terça-feira, 24 de junho de 2014

MOÇAMBIQUE EM IMAGENS DE UM FOTÓGRAFO PIONEIRO


Luísa Villarinho Pereira é uma artista (ceramista e pintora) filha de um médico obstectra Salvador Villarinho Pereira (1879-1948), que era também fotógrafo amador. Em memória e homenagem ao seu pai realizou várias investigações sobre a história da medicina em Portugal no século XX. No desenrolar desse trabalho descobriu a história do seu bisavô paterno (avô do seu pai), que foi não só um fotógrafo profisisional (“photografo-desenhista”) como um dos fotógrafos pioneiros na recolha de imagens de Moçambique no final do século XIX. Foi mesmo comissionado pelo Governo Português em 1890, o ano do Ultimato inglês que tanto abalou os últimos tempos da monarquia. O  nome do “photografo-desenhista” era Manoel Pereira (1815-1894) e o seu percurso de vida confunde-se com o do século XIX português. 

O livro, em edição da autora, é um belo álbum, contendo inúmeras fotografias em bom papel de Moçambique. A investigação que as acompanha é bastante cuidada, denotando um trabalho longo da autora quer na recolha de documentação quer no seu cotejo e análise. A obra releva tanto para o estudo da fotografia como também, e talvez principalmente, para o melhor conhecimento da história da antiga colónia portuguesa, no tempo em que Lourenço Marques, hoje Maputo, não passava de uma pequena povoação. 

As raízes da família Pereira encontram-.se no Algarve, pois o fotógrafo nasceu em S. Bartolomeu de Messines, a terra do poeta e pedagogo João de Deus (nascido 15 anos mais tarde). Manoel Romão Pereira teve sete filhos de um primeiro casamento e três filhas de um segundo, realizado com a irmã da falecida primeira esposa. Um dos filhos, Salvador Villarinho Pereira (1858-1879), foi guarda-livros da empresa Mason e Perry, que explorou a pirite nas Mina de S. Domingos, no Alentejo, e este, por sua vez, foi pai do referido médico obstectra, seu homónimo, que teve consultório no Chiado. De facto, Villarinho pai só teve um filho, e nem sequer o chegou a conhecer, por ter falecido escassos meses antes do nascimento do filho e apenas meio ano após o seu casamento.

 Manoel Pereira ganhou a vida como fotógrafo, num tempo em que a técnica fotográfica ia progredindo e crescendo. Foi ganhando fama como artista fotográfico, tendo algumas das suas fotos servido de base a gravuras, como era uso na época, em periódicos como o “Archivo Pittoresco - Semanário Ilustrado” e “O Occidente” . Fotografou as minas de S. Domingos, onde tinha estado seu pai. Esteve em Cabo Verde em 1877, onde foi amanuense, e, em 1881, portanto ainda antes de ter sido comissionado pelo governo português, encontra-se na Ilha de Moçambique. De acordo com a nomeação do ministro Ressano Garcia de 188, Pereira, na altura já com 75 anos, “devia percorrer os territórios de Lourenço Marques, Inhambane, Gaza e Alto Zambeze, tirando photografias dos edifícios, monumentos, fazendas mais importantes, povoações, estações de caminhos de ferro, e bem assim dos typos das diferentes raças, régulos e indivíduos mais importantes de cada um dos paízes, e bem assim de todos os sítios, regiões ou accidentes naturais que mereçam ser reproduzidos.” E ele foi isso mesmo que fez, como documentam admiráveis fotos hoje guardadas em arquivos como o Arquivo Histórico Tropical do Instituto Nacional de Investigação Científica Tropical. Algumas das fotos de Manuel Pereira podem ser vistas aqui.

Talvez ajudado pelo mérito desse trabalho, Manoel Pereira foi, em 1891, admitido na Sociedade de Geografia de Lisboa, sob proposta de Luciano Cordeiro e outros sócios. Lembra-se que tinha sido esta sociedade a patrocinar as explorações “de Angola a Contra-Costa” empreendida por grandes aventureiros portugueses como Roberto Ivens, Serpa Pinto e Hermenegildo Capelo. 

Na sua investigação, Luísa Villarinho foi ajudada pelo arqueólogo industrial Custódio Morais e pelo historiador de fotografia e coleccionador Alexandre Ramires. O seu livro é uma adição notável à história da fotografia portuguesa e das antigas colónias.

 - Luísa Villarinho Pereira, “Moçambique. Manoel Pereira (1815-1894). Fotógrafo comissionado pelo Governo Português”, Lisboa, 1013 (edição da autora).

Sem comentários:

Enviar um comentário

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.