quinta-feira, 8 de novembro de 2018

COMO SURGIU O UNIVERSO?


Já está nas bancas o novo livro de Peter Atkins, químico e escritor de ciência que estará em Lisboa no Auditório do Oceanário na próxima sexta-feira para fazer uma conferência a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O livro, uma edição apoiada por aquela Fundação,  intitula-se "Como surgiu o Universo" (colecção "Ciência Aberta" da Gradiva, excelente tradução de Fátima Carmo)  e subintitula-se "As origens das leis naturais".  Para Atkins o Universo surgiu espontaneamente, sem necessidade de intervenção de um criador.  Transcrevo o seu breve prefácio:

Prefácio

"O funcionamento do mundo foi por alguns atribuído a um Criador espantosamente metediço, mas incorpóreo, a guiar activamente cada electrão, quark e fotão até aos respectivos destinos. As minhas entranhas revolvem‑se perante esta visão extravagante do funcionamento do mundo e a minha cabeça segue o mesmo caminho das entranhas. Nas páginas seguintes considero a possibilidade de haver uma visão mais simples do que realmente se passa. Ao fim e ao cabo, os cientistas são especialistas a extrair simplicidade da complexidade, preferindo geralmente o que é menos elaborado. Exploro os recônditos deste labor de simplificação e defendo que as leis da Natureza — os resumos que fazemos do funcionamento do mundo — surgem da forma mais simples possível. Defendo que surgem simplesmente da indolência e da anarquia, apimentadas aqui e ali por uma pitada de ignorância. 

Limitei o campo do meu discurso ao que é familiar. Assim, conduzo o leitor através da mecânica, tanto clássica como quântica, da termodinâmica e do electromagnetismo. Com confiança decrescente — mas, espero, de uma forma que interpele o leitor —, levo‑o à origem das constantes fundamentais e concluo interrogando‑me sobre a eficácia da matemática na formulação das leis naturais e a sua possível revelação da estrutura profunda da realidade. Parte do que escrevo é mera especulação, pois o entendimento total está ainda para além do alcance da ciência, apesar dos progressos notáveis realizados em três séculos de trabalho empenhado. Se o leitor quiser obter uma justificação mais profunda de algumas das minhas observações, encontrá‑la‑á nas notas no final do livro, que considerei um espaço adequado para conter algumas equações.

Espero responder nas páginas seguintes a algumas questões que poderão ter ocorrido ao leitor e para as quais ainda não tinha obtido resposta, e que as minhas palavras revelem alguns aspectos da simplicidade espantosa deste nosso mundo gloriosamente complexo.

 Peter Atkins
 Oxford, 2017"

"ANTES É QUE ERA BOM" de MIchel Serres


O filósofo francês Michel Serres, 87 anos, contraria neste livro da Guerra e Paz a ideia feita de que hoje se está pior do que ontem. Com irónico estilo literário e recordando os tempos duros da sua juventude, conta-nos como o mundo hoje é incomparavelmente melhor do que já foi há pouco. Vive-se muito mais e muito melhor. Uma lição para os pessimistas! Excerto:

VIDA E MORTE

"Da minha nascença até hoje, a esperança de vida, em França, saltou para os 80 anos. Entre os que neste momento me escutam ou me lêem, quantos aqui não estariam se a curva dos sobreviventes não se tivesse verticalizado desse modo? Mas onde estão os Ranzinzas de outrora? Quantas crianças era preciso pôr no mundo para nele conservar duas ou três?

Antes, de guerra ou de doença, de miséria ou de sofrimento, morria-se mais novo, era muito melhor. Porquê? Melhor, porque, em média, os cônjuges juravam fidelidade por apenas cinco anos no momento da casamento, ao passo que hoje a estatísticas diz que a afirmam por 65 anos: inferno! Melhor ainda, uma vez que Balzac ou Dickens falam de jovens herdeiros de 230 anos, ao passo que hoje quantos dos referidoasb senhores de 60 anos  continuam à espera do legado dos predecessores, que se deliciam com tisanas á noite e se presenteiam com viagens de ferias no Club Med? Melhor para eles, bem entendido. Era muito melhor, uma vez que os jovens de 18 anos não hesitavam em oferecer a sua vida pela pátria, madrasta atroz, ao passo que hoje os seus equivalentes hesitariam em oferecer-lhe 60 anos de esperança de vida. Acabou-se o serviço militar. Antas, os pais podiam matar alegremente nos seus filhos na guerra; mas onde estão, hoje, esses assassinos de outrora?"

"Ciência para todos" em Coimbra no dia 23/11 com Colóquio e conversa com o escritor Afonso Cruz



No âmbito da comemoração do 10.º Aniversário do RÓMULO- CENTRO CIÊNCIA VIVA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA, apresento o programa geral do Colóquio "Ciência para todos" e convido à participação de todos os queiram celebrar connosco este dia especial! 
A entrada é livre e gratuita, mas de inscrição obrigatória.

PROGRAMA GERAL   (23 de Novembro de 2018)

10h00 - Recepção
10h30 - Boas-vindas | Carlos Fiolhais
10h40 - "Ciência Viva: os próximos 10 anos" | Rosalia Vargas
11h00 - "Presente e futuro da rede SciCom Pt | Joana Lobo Antunes
11h20 - Pausa para Café
11h35 - "Gabinetes de comunicação de ciência" | Júlio Borlido Santos
11h55 - "A ciência nos media" | Helena Mendonça
12h15 - "A comunicação de ciência na sociedade" | Ana Delicado        

13h00 - Pausa para almoço
14h30 - Forum de discussão | António Granado
16h30 - Encerramento
16h30 - Apresentação do RÓMULO Digital, da Escola Ciência Viva e da Exposição Feynman 100 anos
17h00 - Bolo de Aniversário e Magusto
18h00 - Conversa com o escritor Afonso Cruz

Cartaz
Facebook
Contacto: Maria Manuela Serra e Silva – ccvromulocarvalho@gmail.com / 239 410 699

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

UMA LUTA PELA VERDADE


Meu artigo de opinião publicado hoje no “Diário as Beiras: 

“Se pensam que me mandam calar não me calam”.
Marcelo Rebelo de Sousa (“Público”, 03/11/2018)

Na minha longa e polémica saga com a ADSE encontro lenitivo num comentário do leitor Ildefonso Dias ao meu texto, publicado neste jornal e transcrito no blogue “De Rerum Natura”, de que sou um dos co-autores, intitulado “Carta Aberta ao Presidente da República”. (26/10/2017). Transcrevo o supracitado comentário:

“Senhor professor Rui Baptista, fez bem em escrever esta carta. A sua intervenção é também uma luta pela verdade [expressão que aproveitei para título deste meu texto]…a verdade de que a infelicidade não é a base imutável da vida, mas sim a ignomínia que os homens devem varrer para longe deles (Gorki). Todos sofremos das mais variadas formas, sabemos que o Presidente da República é sensível a muitas situações de natureza como as que apresenta – o Governo (os boys) Não! Infelizmente .”

