domingo, 9 de novembro de 2014

C' est moderne, tout communique

Imagem do filme «Mon oncle», de Jacques Tati (1958)
Um artigo recente de Helena Damião despertou-me a atenção para uma petição que corre, promovida pela Associação de Professores de Matemática. Pretende pôr travão ao novo programa para o Secundário, de forma a limitar possíveis estragos nos curricula: do sucesso dos alunos depende — por décimas, como sabemos —, a entrada em cursos superiores. Fala a Associação em extensão, grau de abstração e em conteúdos só ensinados, atualmente, no ensino superior. A presidente da APM, Lurdes Figueiral, considera a abordagem extremamente formalista e teórica, distante da Matemática «do dia-a-dia», e faz o apelo público no sentido de ver o assunto discutido em S. Bento.
Isto ilustra na perfeição a confusão de narizes que grassa nestes assuntos.
Pensei que este ministro viesse pôr alguma arrumação na casa, mas já não penso tal coisa: Crato respondeu à necessidade de simplificação curricular e qualificação de docentes com a charada da interposição de metas curriculares após os programas, e com testes de QI para professores apanhados do lado de fora dos quadros de nomeação definitiva. Medidas precipitadas, as metas (houve erros de palmatória nalgumas), vergonhosas, os testes (a «classe docente» —o que quer que isto ainda signifique — juntou a outros agravos este, que coloca um chapelinho de papel de jornal numa imagem pública já debilitada).

A casa está desarrumada pelo seguinte:
— É impensável continuar a dar acesso a cursos, após a conclusão do 12.º ano, apenas por ponderação das médias das disciplinas de exame. Isto aplica-se a todos os cursos: licenciaturas, incluídas. Os exames do ensino secundário ainda vão tendo utilidade porque as discrepâncias de formação, de escola para escola são, por vezes, gritantes, chegando ao próprio incumprimento de programas; mas só servem para certificar o termo de um ciclo de aprendizagem e não para qualificar, per se, quaisquer vocações profissionais.
— Se alguma coisa se perdeu no ensino secundário português, nos últimos anos, foi a capacidade de raciocínio lógico. Dou-me conta disso no dia-a-dia das minhas aulas de Geometria Descritiva. Entretanto, este não é o dia-a-dia que refere Lurdes Figueiral: é o da aquisição de perícia lógica por parte de jovens que queremos preparar para a vida. A construção mental de um sistema de representação abstrato vive, amiúde, da capacidade de «ver» na mente, muito mais do que da de «ver no espaço»… e cada vez menos encontro raparigas e rapazes hábeis na progressão lógica — não retêm as premissas, perdem-se no desenvolvimento, acham as conclusões nebulosas — por simples falta de prática anterior, ou paralela.
— Confunde-se equiparação de qualificações com igualitarismo formativo: provavelmente, a Matemática de que precisa uma aluna de Ciências e Tecnologia não será a mesma de que precisa um aluno de Sistemas de Informação Geográfica; mas, se este deveria ter um curriculum de ensino da disciplina embebido na sua formação técnica, aquela não pode ter qualquer ajustamento ao «dia-a-dia», pela simples razão de que não sabemos que dia-a-dia vai ser esse. A aproximação ao «dia-a-dia» não deve ser disponibilizada pelo programa, a menos que estejamos a pensar em aplicações à Física, por exemplo; deve, isso sim, ser uma ferramenta didática da exclusiva responsabilidade de quem ensina, porque para isso mesmo serve o professor.
— O reflexo prático das atividades da mente não é, por outro lado, previsível de forma determinista, exceto na conversa de políticos mal preparados e, segundo parece, na Fundação para a Ciência e Tecnologia. Há instituições de investigação e investigadores que estão a ser alvo de cortes clínicos, nas recentes políticas de poupança, racionalização, pragmatização da distribuição de verbas para a Ciência. Entende-se a ideia da FCT quando se ouvem, do lado de quem nos governa, apelos às relações preferenciais com o universo das empresas. Esse é bom, por definição, e há necessidade de desenvolvimento de impulsos empreendedorísticos (a alma retorce-se-me com a redação da palavra!), e quejandos. Afinal, «poupança», «racionalização», «pragmatização» significam, tão só, isto: tomem lá para 50% da investigação, e produzam contratos com empresas alemãs.
— Não é, qualquer que seja a ponta por onde se pegue, necessário assegurar num programa, não olhando a meios, o sucesso de alunos em quaisquer disciplinas; é somente de assegurar que os conteúdos fazem falta no curriculum, para começar; e, cá fora, que são bem ministrados, para acabar. Evite-se a ideia de lhes ver utilidade, por um lado, mas adoçando a pílula sempre que são mais complexos, por outro lado: se se entende que são complexos, deverão ser encontrados meios para transmitir essa complexidade, colocando as disciplinas no sítio próprio. Nunca a simplificação de uma sinfonia de Mozart levou alguém a tornar-se fã de «clássica».

