domingo, 12 de outubro de 2008

SARAMAGO E HEISENBERG


















Com a devida vénia, transcrevemos do "Diário de Notícias" de hoje o excerto da crónica de Alberto
Gonçalves com o título que está em cima:

"E o Nobel da Literatura foi para… Jean-Marie Le Clézio. Não conheço, excepto de nome. Mas não me teria custado colher três informações alusivas ao homem e escrever aqui que Le Clézio, presença tão arredia quanto vital nas letras francesas contemporâneas, é um humanista inquieto na geografia e na consciência, cuja consagração tardava. Em princípio, a fraude passaria impune, no sentido de ser improvável que, na volta do e-mail, eu fosse acusado de ignorância acerca da criatura e respectiva obra.

Suspeito, porém, que não haveria impunidade se me dedicasse a comentar os vencedores dos Nobel da Física, Química ou Medicina. De alguma forma, não é suposto interferirmos nos arranjos da ciência com a leveza que emprestamos ao juízo literário. Porquê? Porque é que não temos opinião sobre o que influencia materialmente as nossas vidas e estamos cheios de opiniões sobre o que, na maioria dos casos, nem as toca?

Apetece responder "porque é mais fácil", o que explica tudo menos a origem da facilidade. Há meio século, o cientista e escritor britânico C.P. Snow explicou-a. A tese das "duas culturas", isto é, da absurda (no entender de Snow) separação entre as ciências e as "humanidades", quer no ensino quer na prática, talvez esteja datada e será hoje polémica. Mas o fosso permanece e, a avaliar pelo embaraço com que o cidadão medianamente letrado confessa nunca ter lido o King Lear, as "humanidades" ganharam. Ninguém, ou quase ninguém, finge familiaridade perante o Princípio da Incerteza de Heisenberg. Frequentemente, até se ignora a evolução científica com uma ponta de orgulho.

É por isso que as televisões correm para as livrarias a inquirir anónimos após o anúncio do Nobel da Literatura e ficam quietinhas aquando dos prémios "técnicos". Seria estranho perguntar a um transeunte o que pensa do desenvolvimento da Proteína Fluorescente Verde (o Nobel da Química deste ano). E seria adequado eu proceder agora a uma exposição detalhada do tema, mas francamente só percebi que os palermas dos suecos se esqueceram outra vez de Philip Roth."

Alberto Gonçalves

PORQUÊ ESTAR OPTIMISTA?

Num mundo que está perigosamente inclinado no plano económico-financeiro, vale a pena procurar razões para se estar optimista. O editor norte-americano John Brockman, de quem já se aqui tem falado, perguntou a muitos cientistas, através do seu sítio Edge, "What are you optimistic about?". As respostas foram reunidas num livro, publicado em inglês pela Simon and Schuster em 2007 (tenho em mãos a edição Pocket Books de 2008, com introdução do filósofo Daniel Dennett).

Os cientistas são, em geral, pessoas optimistas. Julgo que o são por uma razão simples: Acreditam num futuro melhor pois eles próprios participam activamente na preparação desse futuro. Eis algumas das respostas dadas a Brockman por alguns nomes destacados da ciência contemporânea. Ainda que por vezes pareçam algo "naif", será enriquecedor sentirmo-nos provocados por elas:

Brian Greene, físico teórico ("A nossa espécie pode revelar mistérios"): "Estou optimista que o mundo valorize progressivamente o pensamento racional e confie cada vez mais nas reflexões baseadas nele para tomar as decisões mais críticas".

Steven Pinker, psicólogo ("O declínio da violência"): "O meu optimismo reside na esperança que o declínio da violência ao longo dos séculos seja um fenómeno real, que seja o resultado de forças sistemáticas que continuam a actuar e que podemos identificar essas forças e talvez concentrá-las e distribuí-las."

Daniel Dennett, filósofo ("A evaporação da mística poderosa da religião"): "Sou tão optimista que espero viver o suficiente para ver evaporar a mística poderosa da religião. Em cerca de 25 anos, quase todas as religiões terão evoluído para fenómenos muito diferentes, a tal ponto que em muitas regiões a religião não governará a nossa vida tal como o faz hoje".

Richard Dawkins, biólogo ("O iluminismo científico final"): "Estou optimista que os físicos da nossa espécie irão completar o sonho de Einstein e descobrir a teoria final de tudo antes que criaturas superiores a nós, que evoluíram noutros mundos, estabeleçam contacto connosco e nos dêem a resposta".

Michael Shermer, historiador e editor ("A ciência e o declínio da magia"): "Estou optimista que a ciência esteja a ganhar em relação à magia e à superstição".

Freeman Dyson, físico ("Uma ferramenta nova para uma compreensão mais profunda da natureza humana"): "Sou em geral optimista porque a nossa herança humana parece que nos equipou muito bem para enfrentarmos desafios, desde o tempo da idade dos gelos e dos ursos das cavernas até às doenças e sobrepopulação."

O ELEFANTE COR DE ROSA


Sobre o hipotético buraco negro do Large Hadron Collider (LHC), no CERN, Suíça, o físico teórico norte-americano Joe Lykkhen declarou ao "Chicago Tribune" de 8 de Setembro passado:

"In theory, the probability that the LHC will produce pink elephants is not zero."

O ERRO DA HUMANIDADE


Três aforismos de Friedrich Nietzsche (1844-1900) contidos no livro "O Erro da Humanidade", Coisas de Ler Edições, 2005:

"Para se viver solitariamente há que se ser animal ou um deus, declara Aristóteles. Existe, ainda, um terceiro caso: há que se ser ambas as coisas em simultâneo - um filósofo, portanto."

"Qual deles é? Será o homem o único erro de Deus ou Deus o único erro do homem?"

"Os homens póstumos - tal como eu, por exemplo - não são tão bem compreendidos quanto os homens do seu tempo, mas são mais bem escutados. Mais precisamente, nunca somos compreendidos e daí a nossa autoridade..."

História da Náutica


Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:

Neste mês de Outubro, assinalam-se com um Encontro os 40 anos desde o 1º Encontro Internacional da História da Náutica que decorreu em Coimbra no Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra.

O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra associa-se às comemorações com um conjunto de iniciativas para todas as idades.

- SÁBADOS NO MUSEU. Ateliers especialmente dedicados à orientação e à navegação.

- NOS PASSOS DE MAGALHÃES. Série documental com o apoio da RTP2.

- Quem descobriu e cartografou a costa da Austrália? Palestra por Peter Trickett.

Um peso da consciência desta geração

O ex-ministro da Educação Marçal Grilo, numa entrevista de Cátia Mateus e Marisa Antunes ao Semanário Expresso de hoje, fez afirmações que raramente tenho lido ou ouvido quando se fala da educação que temos. Aqui reproduzo aquelas que entendo nos deveriam fazer parar para pensar.

"Preocupa-me (…) a atitude que muitos compatriotas têm em relação à escola. Eles não olham para a escola como algo que possa ser relevante para o futuro dos seus filhos, como um instrumento de aprendizagem, mas mais no sentido de a ultrapassar. Preocupam-se sobretudo que os miúdos passem e não tanto com o que eles sabem."

É preciso também perceber o que se pretende com o sucesso nas escolas. Para mim, o sucesso traduz-se nos alunos saberem mais, terem maior consciência das suas capacidades e uma atitude diferente perante o mundo e a sociedade (…).

A minha geração vai ficar aqui com um peso na consciência por não ter sido capaz de motivar os jovens para a educação."

sábado, 11 de outubro de 2008

Inventores portugueses: António Plácido da Costa



Esperando que abra apetite para a leitura do resto transcrevemos um dos textos sobre inventores portugueses da autoria de Ricardo Nabais que saíram hoje na revista "Tabu" do semanário "Sol":

Do seminário à música, passando pela investigação da peste bubónica que então assolava o Porto, a vida de António Plácido da Costa é tão rica quanto desconhecida. Nascido na Covilhã a 1 de Setembro de 1848, cedo se percebeu nele uma variedade de interesses que mereciam melhor recordação da posteridade.