Ou seja, o Governo parece não estar minimamente interessado em lutar pela justiça. E tanto assim é que esta minha missiva andou de Herodes para Pilatos em busca de uma espada, ainda que de gume embotado, para este aparente nó górdio. Finalmente, após um prolongado silêncio, professoralmente, endossou-me a ADSE para a leitura do ponto 7 do Decreto Lei –Lei 118/83, de 25 de Fevereiro.

Aluno aplicado, revisitei esse preceito legal, conquanto eu pusesse em causa, ab initio, a retroactividade desta legislação por as novas leis não deverem retroagir em prejuízo das antigas. Reza este articulado legal: “A inscrição destes familiares só será viável desde que provem não beneficiar de qualquer outro regime de protecção social e enquanto se mantiver esta situação ”. Se fosse pretendida idêntica medida para a continuação das inscrições já existentes, a legislação determinaria que a inscrição e as inscrições anteriores à actual legislação só serão viáveis, etc., etc.

Razão assistiu à acrítica impiedosa, do falecido António Almeida Santos, do Partido Socialista e ex-presidente da Assembleia da República, havido como legislador de incontestado renome que cito de memória: “Grande parte das leis publicadas em Portugal, depois de 25 de Abril,chumbavam no exame da antiga 4.ª classe”! Felizmente, vivemos num país que, ainda, permite o simples consolo de que actos perpetrados pelos poderosos contra os fracos que “não têm voz, não têm ‘lobbies’, não têm escritórios de advogados” (António Bagão Félix), não possam ser ocultados na penumbra de um silêncio cúmplice.

Porém, permitir a revolta, em letra de forma, dos injustiçados fazendo orelhas moucas ao que eles dizem é abrir as portas a uma espécie de ditadura encapotada. Todo este lamentável statu quo, correndo o risco de ser perpetuado, tem sido acolitado pela teimosia asinina do Partido Socialista em não considerar, verbis gratia, casos urgentes de cuidados assistenciais de saúde a velhos, doentes e deficientes, alguns em acúmulo de duas ou três destas situações.

Sentenciou Nietzche não haver factos eternos, nem verdades absolutas. Mas, pelos vistos, para a ADSE, tutelada por este partido político nas rédeas do poder, há!

"TUDO O QUE JULGA SABER ESTÁ ERRADO"


Este título sugestivo É de um livro de Richard Benson, que acaba de sair na Marcador (grupo Presença) com um grafismo simples mas sedutor.

O subtítulo "A verdade por detrás dos mitos e equívocos comuns" esclarece ao que vem o livro. A maior parte eu sabia, mas tive algumas surpresas. Eis alguns exemplo da vasta lista de erros muito comuns (em parêntesis a explicação resumida por mim)

- "A NASA não gastou milhões no desenvolvimento de uma caneta espacial (foi a empresa Fisher Pen e não foram milhões; e , sim, os lápis funcionam no espaço)
- "Os europeus medievais não acreditavam que a Terra era plana" (sabiam há muito que era redonda)
- "Frankenstein não é o nome do monstro de Mary Shelley" (o monstro não tem nome, o criador é que se chama Frankenstein)
- "O cabelo molhado não causa uma constipação" (a origem é um vírus)
- "O tomate não é um legume" (é uma fruta)
- "Os buracos negros não são buracos" (pelo contrário, são muito maciços)
- "O capitão Kirk nunca disse "Beam me up, Scotty" " (disse "Beam us up, Mr. Scott.")
- "Os elefantes não usam a tromba para beber" (bebem pela boca, claro).
- "Os humanos não evoluíram do macaco nem de nenhum outro primata existente" (temos com o macaco um antepassado símio comum)
- "Os morcegos não são cegos" ( têm olhos, vêm bem mas no escuro ouvem melhor)
- "Albert Einstein nunca chumbou num exame de matemática" (era bom a matemática)
- "Nem todos os dinossauros erram carnívoros" (a maioria era vegetariana)
- "As centopeia não têm cem pernas" (varia muito)
- "James Watt não inventou a máquina a vapor" (aperfeiçoou o modelo de Newcomen)
- "As pirâmides não foram construídas por escravos" (eram trabalhadores pagos, os que morreram na obra ficaram sepultados dentro)
- "Se quiser nadar depois de comer, não tem de esperar" (a menos que tenha sido uma refeição de 4 pratos)
- "Sherlock Holmes nunca disse "Elementary, my dear Watson (disse "Exactly, my dear Watson")
- "Isaac Newton não levou com uma maçã na cabeça" (falou de maçãs mas não se qieixou de ter apanhado com uma)
- "Uma moeda que caia de um arranha céus não mata ninguém" (já se for um saco delas...)
- O sangue nunca é azul (as veias é que parecem azuis vistas através da pele, o sangue é vermelho):
- "A guerra dos 100 anos não durou 100 anos" (durou 116)
- "Alexandre Graham Bell  não inventou o telefone (foi Antonio Meucci, 16 anos antes).
- " O Sol é amarelo" (é branco, só parece amarelo por causa da atmosfera).

"HÁ CIÊNCIA E POESIA NAS COISAS DO DIA A DIA"

A professora de Físico-Química Regina Gouveia, que por ser professora dessa disciplina e poeta com temas de inspiração científica, é uma seguidora de Rómulo de Carvalho / António Gedeão. Ela própria já ganhou o Prémio Rómulo de Carvalho, em 2005, Ano Internacional da Física. Com vários livros publicados em várias editoras ("Era uma vez ciência e poesia no reino da fantasia". Campo das Letras, 2ª ed. e Palavras e Rimas, 3ª ed.;   "Ciência para meninos em poemas pequeninos", Gatafunho, 2ª ed., Porto Editora, 3ª ed.; "Pelo sistema solar vamos todos viajar",  Ana Paula Faria Editora;  "Breve História da Química", 7 dias 6 noites), brindou agora os seus admiradores, entre os quais me incluo, com o livro, em edição de autora, com o título de cima, ilustrado pelos seus filhos e netos Miguel Gouveia, Nuno Gouveia, Rita Gouveia, José Gouveia, Bernardo Gouveia e Marta Gouveia.

O estilo pedagógico e sedutor da autora está bem patente no segundo poema:

"O bichinho da ciência

O bichinho da ciência vamos todos
procurar.
Como o vamos encontrar?
Basta-nos saber olhar para depois
perguntar.
Porque é que a lua não cai? Para onde é
que ela vai quando à noite segue o dia?

Porque  é
que o dia e a noite se sucedem à porfia?
Como pode flutuar um pesado petroleiro,´
que anda de mar em mar navegando o dia
inteiro?

Como é que no
céu noturno, uma luneta nos permite ver
Saturno, lá tão longe, tão distante?

Como surgem luz e cor e o ruído
dum tabor?
Como pode a voz chegar ao outro lado do
mar e quase no mesmo instante?
Ser´
a que vai num barquinho
que voga tão ligeirinho que mal parte
está a chegar?
A ciências vai responder se soubermos
perguntar.

É essa a sua magia
e por isso é divertida mas por vezes está
escondida aqui, ali, mais além e dentro dos
livros também."