— É uma inanidade a tentativa de «democratizar» esta coisa da discussão sobre um programa de Matemática A para o ensino secundário, transportando-a para o Parlamento, por intermédio de uma petição: de todos os sítios neste mundo — porquê para o Parlamento? Porque não para a Divisão de Trânsito da Câmara Municipal de Lisboa? Aposto que há mais gente a perceber o interesse concreto da Matemática A.
Tal como na casa modernaça do «Mon oncle», tudo comunica na ligeireza com que se inspira l'air du temps. Há já quem fale de estudos de empreendedorismo (aarrrgh!), entendendo eu que isso será uma das qualidades dos nossos governantes atuais: deve ser, já que a maioria não parece ter outras, mais tradicionais…
Diga-se que, em meio estilo pessoal, o ministro acertou, desta vez, no cravo: é necessário rever o curriculum nacional, e os programas das disciplinas.
Acrescente-se que, no outro meio estilo pessoal, o ministro mantêm a ferradura velha e deformada, cheia de mossas — deu-lhe forte, nestes 3 anos! —, e deixa pairar a confusão. Em abono da verdade, agora, parece ser tarde para fazer o que quer que seja… Se Nuno Crato saísse para comprar fósforos e não regressasse, ninguém daria pela falta até ao próximo governo.
Porque, voltando à ferradura e ao cravo: já todos percebemos que o cavalo continua coxo.

António Mouzinho

DOMÍNIOS MORFOSSEDIMENTARES DE TRANSIÇÃO NA INTERFACE TERRA–MAR (2)

A primeira parte do texto encontra-se aqui.
Delta do Mekong, no Vietnam

Entre as várias propostas de classificação dos deltas, merece referência a divulgada por Robert W. Galloway, em 1975. Com base num diagrama triangular, em cujos vértices situa a importância relativa do rio, das ondas e das marés na modelação da frente deltaica em progradação, o autor distingue, assim:

- deltas de dominância fluvial,
- deltas de maré e
- deltas de ondulação, 


um tema que não será aqui desenvolvido, mas que o leitor poderá encontrar em Galloway, R. W. (1975) - «Process framework for describing the morphologic and stratigraphic evolution of deltaic depositional system», Broussard, Ed., bem tratado na obra referenciada.

No delta do Mississipi domina o acarreio fluvial (materializado por uma carga sólida fina, em suspensão) sobre as outras duas componentes do triângulo de Galloway. Trata-se de um delta fortemente construtivo, em que os canais se alongam por construção terminal de tributários estreitos, em bifurcações sucessivas. Este tipo de delta é também conhecido por bird-foot, expressão que equivale ao nosso bem conhecido “pé-de-galo”.

O delta do Nilo mostra que há sobreposição da influência fluvial e da ondulação (vagas). O do Ganges, ao contrário dos do Mississipi e do Nilo, testemunha uma forte influência das marés.

Do ponto de vista morfológico, o delta exibe:

- a planície deltaica superior, a montante, aluvial e emersa relativamente ao nível do mar e às águas fluviais fora dos episódios de cheia:
- a planície deltaica inferior (nem sempre representada), ao nível da zona intertidal [1], sujeita às influências marinhas;
- a frente deltaica correspondente à parte marinha, onde os sedimentos fluviais mergulham no mar; - o prodelta, sob a forma de um leque inclinado 1 a 10º, ligando a frente deltaica aos fundos da plataforma continental.

A frente deltaica prograda para o largo e, assim, as primeiras fases deste avanço ficam recobertas pelos depósitos fluviais da planície deltaica. No seu avanço progradante, a frente do delta vai recobrindo os sedimentos mais finos do prodelta, dispostos numa atitude menos inclinada.

Do ponto de vista sedimentar, no corpo do delta distinguem-se:

- a unidade superior formada por camadas sub-horizontais de sedimentos fluviais depositados na sua parte geralmente emersa, onde os braços do rio (normalmente um principal e outros secundários), divagam em canais distributários, difluentes [2];
- a unidade frontal em estratificação oblíqua, bem marcada e em progradação, que vai crescendo, em sucessivos leques submarinos divergentes, a partir do seu contorno frontal;
- a unidade basal ou de fundo, com estratificação sub-horizontal, que constitui a base do edifício deltaico a montante do seu contorno frontal e corresponde a anteriores e sucessivos prodeltas recobertos pela progradação da frente deltaica.

