domingo, 30 de outubro de 2016

"Eu não tenho o meu corpo, eu sou o meu corpo"



"Não temos a ginástica como ela se faz em França (...). Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra, temos só a tourada… tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados de espinha a melarem-se pelo Chiado”.
Eça de Queiroz


Em 30 de Setembro deste ano, aqui, no De Rerum Natura, publiquei o post: “Jogos Olímpicos e Actividade Física”.

Passados dias (18/10/2016), recebi o seguinte mail que me foi endossado pela SPEF (Sociedade Portuguesa de Educação Física), e que reproduzo, devidamente autorizado, com a satisfação de um simples soldado de um combate duro, estrénuo e sem tréguas, em que Colegas da SPEF e do CNAPEF (Conselho Nacional de Associações de Professores e Profissionais de Educação Física) atingiram estrelas de generalato pela sua persistência, desvelo e empenho na defesa da disciplina de Educação Física, quiçá,  por uns tantos políticos com responsabilidades no sistema educativo nacional, de cultura duvidosa porque amputada, nunca se terem debruçado sobre grandes figuras da verdadeira e ampliada Cultura, como, por exemplo, Ernest Krestchemer, médico psiquiatra alemão, doutor honoris causa, em Filosofia pela Universidade de Wurzburg e Católica do Chile, que nos ensina: “O homem pensa com o corpo todo!” Assim:

“Caro Rui Baptista:

Não sendo um blogger tento acompanhar de lés-a-lés alguns dos mais interessantes e persistentes - o De Rerum Natura é um dos que vou visitando. Também por isso agradeço o facto de me dar a possibilidade de revisitá-lo.

No seio da direção da SPEF, já comentámos a importância da sua participação neste blog para o mundo da Educação Física e do Desporto - é importante (determinante) que a nossa área ocupe, também na opinião, um lugar de destaque.

O seu texto, com estilo muito próprio que lhe é característico, demonstra a perfeita sintonia em que nos encontramos em relação às questões essenciais que (ainda) constrangem o devido desenvolvimento da EF e do Desporto.

Relevo a sua capacidade de nos fazer encontrar com o que já aconteceu - a ideia de revisitar o que tanto Ramalho Ortigão, como a Sociedade de Ciências Médicas há muito tempo valorizavam (o agora tema central do simpósio por nós divulgado), demonstra que que mais do que conhecimento sobre o assunto, é a falta de vontade dos decisores que impede uma merecida valorização da atividade física, educação física e desporto.

Creio já ter lido esta sua referência (ou idêntica) num artigo seu no jornal "Público", na sequência da entrevista por mim dada acerca da EF. Aproveito para agradecer esse artigo que veio reforçar o impacto da entrevista.

A nossa ação (SPEF) tem procurado junto de muitos (políticos essencialmente) demonstrar o valor educativo da nossa área - não só pelas questões ligadas à saúde, que muitas vezes parecem ocupar o universo valorativo da nossa área, mas também pelo valor que as atividade físicas e desportivas (estas de forma muito particular) representam para a construção do indivíduo e, por consequência, para toda uma construção social (já o referia o saudoso José Esteves). É importante termos sempre presente o impacto da prática de atividades desportivas, no contexto da disciplina de EF ou do treino, para o desenvolvimento de múltiplas capacidades; temos tentado contrariar discursos que centram a validade da atividade física apenas em questões salutogénicas - posições exclusivamente hegienicistas reduzem, em muito, as potencialidades educativas da nossa área.

Concluo reforçando a nossa satisfação (e gratidão) pelas ações que tem desenvolvido. A qualidade dos argumentos que conseguirmos trazer para a opinião pública ajudarão, mais cedo ou mais tarde, a que se concretizem as alterações tão necessárias ao reforço do papel central da atividade física, da educação física e do desporto, num país culturalmente mais evoluído.

Manifestamos a nossa disponibilidade para o que considere importante da nossa parte.

Os melhores cumprimentos,
Nuno Ferro (presidente da SPEF).”

Colho do grande Sebastião da Gama: “Haja ou não frutos, pelo sonho é que nós vamos. Basta a fé que nós temos. Basta a esperança naquilo que nós teremos”. Bem a propósito, acabo de ler esta informação da SPEF e do CNAPEF, razão de júbilo para os professores de Educação Física e de enorme reflexo na formação integral da juventude escolar portuguesa que transcrevo no essencial:

“O Conselho Nacional de Professores e Profissionais de Educação Física (CNAPEF) e Sociedade Portuguesa de Educação Física (SPEF) vêm por este meio congratular-se com o anúncio público, efetuado pelo Ministério da Educação, de que a classificação da Educação Física voltará a ser contabilizada para a média de conclusão do Ensino Secundário e na média de acesso ao Ensino Superior.

Esta decisão repõe o estatuto (classificativo) da disciplina, em situação de paridade com as restantes disciplinas do currículo, situação esta que havia sido alterada com a entrada em vigor do decreto-lei 139/2012, sem qualquer justificação pedagógica”.

