sábado, 14 de fevereiro de 2009

Cafés de ciência

Começa já esta segunda-feira no Técnico uma iniciativa do meu departamento para parte da qual gostaria de convidar os nossos leitores. Embora os módulos «Explora a Ciência» e a «Ciência Divertida» dos Laboratórios Abertos sejam dirigidos aos alunos do secundário, do 8º ao 12º anos, os «Cafés de Ciência» estão abertos ao público em geral.

Estes «cafés» são um espaço informal de debate sobre questões científicas de impacto no quotidiano e de que todos ouvimos falar muitas vezes, em particular nos media, mas na maioria das vezes sem a perspectiva científica que permite, e aqui peço emprestadas as palavras de Roald Hoffmann, «resistir às palavras sedutores de, sim, peritos, que podem ser reunidos para apoiar toda e qualquer actividade nefária». Pretendemos assim promover um reflexão conjunta que por um lado aproxime a ciência dos cidadãos e por outro contribua para impedir que «a ignorância da ciência se constitua uma barreira ao processo democrático»

Os Cafés de Ciência contarão com um painel de docentes do DEQB e convidados de outras áreas científicas que discutirão com os presentes temas que reflectem a importância da ciência na nossa sociedade. Começaremos com um café sobre células estaminais que contará, para além de mim, que moderarei todos os cafés, com a Cláudia Lobato da Silva e o Francisco Santos, e com o Ludwig

Na terça feira o tema é um recorrente no De Rerum Natura, energias alternativas e sustentabilidade, seguindo-se na quarta um café sobre engenharia genética e saúde, em que se pretende discutir terapia génica e vacinas de ADN. Na quinta-feira o café terá como tema o impacto da química em áreas como a saúde e o ambiente, terminando esta série com um debate sobre empreendedorismo e inovação, algo que a presente crise torna premente discutir.

Os debates terão lugar no Pavilhão Central do Instituto Superior Técnico e iniciar-se-ão ás 17 horas. Contamos convosco!

Ainda a língua do João

O Professor João Boavida respondeu amavelmente ao meu post sobre o seu post convidado, o que muito agradeço. Há aspectos em que concordamos. Por exemplo, a atitude provinciana de tentar copiar a academia americana ou britânica. Em filosofia eu vejo muito isso e farto-me de rir e de combater tal tolice. Este tipo de coisa acontece quando se é incapaz de ver a qualidade por si mesma, precisando nós que venha escrito em inglês para ser de qualidade — quando na realidade há filosofia escrita em português com maior qualidade do que muitas tolices escritas em inglês. Também concordo que as línguas evoluem e que a centralidade científica e cultural das línguas muda: no séc. XII o latim era a língua culta na Europa, apesar de a maior parte da população do mundo não saber sequer que existia a Europa; hoje, a maior parte das pessoas falam mandarim, mas ninguém sente que é importante aprender mandarim, porque não há a percepção de que exista bibliografia culturalmente relevante nessa língua. E todas estas mutações, é preciso não o esquecer, seguem as mutações políticas e económicas, porque a cultura custa muito dinheiro e a cultura sofisticada só subsiste junto dos grandes poderes económicos, que a podem pagar.

O que nos separa, então? Isto: não concordo com atavismos, com defesas nacionalistas de línguas, nações ou “almas” e “sentires” linguísticos. Que este tipo de defesa tem qualquer coisa de irracional — como defender a imensa superioridade do Benfica — é o facto de os portugueses nunca defenderem o sueco, por exemplo, ou o suaíli, mas sim o português, pela simples contingência de o português ser a sua própria língua. Isto é como defender que eu tenho direito a três refeições por dia mas o Xico não porque eu sou eu e o Xico não é eu.

As pessoas devem poder fazer o que quiserem, na língua que quiserem. Se querem fazer filosofia em hebraico, que o façam. Mas uma coisa parece evidente: sem uma língua comum, amplamente internacional, não pode haver uma comunidade científica e cultural internacional; e é importante que exista tal coisa, seja em que língua for. Se não fosse a mentalidade de defesa nacionalista de línguas, nunca se teria abandonado o latim como língua académica internacional, e isso seria melhor porque o latim já não estava associado a qualquer país e portanto não era sentido como um assalto de estrangeiros à nossa língua. Mas as fantasias estatistas da Europa moderna destruíram o latim, usando com má-fé o tipo de argumentos que hoje o Professor Boavida usa com boa-fé: a ideia de que era inigualitário usar uma língua que só os cultos entendiam, mas não o povo em geral. Evidentemente, se os políticos da altura estivessem preocupados com o povo, pensariam em dar-lhes formação escolar em latim, e não em fragmentar a língua académica internacional em dezenas de línguas que mais não foram do que a expressão do estatismo político que servia os políticos mas não os físicos, nem os biólogos, poetas, filósofos ou romancistas.

Em resumo: não há boas razões culturais ou científicas para defender a nossa língua nacional por ser nossa, e não se pode defender tal coisa sem se defender um isolacionismo que é a negação da cultura ou da ciência. Isto porque caso se defenda que cada académico ou cada filósofo deve escrever na sua língua, só os poucos que lessem essa língua poderiam ler o que eles escrevem, dado que nenhum académico pode dominar 40 línguas — e há muito mais do que 40 línguas no mundo. As razões para fazer defesas de línguas são exclusivamente políticas e nacionalistas, e não culturais nem científicas; e essas razões políticas e nacionalistas nunca têm realmente em mente o que é melhor para as pessoas reais, mas antes um projecto político qualquer, que geralmente foi concebido como coisa abstracta e desumana, fazendo-se contra as pessoas e não por elas nem para elas.

Uma última nota: concordo que o académico tem o dever prima facie de divulgar, na língua mais comum entre os seus concidadãos, a sua área da especialidade. É o que eu tento fazer. Mas não defendo que todo o académico tem esse dever; há académicos que ou não têm jeito para isso ou não têm interesse nisso ou estão demasiado ocupados com o futebol, e eu penso que isso é inteiramente legítimo. Desde que um dado número de físicos portugueses, por exemplo, escreva bons livros de divulgação e ensino em português, para chegar aos estudantes e ao público em geral, não precisamos que todos os físicos o façam.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

DEBATE SOBRE DARWIN


Informação recebida da FNAC (clicar para ver melhor).

O HUMOR DE DAVID MARÇAL: CARLOS DAVIN

O humor de David Marçal tal como apareceu no último "Inimigo Público":

Carlos Davin, o naturista português que é o verdadeiro autor da Teoria da Evolução (As extraordinárias coincidências biográficas de que o usurpador Charles Darwin tirou partido)

Carlos Davin nasceu (tal como Charles Darwin) a 12 de Fevereiro de 1809 no seio de uma família burguesa na ilha Terceira (Darwin em Shrewsbury e foi o Quinto filho). Davin entrou na faculdade de medicina, curso que nunca acabou, tornando-se em vez disso Testemunha de Jeová (Darwin desistiu de medicina e estudou para se tornar membro da Igreja Anglicana).

Davin fez-se um naturista competente, passando a maior parte dos tempos livres nas praias desertas, procurando evitar os olhares mirones e um pouco de sol. (Darwin era naturalista e passava os seus tempos livres no campo, a observar a fauna e a flora e as sucessões de fósseis). Davin reuniu uma colecção espantosa de tampas de refrigerantes (Darwin de escaravelhos) que classificou de um modo apaixonado. Nas suas viagens naturistas Davin conhece a arriba fóssil da Costa da Caparica, que o influenciou profundamente. Era também um exímio caçador de linces ibéricos, que apreciava com limão, um pouco de alho e conquilhas da Ria Formosa, cujas cascas se dedica a observar. (Darwin conhece a fauna e a flora de Cabo Verde, Brasil, Terra do Fogo, Galápagos, Taiti, Nova Zelândia, Austrália). É a estudar as cabras do ilhéu das Cabras na Terceira, apenas com salsa e coentros, que Davin põe pela primeira vez em causa o principio da estabilidade das espécies, tomando nota na toalha de mesa de um tasco em Angra (Darwin passa pela Terceira exactamente na mesma altura e encontra a anotação feita por Davin. Estrategicamente escreve no seu diário que não encontrou nada digno de nota nas ilhas açorianas).

Davin metia sucessivas baixas por doença e vivia atormentado com complicações gástricas devido a excessos alimentares, que faziam parte do seu estudo das espécies comestíveis (Darwin era hipocondríaco e vivia atormentado pelas contradições da evolução das espécies com as suas crenças religiosas). Demorou cerca de 20 anos a escrever o "Transformismo da bicharada", sua obra maior, infelizmente escrita em dialecto de Rabo de Peixe (Darwin escreveu a Origem das Espécies, exclusivamente com base nos rascunhos da toalha de mesa de Davin, em inglês).

David Marçal

O CARRO DE HEISENBERG


Minha crónica no "Público" de hoje (uma petição contra a instalação obrigatória do chip nos carros encontra-se aqui):

Conta-se uma anedota sobre Werner Heisenberg, o físico alemão que formulou o princípio da incerteza da teoria quântica. Um polícia mandou-o parar por o seu carro se deslocar com excesso de velocidade:

- O senhor sabe a que velocidade ia?
- Eu não. Sei onde estou e não se pode saber as duas coisas ao mesmo tempo!