Os deltas actuais são entidades geológicas jovens, todos eles holocénicos, posteriores, portanto, à última glaciação. O seu estudo permite-nos reconhecer os ambientes deltaicos do passado. A sedimentação deltaica é fundamentalmente detrítica, com predomínio das areias, entre as quais podem ocorrer leitos de cascalho, evidenciando situações de maior energia das águas que espalham os detritos arenosos, concentrando, assim, os mais grosseiros. Pelo contrário, em períodos e em locais de acentuada acalmia podem depositar-se sedimentos finos, responsáveis pela ocorrência de lentículas silto-argilosas no seio das areias.

Nos grandes deltas, podem ocorrer áreas isoladas, maiores ou menores, mais ou menos fechadas às acções do rio e do mar por períodos mais ou menos longos. Tais zonas, de tipo lacustre, palustre ou lagunar, são ambientes propícios à sedimentação biogénica, conducente à formação de carvões ou de hidrocarbonetos, como aconteceu no passado em alguns corpos sedimentares de origem deltaica, identificados no registo geológico.

Na história dos deltas podem verificar-se alternâncias, locais ou generalizadas, de fases ou períodos de progradação (própria do avanço destes corpos sedimentares) com outras de retrogradação, isto é, de recuo, decorrente de avanços ou conquistas do mar sobre a terra (transgressões). Em resultado desta alternância, formam-se sucessões de depósitos deltaicos progradantes, separados por descontinuidades, marcadas, às vezes, por intercalações de sedimentos marinhos.

Os episódios transgressivos (avanços do mar sobre a terra) estão, geralmente, marcados por sequências positivas, em que as camadas arenosas são cada vez menos espessas da base para o topo e, simultaneamente, de granularidade mais fina, no mesmo sentido.

Os episódios regressivos (recuos do mar por abaixamento do seu nível geral) estão, geralmente, marcados por sequências negativas, em que as camadas de areia são cada vez mais espessas e de granularidade mais grosseira da base para o topo.

Os corpos deltaicos do registo geológico podem atingir milhares de metros de espessura, em relação com deformações várias na fronteira terra-mar. Muitos deles encerram jazidas importantes de hidrocarbonetos (petróleo e gás natural), carvões e minérios de urânio, entre outros.

Notas:
[1] Faixa do litoral situada entre a preia-mar e a baixa-mar. O termo radica no inglês, tide, maré. O mesmo que intermareal. 
[2] Que divergem do curso principal. O contrário de confluentes. 
Este texto continua)
 A. Galopim de Carvalho

FUI AO INFERNO POR CAUSA DA PSEUDOCIÊNCIA

Fica aqui o registo, da minha entrevista no Canal Q:

sábado, 8 de novembro de 2014

Porque hoje é sábado

Em final de sábado, mas porque a arte é precisa: Dia da Criação, de Vinicius de Moraes,

O currículo a saque - 3

Uma associação de professores de matemática faz correr uma petição contra a aplicação do Programa de Matemática - mais precisamente de Matemática A - do Ensino Secundário, que se encontra homologado. As razões que invoca são, no essencial, as seguintes: grau de abstracção do programa, abordagem extremamente formalista e teórica, que se distancia da aplicação da Matemática ao dia-a-dia. São razões muito estranhas, pois:

1. As aprendizagens escolares tendem, por princípio, para a abstracção; a abstracção é o seu fim. Não nos podemos esquecer que o conhecimento abstracto constitui e alimenta a inteligência;

2. A Matemática é uma linguagem abstracta e formalizada, a sua natureza é essa. É a linguagem universal que as áreas científicas ditas "duras" usam justamente por ser... abstracta e formalizada. Mudando-lhe a natureza será qualquer outra coisa, mas deixa de ser Matemática.

3. Aprende-se Matemática antes de mais, para... saber (o tal "valor em si" do conhecimento, de que nos estamos sempre a esquecer), depois, como disse em 1, para ampliar certas capacidades que se traduzem em inteligência, e só depois, se for o caso, para aplicar no dia-a-dia. Por isso, não, a Matemática não pode ficar refém da aplicação que pode ter no dia-a-dia... O dia-a-dia é demasiado restritivo para as potencialidades que a Matemática tem;

4. Estamos a falar do Ensino Secundário, mais concretamente do Programa de "Matemática A". Isto significa que é a Matemática mais avançada que se oferece no Ensino Secundário, destinada a alunos que pretendem ingressar no Ensino Superior na área das Ciências (Física, Química, etc, todas as Engenharias, a Economia).

