segunda-feira, 22 de abril de 2019
domingo, 21 de abril de 2019
Uma data e uma tradição
Recordar datas e tradições é importante para manter viva a memória do passado, um passado que não deve ser esquecido porque ele se projecta no presente, e porque só olhando o passado podemos ver, com clareza, o que se passa no nosso mundo e compreender os avanços e os recuos da civilização.
Hoje, domingo de Páscoa para os que acreditam num Cristo que veio trazer ao mundo uma nova filosofia de esperança e de amor, assistimos ao horror dos atentados contra aqueles que querem celebrar a sua fé e o seu Deus, o Deus do amor.
E vêm-nos à memória os relatos longínquos das perseguições aos cristãos no tempo de Nero, Domiciano, Diocleciano, e outros, impedindo uma religião de deus único, numa Roma que sempre foi aberta a outros cultos e outras religiões. É só em 313, com o édito do imperador Constantino, que os cristãos têm, em termos oficiais, uma liberdade religiosa total.
Tantos séculos passados, tantos avanços civilizacionais e a intolerância continua, agora em maior escala porque maiores e mais potentes são as armas da morte. Parece que os homens do nosso tempo nada aprenderam com o passado, as lições da história foram esquecidas, os valores conquistados, a liberdade, a fraternidade são letra morta em mentes "formatadas" para o desprezo da vida, para o desprezo do outro, mentes perversas que julgam "salvar" o mundo pela violência contra inocentes.
E nesta relação do presente com o passado, lembrar esta data — 21 de Abril, do ano 753 a.C.
Segundo a tradição Romana, de que o historiador Tito Lívio nos dá conta, e Varrão, que procura confirmar uma data exacta, terá sido neste dia que Rómulo, o filho de uma Vestal e do deus Marte, fundou a cidade, aquele pequeno povoado de pastores, que se veio a tornar o centro de um poderoso império.
Roma cresceu, em território e em cultura, aproveitou os ensinamentos dos povos conquistados e deixou-nos um legado, um legado cultural e linguístico, um património que não podemos desprezar.
No melhor e no pior somos herdeiros, continuadores desse passado, desse mundo e dessa civilização, que evoluiu, que cresceu e da qual devíamos retirar os bons ensinamentos, os valores perenes e não os maus exemplos.
"Ora os autores estão de acordo em que a fundação se deu no décimo primeiro dia antes das calendas de Maio*, data festejada pelos Romanos como sendo o nascimento da pátria.”
* Corresponde ao dia 21 de Abril.
Hoje, domingo de Páscoa para os que acreditam num Cristo que veio trazer ao mundo uma nova filosofia de esperança e de amor, assistimos ao horror dos atentados contra aqueles que querem celebrar a sua fé e o seu Deus, o Deus do amor.
E vêm-nos à memória os relatos longínquos das perseguições aos cristãos no tempo de Nero, Domiciano, Diocleciano, e outros, impedindo uma religião de deus único, numa Roma que sempre foi aberta a outros cultos e outras religiões. É só em 313, com o édito do imperador Constantino, que os cristãos têm, em termos oficiais, uma liberdade religiosa total.
Tantos séculos passados, tantos avanços civilizacionais e a intolerância continua, agora em maior escala porque maiores e mais potentes são as armas da morte. Parece que os homens do nosso tempo nada aprenderam com o passado, as lições da história foram esquecidas, os valores conquistados, a liberdade, a fraternidade são letra morta em mentes "formatadas" para o desprezo da vida, para o desprezo do outro, mentes perversas que julgam "salvar" o mundo pela violência contra inocentes.
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| Rubens - Rómulo e Remo |
No melhor e no pior somos herdeiros, continuadores desse passado, desse mundo e dessa civilização, que evoluiu, que cresceu e da qual devíamos retirar os bons ensinamentos, os valores perenes e não os maus exemplos.
"Ora os autores estão de acordo em que a fundação se deu no décimo primeiro dia antes das calendas de Maio*, data festejada pelos Romanos como sendo o nascimento da pátria.”
(Plutarco, Vida de Rómulo, tradução de Delfim Leão, Minerva Coimbra, 2006).
* Corresponde ao dia 21 de Abril.
