segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A SERENDIPIDADE


Texto do Comandante Estácio dos Reis, sobre o tema do acaso, que é um extracto de uma palestra que proferiu no Museu da Marinha:

Eu comecei tarde a interessar-me pelo acaso. Tal só aconteceu quando, em Agosto de 1992, participei no Congresso Colombo, realizado nas Universidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nesta última, num intervalo entre duas comunicações e à frente dum café, conversava com o Professor Amorim da Costa, catedrático da Universidade de Coimbra.

O tema era o acaso na pesquisa histórica ou científica. Como se explica – perguntava eu – passarmos anos à procura do que nunca se encontra e um dia, sem procurar, aparecer-nos aquilo que desejamos?

“Mas isso tem nome. Você não sabe porque não lê os meus livros. Veja a Introdução à História e Filosofia da Ciência. A isso chama-se serendipidade.”

Fui ler a tal obra, publicada em 1986, e fiquei a saber, por uma nota de rodapé, que “serendipidade” é o aportuguesamento do vocábulo original serendipity inventado por Horácio Walpole. Serendipidade quer dizer tudo aquilo, mas só aquilo, que nos é agradável e que encontramos quando não andamos à sua procura.

Horácio Walpole é uma figura que importa conhecer: nasceu em Londres, a 24 de Setembro de 1717, sendo o quarto filho e, também, o mais novo de Roberto Walpole (1676-1745), ministro dos soberanos Jorge I e Jorge II de Inglaterra. Horácio foi 4.º conde de Oxford.

Horácio estudos em Eton e Cambridge. viajou por França e por Itália. Entrou no Parlamento mas não fez carreira. Adquire uma pequena mansão barroca perto de Londres, mansão essa que reconstruiu transformando-a num castelo gótico. O recheio do castelo foi sendo enriquecido por obras de arte, de gosto medieval. Horácio, além de coleccionador, era um estudioso, tendo escrito vários livros sobre antiguidades, um gosto que herdou do pai, que possuiu a mais célebre colecção de pintura de Inglaterra. De facto, o Ministro Roberto Walpole, reuniu mais de 400 quadros dos mais famosos pintores, uma colecção que irá ser vendida a Catarina da Rússia, o que, aliás, foi uma bênção, dado que o edifício que a continha ardeu pouco tempo depois.

Horacio Walpole faz uma vida mundana. Visita a França onde é recebido nos mais distintos salões literários. Convive com Montesquieu, d’Alembert, Diderot e mantém, com Voltaire, uma ligação epistolar. Ele próprio escreve O Castelo de Otranto, que é um enorme êxito plumitivo. Manuel João Gomes, que traduziu esta obra para português, encanta-se de tal forma que chega a afirma que “Walpole se içou à categoria de escritor único, inventor dum género, duma fórmula, tal como Einstein o é do seu E=mc2.” É talvez exagerado, mas é bonito. Todavia, n’Os Contos Hieroglíficos, Walpole é inultrapassável e ao mesmo tempo desconcertante. No conto “O rei e as suas três filhas” afirma: “Havia antigamente um rei que tinha três filhas – ou seja, teria tido três filhas, se tivesse tido mais uma. Mas, seja por que razão for, a mais velha nunca chegou a nascer. Era formosíssima, dotada duma viva sagacidade e falava francês na perfeição – nisto, todos os autores da época concordam, e no entanto nenhum deles afirma que a donzela tenha alguma vez existido.” E como se estas contradições não chegassem, continua num frenesim que faria inveja ao famoso Ionesco. Diz: “É bem certo, contudo, que as duas outras princesas estavam longe de ser divinas beldades: a segunda tinha o fortíssimo sotaque do Yorkshire e a mais nova tinha dentes podres e apenas uma perna, o que lhe retirava bastante elegância ao dançar”.

Contudo, Horácio Walpole foi, acima de tudo, epistológrafo. Não há, talvez, na História da Literatura mundial alguém que mais cartas tenha escrito e acabassem no prelo. Ultrapassam as 3000, versando os mais variados temas, desde a política ao acontecimento quotidiano. Tudo lhe serve de pretexto, excepto o que dizia respeito à sua vida íntima, o que eu considero ter sido uma sábia medida.

Desta enorme profusão epistolar (foram precisos 14 volumes, quando publicadas) fazem parte as cartas endereçadas ao seu amigo Horácio Mann, que desempenhava as funções de embaixador de Sua Majestade Britânica na Toscana. Dessas muitas missivas destacarei uma única e, dessa, uma pequena passagem que, no fundo, é o motivo principal desta minha interminável reflexão.

Nessa carta, escrita na segunda-feira, 28 de Janeiro de 1754. Walpole afirma que inventou a palavra serendipity. E esclarece mais: que a foi buscar a um conto intitulado Os três Príncipes de Serendipe, onde se lê que, nas viagens de Sua Alteza, os príncipes faziam, por acidente, descobertas de coisas agradáveis que não procuravam.

O conto a que Horácio se refere foi traduzido da língua persa para o francês e depois vertido em inglês e publicado em Londres no ano de 1722. Parece que a história é verdadeira e que os príncipes eram filhos de Jafer, um rei-filósofo de Serendip ou Serendib, antigo nome de Ceilão – a Trapobana do nosso Épico – hoje com o nome de Sri-Lanka.

O cinema já usou Serendipity como título dum filme estreado em 2001, realizado por Peter Chelson, com os artistas John Cusack e Kate Beckinsale, que em Portugal passou com o título Feliz Acaso. Recentemente, abriu, no nº 225 East 60th Street, de Nova Iorque, um restaurante com o nome de Serendipity servindo um serendipitous hot chocolate, a mostrar que está a ser usado um adjectivo derivado do vocábulo original.

O processo da evolução da palavra começou, quando, em Londres, no ano de 1833, uma alma caridosa publicou as Cartas de Horácio Walpole, mas, mais importante é o facto duma famosa revista literária inglesa, Notes and Queries, ter utilizado, o termo serendipity, num dos seus textos, pela primeira vez. Contudo, para o vocábulo em causa entrar no léxico inglês é preciso esperar por The Century Dictionary, publicado em Londres no ano de 1909, tendo já reaparecido em mais de trinta dicionários de língua inglesa, entre os quais os mais famosos são os Oxford e os Webster, onde se menciona Walpole e a história dos três príncipes.

A língua portuguesa tem demorado a aceitar o vocábulo. Quanto a mim, apaixonei-me pela palavra e utilizei-a em escritos meus, especialmente num artigo que apresentei na revista Oceanos, o que levou um cibernauta a meter na Rede a informação de que tinha sido eu a usá-la, no nosso país, pela primeira vez. Como se viu, não corresponde à verdade. O seu a seu dono. Não será a última vez que a Internet erra.

