quinta-feira, 13 de novembro de 2014

LETTER REFUSED BY NATURE

I sent to "Nature" some weeks ago a letter on the ESF/FCT assessment of Portuguese science institutes:

"Evaluation of Portuguese research units conducted by the ESF: the flaws

Portuguese research units are funded by Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), the national funding agency. FCT has been carrying out periodic evaluations for more than 20 years, conducted by scientists from foreign institutions with the outcome of determining the level of funding.

The latest (still ongoing) evaluation was outsourced to the European Science Foundation (ESF). In the opinion of a large number of scientists and associations in Portugal (http://goo.gl/KHYDwZ) and many foreign scientists, of which Amayo Moro-Martin is but one example (http://goo.gl/U8OU9a), this evaluation is severely flawed. This ranges from the changing of the rules when the process was underway to the usage of incorrect bibliometric data during the first stage of the evaluation. The latter played a role in determining which units made it to the second stage, where the main part of the funding will be awarded. After legal pressure FCT made public part of the contract with ESF – it still refuses to disclose its addenda - from which we learn that ESF was instructed to a priori exclude 50% of the units from the second stage. As may be read in the work plan for the panels: "Stage 1 evaluation will result in a short list of half of the research units that will be selected to proceed to stage 2." The evaluation had thus to abide by this hidden quota while it was being publicized as being driven by quality alone.

This is not a relative evaluation to find the 50% best units and there is virtually no alternative funding from other Portuguese sources. Units which did not make it to the second stage will most likely not be able to continue. This alone would already be cause for concern, but becomes totally unacceptable when based on a flawed evaluation.


Carlos Fiolhais, Professor of  Physics, University of Coimbra (Portugal)"

The letter was recently  refused in the following terms:

"Thank you for your submission to Correspondence, which we cannot offer to publish. As Dr Moro-Martin already alluded to possible flaws in the ESF evaluation process and we have published a reply from the ESF (see http://www.nature.com/nature/journal/v514/n7523/full/514434e.html), we have now closed this discussion in Correspondence. "

It seems strange that "Nature" published a position of a third party (opinion piece of Dr. Moro-Martin, with many comments; the opinion piece is still still open to comments), the position of ESF, an interested party  (response of Dr. Worms and Dr. Swift; immediately closed to comments after a first reaction) but did not find space to publish the position of a Portuguese scientist.

The first and unique reaction (all the others seem to have been blocked) to Dr. Worms and Dr. Swift is the following:


"Fernando Aleman said:
I think the authors should talk and address the core problem, instead of blaming/attacking the messenger Amaya Moro-Martin.
The budget problems that Moro-Martin presented are a matter of fact, and Jean-Claude Worms and Jane Swift could address why the European Science Foundation has nothing to see with those problems (as they appear to claim between the lines)."

Since "Nature" does not seem to be interested in providing a forum for a free discussion about the quality of the ESF/FCT  assessment and the scientific system in Portugal, scientists, irrespective of whether they are Portuguese or not, wishing to debate this and related issues, are obliged to find space in other media.

REACÇÕES NA SUÉCIA CONTRA A EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION

Recomendo a leitura destes blogs de investigadores suecos, um professor de Filosofia e outro de Matemática num dos quais (o segundo) coloquei um comentário:

http://philosophicalcomment.blogspot.pt/2014/10/dr-jean-claude-worms-of-european.html

http://haggstrom.blogspot.pt/2014/10/an-open-letter-to-mr-martin-hynes-chief.html

A AVALIAÇÃO DESASTROSA DA CIÊNCIA NACIONAL

Jorge Calado, professor do Instituto Superior Técnico, uma figura de referência da ciência nacional, numa notável entrevista publicada ontem no Jornal de Letras critica de um modo violento a avaliação que o estado português, através da FCT, contratou à European Science Foundation (ESF), uma entidade sem experiência relevante em avaliações de institutos e laboratórios.

Ele é apenas mais ma das vozes que se somam na comunidade científica nacional ao coro de indignação contra o desatino e a  arbitrariedade.

Neste momento os muitos erros graves estão comprovados a começar no colossal erro da quota escondida de 50% e a continuar nos atropelos graves à lei e aos regulamentos e a acabar na falta de capacidade científica de alguns avaliadores que resultou em pareceres difíceis de compreender. O processo está estranhamente a prosseguir, com "especialistas" (entre aspas que não o são sempre) a visitar os institutos, num número que por vezes está em claro desacordo com o estabelecido.

Como é sabido, a FCT e a  ESF recusaram-se até agora a emendar os erros, o que levou o Conselho de Reitores a escrever uma carta demolidora ao ministro Nuno Crato, que ainda não respondeu.

A ESF ameaçou com um processo legal uma investigadora espanhola que apontou publicamente os defeitos da avaliação, mas aparentemente o processo ainda não avançou. Muitos investigadores de vários sítios do mundo subscreveram as declarações da nossa colega espanhola, dispondo-se por isso a serem também processados.

É neste quadro que amanhã vou participar num debate com a Secretária de Estado da Ciência e Tecnologia e outros investigadores dentro do Congresso da SNESup à tarde no ISCTE, em Lisboa.

HOJE "ACESSO AO ENSINO SUPERIOR" 17h30 NA TORRE DO TOMBO (CAMPO GRANDE, LISBOA)


Hoje estarei a moderar uma apresentação e um debate com Claire Calender (instituto de Educação de Londres) e Carla Sá (Universidade do Minho) sobre o acesso ao Ensino Superior no quadro das Conferências Questões-Chave de Educação da Fundação Francisco Manuel dos Santos. A entrada é livre e hoje pode ser feita sem inscrição prévia, bastando estar presente. Os participantes terão direito ao livro "Acesso ao Ensino Superior" daqueles autores com prefácio de Pedro Teixeira, economista da educação e vice-reitor da Universidade do Porto. Quem não puder estar presente, poderá acompanhar on-line, ao vivo e a cores no site da Fundação.

A garantia da equidade na entrada, o sistema de exames (ver dossier hoje na Visão), os custos da entrada, a liberdade de escolha, a rede de oferta pública e provada, a mobilidade dos estudantes, o sistema de bolsas e empréstimos, as desigualdades sociais, económicas e geográficas, a mercantilização do ensino superior, etc. no Reino Unido e em Portugal  serão decerto temas da conferência. Estará presente o Secretário de Estado do Ensino Superior.

A CIÊNCIA MERCANTILIZADA

A investigadora em ciências sociais Raquel Varela hoje no Público, num artigo sobre


Angela Merkel, a poesia e os nossos “demasiados licenciados"


"E o universal da universidade desapareceu sob um manto de conhecimento superficial e fragmentado, funcional para as empresas e disfuncional para a sociedade. Cereja em cima do bolo, uma parte da ciência é simplesmente mercantilizada, no âmbito de parcerias público-privadas que garantem à empresa, fundação privada, etc., uma renda fixa – investigadores privados pagos pelo orçamento público."

LITERATURA E ENSINO DO PORTUGUÊS


“Hoje não se lê, folheia-se” (Eça de Queiroz).

