domingo, 9 de março de 2014

LEITEÍTE

Dimensões:3,0x2,4x1,2cm Imagem obtida em «commons.wikimedia.org»
LEITEÍTE é um arseniato de zinco, de fórmula ZnAs2O4, encontrado pelo português Luís António Bravo Teixeira Leite (1942-1999) na mina de Tsumcorp, na região de Tsumeb, na Namíbia. Mineral de intenso brilho nacarado, geralmente incolor a branco pérola, podendo exibir cor acastanhada muito pálida, é séctil, muito brando (dureza 1,5 a 2), laminável (clivável) e flexível. Espécie muitíssimo rara, ocorre associada a outros minerais de arsénio e de zinco, em jazidas hidrotermais de baixa temperatura, em zonas susceptíveis de sofrerem oxidação.

Descrita em 1977, por F. P. Cesbron, R. C. Erd, G. K. Czamanski, & H. Vachey, no Mineralogical Record, n.º 8, pp. 95-97, esta espécie foi oficialmente homologada pela International Mineralogical Association (IMA) como leiteíte, em homenagem ao seu descobridor. Exemplares de referência fazem parte das colecções da Universidade Pierre-et-Marie-Curie, de Paris, e dos Museus de História Natural de Washington, Londres, Toronto e Lisboa. Além da citada na mina da Namíbia, é apenas conhecida na Alemanha, na Áustria e em França.

Luís António Bravo Teixeira Leite (1942-1999)
Nascido em Lisboa, em 1942, Luís António Bravo Teixeira Leite foi um mineralogista amador, autodidacta de reconhecido mérito, coleccionador e comerciante de minerais, de prestígio internacional. Viajante incansável, percorreu os cinco continentes, visitando museus, universidades, minas e locais com ocorrências mineralógicas de interesse, participando em feiras internacionais e em encontros da especialidade. Em todas estas paragens, Luís Leite era respeitado pela sua invulgar sabedoria e recebido como amigo.

O relacionamento do Museu Nacional de História Natural com este que foi um seu grande amigo começou no rescaldo do grande incêndio de 1978 que o destruiu em grande parte. Nessa altura, Luís Leite, esplendidamente relacionado, na área da mineralogia a nível mundial, com os responsáveis dos grandes museus, das universidades, empresas privadas e os grandes coleccionadores individuais, obteve de uns e outros, para o nosso museu, a oferta de valiosas colecções, visando minimizar as grandes perdas sofridas nesse terrível sinistro.

Como colaborador desta instituição da Universidade de Lisboa, era eu o director, Luís Leite proporcionou-nos as condições que permitiram organizar, em 1989, a primeira Feira Internacional de Minerais, Gemas e Fósseis de Lisboa, evento que, em Dezembro de 2013, cumpriu a sua 27.ª edição e que, desde sempre, atrai milhares de visitantes. Este certame, que tem sido pólo de vocações profissionais em domínios da mineralogia e da paleontologia, repete-se, regularmente, em Coimbra e no Porto e, esporadicamente, noutras cidades do País.

Uma outra realização, fruto das potencialidades deste nosso amigo, foi o 1st International Symposium on Mineralogy, reunido entre 8-11 de Dezembro de 1994, com a participação, por convite, de dez conceituados especialistas (professores e conservadores de Museus) dos EUA, Suíça, Dinamarca, Canadá, África do Sul e Portugal.
A. Galopim de Carvalho

"A acessibilidade não se consegue pela via do populismo"

O texto que se segue tem tudo a ver com um outro que escrevi há quase dois anos (aqui).

Obras clássicas de música, dança, pintura e cinema têm sido usados para publicitar uma multiplicidade de produtos e serviços. A poesia nem tanto, mas talvez ela seja o futuro das marcas que pretendam passar uma imagem de beleza e subtileza, de arrojamento e sofisticação.

No anúncio que se pode ver aqui, encena-se o poema O fim, de Mário Sá-Carneiro. Nada há no minuto em que a leitura decorre e em que as imagens do cortejo fúnebre avançam que faça supor tratar-se de publicidade a uma empresa. Ela só aparece no fim, discretamente numa frase.

Percebe-se que o realizador sabe do seu ofício: deixa as pessoas desfrutarem o texto e a estética, como se essa fosse a única intenção. E, com toda a naturalidade, dela faz decorrer o objectivo final: levá-las a preferirem aquela marca que, por via do poema, se dá a entender que é diferente de todas as outras.

E foi, de facto, esse o impacto que percebi naquelas com quem falei a propósito: enfim, os meios não serão muito legítimos, mas fazem reviver a poesia, fazem-na sair dos livros...

Não encontrando melhores palavras do que as do maestro Daniel Barenboim, uso-as, adaptando-as ao caso (para fazer sentido: entre parênteses rectos o que se suprime, a azul o que se acrescenta):
"Este tipo de familiaridade é tudo menos benéfico para o estado da [música clássica] poesia nos nossos dias. Usar fragmentos de grandes [obras musicais] e instalá-los na cultura popular (ou na falta dela) não é solução para a crise da [música clássica] poesia. A acessibilidade não se consegue pela via do populismo; a acessibilidade consegue-se com um acréscimo do interesse, da curiosidade e do conhecimento (…). No caso da [música clássica] poesia, a educação é a rampa, ou o elevador, que a torna acessível. A concentração na [música] poesia é uma actividade que tem de começar muito cedo na vida para se desenvolver de forma orgânica."
Enquanto no campo da educação formal não se assumir a responsabilidade de levar o conhecimento fundamental a quem o não tem, a estratégia publicitária acima descrita e o tipo de argumentos que a justificam pode usado com todo o desplante por quem tem outros interesses que não o próprio conhecimento.
Maria Helena Damião

Dois equívocos pedagógicos muito bem explicados

Imagem retirada daqui
Henrique Raposo, um cronista do jornal Expresso que gosto de ler, publicou na passada semana um texto cujo título é "Rever Clube dos Poetas Mortos é um tormento". Assente o pó de duas décadas e meia, o maravilhamento que o filme de Peter Weir lhe proporcionou, transformou-se numa "xaropada". E isto, explica, por causa de dois equívocos que só agora percebeu.
Um é que a obra dá a entender que a "poesia é apenas emoção, uma emoção anti-razão, uma emoção não filtrada pelo intelecto. É como se a poesia fosse sinónimo de sinceridade, de pureza, de mera inspiração não conspurcada pelo trabalho intelectual. É como se escrever consistisse apenas no abrir da corrente de pensamento, é como se escrever não fosse um lento garimpar das palavras. Outro é que nela se "proclama o império da criatividade sobre o trabalho disciplinado, sobre a memória, sobre o conhecimento."
Penso que ele só agora percebeu estes dois equívocos porque, apesar de terem "barbas brancas", nos anos oitenta e noventa do passado século, na altura em que o filme foi visto por toda a gente, eles estavam no seu apogeu. As antinomias: "ensino versus aprendizagem" e "criatividade versus memória", ou, por outras palavras, os alunos "só aprendem se não forem ensinados" e "só criam se não tiverem conhecimentos" eram dois lemas (melhor, dogmas) "pedagógicos" completamente infiltrados no pensamento social. Não se pensava fora destes deles. E se alguém ousasse fazê-lo era imediatamente advertido da inconveniência da sua atitude. Ainda hoje é assim, aliás. Sobretudo se falamos de poesia.