O currículo a saque - 2

"Um novo ano lectivo se aproxima! Quem apoiaria o "eu sou feliz" na iniciativa de levar a prática de yoga junto das escolas, gratuitamente? Apelo a autarquias, empresas e outras instituições! (...) Encontrar parceiros que apoiem a iniciativa como associações, IPSS, empresas e autarquias, que tenham interesse em contribuir com dinâmicas de impacto social."
                                                           Sónia, 2013 (aqui).

A imagem, ao lado, que usei no texto O currículo a saque, tem a ver com um dos muitíssimos exemplos que o poderia ilustrar: o yoga como componente curricular.

Enquadrando: na notícia que ouvi acerca do reforço e ampliação das competências das autarquias e das tais "forças vivas das comunidade" no currículo escolar, constava uma diversificada lista de componentes que, por sua iniciativa, as direcções dos agrupamentos de escolas já acolheram e tencionam manter.

Devo dizer que cada uma dessas componentes se me afigurou mais "radical" do que a anterior e todas elas, para o que se entende ser o gosto geral, muito apelativas. Isto percebe-se se nos lembrarmos que os agrupamentos de escolas não são bem escolas (isto é, sítios para se ensinar e se aprender) são uma espécie de empresas que, nessa medida, têm de agradar aos mais variados "públicos" (é mesmo assim que se chamam os alunos e os seus encarregados de educação, bem como outros grupos que se aproximam deles) até para serem bem avaliados e não fecharem portas.

Então, nessa lista constava o yoga.

Esclareço que não tenho nada contra ou a favor do yoga, mas como toda e qualquer componente que se pense introduzir no currículo deve ser cuidadosamente ponderada, esta e outras como esta não podem ser excepção. Assim há que perguntar:

a) Faz sentido que o yoga conste no currículo escolar? Não faz sentido nenhum. Uma pessoa que se interesse por yoga pode colocar os seus filhos nas múltiplas "academias" onde conste essa modalidade. O mesmo não se pode dizer da História ou da Química (e já nem falo da Cultura Clássica), que, não se aprendendo na escola, dificilmente se aprendem noutro lado.

b) Para incluir o yoga no currículo o que tem de sair? Alguma componente tem de sair, pois as crianças e os jovens não podem estar vinte e quatro horas na escola em actividades (no tempo da "Escola a tempo inteiro", podiam estar até doze horas. Doze!). O tempo não estica e é, por isso, que o currículo tem de se restringir ao fundamental, que, nessa medida, não se pode delegar em mais nenhuma instituição.

c) O yoga é ideologicamente neutro, como toda e qualquer componente curricular deve ser? Não é, e não faço esta afirmação sem ter analisado várias "iniciativas" implantadas em escolas. Tal como outras componentes que as "forças vivas da comunidade" propõem ou impõem às escolas há sempre escolhas muito próprias que fazem pelos sujeitos a quem a educação se destina, substituindo-os. Na frase que serve de entrada a este texto, e que dá conta de um projecto de yoga para as escolas, a sua autora quer (ela, Sónia, quer) que os alunos se sintam felizes, como se a felicidade não fosse um sentimento dos mais íntimos que cada um pode ou não ter.

Não tenho dúvida nenhuma de que, nos próximos anos, o obscurantismo (que não se parecerá nada com isso, mas como abertura, dinamismo, criatividade...) aumentará no currículo escolar, talvez até tome conta dele, não sei o que se poderá fazer para o superar. Pensar nisto e inquietarmo-nos talvez seja um começo.


O currículo a saque - 1

Imagem retirada daqui.
Já tinha ouvido antes e ouvi hoje de novo: as autarquias e, por acréscimo, as "forças vivas da comunidade" terão as suas competências de composição do currículo escolar ampliadas e reforçadas.

Quem conhece a realidade (e eu acho que conheço um bom bocado dela) só pode temer e tremer. Explico-me, de seguida.

Esta "infiltração" das autarquias e das "forças vivas da comunidade" não é nova, mas tem-se mantido mais ou menos na periferia do núcleo curricular (quero dizer, das disciplinas reconhecidamente escolares). É certo que a ideia de que a escola deve contextualizar as aprendizagens nas vivências pessoais e sociais, e estabelecer e manter ligações próximas à comunidade de que faz parte, tem feito com que certas orientações programáticas e programas disciplinares apelem a uma participação dessas tais "forças vivas".

Na verdade, essas forças são isso mesmo: "forças"; e vê-se que estão bem vivas pois têm aproveitado todas as portas e janelas, e, ainda, as friestas, para entrarem na escola e instalarem-se nela.

