quinta-feira, 17 de maio de 2012

Final da Taça entre a Académica e o Sporting

 
Meu depoimento à revista "C" sobre a final da Taça entre a Académica e o Sporting: 
 
Eu sou da Académica, embora não frequente o estádio (sou contra aquele estádio, que parece um gigantesco OVNI e que custou uma fortuna e contra as trafulhices dos dirigentes e empresários do futebol). Sou da Académica desde pequeno, pois lembro-me de, estudante do liceu, assistir aos treinos no velho campo de Santa Cruz (dos pés de Rui Rodrigues saíam mísseis teleguiados com uma precisão incrível e dos pés de  Manuel António saíam meteoritos letais para as balizas adversárias). Lembro-me também de assistir a alguns jogos de binóculos, da Cumeada para o Calhabé, com um interesse maior do que o de um astrónomo por uma supernova. Lembro-me ainda da minha excitação quando havia um frenesim geral na cidade por aqui virem jogar equipas internacionais para as provas europeias (Taça das Taças e Taça das Cidades com Feira, não sei onde era a feira...). Depois, estudante na Universidade, senti que o clube foi deixando de ser o que era, com jogadores que deixaram de ser estudantes. 
O último jogo que fui ver em Coimbra foi com o Salgueiros, no tempo em que ainda havia Salgueiros, para o meu filho aprender algum vocabulário que não conhecia de casa. Houve de tudo: não só insultos, como também penaltis e expulsões que justificavam os insultos. O futebol é irracional e a irracionalidade faz parte da vida.
 Hoje, apesar da minha relação com o futebol ser mais distante, desejo que a Académica ganhe. A ligação do clube com a academia continua hoje a ser ténue, mas sei que há uma relação com a cidade. A Universidade vai bem e recomenda-se em muitas áreas, mas a cidade nem por isso. A Briosa, tal como a cidade, anda tão apagada há tanto tempo que esta Taça daria muito jeito para acender a chama.
 
Carlos Fiolhais
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Na foto: equipa da Académica dos anos 60 com Ruio Rodrigues e Manuel Antónjio (os outros também eram muito bons). 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

May 16,1960: Birth of Laser


Um parafuso químico muito geológico



Texto de divulgação da Química que pedimos à professora Margarida Milheiro:

Alexandre-Emile Béguyer de Chancourtois (1820-1886) foi o primeiro cientista a apresentar uma representação dos elementos químicos, ordenada segundo a sua massa atómica e propriedades físicas e químicas. Chamou-lhe parafuso telúrico, a primeira organização de elementos químicos em 3D. Mas Chancourtois não era químico, mas sim geólogo, tendo a sua formação tido muita importância na representação que criou.

Chancourtois apresentou a sua proposta de organização dos elementos químicos a 13 de Outubro de 1862, no decorrer de uma sessão da Académie des Sciences em Paris. Era constituída por uma tabela organizada sob a forma de um cilindro dividido em 16 partes verticais iguais, baseado na massa atómica do oxigénio (massa atómica ≈ 16). Elementos químicos com uma diferença de “números característicos” de 16 apresentavam, para Chancourtois, propriedades químicas e físicas semelhantes.

Chancourtois ordenou os elementos químicos segundo a sua massa atómica, a que deu o nome de “números característicos” (nombres caracteristiques, no original). Os elementos químicos estão representados sobre uma linha descendente, da esquerda para a direita, com um ângulo de 45º em relação ao eixo vertical, como se pode ver na figura seguinte.

A organização dos elementos no parafuso telúrico permite que elementos da mesma “família” ou grupo (elementos com propriedades físicas e químicas semelhantes) apareçam em linha verticais, ordenados em ordem crescente de cima para baixo. Para Chancourtois elementos químicos com uma diferença de “números característicos” de 16 apresentavam propriedades químicas e físicas semelhantes.

Chancourtois agrupou correctamente elementos do grupo dos metais alcalinos (lítio [Li], sódio [Na] e potássio [K]), metais alcalino-terrosos (magnésio [Mg] e cálcio [Ca]) e elementos do grupo dos halogéneos (fluir [F] e cloro [Cl]). 

Quando Chancourtois apresentou o parafuso telúrico em 1862 existia ainda um grande debate relativo à forma correcta de determinar a massa atómica dos elementos. Chancourtois seguiu a hipótese apresentada pelo químico britânico William Prout (1785-1850), de que “a massa atómica de cada elemento químico é um múltiplo inteiro da massa atómica do hidrogénio” [massa atómica do hidrogénio ≈ 1,0]. Assim Chancourtois arredondou os valores das massas atómicas de forma a tornarem-se números inteiros. Um exemplo é o cloro (Cl), cuja massa atómica (≈ 35,5) foi arredondada para 35, de forma a ficar exactamente alinhado verticalmente com o flúor (F), de massa atómica 19 (19 + 16 = 35).

Chancourtois chamou à sua representação “vis tellurique” ou parafuso telúrico. O nome parafuso resulta da estrutura cilíndrica e da leitura em espiral, de cima para baixo. O termo telúrico refere-se ao elemento químico telúrio (Te), que ocupa o ponto central da tabela de Chancourtois. A posição do elemento telúrio no centro da tabela parece não ter sido casual. O termo telúrio vem de tellos (o termo grego para “terra”) e Chancourtois era geólogo. Em Portugal o parafuso telúrico é mais conhecido como caracol de Chancourtois.

Embora hoje seja conhecido apenas pela sua proposta de organização de elementos químicos, no seu tempo Chancourtois era um famoso geólogo, professor na área de Geologia na École des Mines em Paris, França. Foi um dos responsáveis pela cartografia do mapa geológico de França na escala 1:80 000 (função que manteve até 1875). Para além disso Chancourtois foi oficial da Legião Francesa (1856) e Chefe de Gabinete do Ministério de Argélia e das Colónias de Napoleão. Em 1880 tornou-se Inspector Geral de Minas, da divisão das regiões Norte e Oeste, cargo que reteve até à sua morte.

O parafuso telúrico, sistema criado por Chancourtois para a ordenação dos elementos químicos, foi em geral ignorado pela comunidade científica da época, em particular os químicos. Vários factos contribuíram para isso:

(I) Chancourtois não era químico mas sim geólogo. Não tinha uma formação de base em Química e para a construção do parafuso telúrico baseou-se muito em conceitos de Geologia, tais como a constituição química de minerais e rochas. A formação de Chancourtois como geólogo também influenciou a escolha do cilindro (sólido geométrico) como bases de representação do seu modelo assim como o próprio nome parafuso telúrico, de tellos, o termo grego para “terra” (como referido anteriormente).

(II) Chancourtois não fez uma divulgação generalizada do seu modelo, o parafuso telúrico, entre a comunidade científica (e entre os químicos em particular), principalmente fora de França. Apenas publicou artigos em revistas francesas (escritas em françes), não publicou nenhum artigo em revistas de Química e não defendeu a sua prioridade na descoberta da periodicidade dos elementos químicos perante Dmitri Mendeleev (1834-1907) ou Julius Lothar Meyer (1830-1895).

(III) O modelo do parafuso telúrico foi apresentado na revista Comptes Rendus, da Académie des Sciences, com a transcrição do discurso feito por Chancourtois perante elementos da Académie em 1862. O texto é de difícil compreensão e cheio de referências de Geologia. Pior ainda, o texto não é acompanhado por um esquema do parafuso telúrico (que poderia ajudar na compreensão do texto) porque o esquema foi considerado demasiado complexo pelo editor. Chancourtois publicou o esquema algum tempo depois, sobre a forma de um panfleto que distribuiu entre amigos e conhecidos, pelo que poucos tiveram acesso directo ao mesmo. O artigo onde Chancourtois apresenta pela primeira vez o parafuso telúrico, pode ser encontrado em http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k30115/f757.chemindefer.