SOBRE A PARAPSICOLOGIA APOIADA PELA FUNDAÇÃO BIAL

A jornalista do Observador Vera Novais pediu-me uma opinião sobre os dois últimos livros de Luís Portela, médico e empresário ligado à Fundação Bial que apoia projectos de parapsicologia, alguns deles bastante estranhos como telepatia em animais. Está aqui o seu artigo e em baixo, o meu depoimento, do qual foi destacado o excerto mais significativo para o assunto:

Os dois livros mais recentes do Dr. Luís Portela, "Ser espiritual" e "Da ciência ao amor", não são de ciência nem de divulgação de ciência. Serão de especulação, de auto-ajuda, não sei. Tive dificuldade em lê-los, por nem sequer entender alguns dos termos utilizados. Não percebo muito do que dizem. O autor fala, por exemplo, de "energia universal" mas a "energia" de que fala não tem nada a ver com a energia da física, uma grandeza física bem definida . Não se percebe o que é essa "energia", pelo que a afirmação de que "somos partículas de energia universal" apesar de usar as palavras "partículas", "energia" e "universal," todas elas palavras da ciência, nada tem de científico. Nem há, em princípio, problema nenhum nisso, uma vez que o ser humano tem dimensões para além das da ciência.

A questão surge apenas se algum leitor pensar que as afirmações desse tipo do livro têm alguma base científica: não têm. O título "Da ciência ao amor" engana, pois a ciência não tem maneira de  descrever nem explicar o amor assim como não tem maneira de descrever a espiritualidade. Ciência, amor e espiritualidade podem coexistir sem que a primeira tenha de dominar as outras: isso seria cientismo. Disse isto mesmo disse no debate sobre os livros em que estive presente em Lisboa.
Fenómenos ditos parapsicológicos como, por exemplo, a telepatia ou comunicação com mortos referidos nos livros não tem a mínima base científica. Muitos trabalhos citados não têm suficiente credibilidade.

Sei que a Fundação Bial tem apoiado um tipo de investigações muito estranho, que por vezes se aproxima da pseudociência, mas, como é evidente, é da sua responsabilidade gerir os dinheiros de que dispõe. Organiza colóquios no Porto, alguns dos quais já assisti,  nos quais houve algumas apresentações  interessantes: vi uma sobre o efeito placebo.

Não partilhando o  seu interesse pela parapsicologia, tenho estima pessoal pelo Dr. Luís Portela, um gestor que mostrou as suas capacidades ao dirigir a Bial, uma empresa farmacêutica que fabrica medicamentos com base na ciência. É, além do mais, um verdadeiro "gentleman", que me tem dispensado atenções.  Ele soube separar as águas, permitindo inteligentemente que a Fundação Bial se aproximasse de assuntos não científicos que são a sua paixão, mas mantendo a empresa Bial no campo estrito da ciência.  O Dr. Luís Portela acredita genuinamente  que a aplicação do método científico irá um dia explicar fenómenos parapsicológicos nos quais ele acredita. Eu concordo que tudo pode ser investigado, mas estou em crer que o método da ciência é limitado e não consegue abarcar todas as dimensões humanas. E na dita parapsicologia há muita fraude, para já não falar na psicologia, disciplina académica e profissional onde  também há. A psicologia é uma ciência, mas há muita confusão à volta. Devemos, como disse o cientista e divulgador  de ciência Carl Sagan, examinar tudo com o cérebro aberto, mas não suficientemente aberto para que nos caiam os miolos... Esse exercício permanente do espírito crítico não é fácil, mas é a única maneira de evitarmos os erros que são próprios da condição humana.

JÁ CHEGÁMOS À MADEIRA


Minha crónica no Público de hoje (na imagem a praia do Porto Santo):

“Já chegámos à Madeira” foi a frase que João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, escudeiros do infante D. Henrique, podiam ter dito quando chegaram ao Porto Santo, a ilha do arquipélago da Madeira mais próxima da costa africana, em 1419 ou em 1420. Não devem, porém, ter dito. Trata-se de uma das expressões idiomáticas em que a língua portuguesa é fértil, usando-se normalmente como uma interrogação e em tom indignado. Talvez remonte a 1807, ano em que os ingleses se apossaram da ilha, no contexto da Guerra Peninsular.

No passado dia 1 de Novembro foi o presidente Marcelo Rebelo de Sousa que chegou à Madeira, ou, mais precisamente, na senda de Zarco e Teixeira, ao Porto Santo, para dar início às comemorações dos 600 anos da descoberta do arquipélago. Marcelo falou do “começo de uma saga,” inaugurou uma estátua henriquina e tirou as selfies do costume. Seis séculos é um número que vale a pena assinalar, sendo de somenos que essa data específica não tenha sustentação histórica, tal como não tem sequer o ano de 1418 que está na Wikipedia (a Comissão encarregue das celebrações foi prudente ao estender a festa do 6.º centenário até 2020).

Não se sabe ao certo quando é que chegámos à Madeira. Uma das fontes mais antigas é a Crónica da Guiné de Gomes Eanes de Zurara, um manuscrito descoberto na Biblioteca Nacional de França em meados do século XIX (saiu há pouco uma edição moderna nas Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, Círculo de Leitores). Acontece que esta crónica, toda ela um panegírico ao famoso infante, foi concluída em 1453, mais de três décadas após a chegada lusa. E, embora ela date de 1420 o início do povoamento da ilha da Madeira, não é precisa quanto à chegada ao Porto Santo. Conta que “dois escudeiros nobres (…) depois da vinda que o infante fez do descerco de Ceuta (…) requereram que os aviasse como pudessem fazer de suas honras, como homens que muito o desejavam, parecendo-lhes que o seu tempo era mal despeso se não trabalhassem alguma coisa por seus corpos.” Em linguagem actual, queriam fazer feitos de valor. Como o dito descerco foi em Outubro de 1419, o pedido terá sido feito nesse ano ou no seguinte. Foi provido: “E vendo o infante suas boas vontades, lhes mandou aparelhar uma barca em que fossem de armada contra os mouros, encaminhando-os como fossem em busca de terra de Guiné.” Não havia mouros em Porto Santo, mas “com tempo contrário chegaram à ilha,” talvez ao extenso areal dourado que hoje é fruído pelos veraneantes. Do Porto Santo vê-se a ilha da Madeira, mas, segundo Zurara, só lá foram na viagem seguinte na companhia de Bartolomeu Perestrelo, um fidalgo de ascendência italiana da casa do infante D. João (Cristóvão Colombo haveria, por volta de 1479, de casar com uma filha de Perestrelo, Filipa Moniz, de quem teve um filho que lhe sucedeu como vice-rei e governador das Índias de Castela).