Contudo, não foi por nenhuma dessas actividades que Plácido inscreveu o seu nome na história da ciência e da técnica. Dedicou-se desde cedo à investigação médica, de início na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Porém, foi a atracção pelos olhos dos outros que o tornou famoso. Em dois anos apenas publicou uma série de artigos com importantes descobertas de técnicas oftalmológicas. Este período coincidiu com a sua ida para Lisboa, onde foi médico-oculista no consultório de Van der Laan, um dos mais importantes da capital na altura. Numa série de dez artigos, Plácido divulgou quatro inventos de grande precisão para avaliar problemas nos olhos. O primeiro, um instrumento de exploração da córnea, revolucionou técnicas de diagnóstico e tratamento desta componente dos nossos olhos. O cientista baptizou-o astigmatoscópio explorador, e hoje é conhecido pelo nome de queratoscópio de Plácido. Ou, de uma forma mais simples, disco de Plácido.

Outros, não menos importantes – mas talvez menos decisivos para tornar conhecido o então jovem cientista – permitiam corrigir o estrabismo, entre outras terapias oculares.

Alheio à popularidade, criticava-a como algo que era estranho ao universo da razão, esse simples «metro da verdade» que faz parte do «museu métrico da inteligência», como escreveu num dos seus artigos.

Plácido deixou de publicar cedo, aos 35 anos, talvez por falta de tempo. O desenvolvimento dos seus inventos e a prática clínica absorveram-no por completo nos anos seguintes. Ainda aperfeiçoou, em paralelo, um telescópio – de acordo com alguns autores, o primeiro todo ele idealizado e feito em Portugal. O tempo livre era para ele um conceito estranho, gozando o pouco que tinha, tal como Einstein, a tocar violino. Com alguma mestria, segundo rezam as crónicas.

Ricardo Nabais

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

LIVROS DE OUTUBRO DA GRADIVA


Informação recebida da Gradiva:

José Eduardo Franco e Ana Cristina da Costa Gomes (coords.)

Jardins do Mundo

Desde os jardins chineses, japoneses, russos, alemães, até aos portugueses, pela primeira vez na história editorial portuguesa, uma obra verdadeiramente abrangente sobre os jardins, abordados numa perspectiva interdisciplinar.

«Fora de Colecção», n.º 303, 736 pp., € 73,50


Carlos Fiolhais
Engenho Luso e Outras Crónicas

Inconformado com o espartilho do politicamente correcto, desafiando muitos preconceitos, acreditando que Portugal é melhor, pode ser muito melhor, do que o fazemos e vivemos, as crónicas singulares de Carlos Fiolhais no Público, cheias de irreverência e também de humor.

«Fora de Colecção», n.º 306, 140 pp., € 9,00


António José de Barros Veloso
Medicina e Outras Coisas

Um conjunto de textos, atravessado por duas paixões: a reflexão sobre a medicina e a paixão pela ciência. O autor é médico, especialista em medicina interna.

288 pp., € 14,50


Charles R. Morris
A desintegração de um Bilião de Dólares

A crise das hipotecas subprime é apenas o início das perturbações que atravessarão todo o espectro dos activos financeiros. Uma reestruturação que irá ser muito dolorosa. Nada ficará como antes. Esta obra revela os instrumentos financeiros ocultos, as tramóias, os erros políticos, os dogmas e as ilusões que criaram a maior bolha de crédito da história do mundo. Um livro indispensável para se compreender como é que a economia chegou a este ponto – assim como a paisagem política e económica radicalmente remodelada que definirá a era pós-crise.

«Economia Aberta» (Nova colecção da Gradiva com Portugal Telecom, coordenada por Luís VillaLobos, editor do suplemento de Economia do "Público", n.º 1, 192 pp., € 14,00


O GRAFENO NO CAFÉ SCIENTIFIQUE


Informação recebida do "Café Scientifique" de Braga (Geim e Novoselov, que realizaram trabalhos recentes sobre o grafeno, isto é, uma folha monocamada de grafite, eram fortes candidatos ao último Nobel da Física, segundo o ISI Thomson; não foi desta, mas poderá ser para a próxima):

Segunda, 13 de Outubro de 2008, 21h45, Estaleiro Cultural Velha-a-Branca

Uma visão particular da investigação em física da matéria condensada teórica: o caso do grafeno

Nuno M. R. Peres
Professor de Física

Nesta conversa ir-se-á analisar como é feita a investigação em física teórica da matéria condensada numa área internacionalmente competitiva, usando para efeito a recente linha de investigação da física do grafeno, um novo alótropo do carbono (os outros são: diamante, grafite, fulerenos e nanotubos). Naturalmente, a física deste novo material será igualmente apresentada e discutida. Iremos ver que o "método científico" que somos obrigado a decorar na escola não é a forma como realmente os profissionais da arte efectivamente funcionam. O papel da Universidade do Minho e da universidade portuguesa nesta nova área será analisado.

O Café Scientifique é um espaço de discussão informal, de entrada livre, que pretende trazer ao público geral as inovações científicas pela mão dos "experts" na área. Com base no Reino Unido, o Café Scientifique tem filiais em todos os continentes, sendo esta a primeira na Península Ibérica.

Café Scientifique Braga
"Em nome da cultura e da divulgação científica"

www.csbraga.blogspot.com
www.velha-a-branca.net
www.mesadaciencia.blogspot.com


O BOLOR DO DINHEIRO


O humor científico de David Marçal no "Inimigo Público" de hoje:

Bolor do dinheiro vai salvar o mundo da crise

Tal como o bolor Penicillium chrysogenum produz penicilina, o Guitus pastelis produz dinheiro. A descoberta foi acidental e promete fazer pela pobreza o que a penicilina fez pelo tratamento da gonorreia. O dinheiro é o antibiótico da pobreza. Com o dinheiro barato, antes da crise do subprime e do colapso do modelo económico não-comunista tratava-se apenas de uma curiosidade microbiológica. Mas com a escalada das taxas de juro a produção biotecnológica de dinheiro afigura-se atractiva. Os bancos centrais vão produzir dinheiro como quem faz cerveja. A Unicer, Cintra e Benfica SAD já comunicaram a mudança de ramo à CMVM.

Descoberta acidental em contas na Suíça e sociedades Off-Shore


O bolor foi isolado em contas bancárias de autarcas na Suíça. Inicialmente pensava-se que esse dinheiro tinha origem na corrupção ou em actividades ilícitas, mas os cientistas do Instituto de Tecnologia de Zona Franca e Off-Shore (ITZFOS) concluíram que o dinheiro é produzido pelo fungo Guitus pastelis. Numa cultura em laboratório, os cientistas verificaram que à volta do fungo não há pobreza, por causa de uma substância por este libertada, chamada dinheiro.

Fungo por vezes também produz fichas para carrinhos de supermercado

Muito conveniente para os consumidores, mas há receios de que este fenómeno possa ter um impacto negativo no actual modelo de reposição de carrinhos de compras em supermercados. As instâncias reguladoras estão atentas e consideram a hipótese de restringir o acesso generalizado da população ao bolor do dinheiro, de modo a salvaguardar a ordem e arrumação nas superfícies de consumo.

David Marçal

PORTUGAL AINDA À FRENTE DO JAPÃO


Minha crónica no "Público" de hoje:

Muitos são nomeados, mas poucos são escolhidos. Todos os anos, no início de Outubro, há mais entradas na muito selecta galeria dos Prémios Nobel. Ao contrário do que acontece na Literatura e na Paz, os prémios Nobel na Física e na Química raramente são controversos. Os prémios atribuídos este ano pela Academia Sueca nessas últimas áreas foram, mais uma vez, justíssimos.