(IV) Chancourtois introduziu no parafuso telúrico componentes que não na época já não eram considerados elementos químicos, como óxidos e cianetos, amónia e outros radicais.

Nota: Texto adaptado do original, que pode ser encontrado no blog “Ema não é uma avestruz”, escrito sob o pseudónimo de Rita Robalo Sobreiro.

Limites ao relativismo cultural

Veio parar-me às mãos um documento com a chancela do Departamento de Educação Básica do Ministério da Educação que tem por título Histórias do Povo Cigano: Sugestões de Actividades para o Ensino Básico. Foi publicado em 2001 e é assim apresentado:
“Tendo em vista melhorar a eficácia da resposta educativa aos problemas surgidos da diversidade dos contextos escolares e assegurar que todos os alunos aprendam mais e de um modo mais significativo, o Departamento da Educação Básica editou (…) agora "Histórias do Povo Cigano", adaptadas a crianças, contribuindo para a construção de uma escola de qualidade, mais humana, criativa e inteligente. Os excertos de histórias aqui apresentados resultam de uma recolha (…) entre Junho e Dezembro de 1998, no âmbito do Projecto "ROM-SF" (Programa Sócrates), desenvolvido em parceria com os Ministérios da Educação da Suécia e Finlândia. Conscientes da multiplicidade de situações quotidianas, queremos apenas sugerir-lhe algumas abordagens possíveis, que não se esgotam aqui (…) o(a) professor(a) poderá seleccionar competências, organizar conteúdos e desenvolver o seu trabalho, segundo a concepção de estratégias/actividades diversificadas que criem condições para a transversalidade das aprendizagens, numa perspectiva de desenvolvimento integral do aluno e de uma efectiva educação para a cidadania.”
O documento, construído a partir duma recolha de discursos de ciganos, é composto por dez fichas – Eu, Cigano; A Família; A Escola; O Nomadismo; A Língua; a Venda; A Casa; As Tradições; Namoro e Casamento; e A Música.

Cada uma dessas fichas apresenta: ideias-chave, dois textos (depoimentos vivenciais), curiosidades, e sugestões de actividades. Nada mais. Não fiquei esclarecida se o documento é destinado a crianças ciganas e/ou não ciganas. Presumi, talvez erradamente, que seria para todas, mas que frequentem escolas onde existem crianças ciganas.

Não pude deixar de notar que os títulos e o conteúdo das fichas correspondem, em grande medida, ao estereótipo de “povo cigano”: parece ter-se conjugado pacificamente (mais uma vez) o que uns querem dizer e o que outros querem ouvir. Quando se labora no domínio do “estereótipo”, corre-se o risco de se ficar à superfície. Foi o que aconteceu.

Mas não devia ter acontecido, porque é função da escola escavar... conduzir os alunos, consoante as suas idades, para além do óbvio, daquilo que lhes é dado ver no (seu) quotidiano. Se na escola se convoca o conhecimento de um povo (noção difícil de apreender) e, mais concretamente, a sua identidade (noção ainda mais difícil de apreender), isso deve acontecer pelas melhores razões, não por complacência, não por tolerantismo. E muito menos para confirmar atitudes consideradas erradas à luz de valores universais, que, por serem universais, devem ser reconhecidos por toda a gente, não podendo a escola inibir-se de os assumir e de pugnar para que sejam adquiridos.

Não é essa a orientação veiculada no referido documento. Se não, vejamos, por exemplo a ficha Namoro e casamento. 
Um "Depoimento": "Pedi-me com o meu marido para casar com nove anos e ele foi logo viver para a nossa casa, pois os nossos pais fizeram uma sociedade. Ainda hoje o meu casamento tem fama. Comprámos muita comida e convidámos toda a gente. A festa foi na eira, com duas bandas de música a tocar. Foi muito bonito!
Como "Curiosidades": A cerimónia para conceder a mulher cigana em casamento chama-se pedimento; Muitos ciganos para antecipar a data do casamento fogem para longe da família chama-se fugimento; A festa de casamento dos ciganos pode durar muitos dias e são os homens que cozinham; Durante as festas de casamento as ciganas usam muitas roupas novas, às vezes feitas por costureiros famosos; Os ciganos não gostam muito de casamentos com os não ciganos; Para desfazer um casamento cigano é preciso reunir as respectivas famílias, para haver um acordo.
Como "Sugestão de actividades": Desenho sobre o tema "o casamento dos ciganos"; (...) Se tivessem de oganizar um casamento cigano o que fariam? Listar as várias fases e necessidades de organização do casamento cigano; Convite a um cigano para vir à turma falar sobre o namoro e o casamento."
Se o leitor reparou, "passa-se por cima" do aspecto mais crítico do depoimento que serve de mote à actividade "pedagógica": o casamento aos nove anos. São os direitos das crianças que se omitem e se desvirtuam com a mensagem de normalidade que passa e, mais, da alegria da festa e dos roupas novas, que se destacam.

Mas, quem tem a ousadia de tocar numa questão tão sensível como esta de questionar certas particularidades (ainda que menos edificantes) das ditas "culturas de minorias" (outra noção difícil de apreender)? Pouca gente, admitamo-lo. O presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens, Armando Leandro, no âmbito das suas funções, fê-lo.

Defendeu, neste mês que é preciso impor "limites ao relativismo cultural". Isto a propósito de o Ministério Público, com base na pertença a um “meio cultural”, ter dispensado uma aluna de 13 anos de frequentar a escola por ter engravidado. Disse Armando Leandro: "As crianças têm os mesmos direitos. Algumas situações [da cultura cigana] contrariam claramente o direito da criança” (In Público de 10 de Maio de 2012, página 12).

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LIVROS DA FEIRA

Minha crónica publicada hoje no jornal "Público":


Fui, como o primeiro-ministro, no último dia, à Feira do Livro de Lisboa. Encontrei por lá bons saldos, com descontos em alguns livros a passar os 50 por cento, o que mostra que as grandes reduções não se limitam apenas aos supermercados no 1.º de Maio. Voltei bem fornecido porque não há nada com um bom livro para nos proteger das agruras da crise. A gente entra nele e a crise fica cá fora. Se o leitor gosta, como eu, de saldos de livros, saiba que as barraquinhas da feira estão a ser mudadas de Lisboa para o Porto, onde ficarão de 31 de Maio a 17 de Junho.

Proponho aqui, como vem sendo hábito, uma selecção dos livros mais recentes saídos pela Primavera ou quase. A lei do preço fixo impede a venda deles a preços de saldo, mas a feira proporcionou-me um pequeno desconto, que pode também ser encontrado em muitas livrarias. A ordem é a alfabética do apelido do autor.

- Buescu, Jorge, Matemática em Portugal. Uma questão de Educação, Fundação Francisco Manuel dos Santos. O autor, matemático e divulgador da matemática, traça um panorama da história da matemática entre nós. Nunca fomos fortes em números nem grandes em ciência e isso aconteceu, acima de tudo, por défice de educação. A leitura deste livrinho talvez ajude a entender a crise nacional.

- Cavalcanti Filho, José Paulo, Fernando Pessoa. Uma quase auto-biografia, Porto Editora. O autor, advogado e ex-ministro brasileiro, é um apaixonado pela vida e obra do poeta da Mensagem, tendo reunido neste volume um manancial impressionante de informação, alguma dela nova. Uma leitura agradável que conduz à releitura de Pessoa e, portanto, a uma melhor compreensão de Portugal.