Umas entram com a arrogância de quem (também) tem direito de decidir e de fazer, acotovelam os (poucos) professores que lhes opõem alguma resistência. E... passam. Outras, a maioria, usam a simpatia, o encanto, até se dizem muito preocupadas com os meninos, afirmam sorridentemente só querer o bem deles... mostram altruísmo e oferecem. E, evidentemente, passam.

A falta de crítica sobre tudo isto, a cegueira, a negação da realidade, têm replicado as entidades que gravitam à volta das escolas. São pessoas singulares, são grupos e grupelhos, são associações de todo o género, são federações com mais voz forte, são conselhos disto e daquilo, são... E, agora, são muitas empresas, grandes e potentes empresas que prometem e dão mundos e fundos.

Acresce (e isto faz muita diferença) que este cenário apresenta-se como idílico, crê-se como idílico. Ai de quem o conteste!

Mas se tivermos a paciência e a coragem de começar a escavá-lo percebemos uma coisa muito, muito simples: que estamos a empenhar o futuro das crianças e dos jovens, da sociedade e da cultura civilizacional que recebemos e que temos por obrigação legar aos que chegarão a este mundo.

E, percebemos que não são as crianças nem os jovens, nem a sociedade nem a cultura civilizacional que importa, o que importa são os horizontes limitados, auto-centrados e, não raras vezes, interesseiros dessas entidades.

Abriu-se agora mais um pouco a porta da escola. Talvez não tenha sido muito, mas era o que faltava para o currículo ficar definitivamente a saque.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Devia haver mais uma disciplina... e mais outra... e mais outra...

"Devia haver uma disciplina sobre o mundo digital"
Diz, "empresário na área de produção de conteúdos digitais  
"Violência doméstica vai ser tratada nas escolas"
 Diz secretária de estado da Igualdade (Sol, 07/11/2014, p. 24-25)
Estes são dois títulos da imprensa de hoje, que me chegaram às mãos. Não estranharia que tivessem sido publicados mais deste teor. Explico porquê.

1. A escola passou a ser vista como a tábua de salvação para todos os problemas que afectam a sociedade e que a sociedade não sabe ou não quer resolver:

se as pessoas não vão votar, pede-se à escola para resolver,
se se entende que as pessoas não têm uma alimentação correcta, pede-se à escola para resolver;
se se entende que as práticas sexuais se desviam da cartilha; pede-se à escola para resolver;
se se entende que somos responsáveis pela desgraça económica, pede-se à escola para resolver;
se se entende que existe discriminação de qualquer tipo, pede-se à escola para resolver;
se se entende que se bebe ou fuma demais, pede-se à escola para resolver;
se se entende que os hábitos de higiene não são os melhores, pede-se à escola para resolver;
etc, etc, etc.

Pode-se alegar a importância, a extrema importância, a urgência, até, de cada uma destas "educações para...". Em geral é isto que acontece. "Se não for a escola a..." - é o argumento. Um argumento "mais-que-estafado", que me recuso a aceitar.
Uma razão é que, com tantas solicitações à escola, esvai-se o tempo e a disponibilidade para se ensinar e se aprender o essencial, as matérias que nenhuma outra instituição trabalha com a mesma extensão e profundidade
Outra razão é que as "educações para..." decorrem de opções ideológicas e de outras ainda menos confessáveis. Ora, a escola não serve para doutrinar ou para empurrar, mas para ensinar o que tem sentido que ensine.

2. Instalou-se a ideia de que qualquer pessoa, grupo, conselho, associação, empresa... pode e deve dar opinião sobre o currículo escolar, com destaque para a sua composição. Mais, pode e deve fazer pressão para que nele conste "mais isto", ou que nele conste "isto em vez daquilo".

Pode-se alegar a importância da participação da comunidade na escola, na medida em que a escola a todos diz respeito. Não nego a relevância dos processos de auscultação à comunidade, mas a educação formal (também) tem de ser ponderada por quem entenda do assunto. Em concreto, o currículo não pode ser visto como uma soma de partes desconexas, introduzida uma agora e outra logo, tendo uma o sentido A, outra o sentido B... O currículo tem de ser encarado como um todo consistente, um todo que decorre de decisões amadurecidas por referência ao que é Bem para os alunos, para a Sociedade e para a Humanidade e nunca num horizonte de curto prazo.

Trata-se de decisões as mais da vezes demoradas e sempre difícies que não nada têm a ver com a ligeireza das propostas que cada vez mais pessoas e entidades fazem, em função daquilo que as preocupa ou dos interesses que têm num determinado momento.

