quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

ORDEM DOS PROFESSORES "VERSUS" SINDICATOS DOCENTES





“Os fautores da tradição,  que apelam  para os valores, para o classicismo, para o cânon, são postos fora de jogo por esses funâmbulos, esses equilibristas, esses acrobatas, que também querem ser eternizados no bronze e no mármore”. E quem diz que o não conseguem?” (Mario Perniola, professor catedrático de Estética na Universidade de Roma).

Escreveu o leitor, António Bettencourt,  um  comentário ao meu recente post “Quem tem medo da Ordem dos Professores?” (10/01/2012). Transcrevo-o na íntegra (aproveitando para outra ocasião questões pertinentes e oportunas levantadas em comentários por outros leitores nessa mesma altura) :

“Penso que a questão está mal centrada. Há de facto um desinteresse e um aparente acomodar por parte dos professores mas que, quanto a mim, se deve à disparidade dos mesmos.

No mesmo saco temos professores licenciados, mestres, doutorados, sem licenciatura (ainda há alguns em disciplinas técnicas), professores de vários níveis de ensino, com variadíssimas experiências de ensino e de carreira. Creio mesmo que, ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, é uma das profissões com formação e experiência pessoal mais heterogénea.

Nesse sentido, parece-me difícil a criação de uma ordem dos professores. Claro que os sindicatos (ou pelo menos a Fenprof) não a querem  pois, se já hoje, andam aflitos, quanto mais com uma ordem que congregasse  os professores.

Sim porque, ao contrário do que também muitos pensam, a grande maioria dos professores está-se a borrifar para os sindicatos.

Ainda no tempo da ministra de má memória o que aconteceu foi que os sindicatos correram atrás dos professores e não o contrário.

Aliás, os sindicatos começaram por assinar tudo o que a ministra quis. Só quando se viram  ultrapassados por movimentos dos professores é que se arrependeram.

Da minha parte, venha a Ordem. Porque, com sindicatos destes, estamos mal servidos”.

 O comentário, atrás transcrito,  perspectiva a dificuldade da criação da Ordem dos Professores  na heterogeneidade de formação académica dos professores (temática por mim já equacionada e podendo ser resolvida com o exemplo, o mau exemplo,  de  ordens profissionais existentes como a recentíssima Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas que obriga à inscrição  de próprios doutorados em Economia em paridade com indivíduos com pouco mais que a antiga 4.ª classe do ensino primário).

 Aliás, este desconchavo  já se verifica numa carreira docente (única) que não tem paralelo em qualquer outro país em que a justiça não seja sujeita a  pressões político-sindicais. Carreira única que defini como um  verdadeiro ”Leito de Procusto” . Aliás, título de um dos  livros da minha autoria  em  que aludo ao facto ,em citação  da respectiva p. 101,  “de nela  se esticarem  os professores menos ilustrados e se cortam as pernas aos mais habilitados para nesse parto  teratológico caberem à medida todos os docentes com parca  distinção das respectivas estaturas científica, técnica e pedagógica”. 

Mas mesmo essa parca distinção (de um único escalão no acesso ao topo das carreira docente) teve a duração efémera de uma bola de sabão por grande parte de diplomados por escolas médias, ou nem isso sequer,  no exercício docente se terem dirigido a escolas privadas, ditas superiores, que em escassos meses lhes venderam um diploma de licenciatura mesmo antes de terem sido criadas as “Novas Oportunidades”. Ou seja, em “Velhas Oportunidades”! Isto é, como nos legou a sabedoria dos latinos: “Nil novi sub sole” (nada de novo debaixo do sol).

Para este statu quo, ou verdadeiro estado de sítio?,  parece ter contribuído um  conceito vigorante entre gente vulgar ou, pior do que isso,  mal intencionada. Mas acabe-se definitivamente com este sofisma e falemos claro, de uma vez por todas.O pinta-monos e uma festejada pintora como, por exemplo, Vieira da Silva fazem trabalho igual? Ambos pintam, na verdade! O aprendiz de piano que martela o teclado do piano sem qualquer arte ou sombra de paixão e uma consagrada pianista como Maria João Pires fazem trabalho igual? Ambos tocam piano, é certo! O cábula que não completou sequer o ensino secundário e o professor credenciado com estudos universitários, ambos na docência fazem trabalho igual? Ambos dão aulas, sem dúvida!

Mas o mesmo valor de venda para os quadros do pinta-monos e de Vieira da Silva? O mesmo cachet para o pianista falhado e Maria João Pires? O mesmo vencimento para o cábula e o professor licenciado? Ninguém de boa-fé, ou  simplesmente no pleno uso da  razão, se atreverá a subscrever esta iníqua igualdade sem  que a face lhe core de vergonha! E por isso, os professores que com ela não pactuam  não devem esconder-se atrás da cortina do silêncio desertando de  combates de libertação de uma dignidade aprisionada em liames de prepotentes medidas oficiais que protegem  os ignorantes e dão cobertura ao atrevimento (como diz o povo não há nada mais atrevido do que a ignorância!) em prejuízo do desenvolvimento cultural, social e económico do país. E, desta forma, aceitando, de cerviz curvada,  um destino sem honra, nem glória.   Excepciono, ou excepcionam-se eles próprios,   um sindicalismo que,  em proveito  de alguns dos seus dirigentes e de grande parte dos seus associados beneficiados por tabela,  se faz opositor feroz de uma Ordem dos Professores. 

Se me é permitido o uso de palavras corajosas suas, meu  caro   António Bettencourt, termino com chave de ouro: “Com sindicatos destes estamos mal servidos”. Apenas acrescentaria, se me permite: pessimamente servidos!

Na fotografia: Mario Perniola, professor catedrático de Estética na Universidade de Roma.

Conheça um polímata (que conhece muitas ciências)!


Carlos Vogt além de reitor da Unicamp, também ocupou a presidência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a vice-presidência da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Sua última novidade é a Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) – fundada em 2010 quando Carlos ocupava o cargo de secretário do Ensino Superior de São Paulo – que já conta com dois cursos de graduação e outros dois de especialização.Veja no link matéria sobre sua trajetória:

http://www.revistaquanta.inf.br/?p=108

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O ACTUAL GOVERNO E AS NOVAS OPORTUNIDADES



Artigo meu publicado no "Público" de hoje:
“O erro está nos meios, bem mais do que nos princípios
” (Napoleão Bonaparte,1796-1821).

Em publicação do “Diário da República”, de 29 de Dezembro último, acabam de ser extintos, para já, nove centros de “Novas Oportunidades”, dois deles, sob a égide do próprio ensino superior politécnico: Instituto Politécnico de Leiria e Escola Superior de Educação de Portalegre.

Esta já esperada medida (porque anunciada em campanha eleitoral do PSD) trouxe consigo a respeitabilidade de uma avaliação das “Novas Oportunidades”, criadas no Governo de Sócrates, e o rumo a seguir pelo executivo de Passos Coelho para que não seja prosseguida uma acção, apenas, com a finalidade última de apresentar êxitos estatísticos de uma desastrada política educativa sem qualquer critério de qualidade como quem põe em circulação moeda sem correspondência ao seu valor facial para mascarar o atraso do sistema educativo nacional não superior (o ensino superior é outra história não menos triste) relativamente a outros países da Comunidade Europeia.

Muito teriam ganhado os responsáveis pela criação das “Novas Oportunidades”, em se debruçarem, com a atenção de aluno aplicado e atento à lição do mestre, sobre esta este princípio doutrinário de Francisco Alberoni, professor contemporâneo de Sociologia na Universidade de Milão: “Na verdade, a pedagogia que nivela tudo por baixo no intuito de esbater as diferenças tem como consequência tornar ignorantes milhões de pessoas”.