- Figueiredo, Lucas, A Última Pepita. Os portugueses e a corrida ao ouro do Brasil, Marcador. Outro autor brasileiro, neste caso um jornalista bastante premiado, conta a saga da exploração do ouro do Brasil, o ouro que permitiu erguer obras como a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra (a coroa cobrava o “quinto do ouro”, um imposto de 20 por cento). Para ler numa altura em que muitos portugueses olham de novo o Brasil como o Eldorado.

- Franco, José Eduardo e Calafate, Pedro (coordenadores), A Europa segundo Portugal. Ideias de Europa na cultura portuguesa século a século, Gradiva. Dois professores da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa reuniram um conjunto de ensaios, deles próprios e de colegas, sobre o modo como, ao longo da história, temos visto a Europa. Numa altura em que a nossa relação com o Velho Continente é ambivalente, o livro ajuda-nos a compreender o nosso lugar de sempre, tanto geográfico como cultural (eu não acredito em jangadas de pedra).

- Gleick, James, Informação. Uma história. Uma teoria. Um dilúvio, Temas e Debates e Círculo de Leitores. Um jornalista e dos melhores divulgadores de ciência norte americanos (autor de Caos, o seu primeiro livro, e biógrafo de Feynman e Newton) apresenta-nos uma história da informação, num tempo em que, como o subtítulo sugere, o mundo está inteiramente mergulhado nela. A ler para perceber o tsunami de bits que é o mundo global de hoje.

- Lehrer, Jonah, Imagine. De onde vem a criatividade. Lua de Papel. O autor, neurocientista, jornalista e divulgador de ciência, causou sensação com o seu primeiro livro Proust era um Neurocientista, recomendado entre outros por António Damásio. Na nova obra fala da origem de uma coisa preciosa que pode ser ouro em tempo de crise – a criatividade. Para saber quem somos e, mais do que isso, quem poderemos ser.

- Levi, Primo e Regge, Tullio, Diálogo. Sobre a ciência e os homens, Gradiva. Uma conversa entre um químico e escritor (o autor de Se isto é um homem, que conheceu os horrorres de Auschwitz, é químico de formação) e um físico. Os livros não se medem aos palmos e este pequeno livro ajuda-nos a perceber melhor não só o século XX como a relação, que é bem maior do que geralmente se imagina, entre a ciência e a arte.

- Mattoso, José, Levantar o Céu. Os labirintos da Sabedoria. Temas e Debates e Círculo de Leitores. Do grande historiador português especialista na Idade Média, um conjunto de textos sobre valores e espiritualidade que nos fazem reflectir. Por exemplo, este passo: “Dominamos a matéria, manipulamos as leis físicas, acumulamos o poder e o dinheiro, aperfeiçoamos a racionalidade, e todavia, o caminho que escolhemos parece conduzir directamente ao caos”.

Boas leituras! O leitor não faça como o primeiro-ministro, que, a avaliar por uma notícia do Público, não encontra agora tempo para ler livros.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Cursos Técnicos X Bobagens Académicas

“Acho que não se pode em nome do anti-fascismo criar um novo fascismo” (Sophia de Mello Breyner, 1919-2004).

Andando pela Net,  ou melhor nela gatinhando com a minha declarada e sempre confessada iliteracia informática, deparei-me com o blogue brasileiro, intitulado  “Boteco Escolar -Ensaios sobre uso de blogs em educação” e com o post, aí publicado,  “Cursos técnicos X bobagens académicas” (24/04/2012)”, que adoptei como título meu. Nele foi  transcrito integralmente o meu  post, O Deputado Paulo Rangel, Canudos e Desemprego” (22/04/2012),  com a seguinte introdução: 

Dias atrás, dois amigos me contaram as bobagens que certos acadêmicos andam fazendo com o ensino técnico no Brasil. A bobagem maior é a de oferecer muita teoria, esvaziando o conteúdo técnico dos cursos. Eu precisaria de mais informações para analisar com cuidado o que está acontecendo. Mas, acho que texto sobre o assunto, escrito em Portugal, no blog De Rerum Natura, oferece um bom quadro daquilo que meus amigos me contaram. A matéria é escrita pelo educador Rui Baptista e achei por bem reproduzí-la aqui”. 

Para evitar maçar o leitor que já tiver lido esse meu texto,  limito-me, agora, a fazer-lhe este  acrescento motivado pela supracitada introdução com mais estas informações que nos dizem que em Portugal e no Brasil más fadas há. Assim, toda esta “bobagem”, em saborosa expressão  brasileira, apresenta, para além disso,  contornos que a tornam, ainda bem mais criticável se for acrescentado que o antigo ensino técnico em Portugal está a ser ministrado hoje  “teoricamente” em escolas crismadas de  ensino secundário,  em substituição dos antigos liceus e respectivos professores que, a académica Clara Pinto Correia, em seu artigo “O render dos heróis” (“Diário de Notícias,” 22/10/1995), escreve  serem merecedores "que se lhes beije as fímbrias do manto”. E com esta crisma  a modos de um pobre que quer aparentar ser rico, mesmo sem ter onde cair morto, como soe dizer-se,  cometeu-se,  nunca é demais salientar, este verdadeiro crime em deixar  “enferrujar”  as oficinas  de carpintaria, serralharia, electricidade, mecânica automóvel, etc., onde os alunos, para além da necessária teoria,  adquiriam o necessário know-how  que as teias de aranha de longos e escandalosos anos de abandono tornaram incapazes de serem reutilizadas, talvez,  para exorcizar fantasmas de antes de  25 de Abril em pessoas com culpas no cartório.

 Em substituição de indivíduos com o 12.º ano do ensino secundário, e que por aí se quedem, incapazes, como tal, e por vezes, de escreverem uma simples frase gramaticalmente correcta ou de pregarem um simples prego sem martelarem os dedos, deixaram-se de formar reputados técnicos especializados, verdadeiros obreiros do desenvolvimento económico dos países que se desejam desenvolvidos, com a mania bem portuguesa do simples ensino teórico de papel e caneta  e do exigente canudo universitário, cada vez menos exigente (tirando as exigências que sobrecarregam magras bolsas familiares, enquanto os seus "rebentos" cabulam anos a fio),  como não se eximiu em criticar o académico e sociólogo António Barreto, por se querer, com a mania das grandezas, “transmitir à população a ideia de que o acesso à universidade é um direito de todos, tal como a protecção na doença e na velhice”.

Ora, acontece que a Constituição Portuguesa ao estabelecer o direito à Educação dá igual tratamento ao Desporto.  Mas daí considerar-se que todos os praticantes domingueiros de futebol,  em jogos entre solteiros e casados seguidos de um lauto e bem regado almoço, têm o direito de jogarem nos melhores clubes da Primeira Liga é dislate igual. E será democrático, em nome de um falso direito de igualdade, violentar a vocação de um jovem que se poderia tornar num operário especializado bem remunerado para o transformar num medíocre doutor, ou ignorante engenheiro, na esperança  de vir a pertencer  à parceria política de que nos fala Eça, sempre  actual e merecedor da nossa atenção, embora com esta exigência: ”Mas, para entrar na ‘parceria política’ [ ainda segundo Eça, que governa a herdade chamada Portugal] o cidadão português precisa de uma habilitação – ser deputado”. Ou seja,  ontem como hoje!

A universidade dos porcos

Para contrabalançar o discurso de Manuel Nunes, eis, via Dúvida Metódica, uma maneira de olhar para o ensino sem preconceitos elitistas e sem devaneios de altura.




