na crítica como "mediadora entre o livro e o leitor", os organizadores deste dossier estão preocupados com a situação do livro ou, melhor, com uma certa crise do livro. Portanto, que fazer para minimizá-la ou mesmo para resolvê-la?

Permita-se-me desde já observar que esse papel não caberá apenas à crítica mas também aos livreiros: só livreiros competentes, amantes e conhecedores do produto que vendem e dotados de um mínimo de decência intelectual estarão à altura de promoverem bons livros não imediatamente visíveis, ajudando o comprador e não descansando, preguiçosamente, na venda certa daquela literatura pimba de autores que os nossos media, mesmo fingindo que os desprezam, não deixam de aproveitar, interrogar, entrevistar, em suma, promover. A verdade é que um grande número de livreiros faz exactamente o contrário do que deve fazer: investem-se quase todos naquilo a que podemos chamar "fazer chover no molhado". Despenham-se, com grande alarde de meios e alta gritaria, na promoção do que está, por natureza, vendido: os Paulo Coelho, as Margarida Rebelo Pinto e quejandos e quejandas andam numa roda viva, e aqueles três ou quatro autores que vão surgindo com obra original e até atraente e que um pouco de patrocínio promotório ajudaria a uma certa visibilidade são deixados cair e mais tarde acusados de se venderem pouco... Eu costumo dizer que, no actual sector do livro, não há, infelizmente, verdadeiros vendedores: há só compradores. Falo por experiência antiga e intensa. Vejo-me às vezes perdido para adquirir espécies bibliográficas que vejo anunciadas e que muitos livreiros não sabem que existem ou não sabem mesmo que têm nas prateleiras. Numa grande livraria de Lisboa já me tem sido declarado peremptoriamente que tal livro não existe, indo eu à estante buscá-lo - ali, onde ele sempre esteve. A FNAC, para dar outro exemplo, faz muita questão de indicar, com grande visibilidade e orgulho, AS ESCOLHAS DA FNAC, as quais, curiosamente, coincidem sempre com as escolhas mais aparentes do chamado grande público (incluindo uma grande percentagem de espécies pimba ou para-pimba). Não seria mais interessante que publicassem duas listas: uma com as escolhas do grande público, outra, mais exigente, com as escolhas da FNAC? Ou será que a FNAC escolhe mesmo a Margarida Rebelo Pinto ou outro qualquer autor com uma "história de sucesso"? Será que o único critério de um livreiro é vender muito e muito depressa? Será que o livro-lixo é o único que os livreiros respeitam? Confesso que é hoje para mim, antigo frequentador de livrarias que sou, um sofrimento entrar numa livraria ou mesmo loja de revistas e livros, em Portugal: assaltam-nos, logo, nas montras e nos tabuleiros mais em evidência, as espécies mais pirosas e mais ostensivamente petulantes. E informam-me até de que, num grande número de casos, o editor paga para garantir essa proeminência! E não paga pouco, ao que também me dizem. Chegámos a isto. Dizia o saudoso H.L. Mencken que "de uma maneira geral só há duas espécies de livros: aqueles que ninguém lê e aqueles que ninguém devia ler". A filosofia dos nossos livreiros é não repararem na existência dos primeiros e concentrarem-se na venda dos segundos.

Peço me desculpem este preâmbulo, mas era necessário visto que se impõe, então, uma pergunta: contra este pano de fundo, que poderes tem  - mesmo no caso de existir - uma crítica sistemática, exigente na avaliação e arrancando dos pressupostos de uma cultura vasta que dê ao crítico a necessária perspectiva? Contra esta obscena máquina de puro marketing, que valem as considerações argutas de um António Guerreiro ou as postulações penetrantes e envolventes de um Fernando Guimarães, de um Fernando J.B. Martinho, de uma Teresa Martins Marques, de um Eduardo Pitta, de um João Barrento, entre tantos outros que, sem maldade, omito? Julgo que estes poderes têm uma certa mas diminuta eficácia, contra um pano de fundo de materialismo petulante e contente.