A propósito do lançamento do livro “Programas e Metas Curriculares”, da autoria de José Cardoso Bernardes e Rui Afonso Mateus, no dia 22 do mês passado, organizada pela Fundação  Francisco Manuel dos Santos, realizou-se em Lisboa, nas instalações do Instituto Camões, uma Tertúlia, subordinada ao tema “Literatura e Ensino do Português.

A apresentação do livro foi feita por Helena Buescu, professora catedrática da Faculdade de Letras de Lisboa e autora, de parceria com Luís C. Maia, Maria Graciete Silva e Maria Regina Rocha, de Novos Programas e Metas Curriculares da Língua Portuguesa para o Ensino Secundário (2014) em que se resgatam nomes maiores da nossa Literatura aprisionados em garras de “apagada e vil tristeza”. Bem a propósito, nesta sessão, vários intervenientes criticaram verdadeiros tratos de polé que a Literatura Portuguesa sofreu nos últimos 20 anos e que bem espelhados se encontram num cáustico artigo de Nuno Pacheco, com o sugestivo título “Antiensino”, de que se transcreve este pedaço de prosa:
“Nessa altura discutiam-se as muitos discutíveis reformas curriculares que ‘limparam’ do 10.º ano muitas referências literárias trocando-as por ‘textos informativos, ‘textos dos media’, textos de carácter autobiográfico’, textos expressivos e criativos do século XX’. Quem na altura pasmou com a troca foi apelidado de antiquado: quem tem televisão ou Internet em casa dificilmente será seduzido a amar os livros, para mais os fora de moda. Agora já podemos confirmar, com provas indesmentíveis e aterradoras, onde queriam chegar tal iluminados. Basta atentar no conteúdo, divulgado ontem no Público, de alguns manuais de Português B para o 10.º ano. Lá estão, como base de ‘aprendizagem’ o Big Brother, as programações da TV Guia ou as telenovelas envolvendo os alunos num passatempo onde são convidados a dizer ‘o que levou Tomé a expulsar Maria de casa’ ou quem é que ‘Rodrigo agride violentamente, deixando-o cego’. Imagina-se o esforço intelectual das pobres criaturas: explicar quem é Tomé porque embirrou com a pobre Maria, que por sua vez nem conhecia o tal Rodrigo que cegou um zé-ninguém infeliz…” (Público, 12/10/2003).
Grosso modo, sete anos volvidos (05/08/2011), na secção de “Cultura”, deste mesmo jornal, em título à largura de toda a página - “Os franceses estão a redescobrir Camilo” -  deparei-me com a seguinte notícia: “O filme ‘Mistérios de Lisboa’ já fez mais de 100 mil espectadores em França”. Facto este que, mesmo que mantidas as devidas proporções populacionais entre o país da “Cidade das Luzes” e a pátria de Camões, não me faria estranhar que a falta de hábitos de leitura dos nossos actuais escolares preferisse ver a adaptação cinematográfica de “Amor de Perdição”, de António Lopes Ribeiro (1943), a “perder tempo” em ler (ou sequer a folhear!) a respectiva obra literária que muito apreciada foi, em herança ancestral,  pela juventude do meu tempo.

Por estarmos em presença de um interculturalismo sem fronteiras geográficas, que o galo gaulês representa com panache, bem se compreende que o livro “Mistérios de Lisboa” (traduzido para francês por “Mystéres de Lisbonne”) esteja no (ainda segundo o jornal Público) “no top dos livros mais vendidos na Fnac Forum de Paris, a maior das lojas Fnac  do país”. Acresce que este interesse pelo escritor de São Miguel de Seide passa, outrossim, em citação da mesma fonte “pela edição francesa do livro “Amor de Perdição” (“Amour de perdition”), feita em França há uma dezena de anos e  difícil de encontrar nas livrarias”.

Desta  forma se cumpriu, uma vez mais, o aforisma português de que santos ao pé da porta não fazem milagres. Mas daí a cometer o pecado de expurgar a prosa camiliana, segundo Maria Amélia Vaz de Carvalho, “personificação do génio português”, da bibliografia dos programas escolares, representou um verdadeiro roubo feito à Literatura Portuguesa e à própria Cultura de um mundo sem fronteiras.

Camilo sofreu do pecado de se deixar enredar pelas teias da paixão escandalosa por Ana Plácido sem conseguir, por outro lado, libertar-se de uma sua outra paixão, esta de pendor literário: a polémica, por vezes, trauliteira. Polémica de que colho este exemplo em ataque dirigido ao jornalista Mariano Pina: “Cada vez mais charro. E perfeitamente um sapateiro de máscara a dizer pilhérias que tresandam ao cerol”.

Todavia, sempre que se fala de Camilo não podemos divorciá-lo do seu papel de grande vulto da Língua Pátria e, muito menos, do "ódio de perdição” que os responsáveis, ao tempo, da 5 de Outubro lhe dispensaram por omissão, ou mesmo assassinato, nos então vigentes programas da disciplina de Português do ensino secundário. 

A Língua Materna é, ou devia ser, obrigatoriamente, a argamassa da forma de nos expressarmos oralmente ou por escrito, de forma correcta, e que tanto útil, é, ou devia ser, aos cientistas, aos jornalistas ou mesmo ao simples homem comum. Um cientista incapaz de defender em português correcto as suas teses ou relatar as suas experiências científicas, um jornalista que tenha lapsus calami por sistema, um professor que num documento escreva “senhor presidente do ‘Concelho’ Directivo”, um aluno que, na ausência da muleta do corrector ortográfico dos computadores, em cada três palavras dê um erro, o homem comum que dê pontapés na gramática com o à-vontade de um Cristiano Ronaldo a chutar à baliza, tornam-se mais notados pela negativa,  no seu dia-a-dia, que um médico que não saiba distinguir o barlavento do sotavento, um professor de Português que não saiba somar fracções ou um aluno que “não entre” na Matemática prosseguindo, ipso facto, cursos das chamada Humanidades. Mas não se pense com isto, vade retro, Satanas!, que estou a descriminar qualquer destas formas de ignorância: todas elas merecem a minha reprovação por amputarem o homem de uma necessária cultura geral que acompanhe o conhecimento específico dos complexos saberes das diversas profissões.

Mas é bom que se retenha que a irresponsabilidade praticada, ao tempo, pelo Ministério da Educação sob a tutela do Partido Socialista se poderia ter tornado numa centelha do enredo do romance de ficção científica “Fahrenheit 451”, da autoria de Ray Bradbury, em que os livros eram incendiados por bombeiros de um regime totalitário para não distraírem as pessoas tornando-as menos produtivas.