E isto tudo à revelia da investigação científica muito séria que se fazia e se faz na área da psicologia e da pedagogia sobre a aprendizagem e sobre como o ensino deve ser organizado para que os alunos aprendam, mesmo na área da poesia, que requer, claro está, criatividade.

Mas para que o alunos manifestem as suas potencialidades criativas, diz, e diz bem, Henrique Raposo, "é preciso um trabalho de apreensão de conhecimento, de memorização, um trabalho que requer humildade perante o mundo exterior ao eu".
Maria Helena Damião

sábado, 8 de março de 2014

Os eventuais crimes do BCP

Esta semana fomos todos "surpreendidos" com a noticia de algo inédito que foi a prescrição de um crime bancário relaccionado com a ocultação de informação aos reguladores que teria por objectivo apresentar um valor de fundos próprios superior àquele que na realidade teria.

Porque é que isto é crime e porque é que alguém o cometeria? Vamos imaginar que eu quero emprestar dinheiro e ganhar dinheiro com isso. Então vou pedir emprestado a outras pessoas a uma taxa de juro inferior àquela que quero cobrar. E quanto mais conseguir pedir emprestado mais posso emprestar. Chama-se a este processo a "intermediação". Se reparamos, o meu investimento neste processo foi apenas o meu trabalho. No limite, eu poderia continuar a fazer isto ad infinitum, pedir emprestado para emprestar e ganhar dinheiro investindo zero.
 
O problema vem quando alguém a quem empresto não paga. Ou recebo juros dos outros suficientes para pagar a quem pedi emprestado ou estou em problemas. A solução "incorrecta" seria pedir mais dinheiro emprestado por cada um que me deixasse de pagar para compor as falhas. Mas isso um dia teria consequências. Na eventualidade de liquidar todos os empréstimos e todos os depósitos, faltava dinheiro. E se falta dinheiro a um banco, este deixava de poder pagar aos depositantes, incluindo outros bancos. E por aí em diante. Por isto, os bancos passaram a ser obrigados a ter dinheiro do seu para poderem emprestar. Aquilo a que se chama de "fundos próprios" e que se destina, segundo a teoria, a proteger o sistema financeiro da eventual falência de um dos seus membros.  Independentemente de ser verdade que o nível de fundos próprios do banco protege o sistema, que não é, o facto é que a existir a exigência de tal nível ele deve ser imposto a todos por razões de concorrência e transparência. Quem investe mais pode emprestar mais.
 
O que aconteceu com o BCP? No fim do sec. XX e princípio do sec. XXI o banco promoveu várias campanhas de aumento de capital (fundos próprios) em que emprestava dinheiro a quem quisesse subscrever o capital do banco e não tivesse dinheiro para isso. Vivíamos tempos em que as ações dos bancos subiam todos os meses e não deve ter sido particularmente complicado despachar as acções. O que isto tudo tem de irregular? Se eu empresto dinheiro para subscreverem o meu capital então não entra efectivamente dinheiro no banco. No  entanto, nos registos, o nível de fundos próprios sobe e eu posso emprestar mais. No caso, 12,5 vezes mais. No caso BCP, a coisa parece ter sido agravada pelo facto do banco ter criado sociedades offshore que, também elas, subscreveram ações com dinheiro do banco embora, a acreditar naquilo que foi dito por Teixeira Pinto, o presidente que sucedeu àquele  que está a ser acusado, essas sociedades já não existiam em 2002.
 
Agora, foram campanhas. Eu recebi cartas em casa a promover a operação, foi noticiada nos jornais. As alegações dos reguladores de que não podiam saber só tem uma explicação, a de que não sabem mesmo o que estão a fazer.  Outro truque, este alegadamente  feito no BPN e com a participação de, pelo menos, um alto funcionário do Banco de Portugal, é comprar as acções com acordo de revenda posterior.  Aqui, trata-se de pegar em depósitos, fingir que é capital e no fim partilhar os proveitos entre o depositante e o banco. Apesar de amplamente noticiada devido ao envolvimento desses funcionários noutras actividades relevantes para o estado, os reguladores continuam, neste caso em concreto, completamente silenciosos cabendo apenas a alguns políticos o recordar do episódio. 
 
Quanto à prescrição, temos que reconhecer que protege mais os reguladores da altura que os alegados criminosos. Vai conseguir que aquilo que foi verdadeiramente grave se veja arquivado e envolvido naquela capa de fumo que só os inquéritos parlamentares conseguem proporcionar aos altos funcionários do estado.

sexta-feira, 7 de março de 2014

A ciência em crise

O PÚBLICO compilou esta semana um dossier especial sobre a crise na ciência, republicando mais de 100 peças jornalísticas com data de 2014. Aqui fica a nota introdutória, da autoria da jornalista Teresa Firmino, a este dossier.

A crise na ciência portuguesa tornou-se visível no início de 2014, com cortes drásticos nas bolsas individuais de doutoramento e pós-doutoramento pagas com dinheiro público, através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Foi a gota de água. De repente, o mal-estar que se ia vivendo no sistema científico português sem grande expressão pública até aí saltava para o espaço mediático. Tornou-se evidente que muitos cientistas estão desempregados ou a trabalhar em condições precárias, que os mais qualificados estão a sair do país ou que tem diminuído o dinheiro investido na ciência nos últimos anos, como revela a percentagem do Produto Interno Bruto gasta nesta área, invertendo a aposta do país das últimas décadas.

As vozes, quase todas críticas, surgiram então de todos os lados. Os bolseiros manifestaram-se na rua. Os partidos da oposição forçaram o ministro da Educação e Ciência (Nuno Crto), a secretária de Estado da Ciência (Leonor Parreira) e o presidente da FCT (Miguel Seabra) a irem à Assembleia da República prestar esclarecimentos. Os laboratórios associados, uma rede de 26 laboratórios espalhados pelo país, e outras plataformas de cientistas emitiram comunicados. E houve muitas opiniões sobre o que foi considerado um desinvestimento na ciência e uma mudança sem debate do Governo com a comunidade científica.

O PÚBLICO foi acompanhando esta polémica, em muitos artigos noticiosos e artigos de opinião que iam chegando, incluindo de cientistas de renome. Este dossier reúne muito do que fomos publicando, quer na edição em papel quer na edição online, sobre a ciência em crise.

quinta-feira, 6 de março de 2014

O futuro do ensino?


A propósito da notíciada produção de "artigos científicos" por computador (aqui), disse uma colega: "só falta um programa de computador que dê as aulas por nós [professores]".

Ora, já os há! E com aspecto de gente!

Há algum tempo soube que um professor universitário japonês produziu um cópia mecânica de si próprio para dar as aulas, ficando com mais tempo para investigar. O tempo não era, no seu entender, bastante para as duas coisas, de maneira que, sendo entendido no assunto, resolveu o problema desta maneira. Na altura pensei que a sua decisão poderia ser ao contrário: a cópia investigava enquanto ele-de-carne-e-osso dava aulas.