Claro que o princípio da incerteza de Heisenberg se aplica a electrões e a outras partículas subatómicas e não a veículos. É possível saber onde está um automóvel e a que velocidade vai, mas, desde que os limites legais de velocidade sejam respeitados, essa informação não devia interessar a ninguém. O governo português, com a introdução obrigatória de um chip na matrícula de todos os automóveis, poderá vir a saber onde estamos e, porventura, também a que velocidade vamos. O nosso direito à incerteza pode estar em risco...

De pouco valeram as dúvidas levantadas pelo Presidente da República quando o governo pediu à Assembleia da República autorização para legislar sobre a utilização de um chip identificativo. E de pouco valeram as reservas levantadas pela Comissão Nacional de Protecção de Dados. O Conselho de Ministros de 5 de Fevereiro passado aprovou uma lei que poderá colocar o país vigiado por um gigantesco “Big Brother”. Se essa lei entrar em vigor, as autoridades poderão conhecer a localização exacta no espaço e no tempo dos automóveis e, cruzando essa informação com a das bases de dados que têm à sua disposição, poderão diminuir perigosamente a privacidade a que todos temos direito.

Numa sociedade livre, o cidadão deve poder ir onde quiser sem que ninguém tenha nada a ver com isso. Mas agora, em Portugal, se for de carro, terá um chip – bip! bip! - a emitir sinais da sua presença para tudo o que for portagens, polícias e sabe-se lá que mais. Eu, que decidi livremente aderir à Via Verde, sei que, pelo menos para as portagens, parques de estacionamento, bombas de gasolina, etc., a minha presença está a ser registada e espero que haja um uso limitado desses registos. Mas o que o governo pretende agora fazer tem um potencial de risco bem maior: quer impor um sistema desse tipo a toda a gente (além do mais, cobrando-nos o chip) e quer fazer um uso indiscriminado dele (por exemplo, a nova lei fala não só do pagamento de portagens mas também de “outras taxas rodoviárias e similares”, sem especificar quais elas são).

A abstrusa lei levanta dificuldades de vária ordem. O que fazer com os numerosos automobilistas que, como eu, têm Via Verde, que funciona bem? Terão de a deitar fora e comprar o novo chip? O que fazer com os veículos estrangeiros? Serão distribuídos chips na fronteira? E que confiança oferece a nova empresa a quem vai ser dado o exclusivo da gestão do sistema? Num país onde o segredo de justiça é letra morta e onde até já apareceram na redacção de um jornal listas de chamadas telefónicas do Procurador Geral da República e do próprio Presidente da República (o “envelope 9” do caso Casa Pia), será que o pior ainda está para vir?

Em países com mais tradição democrática, uma lei deste tipo teria enorme dificuldade em passar. É facto que no Brasil se discute uma iniciativa semelhante, mas, nos países anglo-saxónicos, como a Inglaterra de Orwell, o direito a “to be left alone” é um “must”. A liberdade individual é aí indiscutível. Os carros são incertos como o de Heisenberg. Aqui o governo usa a força da sua maioria absoluta para chipar os nossos carros e permanece surdo e mudo perante as vozes de muitos cidadãos, que, na imprensa, na Internet e por outros meios, exercem o seu direito à indignação. Não é um sintoma da saúde da nossa democracia que essas vozes, a avolumar-se dia após dia em petições electrónicas, sejam completamente ignoradas.

A George Orwell, o autor da frase “Big Brother is watching you” no livro “1984”, não terá passado pela cabeça que 1984 acontecesse em 2009, em Portugal. Mas estamos ainda a tempo de evitar que essa ficção se torne realidade. Chipados os carros, o que se chiparia a seguir?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Não me F**** o Juízo

Informação recebida da Bizâncio sobre um livro de filosofia acabado de sair:

Título: Não me F**** o Juízo
Subtítulo: Crítica da Manipulação Mental
Autor: Colin McGinn

Colecção: Filosoficamente, 5
ISBN: 978-972-53-0413-6 Código de Barras: 9 789 725 304 136
Págs.: 96
Preço: Euros 7,14 / 7,50
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Uma coisa é estar rodeado de tretas. Outra completamente diferente é que nos fodam o juízo. A primeira é irritante, mas a segunda é violenta e invasiva (excepto quando consentida). Se alguém lhe manipular os pensamentos e as emoções, lixando-lhe a cabeça, é natural que fique ressentido: o indivíduo em questão distorceu as suas percepções, perturbou os seus sentimentos, talvez até lhe tenha usurpado o Eu. A psicofoda é um aspecto predominante da cultura contemporânea e o agente que a pratica tanto pode ser um indivíduo como todo um Estado, dos jogos de manipulação pessoais até à propaganda em grande escala. Em Não me F**** o Juízo, Colin McGinn investiga e clarifica este fenómeno. Da antiga Grécia a Shakespeare e às técnicas modernas de controlo de pensamento, McGinn reúne os componentes deste complexo conceito — confiança, logro, emoção, manipulação, crença falsa, vulnerabilidade — e explora a sua natureza.

ROBÔ EINSTEIN

O Robô Einstein foi apreesntado numa recente conferência sobre tecnologia, entretenimento e design (TED 2009) em Long Island, nos Estados Unidos. Só lhe falta falar inglês com sotaque germânico...

Parabéns, Darwin!

DARWIN ENTRE NÓS



Hoje é o dia Darwin, o dia em que se comemoram 200 anos do nascimento do grande sábio inglês. Assinalando o dia, pré-publico o meu prefácio do livro de Paulo Trincão, "O Português que se Correspondeu com Darwin", a publicar dentro de dias pela Gradiva, que versa a história da relação entre Darwin e o açoriano Arruda Furtado:

A ciência desenvolveu-se extraordinariamente no século XIX, mas, criada noutros lados, em Portugal foi chegando com atraso, por vezes mesmo com grande atraso. No século XIX assistiu-se à segunda vaga da Revolução Industrial, não só com o desenvolvimento das máquinas térmicas (é o século da termodinâmica) mas também e principalmente com o desenvolvimento das máquinas eléctricas e das telecomunicações (é o século do electromagnetismo). Portugal, se tinha acompanhado, graças à Reforma Pombalina, o triunfo da física de Galileu e Newton e o início da química e da história natural, foi ficando para trás na ciência enquanto importava a tecnologia. Foi para nós um século conturbado, em primeiro lugar com as invasões napoleónicas, depois com a independência do Brasil, a guerra civil e ainda com as muitas vicissitudes da monarquia constitucional.

A riqueza deixou nessa época de vir da conquista e do comércio para passar a vir da indústria e dos serviços, ambos os sectores baseados no conhecimento. Graças ao conhecimento científico, o desenvolvimento na Europa e na América do Norte foi então explosivo. Para isso foi indispensável um intenso processo de escolarização da população. Mas nós, que éramos um dos países mais ricos do mundo no início do século XIX, não tivemos nem alfabetização, nem ciência nem industrialização na medida suficiente, pelo que passámos rapidamente do topo quase para o fim da lista das nações do primeiro mundo. Em Portugal sempre, mais ou menos, melhor ou pior, se ensinou ciência, mas raras vezes se praticou ciência com um nível de excelência internacional. O nosso século XIX foi a esse respeito sintomático. Entre os cientistas portugueses desse século conhecidos no mundo científico talvez só tenham lugar o botânico Félix Avelar Brotero e o matemático Francisco Gomes Teixeira. A ciência, que traz o desenvolvimento, se chega imediatamente onde é feita, aos outros sítios demora a chegar... Por outro lado, o progresso das ciências e a revolução industrial foram acompanhados por desenvolvimentos no campo da filosofia e, em geral, das ciências humanas, que não tardaram a chegar cá (Eça de Queirós fala dos livros que chegavam a Coimbra vindos de Paris por caminho de ferro pelo “Sud- Express”). Deu-se, em Portugal, o caso curioso de alguma ciência dessa época ter chegado embrulhada em filosofia e ou em ideologia, por vezes bastante adulterada...

O caso do inglês Charles Darwin, que foi talvez o maior cientista do século XIX (apesar de não ter tido um impacto na vida quotidiana tão grande e imediato como outros como os físicos Faraday, Maxwell e Hertz), permite ilustrar de modo eloquente o afastamento português da ciência no século XIX. Darwin publica em 1859 a sua famosíssima obra “A Origem das Espécies” em Londres, capital de um dos países mais avançados e mais ricos do mundo. O biólogo da Universidade de Lisboa Germano da Fonseca Sacarrão chamou já a atenção, na sua obra “Biologia e Sociedade” (Europa-América, 1989), não só para a resistência às ideias darwinistas entre nós, o que não é de admirar dada a sociedade inculta, agrícola e religiosa que nós fomos durante muito tempo, mas, o que é pior, para a nossa indiferença ao darwinismo. A essa resistência ou a essa indiferença não será estranho o facto de a religião ter exercido uma enorme influência entre nós pois, para muitos autores, a selecção natural permitia dispensar a intervenção de Deus.