Para melhor ser compreendida injustiça das “Novas Oportunidades”, detenhamo-nos, ainda que por hipótese, no caso de um pai e dois seus filhos. O progenitor, mal sabendo ler nem escrever, através da apresentação de um relatório de experiência de vida (como eu costumo dizer, cabelos brancos nem sempre são sinal de sabedoria, quando muito de velhice), passado escasso tempo,fica de posse de um atestado de equivalência ao 12.º ano. Um dos filhos, amante de uma vida de rambóia, após chumbos seguidos no ensino secundário regular que o levaram a marcar passo no 10.º ano, perfeitos os 18 anos de idade, ingressa nas“Novas Oportunidades” sendo-lhe passada meses depois idêntica equivalência. A terceira personagem desta história,o outro filho, aplica-se afincadamente aos estudos e percorre as exigências do ensino secundário regular obtendo, passados três anos, com altas classificações, o diploma do 12.º ano mas que não lhe dá o desejado ingresso em Medicina ao contrário do irmão tornado exemplo da notícia de 1.ª página do semanário “Expresso”, de 18 de Setembro de 2010, que transcrevo ipsis verbis: “Tomás desistiu da escola sem ter concluído o secundário.Graças ao programa criado pelo Governo para aumentar as qualificações dos portugueses, teve equivalência ao 12.º ano em poucos meses e entrou na universidade com uma média de 20 valores, conseguida com apenas um exame de Inglês. Ainda assim, concorreu em igualdade de circunstâncias com todos os outros. Oficialmente, é o aluno com a mais alta nota de candidatura ao ensino superior. Admite que beneficiou de uma injustiça”.

Perante uma diversidade de opiniões, publicou o PÚBLICO duas posições antagónicas sobre as "Novas Oportunidades" que começavam a gerar desconfiança na sociedade portuguesa, embora Luís Capucha, na altura director da Agência Nacional para a Qualificação , ao ser indagado por um jornalista se os processos de avaliação eram certificados ter respondido: “Sim há avaliação externa, o que implica que há regras e que as competências certificadas correspondem às possuídas”.

Coincidente com uma cerimónia, de grande pompa e não menor circunstância, em clima de forçado júbilo para a nação portuguesa , com a presença de Valter Lemos, então secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional, em que foram atribuídos novas centenas de certificados outorgados pelas “Novas Oportunidades”,foram publicados, em edição do PÚBLICO (7.Julho.2010), dois artigos de opinião polémicos sobre as “Novas Oportunidades”: um subscrito por Luís Capucha, em encómio à sua obra, e outro da minha autoria, intitulado “Estarão aqui em causa Novas Oportunidades ou Novos Oportunismos?”

Desse meu artigo transcrevo dois parágrafos:

“ A réstia de esperança que pudesse ainda haver sobre a bondade de uma segunda oportunidade, para quem desperdiçou uma primeira, foi abalada em seus frágeis caboucos pela leitura de uma reportagem no Expresso (o8/12/2007). Por ela se ficou a saber que estes badalados cursos não espelham uma situação minimamente verdadeira, credível ou séria.

Não querendo
generalizar a todos os cursos de “Novas Oportunidades” efeitos perversos, tenho razões para pensar que em sua grande maioria sirvam apenas de recreio buliçoso para passar o tempo de quem procura um diploma avalizado pelo Estado. A título de mero exemplo, extraio do Expresso este elucidativo pedaço de prosa do professor que denunciou ao Presidente da República, Cavaco Silva, o verdadeiro escândalo que se acoberta por detrás destas actividades curriculares: ‘Estes frequentadores da escola aparecem nas aulas sem trazer uma esferográfica ou uma folhe de papel. Trazem o boné, o telemóvel, os headphones e uma vontade incrível de não aprender e não deixar aprender’”.

O actual Governo de Passos Coelho se, porventura, continuasse a trilhar o paradigma das (antigas) “Novas Oportunidades” ter-se-ia tornado conivente com leis mal feitas que, segundo Edmund Burke, “constituem a pior forma de tirania”. Mas não! O tempo de uma tirania da ignorância tem os dias contados e, com isso, os portugueses, defensores de um sistema de ensino minimamente decente, não podem deixar de se congratular. Com o ano de 2012 renasce a esperança no “soberaníssimo bom senso”, de que nos falou Antero.

Rui Baptista

O HOTEL DO INFINITO

A New Scientist TV está a publicar uma série de animações "O Minuto Matemático". Eis o episódio sobre o Hotel Infinito de David Hilbert:

O Regresso de Chiang Ching


Artigo de Guilherme Valente saído hoje no jornal PÚBLICO:

"Os modelos escolares dominantes de "cultura", de "saber", de "sucesso", de "bom aluno", o modelo dominante de escola, afinal, criam dificuldades e constituem obstáculo ao sucesso dos alunos que pertencem a meios de cultura não letrada."

Ana Benavente (ProfMat, 88)

1. Na educação e qualificação, na requalificação dos cidadãos na vida activa, na motivação e confiança de alunos e professores, no ambiente nas escolas, no empenhamento dos pais, Portugal é uma sociedade fragilizada ou mesmo dramaticamente desarmada. Não apenas nos conhecimentos, mas na atitude e na vontade: a maioria dos portugueses formados na escola do eduquês (1) não estão preparados para enfrentar o trabalho e a vida.

2. Não é necessário insistir nos indicadores. Diremos apenas que em mais de três décadas o ensino em Portugal não saiu dos piores indicadores registados nos países da UE e da OCDE. Chaga das chagas: o número de crianças que foram chegando ao 9.º ano iletrados, semi-analfabetos ou, pura e simplesmente, analfabetos.

3. Entre 2001 e 2011, pela primeira vez em décadas, verificou-se, só em alguns indicadores, um incipiente progresso. Foram anos de uma certa contenção do eduquês, da mitigada adopção de medidas que há muito reclamávamos (directores nas escolas, por exemplo). Mas em vez da criação de uma via de ensino técnico profissional, com igual dignidade, qualidade e exigência das vias de acesso à universidade, com a possibilidade, no seu termo, do acesso a estudos superiores - imperativo que o novo ME terá de cumprir - apenas se permitiu a instalação de cursos tecnológicos profissionais nas escolas cujos directores a solicitassem. Medida insuficiente e logo sabotada pelo aparelho ideológico do ME, não lhe afectando os meios humanos e materiais mínimos. Mesmo assim, contando quase só com o empenho de directores e docentes, foi a oferta desses cursos que determinou uma pequena, localizada, mas esperançosa, descida na percentagem de abandono escolar.

4. Mas esses progressos incipientes não alteraram a realidade: pior do que nós só Malta.

E é por isso que faz vómitos ver responsáveis pela situação a que se chegou terem o despudor de se manifestarem preocupados com a ameaça à qualidade (!!!?) da educação e insistirem no programa de desígnio e efeitos devastadores que durante décadas impuseram (ler "A educação, o País e o futuro", PÚBLICO de 3/12/2011 e Ana Benavente ao PÚBLICO, 13/12/2011).

Surpreende ver o professor Paulo Guinote assinar tal documento. Choca, mas já não surpreende, que o presidente do maior sindicato de professores o tenha assinado. Porque nele se volta a defender o programa que implicou a desvalorização da função de ensinar, a desautorização e humilhação do professor.

Um programa de combate ao conhecimento e aos saberes que contam, à Literatura, à Matemática, à História, à Filosofia, às Ciências, etc., a que voltam a chamar agora, despudoradamente, "conhecimentos básicos". São, pelo contrário, conhecimentos fundamentais, condição de todas as verdadeiras competências. Programa de ignorância e desresponsabilização, cujos efeitos são gritantes na sociedade: Portugal é o país da UE com maior desigualdade entre ricos e pobres, o nível mais alto nos últimos trinta anos; a pobreza nas escolas cresceu mais de 30% na última década.

5. Mas que importa esta realidade dramática? Acabar com "os modelos escolares dominantes de cultura", de "saber", com "o modelo dominante de escola", que "criam dificuldades e constituem obstáculo ao sucesso dos alunos que pertencem a meios de cultura não letrada", acabar, afinal, com a escola reprodutora das desigualdades, instrumento de dominação ao serviço dos poderosos, não é a condição para realizar a sociedade sem classes?

6. Parece inimaginável, mas é esta, documentadamente, a chave para se perceber a natureza do projecto que dominou a educação durante todos estes anos. Uma inversão que determinou a mundovisão dominante sobre o ensino e a escola, embora a generalidade das pessoas não tenha consciência daquela natureza e origens ideológicas.

7. Irracionalidade igualitarista que determinou a inevitabilidade de um facilitismo sempre crescente, impondo uma escola inútil para milhares e milhares de jovens, que a foram abandonando prematuramente, sem qualquer formação ou qualificação. Um ensino público de onde só não fugiu quem não tinha meios para procurar o privado, que floresceu, apesar dos condicionamentos com que também o quiseram controlar.