(Porque terá tomado a decisão no sentido em a que tomou: Porque dar aulas é menos importante do que investigar? Porque é uma tarefa menos exigente, que requer menos pensamento? Não fiquei a saber.)

Seguindo-lhe os passos soube que, qual criador entusiasmado com a criatura que produziu à sua medida, não parou por aí: seguiu-se a construção de um robot feminino sorridente - expressão fundamental de um professor universitário, informou-me alguém recentemente.

E não foi só ele que meteu mãos à obra, pelo que, neste momento, há vários professores-máquinas (por exemplo, aqui, aquiaqui e aqui) com muitas vantagens apregoadas.

Muito interessante é o vídeo que se pode ver a seguir:

A DONA ALMERINDA

Faleceu no passado dia 2, aos 101 anos de idade, a Dona Almerinda, tranquilamente, como um pavio que se apaga.


Quando, há muitos anos, lia as Selecções do Reader’s Digest, um dos artigos que mais me agradava, pelo que tinha de conteúdo humano, era o “O meu tipo inesquecível”. A Dona Almerinda cabia perfeitamente nesta secção da conhecidíssima revista.

Foi nos anos oitenta do século que passou, eram os meus dois filhos rapazes de onze e treze anos. Fiz uma ronda por diversas praias algarvias com o propósito de arranjar um apartamento para as férias de Verão. Como muita gente, também nós sentíamos que o mar da costa meridional era incomparavelmente mais convidativo do que o da fachada ocidental. Foi nesta ronda que fui dar à Ilha de Faro e aí nos fixámos até que os filhos, quase adultos, quiseram começar a fazer as suas próprias férias. Nesta restinga de areia, eles fizeram os seus amigos, todos os anos reencontrados, e nós fizemos outro tanto com os pais e outros familiares deles. Com as sombrinhas das diversas famílias, coladas umas às outras, a praia proporcionava-nos um convívio multifacetado, numa coabitação aberta a todos os níveis etários, da infância à terceira idade, onde se falava de tudo, se lia, se bordava, se vigiavam os mais pequenos, a par dos que tinham por principal objectivo deixar que o Sol lhes desse o bronzeado que faria a inveja dos vizinhos, colegas de trabalho e demais conhecidos, uma vez chegados a casa.

Havia sempre quem trouxesse umas guloseimas caseiras, batatas-doces cozidas, a escaldar e enroladas num pano branco, por sua vez abafado em jornais, figos e bolos de amêndoa e, o que mais guardei na memória, os rissóis de lingueirão feitos na hora pela Dona Cândida, a nossa hospedeira. Foi neste convívio que conheci a Dona Almerinda. Com casa própria, na Ilha, ao lado da que todos os anos alugávamos, em Setembro, esta notável senhora, natural de S. Braz de Alportel, uns dezoito anos mais velha do que eu, é uma das figuras mais marcantes, pelas boas razões, que me foi dado conhecer. A Dona Almerinda não andou na escola. Os trabalhos da casa, da cozinha à costura e a todo o serviço, enquanto rapariga e depois de casada e mãe de três filhos, ocuparam a tempo inteiro a sua existência.

A raiar a idade adulta, viu partir o namorado, forçado a emigrar para o estrangeiro, em procura de trabalho. Ele sabia ler e escrever e as cartas que mandava para ela tinham de ser lidas por uma amiga que também lhe fazia o favor de lhes responder, escrevendo tudo o que ela ditava. Esta dependência limitava-a, não lhe permitindo dizer tudo o que lhe ia no pensamento. Tomou então a decisão de aprender o valor das letras e a desenhá-las, no que, uma vez mais, contou com a ajuda desta amiga. Com determinação e inteligência, duas características que conservou ao longo da vida, aprendeu a ler e a escrever o suficiente para, em tempo útil, comunicar com o seu amor lá longe.

Foi esta determinação e inteligência, associadas a uma natural tranquilidade, que pôs em prática na educação dos três filhos que, homens entrados na terceira idade se lhe dirigiam usando, no convívio com ela, palavras e gestos de muito respeito e carinho. Quando, já centenária, a Dona Almerinda falava, os filhos, as noras e os netos ouviam-na com a atenção que as suas palavras sábias e ponderadas sempre suscitaram. Foi esta senhora que conheci no areal da praia de Faro, que todas as manhãs ia “dar banho”, o seu modo de dizer o acto de entrar na água, dar umas braçadas e sair de seguida. Depois era o prazer de a ouvir contar histórias, dar opiniões, narrar acontecimentos, descrever situações e lugares. Era assim, conversando, que se passava a maior parte da manhã. Após o almoço, nas horas de maior calor e quase sempre ao serão, o terraço da Dona Almerinda era uma espécie de tertúlia a que muitas vezes nos juntávamos. Algumas vezes tivemos o privilégio de nos sentarmos à sua mesa. A canja de berbigões, as” lulas cheias”, expressão muito sua de referir as suas incomparáveis lulas recheadas, e o perfumado xerém de sardinhas, foram sabores e aromas inesquecíveis.

Uma das histórias que lhe ouvi, deliciosa pelo conteúdo e pelo modo como a narrou, passou-se em Vancouver, na casa de um dos seus filhos, há muitos anos radicado no Canadá, casado com uma senhora de origem alemã, pai de filhos ali nascidos e já avô. No fim do jantar no dia da sua chegada a casa deste filho, a primeira vez que ali foi em visita, e ao aceitar o café que a nora lhe servia, esta, que nunca aprendeu o português, perguntou-lhe «too much?», expressão inglesa que, aos ouvidos da Dona Almerinda, apenas soou como a palavra bem portuguesa tomates. «Ora», contava depois esta minha amiga, a segurar o riso, «eu olhava, olhava para cima da mesa e para todo o lado e não via tomates nenhuns».

Só ao outro dia teve oportunidade de perguntar ao filho de que tomates lhe falara a esposa e, assim, lhe foi possível desvendar aquele mistério.

Nos anos que se seguiram à época em que, com os filhos ainda muito jovens, fizemos ali o nosso mês de praia, foram muitas as ocasiões em que tive de me deslocar a Faro em serviço docente no Campus de Gambelas ou para proferir palestras numa escola ou numa biblioteca municipal da região. De todas essas vezes houve encontro marcado com a Dona Almerinda para conversarmos e irmos jantar na Ilha, ao “Zé dos Matos” e saborear os choquinhos fritos e o arroz de lingueirão da saudosa Celestina.

A. Galopim de Carvalho

João Rui de Sousa


Na década de cinquenta, o poeta João Rui de Sousa foi membro da revista literária Cassiopeia, onde emergiam nomes como José Terra, António Ramos Rosa e José Bento.
Da sua vasta obra poética, destaco o livro “A Obstinação do Corpo”, que, no que respeita à poesia lírica portuguesa, comparo-o a “ A Secreta Viagem” de David Mourão-Ferreira.
A sua poesia começa pelo tédio e segue com a revolta social, a paixão e o sentimento do fim. Para além de leitor de poesia, também o é de ensaio científico.

Diário de um cosmonauta
No primeiro voo espacial
(Yuri Gagarine 1961


As naves em ogiva tem ecos,
ressonâncias dos homens e dos ventos.
Aves de bruma apenas ou miragens
Alimentadas de ar e de silêncio. 