Em 2001, a Academia de Ciências de Lisboa publicou o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, mas, para meu desgosto, não incluiu a palavra. Felizmente, a língua portuguesa não se esgota neste rectângulo à beira mar plantado. No Brasil António Houaïss– falecido em 1999 -- deixou-nos este novo termo, até com duas variantes no seu Dicionário da Língua Portuguesa, curiosamente incluídas por Mauro Vilar, um sobrinho do falecido autor, que é meu amigo há longos anos.

Com o aparecimento deste novo termo tem sido recordados inúmeros exemplos de descobertas feitas por mero acaso: Arquimedes, ao tomar banho, fica a saber o modo de calcular o volume dum corpo de forma irregular, Colombo descobre a América quando quer chegar à Terra das Especiarias, e Pedro Álvares Cabral, com a mesma intenção, depara com o Brasil. Fleming encontra, também, ocasionalmente, a panaceia que não pára de salvar vidas humanas. Os exemplos não faltam.

Estácio dos Reis

Na imagem: quadro de Carlos Calvet, "Misterioso Ousa".

HUMOR: NOVAS ESTATÍSTICAS



A EQUAÇÃO DE DEUS


Minha habitual crónica na "Gazeta de Física":

“God’s equation”
foi o título do livro, saído em 1999, da autoria do matemático e divulgador de ciência israelita Amir Aczel, o autor de “O Último Teorema de Fermat” (com tradução portuguesa publicada pela Gradiva). O título refere-se à equação da relatividade geral que Einstein escreveu em 1916, relacionando o espaço-tempo com a matéria-energia. O subtítulo explicita o assunto do livro “Einstein, Relativity and the Expanding Universe”. De facto, logo no ano seguinte, Einstein aplicou a sua equação à cosmologia, verificando que uma solução descrevia a expansão do Universo. Nesses dias, anteriores à descoberta do afastamento das galáxias (mesmo a ideia de galáxia era, na época, extremamente precária), o Universo parecia estático ou quase. É, por isso, natural que Einstein tenha acrescentado um termo – mais tarde chamado constante cosmológica – que contrariava a expansão, uma espécie de ajuda à força da gravidade. O grande físico chamou mais tarde a este termo, introduzido “à mão”, o "maior erro da minha vida". Por um lado, a evidência observacional trazida pelo asrónomo Edwin Hubble nos anos 20 em favor do afastamento das galáxias era inapelável e, por outro, o equilíbrio do Universo conseguido por Einstein era instável.

Mas que os grandes erros feitos por grandes génios podem ser bastante fecundos é mostrado pela atribuição em 2011 do Prémio Nobel da Física a três astrofísicos, de duas equipas concorrentes, que anunciaram em 1998, após cuidadas observações de supernovas do tipo IA (uma observação muito mais fina do que a que foi feita por Hubble), que o Universo não apenas está em expansão, mas está também em expansão acelerada. Era o reconhecimento pela Academia Sueca de que Einstein não estava tanto errado quanto julgava estar. A constante cosmológica é necessária para dar conta das modernas observações, isto é, deve entrar na “equação de Deus”. Em vez de ser uma força a ajudar à gravidade é antes uma força, a que o astrofísico Michael Turner deu o nome de “energia escura”, que funciona como uma anti-gravidade. A sua origem é um dos grandes mistérios da física contemporânea. Terá a ver com a energia do vácuo, um resultado, portanto, da teoria quântica que Einstein tinha dificuldade em aceitar (esse sim o seu maior erro científico!). Mas falharam até hoje todas as tentativas de fazer um cálculo quântico que dê um valor dessa constante minimamente parecido com aquele que as observações requerem.

Aczel, que entrevistou, para escrever o livro, um dos laureados Nobel deste ano, o norte-americano Saul Perlmutter, não podia adivinhar que, uma década volvida, o tema do seu livro viria a dar o prémio maior da Física. Mas a relevância do Prémio Nobel de 2011 está contida na frase de Perlmutter que abre o primeiro capítulo do livro: “O que mais notável é que estamos a responder a questões filosóficas profundas com medidas físicas”. Essas perenes questões incluem as do início e do fim do mundo. A palavra Deus era usada por Einstein com um significado particular: quando ele disse que só queria conhecer “os pensamentos de Deus”, não era uma atitude religiosa no sentido comum, mas a expressão da sua vontade em penetrar na harmonia do Universo, que tão bem se expressa em fórmulas matemáticas conceptualmente simples. No seu livro “Out of my Later Years” (1950), saído cinco anos antes da sua morte, Einstein escreveu: “A teoria da relatividade geral ainda está incompleta uma vez que até agora só foi capaz de aplicar satisfatoriamente o princípio geral da relatividade a campos gravitacionais, mas não ao campo total”. A constante cosmológica não passa de um indício, uma pálida imagem, do campo total, a força unificada com que o sábio sonhou.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A Ordem dos Professores e o Mito de Sísifo


“Não raro, intervêm os sindicatos, com desenvoltura, em áreas que não são, nem da sua vocação nem da sua competência” (Eugénio Lisboa, escritor e ensaísta).

À laia de introdução, justifico a referência para título deste post ao "Mito de Sísifo", com raízes na Civilização Grega, recriado, em nossa contemporaneidade, por Albert Camus (1913-1960): “Pode-se até rolar a pedra até ao alto da montanha, de onde ela desce de novo, desde que, nos intervalos, se mantenha e se renove a consciência do processo”.

Posto isto, jubilosamente, tenho como leitmotiv deste meu texto um comentário do leitor António Bettencourt, ao meu post, “As Novas Oportunidades e antigos defeitos” (07/02/2012), com o teor seguinte:” E já agora, só para terminar, quero chamar a atenção para uma questão: estão a ver para que serviria uma ordem dos professores? Para se virar para os governantes e dizer que os professores não se vendem por um prato de lentilha e que não aceitam tudo só para terem horário. E que não colaboram com aldrabices, coisa que jamais veremos um sindicato fazer. Esses só se preocupam com direitos adquiridos e com o jogo políticos dos partidos. Também são importantes, mas para outras questões.”