É curioso como os seres humanos denunciam o seu passado nas árvores ao associar o estar acima -- na árvore, entenda-se -- com ser melhor, e o estar abaixo como ser pior.

Mais curioso ainda é que se os portugueses estivessem à espera das elites cultas para acabar com a vergonha da ditadura de Marcelo Caetano, ainda hoje estávamos à espera que a primavera árabe nos chegasse. Quem nos livrou daquelas superlativas elites cultas foi o povo de Lisboa e os soldados e capitães de Abril, e não os professores -- que na altura, recorde-se, tinham muitíssimo mais prestígio social do que têm hoje, porque eram menos e eram muitíssimo privilegiados, comparando com o resto da população, e é isso que faz tantos professores chorar hoje de raiva por um passado que não volta mais. O pior de Portugal sempre foram precisamente as elites: cheias de pretensão e de discursos supostamente elevados, são de uma boçalidade impressionante.

Acresce que em nenhuma profissão se pode estar à espera que todos sejam muitíssimo dedicados e em absoluto comprometidos com ela; isso não acontece em profissão alguma, e nunca acontecerá. O que precisamos de ter em qualquer profissão, seja ela o ensino ou a apanha do lixo, é profissionalismo: competência.

E não é também curioso que o elogio da importância superlativa de uma dada profissão seja feito por quem tem essa profissão? Além disso, que contributos reais deu tal pessoa à sua profissão, além de um discurso empolgado e pretensioso? Publicou livros para jovens estudantes? Para professores? Fez sites de apoio? Dá-se ao trabalho de ensinar e ajudar os que nem seus alunos são? Esse é o trabalho básico -- de porco -- que precisamos. E é porque nunca o tivémos, apesar de sempre termos tido, ao longo da história, discursos empolgados e elitistas, que somos um dos países mais incultos da Europa.

A Professora, os Porcos e os Cisnes. O pântano da educação em Portugal.



Excerto, em pré-publicação, de um livro que está por estes dias a sair na Gradiva   "A Professora, os Porcos e os Cisnes. O pântano da educação em Portugal" de Manuel Nunes:

“A essência do professor, o ser professor, situa-se num plano tão elevado de dignidade, que transcende infinitamente qualquer pessoa que tente concretizar essa essência — era mais ou menos assim que tu dizias, não era, meu mestre?

Eu, professora, sou infinitamente mais do que a pessoa que eu sou. Eu, professora, sou, sobretudo, aquilo que eu represento. E aquilo que eu represento reveste-se de uma dignidade de tal elevação e de tal transcendência, que exige de mim uma nobreza de carácter que, por si mesma, se tem de constituir como referência moral para os outros.

Já não sei bem onde é que li isto, mas quem quer que o tenha escrito viu muito bem o segredo do ofício do professor na sociedade:

— Os professores são as colunas que sustentam o edifício social. Se estas colunas ruírem, todo o edifício se desmoronará irremediavelmente!

É isto mesmo: os professores são as colunas interiores do edifício. Porque são interiores, quase ninguém se dá conta da sua existência. As pessoas olham para as partes exteriores do edifício (Olhem, que linda fachada!... Olhem, que paredes robustas!... Olhem, que belas janelas!... Olhem!...), mas esquecem que toda aquela beleza exterior existe porque há, por dentro e por baixo, colunas e alicerces a servirem-lhe de suporte...

Mas as pessoas não vêem isto. Não vêem nem querem ver. E muitas daquelas que deviam ver e que deviam ajudar as outras a ver estão, infelizmente, na primeira fila da multidão que despreza as colunas do edifício. Neste país, o vulgo, que se tem vindo a empanturrar da ignorância cozinhada e servida nas tascas rascas da mesquinhez e da malvadez, tem sido assanhado pelo rancor de alguns políticos, jornalistas e outros fazedores da opinião públicacontra os professores!... O rancor cega-os a tal ponto que nem sequer conseguem ver esta evidência: que eles estão onde estão, na escala do edifício social, porque houve professores a prepará-los para chegarem aonde chegaram! Sem os professores, desde os do primeiro ciclo (e anteriores aos do primeiro ciclo) até aos universitários e pós-universitários, eles nunca teriam chegado ao ponto a partir do qual hoje, inchados de arrogância boçal, se julgam no direito de desprezar aqueles a quem precisamente mais devem!

— Porcos! Porcalhões!

Porcos e porcalhões, sim, porque, focinhando no estrume onde chafurda o vulgo, dão a entender ao vulgo, que se refastela de gáudio em grunhidos de fealdade torpe e atroz, que o professor não é, em si mesmo, digno de respeito, dando assim azo a que a vulgaridade social o considere um vulgar qualquer!...

E o problema é que há professores que são mesmo vulgares, porcos entre os porcos, alguns deles porcos de qualidade inferior! Estes estão a mais. Estes não são dignos de ostentar o título de professor. Porque só tem o direito de ser professor quem, tendo aprendido e continuando a estar disponível para aprender a viver e a respirar nas atmosferas leves e belas do alto, está em condições de assumir a tremenda responsabilidade de atrair para o alto os que subvivem e respiram nas atmosferas pesadas e insalubres dos pântanos baixos.

Como tu dirias, meu mestre, só tem o direito de ser professor quem está em condições de assumir a tremenda responsabilidade de ajudar os porcos a transfigurarem-se em cisnes.

É por isso que eu lamento dolorosamente o facto de, naquela aula, me ter deixado cair no lodo da vulgaridade suína.”

Manuel Nunes

CAOS - A CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA CIÊNCIA


Agora que saiu um novo livro do autor de "Caos" James Gleick, com o título de "Informação" (Temas e Debates e Círculo de Leitores), recupero aqui a minha recensão de "Caos" que foi publicada no Expresso, em 1990, quando saiu a tradução portuguesa (Gradiva, 1989)



No princípio era o caos. Hesíodo, na Teogonia, celebrou o Caos, o Caos que está na base da mitologia grega das origens. Haydn abriu a sua oratória A Criação com a «apresentação do caos», o caos bíblico. Kant falou de caos na Teoria Geral do Céu, que foi a primeira tentativa de explicação científica do início do mundo. Depois do caos veio a ordem, a ordem fria e rígida que os newtonianos quiseram impor à organização do mundo. Mas hoje alguns compositores dedicam-se à música fractal, e os astrónomos concluem que o sistema solar é, afinal, imprevisível. Os livros de ciência aparecem ornamentados com as cores do caos. Eis, portanto, o caos de novo entre nós.

Agora que o século aceleradamente se extingue, corre por aí o caos como moda científica. Nos anos 60, os «mágicos» Pauwels e Bergier diziam que tudo era possível. Nos anos 70, ganhou-se algum juízo e respeitou-se alguma ordem. Nos anos 80, com a proliferação do computador e das artes da simulação, tudo voltou a ser possível. Surgiu o caos , a «ciência do imprevisível» (se acaso esta designação faz algum sentido). Os utopistas franceses e os «hippies» norte-americanos deram lugar a um Mandelbrot, que inventou conjuntos caleidoscópicos e vertiginosos, e a um Feigenbaum, que inaugurou uma nova disciplina -- os sistemas não lineares -- e vislumbrou uma visão diferente do mundo. Quem diria que a electrónica iria atingir de raspão a estética e apanhar em cheio a epistemologia? A aparição do caos foi, ela própria, imprevisível, tão imprevisível como vai ser, afinal, a sua influência nos anos 90 na rearticulação dos vários saberes.

O caos é seguramente uma palavra com uma forte carga sociológica. Nisso é semelhante à quase defunta «teoria das catástrofes», embora apresente a vantagem da restrição a quatro letras. Não existe, portanto, título mais apetecível para um livro de divulgação científica do que Caos, mas desiludam-se os potenciais autores que aspirem ao «copyright». O livro já existe e está entre nós.