As grades não existem nem os cães
nem os ossos da fome nem os gestos
da pura maldade ou da alvar
razão dos que podem, dos que têm.

Barcos e palavras pesam cinza,
olhos da noite, só, entre o encanto.
Resíduos somos, velhos, mas do medo
não há aqui sinal senão memória.

Aqui se encontra, enfim, um espaço livre:
Sem guerra nem deuses e sem pranto.
Ó sentimentos d’água e de estandarte
desfraldado ao vento em campo liso!


Agora os homens cantam, mas não falam
- não há mais razões nem corredores.
Desenham com o som de cada verso
um pórtico de lume pela noite.


As nebulosas...............
Na leitura de O Colapso do Universo
De Isaac Asimov

Sigo estas nebulosas no seu círculo
de sonho. E tremo. E digo-lhes
quantas rosas têm os seus
fulgurantes madeiros quantos sonhos
são só o arrastar de mais verde
quantos subidos ecos ou divinizados
cilindros se animavam na altitude
no inacabado passo do que está
para além das muitas noites e juízos:
do céu e do inferno, do fogo
e da razão, do dogma e da mentira,
dos passos que se não sabem
senão sentindo o corpo
atravessado por agulhas invisíveis,
por fragmentos de luz e escuridão,
por fossas negras onde se diluem
(em nuvens de pó e anilina)
as esquadrias ásperas do tempo.
São fundas manchas, majestosas,
que para todo o sempre sobrevoam.


quarta-feira, 5 de março de 2014

ROCHAS ÁCIDAS, NEUTRAS E BÁSICAS: O porquê destas adjectivações

Enquanto aluno na universidade aprendi que as rochas magmáticas ou ígneas se podem arrumar sistematicamente em ácidas, intermédias ou neutras e básicas, mas ninguém me explicou o porquê dessa adjectivação. Aprendi-o ao estudar para poder ensinar e escrevi-o no livro que publiquei em 2002, Introdução ao Estudo do Magmatismo e das Rochas Magmáticas (Âncora Editora). A explicação é simples e podemos encontrá-la na história da química. Na impossibilidade de a facultar à grande maioria dos professores que ensinam geologia nas nossas escolas, seria interessante que (beneficiando da capacidade de divulgação por via electrónica de que hoje dispomos) os que tiverem oportunidade de ler estas curtas e despretensiosas linhas, as reencaminhassem aos seus colegas.

A descoberta do oxigénio e o seu reconhecimento como o elemento mais abundante da crosta terrestre, anunciados em 1774, pelo clérigo inglês Joseph Priestley (1733-1804), associada à evolução da química analítica, na sequência dos trabalhos do francês Antoine Lavoisier (1743-1794) e dos suecos Carl Wilhelm Scheele (1741-1786) e Torbern Bergman (1749-1817) e outros notáveis químicos da época, conduziram a que a composição química das rochas (com destaque para as magmáticas ou ígneas) passasse a ser expressa em óxidos. Tais análises forneciam as percentagens ponderais de ”terra siliciosa” (sílica, SiO2), “terra argilosa” (alumina, Al2O3), “ocres” (óxidos de ferro, FeO e Fe2O3), “cal” (CaO), “soda” ou “alcali fixo mineral” (Na2O), “potassa” ou “alcali fixo vegetal” (K2O), “magnésia” (MgO), “titânia” (TiO2), óxido de manganês (MnO), “anidrido fosfórico” (P2O5), água (H2O), “ar ácido” ou “ácido aéreo” (CO2). Este modo de caracterizar a composição química das rochas, a par da microscopia, foi decisivo, no avanço da petrologia e, consequentemente, da geologia. Desde logo se constatou que o teor em sílica era um bom parâmetro na organização sistemática das rochas ígneas.

Com base nesta valiosa contribuição da química, o francês Jean-Baptiste Élie de Beaumont (1798-1874), professor de Geologia na École des Mines de Paris, cuja obra teve larga difusão e aceitação entre ingleses e alemães, foi sensível à variação do teor de sílica nas rochas magmáticas, critério que utilizou na classificação que então propôs:

rochas ácidas” com mais de 65% de sílica;
rochas neutras” ou “intermédias”, com 65 a 52% de sílica; e
rochas básicas”, com 52 a 49% de sílica.

A qualificação de uma rocha como ácida resultou de convicção, ao tempo, de que a sílica (SiO2) era um “óxido acídico”, à semelhança do dióxido de carbono (CO2) que, juntamente com a água, formaria uma série de ácidos e em que os silicatos (feldspatos, anfíbolas, piroxenas, olivinas, entre outros) eram aceites como os sais. Nestes imaginados sais, o sódio, o potássio, o cálcio, o magnésio e outros formavam as bases e, daí, a expressão rocha básica. O excesso de sílica evidenciado pela presença de quartzo, significava excesso do “princípio acídico”, conceito que vinha do século XVIII, na sequência do trabalho de Torbern Bergman e de outros químicos do seu tempo, em que se falava de “ácido quartzoso” imaginado com base na sílica. Não obstante a incorrecção desta ideia, as adjectivações ácida, básica e neutra ou intermédia mantiveram-se até os dias de hoje.
A. Galopim de Carvalho

terça-feira, 4 de março de 2014

Ao estilo Sokal

"Nos últimos anos, muitos estudos têm-se dedicado à criação de chaves públicas e privadas de criptografia; por outro lado, poucos sintetizaram a visualização do problema do produtor-consumidor. Dado o estado actual de arquétipos eficientes, importantes analistas notoriamente desejam uma emulação do controlo de congestionamento de rede, que incorpora os princípios fundamentais de hardware e arquitectura."
O que acha o leitor(a): Este parágrafo é credível? É compreensível? Terá sido extraído de um estudo científico? Estas perguntas fazem-no certamente desconfiar... Talvez o(a) levem a pensar ter sido, vá lá... mais uma brincadeira de estilo Sokal.

Pois, é mais ou menos isso, mas num estado de ironia mais aperfeiçoado... É, pasme-se, um extracto de um suposto artigo produzido por computador. Quer dizer, produzido por um programa especial sem intervenção de mão humana.

Há quase uma década, alguém criou esse programa para mostrar (mais uma vez) a desatenção, o desleixo, o que-quer-que-seja, patente em muitos processos de arbitragem científica.

Parece que duas editoras de revistas consagradas, daquelas onde toda a gente está mortinha por publicar, alteradas por um perito em computação, retiraram de circulação para cima de cem "artigos" que haviam publicado entre 2008 e 2013 (ler aqui e aqui).

O casamento das professoras

Uma lei de 1937 que se aplicou a algumas leitoras e de que outras terão ouvido falar:


“ARROZ DE ENGUIA”

Arroz de coelho em casa de meus pais sempre se chamou “arroz da enguia”.

Isto porque, contava o meu pai: Uma ocasião, era ele rapaz de escola, entrou-lhe, quintal adentro, vindo da casa ao lado, um belo coelho que, de pronto, se anichou num canto, o que tornou fácil e imediata a sua captura.

Viúva e com três rapazes, menores, num tempo em que as mulheres da cidade só tinham habilitações para os trabalhos domésticos, esta minha avó, hábil nos trabalhos de agulha e linhas, vivia com muitas dificuldades, em franco contraste com o desafogo dos vizinhos do lado, gente rica, soberba e distante.