8. A experiência teve outros ensaios na História, mais nítidos e devastadores. Uma dessas últimas experiências, também centrada na convulsão da escola e na humilhação dos professores, foi a Revolução Cultural chinesa: ódio ao conhecimento, à "cultura burguesa", aos grandes criadores, dos clássicos aos modernos, de Confúcio ao poeta Ai Ching e ao grande dramaturgo Tsau Yu; a Mozart e Beethoven (a Camilo e Eça, se os conhecessem...). Para aqueles que viveram esse tempo nesse lugar, a lembrança impõe-se: é o regresso de Chiang Ching, a mulher de Mao.

Guilherme Valente

NOTA:
(1) Eduquês foi a expressão brilhante criada por Marçal Grilo para designar o discurso incompreensível dos especialistas em "ciências" da educação. Mas a questão não é a linguagem, mas o pensamento que a determina e ela exprime. Foi para designar esse pensamento que comecei a usar a expressão eduquês, fixada, depois, com o contributo de outros autores.

AS 10 MAIORES DIFICULDADES do recém-chegado à Astronomia amadora


Novo artigo de Guilherme de Almeida (g.almeida@vizzavi.pt):

José Manuel (nome fictício) acaba de comprar o seu primeiro telescópio. Está entusiasmado com as maravilhas que espera ver através dele e com o que imagina vir a descobrir nessas observações. No entanto, logo na primeira tentativa, passa-se algo de errado: em vez das estrelas esplendorosas que esperava observar, não vê absolutamente nada! A Lua não é nítida como ele esperava e a imagem parece dançar. O que é que está a correr mal? Isto não é raro de acontecer, mesmo com os telescópios mais sofisticados actualmente disponíveis. Este artigo chama a atenção do leitor para as principais coisas que podem correr mal; poderá ajudá-lo a desembaraçar-se desses problemas e a começar as suas observações com sucesso.

Os erros mais frequentemente cometidos pelos principiantes

Em diversas acções de formação sobre astronomia que tenho feito, após os princípios básicos, e depois de se ter explicado como se utiliza um telescópio, passa-se à parte das sessões de observação. E de todas as vezes há sempre alguém que me chama, a dizer, convictamente, que não consegue ver nada através do telescópio. E o que impede as observações é sempre algo simples, mas inesperado para o novato.

Dificuldade número 1: "não consigo ver nada"

O erro mais frequente é, de longe, o de começar com uma amplificação demasiado elevada. Isto resulta de não se conhecerem as oculares, ou de se querer "ver mais". Em Astronomia lida-se com muitos números e alguns são contra-intuitivos: o que parece maior poderá ser menor. Três é mais do que um, não é verdade? Então como é que uma estrela de terceira magnitude é menos brilhante do que uma de segunda magnitude? Isso é uma outra história, mas passa-se algo de parecido com as oculares: uma ocular de 10 mm de distância focal amplifica mais do que uma de 25 mm (no mesmo telescópio), apesar de a primeira ter marcado no seu tubo um número menor. Na verdade acontecem cinco coisas quando se aumenta a amplificação de um telescópio:

1. as coisas passam a ver-se obviamente maiores, mas isso significa que a quantidade de luz do objecto se espalhará, na retina do olho, por uma área aparente maior, por isso, as imagens parecem mais escuras;

2. o observador passa a ver uma porção menor de céu, tal como acontece quando se usa o zoom numa fotografia;

3. torna-se mais difícil apontar o telescópio para um objecto, mesmo que seja um objecto aparentemente grande, como a Lua;

4. as fragilidades da montagem evidenciam-se: o tubo do telescópio oscila facilmente e as imagens não param quietas, sobretudo se o telescópio for de iniciação;

5. as imagens observadas, em geral, já não serão tão nítidas, devido à turbulência atmosférica que se evidencia mais quando se utilizam maiores amplificações.

As baixas amplificações são úteis quando pretendemos olhar através de um telescópio para ver objectos grandes. Portanto, eis um cuidado essencial: quando se quer encontrar um objecto através de um telescópio, convém começar por uma baixa amplificação, o que significa começar por utilizar a ocular que tem o maior número gravado nela, geralmente 20 mm, 25 mm ou até mesmo 32 mm.

Dificuldade número 2: "não consigo apontar para o que quero ver"

A dificuldade mais frequente, logo a seguir, consiste em não saber alinhar o buscador, ou seja, o pequeno telescópio (quase uma miniatura) que está ao lado do telescópio principal, e que está lá precisamente para nos ajudar a apontar o telescópio e a encontrar os objectos que queremos observar. O buscador é quase sempre um pequeno telescópio de baixa amplificação ou (o que é cada vez mais frequente, porque os preços desceram) um apontador de ponto vermelho. E convém saber que os buscadores não vêm alinhados de fábrica e geralmente não vêm montados no tubo do telescópio. Para alinhar o buscador, comece por montar no telescópio uma ocular que dê uma baixa amplificação, digamos, uma ocular que tenha marcado 25 mm, ou um valor parecido. O procedimento essencial consiste em encontrar primeiro alguma coisa distante com o telescópio principal o que é mais fácil de fazer de dia, apontando o telescópio (como se este fosse o tubo de uma arma) para uma janela, um sino, uma antena, etc. Mantenha este objecto no centro do campo de visão do telescópio e ajuste o buscador de modo que esse mesmo objecto também fique bem centrado no campo do buscador. Para isso é que há, em volta dos anéis do buscador, pequenos parafusos de alinhamento. Refine o alinhamento do buscador utilizando uma amplificação maior no telescópio.

Alguns buscadores são aborrecidos de alinhar, e esse é um ponto fraco de muitos telescópios de baixo preço. Mas será mais fácil fazer este ajuste de dia, dado que os objectos terrestres não se movem com a rotação da Terra, como acontece com os astros. Mesmo nos mais sofisticados telescópios com go-to (busca automática de objecto celestes) será preciso alinhar bem o buscador, para poder apontar as estrelas de referência.

Dificuldade número 3: "não se consegue focar este telescópio"

Voltando às observações nocturnas, a partir do momento em que tenha centrado um objecto no seu telescópio o problema número 3 é a focagem desse objecto. Isto é especialmente importante no caso dos telescópios refractores, onde se utiliza quase sempre um espelho diagonal, para que o observador não tenha de se colocar em posições de contorcionismo para observar objectos a grande altura, no céu. Convém saber que o diagonal proporciona uma distância suplementar no focador (os fabricantes de telescópios têm isso em conta) e, sem esse espelho diagonal, pode ser que não consiga focagem. Certifique-se, por isso, de que no caso de um refractor o diagonal está efectivamente montado no focador e a ocular montada nesse espelho diagonal. Mais uma vez, comece por utilizar amplificações baixas, subindo depois, se necessário. A Lua deverá mostrar um bordo bem nítido e as estrelas (pelo menos com baixa amplificação) devem focar como pequenos pontos luminosos, se isso não acontecer, encontrará mais informação nos restantes pontos deste artigo. E há ainda outro problema: é claro que se carregar com as sobrancelhas contra a ocular fará com que o telescópio seja desviado da direcção em que estava: perderá o objecto de vista…

Dificuldade número 4: "as imagens não são nítidas e estão sempre a mexer-se"

Admitamos que o leitor começou agora a fazer as suas observações com um telescópio, mas está insatisfeito com o que está a conseguir ver. Uma coisa que nem sempre é óbvia é que o leitor tem realmente que estar no exterior para obter boas imagens. Não a observar através do vidro de uma janela, nem sequer através de uma janela aberta. Com binóculos, é possível fazer isso quase sempre, mas através de um telescópio, até mesmo amplificando apenas 50x, isso será suficiente para que o vidro da janela arruíne completamente a nitidez das imagens, ou que a turbulência do ar lhe estrague as observações.