"Comecei a contar o Ulisses e isto durou o ano inteiro". O legado para o ensino de Maria Alberta Menéres
"E Ulisses, existiu? E Homero, existiu? E o Sol, existe? E a lua, existe? E o mar, existe?
Há muitos milhares de anos, um poeta grego, Homero, contou-nos no seu livro Odisseia a história de Ulisses que andava no mar, gostava de Sol, desejava a Lua.
É esta história que eu vos vou contar. Quem conta, é bem certo que acrescenta um ponto. Oh, mas quando eu conto, são tantos os pontos sempre a acrescentar, que mesmo com esforço não conseguiria nunca tais pontos ... bem, todos os pontos contar!" (Ulisses, p.7).

Maria Alberta Menéres, autora das palavras acima reproduzidas, foi professora e escritora. Teve outras actividades profissionais, mas é a partir da sua condição de professora e escritora que deixo o apontamento que se segue.
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas no início dos anos de 1950, tempo em que a cultural e as línguas clássicas, como componente do currículo escolar começavam a sofrer uma forte e alargada contestação, veiculada por elites da educação, a que se seguiram as políticas, não apenas no contexto internacional, mas também, e em consequência, no contexto nacional.
De qualquer maneira, em Portugal, nessa década e nas seguintes, elas eram estudadas na universidade, nos cursos de Humanidades, e no liceu, na área de Letras. Como bem sabemos, num passado mais recente esta situação alterou-se: a cultural e as línguas clássicas são, agora, residuais, no sistema educativo público, tanto na universidade como no ensino secundário.
Trata-se de uma situação irreversível? Não, se as escolas quiserem que não o seja. Numa política de continuidade, o Ministério da Educação, ao abrigo da figura de "autonomia e flexibilidade curricular", permite que as escolas decidam vinte e cinco por centro do seu currículo, disponibilizando componentes curriculares/projectos que tenham significado no seu contexto.
Ora, nessa margem, podem optar por ofertas verdadeiramente educativas (no sentido de terem o poder para formar os alunos intelectualmente com base em conhecimento substancial) ou por ofertas deseducativas (ainda que sedutoras, oferecidas, ou mais do que isso, por "parceiros" que estão muito longe de serem educativos). Mais: em 2016 o Ministério acolheu a proposta designada por Introdução à Cultura e Línguas Clássicas (aqui) que oferece uma estrutura de base para o trabalho dos professores. E, sim, falamos de uma componente curricular/projecto com significado no contexto dos alunos: a cultura e as línguas clássicas, constituindo uma parte substancial da matriz contemporânea de pensamento, estão, obviamente, entre nós.
Voltando a Maria Alberta Menéres, percebendo isto mesmo, sem dúvida muito melhor do que eu, já perto do final da carreira, como professora singular, colocada na ingrata função de substituta, decidiu levar o Ulisses aos mais miúdos. Nas suas palavras:
(...) a certa altura tinha de fazer aulas de substituição de cada vez que uma professora faltava. E, então, como não eram meus alunos e não os conhecia, comecei a contar o Ulisses e isto durou o ano inteiro. Às tantas, todos queriam ouvir a história e acabei numa sala polivalente enorme a contar o fim. Escrevi-o em cinco dias e foi escrito tal e qual como foi contado. Tem uma grande oralidade, mas resulta muito bem porque as crianças quando o lêem é como se estivessem a ouvir a história. Mas tudo começou de uma tentativa de captar a atenção dos miúdos e fazê-los interessarem-se pelo que estava a contar (in Notícias Magazine, 30 de Maio de 2010).Homenagear Maria Alberta Menéres, como outros nomes que dignificam o ensino, é sobretudo inspirarmo-nos no seu legado, no que fizeram de melhor em prol dos "miúdos".
________________
Livro citado: Menéres, M.A. (1989). Ulisses. Lisboa: Asa [Ilustrações de Isabel Lobinho].
sexta-feira, 19 de abril de 2019
Finlândia, versão dois: Portugal
O jornal El País publicou ontem uma entrevista ao Ministro da Educação de Portugal, obtida no Forum Education & Skills, realizado, entre 22 e 24 de Março, no Dubai. Num tom manifestamente elogioso, a entrevistadora, Elisa Silió, compara o nosso país a Espanha, catapultando-o para um elevado patamar de sucesso comparável ao que configurou o "milagre finlandês".