A mãe do meu pai deve ter feito umas reflexões sumárias em torno de temas de ordem social, como desigualdades, justiça e outros afins, e, tomada que foi a sua decisão, olhou em volta, certificando-se da inexistência de terceiros, pegou no bicho, levou-o para dentro de casa e deu-lhe aquele esticão entre pernas e orelhas que nesses tempos toda a gente sabia dar, pois não havia supermercados nem talhos que nos poupassem daquela desagradável operação.

De seguida - contava o meu pai, sorrindo de uma memória antiga - esfolou-o. Não lhe guardou a pele que, como era regra, se punha a secar ao ar, virada do avesso e com sal, até que a levasse o peleiro ou o «ferro-velho», dando por ela umas migalhas que se não deviam nem podiam desperdiçar.

Nesse dia, excepcionalmente, a minha avó abdicou desse pequeno rendimento. Já lhe bastava o ganho, e não era pouco, da parte comestível. Assim, e por razões evidentes, enterrou-a bem fundo num canteiro, o mesmo fazendo às vísceras e à cabeça do animal.

Perder aquela cabeça – lembrava, ainda, o meu pai - foi o que mais lhe custou nesta operação de acautelamento que o bom senso ditava; e ela que gostava tanto daquela carne agarrada aos ossos e dos miolos, que comia no fim, depois de a abrir ao meio com a faca da cozinha. Mas paciência, não se podia ter tudo. Assim, era mais seguro! Esquartejou-o aos pedacinhos, que lavou bem lavados, e fez o refogado. Pô-lo ao lume e escolheu e lavou o arroz...

Quando à tardinha, cheios de fome, os filhos entraram correndo, vindos da escola e das brincadeiras da rua e perguntaram à mãe o que era a comida para o jantar, a minha avó Mariana, sem trejeito que a denunciasse, levantou os olhos azuis da costura e, de agulha na mão, a espetá-la no peito da blusa, num gesto tradicional de quem interrompe o trabalho, respondeu apenas: – Arroz de enguia!

A. Galopim de Carvalho

segunda-feira, 3 de março de 2014

KARNART - TEATRO SOBRE GABINETES DE CURIOSIDADES

Na

Na semana pessada a companhia Karnart apresentou em Coimbra, no Teatro Académico de Gil Vicente, o seu espectáculo Perfinst, que mistura de forma muito original performance e instalação, a propósito dos gabinetes de curiosidades. Aqui uma notícia sobre o trabalho dessa companhia.

LIVROS DE CIÊNCIA E BIBLIOTECAS EM SETÚBAL

No dia 18 de Março irei falar sobre livros de ciência e bibliotecas a um encontro municipal de bibliotecas escolare em Setúbal no Auditório da Escola Básica 2+3 e Secundária da Bela Vista. Está aqui o programa.

PETER HIGGS DEU UMA ENTREVISTA À BBC4

V

Ver e ouvir aqui.

CATE BLANCHETT EM BLUE JASMIN: A ACTRIZ DO OSCAR

GRAVIDADE: O FILME DOS ÓSCARES

Uma aula de ciência na pré-primária

CONTAR ESTRELAS


Um interessante artigo de Guilherme de Almeida sobre a contagem de estrelas a olho nu (na figura é o olho do Hubble) pode ser lido aqui:

UM CRISTAL DA ORIGEM DA TERRA

Crónica primeiramente publicada no Diário de Coimbra.

Com um cristal se escreve o amanhecer da Terra.

Foi descoberto um cristal com 4,4 mil milhões de anos, cuja composição e estrutura indicam que a crosta terrestre teria então água no estado líquido, mais cedo do que os cientistas julgavam. Esta nova descoberta vem ao encontro da hipótese de a vida poder ter surgido no nosso planeta antes do que os mais antigos registos fósseis indicam (3,4 mil milhões de anos). O cristal descoberto é um zircão e os resultados foram publicados no número actual da “Nature Geoscience”.

O cristal foi extraído de um afloramento rochoso na região montanhosa de Jack Hills, no Oeste da Austrália. O cristal examinado tem apenas 400 micrómetros de tamanho, cerca do dobro do diâmetro de um cabelo humano. Mas este minúsculo zircão abre mais uma janela sobre o início da história da Terra.

Geologicamente, o zircão é classificado no grupo dos nesossilicatos. Quimicamente, é um silicato de zircónio (Zr é o elemento químico com o número atómico 40, descoberto em 1789 por MartinKlaproth, e isolado impuro, em 1824, por Berzelius) que apresenta a fórmula química ZrSiO4. O seu nome deriva do termo “zargum”, que é palavra árabe para “vermelho” e também nome persa para “dourado”.

Dependendo das rochas onde é encontrado, o mineral zircão pode ser incolor ou ter matizes amarelo douradas, vermelhas, castanhas ou mesmo verdes! E este cristal, gema semi-preciosa, pode ser encontrado em quase todas as partes da crosta da Terra! A razão para esta ubiquidade advém da sua antiquíssima origem e formação. De facto, ele está presente nos três principais grupos de rochas: as ígneas, as metamórficas e as sedimentares.

Esta dispersão por todo o planeta torna-o um cristal modelo para estudar os estados iniciais da formação da Terra. Mas como é que a partir de um cristal é possível saber a idade das rochas onde ele é encontrado?

O zircão “aloja” duas “impurezas” cujas propriedades radioactivas permitem a datação de períodos de tempo muito longos. Essas impurezas são átomos de urânio e de tório (símbolos químicos U e Th, respectivamente), e a sua quantidade relativa fornece informação sobre há quanto tempo estão alojados no zircão, ou seja, quando é que ele foi formado.

Ao longo de milhares de milhões de anos, os átomos de urânio incluídos no zircão transformam-se por decaimento radioactivo em isótopos de chumbo (Pb), que são átomos mais estáveis. A partir da proporção de isótopos de Pb em relação aos de U, os cientistas conseguem calcular a data de formação dos minerais onde aqueles se encontram.

Mas no estudo agora publicado os cientistas usaram uma segunda técnica: fizeram uma tomografia ao mineral, na qual observaram não só a proporção mas também a distribuição espacial de átomos de U e de Pb. Esta técnica confirmou este cristal como sendo o mais antigo até agora descoberto na Terra. Segundos os cientistas, este zircão ter-se-á formado só 140 milhões de anos após a formação do nosso planeta! É pois um cristal com quase a idade da Terra.

António Piedade

domingo, 2 de março de 2014

ALAVÃO


A venda da Tia Rosalina era mais do que um simples lugar de hortaliça. Em simultâneo, esta venda funcionava, por assim dizer, como vestíbulo de uma casa grande onde viviam três gerações de uma família. Esta minha tia-avó tinha alavão em casa, onde se fazia queijo de ovelha de muita qualidade. Desta actividade artesanal, caseira, ocupavam-se as três filhas, minhas primas, todas mulheres sem homem, uma viúva, uma divorciada e uma solteira. Havia ainda a Marieta, uma neta, por parte de um filho já falecido, Esta outra prima pouco falava. De grande doçura, sorria sempre, como resposta, e tinha, segundo diziam, mãos muito boas para a feitura dos queijos.