Não, não estou, com isto, de forma alguma, a querer ver na proscrição da obra de Camilo, ou de outros autores portugueses que se notabilizaram no rico espólio da nossa literatura nacional, um sistema educativo tutelado por um regime totalitário. Apenas a pretender dizer que a ignorância oficial e oficializada é também ela uma forma de ditadura por roubar ao aluno o prazer cultural  da leitura escolar dos nossos melhores prosadores e poetas podendo, hoje, num tempo em que tanto  pânico causa o “´ébola”, a título de mero exemplo epidémico, vir a dificultar ao aluno espanhol a leitura de Cervantes, a complicar ao aluno francês o deleite da visitação do Museu de Louvre ou a empecer ao aluno alemão a audição da Orquestre Sinfónica de Berlim. Ou seja, uma Cultura de costas voltadas para as Belas-Letras, para as Belas-Artes e para a Música Clássica.

Em resumo, em reprovação do próprio Bill Gates, um mundo novo (admirável?) em que a matriz cultural poderá vir a ceder lugar às novas e miríficas tecnologias da invasão dos computadores nas escolas portuguesas em idades precoces: “Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história”.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ACESSO AO ENSINO SUPERIOR



Hoje de tarde em Vila Real às 16h30 na UTAD e amanhã às 17h30 na Torre do Tombo em Lisboa, debate organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre "O Acesso ao Ensino Superior". Leia a excelente reportagem no jornal de Letras de hoje, com uma entrevista com Claire Callender, a professora do Instituto de Educação de Londres, juntamente com Carla Sá, da Universidade do Minho. Transcrevemos parte para abrir o apetite para o resto:

Claire Callender : Pensar o Ensino Superior

Hoje, quarta-feira, 12, na Universidade de Trás os Montes e Alto Douro, em Vila Real, e amanhã, 13, na Torre do Tombo, em Lisboa, debate-se o Acesso ao Ensino Superior. Tema da segunda conferência do ciclo Questões-Chave em Educação, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. O JL/Educação entrevista as duas oradoras, especialistas na matéria, a inglesa Claire Callender, da Universidade de Londres, e Carla Sá, da Universidade do Minho

Francisca Cunha Rêgo

Claire Callender não tem sombra de dúvida: "A educação superior transforma vidas". São mais de 35 anos de investigação na área que confirmam esta certeza. Autora de inúmeros estudos sobre Ensino Superior, Claire Callender, 60 anos, é prof.ª da Universidade de Londres, responsável pela cadeira de Estudos de Ensino Superior, no Instituto da Educação, e pela de Políticas de Ensino Superior, em Birkbeck.

A equidade no acesso à Universidade é uma das temáticas que mais a preocupa. Isso mesmo dirá hoje, dia 12, às 16 e 30, na Aula Magna, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real, e amanhã, 13, às 17 e 30, na Torre do Tombo, em Lisboa, conferências moderadas, respetivamente, por Maria da Conceição Azevedo e Carlos Fiolhais.

Quais os fatores mais impactantes na participação dos estudantes no Ensino Superior? Existe, de facto, igual acesso? E se não existe, porque não? São algumas das questões que Claire Callender levantará na sua apresentação. Ao JL/Educação fala ainda sobre as melhores práticas no financiamento do Ensino Superior, o peso das propinas, sobre ensino académico e vocacional, universidades públicas e privadas, o Processo de Bolonha e o futuro das universidades que, prevê, será de expansão.

Autora de, entre outras obras, Bruwne and beyond: Modernizing English Higher Education, com P. Scott; Student Financing of Higher Education: A Comparative Perspective, com D. Heller; Part- Time Higher Education Students Two Years After Graduating, com D. Wilkinson; e The Impact of Higher Education for part-time Students, além de inúmeros papers e artigos em revistas da especialidade, Callender prepara neste momento um estudo sobre as atitudes dos estudantes em relação à dívida.

Esta investigação surge na senda de um trabalho de 2002, no qual investigou se os estudantes ponderavam deixar de ir para a Universidade por recearem o encargo financeiro em termos de dívidas que daí resultaria. Doze anos depois, entrevistando agora cerca de 200 estudantes do Ensino Secundário, vai comparar resultados.

Licenciada e doutorada pela Universidade de Bristol, em 2003, tornou-se membro da Academia de Sociedades Científicas para as Ciências Sociais. E em 2007/2008 recebeu uma bolsa Fullbright New Century, tornando-se prof.ª convidada na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

JL/Educação: Pode haver equidade no acesso ao Ensino Superior?

Claire Callender: Pode. Mas é necessário que ocorram várias mudanças logo no início do sistema educativo, ou seja, no pré-escolar. No caso inglês, aquele que conheço a fundo, as maiores desigualdades acontecem com os estudantes mais pobres que têm menos hipóteses de concluir uma educação superior e, na maior parte dos casos, sequer de lá chegarem. As iniquidades no acesso estão associadas, não exclusivamente mas quase sempre, às performances dos estudantes no Ensino Secundário, onde não conseguem obter as qualificações necessárias para avançarem no seu percurso académico.

Os fatores classe social e nível de rendimento das famílias associamse diretamente às iniquidades que, infelizmente, começam muito cedo. Há dados empíricos a mostrar que, a partir dos 22 meses, já existem desigualdades, nomeadamente no que diz respeito às competências cognitivas dos bebés. Com o tempo, essas iniquidades que resultam na diminuição das capacidades cognitivas, vão aumentando. E são cumulativas tornando-se maiores à medida que a criança cresce.

- O que se pode fazer para interromper esta desigualdade?

- Os dados mostram que se houver uma intervenção precoce podem melhorar-se as capacidades cognitivas das crianças. Se se começar no pré-escolar, com um programa educativo rigoroso, pode fazer toda a diferença. O problema é que, no Reino Unido, o financiamento para esta área está a ser cortado.

- Os orçamentos destinados à Educação estão a ser emagrecidos também em Portugal e noutros países europeus...

- Exatamente. O mais preocupante é que todos os dados mostram que as sociedades estão cada vez mais desiguais. É um problema devastador e a grande questão é se há ou não vontade política de erradicar algumas das desigualdades. Neste processo, o papel dos educadores e dos professores pode ser fundamental, mas têm que ter formação superior e serem bem pagos. Infelizmente, quase sempre, são as pessoas com menores qualificações que ensinam as crianças mais pequenas em situações sociais mais desfavorecidas.

- A injustiça começa cedo.

- Demasiado cedo. E o pior é que continua ao longo do processo educativo. Mesmo que os alunos de meios económicos desfavorecidos cheguem à universidade, é menos provável que vão para as melhores.

Por outro lado, há uma pesquisa muito interessante que mostra que dois alunos com capacidades cognitivas semelhantes, vindos de classes sociais diferentes, podem entrar na mesma universidade. E se aquele de um meio mais desfavorecido andou numa escola secundária pública e obteve bons resultados é mais provável que tenha melhores resultados na universidade do que o seu colega.

- Então há esperança...

- Sim, mas fica rapidamente esmagada. Acaba de sair um relatório que mostra claramente que alunos que andaram em escolas secundárias privadas obtêm, dois anos e meio depois de se licenciarem na mesma universidade, um salário muito melhor do que aqueles que andaram nas secundárias públicas. Ou seja, os privilégios continuam no mercado de trabalho.

FINANCIAMENTO & PROPINAS

- O financiamento é o problema maior do Ensino Superior?