Caos, com subtítulo "A construção de uma nova ciência", é um livro invulgar. O autor, James Gleick, não é «maître de recherches» no CNRS, nem astrónomo em Cornell. Não escreve prosa de divulgação nas horas feriadas que o telescópio lhe deixa. Também não é sucessor de Newton nem anda de cadeira de rodas. É jornalista e repórter de ciência: armou-se de bloconotas e gravador e foi ouvir Mandelbrot, Feigenbaum e mais de uma dúzia de outros profetas do caos, de pregadores de «uma nova visão do mundo». Não faz a reportagem do infinitamente grande nem do infinitamente pequeno, mas do infinitamente variado. Caos é um daqueles livros que não se escrevem em meia-dúzia de dias nem se publicam todas as meias-dúzias de meses. Trata-se de uma reportagem da ciência em acção, escrita por um observador curioso, arguto e entusiasmado. Arrisco-me a prever que ficará, daqui por uns anos, como um documento de algum modo único sobre um dos triunfos ou uma das ilusões da ciência deste fim do século.

Embora esteja por concluir a discussão sobre se existe mesmo uma disciplina nova sobre o título de «caos», está provado que o caos veio renovar muitas disciplinas. Não há a certeza que existam conceitos decisivamente novos -- abalos tão demolidores como a relatividade ou os quanta --, mas existem perspectivas de diálogo e cruzamento entre investigadores de vários credos. O caos apresenta a distinta vantagem de estabelecer plataformas horizontais, e de fazer crescer para o lado as ciências habituadas a crescer só para cima.

Porque o caos pertence, afinal, a todos. Aos matemáticos, que se esforçam por domar selvagens equações diferenciais com as suas redes de teoremas e corolários (alguns deles desconfiam um pouco do jornalista que lá foi ao gabinete, mas se esqueceu de levar as equações no gravador); aos físicos e químicos, que oscilam, um pouco erraticamente, entre os «atractores estranhos», que são a termodinâmica do não equilíbrio do belga Prigogine, ou a sinergética do alemão federal Haken (ainda se está para ver quem é o «Grande Atractor», que consiga arrastar os maiores fluxos); finalmente, aos biólogos, que se preparam para tomar de assalto a ciência do próximo século (e fazem bem, uma vez que há físicos, como Hawking, pretensiosos ao ponto de quererem dar por encerrada a Física). Os cientistas da vida têm também jus à sua fatia de caos: os modelos de selecção baseiam-se em sistemas não lineares e conduzem, por isso, a resuItados surpreendemente variados.

O caos que nos é oferecido no mercado da divulgação apresenta uma forte componente estética. A embalagem é, sem dúvida, atraente, quer o conteúdo seja ou não novidade. As imagens fabricadas por regras simples num computador constituem um «trompe l'oeil» labiríntico do qual dificilmente se escapa. Os fractais, figuras criadas pelo matemático francês Mandelbrot, exibem, por um lado, formas fantasiosamente recortadas que provocam a imaginação e, por outro, auto-semelhanças «ad infinitum» que causam frémitos mentais como os obtidos com as auto-referências em lógica. O poder de atracção do caos reside precisamente na infinita variabilidade dentro de uma certa permanência estrita: o gótico está contido na camisa de forças de um algoritmo. Nem a Matemática é a desolação que se suspeitava nem o plano dos números complexos o deserto que se receava. Os jovens «hackers» pintam esse deserto com a ajuda do «Basic» ou do "Pascal".

Mas o que vem a ser, dentro da embalagem, o caos? A palavra é um bom telhado para um edifício com muitas divisões e com ainda mais portas e janelas. O edifício também se chama «fenómenos não lineares». Num processo físico ou químico não linear, o inesperado pode acontecer e o melhor ainda é esperar tudo ou não esperar absolutamente nada. Sistemas desse tipo são altamente sensíveis às condições iniciais. Pequenas diferenças no começo podem ter efeitos desmesurados no final. Uma borboleta que abane inocentemente as asas numa crista de altas pressões pode provocar uma chuvada daí a dias num sítio distante. Esses sistemas não são apenas comuns em Física e Química: aparecem em Meteorologia (e daí o supremo direito de o meteorologista falhar), em Fisiologia (a paragem cardíaca pode ser uma manifestação de caos e daí o supremo direito de o método falhar), e até na Geoestratégia (foram já propostos e publicados na insuspeita Nature modelos não lineares de corridas ao armamento, e daí que o supremo direito de o general, também ele, falhar).

Por que é que o caos demorou tanto a surgir em cena? Faltava-lhe o seu instrumento essencial -- o computador -- , que está para o caos como o telescópio está para o macrocosmos e o acelerador de partículas para o microcosmos. Foi com a ajuda de um computador primitivo que E. Lorentz entreviu, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), o caos do tempo meteorológico e foi por meio de uma calculadora de bolso que Feigenbaum descobriu, em Los Alamos, a ordem subjacente a um processo de iteração simples. O caos é a ciência da época porque o computador é o instrumento da época. O computador permite efectuar simulações, realizar jogos de faz-de-conta tão perfeitos que a imitação se chega a transformar na coisa imitada. O paradoxal é que as imagens de caos, instantâneos de uma natureza irregular e caprichosa, são captadas com o mais mecânico dos instrumentos o computador digital.

Terá o caos implicações filosóficas? Parece que sim. Já ninguém sustenta o determinismo ingenuamente optimista do Século das Luzes. «Sire, não tenho necessidade dessa hipótese!», ripostou outrora Laplace, autoritário, a um Napoleão que lhe perguntou onde aparecia Deus no Tratado de Mecânica Celeste. Hoje sabe-se que o sistema solar, o santo dos santos dos deterministas, não é previsível de todo. Ninguém garante a sua estabilidade a longo prazo. Convém lembrar que a mecânica de Newton serviu de base a doutrinas económicas, socials e filosóficas. Vivemos hoje tempos de insegurança colectiva e o determinismo já não tem a mesma utilidade que antes (veja-se, por exemplo, a sucessão de acontecimentos a Leste, o buraco de ozono que abre e fecha, etc.). Em alturas de crise, é confortável um telhado científico, e a «universalidade» de alguns comportamentos quase caóticos ‚ uma esperança de ordem escondida no vasto e enrodilhado novelo de todas as possibilidades. Que há a fazer se se desconhece o que vai acontecer a seguir, se não se sabe quem é amanhã o Presidente da Bulgária ou se os pinguins resistem à radiação ultravioleta? O mundo, este mundo, é irremediavelmente imprevisível. Talvez existam, porém, certas regularidades bem disfarçadas. Os físicos não renunciam de todo à ordem porque a lei e a ordem são a sua profissão. Para já, e quanto mais não seja, prenuncia-se uma nova ordem das ciências. A Biologia, por exemplo, aproxima-se da Física antes de eventualmente lhe suceder: realizam-se simpósios sobre vida artificial, onde aparecem jardins botânicos inteiramenle digitais e autómatos celulares que mimam ecossistemas reais. Os físicos olham para as copas das árvores e para a forma das nuvens com um outro olhar. Alguns é mesmo a primeira vez que observam um feto arbóreo ou um cirro-cúmulo. Emerge «uma nova visão do mundo». Ou, talvez melhor: uma nova mundovisão.