AZULEJOS JESUÍTAS - SCIENTIFIC AMERICAN BLOG NETWORK

A partir do texto Azulejos que Ensinam Ciência publicado no Rerum Natura, a jornalista de ciência Jennifer Frazer publicou recentemente o post Origin of Mysterious Portuguese Mathematical and Geographical Tiles Revealed | The Artful Amoeba, Scientific American Blog Network. Este texto vem no seguimento do post Mysterious Tiles from a Time When Art and Science Were Friends, publicado depois de uma visita da autora ao Museu do Azulejo, em Lisboa.

TOCAR NO COMETA 67P/CHURYUMOV-GERASIMENKO

Artigo publicado primeiramente na imprensa regional.



Os cometas são anteriores à formação do nosso planeta Terra. Durante milhares de milhões de anos, antes da nossa espécie se erguer para o espaço, os cometas sempre cruzaram e embelezaram os céus. Mais tarde, também despertaram a curiosidade que nos iria conduzir à ciência.

Os cometas, como escreveu Carl Sagan num livro lindíssimo sobre estes astros (que a Gradiva reeditou recentemente entre nós), “são as neves de outrora, os despojos primitivos da criação do sistema solar, gelos expectantes nas trevas interestelares”.

Durante milhares de anos, na escuridão dos céus e do nosso conhecimento, a visita dos cometas incendiou a retina e milhões de sinapses neuronais, o que fertilizou a imaginação humana, criou mitos, previu a sorte ou o infortúnio, anunciou o nascimento ou a morte de imperadores, foi expressão de um juízo divino a guiar os nossos destinos.

A observação sistemática da abóbada deslumbrante permitiu registar uma regularidade frequente no aparecimento dos cometas. Progressivamente, e com ciência, compreendemos melhor a natureza destes astros. O conhecimento substituiu o medo, o terror deu lugar ao deslumbramento.

Passámos a esperar o regresso destes corpos gelados, relíquias do passado que é a nossa história, fósseis astronómicos que nos podem ensinar como é que o sistema solar se gerou. As nossas teorias científicas precisam de ser comprovadas experimentalmente. E, assim que a ciência e a tecnologia permitiram, passámos a enviar sondas para os observar o mais próximo possível e para os analisarmos experimentalmente.

Agora, estamos na véspera de assistirmos a mais uma epopeica realização da inteligência humana: já não esperamos que um cometa nos visite, pelo contrário, vamos ao seu encontro para o compreender intimamente.

No próximo dia 12 de novembro, um pequeno robô cúbico, designado por Philae, com não mais de 100 kg, vai pousar sobre um local meticulosamente escolhido do cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko. Vamos poder assistir à primeira “acometagem” da história da humanidade.

O cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko foi descoberto em 1969 quando Klim Churyumov examinava fotos de regiões do espaço feitas Svetlana Gerasimenko. Precebe-se assim o nome deste astro. Depois disso, este cometa foi confirmado e observado várias vezes por astrónomos aquando da sua aproximação à Terra e ao Sol. Sabe-se que tem actualmente um período orbital de 6,45 anos e que viaja a uma velocidade de cerca de 18 km/s.

Diga-se que Philae é o nome de uma ilha do delta do rio Nilo que contém um obelisco onde foi encontrada uma inscrição bilíngue (grego e hieróglifos egípcios), que incluía os nomes de Cleópatra e de Ptolomeu. Esta inscrição forneceu ao historiador francês Jean-François Champollion as últimas informações necessárias que lhe permitiram decifrar a antiga escrita egípcia que estava encriptada na Pedra de Rosetta.

O módulo Philae foi transportado durante dez anos no ventre da sonda Rosetta, da Agência Espacial Europeia, a qual se encontra agora a orbitar aquele astro a uma distância de cerca de 20 km. É esta distância que Philae percorrerá em queda livre e em direcção à superfície do cometa. Essa viagem, que começara às 10h00 (CET) da manhã de dia 12 de Novembro, demorará sete horas.

Assim que pousar e se fixar na superfície, Philae, que é um autêntico laboratório físico e químico com 10 instrumentos científicos, iniciará diversas experiências analíticas sobre a natureza do cometa. Não faltarão também as imagens panorâmicas da superfície do 67P/Churyumov-Gerasimenko. E, provavelmente, até poderemos ver a Terra a partir de um cometa!

É grande a importância desta missão científica de exploração: as análises a efectuar pelo Philae poderão confirmar ou refutar as nossas teorias sobre a composição inicial do sistema solar que nos deu origem. É também um grande momento para a ciência e engenharia espaciais, para o engenho humano que consegue colocar um objecto tenológico complexo num pequeno astro em movimento.