O darwinismo chegou a Portugal em 1865 pela mão de um botânico da Universidade de Coimbra, Júlio Augusto Henriques, que tratou o tema na sua tese de doutoramento (“As espécies são mudáveis?”). No ano seguinte ele retomou o tema no seu concurso para professor da Faculdade de Filosofia. Lembre-se que a “A Origem das Espécies” imediatamente suscitou uma grande procura (até 1913 publicaram-se em Inglaterra nada mais nada menos do que 148 edições!). O nosso atraso foi, por isso, apenas de seis anos, certamente atenuado pelo facto de a recepção de Júlio Henriques ter sido favorável... Mas a tradução em português da “Origem das Espécies”, na Livraria Chardron da Lello e Irmão, só apareceu em 1913 (a tradução de “A Origem do Homem”, cujo original é de 1871, teve lugar em 1910). Pasme-se com este atraso de 54 anos da edição portuguesa quando já havia centenas de edições por todo o mundo! Tal atraso poderá ser justificado pela acessibilidade de traduções francesas e pelo facto de a cultura francófona reinar entre nós na segunda metade do século XIX. Mas é, convenhamos, uma fraca justificação! Como é que se poderia ser darwinista ou antidarwinista sem se conhecer Darwin no original ou, pelo menos, sem ter uma boa tradução em português, que assegurasse um correcto entendimento e uma boa incorporação na cultura nacional?

No que toca às relações de Portugal com Darwin vale-nos, para além de Júlio Henriques, o pioneirismo de Jaime Batalha Reis, um amigo de Eça de Queirós e de Antero de Quental que, em 1866, apresentou em Lisboa uma tese de agronomia na qual referia Darwin. Mas vale-nos sobretudo e principalmente, para “salvar a honra do convento”, o notável açoreano Francisco de Arruda Furtado, que é o personagem principal desta peça de teatro da autoria de Paulo Trincão. A viver na ilha de S. Miguel, Arruda Furtado, que morreu bastante novo (aos 33 anos, da tuberculose que nessa época dizimou tanta gente, alguma dela bastante ilustre), correspondeu-se, como muito bem conta Paulo Trincão neste livro, com o sábio inglês ao longo do ano de 1881, pouco antes da morte deste, e, inspirado pelas ideias darwinistas, realizou estudos de malacologia nos Açores. É extraordinário que um jovem quase isolado numa ilha do arquipélago açoriano tenha escrito ao grande sábio e tenha obtido, quase na volta do correio, uma resposta tão simpática como encorajadora. Não admira por isso que Arruda Furtado tenha escrito sentidos obituários de Darwin em 1882 nos jornais “O Século” e “A Voz do Operário”, onde revelou toda a admiração que nutria por ele. Com efeito, o autor da teoria da evolução, a quem o açoreano chamou o “Newton da biologia”, morreu nessa data com 73 anos. O académico Júlio Henriques publicou por esssa altura, na revista da academia coimbrã “O Instituto”, uma tradução de um texto em francês de Augustin Candolle, um naturalista suíço que trabalhou em França (o darwinismo, devido à doutrina do francês Jean-Baptiste de Lamarck, conheceu grande resistência em França, podendo parte da resistência em Portugal ser explicada por esse facto). Mas o investigador autodidacta Arruda Furtado elogiou Darwin em jornais nacionais, dirigidos ao grande público, pela sua própria pena. Não só fez ciência como fez cultura científica.

O darwinismo, para além dos referidos investigadores, quase não teve, em Portugal e durante todo o século XIX, cultivadores a nível científico. Júlio Henriques desenvolveu o Jardim Botânico e o Museu Botânico em Coimbra, mas viveu longos anos (morreu aos 90), sem se ocupar muito com o transformismo biológico. O maior zoólogo português no século XIX, José Vicente Barbosa do Bocage, primo em segundo grau do escritor Manuel Maria Barbosa de Bocage, também não se ocupou desse género de questões. Esse professor da Politécnica em Lisboa, formado pela Universidade de Coimbra e curador do Museu de Zoologia de Lisboa, limitou-se quase ao estudo da sistemática (Furtado trabalhou aliás com ele no Museu). Em Portugal durante muitos e muitos anos fez-se apenas biologia da classificação, da “chaveta”, uma vez que estavam para isso à disposição muitas espécies proveniente das colónias. Mesmo entre os anos 30 e 60 do século XX, quando a teoria de Darwin ia triunfando graças à sua forte aliança com a genética, aqui não se faziam progressos visíveis além das inevitáveis referências no ensino das ciências. Infelizmente, não era objecto nem instrumento de investigação.

Mas o darwinismo lá foi fazendo entre nós o seu caminho. Depois da morte de Darwin, as suas ideias entraram na discussão cultural no nosso país, efectuada, evidentemente, apenas ao nível de algumas elites culturais. Foi nessa esfera, muito mais do que na ciência propriamente dita, que essa corrente foi recebida, tanto de “braços abertos” como de “braços fechados”. A questão da origem da espécie humana e da relação biológica dela com o macaco e outros símios contribuiu para a posição reactiva da Igreja Católica, embora com o tempo a evolução tenha acabado por ser aceite e seja hoje praticamente pacífica nessa instituição. No final do século XIX, os médicos Júlio de Matos e Miguel Bombarda propagandearam o evolucionismo, incluindo a sua aplicação à história humana, embora nem sempre seguindo a linha de Darwin (Bombarda, por exemplo, era contra a selecção natural, a ideia central na teoria darwinista). E, na história, na filosofia, na política, o darwinismo foi bastante discutido, defendido por uns e atacado por outros. Antero de Quental, cuja filosofia beneficiou de forte influência da teoria de Darwin, escreveu por volta de 1881um soneto intitulado “Evolução” (“Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo / tronco ou ramo na incógnita floresta...”), mas Eça de Queirós descreve o espírito da época ao pôr João da Ega, um personagem de “Os Maias”, obra publicada em 1888, a chamar “besta” a Darwin (“Queres que te diga o que penso do Darwin? É uma besta... Ora aí tens. Dá cá a garrafa”).

A recepção cultural da teoria da evolução deu-se entre nós, como aliás noutros países, graças a dois grandes divulgadores - o naturalista alemão Ernst Haeckel, autor de uma filosofia monista-evolucionista, e o filósofo inglês Herbert Spencer, arauto da ideia de “progresso” como diferenciação, passagem da homogeneidade à inomogeneidade, não apenas no domínio do orgânico mas também no domínio do social. Além de Antero e de Eça, os nomes mais proeminentes da famosa “geração de 70”, outros escritores e pensadores portugueses seus contemporâneos, como Ramalho Ortigão, Teófilo Braga, Oliveira Martins e Raúl Proença, assumiram posições marcadas, de uma ou de outra maneira, pelo evolucionismo, ideias essas que provinham de Haeckel e ou de Spencer, muitas vezes através de traduções francesas. Tais ideias foram sendo debatidas na praça pública por quem as podia e queria debater, uma elite portanto. Deu-se por isso o caso paradoxal de termos evoluído na recepção cultural das ideias de Darwin apesar de quase não termos evoluímos na sua recepção científica. Leia-se a este respeito o interessante livro de Ana Leonor Pereira sobre a recepção de Darwin em Portugal “Darwin em Portugal (1865-1914). Filosofia. História. Engenharia Social” (Almedina, 2001).

Estamos em 2009, 200 anos depois do nascimento de Darwin e 150 anos depois da publicação da “Origem das Espécies” (conforme lembra Paulo Trincão o dia de publicação desse livro seminal é o mesmo do Dia Nacional da Cultura Científica, 24 de Novembro, que assinala o nascimento de Rómulo de Carvalho). Esta peça de um autor que muito tem feito em prol da cultura científica em Portugal, nomeadamente como Director da Fábrica Ciência Viva da Universidade de Aveiro, publicada e representada oportunamente no ano Darwin, é um contributo significativo para aquela cultura. Hoje todos os biólogos são darwinistas e há um grande número de biólogos portugueses a realizar investigação científica. Trabalham à luz de Darwin e vão lançando luz sobre alguns dos mistérios que Darwin nos deixou. E temos também, muito mais do que no passado, cultura científica, isto é, ciência incorporada no seio da nossa sociedade. Hoje a educação científica está, através da escola mas não só, ao alcance não apenas de alguns mas de todos. Ao contrário do que acontecia no século XIX, é hoje possível, entre nós, ligar directamente a cultura científica à investigação científica, tornando mais fortes tanto uma como outra.

O teatro é uma bela maneira de fazer cultura científica, é uma bela maneira de, através da arte, levar a ciência – neste caso a história da ciência – ao grande público, mostrando quais são e como são os seus processos e caminhos. Se Darwin é hoje um nome bem divulgado, Francisco de Arruda Furtado não será ainda suficientemente conhecido dos portugueses. Ele, que foi uma excepção à regra do atraso científico, merece sê-lo, em particular dos jovens interessados pela ciência. Tal como ele, embora longe da ciência, quem for suficientemente curioso, esteja onde estiver, poderá aproximar-se dela, pois a tem ao seu alcance. Como a peça sugere, basta para isso ser curioso. E poderá sempre haver um sábio contemporâneo que lhe responda...

