“Hoje não se lê,
folheia-se” (Eça de Queiroz).
A propósito do
lançamento do livro “Programas e Metas Curriculares”, da autoria de José
Cardoso Bernardes e Rui Afonso Mateus,
no dia 22 do mês passado, organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, realizou-se em
Lisboa, nas instalações do Instituto Camões, uma Tertúlia, subordinada ao tema
“Literatura e Ensino do Português.
A apresentação do livro foi feita por Helena
Buescu, professora catedrática da Faculdade de Letras de Lisboa e autora, de parceria com Luís C. Maia,
Maria Graciete Silva e Maria Regina Rocha, de Novos Programas e Metas
Curriculares da Língua Portuguesa para o Ensino Secundário (2014) em que se
resgatam nomes maiores da nossa Literatura aprisionados em garras de “apagada e vil
tristeza”. Bem a propósito, nesta sessão, vários intervenientes criticaram verdadeiros
tratos de polé que a Literatura Portuguesa sofreu nos últimos 20 anos e que bem
espelhados se encontram num cáustico artigo de Nuno Pacheco, com o sugestivo
título “Antiensino”, de que se transcreve este pedaço de prosa:
“Nessa altura
discutiam-se as muitos discutíveis reformas curriculares que ‘limparam’ do 10.º
ano muitas referências literárias trocando-as por ‘textos informativos, ‘textos
dos media’, textos de carácter autobiográfico’, textos expressivos e criativos
do século XX’. Quem na altura pasmou com a troca foi apelidado de antiquado: quem tem televisão ou Internet em casa dificilmente será
seduzido a amar os livros, para mais os fora de moda. Agora já podemos
confirmar, com provas indesmentíveis e aterradoras, onde queriam chegar tal
iluminados. Basta atentar no conteúdo, divulgado ontem no Público, de alguns
manuais de Português B para o 10.º ano. Lá estão, como base de ‘aprendizagem’ o
Big Brother, as programações da TV Guia ou as telenovelas envolvendo os alunos
num passatempo onde são convidados a dizer ‘o que levou Tomé a expulsar Maria
de casa’ ou quem é que ‘Rodrigo agride violentamente, deixando-o cego’.
Imagina-se o esforço intelectual das pobres criaturas: explicar quem é Tomé
porque embirrou com a pobre Maria, que por sua vez nem conhecia o tal Rodrigo
que cegou um zé-ninguém infeliz…” (Público, 12/10/2003).
Grosso modo, sete
anos volvidos (05/08/2011), na secção de “Cultura”, deste mesmo jornal, em
título à largura de toda a página - “Os franceses estão a redescobrir Camilo”
- deparei-me com a seguinte notícia: “O
filme ‘Mistérios de Lisboa’ já fez mais de 100 mil espectadores em França”.
Facto este que, mesmo que mantidas as devidas proporções populacionais entre o
país da “Cidade das Luzes” e a pátria de Camões, não me faria estranhar que
a falta de hábitos de leitura dos nossos
actuais escolares preferisse ver a adaptação cinematográfica de “Amor de Perdição”, de António Lopes Ribeiro (1943),
a “perder tempo” em ler (ou sequer a folhear!) a respectiva obra literária que
muito apreciada foi, em herança ancestral, pela juventude do meu tempo.
Por estarmos em
presença de um interculturalismo sem fronteiras geográficas, que o galo gaulês representa
com panache, bem se compreende que o
livro “Mistérios de Lisboa” (traduzido para francês por “Mystéres de Lisbonne”)
esteja no (ainda segundo o jornal Público) “no top dos livros mais
vendidos na Fnac Forum de Paris, a maior das lojas Fnac do país”. Acresce que este interesse pelo
escritor de São Miguel de Seide passa, outrossim, em citação da mesma fonte “pela edição francesa do livro “Amor de Perdição”
(“Amour de perdition”), feita em França há uma dezena de anos e difícil de encontrar nas livrarias”.