- É um dos maiores. Desde 2012/2013 que temos no Reino Unido um novo sistema. Anteriormente o governo financiava as universidades e os alunos pagavam uma propina baixa. Agora, o governo retirou grande parte dos fundos que dava às universidades, dizendo-lhes que podem cobrar propinas mais caras, e dá o dinheiro diretamente aos estudantes, sob a forma de subsídios, para pagarem as avultadas propinas. A média hoje, no Reino Unido, das propinas universitárias é de nove mil libras por ano (cerca de 11 mil euros). A grande dúvida é saber se este sistema será sustentável a longo prazo. E com ele levanta-se também uma nova questão.

- Qual?

- Até agora, no Reino Unido, só existiam quatro universidades privadas, mas como resultado destas mudanças da legislação houve um incremento de pequenos institutos de educação privados que vêm 'aliciar' os estudantes que agora têm acesso aos subsídios estatais. Mas qual a qualidade dos serviços destes institutos? Atingem o nível exigido a uma licenciatura? Ainda é uma proporção muito pequena no todo do universo do Ensino Superior, mas é uma preocupação. E será que, em geral, o Ensino Superior tem qualidade suficiente. Estaremos a dar o que os alunos precisam? Outro grande problema que enfrentamos prende-se com o marketing.

- Em que medida?

- Temos construído um sistema no qual o marketing é uma parte importante do Ensino Superior. Os valores do mercado estão a influenciar o papel das universidades. O  governo queria que houvesse uma competição crescente entre os 'fornecedores de educação' e que os estudantes e as suas escolhas estivessem no coração do sistema. Conseguiu fazê-lo. Mas penso que é preciso questionarmo-nos se se trata ou não de um bom desenvolvimento. Um dos principais problemas previsíveis é que uma larga percentagem de estudantes não vai pagar os empréstimos na totalidade.

- Porquê?

- Os empréstimos estatais relacionam-se com o rendimento futuro dos alunos. Se um jovem licenciado receber um salário muito baixo, então não tem que pagar o empréstimo. Se receber um salário médio, paga uma percentagem média e só se estiver a trabalhar, por exemplo, na City, paga a totalidade do empréstimo. Além de que dívidas muito avultadas são perdoadas ao fim de 30 anos. Parece-me correto que o governo subsidie os jovens que pior recebem. Mas, na verdade, estas alterações fizeram-se para poupar dinheiro e é muito questionável que este novo sistema esteja a fazê-lo. Neste momento, prevê-se que seja apenas 5% mais barato do que o anterior. E os estudos mostram que por cada libra investida num estudante o governo só irá receber 55 cêntimos.

- Qual então o sistema de financiamento ideal?

- Não é fácil responder. O financiamento do Ensino Superior é uma questão tanto ideológica e política quanto económica. O ponto-chave são as propinas. A lógica vai depender de quem cada país, e cada governo, consideram ser o maior beneficiário da educação superior. O sistema de empréstimos inglês parte do pressuposto que os maiores beneficiários da educação são os estudantes individualmente. Na Escandinávia a sociedade é vista como a principal beneficiária, por isso o estado financia diretamente o Ensino Superior, dedicando-lhe uma proporção muito grande do seu orçamento. Ambos os sistemas são válidos. Nas questões à volta do financiamento o que está em causa é o equilíbrio entre o retorno privado e o retorno público e social do Ensino Superior.  "


(...)
  

"STUFF MATTERS" PRÉMIO PARA O MELHOR LIVRO DE CIÊNCIA


A Royal Society acaba de anunciar o livro premiado no seu concurso anual para o melhor livro de ciência: Stuff Matters, de Mark Miodownik. Entre os finalistas estava um livro do português João Ferreira sobre a teoria da relatividade geral.

O LIVRO DO FILME INTERSTELLAR


Escrito pelo físico Kip Thorne e prefaciado pelo realizador Christopher Nolan, foi lançado na mesma altura que o filme.


O JOGO DA IMITAÇÃO

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Trailer do novo filme sobre o matemático Alan Turing, a estrear no início de 2015.

A TEORIA DE TUDO

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Trailer do novo filme sobre Stephen Hawking, a estrear no início de 2015.

A REFORMA QUE TOCARÁ O ÂMAGO DA CULTURA DA CHINA


Artigo de Guilherme Valente no último Expresso:

A quarta sessão plenária do 18º. Congresso do Comité Central do Partido Comunista Chinês (PCC) acaba de discutir um tema que não é surpreendente para quem tenha acompanhado, sem preconceito nem cegueira ideológica, a história recente da China: o estado de direito. 

 Se a probabilidade de um pluralismo partidário não se coloca num futuro vislumbrável, o caminho para um poder judicial independente, que deixe de ser possibilidade ou efectiva corrente de transmissão e protecção do(s) poder(es) político(s), anima as conversas na sociedade e configura-se como a esperada nova etapa no processo cujo proclamado objectivo último é o «rejuvenescimento» (复兴) da China. Esta expressão, que remete para Sun Yat-Sen e a sua «Sociedade para o Rejuvenescimento da China», foi usada recorrentemente pelos líderes chineses após a devastação perpetrada pelas potências ocidentais e o Japão e a decadência no final do período manchú terem posto termo à centralidade chinesa, mergulhando as elites e o povo numa humilhação e numa crise de identidade ainda não completamente resolvida. 

A sessão que decorre em Pequim reflecte, afinal, o debate amplo e vivo sobre o modelo político que tem decorrido na sociedade chinesa (ver China 3.0, Gradiva/Conselho Europeu para as Relações Externas/Fundação Calouste Gulbenkian, 2012). 

«Os caracteres ´estado de direito´, repetem-se nos cabeçalhos de dezenas de publicações diárias, proclamando a urgência da sua construção», escreve o enviado a Pequim do jornal A Tribuna de Macau, João Nicolau, de cuja notícia retiro as citações. 

Como todas as reformas anteriores (por exemplo, a limitação de dez anos mandatos do Presidente e do Primeiro-Ministro e a impossibilidade de voltarem a assumir cargos de poder efectivo -- que falta faz em Portugal uma regra assim!), também esta será determinada e conduzida, no ritmo decidido pelos dirigentes chineses, por razões pragmáticas. Neste caso o combate ao maior obstáculo ao desenvolvimento do país, ameaça maior ao governo do PCC: a corrupção. 

De facto, ao "contrário da reforma política democrática no Ocidente, que evoluíra a partir de uma crença em certos valores e direitos humanos universais provindos de uma fonte «natural», ou divina, a tradição de reforma predominante na China proveio de uma fonte muito mais utilitária (ver, Schell e Delury, Razing China - China´s Quest for Wealthy and Power, Random House, 2013). O objectivo das reformas foi sempre elevar novamente a China à posição que perdera de poder, prestígio e contributo civilizacional. «O lema riqueza, poder e honra significou na formação da China moderna o que o lema liberté, égalité, fraternité significou para a Revolução Francesa e para a criação da modernidade no Ocidente». «A construção de um estado de direito pode ajudar na campanha anti-corrupção», escreve a agência oficial Xinhua. «Uma administração conforme a lei é indispensável no aprofundamento das reformas económicas e na estabilização da economia». «Uma mentalidade obsoleta de desprezo pela lei reina entre alguns dirigentes», «Excesso de produção, bolhas imobiliárias, endividamento dos governos locais, empréstimos mal parados, têm raiz na interferência administrativa e corrupção que resultam da inexistência de um estado de direito», escreve ainda a Xinhua, «sublinhando que a falta de supervisão judicial do poder propicia o aumento da corrupção». É a China oficial a falar... de si própria! (Triste é nós, Portugueses, não estamos assim tão longe de tal necessidade, embora vivendo num estado de direito.) 