Além do mais reparou-se, ainda que apenas parcialmente, uma injustiça histórica relativamente ao Japão. Acontece que o Japão – uma grande potência científico-tecnológica (basta dizer que é, em todo o mundo, um dos países que mais investem em investigação e desenvolvimento e é o país com mais patentes por habitante) – só tinha até há poucos dias doze laureados Nobel, dos quais dois eram na Literatura e um na Paz. Agora tem mais três, dois na Física, Makoto Kobayashi e Toshihide Maskawa, e um na Química, Osamu Shimomuri, este último emigrado para os EUA (sobreviveu ao desastre de Nagasaki). Ou mais quatro, se contarmos o outro Nobel da Física, um japonês naturalizado norte-americano e também a viver nos EUA, Yoichiro Nambu.

Mesmo assim, Portugal, que tem dois Nobel, António Egas Moniz na Medicina (vai fazer 60 anos para o ano) e José Saramago na Literatura (faz agora dez anos), ainda não foi desta vez que se viu ultrapassado pelo Japão. Isto porque uma comparação razoável entre os vários países tem de levar em conta o tamanho das respectivas populações: ora o Japão, com 128 milhões de habitantes, tem só 0,12 prémios por milhão de habitantes, ao passo que nós, com 11 milhões de habitantes, temos 0,18 prémios por milhão de habitante. Além de estarmos à frente do Japão, estamos também à frente da Espanha, que não passa de 0,15 prémios por milhão de habitante (tem cinco Nobel da Literatura e dois da Medicina para uma população que é quatro vezes a nossa), e muito à frente do Brasil, que não tem nenhum Nobel. Se nós temos um défice na classificação dos Nobel por habitante (21º lugar), a Espanha e o Brasil têm défices maiores.

Claro que estas estatísticas valem o que valem. Já alguém disse que há três espécies de mentiras: as mentiras, as grandes mentiras e as estatísticas. Se olharmos para o campeão na tabela de prémios Nobel por habitante, encontramos a diminuta Islândia já que, com 300 000 habitantes, tem um prémio (o desconhecido Halldór Laxness ganhou o Nobel da Literatura em 1955), dando um “ratio” de 3,37. Não temos de ficar impressionados, pois trata-se de uma flutuação estatística (tal com Timor Leste). Mas já nos pode admirar que o país que, de longe, leva a dianteira dos Prémios Nobel em números absolutos, os Estados Unidos, só apareça em 11º lugar, o que se explica pela sua grande dimensão populacional. E isto apesar de ter beneficiado da importante fuga de cérebros depois da Segunda Guerra Mundial, tanto do Japão como da Europa. No “top ten”, encontramos países europeus com uma população inferior à nossa em relação aos quais podíamos e devíamos ser mais competitivos: a Suécia, embora esta possa ser favorecida por jogar em casa, Suíça, Dinamarca, Noruega, Áustria e Irlanda. Há estatísticas verdadeiras!

Se queremos ficar mais competitivos, temos de aumentar a parcela do nosso Produto Interno Bruto (PIB) que dedicamos à investigação científica e ao desenvolvimento tecnológico. A nossa distância em relação ao Japão é abismal, pois esse país gasta 3,1 por cento do seu PIB, que é aliás bem maior do que o nosso, enquanto nós ficamos pelos 0,8 por cento, menos de metade da média europeia (dados de 2005). Se não fizermos nada, em poucos anos o Japão vai ultrapassar-nos no “ranking” dos Nobel por milhão de pessoas. Agora que se vai discutir o Orçamento de Estado, vamos lá a ver se o anunciado aumento orçamental nessa área é significativo. Investir na ciência uma parte maior do nosso PIB é a maneira de subirmos não só no “ranking” dos prémios mas também noutro, que, apesar da temporária excepção japonesa, está com ele correlacionado - o da riqueza das nações.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Steve Jobs (Apple), 1996


Na sequência do seu post anterior, Norberto Pires informa sobre a posição de Steve Jobs e de outros autores em relação ao uso de computadores na educação:

Do famoso Steve Jobs em 1996 à Wired:

Wired: Could technology help by improving education?

Steve Jobs: "I used to think that technology could help education. I've probably spearheaded giving away more computer equipment to schools than anybody else on the planet. But I've had to come to the inevitable conclusion that the problem is not one that technology can hope to solve. What's wrong with education cannot be fixed with technology. No amount of technology will make a dent.

It's a political problem. The problems are sociopolitical. The problems are unions. You plot the growth of the NEA [National Education Association] and the dropping of SAT scores, and they're inversely proportional. The problems are unions in the schools. The problem is bureaucracy. I'm one of these people who believes the best thing we could ever do is go to the full voucher system.

(...) When you have kids you think, what exactly do I want them to learn? Most of the stuff they study in school is completely useless. But some incredibly valuable things you don't learn until you're older - yet you could learn them when you're younger. And you start to think, What would I do if I set a curriculum for a school? God, how exciting that could be! But you can't do it today. You'd be crazy to work in a school today. You don't get to do what you want. You don't get to pick your books, your curriculum. You get to teach one narrow specialization. Who would ever want to do that?

These are the solutions to our problems in education. Unfortunately, technology isn't it. You're not going to solve the problems by putting all knowledge onto CD-ROMs. We can put a Web site in every school - none of this is bad. It's bad only if it lulls us into thinking we're doing something to solve the problem with education.

Lincoln did not have a Web site at the log cabin where his parents home-schooled him, and he turned out pretty interesting. Historical precedent shows that we can turn out amazing human beings without technology. Precedent also shows that we can turn out very uninteresting human beings with technology.

It's not as simple as you think when you're in your 20s - that technology's going to change the world. In some ways it will, in some ways it won't. "

Sobre o mesmo asunto, leia-se o Finantial Times (Maio de 2006):

"Throwing laptops at the education problem is, alas, a whole lot easier than figuring out how to actually teach kids."

Ou daqui esta opinião tirada daqui que refere o caso português:

"I'm not saying it's not important for kids to know how to use computers and the Internet. But there's a base level of knowledge that kids need to have first, in all subjects -- math, English, foreign languages, music, art, science and others. It's foolish to kill some academic programs (even music, as Oppenheimer documents in some cases) in favor of technology acquisition. Kids who have access to computers will quickly learn on their own how to make use of the machinery and how to navigate the Internet as needed."

Pois... there's more in this than meets the eye...

J. Norberto Pires

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O NOBEL DA FÍSICA DE 2008


Minhas declarações hoje à Agência Lusa sobre a atribuição do Prémio Nobel da Física de 2008 (na foto, o Prof. Yoichiro Nambu, que vai receber metade do prémio):

A atribuição do prémio Nobel da Física de 2008 a um norte-americano de origem japonesa, o Prof. Nambu, e a a dois japoneses, os Profs. Kobayashi e Maskawa, é justíssima.

Desta vez a maior distinção recaiu na área da Física Teórica de Partículas, o que é bastante oportuno quando no CERN, em Genebra, na Suíça, está a entrar em funcionamento a maior máquina do mundo, construída para melhor conhecer a matéria e a energia que constituem o Universo. Foram premiadas descobertas teóricas, mas já confirmadas pela experiência, relativas à quebra de simetria, um fenómeno muito comum em Física de Partículas, que ocorre quando certas harmonias de base deixam de ser respeitadas.

As leis naturais que presidem à organização do Universo baseiam-se em simetrias, isto é, em invariâncias relativamente a certas transformações. Os físicos teóricos "adivinham" as leis da Natureza precisamente com base em simetrias. O mundo é, portanto, nos seus fundamentos teóricos, perfeito, ou, como muitos físicos gostam de dizer, belo. Conforme o poeta inglês John Keats já disse: "o verdadeiro é belo e o belo é verdadeiro". Tanto as partículas do mundo como as forças fundamentais que relacionam as partículas são descritas matematicamente respeitando princípios gerais de simetria. Mas, depois, encontramos que o Universo, tal como o vemos hoje, não é assim tão perfeito: existem algumas quebras das simetrias fundamentais. É como se o belo tivesse de ter um senão para ser verdadeiro... Nomeadamente, há várias partículas diferentes e não uma só. Há várias forças diferentes e não uma só. Os físicos acreditam que no início do Universo, há cerca de 14 mil milhões de anos, o mundo era mais perfeito do que é hoje, no sentido em que muitas simetrias que hoje vemos quebradas o não estavam. A evolução do Universo desde então tem sido no sentido do rompimento de simetrias.