Os nomes, Rosetta e Philae, com que foram baptizados os elementos desta missão espacial, representam o espírito científico de exploração e de decifração da informação que nos permitirá reconstituir os momentos primordiais da formação do nosso lar cósmico. Tocar nas poeiras estelares que levaram, por último, à evolução da nossa espécie, da inteligência que compreende e se maravilha com o próprio Cosmos.


António Piedade

Classificação Nacional das Profissões

Uma leitora do meu artigo "Ciência diluída" chamou-me a atenção para esta:

"Classificação Nacional das Profissões as seguintes profissões:

516 Outros trabalhadores dos serviços pessoais
Compreende as tarefas e funções dos astrólogos, adivinhadores e similares, pessoal de companhia, ajudantes de quarto, agentes funerários, embalsamadores, prestadores de cuidados a animais, instrutor de condução e outros trabalhadores dos serviços pessoais, com especial incidência na previsão de acontecimentos futuros, fornecimento de serviços de acompanhamento pessoal, treino e cuidados de animais, serviços funerários e de embalsamamento de animais e instrução na condução de veículos.

5161 Astrólogos, adivinhadores e similares
Compreende as profissões de astrólogo, adivinhador e similares, com especial incidência na previsão de acontecimentos futuros para a vida das pessoas.
5161.1 Astrólogo
Compreende as tarefas e funções do astrólogo que consistem, particularmente, em:
•             Fazer previsões sobre acontecimentos futuros, fundamentando-as em particular na posição dos astros
•             Elaborar horóscopos e mapas astrais
•             Fornecer avisos e conselhos sobre os diversos rumos que o cliente pode seguir e as precauções que poderá tomar a fim de evitar influências do mal.

Não inclui.
•             Astrónomo (2111.2)
•             Adivinhador (5161.2)274 | Grande Grupo 5 | Classificação Portuguesa das Profissões 2010 – 

Notas Explicativas

5161.2 Adivinhador e similares
Compreende as tarefas e funções do adivinhador e similares que consistem, particularmente, em:
•             Interpretar características dos clientes, em particular a partir da análise da palma das mãos e posição das borras de café deixadas na chávena, folhas de chá, cartas e búzios, para prever acontecimentos futuros
•             Fornecer avisos e conselhos sobre diversos rumos que o cliente pode seguir e as precauções a tomar a fim de evitar influências do mal."

Comentário meu: Ficamos mais tranquilos, não inclui os astrónomos!

HUMOR: A FARINHA DE FAVA DA MARIAZINHA


DEPOIS DE DARWIN NO TEATRO EXTREMO


RECRIAÇÂO DA DESTRUIÇÃO DE POMPEIA

Chamaram-me a atenção para este interessante

Vídeo da destruição de Pompeia
Vídeo de animação realizado por solicitação do Museu de Melbourne https://www.youtube.com/embed/dY_3ggKg0Bc (tempo 8 minutos).


O CAVALO E O EXEMPLO DINAMARQUÊS


Outro post do Prof. Arnaldo Dias da Silva, professor jubilado da UTAD - Universidade de Trás os Montes e Alto Douro da área das Ciências Agrárias, que tão pouca atenção têm recebido entre nós (na foto um cavalo lusitano):

Sempre gostei muito de cavalos – são animais encantadores! Quem teve oportunidade de ver cavalos a correr livremente ao vento, aos pulos, alegres, em manada, numa planície sem fim, dificilmente esquecerá tal cenário.

Tenho muita pena de não saber montar! As Terras da Maia ou do Ave onde nasci e onde actualmente vivo não são terras de cavalos. Muitas pessoas dessas terras, como eu, apesar disso, gostam daqueles “bichos”.

Assim, despertou-me alguma curiosidade ler as notícias sobre o interesse do ICBAS - Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar em construir um hospital veterinário orientado para cavalos algures bem perto do Porto, entre as Guardeiras e a estação do Metro de Pedras Rubras. Podia ler-se notícia em vários jornais há poucos dias.  

O ICBAS é uma entidade pública, como todos sabemos. Procura obter financiamento para a construção de um hospital veterinário – dificilmente poderia ou deveria seguir outro caminho, parece-me, na hora que atravessamos.

Ou muito me engano ou irá bater à porta do QREN - liderado pela CCRN - Comissão de Coordenação da Região Norte – que facultará fundos muito disputados pelos municípios. A CCRN, naturalmente, disputa estes preciosos fundos - públicos, que todos teremos todos de pagar,  convirá não esquecer.