 Com a capacidade de mobilização e o patriotismo da população, pode prever-se o efeito sísmico desta reforma na sociedade e na própria cultura da China. Numa sociedade que se transformou socialmente tão depressa quanto cresceu economicamente (o número de habitantes nas cidades ultrapassou em 2011 o das zonas rurais), a ordem social assente na moral individual meritocrática confuciana, base da governação da China e condição da sua riqueza económica e superioridade civilizacional durante quase 2000 anos, não pode dispensar a regulação de um Estado de direito, 

Com tal reforma a China não será apenas o exemplo invejável de desenvolvimento que já é, mas tornar-se-ia uma civilização atraente como já foi, ficando em muito melhor posição para alcançar não apenas o reconhecimento que deseja, mas também para desempenhar o papel que lhe cumpre na valorização da ordem internacional.

Guilherme Valente (editor da Gradiva)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES

CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES (Portugal, Universidade de Coimbra, 20-21 maio de 2015)

A História da Antiguidade Clássica tem trilhado, nas universidades europeias, norte-americanas e brasileiras, um percurso de afirmação que se traduz quer num crescente número de publicações quer em projetos de investigação voltados para temáticas capazes de estimular a comunidade académica e a sociedade civil contemporâneas.

Essa renovação de estudos numa área de saber tão enraizada em Escolas de universidades de referência, espalhadas um pouco por todo o mundo, passa, seguramente, pelo estabelecimento de diálogos interdisciplinares entre a vasta área de domínios do saber que devem concorrer para a construção de um conhecimento holístico (e não fragmentado) da História da Antiguidade Clássica. No sentido de inverter a tendência para o isolamento dos estudos sobre Antiguidade Clássica, grega e romana, em domínios de especialização fechados sobre si mesmos, propomos a realização de um congresso focado em abordagens interdisciplinares.

Visa-se, desta forma, produzir um tratamento inovador sobre questões, no geral, ancoradas em campos bem individualizados do saber: a história, a arqueologia e os estudos clássicos. Incentiva-se a apresentação de propostas de conferências partilhadas, resultantes da pesquisa conjunta de proponentes de áreas científicas distintas (com a duração de 40mn).

Também serão consideradas propostas individuais, desde que configurem uma clara leitura interdisciplinar (com a duração de 20mn).

Temáticas preferenciais:
1. Ação Política
2. Sociedade e Cultura
3. Vida Quotidiana
4. Religião, Mito e Prática
5. Novas Tecnologias aplicadas à História da Antiguidade Clássica

Website: http://cechfluc.wix.com/cihac

Comissão Científica
- Jorge de Alarcão (Universidade de Coimbra)
- Jaime Alvar Ezquerra (Universidad Carlos III, Madrid)

- Mark Beck (South Carolina University)
- João Pedro Bernardes (Universidade do Algarve)
- Susan Deacy (University of Roehampton)
- Thimothy Duff (Reading University)
- Carlos Fabião (Universidade de Lisboa)
- Fábio Faversani (Universidade Federal de Ouro Preto, Minas Gerais)
- Thomas Figueira (Rutgers, The State University of New Jersey)
- Delfim Leão (Universidade de Coimbra)
- Fábio de Souza Lessa (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
- Maria da Conceição Lopes (Universidade de Coimbra)
- Vasco Mantas (Universidade de Coimbra)
- Maria Manuela Martins (Universidade do Minho)
- João Gouveia Monteiro (Universidade de Coimbra)

- Francisco Oliveira (Universidade de Coimbra)
- Pauline Schmitt Pantel (Universidade de Paris 1- Sorbonne) 

- Christopher Pelling (Universidade de Oxford)

O BODE RESPIRATÓRIO


Desde 2013 que as auditorias obrigatórias à qualidade do ar, daquelas que podiam detectar Legionella nas caldeiras de aquecimento em lares de idosos e nas torres de refrigeração das fábricas, foram eliminadas por este governo. São custos do neo-liberalismo: as empresas fazem o que lhes dá na mona e o Estado fiscaliza, a expensas próprias, quando lhe dá na mona.

Mas não faz mal, o Ministro do Ambiente já arranjou um bode respiratório: a Adubos de Portugal.

CORRECÇÃO: Como nota Ricardo Reis no seu comentário, as auditorias que deixarem de ser obrigatórias a partir de 2013, não abrangiam as instalações fabris, como as da Adubos de Portugal. Foi um erro, pelo qual apresento as minha desculpas.

E, "salas, quartos, camas de bebés e tudo o que tenha uma câmara"


Imagem copiada do Diário de Notícias
No Diário de Notícias de hoje, o jornalista Bruno Abreu assina um artigo - Site vigia 276 casas portuguesas e exibe imagens sem donos saberem - que toda a gente deveria ler. Melhor, que toda a gente deveria ler (de preferência na versão em papel, por conter mais informação) as vezes que fossem necessárias para compreender perfeitamente as implicações do que se desvenda nesse artigo.

O que lá se conta era de esperar que um dia viesse a público: existe um "sítio" de internet a partir do qual se pode aceder a milhares e milhares de câmaras de vigilância de casas, lojas, cafés.. de todo o mundo. E, "salas, quartos, camas de bebés e tudo o que tenha uma câmara".

Portugal não está excluído (sim, Portugal, o país em que vivemos; nós, no "nosso quintal"). Eis um extracto da notícia:
"Numa loja de óculos de Matosinhos, vazia, uma funcionária vai consultando o computador enquanto conta o tempo que demora a passar. Na janela ao lado, outra pessoa serve vinho aos clientes num restaurante de Lisboa. Mais abaixo, no Funchal, as traseiras de uma casa albergam um conjunto de cadeiras, mesas e guarda-sóis que descansam, inutilizados, face ao mau tempo trazido por novembro (...). 
Em Portugal o site observa 276 localizações de norte a sul e ilhas. O DN viu estas imagens num computador da redação, simplesmente acedendo ao site Insecam que garante ter acesso a 73 mil câmaras de vigilância, com recolha de imagens pela internet em todo o mundo."
É paradoxal a atitude desse "sítio": expõe a privacidade de pessoas particulares para "altruisticamente" denunciar... a falta de privacidade das pessoas, em geral. Explico melhor: mostra ao mundo a realidade vivencial de pessoas concretas para explicar que isso pode ser feito, está a ser feito, mas não deve ser feito!