E digo jubilosamente por esta temática sobre a criação de uma Ordem dos Professores ser a menina dos meus olhos com a isenção de eu deixar de ser parte directamente interessada no seu desfecho por me ter aposentado aos 70 anos de idade e 42 de serviço. E nesta minha demanda em desertos de indiferença ou repúdio daqueles, como diria Mestre Aquilino, que “trazem às costas a mochila do regimento”, tem-me norteado uma espécie de papel de advogado do Diabo para que os defensores do actual statu quo não possam fazer passar a mensagem de que tudo corre às mil maravilhas no sistema educativo nacional tornando, como tal, a tarefa que espera o actual ministro da Educação, Nuno Crato, numa espécie de bombeiro de pequenos fogos que se apagam com o simples sopro dos pulmões. Mas não são pequenos fogos, decididamente, não são. São, isso sim, altas labaredas ateadas por sindicalistas que se têm azafamado em defender interesses próprios e dos seus associados contra os verdadeiros interesses da educação e dos seus usufrutuários mais directos: os alunos.

Numa época de necessário balanço tem-me movido apenas a intenção para que os defensores do actual statu quo não possam fazer passar a mensagem de que tudo corre bem no sistema educativo português que mistura o sério ensino secundário e as Novas Oportunidades (gotas de virtude num mare magnum de defeitos) e um ensino superior universitário estatal com escolas, ditas de ensino superior, criadas em vãos de escada de muito duvidosa qualidade.

Em necessário contrapeso, os responsáveis pelo destino do sistema educativo deveriam tomar medidas para que a actividade docente não fosse um mero exercício profissional, mas uma profissão no verdadeiro sentido da palavra, competindo, como nos ensina Diogo Freitas do Amaral, às ordens profissionais (logo, a uma Ordem dos Professores) o papel de “por devolução dos deveres do Estado, regular e disciplinar o exercício da respectiva actividade profissional”.

Aliás, sendo eu, ao tempo, presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados num pequeno opúsculo, intitulado “Livro da Ordem”, elaborado em 96, por uma comissão de três pessoas (a que presidi) estão definidas umas tantas atribuições de uma futura Ordem dos Professores:

- Intervir na defesa do Ensino público e privado, através da salvaguarda e promoção da sua qualidade

- Zelar pela função social, dignidade e prestígio da profissão de professor, assegurando o nível de qualificação profissional e promovendo o respeito pelos respectivos princípios deontológicos.

- Emitir a cédula profissional de professor e regulamentar o exercício da respectiva profissão.

- Contribuir para a reestruturação da carreira docente

- Exercer a jurisdição disciplinar relativamente aos professores por actos de natureza docente praticados no exercício da profissão.

- Elaborar estudos e propor aos órgãos competentes as medidas necessárias a um adequado e eficaz exercício da actividade docente, bem como emitir pareceres sobre os projectos de diplomas legislativos.

- Emitir parecer acerca de planos de estudo e cursos que tenham por objectivo a formação de professores.

- Incentivar, dinamizar e apoiar acções de formação tendentes ao desenvolvimento e aperfeiçoamento da docência, nomeadamente,através de cursos de especialização, reciclagem, congressos, seminários, conferências e outras actividades da mesma natureza.

- Intensificar a cooperação com os organismos interessados, públicos ou privados, nacionais ou estrangeiros, em todas as matérias que se relacionem coma docência.

Mas não se quedou por aqui a acção do SNPL. Em brevíssima sinopse:

1. Em 17 de Julho de 92, noticiavam os jornais nacionais a conferência de imprensa dada pelos Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL) em defesa da criação de uma Ordem dos Professores (OP).

2. Em 20 de Junho de 96, é entregue na Assembleia da República (AR) pelo SNPL o “Livro da Ordem” contendo uma Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores.

3. Em 25 de Fevereiro de 2004, apresenta o SNPL na AR uma petição com 7857 assinaturas (sendo necessárias, apenas, 4000) para a criação da OP.

4. Finalmente, em 2 de Dezembro de 2005, foi debatida na AR a petição n.º 74/IX (2.ª) do SNPL.

Petição condenada à partida por ter sido seu relator o deputado do Partido Socialista João Bernardo, simultaneamente professor do 1.º ciclo do ensino básico e vice-secretário-geral do Sindicato Nacional e Democrático dos Professores (Sindep), e a objecção que, meses antes, Vital Moreira levantava à criação de novas ordens profissionais (Público,05/07/2005), quiçá, relacionada com a licenciatura de Sócrates na Universidade Independente (17/03/2005), não reconhecida pela Ordem dos Engenheiros, e, como tal, geradora de um escândalo de grande repercussão nas páginas dos jornais e nos meios audiovisuais nacionais que conduziu ao encerramento daquela universidade privada.

Mas por mais incrível que possa parecer, esta objecção à criação da Ordem dos Professores colhe raízes no consulado do então ministro da Educação Marçal Grilo, corria o ano de 97, como nos dava conta o semanário O Independente: “A estratégia de Marçal Grilo passa por colocar as ordens profissionais na linha de fogo às loucuras do mundo académico”. Isto é, apesar desta louvável doutrina, continuaram os docentes escravizados a uma desordem profissional permanecendo na retaguarda “da linha de fogo às loucuras do mundo académico”, logo eles que têm a responsabilidade da formação dos membros das diversas ordens profissionais existentes à época e outras que se perspectivavam no horizonte, como as ordens dos arquitectos, dos biólogos e dos economistas, a que se seguiram, por exemplo, as ordens dos enfermeiros e dos técnicos oficiais de contas, rompendo com o suporte legal e tradição de se destinarem a profissionais com formação universitária.

Apesar de tudo, com optimismo, continuo a defender a criação urgente da Ordem dos Professores como um desejo por realizar em que não deve haver desfalecimentos por parte daqueles que lutam por uma causa justa. Quiçá por isso, a exemplo de Vergílio Ferreira, “tenho esperança, esperança que amanhã é que é”!

Na imagem: Sísifo, de Tiziano Vecellio (1548-1549).

HUMOR: VIDA INTELIGENTE 3

- Por vezes, penso que o sinal mais certo de que existe vida inteligente no Universo é o facto de que nenhuma dela nos tentou contactar.

HUMOR: VIDA INTELIGENTE 1



- Então o que vieste fazer à Terra?
- Vim procurar vida inteligente.
- Bem... Acho que tenho de me ir embora.

HUMOR: VIDA INTELIGENTE 2



- Não há o mínimo traço aqui.

TRÊS POEMAS DE FERNANDO LANHAS


Retirados do catálogo "FERNANDO LANHAS" (Asa, 2001) da exposição retrospectiva no Museu de Serralves:

I
Deus não é
a forma que lhe atribuímos,
mas a sua verdade,
que inventamos,
é a única que entendemos.

XXVI

O Sol
os sóis
os navios.
Os navios usam-se;
entendemos os navios que fizemos.

Os sóis
não os inventamos.

XXVII

Seguimos
à beira de saber;
a cumprir
aquilo que não sabemos,
do lado
em que não se sabe.