É curioso que, apesar da visita presidencial, a imprensa tenha praticamente ignorado este início dos 600 anos dos Descobrimentos Portugueses (se descontarmos a conquista de Ceuta, em 1415, que obedeceu a um ideal de cruzada). Não acredito que seja porque se tratou mais de um redescobrimento do que de um descobrimento (de facto, o Atlas Medici-Laurenciano, de 1351, representa a ilha do Porto Santo, com este mesmo nome, e a da Madeira, com o nome de “Isla de lo Legname” e, tal como ele, outras nove cartas anteriores a 1420 o fazem). As ilhas do arquipélago madeirense estavam desertas, mas não eram de todo desconhecidas. E foi por isso que o infante D. Henrique, então “senhor das ilhas”, em documento de 1460, pouco antes de morrer, escreveu “novamente achei”. O silêncio mediático talvez ocorra por a palavra “descobrimentos” ser hoje maldita.  Mas não devia ser. Em 1419 esta palavra ainda não existia em português, mas foi na nossa língua que ela apareceu pela primeira vez, em 1484, a partir do latim, conforme enfatiza o historiador inglês David Wootton no seu livro A Invenção da Ciência (Temas e Debates - Círculo de Leitores, 2017). Quando Colombo descobriu a América em 1492, não tinha a palavra apropriada porque escreveu em castelhano. E foi apenas em 1563 q

terça-feira, 6 de novembro de 2018

NOVO BOOKCLUB NO RÓMULO EM COIMBRA

O Book Club do RÓMULO irá continuar este semestre com a apresentação pelo físico Rui Dilão do livro

The Physics and Psychophysics of Music. An Introduction
Juan Roederer
Springer (2008)
ISBN 0387094709

"This book, a classic in its field, deals with the physical systems and physiological processes that intervene in music. It analyzes what objective, physical properties of sound are associated with what subjective psychological sensations of music, and it describes how these sound patterns are actually generated in musical instruments, how they propagate through the environment, and how they are detected by the ear and interpreted in the brain. Using the precise language of science, but without complicated mathematics, the author weaves a close mesh of the physics, psychophysics and neurobiology relevant to music."

As sessões terão lugar no RÓMULO, Dep. Física da Univ. de Coimbra, às 6as. feiras das 14h00 às 15h00 (sem quarto de hora académico).

As sessões começarão na próxima 6ª feira, dia 9 de Novembro. A entrada é livre.

HoST — Journal of History of Science and Technology

Está online o novo número da HoST — Journal of History of Science and Technology


A HoST — Journal of History of Science and Technology é uma revista de acesso aberto com arbitragem científica, disponível em linha, publicada em inglês pela De Gruyter, em resultado de uma parceria de quatro unidades de investigação portuguesas (CIUHCT, CIDEHUS, Instituto de Ciências Sociais, e Instituto de História Contemporânea).

CONTEÚDOS DESTE NÚMERO

NOVOS CLÁSSICOS DIGITALIA

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em acesso aberto.

Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa das novas publicações encontra-se disponível em todas as lojas Amazon.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Autores Gregos e Latinos – Ensaios Breves"
 - Markus Figueira da Silva: Termos Filosóficos de Epicuro (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2018). 174 p.

 [Este volume comporta um conjunto dos conceitos mais importantes recolhidos na obra deste pensador grego do final do séc. IV e início do séc. III a.C. Os termos encontram-se divididos em três partes, de acordo com os textos remanescentes da obra de Epicuro; a saber: physiología; gnoseología e physiología; e éthica. Este vocabulário visa contribuir para a instrumentalização da pesquisa acerca dos textos remanescentes da obra de Epicuro e estimular o seu estudo.]


Série “Humanitas Supplementum" [Estudos]
- Lorena Jiménez Justicia & Alberto J. Quiroga Puertas (eds.), Ianus. Innovación docente y reelaboraciones del legado clásico (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2018). 157 p.

[Tradicionalmente, el legado cultural de Grecia y Roma se ha considerado como una fuente inagotable de saberes que ha acabado por conformar los pilares sobre los que se asienta la moderna sociedad occidental. Sin embargo, este es un adagio que precisa de nuevas formas de articularse en una sociedad cada vez más globalizada. En este contexto, creemos que es necesario buscar nuevas metodologías docentes que pongan de manifiesto que la cultura grecolatina sigue siendo indispensable hoy día no solo en el aula universitaria y en el mundo de la cultura sino también en diversas esferas de la sociedad que, a priori, parecerían ajenas al legado clásico. De este modo, además de ofrecer varias propuestas de innovación en la docencia de la lengua y de la cultura del mundo antiguo, el presente volumen persigue poner de manifiesto la presencia del legado clásico en campos tan dispares como el marketing, la lucha por derechos sociales, o la narrativa y dramaturgia contemporánea. ]

Dar Novos Mundos ao Mundo: A Ciência e a Expansão


Resumo da conferência que fiz recentemente no Porto Santo, assinalando os 600 anos da (re)descoberta da Madeira (na imagem estátua de João Gonçalves Zarco, no Funchal):


A ciência deve mais aos Descobrimentos portugueses do que estes devem à ciência. Com efeito, o início da expansão no século XV assentou muito em bases empíricas (com o recurso a tecnologias de navegação conhecidas, como a medida da latitude por instrumentos e da direcção pela bússola, para além da tecnologia naval) e não tanto em ensinamentos de uma ciência que ainda estava por nascer. Mas pode dizer-se que a Revolução Científica dos séculos XVI e XVII, que acabou por transformar o mundo, foi precedida pela atitude dos descobridores portuguesas, que valorizavam a curiosidade, a observação e a experiência. O historiador britânico David Wootton fez recentemente notar que a palavra "descoberta" foi introduzida pelos portugueses no século XVN o caso do arquipélago da Madeira, a palavra "descoberta" tem de se usar com particular cuidado, pois alguns mapas atestam que as ilhas eram conhecidas bastantes anos antes da chegada "oficial" de navegadores portugueses e o começo do povoamento do território.


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Uma escola portuguesa sem telemóveis

Os directores escolares e os professores, no quadro da sua autonomia profissional, não podendo, em princípio, deixar de seguir as directrizes da tutela, têm o dever de tomar as decisões que beneficiam os alunos. A sua responsabilidade primeira é para com eles, pugnando pela sua instrução e também pela sua formação, isto no que é específico da educação formal.

Essa autonomia não é de agora, ou de finais do século passado, quando se viu amplamente afirmada. De facto, mesmo em tempos mais sombrios, ela não abandonou o espírito de muitos.

Os sistemas de ensino funcionam porque há directores e professores que, não obstante as políticas educativas (que, em geral, estão longe de o ser; em vez delas e fazendo-se passar por elas, encontramos interesses vários), insistem no seu dever.

Digo isto a propósito de uma decisão que a Escola EB23 de Lourosa, Santa Maria da Feira, tomou recentemente: à semelhança do que se passa em França neste ano lectivo, por determinação do Ministro da Educação, proibiu o uso de telemóveis em todo o recinto escolar, não só nas salas de aulas mas também nos recreios.