Por outro lado, julgo que há uma certa leviandade na atribuição de singulares poderes a colunistas críticos ainda demasiado jovens. Um jovem de vinte e poucos anos pode fazer uma sensacional descoberta científica mas uma saudável perspectiva crítica, que só uma vasta cultura dá, não se obtém com poucos anos de vida. Por outras e antipáticas palavras: a cultura leva tempo. Dizia Philip Hope Wallace que "o melhor crítico será o epítome de tudo o que há de melhor numa audiência: a sua cabeça, o seu coração e a sua alma." É uma exigência justa mas é uma exigência de truz - que exige trabalho, vocação, amor à literatura, sentido crítico e, sobretudo - tempo. O gosto aguça-se - com tempo e meditação. Sair-se dos bancos da escola para a coluna crítica é uma leviandade. Para muitos críticos até parece que a literatura começou anteontem e consiste apenas daqueles autores que se conhecem pessoalmente e aparecem na televisão e nos jornais. Um crítico teve há pouco o topete, a propósito da controversa antologia O Século de Ouro, de estranhar que se tivessem seleccionado para ela autores "tão pouco relevantes" como Carlos Queirós ou Reinaldo Ferreira... Cada um estranha o que pode e a mais não é obrigado. Um ensaísta (e criador) tão culto, inteligente e sensível, como David Mourão Ferreira não teria estranhado nenhuma daquelas escolhas. Mas, para aqueles que julgam ter a literatura portuguesa começado com a poesia de Gastão Cruz, todas as estranhezas são possíveis. A mim, o que me espanta é o misto de petulância, leviandade e ignorância que tão frequentemente exibem críticos tão afirmativos quão ridículos. Dizia Eliot que a grandeza da literatura não pode ser determinada apenas por padrões literários - e é todo esse lastro não propriamente literário (vital, espiritual, cultural, civilizacional) que é fundamental mas trabalhoso, moroso e consumidor de uma prodigiosa energia nervosa. O grande crítico faz-se de tudo isto, é uma prodigiosa e lenta construção que se não compadece com a ligeireza nem com o atrevimento de tanto jovem  crítico. Num texto destinado a festejar o 40º aniversário da vida literária de João Gaspar Simões, o seu camarada da presença, José Régio, inventariava, como ingredientes fundamentais do grande crítico, entre dons naturais e aquisições necessárias, os seguintes factores: sensibilidade, imaginação, inteligência, largueza de espírito, gosto da diversidade, objectividade e cultura. De entre este imponente inventário de riquezas, apetecer-me-ia hoje salientar o gosto da diversidade, que impede o crítico (ou o artista, quando se afirma como crítico) de se fixar, com estreiteza, num modelo de poesia ou de ficção que passa a ter o estatuto de norma. Poesia que não obedeça à "norma" não seria poesia digna desse nome. De aí os ódios vesgos à "discursividade" de um Régio, a pretexto de uma "incontornável" poesia mais despojada. Mas o curioso é ser mau, no Régio, o que não faz mal nenhum num Claudel, num Saint-John Perse, num Dante ou num Camões (ou num Álvaro de Campos, num Walt Whitman ou num Cesário...).

O crítico verdadeiro - Régio repetiu-o até à náusea - não entra em luta com o génio próprio de cada artista que sonda: "Com um artista", observava o filósofo George Santanyana, "nenhum homem em seu pleno juízo briga, do mesmo modo que não briga com a cor dos olhos de uma criança." Desvalorizar um poeta porque é discursivo ou porque não é suficientemente discursivo, porque é lírico e não satírico ou porque é satírico e não lírico, porque escreve oitavas em vez de quadras ou quadras em vez de oitavas - é uma óbvia tontice mas não tão óbvia que nela não caiam legiões de críticos muito reputados. Aos espíritos estreitos há sempre uma qualquer norma que os aspira como um abismo de vácuo aspira os objectos que se distraem. A verdade, a verdade é que as razões para se dizer mal de um livro são quase sempre posteriores à vontade de se dizer mal dele. As razões encontram-se depois e quase nunca disfarçam muito bem a má fé que as veste e as desfeia.                                  