Desta forma se cumpriu, uma vez mais, o aforisma
português de que santos ao pé da porta não fazem milagres. Mas daí a cometer o
pecado de expurgar a prosa camiliana, segundo Maria Amélia Vaz de Carvalho,
“personificação do génio português”, da bibliografia dos programas escolares,
representou um verdadeiro roubo feito à Literatura Portuguesa e à própria
Cultura de um mundo sem fronteiras.
Camilo sofreu do
pecado de se deixar enredar pelas teias da paixão escandalosa por Ana Plácido sem conseguir, por outro lado,
libertar-se de uma sua outra paixão, esta de pendor literário: a polémica, por
vezes, trauliteira. Polémica de que colho este exemplo em ataque dirigido ao
jornalista Mariano Pina: “Cada vez mais charro. E perfeitamente um
sapateiro de máscara a dizer pilhérias que tresandam ao cerol”.
Todavia, sempre que se fala de Camilo não podemos
divorciá-lo do seu papel de grande vulto da Língua Pátria e, muito menos, do "ódio de perdição” que os responsáveis, ao tempo, da 5 de Outubro lhe
dispensaram por omissão, ou mesmo assassinato, nos então vigentes programas da
disciplina de Português do ensino secundário.
A Língua Materna é, ou devia ser,
obrigatoriamente, a argamassa da forma de nos expressarmos oralmente ou por escrito, de forma correcta, e que tanto útil, é, ou devia ser, aos cientistas, aos jornalistas ou mesmo ao
simples homem comum. Um cientista incapaz de defender em português correcto as suas teses ou relatar
as suas experiências científicas, um jornalista que tenha lapsus calami por
sistema, um professor que num documento escreva “senhor presidente do ‘Concelho’ Directivo”,
um aluno que, na ausência da muleta do corrector ortográfico dos computadores, em
cada três palavras dê um erro, o homem comum que dê pontapés na gramática com o
à-vontade de um Cristiano Ronaldo a chutar à baliza, tornam-se
mais notados pela negativa, no seu
dia-a-dia, que um médico que não saiba distinguir o barlavento do
sotavento, um professor de Português que
não saiba somar fracções ou um aluno que “não entre” na Matemática
prosseguindo, ipso facto, cursos das
chamada Humanidades. Mas não se pense com isto, vade retro, Satanas!, que estou a descriminar qualquer destas formas de ignorância: todas
elas merecem a minha reprovação por amputarem o homem de uma necessária cultura geral que acompanhe o
conhecimento específico dos complexos saberes
das diversas profissões.
Mas é bom que se
retenha que a irresponsabilidade praticada, ao tempo, pelo Ministério da Educação sob a tutela do Partido Socialista se poderia ter tornado numa centelha do enredo do romance de ficção científica “Fahrenheit 451”, da
autoria de Ray Bradbury, em que os
livros eram incendiados por bombeiros de um regime totalitário para não
distraírem as pessoas tornando-as menos produtivas.
Não, não estou, com
isto, de forma alguma, a querer ver na proscrição da obra de Camilo, ou de
outros autores portugueses que se notabilizaram no rico espólio da nossa literatura
nacional, um sistema educativo tutelado
por um regime totalitário. Apenas a
pretender dizer que a ignorância oficial e oficializada é também ela uma forma
de ditadura por roubar ao aluno o prazer
cultural da leitura escolar dos nossos melhores prosadores e
poetas podendo, hoje, num tempo em que
tanto pânico causa o “´ébola”, a título de mero exemplo epidémico, vir a dificultar
ao aluno espanhol a leitura de Cervantes, a complicar ao aluno francês o deleite da visitação do
Museu de Louvre ou a empecer ao aluno alemão a audição da Orquestre Sinfónica
de Berlim. Ou seja, uma Cultura de costas voltadas para as Belas-Letras, para
as Belas-Artes e para a Música Clássica.
Em resumo, em
reprovação do próprio Bill Gates, um
mundo novo (admirável?) em que a matriz cultural poderá vir a ceder lugar às novas e miríficas
tecnologias da invasão dos computadores nas escolas portuguesas em idades
precoces: “Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem
livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a
sua própria história”.