Fernando Lanhas

FERNANDO LANHAS: O FILME



Docuemntário (ca. 50 minutos) da RTP sobre Fernando lanhas, o artista do Porto recentemente falecido que tanto e tão bem combinou arte e ciência.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A Nova Identidade da Química como Nanociência


Informação recebida do projecto "História da Ciência na Universidade de Coimbra":

BERNARDETTE BENSAUDE-VICENT | Université Paris - X
15 de Fevereiro | 17H00
"The New Identity of Chemistry as Nanoscience"
Conferência em inglês sem tradução
Introdução e apresentação por Sebastião Formosinho, Departamento de Química da FCTUC
Entrada livre

No próximo dia 15 de Fevereiro, pelas 17H00, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra recebe Bernardette Bensaude-Vincent, Professora de História e Filosofia da Ciência na Universidade Paris-X.

Although chemistry is not the most attractive science for young students, today chemists are not content with making molecules and designing new drugs and materials. They are revitalizing the ambitions to answer the big questions about the origin of life and the universe. This presentation will survey various strategies for mimicking or synthesizing biological materials and biological processes. It aims at characterizing the distinct features of recent trends in the long tradition of chemistry challenging nature through the artificial creation of life.

Biografia:

Bernadette Bensaude-Vincent is professor of Philosophy at the University of Paris X and, since 2000, Materials Research sector’s manager in the program “History of recent science and technology” of the Sloan Foundation and Dibner Funds (MIT, Cambridge, USA). She holds a PhD in Humanities with aggregation in philosophy. Her research subjects are History and Philosophy of Chemistry and of Chemistry’s Technologies, and Science dissemination.

She published around sixty articles in French and foreign specialized reviews, about positivism, chemistry’s history and science dissemination and around thirty contributions to collective works. She received in 1994 the Prize Jean Rostand with Isabelle Stengers, in 1997, the Dexter Award for Outstanding Achievements in the History of Chemistry (American Chemical Society), in 2000, the Senior Fellow, Dibner Institute for the History of Science and she was Visiting Researcher at the Max Planck Institut für Wissenschaftgeschichte of Berlin, in 2001.

Estrangeirados visitam Portugal


Informação chegada ao De Rerum Natura (há sessões semelhantes na próxima semana em Lisboa e no Porto):

A próxima sessão de milplanaltos é já na próxima terça, 14 de Fevereiro. Amadeu Lopes Sabino, Manuel Paiva, José Morais e Jorge de Oliveira e Sousa apresentam "Estrangeirados visitam Portugal". Contamos com a vossa presença na Casa da Escrita, às 17 horas.

"Três portugueses e um belga de origem portuguesa, nascidos nos anos 40 do século XX e cujos caminhos se cruzam em Bruxelas, combinaram reencontrar-se na terra de ninguém entre a memória e o esquecimento, os tempos e os espaços em que o futuro foi uma realidade: o Estado Novo e a guerra colonial que todos recusaram, escolhendo a experiência amarga e enriquecedora do exílio; a oposição à ditadura, vivida por cada um de diferentes modos e com diferentes expectativas; as miragens da evolução e da democracia e, encerrado o ciclo do império, o regresso de Portugal ao rectângulo europeu. Em torno da integração política na Europa e das turbulências do início do terceiro milénio reacendem-se os debates do passado revisitado. O diálogo aguça e lima arestas, contradições, interrogações. Chegou a hora de cada um se dedicar a cultivar o seu jardim? Será a Utopia ainda possível ou mais do que nunca nefasta? Quem vence a partida: o descobridor de novos mundos ou o Velho do Restelo?

Amadeu Lopes Sabino (Elvas, 1943). Foi advogado, jornalista e docente universitário em Portugal. Exilou-se na Suécia na fase final do Estado Novo. Funcionário da União Europeia,em Bruxelas, a partir de 1984. Conselheiro do presidente da Comissão Europeia para as questões institucionais. Ficcionista e ensaísta.

Manuel Paiva (Porto, 1943) naturalizou-se belga em 1972. Físico, exilou-se na Bélgica em 1964. Professor honorário da Universidade Livre de Bruxelas, onde leccionou e dirigiu o Laboratório de Física Biomédica. Autor de obras de divulgação científica.

José Morais (Lisboa, 1943). Neuropsicólogo, exilou-se na Bélgica em 1968. Professor emérito da Universidade Livre de Bruxelas onde leccionou Psicologia Cognitiva e dirigiu o Laboratório de Psicologia Experimental. Ensaísta e romancista.

Jorge de Oliveira e Sousa (Lisboa, 1945). Politólogo, exilou-se em 1966. Assistente da Universidade Católica de Lovaina, funcionário da Organização das Nações Unidas, posteriormente director-geral da Comunicação na União Europeia e professor no Colégio da Europa (Bruges). Docente do Colégio Europeu."

Marshalsea


Destacamos, com a devida vénia, a crónica de J.L. Pio Abreu no "Destak":

Marshalsea foi dada a conhecer por Charles Dickens e encerrada ainda durante a sua vida. Foi a mais conhecida das prisões inglesas para devedores, onde o pai do escritor esteve preso por uma pequena dívida. As prisões eram privadas e pagas pelos prisioneiros. Se não pagassem, eram relegados para pequenos quartos partilhados por mais de 20 presos, onde morriam à fome se ninguém os acudisse.

Pagando as despesas, os familiares dos prisioneiros podiam viver com eles e saíam para obter dinheiro. Os presos não podiam trabalhar, mas tinham de pagar o aluguer do quarto, a comida, a roupa, as despesas de tribunal e às vezes a libertação das grilhetas. A isso se juntavam os juros das dívidas, que iam subindo enquanto estivessem presos. De facto, o tempo de prisão dependia muito do capricho dos credores.

Charles Dickens trabalhou numa fábrica desde os 12 anos para sustentar a família prisioneira, até que uma herança a libertou da dívida. A mesma sorte não tiveram os dez presos que chegavam a morrer num só dia por não poderem pagar a comida. Em 1641 existiam em Inglaterra dez mil prisioneiros por dívidas, gerando à sua volta um florescente negocio. O negócio consistia em impedir que os devedores ganhassem dinheiro, de modo a ficarem mais endividados até serem espoliados e escravizados pelos credores e redes envolventes. Dickens ajudou a acabar com ele.

Mas não imaginava que o negócio da dívida renascesse, 200 anos depois, ao nível das nações.

José Luís Pio de Abreu.