James Gleick, conhecido publicista do New York Times (Gleick está agora a preparar uma biografia de Feynman que, antes de concluída, já está esgotada), escreveu um livro que subiu rapidamente as escadas dos «best-sellers». O Caos conseguiu evidenciar que os assim chamados leigos podem e devem ouvir e contar ciência, naquilo que ela tem de pequena comédia (como a surpresa da descoberta do meteorologista Lorentz) e de pequeno drama (as incompreensões sofridas por Feigenbaum). Trata-se da primeira grande obra de um jornalista de ciência, essa nova profissão que as modernas mudanças sociais e culturais tornaram necessária. Gleick apresentou, em pinceladas sugestivas, as personagens e construíu com elas um enredo feito de pequenas vitórias e pequenos fracassos. Contou uma história, contando histórias. A sua tese central de que há uma nova ciência é porém, demasiado forte e -- como costuma acontecer às teses demasiado fortes -- passível de ser rebatida. É uma discussão em aberto, que tem as suas sedes próprias. Não obstante essa discussão, os matemáticos recomendaram o livro, os físicos enlearam-se interessadíssimos na sua leitura, os biólogos deram saltos quando perceberam que aquilo também lhes dizia respeito. O leitor sente-se numa página matemático, noutra físico e noutra ainda biólogo. Porque está ali perto deles.

Uma palavra para a edição portuguesa. Foi relativamente rápida: o «book» foi publicado nos Estados Unidos pela Viking Penguin, em 1987, e um dia antes do Natal de 1989 já circulava em português. Em Portugal já se conseguem traduzir e editar livros de ciência com uma brevidade comparável à de outros países. A colecção «Ciência Aberta» da Gradiva é uma boa colecção do género. Seria boa em qualquer outro sítio do cosmos. Portugal está hoje em dia perto das «modas científicas», o que tem manifestas conveniências. Não há nenhuma razão para os «media» se alimentarem e nos alimentarem apenas de todas as outras modas. Ainda faltam obras de autores nacionais no panorama da nossa divu1gação científica, à semelhança do que se passa nos países de sólida cultura científica, mas lá se chegará um dia. Para haver estilistas originais, é preciso, salvo seja, que haja muitas passagens de modelos importados.

A tradução foi talvez rápida de mais: a expressão «em termos de» aparece vezes sem conta (é curioso que essa expressão se vulgarizou a partir, decerto, dos locutores televisivos). Os adjectivos esquecem-se de ir para o seu lugar normal em português. É o fenómeno da anglicização da língua, de que há prenúncios evidentes em várias literaturas técnicocientífica disponível entre nós.

O prefácio, do «caologista» Jorge Buescu, abre honestamente o livro; falta porém inexplicavelmente, no fim da edição, o índice de assuntos presente no original. As imagens do caos estão decentemente reproduzidas, conseguindo atrair e prender. Aí está o livro para os (oxalá muitos!) leitores. Leitor, cumpra pois a sua obrigação de leitor e leia.

No início era o caos. Não se sabe como vai ser o fim do caos. São precisas mais algumas iterações para se ver. Que o computador é útil, está confirmado. Que as imagens do caos suscitam emoções e adesões, ninguém duvida. Que as regularidades matemáticas na transição da ordem para o caos se realizam na natureza, é um facto experimental indesmentível (pode-se verificar até com o gotejar de uma torneira!). No entanto, se o caos constitui um novo paradigma, no sentido de Kuhn, ou um epifenómeno de fim de século, num sentido qualquer, está ainda por averiguar. A evolução das ideias científicas, a substituição do velho pelo novo, é não linear e por isso imprevisível.

Muitas vezes quando se anuncia o novo -- e, a propósito do caos, Gleick toca as trombetas da revolução científica -- há tendência para esquecer o velho. A continuidade é, contudo, essencial a qualquer ruptura. Uma nova ciência deve ser a continuação da velha por outros meios. Por exemplo, foi Poincaré‚ embora sem dispor de um rato de computador para explorar os céus e resolver o famoso problema dos três corpos, quem lançou, no início do século, as raízes do moderno caos. Referiu-se atrás o diálogo entre Napoleão e Laplace. A seguinte história de um outro imperador e de um outro astrónomo é, a respeito do novo e do velho, exemplar. Frederico Guilherme IV da Prússia foi um dia visitar o Observatório Astronómico de Bonn. Cumprimentou nessa ocasião Argelander, o prestigioso astrónomo da corte, e perguntou-lhe um tanto displicentemente: «Então, o que há de novo nos céus?». Resposta do velho sábio: «Será que Vossa Majestade já conhece o que há de velho?».

- J. Gleik, "O Caos - A Construção de uma Nova Ciência", Gradiva, 1989 (prefácio e revisão científica de Jorge Buescu; tradução de José Carlos Fernandes e Luís Carvalho Rodrigues).

Na figura: "Misterioso, Ousa" de Carlos Calvet (1978), Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Prêmio John W. Kluge 2012


O Trabalho de Migrar – A Migração Espectacular do Beija-flor.


Crónica, na sequência de outra, as duas publicadas primeiro na imprensa regional.

Esquecemos muitas vezes o que nos parece óbvio!

Algumas coisas são tão próprias da nossa natureza, tão habituais e regulares, que não despendemos esforço para reparar nelas.

Todos os anos esperamos e achamos natural que muitas espécies de aves, como as andorinhas e outras pequenas aves como os beija-flores, ou colibris, regressem no início da estação da primavera.

A sua chegada, alegra-nos como prenúncio de um novo tempo de fertilidade, promessas de nova abundância de alimentos, de um clima mais ameno e contrário às agruras das estações frias. Mas de quão longe vêm essas aves que enchem o espaço com anúncios primaveris? Antes de continuar, façamos uma pausa, voltemos ao princípio.

No princípio esquecemo-nos de constatar o óbvio: antes de a vida desabrochar no planeta Terra já havia “tempo”, já havia “espaço”. A evolução da vida no planeta Terra efectuou-se sobre a matriz “física” do “tempo” e do “espaço”. E estes ficaram substantivos, elementos íntimos da vida. Ficaram incorporados nas características e propriedades do que é vivo num determinado período de tempo. Durante esse período de tempo, o ser vivo explorou e migrou num determinado espaço. Como as condições mais apropriadas “à sua vida” variavam no espaço e com o tempo, sobreviveram os grupos de indivíduos que melhor se adaptaram à variação frequente, cíclica, de determinados factores físicos e químicos, também eles variáveis no tempo e no espaço.

Assim, as migrações cíclicas ajustadas às estações climáticas são uma das características da vida neste planeta. Em todas as migrações dos seres vivos é possível encontrar algo de surpreendente que nos maravilha. O exemplo da migração das pequenas aves conhecidas por “beija-flores” (família Trochilidae) é um dos que surpreende pelo grande contraste entre o seu tamanho de poucos centímetros, alguns gramas de peso, e os milhares de quilómetros da sua migração sazonal à procura de flores e primavera.

Algumas espécies de beija-flores efectuam voos de cerca de 2400 km, sem nunca parar e sempre sobre o mar, para regressar às zonas em que a estação primaveril vai despontar. Para isso, estas pequenas aves mantêm uma velocidade de cerca de 40 km/h, durante cerca de 60 horas! Para “aguentar” a migração, estas aves alteram o seu metabolismo de reservas energéticas e armazenam uma significativa quantidade de gorduras na forma de ácidos gordos e cetonas, aumentando cerca de 10 vezes de peso e o dobro do tamanho! Uma transposição para o ser humano significaria um aumento de peso de cerca de 10 kg por dia, durante a preparação para o início da migração!

Um dos aspectos muito curiosos da bioenergética associada a esta migração é o de que água é produzida como um dos produtos da oxidação das gorduras (combustível) durante o voo. As pequenas aves não passam sede, nem fome, nem precisam de recorrer às proteínas dos seus necessários músculos para chegar ao seu destino.