HUMOR - CRIAÇÃO

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Robôs, Guerra e o Futuro



Novo post convidado de Norberto Pires:

Estamos perto de uma revolução tecnológica que terá o nome de “Revolução da Robótica”. Estamos perto, muito perto, de ter robôs a partilhar o nosso dia-a-dia nas tarefas domésticas, como companhia, como colegas de trabalho, como assistentes de todo o tipo de actividades. É fascinante o que pode acontecer, e de facto esta revolução que se aproxima é bem a demonstração do génio e da capacidade do homem em fazer ciência e reinventar o seu futuro.

Como é que esta história fascinante começou?
Por incrível que pareça a história da robótica funde-se com a história da humanidade. A robótica não é uma invenção do século XX, nem do nosso milénio sequer. Fez parte do tempo e das reflexões de muitos dos melhores pensadores da nossa história comum: passou pela Grécia antiga, pelos árabes, andou com Leonardo Da Vinci, Nicola Tesla e muitos outros. Quando teve as condições próprias desenvolveu-se e está prestes a mudar a forma como vivemos.

Veja aqui um texto sobre a evolução da Robótica até aos dias de hoje:
http://robotics.dem.uc.pt/norberto/nova/pdfs/gregosxxi.pdf

A robótica moderna tem cerca de 50 anos. Teve o seu desenvolvimento potenciado pelo aparecimento do transístor e o desenvolvimento de componentes em semiconductor, e com eles dos computadores, dos sensores e actuadores, da informática e da capacidade de projectar e simular mecanismos complexos. Também beneficiou muito do I&D em novos materiais e soluções estruturais robustas e mais leves.

Uma boa revisão do estado actual e perspectivas futuras da robótica é apresentada no livro “Handbook of Robotics”, editado em 2008 pela prestigiada editora Springer (a maior editora mundial de ciência e tecnologia). Esse livro recebeu agora dois prémios PROSE (em Physical Sciences and Mathematics, e em Engineering Technologies), organizados pela Associação Americana de Editores, reconhecendo o mérito dos sucessos obtidos pela comunidade científica mundial na área ao longo destes 50 anos. Os editores do livro (Bruno Siciliano, presidente do IEEE Robotics and Automation Society e professor na Universidade de Nápoles, e Oussama Kathib, professor na Universidade de Stanford) reuniram 64 autores de todo o mundo (um português) com o objectivo de abranger todas as áreas da robótica.

Isto são coisas positivas e que nos deixam de olhos postos no futuro.

Mas, existe um lado negro e até assustador. Num livro recente (Wired to War), Peter Singer, Director da 21st Century Defense Initiative, lança um alerta sobre a possibilidade de usar a tecnologia robótica em aplicações militares letais e cruéis. Na verdade, isso também está próximo de acontecer. Robôs usados como soldados sem escrúpulos e letais, que fazem o trabalho sujo em cenários de guerra complicados, ou em acções terroristas. Na verdade, um robô não precisa de uma promessa de uma vida eterna com 72 virgens para fazer atentados ou cumprir uma missão assassina. Basta ser programado para isso ou controlado à distancia. Essa tecnologia robotizada e sem intervenção humana já existe, e é usada pelos militares para missões de alto risco. Quando for capaz de ser autónoma (aquilo que já sabemos fazer em muitas situações), isto é, quando for capaz de analisar o cenário e tomar decisões tendo em conta os objectivos que lhe foram fixados, permitirá construir máquinas temíveis, cruéis, muito eficazes e verdadeiramente assustadoras.

Também não me deixam nada orgulhoso os desenvolvimentos de robótica usados para a indústria do sexo. Máquinas parecidas com homens e mulheres que podem ser usadas como parceiro sexual. Funcionam, dizem. E como muitos diriam, têm a vantagem de ter um botão de ON e OFF.

Como em tudo na vida, podemos optar pela ciência e por usá-la para melhorar a nossa vida, fazendo justiça à nossa capacidade criativa. Mas também podemos criar situações terríveis que colocam em risco aquilo que somos. Como sempre podemos escolher, e eu sei que escolheremos bem.

J. Norberto Pires

Links:
Handbook of Robotics, Springer, 2008 (aqui)
Wired for War, 2009 (aqui)
Humanoid robot (woman): aqui e aqui.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Contra a língua do João

O bem-vindo post convidado do professor João Boavida permite-me alinhavar algumas ideias contrárias às suas. Espero que o contraste seja bom para fazer as pessoas pensar outra vez.

O que o João diz é repetido mil vezes por mil pessoas em mil artigos de opinião de todos os jornais, desde há séculos: a defesa da Nossa Língua e da Nossa Cultura. E a questão fundamental que se coloca é por que haveria alguém de querer defender tal coisa; por ser Nossa?

Há muitas ilusões aqui envolvidas. A primeira é que parece que estamos a falar de defender que não se deve matar pessoas; e realmente não se deve matar pessoas, nem povos inteiros. Mas matar uma cultura ou uma língua é outra coisa completamente diferente. Nada se mata de facto; ninguém morre. As pessoas apenas deixam de usar uma dada língua e passam a usar outra; e o que foi escrito na língua antiga continua disponível, podendo ser lido pelos especialistas nessa língua morta, eu em boas traduções. Afinal, é o que acontece com o latim, o grego antigo e outras línguas mortas. Imagine-se que a língua portuguesa já tinha morrido no séc. XVIII. Não teríamos Eça nem Saramago? Tolices. Claro que teríamos. Só que eles escreveriam e sentiriam as coisas noutra língua qualquer — o castelhano, por exemplo, o que seria bem melhor para eles. Portanto, não se trata de matar pessoas nem de matar povos nem de matar culturas. Trata-se apenas de usar uma ou outra língua.

O segundo aspecto é que muitas línguas são puras mentiras políticas, inventadas por políticos espertos que queriam dividir para conquistar. É o caso da língua portuguesa. Não é mais do que latim à toa, que depois foi trabalhosamente aperfeiçoado numa nova língua, e que mais tarde foi artificialmente afastada do castelhano. Uma língua é sempre uma arma política, e o expoente máximo da eficiência dessa arma é alguém pensar, como o João, que está a defender uma posição humanista, quando na verdade está a fazer o mesmo do que os que defendem a bandeira, o hino e o Quinto Império. Nada disto tem a ver com o que interessa aos escritores, poetas, filósofos, estudantes, cientistas. O que interessa a todas estas pessoas é terem liberdade e condições para fazerem o seu trabalho e poderem usar uma língua culta qualquer, que tenha sido cuidadosamente burilada ao longo de séculos de erudição. Coisa que não acontece na língua portuguesa, que quase não tem vocabulário científico nem filosófico, pela simples razão de que ao longo da maior parte da história a ciência e a filosofia não se fizeram em Portugal. E continuam a não se fazer. E isso é normal porque a maior parte dos países ao longo de toda a história da humanidade nunca fizeram tais coisas.

O importante, em suma, é olhar para as pessoas em vez de deixarmos de as ver porque estamos a olhar para abstracções. Perguntemo-nos o que é realmente importante para os nossos jovens estudantes. E se fizermos esta pergunta, a resposta é que para eles é importante o mesmo que é importante para os jovens estudantes dinamarqueses, suecos ou israelitas: que a língua inglesa lhes seja tão própria quanto a língua portuguesa, porque isso será para eles o passaporte de acesso à maior bibliografia que o planeta já conheceu. Se uma pessoa quiser ler a maior parte da história, filosofia, economia, biologia, teologia, física, literatura ou poesia, não pode fazer isso em português. E este facto é que conta. É este facto desagradável? Sim. Para os nacionalistas. É desagradável quando olhamos para abstracções em vez de olharmos para as pessoas. A única coisa má nisto é que hoje, porque não há a coragem política de fazer da língua inglesa a língua escolar oficial em Portugal e no Brasil, os alunos andam perdidos a ler tolices mal traduzidas, porque não dominam uma língua culta. E os que a dominam é porque ou são ricos e andaram nos melhores colégios, ou se esforçaram pessoalmente. Num ou noutro caso, introduz-se uma injustiça que preocupa muito mais o humanista do que a tolice de saber se as pessoas fazem economia ou química em latim, hebraico ou letão.

E pronto, venham de lá os protestos, nomeadamente do professor João Boavida!

Eça de Queirós e Darwin

Eça de Queirós escreveu-me, muito magoado. Que neste ano em que já toda a gente está farta de ouvir falar de um homem de barba branca chamado Darwin e que parece o Pai Natal mas na verdade acabou com o Pai Natal Divino, segundo o Grande Jónatas, Apóstolo do Senhor, que neste ano, dizia, não se recorda a grande, a imensa, a maravilhosa homenagem prestada por Eça, por meio de Ega, ao grande Darwin. É nos Maias, quando Ega,vestido de Mefistófeles, está choroso com o fim do seu affair com a Cohen, a Raquelzinha:

— Se vocês soubessem que corpo de mulher! — gritou ele de repente. — Oh! meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocês um peito...

— Não queremos saber — disse Carlos. — Cala-te, tu estás bêbedo, miserável!

Ega ergueu-se, retesando a perna, arrimado de lado à mesa.

Bêbedo! Ele? Ora essa!... Era coisa que não podia, era empiteirar-se. Tinha feito o possível, bebido tudo, até aguarrás. Nunca! Não podia...