Well an atom's made of protons, neutrons, and electrons



O professor de Física Carlos Portela, responsável pela Divisão de Educação da Sociedade Portuguesa de Física, fez-me chegar um vídeo musical do You Tube, que, segundo ele tem eficácia sobre os alunos. Trancrevo a letra do poema em baixo, que começa com o verso do título:

"Well an atom's made of protons, neutrons, and electrons
the first two in the nucleus, the third around it
it's mostly empty space, but it feels solid in any case

The elements are all the different types of atoms
they differ by the number of protons in the middle.
Hydrogen has only one, but Uranium has a ton

It's just chemistry that you and me are made of these atoms

Well atoms bond together to form molecules
Most of what's surrounding me and you
Water, sugar, things yet undreamed of of of of

Look around you, see the combinations in a eucalypt tree
Mendeleev's periodicity
gives us sand and water and the air above ove ove ove ove

It's just chemistry that you and me are made of these atoms:
Hydrogen, Oxygen, Carbon, Nitrogen, make up the world's life forms

Do do do you, do do do do
but do you wonder how
matter forms something strange
when there's a chemical change?

Where did these atoms come from? They were fused in stars
Light elements combine releasing light from afar
Fusion in the sun, creates Helium

I guess what I be saying is you gotta use your reason
To open up your mind and see the cause of the seasons
-How do we know what's true? The scientific method shows you

It's just chemistry that you and me are made of these atoms

Atoms bond together to form molecules
Most of what's surrounding me and you
Water, sugar, sand and you'll find things undreamed of

So Argon, Neon, Xenon
There's no need to overstate
'Cause we are of course
This, of this, of this, we're made: atoms"

FERNANDO LANHAS: ENTRE A CIÊNCIA E A ARTE


Minha crónica no "Sol" de hoje:

Não sou o primeiro nem serei o último a dizê-lo: esta semana Portugal ficou mais pobre quando faleceu um dos mais originais artistas do século XX, o arquitecto Fernando Lanhas.

Foi em plena Segunda Guerra Mundial, no ano de 1944, que ele se afirmou como o expoente do chamado grupo dos Independentes, formados na Escola de Belas Artes do Porto, e que incluía nomes como Júlio Resende e Nadir Afonso. O seu quadro intitulado 02-43-44, exposto na altura no Instituto Superior Técnico em Lisboa, é justamente considerado a primeira expressão do abstraccionismo entre nós por romper radicalmente com toda uma tradição figurativa. Logo a seguir Lanhas, nascido no Porto em 1923 (portanto, na altura com 21 anos), ensaiou experiências inovadoras que incluíram a pintura abstracta em seixos. Chegou mesmo a realizar nos anos 50 uma pintura rupestre ao ar livre na Serra de Valongo.

Lanhas era um verdadeiro apaixonado pela ciência: encantava-se não apenas com as pedras no solo (foi um notável coleccionador de fósseis!), mas também com as estrelas no céu. Para ele, não havia dúvidas de que existia vida para além da Terra, no Universo infinito. Uma história passada durante a inauguração de uma sua exposição no Museu de Serralves, no quadro do Porto Capital Europeia da Cultura em 2001, é bem ilustrativa das suas convicções cósmicas. Ladeado pela Presidente daquela Capital, a astrónoma Teresa Lago, e pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, afirmou o artista que “a vida está por todo o lado” (referia-se ao Universo). Logo a astrónoma colocou uma nota de cautela: “Presumimos, Senhor Arquitecto”. Lanhas não se ficou. E, algo incomodado, replicou: “Quer que dê a minha palavra de honra?”. Valeu para sanar o incidente o Presidente da República que pegou no braço do artista para iniciar a visita à exposição.

Lanhas via uma unidade profunda entre arte e ciência. Por isso, na criação de muitas das suas obras de arte, inspirou-se na ciência. Fez, por exemplo, modelos da superfície da Lua, criou uma Carta das Distâncias e das Rotas dos Planetas do Sistema Solar e de algumas Estrelas, e preparou um Mapa das Ocorrências Verificadas no Universo desde a Explosão Inicial. Mas, como revela o episódio relatado, o seu sentido artístico acabava sempre por se sobrepor às conclusões científicas. Conforme acrescenta António Quadros Ferreira, professor de Belas Artes, num livrinho recente onde conta a engraçada história (“O Lado de Cá. Conversas com Fernando Lanhas”, Afrontamento, 2011): “o que está em causa [na arte de Lanhas] não é tanto a ciência e a sua função, mas a liberdade de sonhar”. O introdutor da arte abstracta era aliás obcecado pelos seus sonhos, a ponto de os registar por escrito quando acordava …

Na imagem: o quadro 02-43-44, antes chamado "Violino".

Ciência Viva à Conversa

Entrevista que dei a Luís Azevedo Rodrigues, colaborador dos Centros Ciência Viva do Algarve, que foi difundida pela Rádio Universidade do Algarve e que está aqui disponível na forma de podcast:

http://soundcloud.com/ciencia_viva_conversa/ci-ncia-viva-conversa-9

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

COMO VIRAR A PÁGINA DO JORNAL

Boas práticas

A expressão está muito na moda: num quadro de pensamento que desvaloriza tudo o que cheira a teoria e o que dela se aproxima, as “boas práticas” são tidas como o (único) conhecimento válido. Devo notar que é uma moda mais evidente nuns sectores do que noutros: na política, na comunicação social, na indústria e no comércio, na intervenção social, nas relações internacionais, é bastante  evidente. Assim, quem a inclui num discurso ganha pontos na aceitação dos ouvintes, ou julga que ganha…

Não sei se foi isto que pensou uma secretária de estado da saúde francesa quando escreveu no seu blogue (a notícia é do jornal Libération, a que tive acesso através do jornal Público) que, com temperaturas muito baixas, como as que se instalaram na Europa, as “populações mais vulneráveis” “devem evitar sair” (de casa, presumo). Entre essas populações, incluiu essa senhora os sem-abrigo... Talvez tenha sido um lapso!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

MATEMÁTICA: A CIÊNCIA DA NATUREZA

Informação chegada ao De Rerum Natura.

O Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian realiza de Fevereiro a Outubro de 2012 um ciclo de conferências subordinado ao título MATEMÁTICA: A CIÊNCIA DA NATUREZA, no qual participarão reconhecidos cientistas portugueses.

A primeira conferência – Trazer o céu para a terra – terá lugar no auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, no dia 15 de Fevereiro, às 18h00, e será proferida pelo Prof. Doutor Henrique Leitão, da Universidade de Lisboa.

Poderá também assistir em direto, através do site: www.livestream.com.fcg/live.

O que significa "ideologia"?

Em comentário ao texto Não sacrifica as elites, o leitor Carlos Lopes Pires, co-autor do blogue Dúvida Metódica, faculta-nos o esclarecimento equívoca noção de Ideologia. Agradecendo a atenção e com sua autorização, adaptámos o texto que publicou aqui.