Deixo os leitores com parte do texto que António Duarte escreveu sobre o assunto no seu blogue Escola Portuguesa:
"Quem leva o aparelho para a escola tem de o entregar ao professor no início da primeira aula, só o recebendo de volta ao final do dia de escola. O que motivou a aplicação desta medida foi uma constatação que já todos os professores fizeram: as crianças e jovens interagem muito pouco nos recreios escolares, passando a maior parte do tempo entretidos com os telemóveis. E perante isto surgiu a ideia radical: recuperar, banindo o uso dos aparelhos electrónicos, o convívio, as brincadeiras e os jogos típicos dos intervalos escolares. No início, houve algumas resistências. Foi preciso firmeza – e aplicar alguns castigos – para que todos percebessem que a tolerância zero aos telemóveis era mesmo para cumprir. Mas agora, lendo a reportagem do JN, fica a ideia de que todos – alunos, pais, professores – parecem sentir-se agradados com a nova situação."
Continuar a ler aqui.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Educação e ciência: um mês da Fundação Francisco Manuel dos Santos

Meu texto da última newsletter da rede GPS (Global Portuguese Scientists):


No Mês da Educação e Ciência de 2019 da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) há duas dimensões: uma, à qual poderemos chamar horizontal, de educação, e outra, que poderemos designar vertical, de ciência. Precisamos nas nossas vidas de educação e de ciência. As duas estão ligadas intimamente: A educação transmite os conhecimentos e os métodos da ciência desejavelmente ao maior número possível de pessoas enquanto a ciência, que assenta na educação, pode estudar a educação e contribuir para a sua melhoria.
A educação chega às pessoas principalmente pela escola, o meio que a sociedade quis  privilegiar para assegurar o seu futuro. A ciência chega às pessoas, no seu dia-a-dia, através da tecnologia. Mas a ciência é muito mais do que a tecnologia, pelo que os elementos básicos da ciência devem chegar às pessoas através da educação, tanto formal, na escola, como não formal, pelos media e outros meios de divulgação. No mundo de hoje, onde as condições de vida são determinadas pela ciência e tecnologia, mas onde a educação não conseguiu vencer uma ignorância muito disseminada, há que repensar a educação e a ciência para as ligar melhor. Esse deve ser um esforço não apenas de uns quantos, mas de todos.
A FFMS escolheu um conjunto de temas actuais de educação e de ciência e entrelaçou-os num programa coerente. Um ponto alto do programa será a Conferência GPS. A ciência é internacional, mas a ciência portuguesa é aquela que é feita por portugueses em Portugal ou no mundo. A FFMS convidou três cientistas portugueses da rede GPS, a falar sobre os humanos do futuro (Humanos do Futuro, Aveiro, 14/11). Não sabemos como serão, mas sabemos que a ciência dará algumas respostas. Diana Prata falará da inteligência artificial para fazer diagnósticos mais precisos de doenças neurodegenerativas. Sílvia Curado traçará o caminho da genética à medicina personalizada. E Joana Magalhães contará como a medicina regenerativa poderá ajudar no tratamento das doenças reumáticas.
Na área da ciência, depois de em anos anteriores termos coberto as áreas da matemática, física, biomedicina e psicologia, a Grande Conferência de Ciência, dirigida ao público geral, estará a cargo de um eminente professor de Química da Universidade de Oxford, Peter Atkins, que falará sobre o Universo (Pensar o Universo, com os olhos da Química, Lisboa, 9/11), acompanhado por Zita Martins (uma cientista GPS) e Carlos Romão.  Será lançado o seu livro Como surgiu o Universo, sobre o papel da ciência em questões que costumavam ser filosóficas: De onde vimos? Como foi o início de tudo? Como se passou do nada para o ser?
Apesar de Darwin não ter ido à Madeira, esta ilha contribuiu muito para a sua obra Origem das Espécies. Os biólogos Nuno Ferrand e Thomas Dellinger apresentarão, com a moderação de David Marçal (coordenador do GPS), a relação entre o cientista e a “pérola do Atlântico.”  A sua  conferência (Darwin na Madeira, Funchal, 16/11) será uma boa oportunidade para divulgar e discutir a teoria da evolução.
Na educação discutiremos a matemática na escola, designadamente do currículo que deve ser ensinado a todos (Ensinar matemática: importância do currículo, Lisboa, 20/11). O especialista americano em ensino da matemática William Schmidt e os presidentes da Sociedade Portuguesa de Matemática e da Associação de Professores de Matemática falarão das tendências mais recentes, tanto nos conteúdos de matemática como na sua exposição, e dos seus impactos na aprendizagem. 
Na Grande Conferencia de Educação, o famoso educador americano Eric D. Kirsch, autor de As Escolas que queremos: e porque não as temos, falará sobre conhecimento e escola na era da informação (Conhecimento, escola e era digital, Lisboa, 23/11). 
Na fronteira entre ciência e educação, analisaremos os contributos que as neurociências trouxeram à pedagogia. As neurociências têm conhecido enormes avanços nas últimas décadas e as suas aplicações aos processos de ensino e aprendizagem têm levantado numerosas questões. Uma conferência (Neurociências e educação: mitos e evidências, Coimbra, 19/11), com os neuropsicólogos José Morais (um cientista GPS) e Joana Rato, ajudará a esclarecer.
Por último, como afirmou Carl Sagan, o nosso mundo, apesar de baseado na ciência, está cheio de ignorância. Para enfatizar a distinção que importa fazer entre ciência e pseudociência um convidado especial estará  o médico britânico Ben Goldacre, o autor do best-seller Ciência da Treta (Ciência ou pseudociência?, Viseu, 6/11). Estarei com ele. 
Educação e ciência: precisamos das duas, juntas, o mais juntas possível!
Carlos Fiolhais
Coordenador do Mês da Educação e da Ciência da FFMS

"O SÉCULO DOS PRODÍGIOS" DE ONÉSIMO ALMEIDA

HIGGS PARA CALOIROS

domingo, 4 de novembro de 2018

"A escola pública, sendo pública e tratando do que é público, não é um espaço público"

Em mais um momento da educação em que

- se quer confundir a vida da escola com a vida externa à escola, a vida social, familiar, pessoal, com o público, o privado e o íntimo,
- com base na lei, os "agentes sociais" (promovidos a "agentes educativos" e, pior, a profissionais de educação) se infiltram na escola e são solicitados a infiltrarem-se,
- se adapta o currículo às necessidades e exigências desses "agentes", nada resistindo à supremacia de tal critério,

vale a pena ler o artigo de que abaixo transcrevo uma parte, assinado por António Cruz, professor da Escola Vitorino Nemésio.

O título é "A escola, a transmissão e a barbárie" e foi publicado no n.º 6 da revista da escola, intitulada "Pensar a escola" com data de 2008 (pp. 41 e seguintes).

Inspirado em H. Arendt e S. Bauman, o autor, nota a confusão entre "espaço público e privado" e "escola pública"