Lamenta-se muito a quase inexistência, entre nós, de uma crítica que sistematicamente acompanhe, com maturidade e atenção, o que de melhor se produz e edita. Uma crítica, no limite, à maneira das magníficas recensões críticas de um Times Literary Supplement ou de uma New York Review of Books.  Esquece-se, quando assim se fala, um pequeno pormenor: ninguém hoje se presta a participar num empreendimento desses ( escrever todas as semanas ou todos os quinze dias um "feuilleton" abrangendo um ou dois livros recenseados), a não ser que lhe seja pago pelo menos o suficiente para viver só disso - no caso, evidentemente, de se pretender trabalho asseado e não uma pseudo-recensão bebida na leitura das badanas ou da contracapa. Francamente, não creio que Portugal tenha dimensão para permitir financiar algo deste género. Manter um naipe de meia dúzia de bons críticos disponíveis em quase exclusividade (e pagos para isso) - qual o jornal que ganha para durar, fazendo isso, a não ser com um aliciante subsídio cuja continuidade e durabilidade  nem o Estado nem as fundações privadas são capazes de garantir? Rendamo-nos à nossa dimensão - Portugal é pequeno e pobre e os países do restante espaço lusófono não têm para mandar cantar um cego, quanto mais sustentarem os nossos luxos. É realmente pena, mas as New York Review of Books não são facilmente imagináveis a não ser em impérios poderosos como aquele que se prepara para anexar o Iraque à sua esfera de influência. Uma revista como a Colóquio/Letras, com todos os méritos que tenha - e tem-nos - não satisfaz, de modo nenhum, este requisito de um acompanhamento a tempo do que de melhor entre nós se publica: muitos livros são ali recenseados dezoito meses ou dois anos depois de publicados, isto é, quando já desapareceram dos espaços visíveis das livrarias. Resumindo, a Colóquio tem, em recursos financeiros, o que lhe falta em assiduidade. E mesmo os recursos financeiros, nos tempos que correm...

Poder-se-ia pensar também que, não seria impossível ao Instituto Camões manter uma boa revista bimensal que mais ou menos permitisse acompanhar criticamente - numa substancial secção dela - a produção lusíada. Mas o Instituto Camões, como tudo que em Portugal é cultura, está a viver dias maus. Assim como antigamente se dizia que a natureza tem horror ao vazio, pode hoje dizer-se que as Finanças, em Portugal, têm horror à cultura. Cada um odeia o que pode.

Do que acima disse, gostaria de reter, sobretudo, isto, que gostaria de aqui deixar para meditação: não brigue o crítico com o génio próprio de cada escritor. Não queira que ele seja outra coisa diferente do que é. Não peça ao lírico que escreva épicos nem ao pujante que se depene. O humorista James Thurber disse um dia: "Eles criticavam Henry James como se criticassem um gato por não ser um cão."

Eugénio Lisboa 

                                                 S.Pedro do Estoril, Março, 2003

Como será a escolaridade no futuro? Quatro cenários da OCDE (2021)

Na sua cruzada em prol de um sistema educativo global, cuja base são as competências funcionais, capazes de assegurar o sucesso académico, laboral e pessoal, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) tem vindo a conceber e formalizar, nas últimas décadas, um "modelo de aprendizagem" ("aprendizagem" porque centrado no aluno). Trata-se, explica a OCDE, de uma co-construção por parceiros sociais distribuídos pelo mundo: líderes políticos, académicos e investigadores, alunos e famílias, professores e gestores/directores escolares, empresários, etc. 

Em tempos mais recentes, o modelo que tem a designação de Learning Compass 2030 (Bússola de Aprendizagem 2030) foi complementado com uma estrutura de apoio ao ensino: Teaching Framework  2030/ Estrutura de Ensino 2030. Apresentado em 2015, no documento Future of Education and Skills 2030, previa duas fases:
Na primeira fase, situada entre 2015 e 2019, a organização sistematizou as competências (entendidas como a articulação entre conhecimentos, aptidões, atitudes, valores) que dão corpo a um currículo supranacional comum; 
Na segunda fase, iniciada em 2019, a organização fixou o modo de estruturar "ambientes de aprendizagem" que permitam aos alunos atingir, ainda que de modo diferenciado, ao longo da escolaridade obrigatória, as competências previstas nesse currículo.
Agora, em Janeiro de 2021, a OCDE, aproveitando a pandemia - que conseguiu, em pouco tempo, uma dispersão no mundo ainda maior do que a sua -, vem dar mais um passo em direcção ao desígnio há muito traçado para a escola pública: a sua dissolução, com o afastamento dos professores. Separa-se, na escola do futuro, com o currículo do futuro, o que não pode ser separado: o ensino da aprendizagem.