A palavra ideologia não assume sempre a mesma conotação: por vezes é utilizada com um sentido positivo, outras vezes com um sentido negativo.
.

Pode remeter para um conjunto de ideais e princípios, ou seja, ideias acerca do modo como as coisas deveriam ser, nomeadamente na política. Por exemplo: o socialismo e o liberalismo são ideologias políticas. Dito por outras palavras: “qualquer sistema abrangente de crenças, categorias e maneiras de pensar que possa constituir o fundamento de projectos de acção política e social é uma ideologia: um esquema conceptual com uma aplicação prática” (Blackburn, 1997, 219).

Mas pode remeter também para um conjunto de preconceitos, de ideias anteriores à experiência e à análise crítica e racional e que, nas palavras de Blackburn (1997, 219), funcionam como “uma espécie de óculos que distorcem e dissimulam” a realidade. Nesta acepção, a ideologia leva a ajustar os factos à teoria e não a teoria aos factos, ou seja, é uma maneira de pensar que deturpa e ilude.

Nem sempre é óbvio se estamos perante o primeiro ou no segundo sentido de ideologia. Sucede por vezes que os adversários de uma ideologia no primeiro sentido (por exemplo, alguns socialistas quando criticam o liberalismo ou alguns liberais quando criticam o socialismo) a tentam reduzir ao segundo sentido.

E, em certos casos, são os próprios defensores de uma ideologia a fazer essa redução do primeiro ao segundo sentido: agarram-se tão cega e teimosamente aos seus ideais que estes se tornam meros preconceitos - ideias cristalizadas incapazes de explicar o mundo e as suas mudanças, repetidas com convicção e paixão mas de modo acrítico.

Poderemos dizer que “a marca segura de ideologia, tanto na ciência e filosofia como na política, é a negação de factos óbvios” (McGinn, 2007, 63).

Carlos Lopes Pires

Obras referidas:
- Blackburn, Simon (1997). Dicionário de Filosofia. Lisboa: Gradiva
- McGinn, Colin (2007). Como se faz um filósofo. Lisboa: Bizâncio.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

DICKENS

Os duzentos anos que passam hoje depois do nascimento de Charles Dickens, o escritor dos desamparados da sorte londrinos, foi pretexto para leituras públicas em 24 países durante 24 horas. E para exposições, debates, mostras de manuscritos...

Do O Homem e o espectro (numa edição de 1959 e tradução de Aurora Rodrigues, página 64):

"Enquanto o sábio segurava o reposteiro com uma das mãos e com a outra erguia o candeeiro, procurando romper as trevas que enchiam a sala, passou por ele um pequeno vulto, que mais parecia um gato bravo, e o qual foi enroscar-se no recanto mais escuro do aposento.
- Que é isto?!... - exclamou, estupefacto.
Readleaw tinha razões para tornar a fazer a mesma pergunta depois de olhar bem para o objecto da sua surpresa, cada vez mais encolhido ao canto da sala.
O químico acabava de ver um monte de trapos, seguros por mão do feitio e do tamanho de uma criança, mas cujos dedos enclavinhados mais se assemelhavam aos de um velho avarento. O rosto era redondo e liso, denotava cerca de seis anos, mas as feições já estavam contorcidas pela prematura experiência da vida. O olhar era brilhante, mas não tinha o viço da mocidade. Os pés descalços, mas bonitos na sua delicadeza infantil, estavam gretados, cheios de sangue e sujos de lama!
Era um garoto selvagem, um pequeno monstro da ordem social, uma criança que nunca tivera infância, uma criatura que podia viver o bastante para atingir a forma de um homem, mas que, intimamente, haveria de viver e morrer como um bruto."

REEDIÇÃO DE “OS DRAGÕES DO ÉDEN” DE CARL SAGAN

“Os Dragões do Éden - Especulações Sobre A Evolução Da Inteligência Humana E Das Outras”.



Eram tardes de início do Verão de 1985.

Quatro jovens, estudantes de Bioquímica, Química, Física e Biologia, passeavam sem fim determinado por vários terraços, recantos, estufas, entre outros espaços, do deslumbrante Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, cuja biodiversidade permite, mesmo ao mais desatento, viajar pela história da vida e da sua dispersão e evolução no planeta Terra. Evidências de evolução por toda a parte. De criação, só a que resulta do cultivo que os jardineiros executam para manter o Jardim!

Passeavam empolgados como se tivessem descoberto todo um mundo novo. A conversa, ou melhor, as conversas bolinavam adentro a história da vida, pela capacidade que a inteligência humana tinha em fazer eclodir conhecimento. Numa confrontação multidisciplinar, cada um esgrimia pontos de vista diferentes e tentava a partir deles levar os outros a especular sobre constelações de “e se o cosmos”, “e se a vida”, “e se o acaso”, “e se a evolução”, “e se o espanto fosse surpreendido a partir de outra inteligência, não humana, talvez artificial, ou melhor, talvez extraterrena?”.

Naquele passeio imerso no ecossistema do Jardim Botânico, primeiramente escola de descobertas, os quatro estudantes não iam sós mas acompanhados por um livro. Liam, uns para os outros, as passagens que lhes tinham fertilizado a curiosidade e alimentado a inteligência com destino marcado para o conhecimento. O que liam? Liam, reliam e discutiam o livro de Carl Sagan, premiado em 1977 com o prémio Pulitzer, e que a editora Gradiva tinha acabado de publicar em português: “Os Dragões do Édem - Especulações Sobre A Evolução Da Inteligência Humana E Das Outras”.

Depois de termos viajado pelo “Cosmos” através da escrita de Carl Sagan, este foi o segundo livro traduzido para português e incluído, com o n.º 8, na ininterrupta colecção “Ciência Aberta”, da editora Gradiva, do Guilherme Valente. Lembro-me bem o impacto que teve ao abrir-nos outras perspectivas, novas formas de abordar certos assuntos, tirando-lhes o pó dogmático e cómodo do saber não questionado. Ao mostrar as insuficiências do criacionismo para explicar todo um mundo de evidências evolutivas.


Ao longo das nossas formações académicas iriam ficar (e ficaram) bem vivas na memória essas discussões edificantes e sedimentadas pela Alameda da Tílias do referido Jardim, que mantiveram atenta a nossa capacidade para questionar a inteligência humana, a sua evolução, a sua relação com a possibilidade de outras inteligências, aqui e nas estrelas.