E se, como defende Paul Ricoeur, “a história é uma mediação entre o passado e o presente num círculo hermenêutico”, debrucemo-nos sobre o século XVIII, porquanto nas páginas dos manuais escolares deveria ser presença obrigatória a profissão de fé de Jean-Jacques Rousseau

“Quereis cultivar a inteligência do vosso aluno? Cultivai as forças que a inteligência vai mobilizar. Exercitai-lhe permanentemente o corpo, feito homem pelo vigor físico, em breve, o será também pela razão”.

E se, como dizem os franceses, tout va bien quand finit bien, congratulemo-nos como Nação pelo passo corajoso dado em benefício da actividade corporal da sua juventude porque, nas palavras do filósofo da festejada cultura francesa, Gabriel Marcel: “Eu não tenho o meu corpo, eu sou o meu corpo”!

5 comentários:

  1. Professor Rui Baptista, pouca sorte!!! agora que sabemos que o actual ministro pouco valor dá as Licenciaturas, ou melhor, valoriza Todas! as verdadeiras e as falsas; como pode o cidadão comum confiar neste ministro, numa matéria tão pertinente, como a valorização física na definição do futuro de um individuo, Sim, é que ao que parece o carácter, a integridade dos procedimentos não é sinonimo de robustez física,... recorda-se certamente, daquele ex-primeiro ministro, que praticava jogging, este ministro também deve praticar, o secretário de estado, etc... Mas, professor Rui Baptista, e se o carácter e a integridade se revelar num corpo franzino, pouco dotado a certas cambalhotas, não ficamos todos a perder, e muito?!

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  2. Engenheiro Ildefonso Dias: Saúdo, com amizade, o seu comentário. Em devido tempo, aliás como é hábito meu, farei o devido comentário. Como tenho escrito várias vezes, o diálogo aportado pelos comentários muito valorizam os textos .Já diz o povo: a falar é que a gente se entende. O mesmo vale para escrever...

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  3. Com o "evoluir" quer dizer passar dos tempos, o que não significa evolução, as características, os anseios, os desejos,o saber estar e entender os outros cada vez se torna mais difícil. No entanto quer queiramos quer não há "iluminados" que apenas lhe interessa o lucro, o imediato, esquecendo que a cultura completa a competência e rentabiliza o trabalho. Veja-se época da Revolução industrial.
    "Mente sã em Corpo são"- como pode tal acontecer se ou uma ou outra quando não as duas estão enfermos?
    Qual a principal preocupação dos pais (E.E.)? - Valorizar os ditos aspectos intelectuais, ter os filhos "enjaulados" (aulas, tempos livres-ocupados-"presos", manuseamentos com aparelhos electrónicos e sentadinhos.
    Resultados.... Falta de sociabilização,falta de destreza, Doenças várias,cada vez mais introvertidos, "egoísmo", oportunismo para alguns "ginásios "sem pessoas devidamente credenciadas etc.
    Bem hajam os combatentes resistentes que continuam a pensar que a vida poder ser vivida de forma mais saudável, mais divertida e alegre .
    Educação Física, actividade física e Desporto, devem fazer parte do dia a dia de qualquer ser humano, independentemente das finalidades.

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    1. Do seu comentário, que agradeço, relevo a sua chamada de atenção para este facto: "ginásios sem pessoas devidamente habilitadas ". Ora, como diziam os latinos, "hoc opus hic labor est". Em tradução livre, aqui é que a porca torce o rabo! Torce, não, devia torcer para que o acto profisinal prestado pelos licenciados em Educação Física e Desporto fosse caucionado e protegido por uma Ordem, a exemplo da grande maioria de outras profissões de igual ou, até, bem menor exigência académica.

      Sobre este assunto, escrevi um artigo intitulado: "Ginásios e negócios"( "Record", 20/01/89). Sobre a criação de uma Ordem dos Professores de Educação Física tempo houve em que um grupo de professores de Educação Física, de Coimbra, se baterem por ela (Nov. 89).

      Cito, a título de exemplo, um destacado artigo, assinado pelo jornalista Nuno Dias, intitulado "Licenciados em Educação Física reclamam Ordem e Faculdade” [de Educação Física para Coimbra] e o subtítulo: Profissionais de Coimbra preocupados com a actual situação da disciplina que leccionam"( “O Jogo” (9.Nov. 89). Pode ser que um dia volte a este assunto com a desilusão de um vencido, mas não convencido que pôs, com a ajuda de alguns Colegas, nesta questão todo o seu desempenho contra forças poderosas que querem as suas capelinhas na paz do Senhor, ou seja, com um mercado profissional sem concorrência. Como escreveu Eça (cito de memória): Achais estas palavras duras? Achais que não vos custais lê-las como a mim custou escrevê-las?

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  4. Engenheiro Ildefonso Dias: Acabo de publicar um post, em resposta ao seu comentário, intitulado: "O Corpo na Literatura Portuguesa"

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