— Olha, vou pôr aquela garrafa à boca, tu verás... E fico frio, fico impassível. A discutir filosofia... Queres que te diga o que penso de Darwin? É uma besta... Ora aí tens. Dá cá a garrafa.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

PAULO GAMA MOTA SOBRE SELECÇÃO E NÃO SÓ



Depoimento sobre evolução (e não só) ao Ciência Viva TV de Paulo Gama Mota

FESTA DE ANOS DO DARWIN


Informação recebida do Frágil:

Se não puderam ir às anteriores, não podem perder esta! Mas é surpresa, se o virem não lhe digam.

12 de Fevereiro a partir das 23h00, no Frágil

No ano em que se comemoram 150 anos de "A origem das espécies", no dia em que começa a exposição "A evolução de Darwin" na Fundação Calouste Gulbenkian celebra-se o 200º aniversário de Charles Darwin.

Venha comemorar connosco o aniversário de um dos homens que mudou a nossa visão das Ciências da Vida e de nós enquanto espécie.

Com um trabalho fora de série, o cientista era também um homem. E quem não gosta de festejar os seus anos junto daqueles que lhes querem bem?

Esta é uma festa para todos os que querem celebrar a existência de Darwin. E a sua.

Importante
- Tragam as vossas máquinas fotográficas digitais para registar a festa. Depois enviem-nas para cqd.geral@gmail.com, com a legenda e instituição de acolhimento. Haverá prémios para as melhores fotos da noite
- Confirmem as vossas presenças

Fragil
DJ Nuno Lopes
Rua da Atalaia, 126
Bairro Alto, Lisboa
Promotores: c.q.d. e comissariado da exposição "A evolução de Darwin"
Apoios: Associação Viver a Ciência, Flying Sharks, Fundação Luso-Brasileira, Jardim Zoológico, Fnac, Oceanário de Lisboa
anosdarwin.blogspot.com

O problema dos economistas

O The Economist resolveu escrever o artigo «Untouched by the hand of God», baseado numa selecção de dados de 2006 que referem ter retirado do New Scientist (clicar nas imagens para aumentar). Na realidade, os autores só acertaram na data, o artigo de que retiraram os dados foi publicado na Science e não tinha qualquer ornamentação espúria com chimpanzés, que só alimenta um equívoco muito disseminado, que os «humanos são descendentes dos macacos», explorado ad nauseam pelos criacionistas de todos os flavours embora seja totalmente errado, como todos os argumentos criacionistas.

Péssimo gosto no design gráfico e fontes erradas àparte, este artigo dá conta ao público em geral, que normalmente não lê a Science, de algo totalmente inesperado no ano em que se celebram 150 anos da publicação do livro «A origem das espécies». De facto, a evolução, em que assenta toda a ciência que permitiu avanços espectaculares que beneficiam a vida de muitos, é repudiada por um número assombroso de pessoas, em particular nos Estados Unidos e na Turquia, mas também na Bulgária, Lituânia, Letónia e Chipre. Portugal, para variar, está na metade inferior da tabela, bem abaixo da vizinha Espanha, o que não é muito abonatório do nosso sistema de ensino.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Leitores de livros digitais

Para preparar esta reportagem do Jornal de Notícias, o jornalista Sérgio Almeida fez-me algumas perguntas, a que respondi assim:

1. Em que sentido os leitores digitais de livros vieram modificar os seus hábitos de leitura?

Passei a ler mais, porque posso comprar ou puxar gratuitamente da Internet livros que de outro modo não compraria. Li alguns clássicos da literatura norte-americana que provavelmente não teria lido se não tivesse comprado o BeBook. E libertei-me do computador para ler artigos académicos, pois posso transferi-los para o BeBook e lê-los na cama, em viagem, no restaurante, no jardim.

2. Quais as principais vantagens e desvantagens que, em seu entender, os actuais modelos apresentam?

A desvantagem óbvia é o ecrã ser demasiado pequeno, pois imita a dimensão reduzida dos trade paperbacks norte-americanos. Espero que surjam leitores com o dobro da dimensão, o que permitirá uma leitura mais confortável de PDFs de livros académicos. As vantagens são a portabilidade, facilidade de leitura, duração da bateria.

3. Há pelo menos uma década que se fala na consolidação dos dispositivos de leitura electrónica, mas a sua circulação ainda é, pelo meno no nosso país, muito restrita. Que factores encontra para estas resistências?

Em Portugal não sei como as coisas são; o próprio mercado editorial é muito limitado porque o país é ridiculamente pequeno e ainda por cima a esmagadora maioria das pessoas nunca lê um só livro em toda a sua vida de adulto. Internacionalmente, só em 2008 os leitores electrónicos de livros se afirmaram. Presumo que demore algum tempo a tornar-se comum em Portugal, mas é natural que acabe por acontecer — nomeadamente porque, do ponto de vista editorial, não é difícil editar e comercializar livros em formato MOBI, vendendo-os na Internet.

4. Os modelos mais recentes já apresentam desempenhos muito positivos ou a evolução ainda é demasiado amplas para que consideremos satisfatórios os actuais aparelhos?

Só conheço por contacto directo o BeBook, que é em qualquer caso muito análogo aos modelos da Philips, da Sony e da Amazon. Apesar de a dimensão do ecrã ainda ter claramente de ser repensada, o BeBook permite horas e horas de leitura confortável e armazena milhares de livros. Parece-me um aparelho perfeitamente satisfatório e um investimento muitíssimo mais atinado do que um telemóvel sofisticado.

5. O monopólio da edição em papel tem tendência a perder-se?

Não existe já monopólio da edição em papel, pois há pelo menos uma década que há livros electrónicos na Internet, tanto gratuitos como comerciais. O problema até agora era que ficar horas sentado numa cadeira a ler livros num ecrã de computador era o cúmulo da chatice. Daí que tais livros nunca tivessem tido grande procura. Mas agora temos finalmente maneira de poder usar esses livros electrónicos, lendo-os com o mesmo conforto (e mais portabilidade: imagine-se o que seria viajar com 200 livros em papel!) com que lemos os livros em papel. Continuará provavelmente a haver livros em papel, durante décadas, nomeadamente livros ilustrados coloridos, dado que a tecnologia do papel electrónico é exclusivamente a preto e branco, por enquanto.

Podem destruir-se as culturas?

Novo post convidado de João Boavida, antes publicado no Diário As Beiras, sobre um assunto que, tanto é olhado como desprovido de interesse reflexivo, como é posto no cerne da identidade cultural: a língua ou línguas que usamos para pensar e comunicar.

É conhecida a nossa tradicional francofonia. Eça de Queirós, quando chegou a Lisboa, ido de Coimbra, reconheceu, espantado: “Era outra vez a França, sempre a França. Eu deixara-a dominando em Coimbra, sob a forma filosófica; vinha encontrá-la conquistando Lisboa, de pena no ar, sob a forma do can-can…” E não era só connosco. As elites russas de novecentos gostavam de falar francês, leia-se “Guerra e paz”, do Tolstoi. Boa parte do século XX é ainda francófona.

O deslocamento do centro de gravidade da Europa para os Estados Unidos, durante o século XX, foi fatal para a cultura e língua francesas. O poder americano, económico e político, a investigação científica, as universidades e a maciça colonização audiovisual tornaram o inglês língua dominante.

Mas, devemos promovê-la diligentemente, ou tomar algumas distâncias sanitárias? Há quem veja aqui um dilema: se aceitarmos o facto, engrossamos o caudal e afundar-nos-emos, como cultura, na corrente cada vez mais forte; se reagimos e a rejeitamos, ficaremos isolados, longe dos da frente na economia e na ciência, aumentando o nosso atraso. Mas os dilemas residem, muitas vezes, mais nos espíritos rígidos que os formulam que nas situações que pretendem traduzir; portanto, as coisas não devem ser vistas assim.

Mas o problema é sério. A longo prazo pode significar o fim da nossa cultura. Podem dizer-me: a questão põe-se só para a ciência e a economia. Mas não são ciência e economia dois dos maiores factores de dinamização e estruturação social e cultural? E nem as artes escapam, com a música à cabeça. Abram-se as nossas estações de rádio e contabilize-se o número de diligentes e excitados promotores da música anglo-americana. Resta a literatura como campo da nossa especificidade cultural. Nela, por enquanto, a língua portuguesa ainda é a nossa pátria, como dizia o Pessoa; mas por quanto tempo?

Quando os cientistas só falarem e escreverem em inglês e os alunos tiverem que falar inglês nas universidades, o inglês acabará por vir para as ruas, transformando as outras línguas numa misturada, como aconteceu com o baixo latim. Ou então cientistas e homens cultos fechar-se-ão em grupos, isolados da população ignara, acabando por tirar às culturas o alimento que lhes dá vida e força.

É bom recordar aos políticos que o português é uma língua em expansão, com perto de duzentos e cinquenta milhões de falantes. Precisa, pois, de criar e valorizar léxicos científicos, estruturas sintácticas treinadas no pensamento exigente e complexo. E é suficientemente rica e dúctil para o fazer. Bem e sem complexos, como o tem feito o castelhano, por exemplo. As línguas ganham estatuto, ou perdem-no.

