segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Da caça à baleia (com Vitorino Nemésio e Antonio Tabucchi) ao tratamento da peste e domínio da linguagem científica



Um livro em que a caça à baleia tem um papel importante é Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio. Neste livro de 1943, com a acção a acontecer em 1917, a actividade tradicional da caça à baleia nas ilhas do Faial e Pico, feita a partir de terra, mostra já sinais de declínio, com a falta de baleias e a dificuldades de escoamento do âmbar cinzento e dos produtos extraídos do cachalote. Embora exista, entre algumas personagens, a convicção de que o problema seja da guerra, sabemos hoje que era muito mais do que isso. Embora esta actividade se tenha mantido nos Açores até cerca de 1987, a sua rentabilidade foi sempre baixa e praticada como complemento de outras actividades, mantendo-se como uma tradição já que a maioria dos produtos da baleia foram sendo substituídos por outros muitos anos antes, graças em parte à química. Sobre esse último aspecto já aqui escrevi, evocando Melville e Moby Dick.

A caça à baleia nos Açores é também central em Mulher de Porto Pim, de 1982, do escritor italiano Antonio Tabucchi. Neste livro que mistura ficção, documentário e recolha de pequenos textos relacionados com a caça às baleias, surge um aspecto terrível da caça à baleia tradicional. Citando o que o príncipe Alberto I do Mónaco escreveu no início do século XX, a dificuldade dos caçadores de baleias para se livrarem da carcaça apodrecida e nauseabunda, depois de lhe retirarem os produtos mais cobiçados, era por vezes enorme. 

Um aspecto também importante do livro Mau Tempo no Canal são as doenças. No romance há uma epidemia de peste (bubónica) e as personagens pouco mais podem fazer do que enterrar os mortos e desinfectar os locais onde se manifestou a doença. Isso é feito de forma caótica, com isolamento limitado das vítimas, sendo as casas desinfectadas (não se sabe bem com quê) e os caixões tratados com cal. O soro anti-pestífero tarda a chegar e fala-se qu nas casas dos ricos aumentou o consumo de sublimado (cloreto de mercúrio II, medicamento usado na altura no tratamento da sífilis e como desinfectante, mas pouco eficaz contra a peste).

Em 1917, o único tratamento existente para a peste bubónica era o soro anti-peste desenvolvido no final do século XIX, o qual tinha efeitos variáveis e não era eficaz contra a variante da peste pulmonar. Mesmo assim, era muito melhor do que não ter tratamento, o que tinha uma probabilidade de sobrevivência inferior a cinquenta por cento. A esse respeito é interessante notar que o próprio pai de Nemésio morreu de peste em 1908.

A penicilina, que acabava de ser disponibilizada nos anos 1940, não é efectiva e as sulfonamidas, disponíveis a partir de 1935, tal como o soro anti-peste tinham efeitos variáveis. Só em 1947, data da publicação de A Peste de Albert Camus, que muito refere o soro anti-pestífero, começam a aparecer os primeiros antibióticos eficazes (estreptomicina, oxitetraciclina, entre outros) contra esta doença. No entanto, mesmo actualmente, e com os tratamentos disponíveis, esta doença pode ainda atingir uma mortalidade da ordem dos quinze por cento.

A diabetes era também, em 1917, uma doença sem cura. A insulina só foi descoberta duas décadas depois. Uma das personagens de Mau Tempo no Canal com feridas que não saram e que procura encontrar uma dieta que o salve, morre rapidamente desta doença.

Quase trinta anos depois de Mau Tempo no Canal, após a sua jubilação, Vitorino Nemésio interessou-se pela física, química e biologia e escreveu vários poemas em Limite de Idade, datado de 1972, nos quais estas ciências estão presentes. Nestes, Nemésio revela uma notável actualização e intuição científica (vale a pena ler o que escreveu Maria Leonor Pavão sobre alguns dos aspectos da química e bioquímica presentes nesses poemas).

Numa série de emissões radiofónicas publicadas em 1976, Era do Átomo: Crise do Homem, uma obra singular na cultura portuguesa como tão bem referiu o filósofo Fernando Gil na sua apresentação da edição de 2003, Vitorino Nemésio leva-nos às suas experiências pessoais no liceu de Angra do Heroísmo:

(…) lá pelos anos profundos de 1913-1915, enquanto ou pouco depois de Niels Bohr se entreter arquitetando a imagem do sistema solar no átomo, erguer-me na pobre classe de Ciências Naturais de um pequeno liceu illhéu e debitar na cauda de alguns camaradas («-O senhor número 15»), a pequena lista de valência -«flúor, cloro, bromo, iodo» (...)

Isto para não falar do desastre escolar que me valeu (um quinto ano perdido) a cabulice de não saber calcular a composição centesimal da metana, formena ou gás dos pântanos, em Outubro de 1917 primeiro centenário (oh! trágica ironia!) da tal demonstração de Doebereiner em Jena...

Ultrapassando o seu longínquo fracasso juvenil, Nemésio descreve em poucas páginas, de uma forma muito própria e ao mesmo tempo erudita, alguns dos aspectos mais importantes da história da química. E não se fica por aqui: apresenta também reflexões muito interessantes e válidas sobre a ciência em geral, nomeadamente sobre a questão muito complexa da objectividade da linguagem científica.

4 comentários:

  1. Caro amigo, é um pormenor pequenino, mas engana alguns leitores: Tabucchi...
    Abc

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  2. Não li o seu artigo, antes de colocar o meu.
    Esqueceu-se de nomear Moby Dick de Herman Melville.

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  3. Obrigado pelos comentários. Já corrigi o nome de Tabucchi (uma distração absurda pois tinha acabado de o reler!) e coloquei mais uma frase que liga ao Moby Dick. Este texto faz parte de uma série que inclui o Moby Dick (http://dererummundi.blogspot.pt/2011/12/historia-quimica-de-um-cachalote.html).

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  4. Colocámos os textos no mesmo dia.
    O livro de Vitorino Nemésio, obra poética 2, encontrei-o na biblioteca municipal de Cantanhede há duas semanas.

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