Passados que foram 26 anos, a memória dessas tardes foi de novo espoletada com a reedição, em Novembro de 2011, de “Os Dragões do Éden”, a 8.ª edição em Portugal, agora incluída na colecção “Obras de Carl Sagan” (6.º título) que a Gradiva dedica a esse incontornável comunicador e divulgador de ciência e tecnologia, passados 15 anos da sua morte.



Esta nova edição daquela que “para alguns é a mais bela obra de Carl Sagan” apresenta-se agora mais agradável, com uma paginação mais generosa e cómoda à leitura, com as anotações cuidadas na sua localização mais apropriada, com uma melhor impressão das imagens originais e constantes na primeira edição portuguesa. Recorde-se que a tradução desta obra foi efectuada pela Ana Falcão Bastos e que a revisão científica foi do físico José Mariano Gago e dos biólogos Maria Margarida Perestrello Ramos e Carlos Henriques de Jesus.

O volume actual, com 269 páginas, compagina a introdução, nove capítulos principais, mais um outro de agradecimentos, uma extensa, rica e diversificada bibliografia, e por fim, um glossário generoso. Capítulo a capítulo, Carl Sagan apresenta-nos uma progressiva problematização, a um só tempo lúcida, estimulante e sem preconceitos, da evolução do cérebro e da inteligência humana. Numa abordagem interdisciplinar, facilitada pelo amplo domínio que Sagan tinha de várias áreas do conhecimento científico, filosófico e histórico da humanidade, somos embalados numa leitura cativante que questiona a nossa importância, lugar e presença na evolução da vida e do Universo.

Sem receio de revisitar e desmistificar as origens incrustadas na diversidade cultural humana, provoca o leitor com hipóteses ainda hoje arrojadas e que incendeiam aquilo que porventura julgava bem estabelecido. De capítulo em capítulo, Sagan leva-nos por uma viagem sem nunca nos desacompanhar. Compara, confronta a evolução e a actividade do cérebro, visitando e transmitindo o que então se conhecia da biologia daquele órgão, presente em nós e noutros seres vivos.

Sagan contagia-nos com a sua paixão pelo conhecimento, apresentando-nos as várias construções, umas mais abstractas e científicas, outras mais concretas e tecnológicas, fruto da actividade daquele órgão capaz de produzir pensamentos, emoções e de as integrar com a informação que recebe do exterior, desenvolvendo culturas e mitos, modelando comportamentos e estabelecendo hierarquias conceptuais nas relações intra e inter-espécies.

Ao longo do livro Sagan guia-nos pelo retrato, possível à época (desde então muitos foram os avanços obtidos pelas neurociências e mesmo na área da psicologia evolutiva), da estrutura orgânica das fundações da nossa inteligência, das nossas paixões, dos nossos medos e das nossas realizações. Identifica e situa a inteligência humana no contexto da evolução da inteligência dos seres vivos.

O último capítulo, famoso também pelo seu título, que, aliás, ecoa na última frase do livro, propõe-nos uma direcção para a descoberta: “O conhecimento é o nosso destino – inteligência terrestre e extraterrestre”.



35 anos depois da primeira edição original em inglês, esta obra prima e clássico da literatura científica popular, continua extremamente actual na forma como contextualiza e problematiza a inteligência humana como a última fronteira do nosso conhecimento.

Ademais, a sua reedição é oportuna nesta época em que “pseudociências irracionais” e diversos engodos tipo “banha-da-cobra" e "elixires da juventude” têm ganho espaço e privilégio nalguns meios de comunicação social, tirando partido da iliteracia científica que grassa de forma indiferenciada e sem qualquer respeito pela inteligência dos cidadãos. A sua leitura, ou releitura, permitirá ao leitor fortalecer o espírito crítico e adquirir ferramentas para desbravar os terrenos férteis do conhecimento com a ajuda da inteligência cativante e contagiosa de Carl Sagan.

Salário Mínimo no Brasil

AS NOVAS OPORTUNIDADES E ANTIGOS DEFEITOS


“Experiência – eis o nome que damos aos erros que cometemos” (Oscar Wilde, 1854-1900).

Por as Novas Oportunidades continuarem na crista da onda, com vagas de prós e contras nos media nacionais, para que os leitores, eventualmente interessados, possam cotejar o meu artigo de opinião, publicado hoje no “Público” (com o título em epígrafe) com a carta da leitora, Maria do Rosário D.A. Neves, que o credencia, transcreve-se, na íntegra, o seu conteúdo epistolar intitulado “O actual Governo e as novas oportunidades”:

“Fiz o meu estágio curricular integrado em Mestrado de Psicologia da Educação num centro de novas oportunidades (CNO) de Gaia, com aduração de quatro meses (300 horas). Nesse CNO pude verificar o seu funcionamento e como são avaliados os adultos que o frequentam. Não é facilitismo, como se diz por ai, não se passam atestados de incompetência. Trata-se, sim, de um tipo de educação diferente da escola formal. Aliás, não faria sentido algum colocar pessoas adultas, com 30, 40, 50 ou mais anos deidade, com experiências riquíssimas de vida, sentadinhas na escolinha aaprender o que os professores ensinam, segundo currículos rígidos. Aqui são reconhecidos e validados os conhecimentos adquiridos ao longo da vida. Neste contexto educativo, os adultos não vão para aprender (como no ensino formal), mas sim para mostrarem aquilo que sabem, o que a vida lhes ensinou – experiências profissionais, pessoais, papéis sociais. É isto que vai ser reconhecido ecertificado, segundo um referencial de competências-chave, perante um júricomposto por vários elementos, sendo um avaliador externo. E devo dizer que é muito gratificante quando, no final do processo, o adulto consegue o seu certificado. É que grande parte destas pessoas abandonou precocemente a escola, muitas delas por necessidades económicas, e agora, ao integrarem um sistema de ensino,sentem bastantes dificuldades; muitas delas já não escrevem, ou pouco escrevem,há alguns anos, e o facto de terem de fazer um porta-fólio reflexivo de aprendizagem, por si só, é muito exigente. Por isso, dever-se-ia continuar a valorizar a aprendizagem não formal e informal.

Quanto às pessoas que tanto criticam os CNO, assim como criticam os adultos que os frequentam, devo dizer que essas pessoas não sabem o que dizem e têm uma grande falta de respeito para com esses mesmos adultos. É que, para se fazer uma crítica sobre um determinado assunto, é necessário estar-se dentro das questões e analisá-las no terreno. Caso contrário, corre-se o risco de falar de cor, só porque se ouviu dizer, ou se leu num jornal, e isso é muito grave. Haja respeito por quem se esforça! (“Público”, 13/01/2012)."