Na Primavera, todas as primas trabalhavam à volta da francela (imagem ao lado de uma francela com os queijos acabados de fazer, a escorrerem o resto do soro). As horas eram as ditadas pelo chegar das vasilhas do leite, que de pronto ia a ferver, com cardo, num enorme caldeiro no chão da lareira, ao fundo da enorme cozinha. A prima mais velha, a viúva, era mestra no juntar da quantidade de cardo necessária e na força a dar ao lume, avivando-o com feixes de lenha miúda. Lentamente o leite ia aquecendo, ganhando a espessura precisa. Terminada a coalhada, arredava-se o caldeiro para que arrefecesse. A francela era uma mesa de tampo levemente inclinado em rampa suave, com um rebordo aberto na extremidade mais baixa, por uma espécie de goteira.

Sobre esta mesa o coalho era desfeito à mão, metido nos cinchos e apertado para que deixasse escorrer o soro. Sentados à volta deste aparato, numa divisão interior contígua à loja, as primas, e eu muitas vezes, íamos fazendo queijos, ouvindo e contando histórias. Com um grande púcaro de lata ia-se retirando do caldeiro o coalho que se vazava para cima da francela. Ao cair, abria-se, trémulo, sob o seu próprio peso, em superfícies curvas e lisas de um branco de porcelana vidrada.

– Faz-se assim! – Explicava-me uma das primas – Fazes uma concha com esta mão que agarra o cincho, assim. Depois vais enchendo a forma com a outra mão, até fazer “cagulo”. Agora com as duas mãos cruzadas, vai apertando devagarinho e rodando. Deixas escorrer o soro entre os dedos, assim!
– Para fazer bons queijos têm de se ter mãos frias e magras como as da Marieta e as minhas! – Acrescentava a prima solteira, magra como um junco, olhando para a sobrinha que sorria, satisfeita.

Enformados, os queijos iam sendo alinhados no topo da francela, de onde continuavam a escorrer. O soro serpenteava em fios por entre os restos esmigalhados do coalho, arrastando-os na descida até uma vasilha onde ia de novo ao lume para fazer o almece. Alimento comum nos meses de alavão, o almece servia de almoço ou de jantar a muitos. Com sopas de pão numa tigela, umas pedrinhas de sal, para uns, ou uma pitada de açúcar, para outros, estavam ali as proteínas de um pobre. Posto a escorrer num pano branco e lavado, o almece dava lugar ao requeijão, bem mais rico e apreciado por nós quando, com açúcar e canela, a mãe no-lo dava como sobremesa.

Os queijos, ainda nos cinchos, iam sendo virados até que os “cagulos” deixados pelas conchas das mãos dessem lugar a duas superfícies com as marcas dos veios da madeira do tampo da francela avivados pelo uso e pelas lavagens. Perdendo soro e secando com o tempo, estes cilindros de queijo acabados de enformar, de início sempre mais altos do que largos, iam baixando e transformando-se no aspecto e no sabor. Queijo fresco, no próprio dia, fresco com sal nos dias imediatamente a seguir, eram apreciados mais tarde, na chamada meia-cura. Depois de um tempo conveniente, em repouso nos caniços, quando chegasse a feira de São João, já seriam queijos curados, aromáticos e com olhinhos de gordura, desaparecendo rapidamente das canastras dos queijeiros, levados por clientes conhecedores do produto que compravam.

Guardados no sal ou em azeite para o ano inteiro, faziam o conduto habitual de muitas refeições.
A. Galopim de Carvalho

sábado, 1 de março de 2014

SOBRINHO SIMÕES NA REVISTA DO EXPRESSO ARRASA A ACTUAL POLÍTICA DE CIÊNCIA


A área privilegiada no programa de ciência do governo era a das ciências da vida e da saúde. Lê-se lá que se pretendia "reforçar o investimento em áreas críticas para o desenvolvimento social e económico de Portugal, nomeadamente nas ciências da vida e da saúde, com enormes repercussões financeiras na saúde pública, na agricultura, no ambiente e na biodiversidade." Manuel Sobrinho Simões é um dos maiores nomes da ciência nacional, precisamente na área das ciências da vida e da saúde, a tal privilegiada. Vejamos o balanço que ele faz em entrevista que saiu hoje na revista do Expresso:

"P - As questões que se colocavam há 25 anos, na formação do IPATIMUP, são muito diferentes das de hoje?

R - São, porque começámos numa altura em que Portugal praticamente não tinha ciência. O país é outro. O que é assustador é que nos últimos dois anos isto está outra vez tudo diferente.

P - Há agora um terreno adverso?

R - Sim, e é algo de muito recente (...)

P - Sentem agora a fuga de cérebros?

R - Sentimos (...)

P- Qual a dimensão dos cortes orçamentais no IPATIMUP?

R - Foram de 45% (...)

P - Há uma subversão dos objectivos iniciais?

R - A verdade é que isto no limite subverte (...)"

Se as ciências da vida e da saúde eram a área privilegiada... imagine-se o que aconteceu às outras. Houve mesmo áreas sumariamente extintas.

STRAUSS NA ABERTURA DE "2001 ODISSEIA NO ESPAÇO"

VER, LER E OUVIR



Minhas escolhas culturais (O que ando a ver, ler e ouvir) publicadas no Diário de Notícias de hoje (suplemento QI):

 VER

 - Woody Allen, “Blue Jasmine”, Prisvideo, 2013, 14,99 euros FNAC

Confesso que não sou grande cinéfilo, mas Woody Allen é um dos meus realizadores preferidos. Como não tive oportunidade de ver este seu último filme, com a australiana Cate Blanchett no papel de uma mulher rica que perde a sua fortuna (ela integra o elenco do último filme de George Clooney,  The Monuments Men. Caçadores de Tesouros, que também quero ver) comprei o DVD. Logo que tenha algum tempo,  verei se concordo com os que dizem que Blanchett merece um óscar por esta interpretação num filme que me dizem ser um retrato inteligente dos atribulados tempos que correm.

- Carl Sagan, “Cosmos”, original de 1980 e edição das Fremantle Media Enterprises de 2009, 5 DVD, 39,99 euros, FNAC
  
Muito em breve, a 9 de Março, vai estrear Cosmos. Uma Odisseia no Espaço-Tempo, sequela de Cosmos: Uma Viagem Pessoal, a famosa série televisiva de Carl Sagan, a qual está associado a um excelente livro (recomendo a edição ilustrada, que não pode faltar em nenhuma biblioteca!). Passados 34 anos, Sagan será substituído pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson, embora entre os produtores executivos se encontre ainda a sua mulher, Ann Druyan. Por todo o mundo há uma imensa curiosidade em conhecer a nova série. Mas até lá – e até para facilitar a  comparação – não há como rever o clássico da nossa modernidade. Não é preciso rever muito para concluir que Sagan é uma estrela de primeira grandeza. Mas Tyson também possui uma capacidade enorme de comunicação, sendo senhor de um humor muito particular. Estou mortinho por ver este segundo Cosmos, esperando que ele ajude a crescer a cultura científica no mundo e no nosso país. Bem precisamos dela!