(Trata-se de uma atitude muito diferente do trabalho de encenação da realidade que a artista Gail Albert Halaban realizou. Isto é legítimo; aquilo não)

O jornalista ouviu um jurista, especialista em protecção de dados, que lhe disse que a prática do "sítio" não é legal, e ouviu também um inspector da polícia judiciária, que lhe disse tratar-se de um crime.

Sim, claro, mas acontece! E vai continuar a acontecer, seguir-se-á a divulgação de mensagens de correio electrónico, de redes sociais, etc, etc, etc. até o mundo se tornar num lugar absolutamente impossível para... vivemos. Apenas para isso: para exercermos o direito de viver a nossa vida.

A menos que as pessoas tomem consciência da destruição do valor inestimável que é a privacidade e se recusem a participar no que a pode perturbar, nada poderá parar o que a destrói.

"Não Entres Docilmente Nessa Noite Escura": o poema do filme Interstellar

Não Entres Docilmente Nessa Noite Escura de Dylan Thomas  (tradução de Fernando Guimarães)



Não entres docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o vôo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Dylan Thomas

Tradução: Fernando Guimarães

Ouvir aqui uma leitura do autor do poema: 

REITOR DOS REITORES INSISTE NA CRÍTICA À "AVALIAÇÃO" DA ESF/FCT


António Cunha, Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas a partir de hoje, insiste na crítica muito forte que ele e os Reitores portugueses têm feito, em uníssono à "avaliação" (quer dizer, pseudo-avaliação) da ciência nacional. O certo é que o ministro Nuno Crato não mexeu ainda uma palha num processo mal conduzido, cheio de falhas e com resultados desastrosos não só para a ciência nacional mas para a credibilidade do governo, em particular a dele. Quase toda a gente já percebeu que esta "avaliação" está ferida de morte após a carta dos Reitores, que nºao obteve ainda qualquer resposta talvez porque fosse impossível argumentar contra os factos graves para os quais os Reitores chamam a atenção. Eis um extracto da entrevista dada ao jornalista Samuel Silva e publicada hoje no Público (sublinhados meus):

"No dia seguinte à sua eleição, o CRUP emitiu um comunicado particularmente violento em relação à avaliação das unidades de investigação pela FCT. Foi uma coincidência?

O comunicado é assinado por dois presidentes: um cessante e outro eleito. Desde o princípio, levantámos grandes reservas ao modo como esta avaliação foi conduzida. As questões que mereceram reserva foram sempre as mesmas: a tipologia dos painéis, que considerávamos que não tinha a abrangência necessária, e o facto de não serem feitas visitas aos centros.
~
O que justifica que o comunicado recente seja mais assertivo?

Houve uma fase de audiência prévia, onde várias das nossas reservas não foram resolvidas. Aquela reunião do CRUP [na qual António Cunha foi eleito, a 14 de Outubro], foi a primeira que tivemos depois de serem conhecidos os resultados da audiência prévia. Nada mais do que isso.

O que deve ser feito agora?

O sistema científico evoluiu muito e é bastante mais robusto e complexo do que era em 2007. Não me parece fazer muito sentido estar a comparar avaliações. Mas as coisas deveriam ser feitas de um modo diferente. Já o dissemos: foi uma oportunidade perdida. Gostaríamos que esta avaliação pudesse ser pedagogicamente usada pelas universidades para, dentro das suas casas, confrontarem os diversos centros com o que devia ser o caminho correcto e as soluções menos adequadas. Como a avaliação tem falhas, e há situações que são inexplicáveis, dificilmente podemos usar esta avaliação com essa lógica.

Qual é o caminho agora?

Seria muito bom que a FCT considerasse que esta avaliação não é o melhor processo de avaliação algumas vez feito e que fosse capaz de admitir as falhas. A resposta que a FCT tem dado é completamente autista. Eu não tenho dúvidas que, se me convidassem para ir avaliar os hospitais suecos, e eu tivesse a irresponsabilidade de aceitar, faria uma avaliação independente, porque não tenho qualquer ligação com qualquer hospital sueco. Agora não ia ser uma avaliação competente. A independência por si só não chega. É preciso que o processo seja competente e há evidências de coisas incompreensíveis.

Uma avaliação como esta é reformável?

Se a FCT quiser, sim. Era isso que devia acontecer. Há certamente mecanismos para percebermos onde estão as situações que não fazem sentido e tentarmos corrigi-las. Se, por causa desta avaliação, formos fechar um centro de investigação num local onde só há aquele centro a fazer aquela actividade, os custos e os estragos disto para o país são enormes.

Qual vai ser o legado deste consulado Leonor Parreira/Miguel Seabra?

Esperemos que não seja a destruição de algumas estruturas de investigação reconhecidas internacionalmente e que, em alguns casos, correm o risco de ser postas em causa devido a um processo de avaliação que, desde o princípio, tem fragilidades."

Ler o resto aqui.

Ainda a ciência diluída

Minha resposta a Paulo Varela Gomes no Público de hoje: 

Escreveu-me, em carta aberta, o meu colega da Universidade de Coimbra Paulo Varela Gomes (PVG), dando-me conta do seu desagrado com a minha última crónica, na qual critiquei a regulamentação da homeopatia e a “diluição” em curso da ciência nacional.

Relatou que lhe foi diagnosticado um cancro há dois anos e que tem recorrido a tratamentos homeopáticos, os quais considera terem beneficiado a evolução do seu estado clínico, que se revelou mais benigno do que tinha sido prognosticado. Fico feliz que assim seja e desejo que essa evolução favorável se mantenha. Mas, como decerto sabe, um caso particular não permite tirar conclusões. Será, no máximo, um ponto de partida para mais investigação e nunca um ponto de chegada. Quando observamos um efeito, para lhe atribuirmos uma causa específica temos que excluir as restantes causas possíveis. Por exemplo, PVG refere a “revisão radical da alimentação”. Pode ter sido um factor relevante, mas não sou médico e francamente não sei. Num caso específico, uma determinada causa ou conjunto de causas, consideradas ou não, poderá ser a razão das melhoras. Quando há melhoras num grande número de pessoas sujeitas ao mesmo tratamento, a causa será provavelmente o tratamento. E é precisamente para saber isso que se realizam ensaios clínicos. Nos ensaios clínicos os remédios homeopáticos não apresentaram até hoje uma eficácia superior à do placebo usado no grupo de controlo.

Bem sei que há muita gente notável e muitas instituições conhecidas que julgam que a homeopatia é mais do que comprimidos de açúcar. Mas isso não substitui a fundamentação científica. Na ciência não interessa o nome de quem faz uma afirmação, interessam as provas que apresenta. Os gurus que dizem que remédios homeopáticos curam o cancro não fazem ideia nenhuma do que é essa doença e estão, em geral, a aproveitar-se da aflição dos doentes. Tem sido a medicina que tem permitido grandes avanços na luta contra esse mal (sugiro o livrinho O Cancro, de Manuel Sobrinho Simões, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014) e não a pseudociência.