Dificuldade número 5: "as imagens continuam pouco nítidas e a oscilar"

O próximo erro é levar o telescópio lá para fora e querer observar imediatamente. A menos que o leitor tenha a grande sorte de ter uma temperatura semelhante dentro e fora de casa, o telescópio estará geralmente a uma temperatura superior à do ambiente exterior à casa e terá de libertar esse calor para o ar nocturno envolvente. Isso causará correntes de convecção dentro do tubo e à sua volta que farão com que a imagem se recuse a ser focada e dance, especialmente quando se quer observar com amplificações mais elevadas. Essa "má visão", como é chamada no mundo das observações astronómicas, pode também ser causada pelas condições atmosféricas. Mas, de facto, o leitor tem de dar tempo para que o telescópio arrefeça primeiro. Deixe-o no exterior (em segurança, é claro) durante cerca de uma hora antes de começar a observar através dele, mas mantenha as superfícies ópticas cobertas, para dar ao telescópio tempo para arrefecer

Dificuldade número 6: "não se vê bem, não é como nas fotografias"

Um problema muito frequente é que o leitor não consegue ver essas imagens fantásticas de nebulosas e galáxias com as cores exuberantes que aparecem nas astrofotografias que ilustram a caixa do telescópio. Isto não é em rigor um erro, porque nenhum telescópio permite mostrar visualmente os objectos do céu profundo da maneira como eles aparecem nessas fotografias. Na melhor das hipóteses, mesmo os objectos mais brilhantes do céu profundo aparecem através da ocular como ténues manchas difusas. Porém, mesmo tendo tudo isso em conta, as pessoas têm muitas vezes grandes dificuldades em encontrar aquilo que é suposto serem objectos fáceis de encontrar no céu.

Pode até acontecer que o leitor tenha um telescópio com go-to (busca automática de objectos), e mesmo assim não os consiga ver através da ocular. Pode acontecer que os objectos estejam apenas demasiado baixos no céu. Quanto mais baixo um objecto estiver relativamente ao horizonte, maior a espessura de ar que a sua luz terá de atravessar até chegar ao telescópio e menos brilhante o objecto aparecerá. Por outro lado, se houver poluição luminosa nesse local, o objecto baixo ficará numa região do céu onde a poluição luminosa será mais severa e o céu será por isso mais claro, dificultando ainda mais a detecção visual desse objecto. No caso de observar planetas, se estes estiverem baixos, a turbulência atmosférica será mais severa e a possibilidade de obter imagens desfocadas e ondulantes será maior, devido á turbulência atmosférica acrescida. Portanto, espere até que o objecto fique mais alto no céu, tão alto quanto seja possível.

Dificuldade número 7: "não consigo ver, mas dizem que este é um objecto fácil"

O erro número 7 consiste em assumir que todas as noites límpidas são iguais. Quando se quer observar objectos do céu profundo, teremos muitas vezes de esperar pelas noites mais límpidas e de ar mais transparente.

As massas de ar frio, que se seguem a uma frente fria, são quase sempre as melhores, pois o ar frio contém menos água do que o ar morno e absorve menos luz. Por outro lado, as noites com alguma nebulosidade ou nevoeiro fino são óptimas para observar planetas, permitindo uma visão muito nítida e firme, sem ondulações, embora os tubos e as ópticas dos telescópios se cubram, nessas noites, de água que se condensa rapidamente sobre tais superfícies (caso não se tomem as devidas precauções, com sistemas activos anti-condensação). Em algumas noites, o leitor terá de desistir de fazer observações do céu profundo e dedicar-se a observar a Lua e os planetas.

Dificuldade número 8: "cheguei junto ao telescópio e não consigo ver nada"

Já foi dito que o telescópio precisa de se adaptar às condições térmicas da noite, para dar as melhores imagens. Os seus olhos precisam de se adaptar à obscuridade, especialmente se o leitor pretende fazer observações do céu profundo (nebulosas, galáxias e enxames de estrelas). O erro número 8 consiste em colocar seu telescópio lá fora a arrefecer, enquanto o leitor se entretém a ver televisão, ou a trabalhar no computador. Os ecrãs, as lâmpadas fluorescentes e as lâmpadas economizadoras de energia emitem bastante luz azul, que destrói (temporariamente, é claro) a adaptação dos olhos à obscuridade, muito mais do que a luz vermelha; portanto, quando o leitor sai desse local a pensar que o telescópio já arrefeceu, e está pronto, os seus olhos não estarão prontos: precisarão de nova espera, para eles próprios se adaptarem à obscuridade e não será capaz de ver grande coisa durante os próximos 10 a 20 minutos. Por isso, enquanto espera, faça-o lá fora aproveitando esse tempo para fazer uma revisão rápida das constelações, ou para relembrar as posições relativas de algumas estrelas.

Para consultar mapas ou ajustar acessórios, uma fonte de luz vermelha atenuada é de grande utilidade para os astrónomos amadores, pois tem muito menos impacto na sua visão nocturna do que a luz branca ou de qualquer outra cor. Tente evitar o mais possível quaisquer luzes prejudiciais na sua vizinhança imediata. Escolha o sítio mais escuro que puder, de tal modo que não estejam lá luzes incomodativas no canto do seu olho. Se for necessário coloque um pano preto sobre a sua cabeça, enquanto observa através telescópio, para evitar todas as luzes parasitas. Não receie ser tomado por idiota, ou alvo de comentários ridículos, pois o ganho na detecção de objectos fracos é apreciável.

Dificuldade número 9: "os outros vêem, mas eu não vejo"

Continua a não conseguir detector os objectos subtis do céu profundo? Aponta o telescópio para lá (para onde pensa que eles estão) e não vê nada? Talvez o leitor esteja a esforçar-se demasiado O erro número 9 consiste em olhar bem de frente e firmemente para sítio onde pensa que o suposto objecto se encontra. Acontece que o centro do campo visual do olho é a sua parte menos sensível á luz. Essa parte central da retina tem predominantemente células cónicas, menos sensíveis à luz, que permitem ver cores e pormenores finos, mas possui poucas células cilíndricas, que são muito mais sensíveis e abundam nas partes periféricas da retina. A visão periférica, chamada visão lateral ou visão desviada, permite explorar essa parte mais sensível do seu campo visual. Portanto, seja a olho nu seja através de telescópios (ou de binóculos), pratique a técnica da visão lateral, que significa que deverá dirigir a sua atenção para um ponto ao lado do objecto (cerca de 10º a 20º), prestando atenção ao que se passa em volta, em especial À região onde pensa que o objecto deverá estar. De repente, ele salta à vista!

Dificuldade número 10: "não consigo encontrar"

Procure ter uma ideia da aparência do objecto que procura. Tente saber qual é o tamanho aparente dos objectos. Não espere que todos os objectos do céu profundo tenham dimensões aparentes tão grandes como a galáxia de Andrómeda, ou a nebulosa de Orionte. Muitas galáxias, como as do enxame da Virgem, são na realidade de dimensões aparentes minúsculas, e muitas nebulosas planetárias também são minúsculas, mesmo as mais brilhantes. Isso exige que se aumente a amplificação, se as queremos ver. Isso não só aumenta o tamanho aparente do objecto (visto com a ajuda do telescópio) como também escurece o céu, facilitando a detecção do objecto.

Se depois de tudo isto o leitor anda não consegue ver os objectos que procura, então sim, é de desconfiar do telescópio. A melhor maneira de começar esta investigação (se for um telescópio tiver um espelho secundário) consiste em retirar a ocular e olhar pelo centro do tubo do focador. O leitor deverá conseguir ver a abertura circular do telescópio, com uma sombra também circular no meio, causada pelo espelho secundário (a menos que o seu telescópio seja um refractor). Se tal sombra não estiver centrada, mesmo que tenha a certeza de que está a espreitar mesmo pelo centro, pode ser que o seu telescópio precise de atenção especial. Nesse caso, o seu telescópio precisará de ser colimado, o que já ultrapassa a temática deste artigo, mas tal informação está contida nas referências abaixo indicadas, onde o leitor encontrará tudo o que precisa de saber sobre a colimação de telescópios e sobre o modo como deverá ser feita.

Guilherme de Almeida
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Referências:

Sobre telescópios:

- Almeida, G.—Telescópios, Plátano Editora, Lisboa, 2004.

Sobre o conhecimento do céu:

- Almeida, Guilherme de —Roteiro do Céu , Plátano Editora, 5.ª edição, Lisboa, 2010.

Sobre astronomia e observações astronómicas em geral:

- Almeida, Guilherme de —Introdução à Astronomia e às Observações Astronómicas (Plátano Editora, 7.ª ed., Lisboa, 2004.