Baseado na sua análise do fenómeno da supercondutividade (condução eléctrica com resistência nula), o Prof. Nambu, no início dos anos 60, aplicou pela primeira vez a ideia de quebra de simetria à física de partículas, um conceito que conheceu logo grande sucesso e que permitiu desenvolver o chamado "modelo padrão" de partículas e forças (alguns dos artigos foram escritos numa revista americana com o físico italiano Jona-Lasinio, mas os regulamentos do Nobel impedem que haja mais de três premiados). Com 87 anos, trata-se de um dos premiados mais velhos de todos os Nobel em física e mesmo nas outras áreas. Dada a sua longa e muito fértil carreira não admira que este prémio acresça a vários outros que já recebeu. Os seus dois colegas do Nobel deste ano, que são cerca de 20 anos mais novos, publicaram um artigo numa revista japonesa em 1973, que na altura quase passou incógnito, sobre a violação de uma simetria fundamental para a força nuclear fraca (também aqui a Academia sueca pode ter sido injusta para um físico italiano, Cabibbo, cujo trabalho precedeu o de Kobayashi e Maskawa). O seu artigo levava à existência de mais quarks, os blocos básicos das partículas do núcleo atómico, para além dos três que já eram na altura conhecidos. Os novos quarks, embora sempre agrupados, foram encontrados nos aceleradores de partículas. Hoje conhecem-se três famílias de quarks - tendo um par de quarks cada uma- e sabe-se que não há mais do que três. Mas a investigação em física de partículas pode vir a conhecer surpresas em breve com os resultados da grande máquina do CERN. Estes não serão decerto os últimos prémios Nobel nessa tão emocionante área...

ESPAÇO: A ÚLTIMA FRONTEIRA


Informação recebida da Ciência Viva sobre exposição a inaugurar na sexta-feira (clicar na figura para ver melhor):

A aventura no Espaço começou há meio século. A Terra está rodeada de satélites artificiais, caminhámos na Lua, estamos a construir uma Estação Espacial Internacional e exploramos com sondas e telescópios o Sistema Solar e o Universo.

Seja astronauta por um dia e venha descobrir os desafios que nos reserva a última fronteira. Das telecomunicações aos laboratórios espaciais, da navegação à microgravidade, embarque na procura do conhecimento e siga os pequenos passos para o Homem que se têm vindo a revelar saltos gigantes para a Humanidade.

O Pavilhão do Conhecimento-Ciência Viva convida-o para a inauguração da exposição Espaço A Última Fronteira no dia 10 de Outubro, sexta-feira, às 15h.

Estará presente o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

ALGUMA NÃO-FICÇÃO RECENTE

E também há livros recentes de não-ficção. Eis seis que ando a ler, escolhidos segundo um critério pessoal entre vários outros possíveis:

- Alexandre Castro Caldas, "Viagem ao Cérebro e a algumas das suas competências", Universidade Católica Editora, 2008.

O conhecido médico e neurocientista português faz, neste pequeno livrinho (que custa menos de sete euros), uma introdução acessível à biologia do cérebro humano.

- Thomas Cathcart e Daniel Klein, "Platão e um Ornitorrinco entram num bar...", Dom Quixote, 2008.

Um pequeno livro de capas duras sobre que mistura filosofia com humor da autoria de dois norte-americanos formados em filosofia por Harvard. O tom do livro é dado na primeira página, onde os autores transcrevem um a frase de Groucho Marx: "Estes são os meus princípios; se não gostarem deles, tenho outros".

- Timothy Gowers, "Matemática. Uma breve introdução", Gradiva, 2008.

Um pequeno livro que explica o que é a matemática da autoria de um professor da Universidade de Cambridge que recebeu o mais alto galardão desta disciplina, a medalha Fields, atribuída só a matemáticos com menos de 40 anos.

- Fernando Savater, "A Vida Eterna", Dom Quixote", 2008.

O filósofo espanhol (ou melhor basco) nesta sua nova obra da sua longa bibliografia, aborda aqui as questões da religião. O subtítulo informa: "Um convite lúcido a reflectir sem medo sobre a religião, a razão, a morte e a vida eterna". A capa é muito bonita!

- António Sérgio, "Ensaios sobre Educação", Imprensa Nacional, 2008.

Do grande pensador português do século XX, esta é uma antologia de textos essenciais da história da educação entre nós. Destaco "O problema da cultura e o isolamento dos povos peninsulares", de 1914. Prefácio do estudioso da educação Manuel Ferreira Patrício.

- "Weltliteratur. Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburg, o Mundo!", Fundação C. Gulbenkian, 2008.

Catálogo da magnífica exposição sobre literatura, comissariada por António Feijó, que está patente na galeria de exposições temporárias da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. O leitor fará muito bem em ir ver e fará ainda melhor se trouxer para casa a exposição na forma deste rico catálogo.

ALGUMA FICÇÃO RECENTE

Na "rentrée" os escaparates das livrarias têm mais novidades. Eis meia dúzia de novidades de ficção que me chamaram a atenção e que irei ler quando tiver tempo (aparecem por ordem alfabética do autor):

- John Darnton, "A Profecia de Neandertal", Casa das Letras, 2008.

Um jornalista do "New York Times", prémio Pulitzer e irmão do historiador e director da biblioteca da Universidade de Harvard Robert Darnton, depois do enorme êxito que foi romance "O Pecado de Darwin" (a ler ou reler no ano Darwin que se avizinha!) conta-nos uma envolvente história de um antropólogo de Harvard, que faz uma descoberta inesperada na Ásia Central...

- Jill Gregory e Karen Tintori, "O Último dos Escolhidos", Gradiva, 2008.

Uma história escrita a quatro mãos que mistura cabala e seitas secretas com temas da actualidade internacional como as guerras no Afeganistão e no Iraque.

- Will Lavender, "Aula de Risco", Difel, 2008.

Um "thriller" psicológico que mistura imaginativamente uma aula universitária de lógica com um crime, que é o primeiro livro do norte-americano seu autor. O interessante título português é imaginativo pois o original, que entrou na lista de "best-sellers" do "New York Times" intitula-se "Obedience".

- Aquilino Ribeiro, "O Galante Século XVIII. Textos do Cavaleiro de Oliveira", Bertrand, 2008.

O grande mestre português da escrita parte aqui de textos do Cavaleiro de Oliveira, um dos famosos estrangeirados do século XVIII que a Inquisição queimou em efígie. O prefácio é do escritor Baptista Bastos. Lembre-se que Aquilino é também autor de um romance sobre outro autor perseguido do tempo do barroco "Anastácio da Cunha. O Lente Penitenciado". A capa é feia: como é possível fazerem-se hoje capas tão arcaicas?

- Georges Steiner, "Anno Domini", Gradiva, 2008

O conhecido ensaísta nascido em Paris que tem ensinadoi nas melhores universidades do mundo, e que esteve há pouco em Lisboa numa iniciativa da Gulbenkian (ver "A Ciência terá Limites?", Gulbenkian e Gradiva) faz aqui mais uma das suas saborosas incursões pela ficção. Tradução de Miguel Serras Pereira.

- Neal Stephenson, "Odalisca", Tinta da China, 2008.