Por último: PVG, doutorado em História da Arquitectura e professor num departamento de Arquitectura, nada disse sobre a “diluição” da ciência em Portugal. Sabe que dos três avaliadores que visitaram o centro de estudos de Arquitectura na Universidade do Porto nenhum era arquitecto? E que não sabiam quem era Siza Vieira? Não partilha a minha crítica aos actuais gestores da ciência nacional por a estarem a deitar por água abaixo?

Como vê, não segui o seu conselho para ficar calado. Até porque não podia deixar de lhe desejar as melhores melhoras, para que nos dê mais páginas brilhantes como as de Ouro e Cinza.

Com os cumprimentos do seu admirador.

Carlos Fiolhais
Professor da Universidade de Coimbra

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Em nome da igualdade de oportunidades

Na continuação do meu texto O currículo a saque - 3.

"Há muito locais, sobretudo nas cinturas das grandes cidades
(…) em que a criança se recolhe na escola e vai à escola e 
gosta da escola e sente-se bem na escola. Muitas vezes não
 vai às aulas, mas a escola é um local de afecto."

Marçal Grilo, década de 1990
(Programa de televisão Falatório)

"...não quero ver no meu país o que acontece noutros países: 
uma escola que é essencialmente um “centro social” 
nos meios mais pobres e uma outra centrada na aprendizagem 
nos meios mais favorecidos . Em nome da democratização
estaríamos a tornar os frágeis ainda mais frágeis."

António Nóvoa, 2006
(Intervenção na Assembleia da República)

Uma das perspectivas que, desde há várias décadas, se tem destacado na generalidade dos discursos sobre a educação escolar (teóricos, políticos, "de rua"...) é que os "mais desfavorecidos económica e culturalmente" devem ser (sobretudo ou exclusivamente?) objecto de apoio, suporte afectivo e social, apoio, suporte que (infere-se) os "mais favorecidos económica e culturalmente" supõem que lhes falta.

A abordagem pedagógica proposta pelos "mais favorecidos económica e culturalmente" para os "mais desfavorecidos económica e culturalmente" é, pois, (sobretudo ou exclusivamente?) afectiva.

Esta abordagem, apesar de nunca ser bem clarificada, percebe-se ter a ver com a compreensão do aluno como pessoa, integrada no seu contexto social concreto.

A sua família, os seus sentimentos, as suas motivações e acções, as suas expectativas, os seus interesses, as suas necessidades, a sua casa, os seus amigos, os seus tempos livres, a sua infância, a sua cor de pele, a sua etnia, a sua alimentação, os seus cuidados de higiene e de alimentação, os seus ídolos musicais, as suas preferências desportivas, etc, etc, etc... são a base didáctica: parte-se delas para a elas se retornar.

Explicando melhor: a aprendizagem não se pode desligar do quotidiano, da realidade próxima, do dia-a-dia do aluno, pois ela servirá (é este o termo) a sua integração nesse quotidiano, na realidade próxima e a sua (con)vivência no dia-a-dia.

Se assim acontecer, a aprendizagem proporcionada pela escola é "significativa", ou seja, o aluno entende a funcionalidade prática do que aprende, vê-lhe aplicação, relaciona-la-á com o que faz, pensa e sente, enfim, gosta do que aprende.

Em segundo plano ou, mesmo, recusada fica a também designada "aprendizagem significativa" mas com sentido cognitivo, que depende de conhecimento novo proporcionado ao aluno e da estimulação de capacidades que dão corpo ao pensamento.

E isto independentemente de especificidades económicas e culturais. Na verdade, no quadro desta última perspectiva, entende-se que todas as crianças, jovens e adultos têm, em primeiro lugar, direito a aprender o que de mais relevante, em termos civilizacionais, a escola pode ensinar (e que provém, necessariamente, de diversas culturas). Entende-se também que, se devidamente ensinados e motivados, quase todos, crianças, jovens e adultos, conseguem aprender isso mesmo e envolver-se-ão afectivamente na sua aprendizagem. Como se percebe, trabalhando-se a cognição não têm de se excluir os afectos.

Nesta perspectiva faz sentido a exploração teórica, a formalização do aprendido, como sustentáculo para o desenvolvimento da abstracção. Aliás, mais do que fazer sentido, constitui-se como o fim da aprendizagem, porquanto é de abstracção que a inteligência é feita.

Ambas as perspectivas - a que se centra nos afectos e a que se centra na cognição - afirmam ter grande preocupação democrática com a igualdade de oportunidades. Resta ao leitor fazer o seu próprio juízo acerca de qual poderá aproximar-se mais de tal propósito.

JÁ ESTÁ NOS CINEMAS "INTERSTELLAR"

Interstellar é um filme anglo-americano de ficção científica dirigido por Christopher Nolan com Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Bill Irwin, Ellen Burstyn e Michael Caine, nos principais papeis.

O tema é o fim do mundo e a eventual salvação da humanidade graças a um buraco de minhoca, isto é, um atalho no espaço-tempo.

Uma escolha para todos que é só para alguns

Encontra-se consagrado na Constituição da República Portuguesa e na Lei de Bases do Sistema Educativo o direito de os pais/encarregados de educação escolherem a escola, pública ou privada, para os seus filhos/educandos. Desde que a escolaridade das crianças e jovens seja guiada pelo currículo oficial, as escolas tenham condições de ensino, e os pais/encarregados de educação paguem as despesas, é um princípio tolerável.

Ora, em muitos casos, este último requisito não se verifica pois o Estado Português instituiu, nos anos de 1980, um subsídio, que ainda se mantém, para as famílias que optem por escolas privadas. Acontece que isto colide com um direito básico, também consagrado em ambos os normativos: o direito à igualdade de oportunidades de acesso e sucesso escolar.
Constituição da República Portuguesa (Revisão de 2005), Artigo 74.º.
1. Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar. 
Lei de Bases do Sistema Educativo (Revisão de 2005), de 30 de Agosto, Artigo 2.º
1. Todos os portugueses têm direito à educação e à cultura, nos termos da Constituição da República; 2. É da especial responsabilidade do Estado promover a democratização do ensino garantindo o direito a uma justa efectiva igualdade de oportunidades no acesso e sucesso escolares
Esta colisão, que, caso não se notasse ao ler os normativos, se evidencia na prática, foi recentemente admitida por dois representantes de pais/encarregados de educação, sem, contudo, apresentarem uma saída (in Sol, 7 de Novembro de 2014, p.28, artigo de Rita Carvalho):
A Confederação Nacional de Associações de Família (CNAF) defende este subsídio pois considera que os pais devem poder escolher a escola dos filhos, seja pública ou privada. «Mas na prática as classes sociais mais carenciadas nunca conseguirão ter filhos num colégio, mesmo que considerem que aí o projecto educativo é melhor» [destaque no original], diz Amândio Alves, da direcção da CNFA. 
A Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) tem uma posição semelhante:  «Sendo um apoio directo à família, alguns ficam com o acesso facilitado. Mas os que queiram e não podem pagar são discriminados» [destaque no original], diz o presidente Jorge Ascensão. 
Uma escolha para todos que apenas permite a alguns escolher não é, de facto, a melhor maneira de honrar a democracia.