Transcrevo, agora, o meu artigo de opinião saído hoje no "Público":

“Da sua carta não me ficou a impressão de uma ideia, mas só a lembrança de uma atitude” (Eça de Queiroz).

A notícia, de hoje no PÚBLICO (01/02/2012), com chamada na 1.ª página, intitulada “Um terço dos centros de Novas Oportunidades vai fechar”, leva-me a clarificar a minha posição perante um assunto polémico e em resposta a um texto de uma leitora publicada na secção de Cartas à Directora:

Quiçá para me poupar desse vexame, sem referência ao nome do autor do incómodo artigo “O actual Governo e as novas oportunidades” (PÚBLICO, 11/01/2011), foi publicado, passados dois dias, nestas colunas, em “Cartas à Directora” , um texto de Maria do Rosário D. A. Neves, com idêntica título por a sua subscritora, possivelmente, nem sequer se ter dado ao trabalho de ser original. Embora da sua prosa esclarecimento algum eu tivesse colhido, ficou-me, contudo, a importância de ter ficado a saber da existência de um estágio curricular, integrado em Mestrado de Psicologia da Educação no Centro de Novas Oportunidades de Vila Nova de Gaia, por si realizado.

Mas adiante. Em finais do século XIX, sentenciou Charles Prestwich Scott, editor do jornal “ManchesterGuardian” que “os comentários são livres, mas os factos são sagrados”. Reporto-me, portanto, a factos deixando à margem, tanto quanto possível, comentários em que a paixão se possa sobrepor à razão.

Ora, dos factos fazem parte dois testemunhos por mim publicados no supracitado artigo que despoletou a carta que me deseja sentado no banco dos réus levando a minha paciência ao limite de uma resignação que não tenho, porque escudado em depoimentos de pessoas por mim arroladas como testemunhas de defesa, mas que parece não terem merecido qualquer crédito à subscritora da referida epístola.

O primeiro desses testemunhos, publicado no semanário “Expresso” (18/09/2010), tem por base o depoimento de um dos usufrutuários das “Novas Oportunidades”, com a hombridade de ele próprio admitir ter“beneficiado de uma injustiça” com a elevada classificação de vinte valores no acesso à universidade. O segundo testemunho reporta-se a uma carta endereçada, e publicada igualmente no “Expresso", ao mais alto Magistrado daNação, por um formador das Novas Oportunidades em que descreve a forma blasé ou mesmo abandalhada, perdoe-se-me o plebeísmo, como os formandos se comportam. E porque não há duas sem três, apresento, agora, uma terceira prova com a transcrição de um documento certificador de histórias da vida, com equivalência ao 12.º ano do ensinosecundário, de um formando das Novas Oportunidades justificativa da evocação de um pequeno texto de Nietzsche: “E assim cheguei até vós e aos pais da educação. E o que me acontece? Não obstante toda a minha ansiedade tive de rir. Nunca os meus olhos tinham contemplado algo tão manchado e heterogéneo”.

Reza a redacção desse documento: “Como já disse anteriormente tenho um filho e uma filha, em que ele é mais velho cinco anos “…Ando sempre a fazer-lhe ver as coizas até já lhe tenho dito se tiver a inflicidade de falecer novo paça a ser ele o homem da casa e tomar conta da mãe e mana, mas para ele é difícil de compreender as coisas e por vezes até me pede desculpa e que para a procima já não comete os mesmos erros. Ele tem o espaço dele com a mãe em que não me intrumeto, desde mimos e converças porque graças a Deus nem eu nem ele temos siumes um do outro com a mãe…” (PÚBLICO, Santana Castilho, 25.Maio.2011). Sete erros ortográficos em 111 palavras é obra!

Concedo que, pelo anúncio e compra de relatórios elaborados por especialistas com essa finalidade, sejam hoje apresentados textos deformandos que lustram o verbo dos seus putativos autores. Mas esta arremedo de polémica não teria acontecido se o meu texto tivesse sido lido com a atenção que fizesse entender a esta leitora que eu não critiquei as Novas Oportunidades de“pena ao vento”, como diria Eça.

Tive, até, o generoso cuidado de não generalizar as minhas críticas, quando escrevi no meu anterior artigo: “A réstia de esperança que pudesse ainda haver sobre a bondade de uma segunda oportunidade, para quem desperdiçou uma primeira, foi abalada nos seus frágeis caboucos pela leitura de uma reportagem do “Expresso” (08/12/2007). Por ela se ficou a saber que estes badalados cursos não espelham uma situação minimamente verdadeira, credível ou séria”. E acrescentei: “Não querendo generalizar a todos os cursos de Novas Oportunidades efeitos perversos, tenho razões para pensar que em sua grande maioria sirvam apenas para recreio buliçoso para passar o tempo de quem procura um diploma avalizado pelo Estado”.

Mas desço, agora, ao âmago desta controvérsia analisando o parágrafo final da carta desta leitora que se destaca por uma espécie de aviso a ignorantes por parte de quem sabe da poda. Escreveu ela: ”É que, para fazer uma crítica sobre um determinado assunto, é necessário estar-se por dentro das questões e analisá-las no terreno. Caso contrário, corre-se o risco de falar de cor, só porque se ouviu dizer, ou se leu num jornal, e isso é muito grave. Haja respeito por quem se esforça!”

Plenamente de acordo com esta moralista exortação. Foi precisamente por respeito a quem se esforça que escrevi o meu artigo inicial pondo em confronto três maneiras de se ficar de posse do 12.º ano ou da sua equivalência, através, respectivamente, do chamado ensino regular e das Novas Oportunidades. Mas, por outro lado, discordo plenamente da condição, sine qua non, de “se estar dentro das questões e analisá-las no terreno”. E esclareço porquê: não se deve ser juiz em causa própria sob pena, ainda que mesmo involuntária, de falta de isenção.

Não será preferível, portanto, que se deixe essa análise para a comissão nomeada para o efeito pelo Ministro Nuno Crato, inclusivamente ao Centro de Novas Oportunidades de Gaia de excelência, antecipadamente, posta nos píncaros da lua?

Concedo, até, que o mal possa não estar na filosofia que presidiu à criação das Novas Oportunidades, mas no facilitismo de que se revestem, por vezes, ao certificar experiências de vida relatadas com erros ortográficos e gramaticais de palmatória não tolerados no simples exame da 4.ª classe do antigo ensino primário. Mas não se pretenda ver nisto (gato escaldado de água fria tem medo) qualquer exagero da minha parte de “exigir que haja um Dante em cada paróquia e que os Voltaires nasçam com a profusão dos tortulhos”, em nova citação do incontornável autor de “Os Maias”.

Rui Baptista, Professor e co-autor do blogue “De Rerum Natura”.

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...