Terceiro volume do "Ciclo Barroco" deste consagradíssimo autor norte-americano de ficção científico-histórica (ver última "Wired"), que aparece depois de "Argento Vivo" e "O Rei dos Vagabundos", ambos já publicados pela Tinta da China. A acção passa-se no século XVII e na galeria de personagens estão o rei de Inglaterra Carlos II e a sua consorte portuguesa, D. Catarina de Bragança. Também aparece Isaac Newton, de cujas obras foram retirados alguns desenhos geométricos que aparecem no romance.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Livros e Magalhães


Crónica de J. Norberto Pires, professor de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra e CEO do Coimbra Inovação Parque, publicada no "Jornal de Notícias" de 5 de Outubro:

Vivemos depressa. Muito depressa. E não sabemos bem porquê. Tem de ser; é assim a vida, justificamos. Não há tempo para nada, é preciso despachar mecanicamente, automaticamente, aquilo que dizemos que fazemos. Reflectir não é grande ideia. Faz perder tempo, e isso é coisa que não temos. O melhor é andar depressa, muito depressa, pelo menos mais depressa que os outros. Mas, como o Coelho Branco da Alice, parecemos sempre atrasados para alguma coisa. Não sabemos bem é para o quê. E parece que isso não nos incomoda.

Nesta lógica, investir no “Magalhães” é uma boa ideia. As crianças habituam-se rápido a viver depressa, sem se deslocar, e sem precisar de contacto físico. A Internet resolve. Está tudo, mas mesmo tudo, à distância de umas teclas. Até pesquisar, estudar, é tão simples como “clique”, “Google”, “palavra-chave”, “copy and paste”, e pronto. E, como dizia o Calvin, podemos fazer um brilharete com umas capinhas de plástico. Muito profissional.

Só que essa é uma escola sem futuro. E é disso que falamos quando falamos de livros e de leitura. A escola com futuro coloca o foco nos livros, na aprendizagem com reflexão, que é um método que a leitura incentiva e desenvolve. Com o tempo que as coisas naturalmente levam, com detalhes, ao pormenor. Uma educação feita assim é uma vela impressionante que nos permite navegar pela vida fora com a confiança de quem não desiste.

Como o velho Santiago, que não pescava um simples peixe há 84 dias, mas tinha nos magníficos olhos azuis o brilho de querer apanhar o maior peixe da sua vida. Mesmo muito cansado, com um barco a cair de podre, e a vela remendada. E conseguiu, ganhando de novo o respeito de todos. E nós viajamos a Cuba com ele.

Ou ainda como o Principezinho que um dia saiu do seu pequeno planeta cheio de flores e vulcões extintos, para viajar por sete planetas e descobrir que afinal mais importante do que navegar, ver e desvendar novas realidades, é importante descobrir o valor das coisas e das pessoas, e que isso exige tempo. Tempo para ler.

Evitando ser como a Alice, que não sabia para onde ir; se haveria de virar à esquerda, ou à direita, ou pura e simplesmente seguir em frente. Assim, como muito bem notou o Gato, não importa que direcção tomar se não se faz a mínima ideia para onde se quer ir. Chega-se sempre a qualquer lado, seja qual for a direcção escolhida. Depressa ou devagar, não importa. Existe sempre um destino, seja ele o do Gato Chapeleiro ou o da Lebre Marciana.

- Mas eu não quero ir para o meio de gente maluca, dizia a Alice.

Vai uma aposta que com o andar das coisas não podes evitar isso?

J. Norberto Pires

A AMEAÇA INTELECTUAL NOS ESTADOS UNIDOS

O artigo de Jeffrey Sachs, professor de Economia e director do Instituto da Terra da Universidade de Columbia, publicado no "El País" de 4 de Outubro passado, começa assim (na foto Sarah Palin):

"En los últimos años, Estados Unidos ha sido más una fuente de inestabilidad mundial que de resolución de problemas en el mundo. Abundan los ejemplos: la guerra de Irak, iniciada por Estados Unidos con falsos argumentos; la obstrucción de los esfuerzos para reducir el cambio climático; la escasa ayuda al desarrollo; la violación de tratados internacionales como los Convenios de Ginebra... Aunque son muchos los factores que contribuyeron a las acciones desestabilizadoras de EE UU, uno de ellos, muy poderoso, es la actitud antiintelectual, simbolizada recientemente en la gran popularidad que obtuvo en un primer momento la candidata republicana a la vicepresidencia, Sarah Palin.

Al decir antiintelectual, me refiero en especial a una perspectiva agresivamente anticientífica, apoyada en el desprecio por quienes defienden la ciencia y la necesidad de pruebas. Pero los retos que afronta una gran potencia como Estados Unidos exigen análisis rigurosos de la información con arreglo a los mejores principios científicos."

O resto pode ser lido aqui.

domingo, 5 de outubro de 2008

HOBBES E SUÁREZ


Eunice Ostrensky, professora brasileira de filosofia política e tradutora de livros de Hobbes e Stuart Mill, apresenta assim, no final seu artigo "Thomas Hobbes. Como controlar os impulsos dos homens", publicado na revista brasileira "Mente, Cérebro & Filosofia", nº 2, a oposição entre Thomas Hobbes (1588-1679), o filósofo inglês, e Francisco Suárez (1548-1617), o jesuíta espanhol que foi professor na Universidade de Coimbra (na imagem) e expoente da chamada Segunda Escolástica:

"No 'Leviatã' , a demonstração filosófica é acompanhada de persuasão retórica, que tem na ironia e em outros argumentos satíricos um dos seus instrumentos mais fortes: a capacidade de suscitar o riso. Ao lançar à superfície o ridículo de doutrinadores e doutrinados, o filósofo consegue, talvez, desarticular as doutrinas clericais sediciosas.

Assim, por exemplo, em vez de simplesmente sustentar que o jesuíta Francisco Suárez sustentou inverdades, Hobbes prefere perguntar, depois de citar a tradução do título do sexto capítulo do primeiro livro de Suárez ('A primeira causa não insufla necessariamente alguma coisa na segunda, por força da subordinação essencial das causas segundas, pela qual pode ser levada a atuar'):

'Quando alguém escreve volumes inteiros cheios de de tais coisas, ele está louco ou pretende enlouquecer os outros?' ('Leviatã', VII, pag. 73) "

sábado, 4 de outubro de 2008

Filosofia da ciência


The Routledge Companion to the Philosophy of Science, org. por Stathis Psillos e Martin Curd. Routledge, 2008, 656 pp.

REGRESSO AO NUCLEAR


MInha crónica no "Sol" de hoje:

Cada vez se fala mais de energia nuclear, por todo o lado e também aqui. O nuclear, que é uma tecnologia muito segura, tem uma grande vantagem relativamente às centrais térmicas: não emite o dióxido carbono que causa o efeito estufa. Poderá haver razões, económicas ou outras, para não construirmos uma central nuclear, mas o pior que poderíamos fazer era dizer à partida que não. É necessário discutir até chegar a uma resposta bem informada. As centrais nucleares funcionam bem em muitos países do mundo. E nós importamos energia de Espanha e França, que é, em larga medida, nuclear.

Eu sei que me podem falar de Chernobyl. De facto, Chernobyl foi um acidente perigoso e lamentável. Mas não morreram milhões de pessoas... O governo ucraniano exagerou com o objectivo de ser compensado. Dizer-se que, por causa de Chernobyl, não devemos ter energia nuclear é a mesma coisa que dizer que, por causa de um erro clínico, não devemos ir a um hospital. Na questão do nuclear o perigo maior não é o de um acidente (que, apesar de raro, pode também ocorrer numa barragem): é o dos resíduos radioactivos, porque ainda não há um meio que seja absolutamente eficaz para os tratar. É um mau legado para o futuro, porque, embora esse lixo seja enterrado em lugares remotos e a grande profundidade, continuará a emitir radioactividade por longos anos.

Há um medo do público relativamente ao nuclear, talvez por a radiação ser invisível. Contudo, as pessoas que moram em zonas graníticas estão sujeitas permanentemente a essa radiação. Temos medo do que não devíamos ter e não temos medo do que devíamos ter. Há coisas de que devíamos ter mais medo porque são bem mais perigosas, como, por exemplo, a circulação automóvel.