Na verdade, a escola dizendo respeito ao que é criteriosamente seleccionado da esfera "pública" (nunca podendo integrar o que é da esfera "privado" e "íntima"), não é o espaço público, ou seja o espaço onde todos vivem o seu quotidiano.
"... é da escola pública que nos ocupamos (…) sendo pública, não é um espaço público na medida em que as atitudes que ocorrem neste não deverão ocorrer no espaço escolar. Zygmunt Bauman (2005, p. 67*) caracteriza o espaço público como um espaço de acesso livre, sem registo de entradas e saídas e anónimo. O espaço escolar é um espaço intermédio entre o espaço familiar e o espaço social global. 
O facto de a escola ser uma instituição faz dela uma forma de mediação entre o indivíduo e a sociedade global (não é nem um monumento, nem uma administração, nem uma organização, nem tão pouco o único lugar educativo). Digamos que a escola é o local da instrução e esta supõe tempo para ser assimilada (…). 
O aluno (…) deve elevar-se pelo que aprende e a escola não deve limitar-se apenas a dar uma resposta ao que lhe é socialmente solicitado, a sua oferta (cultural) deve ultrapassar generosamente o que lhe é pedido. A referência da escola não deverá ser o mundo como ele é, mas a ideia de um mundo melhor de acordo com os fins (…). Se a escola transmite um legado cultural, fá-lo em nome do presente e do futuro. Importa que a escola assuma a dimensão de futuro, de possível e de esperança, mesmo que isto se afigure impossível, porque foi contra impossíveis que a humanidade se foi construindo. As dificuldades com que a escola se debate na transmissão do legado cultural (…) relevam quase sempre não de si mesma, mas dos males da sociedade de tal modo que será decisivo (…) restaurar um mínimo de respeito pela escola concedendo-lhe alguma autonomia face à sociedade civil (…) 
[A] refundação da escola implica uma reforma das indústrias de programas (…) [o reconhecimento] da faculdade de conhecer e (…) a reconstituição da atenção como preocupação consigo e com os outros através do saber. A destruição da atenção pelas tecnologias audiovisuais resulta num desastre psicológico e social (fragilizando os laços familiares, provocando uma insegurança generalizada, liquidando a faculdade cognitiva substituída pela habilidade informacional). 
*Bauman, Z (2005). Confiança e medo na cidade. Lisboa: Relógio d´Água.

sábado, 3 de novembro de 2018

"A promoção de uma Educação Mínima"

De Paulo Guinote vale a pena ler também o texto A Mistura Explosiva, publicado hoje no seu blogue. Destaco as seguintes passagens e tomo a liberdade de mudar o título.
"A promoção de uma Educação Mínima (poderemos considerá-la de “aprendizagens essenciais”) tem como efeito a promoção activa da Ignorância, disfarçada por retóricas que apresentam os “Conhecimentos” como algo “empilhável” e muito relativo, em que Ciência e Crença são como que equivalentes. 
O resultado é uma maioria de cidadãos com um enorme défice para lidar com uma multiplicidade de informação. 
É falso que a “competência” para usar as tecnologias corresponda a uma capacidade de selecção de informação, a qual só se consegue com bases sólidas de conhecimentos (...) 
Os populismos na sua variante puramente demagógica e falsificadora crescem em ambientes em que o aumento do acesso à informação (e mesmo à “cultura”) vai a par do crescimento exponencial de uma iliteracia/ignorância funcional (...). 
E a “Sociedade do Conhecimento” torna-se, mesmo em países desenvolvidos, uma Sociedade da Ignorância que promove a exclusão do que é encarado como ameaçador. A Crença (irracional) supera a Ciência (racional). As soluções autoritárias baseiam-se nos medos iraracionais e promovem discursos activamente anti-científicos. Apaga-se a Memória e faz-se acreditar que é possível recomeçar sempre todo um edifício que levou séculos, milénios a erguer. 
A Educação é sempre a solução para romper este ciclo. A preservação da Memória Colectiva é indispensável. É o caminho para uma Cidadania plena, porque informada. Mas não pode ser uma Educação Mínima. Relativista. Essa é a que oferece apenas o “essencial” para dar uma aparência de universalismo democrático. Cria uma ilusão. Disfarçada com uma linguagem de boas intenções. Que promove uma massa de cidadãos facilmente manipuláveis. Pelo bombardeamento de informação. A falsa. A do Esquecimento. A que aposta no Medo."

"Só pode ensinar quem sabe"

Vale a pena ler o artigo sobre o actual momento de formação contínua de professores, assinado por Paulo Guinote, intitulado "Formação ou propaganda?" e saído no último dia do mês de Outubro no jornal Público. A terminar diz:
 A “formação” passou a confundir-se com uma variante de comício, com direito a discursos sem contraditório e aclamação de pé, a menos que se aspire ao index local. A par da proletarização docente, aposta-se numa desqualificação profissional, desprezando-se a actualização dos conhecimentos científicos, de acordo com uma ideologia que volta a promover um pretenso saber “holístico” em construção. Associada à ruptura geracional que já se verifica no recrutamento docente, esta opção terá graves efeitos a médio prazo. Porque, ao contrário de certos chavões simplistas, só pode ensinar quem sabe.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

COM O PRESIDENTE MANUEL DE ARRIAGA NO FAROL DA PONTA DOS CAPELINHOS

1.ª Parte (do livro em preparação “Conversas com os Primeiros Presidentes da República”)

A. Galopim de Carvalho

Na imponência dos seus 20 metros de altura, planta octogonal em alvenaria, com cunhais e cornija em cantaria à vista, o Farol da Ponta dos Capelinhos, dando caminho à navegação desde 1 de Agosto de 1903, em que foi inaugurado, ao tempo do Rei D. Carlos, até 29 de Setembro de 1957, dia em que se “apagou”, na sequência da erupção vulcânica ocorrida no mar ali, mesmo, à sua frente.

Junto ao farol, desde então desactivado, foi inaugurado, em 2008, o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, com propósitos pedagógicos e científicos, para o que dispõe de um conjunto de equipamentos visando dar destaque aquela erupção e à geologia do arquipélago, com noções de vulcanologia, exposição de rochas e minerais e elementos sobre a história dos faróis açorianos.

Pode subir-se ao topo do farol e, foi aí, numa bela manhã de Maio, estando sozinho a olhar o que resta da ilha ali edificada há meio século, que me defrontei com a aparição do Dr. Manuel de Arriaga personagem que, de imediato, reconheci pela memória que tenho da sua imagem no histórico cartaz comemorativo da sua eleição, em 1911, como primeiro Presidente da República.

A área de erupção está classificada como paisagem protegida de elevado interesse geológico e biológico e integra a Rede Natura 2000.