- Almeida, G. e Ré, P.— Observar o Céu Profundo, Plátano Edições Técnicas, 2,ª edição Lisboa, 2003.

VISITA DO “JOIDES RESOLUTION” A LISBOA


Post recebido do Prof. Galopim de Carvalho:

NA CONTINUAÇÃO de um projecto científico em curso nas águas da nossa Zona Económica Exclusiva, no âmbito do ECORD/IODP (European Consortium for Oceanic Research Drilling / Integrated Ocean Drilling Program), o moderníssimo navio oceanográfico Joides Resolution, com 143 metros de comprimento e uma torre de sondagens com mais de 60 metros de altura, estará em Lisboa nos próximos dias 18 e 19.

Considerado um dos mais notáveis laboratórios de investigação flutuantes do mundo, no domínio das Ciêncas do Mar, está preparado para perfurar os fundos marinhos (até mais de 8000 m de profundidade), podendo aí penetrar mais de 1000 m. Os seus laboratórios totalizam uma área de mais de 1000 m2 e estão equipados, para apoiarem, ao mais alto nível, a inúmeros trabalhos de geologia marinha (tratamento e registo de testemunhos de sondagens, mineralogia, sedimentologia, geofísica, etc.) e de oceanografia física, química e biológica. Trabalham aqui cerca de meia centena de cientistas e técnicos de laboratório e um número equivalente entre elementos da tripulação de marinha e da equipa de sondagens.

O Joides Resolution atracará no cais de Alcântara, onde poderá ser visitado no próximo dia 18, entre as 9 e as 11:30 horas. Nesse dia será evocada a criação do ECORD (European Consortium for Oceanic Research Drilling), do qual Portugal é membro fundador, decisão que constituiu um marco significativo do empenhamento de Portugal nas ciências do Mar, estando a tutela ministerial da Ciência sob a responsabilidade do Prof. Mariano Gago. Será ainda prestada homenagem ao Prof. Mário Ruivo pelo seu papel na adesão de Portugal a este consórcio internacional e pela sua dedicação à causa das ciências e tecnologias marinhas.

Mais informações sobre esta jornada poderão ser pedidas ao Prof. Fernando Barriga, do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, na qualidade de delegado de Portugal, por parte da Fundação para a Ciência e Tecnologia, junto do ECORD/IODP (European Consortium for Oceanic Research Drilling / Integrated Ocean Drilling Program).

VAI PARA 25 ANOS que, no Museu Nacional de História Natural, da Universidade de Lisboa, surgiu um grupo de investigação em Geologia Marinha/Oceanografia Geológica, com ligações internacionais, que designamos por DISEPLA, acrónimo de Dinâmica Sedimentar da Plataforma. Coeso e activo, este grupo está hoje disperso por várias universidades do País e laboratórios do Estado, mas as ligações entre os seus membros não se perderam.

Menos conhecida do grande público, esta nossa actividade, que reputo como a mais volumosa e importante contribuição científica deste Museu, nos 20 anos em que nele trabalhei, foi uma caminhada pioneira que conduziu ao nascimento e expansão de uma verdadeira escola neste domínio científico.

Em 1987 a então Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), hoje Fundação para a Ciência e a Tecnologia, de que era presidente o Prof. Mariano Gago, lançava o “Programa Mobilizador de Ciência e Tecnologia”, no qual tinha cabimento uma componente dinamizadora das Geociências do Mar, apresentada publicamente pelos Profs. Mário Ruivo, da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, Michael Collins, da Universidade de Southampton, e Michael Vigneaux, da Universidade Bordéus. Foi na sequência deste programa que João Alveirinho, então o primeiro e o único doutorado português em Geologia Marinha, me veio propor que subscrevesse a candidatura à JNICT de um projecto de investigação, concebido por ele, como desenvolvimento do tema da sua tese de doutoramento, acabada de defender. Tendo orientado, em parte, este seu trabalho e acompanhado de muito perto toda a sua carreira científica, nos saudosos Serviços Geológicos de Portugal e no Instituto Hidrográfico, e tendo em conta a oportunidade, a qualidade e o interesse estratégico desse projecto, aceitei esta sua proposta o que implicou, também, aceitar sediar no Museu a equipa de jovens investigadores que era necessário reunir e formar. Com esta proposta, João Alveirinho, apenas necessitava de uma instituição que os acolhesse e de uma assinatura que o avalizasse. Ponderada a situação, pus à disposição deste meu ex-aluno os nossos espaços, os nossos equipamentos e os nossos escassos recursos em pessoal técnico, administrativo e auxiliar. Assim sendo, apresentei, à então JNICT, o primeiro dos vários projectos que ali se desenvolveram nos dez anos que se seguiram, concebidos em conjunto com outros, da responsabilidade científica do Prof. António Ribeiro, também eles sediados no mesmo Museu. O primeiro projecto arrancou em início de 1988 com uma investigadora sénior e dez alunos finalistas de Geologia.

O Grupo DISEPLA visou, sobretudo, a formação de jovens investigadores e a criação de um corpo nacional de investigação no domínio da Geologia Marinha, interdisciplinar e internacionalizado, até então ausente das nossas universidades. Caracterizado por grande informalismo e por um mínimo de burocracia, constituiu um fórum de permuta de ideias e experiências, de discussão de resultados e de entreajuda. Entre os elementos formados no grupo, até a minha colocação na “prateleira dos aposentados”, 28 concluíram o mestrado e 13, o doutoramento. Os sete encontros que promovemos, alguns em colaboração com os colegas do país vizinho, trouxeram ao conhecimento mais de mil comunicações.

Com o passar do tempo, o DISEPLA evoluiu naturalmente para uma rede de investigação, eficaz e igualmente informal, cujos elementos, dispersos, como se disse atrás, são agora os promotores e os responsáveis pelos seus próprios projectos, em que cada um procura as colaborações mais convenientes e nos moldes que entenda estabelecê-las.

Nascido e desenvolvido no Museu Nacional de História Natural com o indispensável e sempre disponível apoio do Instituto Hidrográfico, este grupo deixou descendentes, ou seja, fez escola que continua a dar frutos, uma realidade que ficará esquecida se ninguém se der ao trabalho de a registar.

Com uma primeira geração de investigadores que, de juniores passaram a seniores, vimos partir a maior parte destes “filhos”, hoje independentes e a trilharem os seus próprios caminhos, o que nos enche de satisfação e orgulho. Actualmente há “netos” que já nem conhecem os “avós”, mas que só existem porque estes “avós” tiveram a ousadia de iniciar esta viagem e de segurar o leme deste navio, nas primeiras milhas desta gratificante navegação que conduziu, repito, à introdução das Geociências do Mar nas nossas universidades, onde os mestrados e os doutoramentos se sucedem.

A. M. Galopim de Carvalho

QUEM TEM MEDO DA ORDEM DOS PROFESSORES É O ESTADO

Resolvemos destacar aqui este comentário recebido de João Boaventura ao último post de Rui Baptista: Quem tem medo da Ordem dos Professores?

Caro Rui

Quem tem mais medo da Ordem dos Professores é o Estado espoliador e senhor do seu poder despótico. Digamos que o Estado é o maior medroso do Mundo pelo que fará todo o impossível e todo o possível por manter a rédea curta, não vá escapar-lhe a autoridade para manter as coisas no ponto de rebuçado.

E uma das formas de domínio é o de manter as pessoas oprimidas e pessimistas, assustadas e desmoralizadas, o que lhe permite o controle da sociedade.

Como informa Tony Benn, ex-Membro do Parlamento Britânico, numa entrevista dada a Michael Moore, as pessoas começam a ficar sem esperança, e pessoas sem esperança não votam.

E a prova relativamente ao que se passa em Portugal a prova do nível de pessoas sem esperança está visível nos que não votam, na abstenção, como se comprova no gráfico de cima (Fonte: Comissão Nacional de Eleições), que compara o voto total nos partidos (losangos) com as abstenções (quadrados).

De resto, como testemunha Tony Benn:

“Uma nação educada, saudável e confiante é mais difícil de governar (...) O poder não quer que as pessoas sejam educadas, saudáveis e confiantes, porque ficariam fora de controlo.”

Portanto, meu Caro Rui, quem tem medo não é o Sindicalismo… é o Estado.