Agora há muitos investimentos em centrais eólicas e solares. Muito bem. São tecnologias em desenvolvimento, mas não se prevê que, a curto prazo, proporcionem uma solução barata às nossas enormes necessidades energéticas. Temos de investir nas energias alternativas, mas não é viável desistir das centrais convencionais, sejam elas térmicas ou nucleares.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Profecias auto-realizáveis

Crónica de J. L. Pio de Abreu no "Destak" de hoje:

Um rapaz acredita que ninguém gosta dele. Em consequência torna-se antipático, o que leva a que, de facto ninguém goste dele. Este é o exemplo típico de uma profecia auto-realizável. A nossa vida está cheia delas. Muitos fenómenos psicológicos e psicopatológicos podem-se entender a esta luz: em certas condições, basta que se tenha uma crença para que ela se realize. As crenças (ou teorias) que os pais têm sobre os filhos realizam-se com frequência, podendo ser benéficas, se forem positivas, ou devastadoras, quando negativas.

É por isso que uma teoria psicológica que adquira importância acaba por parecer verdadeira. Porém, não é a teoria que se adequa aos factos, mas sim estes que se adaptam à teoria. Ela será uma teoria, mas não uma teoria científica.

As profecias auto-realizáveis ocorrem em todos os contextos interactivos onde os humanos são autores e sujeitos da crença, e simultaneamente visados por ela. Para além da psicologia, podemos encontrá-las na política, na sociologia e na economia. Imagine-se o que aconteceria se todos acreditássemos que os bancos iriam ficar insolventes: a crença realizar-se-ia.

Há assim quem entenda que as ciências humanas não são verdadeiras ciências, mas sim retóricas que engendram factos. Fazem-no porém dentro de certas condições e limites, pois às vezes também engendram os factos que destroem a teoria. Nos dias de hoje, pode estar em causa a ciência económica e suas teorias mais recentes.

J.L. Pio Abreu

GABINETE TRANSNATURAL DE VANDELLI


Informação recebida do Museu Nacional do Rio de Janeiro (foto de Jorge Molder):

Vai inaugurar no próximo dia 15 de Outubro, pelas 16h30, no Museu Nacional, Quinta da Boa Vista, Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, a exposição intitulada GABINETE TRANSNATURAL DE VANDELLI, sobre o grande naturalista luso-italiano Domingos Vandelli do tempo das luzes, que já esteve no Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra. Ver aqui.

FESTCINE Amazónia


Informação recebida do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra:

O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra acolhe a 8, 9 e 10 de Outubro o festival de cinema e vídeo itinerante FestCineAmazónia. Promovida pelo Centro de Estudos Sociais (CES), a iniciativa faz parte das comemorações dos 30 anos de actividade do CES e conta com debates, mostras e projecções de filmes.

Criado em 2003, o FestCineAmazónia decorre uma vez por ano na cidade de Porto Velho, capital do Estado de Rondônia (Amazônia Legal - Brasil). Propõe uma selecção de curtas e médias metragens de ficção, documentários e filmes de animação, para uma maior divulgação e um melhor conhecimento das diversas problemáticas que envolvem o tema da Amazónia. Na sua versão itinerante, o FestCineAmazónia viajou pela América Latina, no Peru, na Bolívia e na Colômbia, atravessando agora o Atlântico até Portugal.

Consulte o programa do festival. A entrada é gratuita.

PRÉMIOS IGNOBEL


É a festa maior do humor científico. Ontem, em concorrência com o debate Biden-Pallin, nos Estados Unidos, decorreu na Universidade de Harvard a cerimónia de atribuição dos já famosos prémios IgNobel. Ver aqui o "Público on-line" (Estudo sobre a ovulação e as gorjetas das dançarinas de bar vence o IgNobel da Economia ). O artigo está aqui.

Oscillatomium

A Rádio Zero emitirá amanhã à noite em directo do Atomium uma noite especial de rádio sob o mote «Oscilações». Para saber mais sobre esta iniciativa ouçamos os seus promotores:

«A história da música electrónica entrelaça-se com o desenvolvimento da rádio. Esta relação solidificou-se durante os anos 50 e 60, quando as estações públicas montaram gigantescos estúdio de música electrónica (Groupe de Recherche Musicale at Radio France, Studio für Elektronische Musik at WDR), e os fabricantes de rádios como a Philips e Siemens financiaram compositores, investigadores e gravações de obras.

Transmissores de rádio, altifalantes, microfones, são todos elementos que se encontram nos estúdios de rádio e de música, desenhados como tradutores de oscilações. Este é o mote desta noite de rádio no Atomium, em Bruxelas, durante o festival Nuit Blanche.

Oscillatomium irá mostras música electrónica da memorável Exposição Mundial de 1958 em Bruxelas, assim como performances ao vivo de referências da música electrónica dos dias de hoje. Vários trabalhos originais de rádio foram serão também emitidos, fornecidos por um incongruente grupo de artistas rádio internacionais. O Oscillatomium acontecerá na esfera Ilya Prigogine do Atomium. Ilya Prigogine ganhou o prémio Nobel da Quimica em 1977 pela sua explicação das reacções quimicas.»

O MUNDO PÓS-AMERICANO

Informação recebida da Gradiva:

Do mesmo autor de O Futuro da Liberdade (ed. Gradiva), a Gradiva publica agora O Mundo Pós-Americano de Fareed Zakaria. Há semanas consecutivas nos tops de vendas americanos, esta nova obra do editor da revista Newsweek International analisa a actual distribuição do poder no mundo.

Com as suas habituais lucidez e perspicácia, Fareed Zakaria retira as devidas lições das duas grandes deslocações de poder ocorridas no passado – a ascensão do mundo ocidental e a ascensão dos Estados Unidos – e conclui o que podemos esperar da terceira deslocação: a «ascensão dos restantes», isto é, o crescimento de países como a China, a Índia, o Brasil, a Rússia, a África do Sul e muitos, muitos outros.

Este crescimento económico cria uma nova paisagem mundial, na qual o poder se desloca e a riqueza e a inovação irrompem em locais inesperados. O crescimento económico gera ainda confiança política e orgulho nacional. A confirmar-se esta tendência, a globalização ver-se-á cada vez mais confrontada com o nacionalismo – tensão que definirá provavelmente as próximas décadas. O crescimento mundial traduz-se em muitas coisas boas, mas também cria muitos problemas que o mundo não está ainda preparado para enfrentar. O debate político actualmente em curso nos Estados Unidos ignora por completo este desenvolvimento mais vasto, obcecado como está com questões como o terrorismo, a imigração, a segurança interna e os pânicos económicos. Os verdadeiros desafios que se colocam ao país vêm dos vencedores, e não dos vencidos, do novo mundo.

O grande desafio colocado à Grã-Bretanha foi o declínio económico. O desafio agora enfrentado pelos Estados Unidos é o declínio político, pois, à medida que «os restantes» crescem em importância, o papel central dos Estados Unidos ver-se-á necessariamente reduzido. Washington precisa de dar início a uma transformação séria da sua estratégia mundial, passando de hegemonia dominante a algo mais parecido com um corretor honesto. Tem de procurar partilhar o poder, criar alianças, granjear legitimidade e definir a sua ordem de trabalhos mundial – tudo tarefas hercúleas. Nada disto será fácil para a maior potência que o mundo já conheceu – a única potência com verdadeiro poder durante muito tempo. Mas como ficamos a saber graças a este livro profundamente pertinente e esclarecedor, tudo isso está a mudar. O mundo que nos espera é, pois, pós-americano.

O AUTOR
FAREED ZAKARIA é doutorado em Ciência Política pela Universidade de Harvard. Foi editor executivo de Foreign Affairs e é, desde 2000, o editor da revista Newsweek International. Jornalista eminente e várias vezes premiado, escreve uma coluna semanal sobre assuntos internacionais e foi considerado uma das vinte e uma pessoas mais importantes do século XXI.