À semelhança do que me acontecera com os nossos reis, este simpático gentleman, de barbicha branca a descer do queixo, vestido à melhor moda da aristocracia do seu tempo, olhando-me nos olhos, começou por dizer:
- Há mais de um século, precisamente, no dia 24 de agosto de 1911 tornei-me o primeiro presidente eleito da República Portuguesa, sucedendo na chefia do Estado ao Governo Provisório do Doutor Teófilo Braga. Foram tempos difíceis. Exerci aquelas funções, lembro bem, até o dia 29 de Maio de 1915. 
- Data em que vos haveis demitido, tendo sido o mesmo Teófilo Braga, que completou o tempo restante do mandato. 
- Nasci na freguesia da Matriz, na cidade da Horta, nesta bela ilha, a 16 de Dezembro de 1845. O acento no livro registou-me como Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue, um nome demasiado comprido e que ninguém conhece. Depois de concluir aqui os então estudos preparatórios, rumei a Coimbra, em 1860, onde cursei Direito. 
- Diz a História que fostes aluno brilhante e que vos haveis distinguido como grande orador e cidadão destacado do republicanismo português, dirigente e um dos principais ideólogos do Partido Republicano Português. 
- É verdade que tinha um discurso fácil, na ponta da língua, como se diz, e que tinha boa capacidade argumentativa. Em vida, para além das questões decorrentes da advocacia, que exerci, com escritório em Lisboa, todos os meus pensamentos estiveram virados para a política, como fervoroso republicano democrático, uma actividade que, certamente sabeis, era tida por subversiva. Interessei-me também por filosofia e literatura, uma paixão que mantive acesa até o fim dos meus dias, paixão que me abriu caminho à poesia. 
- Sei que fostes um dos da notável “Geração de 70”, de Coimbra, e que haveis aderido ao positivismo filosófico. 
- Sim, é verdade. Assimilei e fiz minhas as ideias de Auguste Comte (1798-1857), ideias que dominaram a Europa na segunda metade do século XIX e começo do XX. 
- O positivismo, segundo estudei há muitos anos no Liceu, - acrescentei - defende que só o conhecimento científico pode atingir a verdade. Tem raízes, creio, no iluminismo, o movimento da elite intelectual europeia do século XVIII que, por seu turno, tem raízes no humanismo renascentista. 
- E que, acentue-se, teve como expressão máxima a Revolução Francesa, no final do século XVIII. O positivismo tem, ainda, raízes no surgimento da sociedade industrial. É, por isso, uma doutrina filosófica, sociológica e política que valoriza a pessoa humana, emancipando-a face ao poder político e à Igreja. Antes de mudar de assunto deixa-me acrescentar que, como positivista que fui, nunca aceitei os conhecimentos ligados a crenças, superstições ou quaisquer outros que não pudessem ser comprovados cientificamente. Sempre acreditei que o progresso da humanidade dependia exclusivamente dos avanços científicos. 
- Mas, afinal a que se deve esta vossa aparição neste local? 
- Estive aqui aquando da erupção de 1957, que pôs fim à vida deste farol e ao nascimento dessa ilhota e isso despertou a minha curiosidade para este tipo de problemas. 
- Não sou vulcanólogo, mas, como geólogo, posso tentar satisfazer essa vossa curiosidade, mas sempre ao nível das generalidades. Se quiserdes uma informação mais pormenorizada, sugiro que vos dirijais ao Prof, Victor Hugo Forjaz, meu excelente ex-aluno e hoje um vulcanólogo prestigiado. Antes, porém, gostava de conhecer a vossa versão sobre o que foi, em linha gerais, o essencial da vossa vida como político, em geral, e como primeiro Presidente da República de Portugal, em particular, ao fim de quase oito séculos de Monarquia. 
- Muito antes da Implantação da República, mais precisamente, no dia 18 de Maio de 1871, fui um dos doze signatários do programa das conferências democráticas do Casino Lisbonense. Militei, convicta e activamente no republicanismo unitário e democrático. Ao mesmo tempo opus-me declaradamente ao anticlericalismo e ao jacobinismo que então marcavam a corrente dominante do republicanismo português. Fui homem casado e pai de quatro filhas e dois filhos. A fama de revolucionário fechou-me as portas do ensino superior… 
- Uma delas, eu sei, porque foi lá que me licenciei. Foi a Escola Politécnica de Lisboa. 
- Exacto. A outra foi o Curso Superior de Letras, instituição de ensino superior que antecedeu a actual Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Contentei-me com um lugar de professor de inglês no Liceu de Lisboa, cargo que mantive por largos anos. 
- Em duas tentativas que fiz como candidato republicano a deputado às Cortes, uma em 1878 e outra em 1881, fui derrotado. Só no ano seguinte, numas eleições suplementares, consegui ser eleito deputado republicano pelo círculo da Madeira. Prestei juramento a 10 de Janeiro de 1883, fendo sido o segundo republicano a integrar o Parlamento português, juntando-me a José Elias Garcia, que ali tinha assento desde 1881. Todas as propostas que ali apresentei, uma das quais visava pôr fim ao juramento de fidelidade ao rei e à Carta Constitucional, a que estavam obrigados os parlamentares, foram recusadas, nem nunca consegui integrar qualquer comissão parlamentar. A força dos partidos do chamado rotativismo era muita. Candidatei-me a deputado, uma vez mais, em 1889, e voltei a não ser eleito. 
- Mas haveis-vos distinguido pela pertinência das vossas intervenções e pela fineza do vosso trato e conduta, não obstante a vossa grande combatividade política. Todos vos reconheciam uma cultura superior e elevados dotes intelectuais, aliados a uma oratória brilhante e a um imaculado rigor ético. 
- Durante os anos que ali me bati, renunciei ao meu vencimento como professor liceal, recebendo apenas o subsídio parlamentar a que tinham direito os deputados. Repare-se que era apenas um subsídio, não as mordomias dos deputados do presente. 
- Mas a vossa reputação e o prestígio que haveis conquistado como parlamentar guindaram-vos ao Partido Republicano, a um patamar preponderante, que manteve por largos anos. 
- Sim, de 1883 e 1892. Nesse tempo ajudei a estruturar o Partido Republicano Português, tendo sido, segundo reza a História, um dos principais autores do respectivo programa, apresentado ao público no dia 11 de Fevereiro de 1891. 
- Sei, ainda, que fostes vereador republicano na Câmara de Lisboa. 
- A reacção popular ao ultimato britânico de 1890 levou à dissolução do recém-eleito parlamento, dando-nos uma nova oportunidade, pelo que voltei à ribalta política. 
- E fostes preso, por essa altura. 
- Exacto, fui preso, ao liderar a grande manifestação do 11 de Fevereiro de 1890, em repúdio ao ultimato britânico e à cedência do governo português, e levado para bordo de um navio de guerra, onde fiquei retido até ser libertado por uma amnistia régia. 
- Mas acabastes, finalmente, por entrar em força no Parlamento e na política. 
- Sim, nas eleições de 1890. Fomos eleitos folgadamente como deputados eu, o coronel Elias Garcia, de engenharia militar, e o general Latino Coelho, do estado-maior da mesma arma. 
- Latino Coelho, sabia eu, foi lente substituto da cadeira de Mineralogia e Geologia, da Escola Politécnica de Lisboa, em cujo edifício, depois de substituída pela Faculdade de Ciências de Lisboa, me licenciei em Ciências Geológicas. 
- Essa vitória nas eleições de 1890 deveu-se à indignação popular contra o rei e, em especial, contra o Partido Regenerador, do centro-direita, e o Partido Progressista, do centro esquerda. Desta feita, apoiado por um grupo de seis republicanos, pude lutar pela soberania popular, com destaque para a dignificação dos camponeses e outras classes igualmente carenciadas. Pude, não só no Parlamento, como em frequentes comícios públicos de propaganda republicana, lutar pela liberdade de consciência, de expressão, de reunião e de associação, combatendo toda a solução política que não resultasse directamente da vontade dos cidadãos. 