LER

- Teodoro de Almeida, “Oração e Memórias na Academia de Ciências de Lisboa”, Introdução e Coordenação editorial de José Alberto Silva, Porto Editora, 2013, 18,90 euros FNAC

Numa altura em que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) decidiu, vai-se lá saber porquê e para quê, extinguir a área de História da Ciência, vale a pena visitar a história da ciência nacional através da colecção Ciência e Iluminismo, coordenada por José Luís Cardoso, Francisco Contente Domingues e Ana Simões. Este livro, o 9.º da colecção, traz-nos a primeira oração de sapiência da Academia de Ciências de Lisboa, lida em 4 de Julho de 1780 pelo padre oratoriano Teodoro de Almeida, que tinha estado exilado em Espanha e França no tempo do marquês de Pombal, onde escreveu boa parte da sua notável Recreação Filosófica. A oração causou acesa polémica, designadamente de prosélitos do marquês que não gostaram de ver Portugal comparado, no atraso científico, ao reino de Marrocos. A actual política ignorante da cultura científica conduzida pela FCT leva-nos a uma nova comparação com o  “reino de Marrocos”.

-  Miriam Assor, “Judeus Ilustres de Portugal”, A Esfera dos Livros, 2014, 15,30 euros FNAC

Uma jornalista de origem judaica (filha de um antiga rabino da Comunidade Judaica de Lisboa), apresenta um retrato de, como reza o subtítulo, “14 judeus ilustres que marcaram a História do nosso país”. Alguns são mais conhecidos, como os grandes cientistas do século XVI Garcia de Orta, Amato Lusitano e Pedro Nunes, num tempo marcado pela perseguição inquisitorial, e outros são menos, como Isaac da Fonseca, “o rabino poeta de Amesterdão”, e Abraham Assor, o pai da autora. O prefácio é de Miguel Esteves Cardoso, que se confessa judeu, religião à qual chegou após ter falado com o rabino Assor. Cardoso diz que o pai lhe ensinou que “a desgraça de Portugal e dos portugueses não teria acontecido (e não existiria hoje) se os judeus não tivessem sido expulsos, pseudoconvertidos à força ou assassinados, pelos fogos pré-nazis da Inquisição.”

- E.L. Jones, “O Milagre Europeu”, 2.ª edição, Gradiva, 2002, 5 euros FNAC

Nem só de livros modernos se alimenta a leitura. Há livros não muito modernos que permanecem actuais e que se encontram por um preço incrivelmente baixo. A proximidade das eleições europeias conduziu-me à releitura deste livro, cujo subtítulo é “Contexto, Economia e Geopolítica da História da Europa e da Ásia”, da autoria de um professor de Economia australiano. A Europa pode estar em crise – e a ideia da União Europeia pode não passar por enquanto de uma ficção – mas vivemos num continente fantástico, onde um dia se seu o “milagre” do desenvolvimento. Foi da Europa que partiram os Descobrimentos, foi aqui a Revolução Científica foi feita e foi aqui a Revolução Industrial arrancou. O mundo está longe de ser só a  Europa mas sem a Europa o mundo não seria o que é hoje.  Vale a pena a ficção da Europa... 

- Eduardo Lourenço, “A História é a suprema ficção”, Entrevista de José Jorge Letria a Eduardo Lourenço, Guerra e Paz, 2014, 13,99 euros FNAC

O nosso grande maître à penser não se cansa de nos ensinar, com um discernimento único, o que é Portugal e os Portugueses. Nesta entrevista em forma de livro chama a Portugal um “milagre quase contínuo” por ter conseguido sobreviver ao longo de oito séculos de independência. E diz sobre a situação actual: “Voltámos à Europa, de onde nunca devíamos ter saído, mas à qual pertencemos mesmo antes de ter nascido. Agora estamos  envoltos num destino comum, protegidos e desprotegidos ao mesmo tempo. “ A ler e meditar. Sobre o tema da Europa recomendo também o recente A identidade Cultural Europeia de Vasco Graça Moura, na Fundação Francisco Manuel dos Santos. 

- Helena Matos e José Manuel Fernandes, “Este país não é para jovens", A Esfera dos Livros, 2014, 14,40 euros FNAC

Dois jornalistas, cujo pensamento arguto e caneta afiada são bem conhecidos, analisam o Portugal que somos hoje, centrando o olhar na questão da equidade entre gerações. O subtítulo põe o dedo na ferida: “Quanto vão custar no futuro as obras, as políticas e os direitos de hoje”. Estaremos a comprometer seriamente o futuro das próximas gerações em nome do presente? Serão os nossos políticos completamente cegos no que respeita ao futuro a médio e longo prazo, só lhes interessando o tempo curto e mesquinho dos seus ciclos eleitorais?

- Hubert Reeves, “Onde cresce o perigo nasce também a salvação”, Gradiva, 2014. 12 euros FNAC

O astrofísico com ar de poeta tem sido entre nós, pela chancela da Gradiva, um grande êxito editorial. O autor continua a atrair audiências, como mostrou a sua recente vista ao Porto. Neste livro, cujo título se inspira num verso do poeta alemão Friedrich Hoelderlin (morei três anos na rua Hoelderlin, um nome difícil de pronunciar, em Frankfurt), Reeves olha ao mesmo tempo para a espantosa história do cosmos, à escala do muito grande no espaço e no tempo, e para a história recente do nosso planeta, a uma escala muitíssimo menor, onde a mão do homem criou riscos. À primeira chama “bela história” e à segunda “história menos bela”. Mas o verso do título sugere que a Terra não está perdida, temos de dar beleza à história da Terra. Os cientistas são uns optimistas inveterados. 

- Craig Venter, “Life at the speed of light. From the double helix to the dawn of digital life”,Viking, 2013, 20,50 euros FNAC

Um dos mais originais cientistas contemporâneos é Craig Venter, bioquímico norte-americano que participou, com a sua empresa Celera Genomics, no extraordinário projecto da sequenciação completa do genoma humano, completado em 2003 e que não só mudou a ciência como vai mudar as nossas vidas. Em 2010 Venter anunciou a criação de vida artificial. Neste livro defende o envio por sinal digital e à velocidade da luz  do código da vida para o espaço para criar sinteticamente vida noutros planetas, E, ao contrário, se for encontrada vida sob outras formas noutros planetas próximos, essa vida poderá ser enviada para a Terra a partir de sondas para aqui ser recriada. Isto é pode haver visitas de extraterrestres, sendo os extraterrestres criados cá e lá. Trata-se de ciência embora pareça ficção.

OUVIR

- Cristina Branco, “Idealist”. Universal, 2014, 17,99 euros FNAC

Antologia de 17 anos de canções de uma cantora portuguesa que fez boa parte da sua sua carreira na Holanda e agora regressou a esse país (não foi aliás o único artista conhecida a emigrar, também Fernando Tordo procurou recentemente outras paragens, à semelhança de muitos cientistas). Explicou assim a sua partida: “a cultura no nosso país está a morrer, a educação idem e resolvemos mudar-nos para aqui, porque achei importante os meus filhos terem uma abordagem à vida diferente daquela que temos em Portugal.” A caixa  alberga  três discos, o primeiro de fados, incluindo poemas do holandês J. Slauerhorff e do português Alexandre O’Neill, o segundo celebrando outros grandes poetas como António Gedeão e Eugénio de Andrade e o terceiro denominado Ideal, que engloba canções de Sérgio Godinho e Chico Buarque. Uma das canções que não me farto de ouvir é a inédita Se fores, não chores por mim, de Mário Cláudio e Ricardo J. Dias.