João Boaventura

Livros com química: Karl Marx e o Capital

Numa altura em que pode fazer bastante sentido para os portugueses e a maioria dos europeus a pertinente análise de Naomi Klein sobre o "capitalismo de desastre" e a "doutrina do choque" pode valer a pena reler os clássicos Keynes e Marx. E talvez seja proveitoso reler Hayek e Adam Smith para perceber a diferença entre as suas doutrinas económicas e sociais e a tralha ideológica que são os preconceitos e ideias de reserva daqueles que se declaram seus seguidores. Mas não é sobre isso que vou escrever.

Karl Marx manteve-se sempre actualizado em termos de conhecimentos de Química. São, aliás, bem conhecidos os livros desta ciência que Marx leu e anotou, sempre com a colaboração e apoio de Engels. Este último, cujo pai tinha uma fábrica em Manchester, privou com vários cientistas da época e tinha particular interesse pela química. Os escritos de Engels estão cheios de referências químicas [as obras completas de Marx e Engels, assim como de outros autores relacionados com o Marxismo podem ser consultadas no site marxists.org]. No Anti-Duhring de Engels, que influenciou muitos jovens socialistas como Eduard Bernstein, mais tarde fundador do SPD (partido social democrata alemão), misturam-se, de uma forma fascinante para um químico, hidrocarbonetos, álcoois e ácidos orgânicos com referências à Lógica de Hegel e Dialética.

No Capital, Marx usa a química para dar exemplos e analogias dos conceitos que está a definir.
No capítulo 1, parte 1, do volume 1, depois de analisar a relação entre a quantidade de tecido, o número de fatos produzidos e o trabalho envolvido, discute a forma relativa do valor das mercadorias tomando o exemplo do ácido butírico (ou butanóico) e do formato de propilo que têm a mesma fórmula molecular C4H8O2 mas propriedades muito diferentes.

Podemos ir buscar uma analogia à química. O ácido butírico e o formato de propilo são dois corpos diferentes, não só na aparência como também nas qualidades físicas e químicas. Contudo, são compostos pelos mesmos elementos: carbono, hidrogénio e oxigénio. Além disso, contêm-nos na mesma proporção: C4H8O2. Se agora equacionássemos o formato de propilo com o ácido butírico ou se o constituíssemos, em seu equivalente, o formato de propilo figuraria nesta relação apenas como forma de existência de C4H8O2, ou seja, da substância que é comum a si e ao ácido. (Karl Marx, O Capital, Centelha, 1974, tradução de J. Teixeira Martins e Vital Moreira, pp. 73-74) [corrige-se o nome de um dos compostos]

Mais adiante, numa nota de rodapé do capítulo 11, Marx refere a nova e revolucionária química orgânica que Gerhardt e Laurent acabavam de introduzir, revelando estar a par dos mais recentes desenvolvimentos desta área da química. Nessa nota, a estrutura dos alcanos CnH2n+2 que varia com n pela adição de radicais metileno CH2, serve de analogia para mostrar a subtileza dos aspectos quantitativos e qualitativos que transformam a acumulação quantitativa de dinheiro e de excedentes numa coisa qualitativamente diferente: o capital.

Infelizmente, o interesse de Marx pela química, talvez tenha levado a um certo amor louco dos Marxistas e socialistas pela química. Junto com os mitos do progresso, os tractores e o endeusamento da industrialização e da tecnologia, tal acabou por ser pouco simpático para esta ciência. Um dos exemplos extremos dessa atracção é a famigerada Elena Ceauşescu, mulher do ditador romeno Ceauşescu (ambos julgados de forma sumária e executados em 1989), cujo nome aparece como sendo co-autora de 48 artigos científicos ISI de química (de 1981 a 1989 com índice h=6). Membro da Academia Romena e agraciada com doutoramentos Honoris Causa e outras distinções honoríficas em vários países não socialistas, como os EUA e o Reino Unido, parece que tinha na verdade uma formação escolar bastante limitada.

Obviamente, o caso anterior não tem qualquer comparação com o percurso científico bem documentado e sério de Angela Merkel, autora de 12 artigos ISI (de 1981 a 1992, com índice h=5) que se doutorou em Química Teórica na antiga Alemanha de Leste e posteriormente, com a queda do muro de Berlim, se dedicou à política, vindo a ser a actual Chanceler da Alemanha. Neste caso a relação entre a química e a política talvez seja furtuita (ou talvez não). Não deixa de ser curioso que Joaquim Augusto Simões de Carvalho tenha escrito em 1850, nas suas Lições de Filosofia Química, que [a]té à política ou arte de governar a Química tem aplicações: para preencher os altos deveres que lhe impõe a sua missão, o homem de Estado deve ser versado em conhecimentos em Química; de outra forma ignoraria sempre as condições de melhoramento e utilidade do seu país.

Marx e a sua família viveram em condições muito difíceis em Londres. Quando Marx morreu, em 1883, estiverem presentes no seu enterro dois membros da Royal Society. A sua campa, no Highgate Cemetery, está a pouca distância da de Michael Faraday. Ambos estão imortalizados na obra que nos deixaram.

[texto com algumas correcções feitas em 17 de Janeiro de 2011]

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

QUEM TEM MEDO DA ORDEM DOS PROFESSORES?



“A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final." (Fernando Pessoa, 1888-1935).

O meu último post, aqui publicado anteontem, intitulado “A Revisão Curricular e a Ordem dos Professores”, mereceu do habitual leitor e comentador deste blogue João Boaventura (JB) uma importante análise na discussão de um assunto que parece ser tabu no meio sindical, o que até se compreende, e docente, neste caso de forma incompreensível. Transcrevo, abaixo, ocomentário de JB, ipsis verbis, pela forma cirúrgica como cauteriza uma ferida, ou mesmo trata uma gangrena, que tanto tem prejudicado o tecido educativo oficial do ensino não superiorl. Escreveu o leitor no seucomentário:

“Caro Rui: Li uma vez num jornal francês um artigo indagando sobre a saúde da população e propôs, como forma de o saber, convidar os idosos a desfilarem pelas ruas de Paris.
Como não houve desfile, e ninguém se dispôs a organizá-lo, concluiu-se que ninguém estava interessado em saber em que ponto se encontrava a saúde da população, e muito menos a dos idosos.

Mal comparado, assim o Caro Rui, que, desejando melhorar a "saúde do poder e do saber dos professores", para que tenham voz activa no magistério que exercem, acaba por chegar à conclusão de que o professorado está bem, se recomenda, e tolera todas as ambiguidades e afrontas, como recomenda a Igreja Católica Apostólica Romana.

O silêncio também fala e esclarece que o professorado prefere a servidão voluntária”.

Para uma discussão alargada desta temática, que vive na penumbra de uma quase ocultação, eis a minha resposta a este comentário:

Caro João: Já desesperava por assistir ao silêncio cúmplice de quem deveria apresentar as razões da sua discordância sobre a criação de uma Ordem dos Professores e o não fez trazendo-me o incómodo de uma voz a pregar no deserto do contentamento da Fenprof e da FNE. Por honrosas excepções confirmarem a regra, não cometo a injustiça de meter todos os sindicatos nesse mesmo saco, mormente o SNPL que tudo fez (e continuará a fazer?) para a respectiva criação. De resto, apoiados por um exército docente que, como diria Mestre Aquilino, "traz às costas a opinião dos outros como uma mochila de regimento", marchando à sombra de uma única bandeira, ao toque de um clarim de uma espécie de sindicalismo do século XIX, embriagado pelo cheiro acre da pólvora de batalhas de séculos passados e lutando até à exaustão contra um perigoso inimigo comum: as associações de direito público (isto é, ordens profissionais), em que o Estado delega poderes, para que os seus associados, fazendo uso de uma expressão de Adriano Moreira, “estarem nas decisões e não virem a ser apenas objectos dela”. E não, como por vezes são acusadas, de serem uma temível forma de “corporativismo” (como se o sindicalismo, ele próprio, estivesse livre dessa espécie de pecado original!) que aprisiona em garras deontológicas os seus membros que querem continuar a viver a liberdade de um igualitarismo que não separa o trigo do joio, através de um exercício profissional em que reina a bem-aventurança de “serem todos bons só que uns são melhores do que outros”. Assim o proclamava, tempos atrás, e em citação de memória, um representante sindical vivendo os “sacrifícios de uma actividade quase profissionalizada”, em época de contenção de despesas que trava a ascensão na própria carreira docente a quem de direito, enquanto sindicalistas vivem, anos e anos, à sombra do erário público, embora podendo, e devendo, ser pagos, em alguns casos, pelas respectivas quotizações sindicais.