O historiador Paulo Varela Gomes veio há dias, de Goa, numa crónica no Público, falar, com raiva, no modo como a língua, os hábitos, os tiques e as manias dos ingleses invadiram os territórios onde a nossa cultura em tempos “deu cartas”. E como os ingleses, a partir do século XIX, nos começaram a considerar uma raça inferior. E nós, portugueses, a ajudar, com o espírito decadente a que muitos não resistiam então, e que continua por aí, alegremente suicida. Sim, leu bem: nós ajudámo-los a destruírem-nos. Diz ele: “…quem promoveu a educação em inglês nas escolas de Goa, no século XIX, foram as autoridades portuguesas, que, liberais ou republicanas que eram, partilhavam com os ingleses a ideia de que o velho Portugal era tão decadente que nem a língua se lhe aproveitava”.

Serão muito diferentes as situações? Era bom que certos políticos conseguissem ver para lá da ponta do nariz e não fossem mais papistas que o Papa.

João Boavida

sábado, 7 de fevereiro de 2009

É proibido ou didáctico!?

Vamos ver: depois do muito falado incidente que teve lugar numa certa turma duma escola do nosso país a propósito dum telemóvel, a presidente do Conselho Executivo assegurou:

"Já temos a proibição dos telemóveis, nas salas de aula, regulamentada há vários anos. Agora, quando os pais são chamados para recolher os que são apreendidos, têm consciência do perigo que é usá-los numa sala de aula".

Muito bem. Até aqui entendi. O que não entendi é o que se segue.

Nesta semana tomei conhecimento dum jogo para telemóvel, inspirado nesse mesmo incidente, que foi desenvolvido no âmbito dum mestrado em Multimédia e que pode ser usado em sala de aula. Tal jogo, designado por Quizionário, promete "revolucionar a forma como os conteúdos são leccionados nas escolas portuguesas". A notícia reza assim:

"... a aplicação pode servir como ferramenta didáctica para os estudantes, numa altura em que as novas tecnologias se assumem como uma mais-valia importante. Através de um tabuleiro virtual redondo, onde estão 12 questões à escolha, cada pergunta tem quatro opções de resposta. Apenas uma é a versão correcta. Quem acertar ganha pontos e depois de acertar num determinado número de respostas, sobe de nível. Há três níveis possíveis de respostas para alcançar e pretende-se que os professores usem o Quizionário como ferramenta de apoio nas aulas. A funcionar como projecto-piloto na Escola Secundária Carolina Michaëlis, as expectativas apontam para que os bons resultados possam resultar numa maior adesão de agrupamentos de escolas, no âmbito do plano tecnológico iniciado pelo Governo, já que o jogo didáctico funciona através de um telemóvel ou de um quadro interactivo desde que tenham acesso à internet. Toda a informação sobre cada jogo é guardada numa base de dados, de forma a permitir que os professores obtenham relatórios de interesses de cada estudante, bem como das áreas em que têm mais dificuldades."

Talvez o humor ajude a enquadrar este tipo de circunstâncias. Deite o leitor um olhar à crónica: O jogo do telemóvel.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O dever de educar a memória

Oitava sessão do ciclo O dever de educar, no próximo dia 10 de Fevereiro, pelas 18h15, na Livraria Minerva Coimbra.

Nos documentos curriculares que orientam o ensino nos seus diversos ciclos, parece atribuir-se à memória um estatuto cognitivo menor, polarizando-se o dever de educar na compreensão e resolução de problemas. Estará esta opção certa à luz dos conhecimentos científicos de que dispomos? Memória e compreensão são capacidades antagónicas ou complementares? A resolução de problemas requer dados retidos na memória? A memória pode treinar-se? E, se sim, como?

A convidada é Maria Salomé Pinho, psicológa e professora da Universidade de Coimbra, tem-se dedicado ao estudo da memória, investigando entre outros aspectos, as relações que esta capacidade estabelece com a aprendizagem.

Local: Livraria Minerva (Rua de Macau, n.º 52 - Bairro Norton de Matos), em Coimbra.

Próxima sessão: 3 de Março.

As sessões deste ciclo são quinzenais e estão abertas ao público.

A bondosa medida de Valter Lemos

Novo post de Rui Baptista, desta vez sobre o "voluntariado" nas escolas:

“O único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum” (Fernando Pessoa)

Apelando “ao exercício de cidadania que traduz uma expressão de solidariedade com a sociedade, contribuindo de forma livre e organizada para a solução dos problemas que a afectam”, a recente medida do secretário de Estado Valter Lemos, plasmada num projecto de despacho para o recrutamento de professores reformados como voluntários para prestarem serviço nas escolas, em tarefas não remuneradas (ou seja, de borla), traz-me à memória uma expressão de um bom amigo e colega que me dizia, a respeito de situações parecidas, que "favores destes também os espanhóis me fazem mesmo sem me conhecerem de lado nenhum".

E, para que conste, só do referido anexo sobre “áreas de eventual intervenção dos professores voluntários”, somadas as sua parcelas, obtém-se um total de 22 áreas: uma espécie de cardápio de restaurante com muitas “estrelas Michelin” para gostos selectivos e clientela refinada. De forma resumida, para que o leitor não desperdice o seu tempo e eu a minha (ainda que santa) paciência, de um emaranhado de articulados legais, subtraio dessas áreas, apenas, meia dúzia, a saber:

(1) “apoio à formação de professores e pessoal não docente" [para quem possa não estar dentro da nomenclatura, “pessoal não docente” reporta-se a funcionários das secretarias e auxiliares de educação educativa (antigos contínuos)];
(2) “planeamento e realização de Acções de Formação para Encarregados de Educação";
(3) “apoio burocrático-administrativo" [ou seja a burocratização de ex-professores elevada ao seu expoente máximo];
(4) “envolvimento em Projectos de melhoria da sociedade local”;
(5) “desempenho de funções de tutoria”;
(6) “apoio a programas de investigação”.

Como cereja em cima do bolo, na volúpia avaliativa que mora na 5 de Outubro, o projecto de despacho determina que a Escola/Agrupamento de Escolas “avalia periodicamente a(s) prestação (ões) do(s) voluntário(s)”. A avaliação está mesmo na ordem do dia. Já agora, quem avalia a acção governativa dos governantes com a tutela da Educação? Ou será que a avaliação se destina apenas à arraia miúda?

Segundo Valter Lemos, o leitmotiv desta “bondosa medida” legislativa contempla o pedido de uns tantos docentes reformados que se entediam com a passagem dos dias sem nada para fazer. Se, por hipótese, a solicitação partiu de professoras que pretendem encontrar nas escolas o convívio do chá das cinco das tiazinhas de Cascais, desenganem-se. Espera-vos um destino padrasto com deveres avaliados a pente fino e sem quaisquer direitos em contrapartida. Ora, como diz o povo na sua chã maneira de falar, “fama sem proveito faz mal à barriga e ao peito” .

Com a modéstia de reconhecer não ter ideias próprias, Valter Lemos recorre à analogia entre este voluntariado e aquele outro desempenhado nos hospitais com a abnegação de serviço público inerente. Trata-se de um tiro no pé: o voluntariado hospitalar não pressupõe, ao contrário de áreas da docência aqui implicadas, o exercício de funções do âmbito dos profissionais de saúde. E, muito menos, de apoio à formação de médicos e/ou enfermeiros, como um dever estipulado em letra de forma. Como escreveu Madre Teresa de Calcutá: “O dever é uma coisa muito pessoal; decorre da necessidade de se entrar em acção, e não da necessidade de insistir com os outros para que façam qualquer coisa”.

Rui Baptista

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Não faça, compre!

Chegam-me à caixa de correio anúncios cada vez mais descarados de pessoas e empresas especializadas na fabricação de trabalhos e teses de mestrado e doutoramento, bem como de artigos científicos com garantia de publicação nas “tais revistas”. Tudo com preços devidamente discriminados por grau académico, tema, número de páginas, etc. A coisa é feita às claras e ninguém sai enganado: quem vende, sabe o que vende; quem compra, sabe o que compra. As academias não podem, portanto, ignorar o “negócio paralelo”.

Desta e doutras situações pouco edificantes, nada novas, mas, pelos vistos, em franca expansão nos tempos que correm, já Carlos Fiolhais e Elvira Calapez, deram conta no De Rerum Natura. Não deixe, no entanto, o leitor de se deliciar com o artigo que Carla Aguiar publicou nesta semana, com base numa investigação muito completa que fez da realidade portuguesa.