"Portugal converteu-se num referencial mundial na melhoria educativa e pedagogia inovadoras. É a nova Finlândia (…). A imprensa internacional descreve Portugal como a “estrela emergente em educação” pelos seus resultado na relatório PISA (…). É o país que se destaca também na autonomia de escola, na inovação pedagógica, na gratuitidade dos manuais e na intensa formação de professores."Eis o mais relevante da mencionada entrevista:
"Diferentemente de Espanha, há um consenso político... A espinha dorsal do sistema educativo tem 30 anos. Há um consenso político e social sobre a necessidade de aumentar a sua qualidade para haver igualdade de oportunidades e sirva de alavanca do crescimento económico e democratização cultural (…).
Isso é fruto de muitas iniciativas, não de um dia. Sim, o sistema gratuito de pré-escolar, o plano nacional de leitura, o programa de matemática o de enriquecimento curricular... As crianças do 1.º a 4.º têm, por dia, duas horas gratuitas e voluntárias de actividades extra-escolares para aprender um instrumento, outra língua ou ir a um clube de ciência. Além disso, temos 130 escolas de intervenção prioritária, de zonas deprimidas, que recebem recursos extra.
Diz o director do PISA, Andrea Schleicher, que os professores de Espanha “trabalham como uma cadeia de produção”. O modelo português é o oposto. Deixamos que as escolas trabalhem 25% do currículo nacional com a sua própria estratégia. Podem fundir-se disciplinas — História e Geografia, ou Matemáticas e Física —, trabalha-se experimentalmente ou organizam-se projectos anuais (…). Não há que ser impositivo, as escolas viram que se confia nelas e têm respondido muito bem.
Autonomia com controlo. Especialistas da universidade e inspectores visitam uma escola durante uma semana e fazem um relatório. Não para classificar mas como uma espécie de auditoria para apoiar o projecto pedagógico.
Portugal apresenta uma grande brecha entre classes sociais nos resultados académicos. Sim, há diferenças notáveis e devemos trabalhar isso. Portugal vem de uma ditadura em que a educação não era tema central. Muitos adultos têm ainda grandes carências de qualificação e é preciso formá-los.
Surpreende-os a redução do índice de abandono precoce? (…) em Portugal passou de 44% para 12,6% [a média europeia é de 10,6%] (…) Há que fazer um trabalho com cada aluno.
As subvenções para os colégios com contratos de associação tendem a desaparecer no seu país. Havia 79 colégios que consumiam 140 milhões de euros por ano, a lei diz que devem existir onde a escola pública não cumpre a sua função. Retirámos a subvenção a 49 (…). Não negamos a sua importância, só cumprimos a lei (…).
Em Espanha há o consenso de que as crianças estudam demasiadas coisas mas com pouca profundidade. Vocês tomaram medidas. Reduzimos o currículo sem o mudar substancialmente. Não é uma revolução (…), damos coerência às melhores práticas internacionais. Um antigo ministro da Educação, Guilherme d’Oliveira Martins, e um grupo de académicos elaboraram um relatório sobre os valores, capacidades e habilidades que os alunos devem demonstrar no final da escolaridade obrigatória. Agora avaliam-se também nas provas nacionais também as expressões artísticas e psicomotoras que se haviam descuidado em detrimento do Português e da Matemática. Muito meninos não sabiam dar cambalhotas.
Portugal avançou na inclusão de crianças com necessidades especiais nas escolas regulares. A ONU criticou a Espanha pela sua demora a este nível. 97,5% destes alunos já estavam nessas escolas. Começámos em 1992, antes de quase todos na Europa. Agora criámos um diploma legal para a inclusão (…) O importante é que possam estar cada vez mais nas aulas para facilitar a sua transição para a vida laboral. Estamos capacitando os profissionais e damos-lhe apoio, não é apenas uma tarefa dos professores de educação especial (…)."
quinta-feira, 18 de abril de 2019
PROCURA DE VIDA EM MARTE: PASSADO, PRESENTE E FUTURO
Na próxima
4ª feira, dia 24 de Abril de 2019, pelas 18h00, vai ter lugar no Rómulo
Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra “Procura de vida
em Marte: passado, presente e futuro”, por Zita Martins, primeira e
principal astrobióloga portuguesa, professora
no Instituto Superior Técnico de Lisboa.
Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis - Terceira
temporada"*
Sinopse da palestra: “A missão espacial Viking da
NASA pousou em Marte em 1976. Esta foi a primeira vez que uma missão espacial:
i) procurou por vida extraterrestre, ii) pousou com sucesso em Marte e cumpriu
os seus objetivos, e iii) enviou imagens (a preto e branco, e também a cores)
de Marte. No entanto, nenhuma forma de vida extraterrestre foi detetada no
Planeta Vermelho. A comunidade científica não desistiu e, desde então, Marte
tem sido visitado por várias missões espaciais (em órbita e à superfície).
Embora ainda não se tenha detetado vida extraterrestre em Marte (ou em qualquer
outro lugar do sistema solar), resultados recentes tentam dar resposta a esta
questão. Nomeadamente, a potencial presença de metano na atmosfera de Marte tem
sido objeto de uma longa discussão na comunidade científica. A sua origem pode
ser devido a um processo biológico, ou a um processo geológico chamado de
serpentinização. No início de abril uma equipa de cientista, utilizando
instrumentos a bordo da missão espacial Mars Express mostraram que o metano
anteriormente detetado na atmosfera poderá ter sido libertado através de uma
fratura localizada numa camada de gelo na superfície de Marte, tendo uma origem
geológica. Contudo, uma semana depois a equipa do Trace Gas Orbiter (TGO) da
missão espacial ExoMars publicou um artigo em que metano não foi detetado na
atmosfera. Nesta palestra iremos discutir todos estes resultados (incluindo a
aparente contradição relacionada com a presença e origem do metano), assim como
os próximos passos na exploração do Planeta Vermelho.”
*Este ciclo de palestras é coordenado
por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.
ENTRADA LIVRE. Público-Alvo: Público em geral
Hoje Guilherme Valente fala da China no RÓMULO em Coimbra, pelas 18 horas
A China sempre esteve no imaginário ocidental. Um exemplo é o filme "A Grande Muralha"- Trailer Oficial 2 (Universal Pictures) [HD]
A promiscuidade entre política, sindicalismo e ordens profissionais (2)
Segunda parte do meu anterior artigo de opinião, com o mesmo título (16/04/2019), publicado hoje no "Diário as Beiras":
"Em 17 de Julho de 2002, noticiavam os jornais a conferência de
imprensa dada pelo Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL) para a
criação de uma Ordem dos Professores (OP). Anos depois (20.Junho.96) é entregue
na Assembleia da República uma pequena brochura contendo uma Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores.
Em 25 de Fevereiro de 2004, apresenta a supracitada organização sindical, também
aí, uma petição com 7857 assinaturas para a criação da OP, Finalmente, em 2 de
Dezembro do ano passado, foi debatida na Assembleia da República a petição n.º
74/IX (2.ª) do SNPL.” Foi ela votada, pelos quatros partidos com assento na
Assembleia da República, CDS, PSD, P.S.,
PCP , tendo apenas votado favoravelmente o primeiro”.
Tem a actual direcção da Ordem dos Enfermeiros sido intérprete da
confusão entre as funções dos sindicatos e das ordens profissionais, apesar da
doutrina defendida, com argumentação bem estruturada pelo, ao tempo, bastonário
da Ordem dos Enfermeiros, Germano de Sousa, num seu artigo de opinião, “Ordens
versus sindicatos”, de que transcrevo este elucidativo naco de prosa:
“Mas o que é da missão dos sindicatos deve ficar com os
sindicatos. O que é missão de uma ordem profissional deve ocupar toda a sua
energia. Confundir áreas e acolher ingerências acaba por descredibilizar as
instituições, desvalorizar a intervenção na comunidade e ser um sinal de falta
de inteligência social” (“Diário de Notícias”, 26/07/2014).
Anos volvidos, Rute Lima, professora do ensino politécnico, no
Instituto Superior de Educação e
Ciências de Lisboa, reforça em artigo de opinião (“Público”, 08/022019):
“Grave é abusar do estatuto da sua organização para fazer guerrilhas
corporativas contrariando todas a mais elementares regras democráticas de
manifestação, repito, próprias de uma força sindical, e nunca de uma actividade
reguladora”.