Depois se verá.... - vamos aguardar. Costuma dizer o povo e assumem-no muitos políticos, que enquanto o pau vai e vem, folgam as costas... Mais tarde, nós ou outros depois de nós, vão ter de se desenrascar.

Que importância (económica) actualmente tem a criação do cavalo para as gentes da Maia? E que importância pode vir a ter no futuro próximo? Seguramente que tem, terá alguma, mas não devo errar se disser que ela é e será despicienda. E o cavalo para recreio ou competição? Será talvez mais importante,  mas pouco mais; dependerá, sobretudo, do poder de compra das populações.

E o cavalo é importante para a economia deste país? É e muito! Outros, mais habilitados que eu, poderão confirmar. Da tauromaquia e dos desportos hípicos, nada sei. Sou frequentador sempre que posso, mas raramente. Na Coudelaria de Alter do Chão, havia (ainda há?) belos exemplares de éguas e cavalos lusitanos.  Uma colega da UTAD teve a amabilidade de me informar que a piscina de Alter está “às moscas”!  Coitada, acabou por ter o mesmo destino que uma linda piscina para cavalos inaugurada com pompa e circunstância no consulado de José Sócrates na UTAD há bem poucos anos, evento sublinhado pelo relinchar de uma bela égua nas cavalariças... Assisti a esta cena.

Mas o titulo deste crónica não sugeria outro assunto? De facto assim era. Tardiamente, aqui vai. Recebi hoje a Newsletter de Outubro da Universidade de Agricultura da Dinamarca (Aarhus).  Nela surge destacado um contrato no valor de 62,5 milhões de coroas dinamarquesas, que vai ser assinado no próximo mês entre o gigante sueco-dinamarquês da indústria dos lacticínios (ARLA) e a Universidade local. 

O contrato prevê a duração de 5 anos. A universidade pretende formar 40 PhD e pós-doutorados.  Ambos vão estudar efeitos nutricionais e na saúde do humano provocada por dietas que contenham produtos lácteos.

A  Universidade do Porto (UP) fica no Porto e em Vairão, cerca de 25 km a norte do Porto. A UTAD fica e m Vila Real, a 120 de distância do Porto.  Fazem aquilo que que sabemos. A LACTOGAL e AGROS, ficam em freguesias de Vila Conde, a 20-30 km do Porto. São as maiores organizações de lacticínios portuguesas, ou seja, dedicam-se, genericamente, à recolha , à transformação e comercialização do leite de vaca. São importantes organizações cooperativas da lavoura do Norte de Portugal.  

Hoje, Portugal já é – felizmente - autónomo no leite em natureza. Importa ainda, sobretudo, alguns iogurtes e queijos. Enquanto isso, o ICBAS – que integra a UP - anuncia a construção de um hospital veterinário para grandes animais – cavalos, sobretudo. A Universidade de Agricultura de Aarhus, Dinamarca – país na vanguarda europeia e mundial dos lacticínios - celebra contrato com a indústria de lacticínios (cooperativa e não-cooperativa associada à cooperativa) para  para  novos desafios alimentares. Portugal está como está. 

Alguma vai mal e, muito provavelmente, não será no reino da Dinamarca...                                    
 Arnaldo Dias da Silva

CTT ASSINALAM 150 ANOS DO INSTITUTO GEOFÍSICO DE COIMBRA

Por ocasião do lançamento da série de selos dos CTT, a revista Rua Larga da Universidade de Coimbra acaba de lançar um número todo ele dedicado à efeméride.


Quatro universidades portuguesas estão entre as 500 melhores do mundo

Notícia recente do DN:

Lisboa, Porto, Coimbra e Aveiro marcam presença numa nova lista lançada esta semana.

Quatro universidades portuguesas estão entre as 500 melhores do mundo do ranking global da US News. A Universidade de Lisboa, no 265.º lugar, consegue o melhor resultado. Porto, Coimbra e Aveiro também estão na lista.

O novo ranking foi apresentado esta semana por uma publicação norte-americana especializada em educação, a US News, que há 30 anos organiza listas sobre as melhores universidades dos EUA.

No ranking regional para a Europa, a instituição lisboeta aparece na 113.ª posição, Porto na 144.ª, Coimbra na 185.ª e Aveiro na 208.ª…

http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=4212505


Diário de Notícias, 2014.10.31

UMA CONSULTA PÚBLICA QUE INCLUI A OCDE

    Cumpre-se a formalidade: está em consulta pública um conjunto de documentos designados por  Orientações para a utilização responsável da...