NERY DELGADO (1835-1908), GEÓLOGO DO REINO


Do Museu Geológico, na Rua da Academia das Ciências, em Lisboa, recebemos a seguinte informação relativa a uma exposição em memória de Nery Delgado, "Nery Delgado, Geólogo do Reino", que está patente nesse museu (na imagem, a Carta Geológica de Nery Delgado e Carlos Ribeiro de 1876):

Em 3 de Agosto de 1908, morreu, aos 73 anos, o General Joaquim Filipe Nery da Encarnação Delgado, insigne geólogo e director da Comissão do Serviço Geológico que, com Carlos Ribeiro, foi um dos pioneiros da Geologia portuguesa.

A sua notável obra abrange os domínios da Estratigrafia e da Paleontologia do Paleozóico Inferior, da Cartografia geológica, da Arqueologia e da Geologia Aplicada, deixando em toda ela a sua marca de rigor, probidade e qualidade científica excepcional, que a fazem, ainda hoje, indispensável à investigação do nosso território.

Com Carlos Ribeiro, foi co-autor das 1.ª e 2.ª edições (1876, 1878) da Carta Geológica de Portugal à escala 1: 500 000 e, posteriormente, com Paul Choffat, da sua 3.ª edição (1899).

Celebrar neste ano de 2008 o Centenário da sua morte, evocando a sua vida e a importância da obra, que se conserva actual, procurando divulgá-la publicamente, não é mais que uma justíssima homenagem a um insigne geólogo e fundador desta Casa e a quem o País tanto deve.

A Exposição visa:
- dar a conhecer a vida e a obra de Nery Delgado, nos planos pessoal e institucional, contribuindo, assim, para uma melhor compreensão de aspectos da história da Ciência portuguesa, da segunda metade século XIX;
- divulgar as colecções de fósseis, despojos humanos, artefactos pré-históricos, mapas, manuscritos e instrumentos científicos, associados à actividade científica de Nery Delgado;
- divulgar e realçar a importância e riqueza do património existente, cuja relevância científica e histórica ultrapassa a sua época, e, por isso, deve ser preservado.

Museu Geológico, R. Academia das Ciências 19-2º, Lisboa
A Exposição, coordenada por Ana Carneiro e Miguel Ramalho, estará patente ao público, de 1 de Outubro de 2008 a 31 de Março de 2009
Horário: 3ª a Sábado, das 10h às 17h
Metro: Chiado

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

IRRACIONAL

Informação recebida da editora Lua de Papel / Asa:

Texto na badana do livro "Irracional"


"Irracional levou-me a reconhecer uma faceta absurda das minhas experiências em Física. Houve alturas em que me precipitei para investigações que não faziam muito sentido... levado por um acto irracional, como a esperança de um sucesso rápido".

MARTIN PERL, Prémio Nobel da Física

"Se pensa que não sabe como pensa, então pense duas vezes. Aproveite esta viagem tão perspicaz quanto delirante ao ponto onde a economia, a psicologia e a sociologia se encontram, e ficará a saber como funciona a nossa mente demasiadamente humana."

ALAN W. WEBBER, Director fundador da revista "Fast Company"

AVISO: Se comprar este livro só por causa das recomendações que leu, está a ser levado a agir irracionalmente. Uma das forças psicológicas expostas em Irracional é justamente a nossa tendência para valorizar a opinião de pessoas com estatuto, poder ou autoridade. Mas não deixe de o comprar por causa disso.

- Ori Brafman e Rom Brafman, "Irracional. O que leva pessoas inteligentes a tomar decisões erradas", Lua de Papel, 2008.
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CIMÉLIOS "FEMINISTAS"


Ainda no âmbito da exposição "Cimélios" patente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, já aqui referida, damos informação, da responsabilidade de António Eugémio Maia do Amaral, sobre algumas obras expostas referentes à mulher (na imagem, Catarina de Bragança):

O primeiro texto feminista português, 1557:

GONÇALVES, Rui, fl. 1539
Dos priuilegios & praerogatiuas q[ue] ho género feminino te[m] por dereito com[um] & ordenações do Reyno… [Lisboa?] : apud Iohanne[m] Barreriu[m], 1557. 106 [i.e. 104], [4] p. ; 4º (22 cm). Encadernação em pele com lombada gravada a ferros dourados R-13-27

Na esteira de obras do mesmo tipo publicadas por toda a Europa (Heinrich Cornelius Aggrippa, Martin Le Franc, Galeazzo Flavio Capella, François Billon e outros, no que ficou conhecido como a querelle des femmes), também em Portugal este Lente de Instituta da Universidade, o Licenciado Rui Gonçalves, publica um elogio do género feminino, dedicado à Rainha regente D. Catarina de Áustria. O objectivo do livrinho é-nos dado logo no prefácio: …mostrar quão errados estavam os que escreviam contra as mulheres… Na primeira parte da obra, o autor trata de …algumas virtudes em que as mulheres foram iguais e precederam aos homens. Na segunda, trata da situação jurídica da mulher. O facto de ter sido escrito em português e não em latim mostra a preocupação do autor em dar a conhecer às mulheres a legislação que lhes dizia respeito. A obra tem sido considerada o mais antigo texto feminista português.

Papeis inéditos sobre o casamento de D. Catarina de Bragançacom Carlos II de Inglaterra:


ORIGINAL DOCUMENTS
[Original documents relating to Charles II] [manuscrito]. 1660-1697. 54 f. (59 docs.) : il., retratos ; 420x335 mm. Textos em latim, espanhol, inglês e português. Encadernação inglesa do séc. XIX, em chevreau preto, seixas decoradas com ferros gravados, lombada de 6 nervos gravados a ouro com título também a ouro. Cofre 45.

Álbum de autógrafos de Carlos II e de várias personalidades marcantes da Corte inglesa do seu tempo. Inclui cartas, documentos e retratos gravados do Rei e da sua mulher, a Princesa portuguesa D. Catarina Henriqueta de Bragança (1638-1705), da sogra D. Luísa de Gusmão, do historiador e homem de Estado Edward Hyde (1609–1674), 1º Conde de Clarendon, do confessor Frei Domingos do Rosário (o dominicano irlandês Daniel O´Daly, 1595-1662), do embaixador (e tradutor de Camões para o inglês) Sir Richard Fanshaw (1608-1666) e de sua mulher Lady Ann Fanshaw (1625-1680), do Almirante Sir Thomas Allin (1613-1685), do diplomata Sir Robert Southwell (1635-1702), etc. Normalmente, a cada documento na página ímpar corresponde uma gravura na página par. Conjunto adquirido em leilão, ainda inédito e por estudar, que tem sido acrescentado de novas peças, adquiridas em anos mais recentes.

Uma edição da “História de Menina e Moça” em caixa romântica com suporte:

RIBEIRO, Bernardim, 1482-1552
Hystoria de Menina e Moca [sic] … : agora de nouo estampada, e cõ[m] summa deligencia emendada : e assi algu[m]as Eglogas suas com ho mais que na pagina seguinte se vera. [Colónia] : Arnold Birckman, 1559. clxxi [i.e. 167] f. ; 8º (14 cm). Pert.: A.P.G. Encadernação em pele vermelha ricamente gravada a ferros dourados. Cofre 49

Circulou em manuscrito, teve a sua primeira edição em Ferrara, nos prelos de Abraão Usque, em 1554, e uma segunda, com texto bastante mais extenso e com o título “Saudades”, impressa em Évora por André de Burgos, em 1557-1558, que a BGUC também tem e que inclui um prolongamento até ao cap. XXIV, que se costuma aceitar como sendo do autor. Pouco depois, em 1559, sai da oficina de Arnold Birckman, em Colónia, esta terceira impressão com summa deligencia emendada, que retoma com ligeiríssimas variantes a de Ferrara. Esta ficção extraordinária para a época, na qual o autor se transveste para o género feminino, inaugura em Portugal a narrativa intimista, bucólica e pastoril. Novela sentimental, de teor psicológico, todo o seu programa se resume no prefácio: Das tristezas não se pode contar nada ordenadamente, porque desordenadamente acontecem elas.