No final da migração, o beija-flor consumiu cerca de dois terços da gordura armazenada, e ainda lhe “sobram” reservas de energia para alguma eventualidade, algum atraso na primavera, algum contra tempo do clima.

(contínua)

António Piedade

As 5 Ondas da Dominação Mundial pela China Moderna





A PRIMEIRA ONDA iniciou-se há uns 30 anos, sendo o resultado nas alterações internas de poder dentro do Partido Comunista Chinês.  A missão dos comunistas pós-Mao era transformar uma China essencialmente agrícola e de subsistência numa potência industrial mundial. Preservando o sistema de governo, o plano deveria obter para a China algo que não tinham, a tecnologia, em troca de algo que tinham em grande abundância, a mão-de-obra.


Foi quando começou por lá um insipiente processo de industrialização, com a manufatura de cópias de produtos simples e a venda destas cópias ruins a preços baixos ao redor do mundo. Aqui, no Brasil, estas quinquilharias chinesas aportaram basicamente por contrabando, via Foz do Iguaçu, nas décadas de 80 e 90 e eram uma febre entre os camelôs.  Produto chinês era então sinônimo de “porcaria”. Isto, porém, era só um treinamento para o que viria depois.  A primeira onda era um plano piloto de preparação para as demais ondas.

Na SEGUNDA ONDA, já dominando os rudimentos de uma estrutura industrial, os chineses então abriram o seu território para receber indústrias que quisessem se beneficiar de sua mão-de-obra semi-escrava e muito barata. A única exigência feita foi a entrega obrigatória ao governo chinês da tecnologia (know-how) que fosse empregada nas indústrias que quisessem se instalar em solo chinês. Ninguém se importou com isso e a tecnologia foi toda entregue.  Não era crível que os chineses fossem saber fazer algum uso daquele conhecimento. O que importava aos industriais ocidentais, enfim, era calcular os lucros que iriam receber sugando a energia da mão de obra barata dos trabalhadores chineses, ainda mais num país em que não há, praticamente, legislação laboral com maiores restrições ao limitações ao empregador.

A TERCEIRA ONDA é a que está em andamento hoje. Envolve a criação de indústrias totalmente chinesas, que manufaturam os mesmos produtos das empresas estrangeiras que se instalaram na China.  Neste estágio, os produtos feitos 100% por chineses passam a concorrer diretamente com seus similares nos locais de mercado mundial destes produtos.  Como o processo de absorção de tecnologia é gradual, os chineses começaram a vencer os concorrentes através de preço baixos e da qualidade, cada vez maior, dos produtos.  É aqui  que os pólos industriais dos países estrangeiros começam a entrar em declínio, pois não conseguem concorrer com os produtos chineses.

Aqui no Brasil, são exemplos típicos a destruição e desmonte dos pólos calçadistas do RS e de SP, assim como os pólos cerâmico e têxtil de SC.

Os industriais estrangeiros com fábricas na China, após lucrarem bastante, ainda possuem um trunfo: a propriedade das marcas mundiais.  Eles não mais se ocupam com o processo produtivo, em si:  os chineses fazem tudo e colocam as marcas deles nos produtos que são distribuídos ao redor do mundo.  Melhor exemplo de produto com estas características:  os tênis da marca Nike.

Na QUARTA ONDA, que já se inicia, a China começa a dar o “golpe de misericórdia” nos mercados, para desequilibrar e tornar-se dona de todos os parques produtivos mundiais.
Neste estágio, é quando passam a ser criadas as marcas chinesas, as quais são lançadas nos mercados, associadas a produtos agora mais complexos e sofisticados, de alta qualidade e a preços em média 30% mais baixos do que os similares da concorrência.  Exemplo recente no Brasil: automóveis chineses da JAC Motors.

Este percentual a menor nos preços é meticulosamente calculado, pois esta é a margem média de ganhos dos ocidentais na cadeia de todo o processo industrial até a colocação do produto na loja.  Os pólos industriais concorrentes passam então a vivenciar o dilema de escolher entre produzir seus produtos sem lucratividade ou fecharem as portas.  Evidente, eles têm fechado as portas, pois o sistema capitalista, como o nome já diz, vive do lucro.

A partir do implante desta política em cada segmento, são necessários entre 10 e 15 anos para que a China se torne detentora de 100% de cada pólo industrial, em cada tipo de produto.  Exemplo disso, no Brasil, é que há determinados produtos hoje em que todas as marcas disponíveis no mercado são chinesas.  É a China concorrendo com a própria China, um verdadeiro atentado à lógica ocidental sobre os mercados, quando se sabe que todas as fábricas chinesas possuem um mesmo dono, o Partido Comunista Chinês.

A QUINTA ONDA será aquela em que a China se tornará o único país a produzir os bens de consumo que abastecerão todos os mercados globais. Produtos que terão o selo de marcas chinesas e este selo se afirmará como uma garantia de qualidade e de procedência confiável. Nesta última onda, o valor das benchmarks globais hoje tão consagradas despencará e o processo de dominação chinesa estará quase completo.

No último ato destas 5 ondas, o governo da China passará a utilizar-se de um novo discurso sócio-econômico.  Dirá ao mundo que, durante décadas, os países ocidentais capitalistas e suas populações se aproveitaram e exploraram o povo trabalhador chinês. E que ninguém se importou com o sofrimento dos trabalhadores chineses, com as jornadas de trabalho longas e sem descanso, com os baixos salários e com o fato de adolescentes, quando não crianças, serem obrigados a trabalhar duro em fábricas não raro insalubres e inseguras. E que tudo isso ocorreu, sob os olhos de todos, porque os ocidentais só quiseram obter altos lucros e as populações de seus países só se preocuparam em adquirir bens de consumo a preços baratos, para o seu proveito e conforto próprios.

E que, assim sendo, terá chegado então o momento histórico do mundo ocidental passar a trabalhar, a seu turno, para os lucros das indústrias chineses e para o conforto e bem-estar do povo chinês.  Que é chegado o momento da população chinesa ser dispensada de sofrer e de submeter-se a condições degradantes de trabalho.

Esta será a senha. Detendo o controle de todos os parques produtivos mundiais sobre todos os bens de consumo do planeta, sendo detentores das marcas e de todo o processo de distribuição destes produtos, os chineses não terão concorrentes. Desta forma, estarão livres para elevar os preços de todos os produtos de consumo o quanto quiserem.  Isto irá gerar, num primeiro momento, uma enorme transferência da riqueza econômica para a China, ao mesmo tempo em que empobrecerá, dramaticamente, as economias mundiais de todo o mundo ocidental capitalista. Nos países ocidentais, a recessão e o desemprego atingirão níveis sem precedentes, em escala três vezes superior aos níveis que se abatem hoje nos EUA e na Europa.

Este cenário será perfeito para a instalação de fábricas chinesas em todo o mundo capitalista. A mão-de-obra ocidental será necessariamente barata e as condições de trabalho oferecidas serão muito precárias, em muitos casos idênticas aos padrões sub-humanos que ainda hoje são impostos aos trabalhadores chineses. Evidentemente, além dos salários baixos, serão ainda implantados padrões típicos de produção do sistema comunista de trabalho nas fábricas chinesas montadas em territórios ocidentais. Patrimônios imobiliários em larga escala serão adquiridos pelo governo da China, já que seus cidadãos não terão permissão para adquirir propriedades individualmente, enquanto cidadãos chineses.

Em países ocidentais onde a legislação laboral não for atenuada para adaptar-se à nova realidade as fábricas chinesas não se instalarão.  Nestes países, o quadro recessivo e de dificuldades econômicas será ainda bem mais dramático, beirando aos caos.