HUMOR - As melhores frases dos piores alunos


Circula pela Internet um conjunto das "melhores frases dos piores alunos", das quais se extraiu uma selecção:

*O metro é a décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre e para o cálculo dar certo arredondaram a Terra! *

*O cérebro tem uma capacidade tão grande que hoje em dia, praticamente, toda a gente tem um.*

*O piloto que atravessa a barreira do som nem percebe, porque não ouve mais nada.*

*O teste do carbono 14 permite-nos saber se antigamente alguém morreu.*

*Nos aviões, os passageiros da primeira classe sofrem menos acidentes que os da classe económica.*

*O índice de fecundidade deve ser igual a 2 para garantir a reprodução das espécies, pois precisa-se de um macho e uma fêmea para fazer o bebé. Podem até ser 3 ou 4, mas chegam 2.*

*Em 2020 a caixa de previdência já não tem dinheiro para pagar aos reformados, graças à quantidade de velhos que não querem morrer.*

*A água tem uma cor inodora.*

*A luta greco-romana causou a guerra entre esses dois países.*

*O tabaco é uma planta carnívora que se alimenta de pulmões.**

*Quando dois átomos se encontram, vai dar uma grande merda.*

*Princípio de Arquimedes: qualquer corpo mergulhado na água, sai completamente molhado.*

*As aves têm na boca um dente chamado bico.*

*A Terra é um dos planetas mais conhecidos e habitados do mundo.*

"O Ensino Básico vai de mal a pior"


Um livro muito interessante e actual que ando a ler intitula-se "O Ensino Básico vai de mal a pior" e subintitula-se "Uma abordagem pedagógica e política". O seu autor é Carlos Paiva, professor do 4º grupo (Matemática e Ciências da Natureza) do 2º ciclo, e a editora é a Minerva de Lisboa (há outra Minerva em Coimbra). Há um sítio associado ao livro ( aqui ) onde podem ser encontradas muitas hiperligações muito úteis para muita informação sobre a educação em Portugal (o livro é sobre a situação do nosso ensino um bom repositório de dados, que servem de base aos comentários que são apresentados). Como o livro saiu em Outubro passado, a informação é actual e os comentários mantêm-se, em geral e infelizmente para nós, pertinentes,

O autor é claro ao que vem o livro. Na contracapa diz, preto no branco: "A Escola não cumpre, devidamente, as funções que a devem caracterizar". E remata:
"O Ensino constitui um problema multifacetado, com consequências intensas, vastas e graves. os seus efeitos foram-se ampliando e, já há muito, vêm contaminando várias vertentes da vida nacional (social, económica e cultural). A questão é política: o que está em causa não é apenas o Ensino - é o País".
Ora que aqui está uma obra desassombrada que recomendo a todos os que se interessam pelas questões do nosso ensino. Começam a aparecer profissionais que entendem a gravidade da situação e que, tendo estudado, conhecem melhor a realidade do que os pretensos "avaliadores da OCDE".

- Carlos Paiva, "O Ensino vai de mal a pior", Editorial Minerva, Lisboa, 2008.

QUEM TEM MEDO DE CHARLES DARWIN?

Informação recebida da Câmara Municipal de Oeiras (clicar para ver melhor).

História das ciências exactas e naturais em Coimbra

Acabei de colocar no repositório "Estudo Geral" - aqui - um capítulo do livro-catálogo "Segredos da Luz e da Matéria" do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra, do qual sou autor com Décio Ruivo Martins. Intitula-se: "As ciências exactas e naturais em Coimbra". Uma versão do texto já apareceu, segmentada, neste blogue, mas agora há o aliciante das várias ilustrações.

Allosaurus: um dinossáurio, dois continentes?


Informação recebida do Museu Nacional de Historia Natural, Lisboa:

Inaugura amanhã dia 6, pelas 18 horas, no Museu Nacional de História Natural, na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, a exposição "Allosaurus: um dinossáurio, dois continentes?"

Nesta exposição o visitante poderá ver numerosos fósseis autênticos de ossos de dinossáurios encontrados em Portugal no decurso de escavações efectuadas ou lideradas pelo Museu Nacional de História Natural. Estarão também expostas 16 réplicas de esqueletos ou crânios de diferentes espécies de dinossáurios, painéis informativos, fotografias e ilustrações científicas, assim como um dispositivo interactivo e jogos muito simples.

A exposição mostra não só fósseis e objectos mas também metodologia científica, resultados e perguntas para a investigação futura, que continua.

Todos os meses, na primeira sexta feira, pelas 21 horas, mediante marcação prévia, realizar-se-ão visitas guiadas para grupos organizados.

A inauguração contará com a presença do Ministro da Ciência Tecnologia e Ensino Superior José Mariano Gago e do reitor da Universidade Lisboa, António Nóvoa.

O Português que se Correspondeu com Darwin


Informação recebida da Gradiva sobre uma novidade editorial a sair a 20 de Fevereiro:

Paulo Renato Trincão
O Português que se Correspondeu com Darwin

A história da relação que se estabeleceu entre o naturalista português Francisco de Arruda Furtado e o próprio Darwin, sob a forma de peça teatral. Uma boa surpresa e uma excelente ideia para escolas e não só!

Com prefácio de Carlos Fiolhais.

«Fora de Colecção», nº 311, 132 pp.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

As "Histórias Falsas" de Gonçalo M. Tavares


Como sou um admirador da escrita de Gonçalo M. Tavares ando, depois de ter lido o livro, a ouvir no meu carro a edição audio das "Histórias Falsas" desse autor (locução de David Borges, edição de MHIJ; um bocadinho pode ser ouvido aqui). Não resisto a transcrever um excerto da história de Mercatore, um rico comerciante contemporâneo do filósofo grego Diógenes (Claro que Tavares mistura brealidade e ficção):

“Descia Mercatore umas pequenas escadas quando deparou com o filósofo, pobremente vestido, sentado no chão, contra a parede, a comer lentilhas.

Arrogante, mais do que era seu costume, cheio de vaidade pela riqueza que ostentava, e pelo estômago farto, disse, para Diógenes:

- Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisavas de comer lentilhas.

E riu-se depois, troçando da pobreza evidenciada por Diógenes.

O filósofo, no entanto, olhou-o ainda com maior arrogância e altivez. Já tivera à sua frente Alexandre, o Grande, quem era este, agora? Um simples homem rico?

Diógenes respondeu. À letra:

- E tu - disse o filósofo - se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisavas de bajular o rei.”

COMO OBTER FINANCIAMENTO PARA UM PROJECTO DE INVESTIGAÇÃO


Agora que está prestes a expirar novo prazo para a submissão de projectos de investigação à Fundação para a Ciência e Tecnologia transcrevo uma parte de uma conferência que fiz há anos a convite da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e que visava introduzir a pessoas das ciências da saúde sem grande experiência em investigação nos "segredos" dos projectos de investigação. O que disse, além de se manter actual, aplica-se em geral a outras áreas:

(...) Para aumentar as hipóteses de financiamento o investigador responsável deve procurar escrever muito bem o projecto, enunciando claramente os objectivos do trabalho (nomeadamente no caso das ciências médicas, a hipótese que se pretende testar), descrevendo os meios humanos e materiais à disposição ou a adquirir para os alcançar (os avaliadores valorizam naturalmente os meios humanos e materiais já existentes e a contenção nos meios a adquirir) e indicando um orçamento que seja adequado aos fins em causa.

Não existe, em português, uma compilação de regras para a escrita de projectos. Mas é útil atender-se às seguintes regras válidas para o National Institut of Health (NIH), o principal organismo de apoio à investigação médica nos EUA:

~- “The original how to write a research grant application” (documento do NIH).

- Hints for Wiriting Successful NIH grants, Ellen Darrett, Outubro, 1995 (recomendações de um Professor do Departamento de Fisiologia e Biofísica da Facudade de Medicina da Universidade de Miami).

Vale a pena transcrever algumas das recomendações que contam desses documentos, acrescentando alguns comentários que são particularmente aconselhados pela experiência do signatário.

- Esteja atentamente aos anúncios de concursos de projectos de investigação, que são normalmente publicados nos meios de comunicação social ou na Internet.

- Leia com atenção as instruções do edital e dos formulários. Se puder, consulte propostas de projectos na mesma área que obtiveram sucesso.

- Assegure-se que a sua equipa de investigação, muito em particular o seu responsável, é a adequada para conseguir os fins pretendidos. A equipa e o responsável têm de mostrar experiência e competência na área em causa. O respectivo laboratório deve ter as condições adequadas. Junte-se a outras pessoas ou equipas quando houver vantagem nessa sinergia (a colaboração de várias equipas é sempre bem vista no processo de avaliação!).

- Escolha um tópico de investigação bem delimitado que seja de interesse e actualidade (em ciência há muitas vezes modas, que gozam dos favores dos avaliadores). A investigação em ciências da saúde é muito dirigida por hipóteses. Formule uma hipótese precisa a ser investigada e assegure-se, consultando a literatura especializada (a Internet pode ser muito útil) ou especialistas (nacionais ou internacionais, que podem depois ser indicados como consultores do projecto), que a hipótese é não só nova como consistente. No campo da medicina uma hipótese deve lançar luz sobre processos biológicos, doenças, tratamentos ou processos de prevenção. Mostre na proposta que conhece a literatura sobre o assunto (indique referências correctas pois nada há de mais arreliador do que não conseguir acesso a um documento por ele estar mal referenciado) e, se for o caso, que conhece, através de contactos pessoais, trabalhos não publicados. Indique dados anteriores, nomeadamente os que originados por trabalhos da equipa, que possam abonar em favor da hipótese escolhida. Indique com pormenor suficiente a metodologia que vai usar para certificar (ou não) a hipótese de base. A experiência no assunto por parte da equipa de investigação ajuda ao êxito na avaliação. Também um bom enquadramento do projecto na instituição de acolhimento (a instituição onde se integra a equipa) assim como na estratégia global da equipa é um ponto favorável.