Aliás, no mister docente oficial, criou-se o mito da bondade em igualizar desiguais pela chegada ao topo da carreira docente de todos os agentes de ensino oficial não superior em função do número de anos de serviço e numa entrada na carreira que tem por preferencial critério a classificação final de curso, quer essa habilitação seja obtida numa instituição oficial universitária de créditos firmados ou numa simples chafarica privada que passe diplomas como quem põe uma impressora a tirar fotocópias. Ora, nada disto sucede em outras actividades profissionais, e na própria docência dos colégios privados, em que os seus agentes são seleccionados em função dos estabelecimentos de ensino que os formaram e, por vezes, do próprio ano de formatura. Alguém, porventura, sem facciosismos políticos se poderá esquecer do importante papel que, em anos recentes, a Ordem dos Engenheiros teve na não homolocação de cursos de engenharia de fim-de-semana? A exemplo, quantos docentes com complementos de habilitação deste tipo não enchem o topo da carreira docente das escolas oficiais portuguesas?

Parafraseando o dramaturgo Edward Albee, lanço a pergunta: “Quem tem medo da Ordem dos Professores?” Ou será, como dizia alguém, eu não tenho medo, só tenho receio? Seja como for, com ou sem medo, com ou sem receio, a classe docente não deve continuar a viver à sombra de um sindicalismo que se manifesta ruidosamente na rua contra o patrão Estado em defesa de questões meramente laborais não trazendo para o conhecimento público as causas efectivas da sua brutal oposição à criação de uma Ordem dos Professores.

Abandonem-se, pois, os bastidores desta discussão e traga-se para o proscénio da discussão pública um tema, vítima de um certo secretismo, que não diz, apenas, respeito à classe docente por questões que se prendem com o próprio sistema educativo e o seu importante papel na sua controlada massificação (confundida com mediocratização e demagógicos efeitos estatísticos ) e simultânea criação de um escol técnico-científico que coloque Portugal na vanguarda europeia dos países mais desenvolvidos.

Alea jacta est! Atravessemos, pois, a margem do Rubicão de uma questão de aparente interesse limitado a uma determinada classe profissional para a margem de uma discussão nacional numa altura, em que somos herdeiros de um tempo, que segundo Ortega y Gasset, “se sente fabulosamente capaz de realizar, porém não sabe o que realizar”.

P.S.: Para evitar mal entendidos desde já declaro que o facto de me encontrar aposentado (desde os 70 anos de idade e depois de 40 e tal anos de docência) me retira qualquer suspeição de estar a lutar por uma causa que me diga directamente respeito ou de pretensão de qualquer espécie em me tornar sua personagem em destaque dirigente.

Tenho, apenas, a credencial de ser lutador incansável naquilo em que acredito e defendo, desde finais da década de 70, com a fé de quem se bate numa cruzada de que se fez combatente da primeira linha com inúmeros artigos de opinião nos media, a publicação de dezenas de posts nesta tribuna e a própria elaboração, em equipa, de um Projecto de Estatutos da Ordem dos Professores (publicados em opúsculo, 1960), com o apoio logístico do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados, na altura em que presidia à respectiva Assembleia Geral de que me viria a demitir por discordância com a integração deste sindicato na chamada Plataforma Sindical com audição pública amplificada pelos megafones da Fenprof.

Seria bom se tivéssemos um Congresso com vergonha na cara....

Manifesto:
Peço a cada destinatário para compartilhar esta mensagem com seus amigos em sua lista de endereços e,por sua vez, pedir a cada um daqueles a fazer o mesmo.

Em três dias, a maioria das pessoas no Brasil terá esta mensagem. Esta
é uma idéia que realmente deve ser considerada e repassada para o Povo.

Lei de Reforma do Congresso de 2012 (emenda da Constituição do Brasil)

1. O congressista receberá salário somente durante o mandato. E não
terá direito a aposentadoria diferenciada em decorrência do mandato.

2. O Congresso contribui para o INSS. Todo o fundo (passado, presente
e futuro) atual no fundo de aposentadoria do Congresso passará para o
regime do INSS imediatamente. O Congressista participa dos benefícios
dentro do regime do INSS exatamente como todos outros brasileiros. O
fundo de aposentadoria não pode ser usado para qualquer outra finalidade.

3. Congressista deve pagar para seu plano de aposentadoria, assim como
todos os brasileiros.

4. Congresso deixa de votar seu próprio aumento de salário, que será objeto de plebiscito.

5. Congressista perde seu seguro atual de saúde e participa do mesmo
sistema de saúde como o povo brasileiro.

6. Congressista está sujeito às mesmas leis que o povo brasileiro.

7. Servir no Congresso é uma honra, não uma carreira. Parlamentares
devem servir os seus termos (não mais de 2), depois ir para casa e
procurar emprego. Ex-congressista não pode ser um lobista.

8. Todos os votos serão obrigatoriamente abertos, permitindo que os
eleitores fiscalizem o real desempenho dos congressistas.

A hora para esta emenda na Constituição é AGORA.

É ASSIM QUE VOCÊ PODE CONSERTAR O CONGRESSO.

A Universidade da Vida


Nova crónica da escritora Cristina Carvalho:

É boa, mas não chega! Tem bons mestres, mas não chega! A universidade da vida, ou seja, subentendendo-se um longo caminho já palmilhado, ensina algumas coisas, traz a atenção de certas atitudes, prevê desgraças previsíveis, atenta em quase todas as reações, percebe, ao longe, intenções de variada natureza. O longo caminho da vida adivinha muita coisa e não se deixa enganar com facilidade. Mas não chega!

Servirá de pouco no que se refere a conversas mais ou menos elaboradas e filosóficas porque a experiência de cada um conta muito para um todo, mas conta pouco, individualmente. Individualmente é apenas uma experiência que, a longo prazo, poderá frutificar ou não. Sem conhecimento teórico não se vai a lado nenhum. É esse estudo, esse aprofundar do conhecimento teórico que faz com que saibamos aplicar a nossa própria defesa, que faz com que saibamos escutar outras opiniões. É esse conhecimento teórico que faz com que saibamos usar a tolerância e não desperdicemos o amor que temos para dar. Podemos olhar para muito longe se não desprezarmos a cultura, a leitura, o que outros estudaram e nos transmitiram com boa vontade e sempre no intuito de ser útil. Podemos avançar se tivermos confiança na Ciência, se nos lembrarmos que, se estamos por aqui a viver rodeados de tanta tecnologia, de tanta descoberta em diversos campos de atuação – médica, social, urbana, cívica, agrícola, em suma, universal – é porque alguém não se ficou pela universidade da vida. Frequentou outras universidades. Se não quisermos aceitar todas estas transformações – e só no século XX foram incontáveis! – podemos sempre evitá-las indo viver para o alto dum monte rodeados de cabras monteses aos saltos de pedregulho em pedregulho em busca de alimento, aspirando o ar gelado das noites de inverno, amolecendo nos dias quentes do verão e comendo bagas. Podemos! Mas cá em baixo, no sopé do monte, criaturas espevitadas, ágeis e inteligentes velam para que, se adoecermos, alguém possa dar um aviso e enviar um helicóptero para nos salvar. Ninguém é indiferente à indigência e à morte.

Devemos ouvir e ler e olhar apenas o que vale a pena e esse “valer a pena” é altamente subjetivo ainda que os conceitos e padrões culturais estejam, há muito, bem definidos. Para ser prosaica, direi que “quem gosta do amarelo, não pode gostar do azul” e quem diz que já aprendeu tudo o que havia para aprender uma vez que andou na universidade da vida porque já tem muita idade, demonstra apenas ralo saber. Também a frase “um burro carregado de livros é um doutor” tem a sua razão de ser. Burros carregados de livros é o que há mais. Cavalos sem sela e sem arreios há poucos e os que existem galopam livremente por todos os campos do saber. Se for caso disso, deixam-se acariciar e até montar!

