Novo post do nosso habitual colaborador Rui Baptista:
“Eu não tenho o meu corpo, eu sou o meu corpo" Gabriel Marcel (1889-1973)
Num tempo em que estatísticas recentes apontam para o facto de as doenças cardiovasculares e cerebrovasculares serem responsáveis pela morte anual de 40.000 pessoas em Portugal e 7,5 milhões a nível planetário, comemorou-se, no passado domingo, dia 28 de Abril, o "Dia Mundial do Coração”. Assim, pareceu-me apropriado recuperar uma conferência que fiz, "in illo tempore" (1971), na Sociedade de Estudos de Moçambique, com o título "
Educação Física ao Serviço da Saúde Pública". Passo a transcrever a parte que se reporta ao título em epígrafe:
“A Educação Física baseia-se no uso correcto do exercício seguido de períodos de repouso, sendo aquele a aplicação de um estímulo que fomenta o desenvolvimento, ou, segundo W. Roux, uma excitação funcional. São prejudiciais ao desenvolvimento físico a carência de estímulos ou a sobreexcitação que são combatidas, respectivamente, pelo exercício e por períodos de repouso. Um organismo que não é solicitado é facilmente vítima de cansaço e sucumbe até a esforços pouco intensos da vida diária do cidadão avesso à prática gimnodesportiva.
Todavia, por outro lado, o treino excessivo, quando desacompanhado do conveniente repouso e/ou de uma alimentação equilibrada, conduz dramaticamente ao esgotamento ou mesmo a desenlaces fatais. E se estes princípios devem ser valorizados na exercitação do músculo esquelético, eles assumem idêntico ou até maior relevo quando aplicado ao músculo cardíaco. O coração, ainda que só em simples actividades diárias não muito esforçadas, como subir escadas ou correr para apanhar o autocarro, é considerado uma peça de indiscutível importância no funcionamento e rendimento do complexo maquinismo que é o corpo humano. A necessidade de uma irrigação sanguínea acelerada (traduzida por um aumento do número de pulsações/ minuto) e em maior caudal (por um acréscimo do volume sistólico) por parte massa muscular submetida ao exercício físico conduz ao fortalecimento das paredes musculares do coração (miocárdio) que passará a actuar como uma bomba aspirante-premente com rendimento melhorado. Claro que quanto maiores e mais numerosos forem os grupos musculares solicitados pelo exercício físico melhores serão os benefícios obtidos, aparecendo, assim, a corrida e o levantamento de pesos [hoje chamada musculação] entre as actividades prioritárias.
Fortalecendo o coração, através de exercícios gímnicos ou da prática desportiva, actua-se preventivamente no campo de uma doença que mais vítimas causa e que tem uma maior incidência no mundo civilizado pelo sedentarismo que a caracteriza. Refiro-me, como é fácil supor, às doenças cardiovasculares, nas inúmeras formas de que se revestem: enfarte do miocárdio, angina pectoris, arteriosclerose, etc. Cristian Barnard, famoso cardiologista que deixou o seu nome ligado ao primeiro transplante cardíaco humano, incrimina o excesso de peso, a falta de exercício e o stress, como factores de elevado risco no aparecimento de cardiopatias e patologias circulatórias e respiratórias a elas associadas. A este propósito, o governo sul-africano para prevenção dos acidentes rodoviários mandou colocar nas estradas sugestivos painéis com este aviso:
Cuidado. Barnard está à espera do seu coração.Na revista
‘Vida Mundial’, de 26 de Maio de 1971, sob o título ‘
Os perigos do coração’, é feita referência a uma afirmação de Rudolf Virchow (1821-1902), a quem é atribuída a paternidade da Medicina Social:
A história das epidemias é a história dos distúrbios da cultura humana. E prossegue o referido estudo:
As doenças do coração, na multiplicidade das suas manifestações, preenchem o quadro epidemiológico da sociedade avançada e industrializada.Portugal não podia deixar de sentir a ameaça do avanço insidioso deste tipo de doenças. Assim, em 7 de Abril desse ano, ‘Dia Mundial da Saúde’, o Dr. Armando Sampaio, director do Gabinete de Estudo e Planeamento do Ministério da Saúde e Assistência, leu a seguinte mensagem televisionada:
O seu coração é a sua saúde – eis um tema que deve ser profundamente meditado por todos aqueles que desejam para si e para a sua família longos anos de uma vida saudável. Para ser atingida esta finalidade, a prática regular do exercício físico deve ser adequado à idade de cada um, sendo fundamental no combate à vida sedentária e simultaneamente desgastante pela tensão psíquica permanentemente imposta pela forma de viver dos nossos dias. Há que encorajar os jovens para o exercício físico regular para contrabalançar as horas em que eles ficam sentados na escola ou defronte dos aparelhos de televisão.[Nesse tempo, os computadores pertenciam a um futuro distante que em muito veio contribuir para aumentar o sedentarismo juvenil; estatísticas destes dias dizem-nos que o tempo passado a dedilhar o teclado dos computadores já superioriza as horas passadas frente à televisão, isto mesmo antes da distribuição massiva dos “Magalhães” a jovens escolares do ensino básico].
Os malefícios do sedentarismo mereceram de Leonardo da Vinci (1452-1520), tido como o mais versátil génio da Renascença, a seguinte analogia:
O corpo humano é como uma navalha de barba, se não for utilizada enferruja. Só passados séculos do falecimento deste sábio e inventor, grande mestre da pintura e da escultura - como escreveu um dos seus biógrafos, citado num livro de Edward McCurdy, de 1904, o seu espírito nunca descansava, o seu cérebro estava sempre a inventar coisas novas -, as práticas físicas voltaram a ser encaradas como necessárias ao não ‘
enferrujamento’ do corpo humano e, desta forma, creditadas como promotoras de uma vida saudável. E tanto assim é que nos meus tempos de rapaz, apesar de o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) ter defendido que sem exercício físico quotidiano apropriado é impossível mantermo-nos de boa saúde, ainda se sentava no banco dos réus a prática desportiva com a acusação de ser responsável pelo aparecimento em larga escala da tuberculose pulmonar que dizimava muitas vidas humanas, ilibando, com isso, as noitadas de farra, uma deficiente alimentação e, até mesmo, o seu principal responsável: o bacilo de Koch.
Por outro lado, no desconhecimento dos “segredos” da medicina desportiva, mais é confundido, por vezes, a silhueta do miocárdio hipertrofiado do desportista com o coração dilatado por factores patológicos, situação que levou a um diagnóstico errado na pessoa de um atleta exuberante de saúde cardíaca”.