Tirem os leitores as suas próprias conclusões depois de ver o brevíssimo filme  Como será a escolaridade no futuro? Quatro cenários da OCDE / What will schooling look like in the future? Four OECD scenarios. A tradução é de Ana Catarina Ventura, estudante de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra


"A pandemia Covid-19 lembrou-nos que o futuro gosta de nos surpreender. Para preparar o nosso sistema educativo para o futuro temos de considerar, não apenas as mudanças que parecem mais prováveis, mas também aquelas que não esperamos. Isto significa explorar múltiplos futuros. A OCDE imaginou quatro cenários diferentes para o futuro das nossas escolas: 
Cenário 1. E se os jovens continuarem, em maior número, em busca de uma educação formal? Num sistema com escolas robustas e salas de aulas modernizadas com tecnologia digital, onde se podem usar conjuntos de dados refinados capazes de melhorar o planeamento da educação e um ensino mais eficaz. 
Cenário 2. E se os pais e a comunidade local assumissem o papel central na educação de cidadãos? E se os alunos e as famílias pudessem escolher entre uma ampla gama de alternativas de provedores e plataformas, públicas e privadas, online e offline, nas escolas e em casa, em centros comunitários e no local de trabalho? 
Cenário 3. E se a escola pudesse tornar-se totalmente diferente? Os alunos tomavam as suas próprias iniciativas e definiam os seus objetivos em conjunto com os seus colegas e professores. Com mais experimentação e colaboração, além das salas de aula, a educação ocorreria numa vasta rede de espaços, envolvendo a comunidade. 
Cenário 4. E se não existissem mais escolas? A tecnologia dissolve os limites entre a educação, o trabalho e o lazer, possibilitando a aprendizagem a qualquer hora e em qualquer lugar, com base na curiosidade e na necessidade de conectar os alunos. 
Quatro futuros para a nossa educação. Qual é o futuro da escolaridade?”

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

O AMIGUISMO DOS POLÍTICOS E O CONTRABANDO DA VACINA CORONA VÍRUS


“No meio de tudo isto que fazer? Portugal tem atravessado crises igualmente más, mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e caracter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não – pelo menos o Estado não tem -  e os homens não os há, ou os raros que  há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior – e sem cura” (Eça de Queiroz).

Começo, como não podia deixar de ser, pelo caso de um político como a amizade de um amigo do peito que toda a gente gostaria de ter para poder vender cabritos sem cabras ter, como soe dizer-se, no país da “Alice no País das Maravilhas”. Para que o cidadão menos informado não dê tratos à memória para saber o seu nome, o seu nome é Portugal.

Reporto-me a casos recentes que se passaram neste país não sabendo se movimentando ou não dinheiro por debaixo da mesa, ou apenas por simples amiguismo por essas medidas terem tido como fundamento a amizade, seja como for dolosa, por haver corações de pedra ajoelhados no altar do rei Midas.

A justiça ainda que ande, arrastando os pés, o dirá nem que seja para as calendas gregas ou mesmo em culpa que morre solteira. Há corações de  pedra mais dura que  granito que não se importam  que a morte das pessoas seja transacionada, morrendo umas pessoas em vez de outras na pouca vergonha de acesso a vacinas contra o corona vírus.

Um exemplo, de entre muitos:

A directora do Centro Distrital de Segurança Social de Setúbal, Natividade Coelho, apresentou esta sexta-feira a demissão depois da polémica relacionada com a vacinação indevida contra a covid-19 de 126 funcionários, sendo que terá sido ela uma das pessoas vacinadas.

Facto digno de registo, por a nobreza de sentimentos ser  tão rara, como que a modos de procurar agulha em palheiro, o gabinete do presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, foi hoje apanhado de surpresa pela decisão de 12 deputados [do PSD] não quererem ser vacinados contra a covid-19, nesta fase de precedências como disseram à Lusa fontes parlamentares. São eles, cujos nomes devem  fcar afixados num Quadro de Honra: Rui Rio, Adão Silva, Luís Marques Guedes, Firmino Marques, Pedro Roque, Paulo Rios de Oliveira, José Silvano, Helga Correia, Afonso Oliveira, André Coelho Lima, Clara Marques Mendes e Isaura Morais.