DIVULGAÇÃO DA FÍSICA NO "MIRANTE"

Textos de divulgação científica - e boa divulgação! - do investigador Eduardo Martinho que têm sido publicados no jornal O MIRANTE:

0. Era uma vez uma intenção (03.Out.2014)

1. No princípio eram os átomos (10.Out.2014)

2. Onde se fala de formas de energia (16.Out.2014)

3. Da electrização ao electrão (23.Out.2014)

4. A radioactividade é velha do que o mundo (31.Out.2014)

5. Tiro ao alvo… e descoberta do núcleo atómico! (06.Nov.2014)

THE PORTUGUESE RECTORS ON THE EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION EVALUATION

The Council of Rectors of Portuguese Universities (CRUP) has completely demolished the assessment that the European Science Foundation (ESF) and the Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) are doing of all research units in the country. On the 24th of October the 15 rectors of CRUP released their consensus position which was the outcome of their meeting of October 14. This was sent to the Minister of Education and Science, Nuno Crato. Up to now the Minister has not given any known answer to the open letter, which has created a serious political  embarrassment for the government.

This is the full content of the letter: 

To his Excellency the Minister of Education and Science:

In our meeting of 14th October, CRUP analysed the current assessment process of Research Units, under the light of the responses given at the end of the hearing of the interested parties, and decided to inform you of the consensual conclusions stemming from that analysis.

To begin with, we want to make it quite clear that we are totally in favour of evaluation processes. They are essential to increase the quality of the system as a whole and, therefore, make it more able to respond to the expectations of society, helping Portugal's development.

However, for an assessment system to be able to promote excellence it must be, itself, at least excellent, if not exceptional. This is not the case.

We were aware, and we  pointed it out from the very beginning, that an evaluation with a first stage without direct contact was potentially very fragile, but we gave the benefit of the doubt to the view repeatedly made by the people  responsible for the evaluation that the system would be robust. We  therefore expected that it would be capable of detecting its mistakes and of correcting them. The recent announcement of the results of the hearing of the interested parties revealed that this was not the case. Despite  the many errors of judgement which were pointed out, many of them entirely factual, several panels have excused themselves in various ways to not  derive from them the necessary consequences, keeping inexplicable evaluation scores. The non-presential evaluation of research units is, in our view, an absolute flop.

This evaluation process does not have the necessary quality. It is a lost opportunity for a national policy promoting advanced knowledge and is resulting in a serious loss of confidence in the assessment system, with the almost total disregard for the feedback from universities. 

We state that we will refuse any attempt to use the results of this process for any other effect other than the direct evaluation of the research units, e.g. its use as one of the  criteria for evaluating research projects, grants or any other funding applications.

We also refuse to accept the announced death of  almost 50% of the Portuguese scientific system. This result, which was to be expected from the terms of the contract between the Portuguese State and the European Science Foundation (ESF), stating the transition to the second stage of only about 50% of the units, shows a bias which we can not accept. Excellence is a relative measure that arises only from a larger universe. If this universe does not exist, excellence will also be quickly extinguished for lack of a recruiting pool.

Evaluation processes should be separated from funding processes. After
the assessment, in case of lack of funding for all units with good marks, everyone would understand that it would not be possible to fund all, but at least the assessment would have been fair.

We would also like to express our uneasiness at the fact that, contrary to what had been agreed with the government, in the person of  the Secretary of State for Science, we did not participate in the evaluation of the results of the hearing of the interested parties before the definition of the terms of access to the restructuring fund, which henceforth becomes another tool we do not trust. The access to this fund should not  be based on the assessment whose errors it seeks to correct, or be decided by the party responsible for such errors.

By the same token, the participation of the ESF should not take place in the analysis of the claims (article 23 of the Regulation and Evaluation and Funding of Research Units) that various universities will present regarding the most serious situations.

We finish by reaffirming our availability to work so that it will be possible to have a global evaluation process with quality in the near future, in collaboration and with the agreement of the universities. This process is, after all, another demonstration that the artificial separation between higher education and science is harmful to the development of the country.

With best regards,

António Rendas
Presidents of CRUP (current)

António Cunha
President-elect of CRUP

Janelas para a Filosofia

http://criticanarede.com/janelas.html

MEDICALIZAÇÃO DA SOCIEDADE



Quarta-feira, 12 de Novembro, pelas 18h00, no espaço Rómulo de Carvalho Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra.


"Um dos fenómenos mais preocupantes que está a atingir a sociedade prende-se com a medicalização. O ser humano preocupa-se com a perda da saúde e quando lhe acenam com diagnósticos fabricados com o propósito de o perturbar aceita quaisquer propostas. A construção de novas doenças tem vindo a aumentar e a oferta de soluções também. Não há dia em que a comunicação social não chame a atenção para estes problemas. 

A medicalização é uma constante. Curiosamente começou dentro da medicina, mas agora estendeu-se a todas as áreas. Uma das doenças construídas diz respeito à transformação de situações normais, e desejáveis, como é o caso da tristeza. A tristeza, um estado de alma, base de muita criatividade, acabou por ser considerada como doença e tratada como se fosse uma "depressão". 

O resultado é fácil de ver, uma legião de dependentes de ansiolíticos e antidepressivos com todas as consequências daí resultantes. Mas o que é mais preocupante é a oferta de produtos para tudo e para nada, levando a um consumismo exagerado e sem qualquer valor. A população envelhece a olhos vistos e por isso tem de suportar algumas maleitas sem importância, sem correr risco de vida ou sofrer complicações graves de saúde. Frágeis, ansiosos, são um alvo preferencial de campanhas agressivas a fim de comprarem muitos produtos. Outra área que merece profunda reflexão diz respeito à alimentação. Hoje, cada alimento tem propriedades curativas e em função disso passaram a ser mais medicamentos do que outra coisa. Uma obscenidade. 

Todos os dias surgem press releases a anunciar propriedades e mais propriedades de muitos produtos a ponto de parecerem ser uma forma miraculosa para resolver ou prevenir os diferentes problemas. São tantos alimentos que dificilmente se encontrará algum que não tenha propriedades terapêuticas. Outro aspeto preocupante é transformar certas situações, que deveriam ser consideradas como normais, em casos patológicos. E se logo a seguir for oferecida uma "solução", então, é certo e sabido que a procura irá aumentar. 

Desmedicalizar a sociedade é um imperativo. Na prática não vai ser fácil, para não dizer impossível. Em primeiro lugar porque é uma fonte de negócio e em segundo porque as pessoas encontram explicações para os seus "problemas". O que é maravilhoso. Se a seguir tiverem à distância da sua bolsa a solução para os seus males, então, o negócio da medicalização tem o futuro garantido. E pelo que se vê por aí..." 

Salvador Massano Cardoso


Esta palestra insere-se no ciclo "A Ciência no Dia-a-Dia" organizado por António Piedade.

UMA CONSULTA PÚBLICA QUE INCLUI A OCDE

    Cumpre-se a formalidade: está em consulta pública um conjunto de documentos designados por  Orientações para a utilização responsável da...