Uma edição dos Estatutos da Universidade ilustrados pela jovem Josefa d'Óbidos:

UNIVERSIDADE DE COIMBRA
Estatutos da Universidade de Coimbra : confirmados por el Rey Nosso Snor Don João o 4º em o anno de 1653. Em Coimbra : officina de Thome Carvalho, 1654. [10], 14, [6], 330, [4], 208, 10, [6] p. ; 2º (30 cm). Encadernação em pele com lombada gravada a ferros dourados. R-22-1

Desde 1309 que o poder político outorga à Universidade de Coimbra os Estatutos para a sua organização e governo. Estes Estatutos, cujo texto data de 1591, serão os sétimos que teve a Universidade e têm nesta de 1653-1654 a sua mais apreciada edição, enriquecida com uma gravura assinada pela jovem pintora portuguesa Josefa de Ayala ou de Óbidos (1630-1684). Edição rara porque todos os exemplares destes chamados Estatutos Velhos foram apreendidos por ordem do Marquês de Pombal, tanto em bibliotecas públicas como nas particulares, quando o “Reformador e Visitador da Universidade” trouxe de Lisboa os exemplares dos Estatutos Novos, em 15 de Setembro de 1772. Este exemplar (dos três que a BGUC possui) entrou por oferta de Eduardo Abreu, em 1889. Em 1987, foi publicado um facsimile (ainda disponível para venda) o qual, como quase todas as edições da BGUC, se vai encontrar integralmente acessível na Internet através do Google Book Search.

A actividade física e o sistema cardiovascular


Novo post do nosso habitual colaborador Rui Baptista:

“Eu não tenho o meu corpo, eu sou o meu corpo" Gabriel Marcel (1889-1973)

Num tempo em que estatísticas recentes apontam para o facto de as doenças cardiovasculares e cerebrovasculares serem responsáveis pela morte anual de 40.000 pessoas em Portugal e 7,5 milhões a nível planetário, comemorou-se, no passado domingo, dia 28 de Abril, o "Dia Mundial do Coração”. Assim, pareceu-me apropriado recuperar uma conferência que fiz, "in illo tempore" (1971), na Sociedade de Estudos de Moçambique, com o título "Educação Física ao Serviço da Saúde Pública". Passo a transcrever a parte que se reporta ao título em epígrafe:

“A Educação Física baseia-se no uso correcto do exercício seguido de períodos de repouso, sendo aquele a aplicação de um estímulo que fomenta o desenvolvimento, ou, segundo W. Roux, uma excitação funcional. São prejudiciais ao desenvolvimento físico a carência de estímulos ou a sobreexcitação que são combatidas, respectivamente, pelo exercício e por períodos de repouso. Um organismo que não é solicitado é facilmente vítima de cansaço e sucumbe até a esforços pouco intensos da vida diária do cidadão avesso à prática gimnodesportiva.

Todavia, por outro lado, o treino excessivo, quando desacompanhado do conveniente repouso e/ou de uma alimentação equilibrada, conduz dramaticamente ao esgotamento ou mesmo a desenlaces fatais. E se estes princípios devem ser valorizados na exercitação do músculo esquelético, eles assumem idêntico ou até maior relevo quando aplicado ao músculo cardíaco. O coração, ainda que só em simples actividades diárias não muito esforçadas, como subir escadas ou correr para apanhar o autocarro, é considerado uma peça de indiscutível importância no funcionamento e rendimento do complexo maquinismo que é o corpo humano. A necessidade de uma irrigação sanguínea acelerada (traduzida por um aumento do número de pulsações/ minuto) e em maior caudal (por um acréscimo do volume sistólico) por parte massa muscular submetida ao exercício físico conduz ao fortalecimento das paredes musculares do coração (miocárdio) que passará a actuar como uma bomba aspirante-premente com rendimento melhorado. Claro que quanto maiores e mais numerosos forem os grupos musculares solicitados pelo exercício físico melhores serão os benefícios obtidos, aparecendo, assim, a corrida e o levantamento de pesos [hoje chamada musculação] entre as actividades prioritárias.

Fortalecendo o coração, através de exercícios gímnicos ou da prática desportiva, actua-se preventivamente no campo de uma doença que mais vítimas causa e que tem uma maior incidência no mundo civilizado pelo sedentarismo que a caracteriza. Refiro-me, como é fácil supor, às doenças cardiovasculares, nas inúmeras formas de que se revestem: enfarte do miocárdio, angina pectoris, arteriosclerose, etc. Cristian Barnard, famoso cardiologista que deixou o seu nome ligado ao primeiro transplante cardíaco humano, incrimina o excesso de peso, a falta de exercício e o stress, como factores de elevado risco no aparecimento de cardiopatias e patologias circulatórias e respiratórias a elas associadas. A este propósito, o governo sul-africano para prevenção dos acidentes rodoviários mandou colocar nas estradas sugestivos painéis com este aviso: Cuidado. Barnard está à espera do seu coração.

Na revista ‘Vida Mundial’, de 26 de Maio de 1971, sob o título ‘Os perigos do coração’, é feita referência a uma afirmação de Rudolf Virchow (1821-1902), a quem é atribuída a paternidade da Medicina Social: A história das epidemias é a história dos distúrbios da cultura humana. E prossegue o referido estudo: As doenças do coração, na multiplicidade das suas manifestações, preenchem o quadro epidemiológico da sociedade avançada e industrializada.

Portugal não podia deixar de sentir a ameaça do avanço insidioso deste tipo de doenças. Assim, em 7 de Abril desse ano, ‘Dia Mundial da Saúde’, o Dr. Armando Sampaio, director do Gabinete de Estudo e Planeamento do Ministério da Saúde e Assistência, leu a seguinte mensagem televisionada:

O seu coração é a sua saúde – eis um tema que deve ser profundamente meditado por todos aqueles que desejam para si e para a sua família longos anos de uma vida saudável. Para ser atingida esta finalidade, a prática regular do exercício físico deve ser adequado à idade de cada um, sendo fundamental no combate à vida sedentária e simultaneamente desgastante pela tensão psíquica permanentemente imposta pela forma de viver dos nossos dias. Há que encorajar os jovens para o exercício físico regular para contrabalançar as horas em que eles ficam sentados na escola ou defronte dos aparelhos de televisão.

[Nesse tempo, os computadores pertenciam a um futuro distante que em muito veio contribuir para aumentar o sedentarismo juvenil; estatísticas destes dias dizem-nos que o tempo passado a dedilhar o teclado dos computadores já superioriza as horas passadas frente à televisão, isto mesmo antes da distribuição massiva dos “Magalhães” a jovens escolares do ensino básico].

Os malefícios do sedentarismo mereceram de Leonardo da Vinci (1452-1520), tido como o mais versátil génio da Renascença, a seguinte analogia: O corpo humano é como uma navalha de barba, se não for utilizada enferruja. Só passados séculos do falecimento deste sábio e inventor, grande mestre da pintura e da escultura - como escreveu um dos seus biógrafos, citado num livro de Edward McCurdy, de 1904, o seu espírito nunca descansava, o seu cérebro estava sempre a inventar coisas novas -, as práticas físicas voltaram a ser encaradas como necessárias ao não ‘enferrujamento’ do corpo humano e, desta forma, creditadas como promotoras de uma vida saudável. E tanto assim é que nos meus tempos de rapaz, apesar de o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) ter defendido que sem exercício físico quotidiano apropriado é impossível mantermo-nos de boa saúde, ainda se sentava no banco dos réus a prática desportiva com a acusação de ser responsável pelo aparecimento em larga escala da tuberculose pulmonar que dizimava muitas vidas humanas, ilibando, com isso, as noitadas de farra, uma deficiente alimentação e, até mesmo, o seu principal responsável: o bacilo de Koch.

Por outro lado, no desconhecimento dos “segredos” da medicina desportiva, mais é confundido, por vezes, a silhueta do miocárdio hipertrofiado do desportista com o coração dilatado por factores patológicos, situação que levou a um diagnóstico errado na pessoa de um atleta exuberante de saúde cardíaca”.

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...