Entretanto, a Associação Nacional de Emergência e Proteção Civil (APROSOC) denunciou, através de um comunicado, a vacinação profissionais não prioritários no Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), que já veio a público negar as acusações.

Segundo a nota da APROSOC, o presidente do INEM, Luís Meira, "contrariou as indicações do Ministério da Saúde e vacinou dezenas de profissionais não-essenciais e que não são profissionais de saúde”.

São eles, Pedro Coelho dos Santos, jornalista e assessor pessoal de Luís Meira, e seu amigo pessoal; Ana Gomes, assessora jurídica do presidente do INEM, bem como todos os directores por Luís Meira nomeados,  tendo parte deles hoje recebido a segunda dose da vacina", lê-se no comunicado da APROSOC, que referiu ainda outras pessoas vacinadas que não seriam do grupo prioritário.

Por outro lado, o director do INEM no Norte, António Barbosa, assumiu, este sábado, que foram vacinados funcionários funcionários e proprietários de uma pastelaria do Porto [ a título informativo, famosa pelas suas “francesinhas”]..

Ontem, segundo Ana Catarina Mendes, “o PS quer vacina já para Ferro e ‘vices’, sendo que os deputados aguardam  umas semanas”.

Entretanto, o PSD divulgou uma nota onde rectifica a lista inicial. Assim, dos 19 nomes iniciais, não serão vacinados nesta fase: Rui Rio, Adão Silva, Luís Marques Guedes, Firmino Marques, Pedro Roque, Paulo Rios de Oliveira, José Lima, Clara Marques Mendes e Isaura Morais.

Anunciou, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em atitude nobre e, essencialmente, de “soberaníssimo bom senso”, como defendeu Antero, recentemente, nomeado para um segundo mandato, Marcelo Rebelo que será vacinado para a covid-19 só na segunda fase do programa que começa em Abril. É nessa altura que se inicia a vacinação de todos os maiores de 65 anos que não residam em lares, nem sejam profissionais de saúde ou trabalhem em casas de acolhimento de idosos. O Presidente da República tem 72 anos, feitos no dia 12 de Dezembro”.

A possibilidade de os titulares de altos cargos políticos - como o Presidente da República, primeiro-ministro ou o presidente da Assembleia da República - terem prioridade no acesso à vacinação para a covid-19 chegou a ser equacionada, mas foi posta de lado.

Finda esta lista de casos, longe de estar esgotada, ainda hoje se tomou conhecimento de um caso análogo,  atentemos na opinião de uma médica especialista:

Em entrevista ao “Observador", Patrícia Pacheco, directora do serviço de infectologia do Hospital Fernando Fonseca (conhecido por hospital Amador-Sintra), sem rodeios e com o discurso duro de quem viu o hospital onde trabalha ser “virado do avesso” para se transformar numa “amálgama de gente dedicada à Covid”, disse que aquilo que mais se sente nos corredores do Amadora-Sintra é “frustração e indignação” e acusou o Governo de ter deitado tudo a perder, ao “mentir” aos cidadãos e fazer uma gestão “errática” da pandemia.

“A falta de honestidade e de transparência perturba-me, acho que é o pior que um líder pode ter e é o pior que esta liderança do Ministério da Saúde tem - não ser transparente, desvalorizar sistematicamente os problemas que existem, em vez de os encarar, em vez de dizer de uma forma muito clara que nós temos limites e que não os devíamos ter ultrapassado”, argumentou.”

Nesta nau das cinco quinas navegando  sem bússola com a costa à vista correndo o risco de soçobrar, em vagas alterosas que se sucedem umas às outras,vão-se conhecendo os nomes de alguns dos seus corajosos e patrióticos capitães que se recusam a abandoná-la e de outros poltrões que a abandonaram comprando uma baleeira de salvamento paga a peso de erro e com  desonra.

Na desventura é que se conhece a verticalidade de uns tantos políticos e a espinha anquilosada de outros mais. Valha-nos ao menos isso, a título de mera e pobre consolação!

P.S.: Neste ”mare magnum” de verdades e mentiras, em que hoje na política se diz uma coisa e amanhã outra ou mesmo se desdizem ambas, é natural que possa haver necessidade de ser feita uma rectificação a este meu texto, com excepção de desculpas esfarrapadas “pour épater le bourgeois”!

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...