- Richard Strauss, “Also sprach Zaratrustra”, Gustavo Dudamel dirige a Berliner Philarmoniker, 2013, Deutsche Grammophon, 15,99 euros FNAC

Este é o ano de Richard Strauss, pois passam 150 anos do seu nascimento. Neste disco o jovem maestro venezuelano, que só tem 33 anos, dirige, como convidado, a célebre Filarmónica de Berlim, cujo maestro titular é Simon Rattle (sucessor de Herbert von Karajan e do recentemente falecido Claudio Abbado). O poema sinfónico de Strauss foi composto em 1896, inspirado pelo livro de Friedrich Nietzsche com o mesmo título. Encontra-se neste CD, logo na abertura, a música com que abre o filme 2001 Odisseia de Espaço, de Stanley Kubrick, que foi gravada pela sinfónica de Viena dirigida por von Karajan. Lembro-me de, em jovem, a ouvir nos relatos radiofónicas das viagens Apollo à Lua na Emissora Nacional, comentados pelo saudoso Eurico da Fonseca, um autodidacta que foi um dos grandes pioneiros da divulgação científica em Portugal.

A ACADEMIA DE CIÊNCIAS DE LISBOA

Artigo meu que acaba de sair no jornal "As Artes entre as Letras" baseado no meu livro mais recente "História da Ciência em Portugal":

No final do século XVIII, após a morte de D. José I e o derrube do Marquês, surgiu a Academia das Ciências de Lisboa, que reuniu alguns sábios activos na Reforma Pombalina com outros que tinham sido afastados do reino. Esta Academia dá hoje o nome à sua rua, no coração de Lisboa. O edifício, antes de passar em 1833 a Academia, foi sede do Convento de Jesus. O que mais impressiona o visitante, nesta casa que guarda o espírito do lugar, é o salão nobre, pejado de livros desde a base até ao cimo e com belos tectos pintados. De resto, a Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa é uma das mais notáveis bibliotecas nacionais, devido ao seu valioso espólio antigo. Ali se guardam, em particular, as numerosas publicações periódicas e monografias que a Academia publicou. Este organismo inclui o Museu Maynense, com instrumentos científicos. Fundado na véspera de Natal de 1779, pela Rainha D. Maria I, a sessão pública inaugural foi realizada a 4 de Julho de 1780.

 Na altura da sua fundação estavam a difundir-se pela Europa as Academias de Ciências. A de Lisboa não foi uma das primeiras, pois antes dela já tinham sido fundadas a Academia de Lincei, em Roma, em 1603, a Academia de Cimento, em Florença, em 1657, a Real Sociedade (Royal Society) de Londres, em 1660, a Academia das Ciências de Paris, em 1666, a Academia das Ciências de Berlim, em 1700, e a Real Academia de Ciências de Bruxelas, em 1772. O Reitor-Reformador da Universidade de Coimbra, D. Francisco de Lemos, tinha expressado nos documentos da Reforma a sua admiração pelo labor em prol da ciência das academias estrangeiras. O Reitor desejava fazer perdurar as luzes do século XVIII através da profunda reforma dos estudos científicos na Universidade de Coimbra. Mas não só à Universidade estaria guardado o dever de tão ambiciosa tarefa: deveria também existir uma Academia das Ciências. Escreveu: “A quem deve Inglaterra e França a sua opulência, e o florescente estado das Artes da Paz, e da Guerra, se não à Sociedade Real de Londres, e a Academia Real das Sciencias?”

Tal como Londres e Paris, também Lisboa deveria ver a sua Academia das Ciências contribuir para o progresso científico nacional. Entre os primeiros sócios da secção de Ciências da Academia encontravam-se o físico Dalla Bella e o naturalista Vandelli. Encontrava-se também Monteiro da Rocha, reformador dos estudos de Matemática em Coimbra. Na primeira sessão da Academia, quem fez a oração de sapiência foi, porém, Teodoro de Almeida, o oratoriano que tinha sido pioneiro da Física Experimental em Portugal. O primeiro presidente foi o duque de Lafões, D. João Carlos de Bragança, que tinha estado longo tempo exilado na Europa, devido à sua oposição à política pombalina. Foi ajudado na elaboração dos estatutos pelo secretário José Correia da Serra, mais conhecido pelo Abade Correia da Serra.

Nascido em Serpa mesmo a meio do século XVIII (tinha, portanto, 29 anos à data da fundação da Academia), Correia da Serra partiu para Itália devido possivelmente a perseguição à sua família movida pela Inquisição, já que a mãe tinha ascendência judia. Estudou nesse país, onde tomou ordens religiosas. Aí conheceu o português Verney. Mas o Abade não ficou por Itália: foi um homem das sete partidas do mundo. Em 1777 regressou a Portugal. Depois de ajudar a fundar a Academia viu-se, em 1795, obrigado a partir para Londres por ter dado guarida a um naturalista francês. De Londres, perseguido pelo embaixador português, Serra fugiu para Paris, onde teve um filho de uma senhora francesa, a quem chamaria “sobrinho” durante muito tempo. Não querendo obedecer a Napoleão, foi a seguir para os Estados Unidos, então jovem nação, onde atingiu o apogeu da sua carreira. Com efeito, a sua presença nas proximidades de alguns dos pais fundadores do novo país americano trouxe-lhe a maior fama. O Abade Serra foi, em particular, amigo de Thomas Jefferson, um dos autores da Declaração da Independência dos Estados Unidos e o terceiro presidente americano, após Washington e Adams. Jefferson disse que Serra era “o homem mais ilustrado que conheceu”, o que não era dizer pouco. Com Jefferson, o Abade alimentou a utopia de uma nova civilização nas Américas, que ambos queriam mais avançada do que a europeia. A América do Norte ficaria para os Estados Unidos e a América do Sul para Portugal. É curioso como um padre católico se entendia bem com um unitariano, mas unia-os a filiação na Maçonaria. Jefferson mantinha reservado na sua casa de Monticello, na Virgínia, um quarto para o abade seu amigo, que lhe dava o prazer de visitas regulares, e ainda hoje os turistas podem ver na casa de Monticello o Abbé Corrêa’s room. Em 1812, o abade português chegou a Filadélfia, quando era Presidente James Madison, o sucessor de Jefferson e também ele um Presidente-filósofo. O naturalista português tomou posse, em 1816, do lugar de “ministro plenipotenciário do reino de Portugal, Brasil e Algarves junto do governo americano” . Foi uma missão difícil, em primeiro lugar porque a corte portuguesa no Rio de Janeiro teve de enfrentar uma revolta no Pernambuco que tinha o apoio de alguns americanos e, em segundo lugar, porque o Presidente seguinte já não apreciava a conversa de salão em que o Abade era exímio. Em 1820 por altura da Revolução Liberal e dois anos antes da independência do Brasil o embaixador português regressava à sua terra natal.

Na figura: Salão Nobre e Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa, fundada em 1779 por D. Maria I.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...