A promiscuidade entre politica, ordens profissionais e sindicalismo
encontra expressão muito significativa na enfermeira Ana Rita Cavaco (foi
presidente da JSD de Almada, é bastonária da Ordem dos Enfermeiros e presença
constante em manifestações sindicais dos
enfermeiros) onde é filmada e fotografada vezes sem conta. Aliás, sem necessidade de protagonismo por já ter
participado no programa da manhã da SIC de Cristina Ferreira, passaporte para
ser tida como uma das colunáveis portuguesas!
A sua última aparição deu-se na “Manifestação Branca”, para a
qual a Ordem dos Enfermeiros disponibilizou quatro autocarros para deslocação
dos participantes (DN, 08/03/2019), sob
a alegação de Ana Rita Cavaco de que “é para isto que se pagam quotas”.
Bem pode ela, portanto, como diria Eça, “hesitar, tataranhar,
embaralhar, e fazer um pastel confuso que nem o Diabo lhe pega, ele que pega em
tudo”, jurando, sem qualquer credibilidade, não estar a exagerar nas suas competências.
Em tradição ancestral, têm os enfermeiros dado uma dádiva preciosa ao
próximo em sofrimento que os enobrece merecendo, como tal, que as suas
manifestações sindicais não sejam terreno invadido pela Ordem dos Enfermeiros. Ou
seja, em tradução do brocado em epígrafe, “a cada um o seu"!
quarta-feira, 17 de abril de 2019
DO MANUSCRITO AO LIVRO IMPRESSO
Divulgo informação recebida de António Andrade, da Universidade de Aveiro:
Temos
muito gosto em anunciar a publicação do livro “Do manuscrito ao livro
impresso I”, cuja versão electrónica está integralmente
disponível na plataforma UC Digitalis, sendo também possível
descarregar em separado os capítulos do livro, clicando na ligação “ver
capítulos” (https://digitalis.uc.pt/pt-pt/livro/do_manuscrito_ao_livro_impresso_i).
Este
volume, com a chancela conjunta da UA Editora e da Imprensa da
Universidade de Coimbra, decorre das duas primeiras edições
do Ciclo de Conferências “Do manuscrito ao livro impresso”, realizadas
no Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro (2015/16
e 2016/17), com o objectivo de
promover a investigação e a divulgação científica
na área da História do Livro e da Edição, no âmbito da Licenciatura em
Línguas e Estudos Editoriais e do Mestrado em Estudos Editoriais.
Anunciamos que livro está também disponível, em qualquer parte, através de edições
print-on-demand e digitais. Eis as ligações onde é possível aceder a estas modalidades:
1)
Amazon (print-on-demand) -
https://www.amazon.com/dp/989261710X
(também está disponível nos canais de países como Espanha, Reino Unido, etc.)
3)
Google Play (eBook) -
https://play.google.com/store/books/details/Ant%C3%B3nio_Manuel_Lopes_Andrade_Do_manuscrito_ao_livr?id=Lx6PDwAAQBAJ&hl=en
António Manuel Lopes Andrade
Universidade de Aveiro
Departamento de Línguas e Culturas
3810-193 Aveiro
tel: +351.234370358 (ext. 23333)
fax: +351.234370940
terça-feira, 16 de abril de 2019
25 DE ABRIL EM GOUVEIA: O MUSEU INTERNACIONAL DO LIVRO SAGRADO
Dia 25 de abril em Gouveia
COLÓQUIO
Apresentação do projeto pioneiro
Museu Internacional do Livro Sagrado
E
Anúncio do primeiro congresso científico em Portugal
sobre a Bíblia na Cultura Ocidental
A Câmara de Gouveia, em cooperação com o IEAC-GO, o Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes, a CIDH – Universidade Aberta, o CLEPUL – Universidade de Lisboa, a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, e outras instituições nacionais e internacionais, vai apresentar, na tarde do dia 25 de abril de 2019, as grande linhas programáticas do MILS – Museu Internacional do Livro Sagrado – O ADN das Civilizações do Mundo e o primeiro grande evento cultural associado a este projeto: o maior congresso científico de sempre sobre a Bíblia na Cultura Ocidental: Milénios de Civilização. Serão ainda lançados os três volumes primeiros da coleção única sobre A Bíblia em Portugal.