Ao perpassar por todas estas questões, interrogo-me sempre, para que lado uma pessoa se deve voltar. Se estudar, ouvir, ler, participar, conhecer ou se, por outro lado, seguir um caminho mais fácil e seguro, um caminho definitivo e, em situação saudável, um caminho certeiro ainda que com altos e baixos, daquelas veredas que conduzem, inexoravelmente, ao fim da vida e aceitar tudo “isto” tal como é.

É que, na verdade, todos se encontram com razão. A verdade é essa! A razão é de cada um. A razão é sempre de cada um! Portanto, quando dizemos que isto ou aquilo não presta, que não tem interesse nenhum, que não se aprende nada, não é verdade! Se há questões difíceis de aceitar, esta é uma delas: eu não gosto! Como é que tu gostas? Não acho que preste! Como não presta? É magro? Não! É menos gordo! É gordo? Não! É menos magro!

Depende, unicamente, do ponto de vista do indivíduo.

Não me venham é com conversas da “universidade da vida”! Isso é que eu não aguento!

Aguentas? Aguento!!

É a nossa geocentricidade!

Eu sou sol. Tu, sistema solar.

CRISTINA CARVALHO

Rap dos Oceanos, a reportagem possível

A primeira vez que o biólogo marinho e cientista de pé João Cruz apresentou o seu Rap dos Oceanos foi no Pavilhão do Conhecimento, na Noite Europeia dos Investigadores:


Mano quando vais p’ra praia e te estendes na areia
Já olhaste bem para o ambiente que te rodeia?
Não falo das miúdas que controlas de soslaio
Falo do oceano, que é grande comó raio.
Grande parte do nosso lixo vai p’ra lá direitinho
E afecta muito mais que um ou outro peixinho.
Sabes que esse saco de plástico não é biodegradável?
Mas há muito animal que o pode achar agradável
Pelo menos até o comer e morrer sufocado
É caso para dizer que o bicho ficou lixado.
As alterações climáticas também afectam os nossos mares,
Assim como muitas espécies são prejudicadas pelos sonares
Já há corais mais brancos que os dentes do Paulo Portas
E espécies migradoras até já se enganam nas rotas.
É melhor preocupares-te com tudo que se faz errado
E agires pra mudar como cidadão preocupado
Desde as emissões poluentes ao lixo no areal
Senão não há direito a praia nem a miúdas de fio dental.

Letra: João Cruz
Música: David Cruz

"UMA BREVE HISTÓRIA DE MIM"


Stephan Hawking fez 70 anos no passado dia 8 de Janeiro. Infelizmente, devido ao seu estado de saúde, não pôde dar pessoalmente a sua lição intitulada "Uma Breve História de Mim", que foi dada por gravação accionada por um assistente. Ver o relato aqui. A moral da sus história:

"Remember to look up at the stars and not down at your feet. Try to make sense of what you see and wonder about what makes the universe exist.

Be curious. And however difficult life may seem, there is always something you can do and succeed at. It matters that you don't just give up."


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

a história química de uma raia eléctrica

Mais um episódio da história química de animais marinhos. Desta vez a raia eléctrica, que ajudou a descobrir a electricidade e contribuiu para o entendimento da transmissão dos impulsos nervosos nos animais, abrindo caminho ao desenvolvimento de medicamentos mais específicos e eficazes.


A raia eléctrica (Torpedo marmorata L.) possui orgãos eléctricos que podem dar um choque de mais de duzentos volts durante cerca de um segundo. Este peixe, assim como a enguia eléctrica e o peixe-gato eléctrico, desde sempre maravilharam os naturalistas e atraíram a atenção de médicos e cientistas. Os orgãos eléctricos destes peixes comportam-se como verdadeiras pilhas eléctricas com as quais estes animais podem atordoar as suas vítimas, mas só depois do final do século XVIII tal começou a ser entendido. O excêntrico Cavendish, ao construir um modelo da raia eléctrica com base numa garrafa de Leiden, que era na altura um objecto científico bem conhecido pelos choques eléctricos que dava, convenceu a comunidade científica de que a mordedura destes peixes era de natureza eléctrica. Mais tarde, a discussão entre Galvani e Volta sobre a existência da electricidade animal, conduziu Volta ao desenvolvimento da primeira pilha eléctrica. A pilha de Volta revelou-se um modelo muito melhor da raia eléctrica, com a vantagem de proporcionar uma corrente eléctrica contínua. Estava aberto o caminho aos desenvolvimentos científicos e tecnológicos que a electricidade nos trouxe. E tudo isso com a ajuda de uns peixes exóticos!

Mais recentemente, a raia eléctrica e os seus primos eléctricos revelaram ser um óptimo meio para estudar os mecanismos de transmissão dos impulsos nervosos nos animais. Os cientistas puderam fazer isso medindo as correntes eléctricas ao mesmo tempo que manipulavam células nervosas da raia eléctrica e mediam as concentrações dos iões no seu interior e exterior. Verificaram que o processo envolvia os iões sódio e potássio que circulavam para dentro e para fora das células nervosas através de canais com a ajuda de uma molécula chamada acetilcolina que estes peixes produzem em grande quantidade e para a qual têm muitos receptores. Os cientistas contaram também com a ajuda de venenos de outros peixes e cobras que usaram para bloquear a transmissão dos impulsos nervosos e assim estudar melhor o funcionamento e controlo destes impulso.

Só há pouco tempo foi possível perceber qual a estrutura tridimensional dos canais iónicos e entender melhor porque os canais de sódio e potássio são específicos para cada um destes iões e não permitem a passagem do outro ião.1 Para isso, os cientistas contaram com uma técnica muito poderosa para determinar a estrutura das moléculas: a difracção de raios x.2

Mas voltando à raia eléctrica: por que razão não dá esta choques em si mesma, pergunta o meu filho? Os peixes eléctricos controlam, através do seu sistema nervoso, o momento em que produzem a descarga eléctrica. São também muito sensíveis aos campos eléctricos que os rodeiam, controlando muito bem as descargas eléctricas que produzem. Os peixes eléctricos não dão choques em si mesmos porque as suas células produtoras de electricidade, assim como os órgãos que originam a descarga eléctrica, estão muito bem isolados do resto do seu corpo. Por outro lado, as suas vítimas recebem o choque eléctrico em todo o corpo, através da água. Assim, embora não dêem choques em si mesmos, os peixes eléctricos poderiam na prática dar choques uns aos outros, o que normalmente não fazem.

Referências
- The Shocking History of Electric Fishes: From Ancient Epochs to the Birth of Modern Neurophysiology, S. Finger e M. Piccolino (OUP, USA, 2011).
- Biochemistry, J. M. Berg, J. L. Tymoczko e L. Stryer (Freeman, USA, 2002).

Notas
1O sódio não passa no canal de potássio por, paradoxalmente, ser muito pequeno e assim não ser favorável, em relação à energia de solvatação, a energia de interacção deste com os resíduos moleculares do canal. Já o potássio não passa no canal do ião sódio por ser demasiado volumoso.

2A difracção de raios x está relacionada com as típicas radiografias apenas por usar radiação da região dos raios x. De facto, a imagem que a difracção de raios x permite obter das moléculas é conseguida de forma indirecta. Primeiro é preciso que as moléculas tenham sido cristalizadas. Em seguida, como num cristal as distâncias entre os átomos apresentam regularidades periódicas, aparecem padrões no espectro dos raios x difractados que, depois de analisados (actualmente usando programas de computador), revelam a estrutura tridimensional da molécula. Vale a pena o esforço, pois conhecer a estrutura e o funcionamento dos canais iónicos é muito importante para um melhor entendimento dos mecanismos de controlo da dor e do vício das drogas e se poderem desenvolver medicamentos mais específicos e eficazes. Apenas em 1998 foi obtida a estrutura dos canais de potássio por raios x (Prémio Nobel em 2003). Nos livros de bioquímica publicados até 2011 não aparecem estruturas tridimensionais do canal de sódio. De facto, só em Julho de 2011 foi publicado na Nature (The crystal structure of a voltage-gated sodium channel, Payandeh J, Scheuer T, Zheng N, Catterall WA, Nature. 2011, Jul 10) a estrutura obtida por difracção de raios x de um canal de sódio de uma bactéria, revelando os truques utilizados para a sua especificidade para o sódio.

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...