- Diz a História que, desencantado com a política, vos haveis dedicado à filosofia e à literatura, com destaque para a poesia. 
- Isso é verdade, nessa fase da minha vida, ou seja, entre 1899 e 1907, publiquei dois livros de poesia e um de prosa. 
- Consta ainda que, após a Implantação da República, fostes nomeado reitor da Universidade de Coimbra. 
- Sim, quase duas semanas depois, a 17 de Outubro. E tive, como vice-reitor, Sidónio Pais, um nome sonante no republicanismo português. 
- Sidónio Pais doutorou-se em Matemática nessa Universidade e foi aí professor de Cálculo Diferencial e Integral. 
- Fui nomeado por António José de Almeida, que viu em mim a capacidade de restabelecer a ordem na Universidade, onde os estudantes republicanos estavam a causar grandes desacatos, missão que consegui levar a bom termo. 
- Mas também fostes Procurador-Geral da República. 
- Precisamente, um mês depois. Mas reparo que estais muito informado sobre a minha pessoa. 
- A explicação é simples. Sou republicano, socialista e laico e tenho grande curiosidade por este período da história de Portugal, na transição da monarquia para a República. 
- No ano seguinte, em Abril, voltei a ser deputado, desta vez, para a Assembleia Nacional Constituinte. 
- E, aí, uma vez mais, a vossa fama como orador notável, voltou a fazer-se sentir. Consta da história desse tempo que muitos dos vossos discursos foram decisivos para a afirmação da causa republicana. 
- Tenho consciência e muito orgulho disso e é com grande satisfação que, não obstante as dificuldades que passais, as crises sociais que estalam aqui e ali, a república democrática e laica voltou ao nosso Portugal. Louvemos, por isso, os Capitães de Abril de 1974. 
- E o culminar dessa vossa insistente luta foi a vossa eleição como Presidente da República. 
- No dia 24 de Agosto de 1911, tinha eu já a idade de 71 anos. Não esqueci essa data, assim com não esqueci as dificuldades que então se viviam no Partido Republicano, dividido em facções cada vez mais extremadas. Não contei nesta eleição com o apoio dos “democráticos” do Doutor Afonso Costa, um prestigiado lente de Direito, da Universidade de Coimbra, mas tive-o, porém, da ala moderada dos republicanos. 
- Fostes, assim, o primeiro Chefe do Estado eleito da República portuguesa. 
- Um Chefe de Estado num período particularmente difícil, convenhamos. Por um lado, o Partido Republicano Português, que era o meu, desagregava-se em diferente facções. Os “afonsistas”, da ala radical deste meu partido, ganhavam hegemonia, dando aso à instabilidade política que se viveu e, por outro, os monárquicos liderados por Paiva Couceiro, não me deram descanso. 
- Foi também aquele incidente, em que um grande número de oficiais de cavalaria marchou pela Calçada da Ajuda, a caminho do Palácio de Belém, onde, em sinal de repulsa, pretendiam entregar-vos as espadas, registado na História como Movimento das Espadas.  
- Sim, recordo-me perfeitamente. Seguiu-se a queda do governo do professor Victor Hugo de Azevedo Coutinho. 
- Um governo que ficou jocosamente conhecido por “os Miseráveis de Victor Hugo”.  
- Na sequência, dei posse ao governo do general e engenheiro Joaquim Pimenta de Castro e disso me penitencio. 
- Foi ele o responsável pela primeira ditadura do republicanismo português.  
- Exacto. Fazer dele Presidente do Ministério, designação equivalente ao vosso Primeiro Ministro, foi uma decisão infeliz que feriu profundamente a minha credibilidade como democrata. Seguiu-se, de facto, um governo ditatorial, com dissolução inconstitucional do Congresso da República, o que deu aso à revolta de 14 de Maio de 1915, que o depôs e levou à minha destituição, acusado de trair os ideais republicanos democráticos que defendi toda a minha vida. 
- Essa revolta foi sangrenta.  
- Foi desencadeada pelos republicanos democráticos, com ao apoio da Marinha, tendo-se estimado em cerca de 200 o número de mortos. 
- No meio desta conflitualidade toda, a História lembra-vos como um pacifista.  
- E fui-o, de facto. Deixei o cargo no dia 26 desse mês e abandonei, definitivamente a política. Sei que sou lembrado como uma das figuras mais prestigiadas do republicanismo na oposição à Monarquia Constitucional, mas também tenho consciência do falhanço da minha acção política como Presidente da República, especialmente nos últimos meses do meu mandato. 
- Fostes, então, substituído na Presidência da República pelo Professor Teófilo Braga.  
- Um açoriano, como eu. O Professor Teófilo Braga fora nomeado Presidente do Governo Provisório da República, logo no dia a seguir à Revolução de 5 de Outubro de 1910, e teve, de facto, experiência como Chefe de Estado. 
- A sua eleição como o segundo Presidente da República de Portugal justifica-se, pois, plenamente.  
- O livro que publiquei em 1916, ou seja, no ano que se seguiu à minha destituição, intitulado “Na Primeira Presidência da República Portuguesa”, é, por assim dizer, um testamento da minha vida política.  
- Irei procurar esse livro, pois que, depois de vos ouvir, a minha curiosidade pela História de Primeira República ficou bem maior.  
- Deixai-me, porém, dizer que neste mundo imaterial que dizem ser o das almas, onde entrei no dia 5 de Março de 1917, em que os bens e os interesses terrenos deixaram de fazer sentido e em que tudo se sabe e nada se esconde, analiso, com todo o distanciamento, a incompreensão por parte dos meus correligionários e as críticas e recriminações de que fui alvo.  
- Os vossos restos mortais estão hoje no Panteão Nacional da Igreja de Santa Engrácia.  
- Estive sepultado estes anos todos em jazigo de família, no Cemitério dos Prazeres. Só muito depois, caído de podre, o Estado Novo e restaurada a Democracia, e por resolução, votada por unanimidade, na vossa Assembleia da República, em 2003 é que os meus restos mortais foram transladados para aí. A cerimónia solene teve lugar no dia 16 de Setembro do ano seguinte, com a presença do Presidente Jorge Sampaio, do Primeiro Ministro Santana Lopes e das mais altas individualidades do Estado. 
- É do vosso conhecimento que sois patrono da Escola Secundária Manuel de Arriaga, na cidade da Horta, e que o vosso nome é recordado em centenas de nomes de ruas e praças de Portugal? E que, desde 2011, está patente ao público, na cidade da Horta, a Casa/Museu Manuel de Arriaga? 
- Nós, as almas, sabemos tudo, entramos onde quisermos, de dia ou de noite. Ninguém nos vê. podemos observar tudo o que se esconde e arruma em cofres, arquivos, armários e gavetas, sem precisarmos de chaves nem de luzes acesas, mas não lemos o pensamento dos vivos nem adivinhamos o futuro. Todas estas possibilidades vivem e morrem connosco, nem temos capacidade de influenciar o mundo terreno porque, na realidade, não existimos.  
- Mas estais a falar comigo?  
- Não passo de uma aparição como aquela que se diz de Fátima aos pastorinhos. Só existo porque me estais a trazer ao presente. Sou um mero pensamento surgido na tua cabeça. Esta agradável e frutuosa conversa é uma ficção. Vou deixar-te e vou ao Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores, encontrar-me com esse vosso brilhante ex-aluno e distinto vulcanólogo. 

 Dizendo isto, numa expressão de muita bondade que o caracterizou em vida, a imagem do Dr. Manuel de Arriaga sumiu-se.
A. Galopim de Carvalho

"A SOLIDÃO DOS PROFESSORES É INFINITA"

  Yannick Haenel, agora escritor, entre outras funções ligadas à literatura, foi professor durante 17 anos em escolas francesas onde o traba...