- O título do projecto deve ser breve mas revelador do conteúdo. O resumo do projecto é muito importante. Deve dizer o essencial em poucas palavras, uma vez que esse resumo poderá ser lido por não especialistas. Apresente currículos adequados, embora resumidos, para todos os investigadores envolvidos no projecto e indique qual vai ser o seu envolvimento no projecto (tempo correspondente à participação no projecto e tarefas a executar). O esforço humano deve ser adequado à “ambição” do projecto. Um cronograma do projecto, que elenque a execução das várias tarefas ao longo do tempo, é sempre útil.

- Solicite só o financiamento necessário para realizar o projecto. Exageros na solicitação de fundos são normalmente penalizados. O orçamento deve ser devidamente discriminado por rubricas (justifique o máximo que puder, não pensando que certas despesas são óbvias!). Indique outras fontes de financiamento quando as houver, nomeadamente a participação da instituição de acolhimento.

- No caso particular da investigação médica ou biomédica há que ter os habituais cuidados com consequências éticas, nomeadamente na experimentação que envolva pessoas ou animais.

- Reveja várias vezes a proposta antes de a submeter. Peça a outros para a ler em busca de eventuais erros ou inconsistências. O respeito do prazo limite é fundamental.

- Normalmente a avaliação demora algum tempo. Se houver uma defesa da proposta prepare-a com cuidado, procurando convencer a comissão de avaliação da validade do projecto e do seu empenho em o realizar (a auto-confiança, sem assomos de arrogância, costuma revelar-se compensadora!). Se tiver entretanto realizado avanços no campo em causa não hesite em os anunciar, pois isso pode funcionar como um ponto favorável.

- Respeite a decisão da comissão avaliadora se ela for negativa. Em geral, só uma pequena parte das propostas submetidas é aprovada. Leia bem a carta que foi recebida contendo a avaliação. Use o seu conteúdo para melhorar a eventual resubmissão da mesma proposta ou para formular outras. O Prof. Darrett é taxativo a este propósito:
“If your first application is rejected, read the reviewer's comments carefully. When you first read them you will be sad and angry, so spend a week being angry - write nasty rebuttal letters, but DON'T SEND THEM TO ANYONE - they are for therapy only! Don't call anyone at the funding agency. Then a week later, after you have calmed down somewhat, re-read the critique and your application. Gauge whether or not the reviewers show any enthusiasm for your study - a senior investigator skilled in reading critiques will be helpful for this. (...) Figure out what parts of your application might have confused or misled them.”
(..)Recomenda-se a pessoas sem experiência o contacto/parceria com parceiros já activos na investigação em ciências da saúde, uma vez que o “saber de experiência feito” é o melhor saber. Mesmo a pessoas com experiência recomenda-se a colaboração interdisciplinar nomeadamente entre médicos e pessoas das ciências biológicas, bioquímicas ou biofísicas. A interdisciplinaridade é uma das molas propulsionadoras da ciência mais moderna.

AS DESVENTURAS DO MAGALHÃES

Sucedem-se as notícias das não-entregas do "Magalhães", o mini-computador que o governo prometeu distribuir universalmente pelas crianças do primeiro ciclo do ensino básico. Já se sabia que o Magalhães era um grande negócio (para o fabricante e, sobretudo, para as operadores de telecomunicações) e uma grande acção de propaganda governamental (propaganda interna e externa, embora externamente mais para países do Terceiro Mundo). Agora sabe-se também que é uma fraude.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

"100 anos de República, 100 anos de Ciência"


Do "Público on-line":

Acção a propósito do centenário da República. Governo quer preservar os arquivos da Ciência em Portugal . 02.02.2009 - Lusa

O Ministério da Ciência e Tecnologia vai lançar um programa de estímulo ao desenvolvimento da História da Ciência em Portugal, que terá uma componente específica dedicada aos últimos cem anos, motivada pela aproximação do centenário da República. Esta "iniciativa estratégica" terá o seu arranque público em Julho, durante um Encontro Nacional de História da Ciência em Portugal, refere um documento de trabalho do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior divulgado este fim-de-semana.

O programa, dirigido aos investigadores, às instituições académicas e científicas, e à sociedade em geral, tem também por objectivo a valorização do património cultural e científico do país. Em causa, segundo o Ministério, estará a preservação, classificação e estudo de acervos documentais e arquivos de Ciência, a formação avançada de novos investigadores, o reforço e articulação em redes de grupos e instituições científicas e o desenvolvimento de programas de investigação.

"A História da Ciência é uma componente fundamental do próprio desenvolvimento da Ciência" - lê-se no documento de trabalho. "O nível científico já alcançado em Portugal exige, para se ampliar e consolidar, um conhecimento sistemático do nosso próprio desenvolvimento científico e tecnológico, e das suas condições históricas. O programa específico para aprofundar o conhecimento e a divulgação da História da Ciência e do desenvolvimento científico dos últimos cem anos, chamado "100 anos de República, 100 anos de Ciência", será realizado em articulação com a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República.

"INGENIUM", REVISTA DOS ENGENHEIROS PORTUGUESES


A revista "Ingenium", órgão da Ordem dos Engenheiros, contendo os artigos sobre matemática de Jorge Buescu, pode ser consultada aqui. O último número é o 108 com data de Dezembro de 2008. O artigo de Jorge Buescu intitula-se "O centenário de um 'Estudante'. Ou como a busca de uma cerveja conduziu à descoberta científica". É preciso ler para perceber quem é o estudante e porque a cerveja é a Guinness...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

DARWIN E MAIS DARWIN


O Ano Darwin prossegue por todo o país, aproximando-se a data de 12 de Fevereiro quando de assinalam os 200 anos do nascimento de Darwin. Em Lisboa, o Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa (CFCUL) organiza várias iniciativas (ver aqui ) e em Coimbra o mesmo acontece com o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, CEIS20 (ver aqui).

Do primeiro recebemos este anúncio:


Para dar inicio à sua participação nas comemorações do Ano Darwin, o CFCUL vai promover - entre outras iniciativas que em breve serão anunciadas - um ciclo de conferências sobre "Filosofia das Ciências da Vida".

A conferência inaugural - "Darwin e o Darwinismo 150 anos depois" - será proferida pelo Prof. Doutor António Bracinha Vieira, no dia 11 de Fevereiro de 2009, na FCUL, às 18h em sala a anunciar.

E do segundo recebemos este outro anúncio (cartaz de actividades em cima, clicar para ver melhor):


Convidam-se todos os interessados para a conferência da Profª Doutora Ana Leonor Pereira, "Usos e falsificações de Darwin", a realizar no dia 3 de Fevereiro de 2009. Hora: 17h00, Local: CEIS20, Rua Filipe Simões, 33 - Coimbra, Entrada livre.

Esta conferência integra-se no ciclo de conferências "200 ANOS DE DARWIN" proferidas pela Profª Doutora Ana Leonor Pereira, cujo programa foi iniciado já em 2008.

Contexto: Quando das grandes comemorações do centenário de Darwin em 1909, Portugal tomou iniciativas que estão devidamente registadas no livro de Ana Leonor Pereira, Darwin em Portugal. Filosofia. História. Engenharia Social (1865-1914) (Coimbra, Almedina, 2001, 628 p.) e que revelam a importância de Darwin e dos darwinismos nas ciências da vida e nas ciências do homem desde a publicação inaugural de 1859. Além dos eventos dentro do país, Portugal fez-se representar em Universidades estrangeiras que na altura apresentaram resultados inovadores de investigação científica e trabalhos historiográficos sobre os 100 anos já decorridos. O nosso país vivia um clima cultural pré-revolução republicana em que Darwin e os darwinismos apareciam como constitutivos das novas tendências culturais que se irão afirmar com o triunfo da República em 1910 e nos anos seguintes. Hoje, em 2009, as responsabilidades da comunidade científica e sobretudo das universidades portuguesas são ainda mais acentuadas como de resto em todo o mundo.

Assim, o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra-CEIS20, através do Grupo de Investigação de História e Sociologia da Ciência, tomou a iniciativa de:
1.Dar um conjunto de conferências subordinado ao tema 200 anos de Darwin, a iniciar em 2008 e a continuar em 2009.
2.Preparar e editar algumas obras alusivas à recepção de Darwin e do darwinismo em Portugal, até ao final de 2009.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Uma pergunta para os economistas

Temos hoje vários impostos, incluindo o IRS, IVA, IRC, etc.

Pergunta: não seria melhor ter um só imposto sobre o consumo, nomeadamente o IVA, vindo daí todas as receitas do estado? Seria exequível fazer isso? Afinal, quem mais consome é quem tem mais dinheiro, e logo essas pessoas pagariam mais para que essas receitas fossem usadas para ajudar os mais pobres. Além disso, os produtos e serviços de primeira necessidade poderiam ser taxados muito ligeiramente apenas.

O que pensam os nossos leitores economistas?

Actualização: Sem que eu soubesse, Luís Aguiar-Conraria publicou um artigo que defende esta mesma ideia, e no qual dá algumas referências. Está aqui (um blog, aliás, a seguir).

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...