Com estas 5 ondas, o maior país comunista do planeta, a China se tornará também o país mais rico (talvez, o único país rico) e alcançará a dominação política e econômica mundial.  A moeda planetária passará a ser o iene e o idioma padrão no mundo será o mandarim.

Quando esta época chegar, não passarão de lamentos hipócritas as críticas direcionadas à China pelos economistas e analistas econômicos ocidentais, já então desempregados, os mesmos neoliberais papas-de-mercado de hoje, que não se cansam de  supervalorizar o lucro como bem supremo, em nome do qual tudo se justifica.  E todos nós, ocidentais, assim como nossos filhos e netos, trabalharemos para sustentar o life style do povo chinês e ratificar o poder do Partido Comunista Chinês.

Os dirigentes chineses, é claro, não perderão a oportunidade de se vangloriar.  Afirmarão, com convicção, sem ninguém que os possa contrariar, que o comunismo, ao final das contas, mostrou-se o mais efetivo e mais inteligente regime político já criado pelo homem. Dirão que a liberdade, tão apregoada como valor máximo pelas civilizações ocidentais capitalistas, nunca passou de uma ilusão, de uma ferramenta de dominação utilizada pelos mais fortes e egoístas, na exploração, sem piedade, dos mais fracos, mesmo os seus compatriotas.  Dirão que o sistema capitalista ocidental é desumano e iníquo ao concentrar a riqueza nas mãos de poucos.

Caso chegarmos a este dia (o que espero que nunca ocorra), o pior de tudo será nos darmos conta, nos cinco minutos de intervalo durante as jornadas de trabalho de 14 horas diárias que enfrentaremos nas fábricas chinesas, que o Partido Comunista Chinês terá toda a razão. 
Texto: Rogério Guimarães Oliveira,  advogado militante  em Porto Alegre/RS

Um périplo instrutivo que contraria o abandono do ensino das humanidades na sociedade actual

A terminar a nota à recente vitória de Portugal no Certamen Horatianum (aqui, aqui e aqui), fizemos uma entrevista ao professor Jorge Moranguinho.

Muito objectivamente, qual é a situação do ensino das Clássicas no nosso país? Quantas escolas têm a opção? Quantos professores estão ligados a ela? Quantos alunos estão a aprender?

Por (in)consciência ou incompetência do Ministério da Educação, tem-se literalmente assistido a uma progressiva abolição das línguas clássicas no ensino secundário. São poucas as escolas que, hoje, incluem, na sua oferta formativa, o ensino do Latim e do Grego, ora por falta de alunos inscritos nessas disciplinas, ora por falta de professores com habilitações próprias para as lecionarem ou, o que também é verdade, que a tal se atrevam. O decréscimo de alunos que, por via de regra, todos os anos, se verifica na realização do exame nacional de Latim A é, muito provavelmente, a crónica de uma morte anunciada.
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Porque é que os alunos não têm Clássicas? 

De entre razões de vária ordem que levam os alunos a não ter as disciplinas de Latim e Grego no ensino secundário, destaco as seguintes: a maior certeza de um bom emprego através dos Cursos de Ciências e Tecnologias e de Ciências Socioeconómicas em detrimento dos Cursos de Línguas e Humanidades e de Artes Visuais; a ausência de ações de sensibilização durante o 9.º ano de escolaridade; a deficiente informação, muitas vezes prestada aos alunos, quando do ato de matrícula no 10.º ano de escolaridade; o facto de o Latim e o Grego serem disciplinas trabalhosas, que exigem estudo, se não diário, pelo menos regular.

Como vê o futuro das Clássicas entre nós?

Se nada for feito para alterar a grave situação em que se encontra o ensino das línguas clássicas, é com muita apreensão e ceticismo que vejo o seu futuro, não demorando muitos mais anos a que assistamos ao seu completo desaparecimento dos nossos currículos.

O que poderia ser feito para que as Clássicas chegassem a muitos mais alunos?

Sou de opinião de que o latim deveria ser uma língua obrigatória, desde o 7.º ao 12.º ano de escolaridade, com um programa que privilegiasse os conteúdos de funcionamento da língua no terceiro ciclo do ensino básico e de literatura no ensino secundário, abrangendo os conteúdos de civilização e cultura os dois níveis de ensino. Muito sinceramente, não vejo outra forma de compensar o latim do mal que lhe têm feito.

Incidindo no concurso, em que saiu vencedor com o aluno António Gil Cucu, ao comparar Portugal com outros países participantes, o que se lhe oferece dizer?

A participação de Portugal no Certamen Horatianum ou em concursos semelhantes permite-nos tomar consciência de realidades culturais e educativas completamente distintas da nossa, especialmente no que ao ensino do latim (e do grego) diz respeito. Em conversa com outros professores, facilmente nos damos conta da importância atribuída à disciplina de Latim nos diversos países europeus. Os estudantes estrangeiros, de facto, apresentam-se a concurso, no mínimo, com quatro anos de aprendizagem, o dobro dos de um estudante português. Sendo enormes as desvantagens em termos competitivos, o feito notável, alcançado pelo António, deveria pesar na consciência de quem tão mal tem tratado o latim. O primeiro lugar, atribuído a Portugal, premeia horas de estudo aturado que o António dedicou à sua preparação para o concurso, mas nunca poderá traduzir a valorização da disciplina de Latim na matriz dos cursos científico-humanísticos, porque, até aí, há muito, a tutela se encarregou de a ignorar.

Como conseguiu ensinar de modo tão eficaz que permitiu ao António ganhar?

O primeiro prémio foi tão surpreendente para o António quanto para mim, como seria para quaisquer alunos e professores portugueses, pelas razões anteriormente aduzidas. Não utilizaria o termo eficácia para descrever o êxito conseguido, até porque os louros vão inteirinhos para o António. A mim, coube-me a grata tarefa de continuar o excelente trabalho desenvolvido pela minha colega e amiga, Alexandra Azevedo, professora do António no 10.º ano de escolaridade. Treinei essencialmente, em contexto de sala de aula, as técnicas de tradução e os conteúdos de funcionamento da língua e, fora dela, sugeri algumas orientações metódicas quer para o estudo da vida e obra de Horácio quer para o comentário histórico, linguístico e literário exigido na prova.
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O que significa, na sua vida, ensinar Clássicas?

Nas línguas e culturas clássicas, reencontro a sabedoria, a simplicidade e a humanidade dos pensadores gregos e romanos que deram forma ao imaginário da cultura europeia. É para esse passeio pela Antiguidade que nos convida Roger-Pol Droit, autor de Voltar a Ler os Clássicos. Um périplo instrutivo que contraria o abandono do ensino das humanidades na sociedade actual. Há mais vida, contudo, para além do latim e do grego. E eu prezo-a muito!

Espero que numa próxima oportunidade possamos falar de um futuro menos assombrado para as Clássicas, ou, melhor, de um futuro menos assombrado para todos nós e para os que hão-de vir. Muito obrigada.

domingo, 13 de maio de 2012

Lojas do Saber

Informação chegada o De Rerum Natura.

Um grupo de professores da Universidade de Coimbra criou as "Lojas do Saber", para transmitir conhecimentos e experiências a todos os que queiram aprender, através de cursos, entrevistas, conferências e fóruns temáticos.

A primeira das Lojas é um curso livre sobre "Os Sons e a Vida", e terá lugar no próximo dia 18, no Exploratório Infante D. Henrique, junto ao Mondego.

Por cada sessão será cobrado o valor simbólico de um euro e no final será fornecido um diploma de participação.

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...