A Câmara de Gouveia, em cooperação com centros de investigação universitários de referência, pretende criar na sua cidade uma nova centralidade de cultura e de ciência que se torne uma referência no interior do país, procurando, assim, contribuir para combater a desertificação das regiões de Portugal distantes do litoral com a edificação de um grande polo de interesse para o turismo cultural e religioso de amplitude internacional.
Os anos de construção do MILS serão acompanhados pela realização de grandes eventos científicos, a começar por um congresso sobre a Bíblia, seguido de outro sobre Gastronomia e Religiões do Mundo, entre outros a anunciar.
Intervirão neste colóquio inaugural de dia 25 de abril personalidades da cultura e da ciência, entre as quais Carlos Fiolhais, José António Falcão, José Eduardo Franco, Paulo Mendes Pinto e Herculano Alves, conforme programa anexo.
Para este evento foram convidados todos os representantes das comunidades das diferentes religiões presentes em Portugal.
A Câmara de Gouveia irá disponibilizar um autocarro para quem quiser participar nesta iniciativa. Como o número de lugares é limitado, os interessados deverão inscrever-se até ao próximo dia 17 de abril.
O autocarro partirá da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa pelas 9h15 e regressará a Lisboa às 19h00.
Para mais informações:
museudolivrosagrado@gmail.com
Tlm: 914 750 376; 961 088 814.
A promiscuidade entre política,sindicalismo e ordens profissionais (1)
Primeira parte do meu texto publicado hoje no “Diário as Beiras”:
“Suum cuique tribuere” (axioma do direito romano).
De um texto da “Revista Kapa”, da autoria de António Araújo, insito no “Blog Malomil”, transcrevo do longo excerto que serviu de base à sua intervenção no Colóquio intitulado “O estado das direitas na democracia portuguesa”, realizado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (Fevereiro de 2012). Dessa intervenção, transcrevo uma pequena parte:
“Em paralelo, num domínio mais profundo, o dos valores, das representações e das crenças sociais, começa a fazer-se um ‘ajuste de contas’ com os pretensos excessos do PREC. A pedagogia, porque recebe o influxo de alguma obsessão da parentalidade e da preocupação colectiva com as ‘gerações que estamos a formar’, é um dos barómetros mais precisos destas tendências sociais algo larvares ou subterrâneas. Em 1997, Maria Filomena Mónica publica Os Filhos de Rousseau (38). Gabriel Mithá Ribeiro dará à estampa A Pedagogia da Avestruz em 2003. Mais tarde, em 2006, Nuno Crato irá atacar o ‘eduquês’ e a pedagogia romântica. Santana Castilho lançara em 1999 o Manifesto para a Educação em Portugal, Rui Baptista publicará em 2005 o livro O Leito de Procusto: Crónicas sobre o Sistema Educativo e, nesse mesmo ano, David Justino publica No Silêncio somos todos Iguais. A editora Gradiva, de Guilherme Valente (ele próprio, autor de uma obra recente intitulada Os Anos Devastadores do Eduquês, 2012), que publicou os títulos de Nuno Crato e David Justino, deu um importante contributo para um repensar crítico da Educação que ia, de alguma forma, num sentido «correctivo» dos excessos do PREC”.E porque neste rol de autores sou citado, “preocupado com as gerações que estamos a formar” referencio outro meu livro Do Caos à Ordem dos Professores (2004). Faço-o por entender que ao processo educativo deve estar intimamente associada a qualidade da formação de professores tornando-me, por isso, em acérrimo defensor de uma Ordem dos Professores, em contraposição ao presidente da Fenprof que a desvaloriza ao lançar a confusão sobre as competências dos sindicatos e ordens profissionais como refiro neste meu segundo livro. Assim, segundo Mário Nogueira:
“Os Sindicatos dos Professores têm sido e continuarão a ser espaço de análise e discussão das questões da Ética e da Deontologia da profissão, conscientes que da sua clara assunção também beneficia a imagem social dos professores que só ilusoriamente seria melhorada pela criação de uma eventual ordem” (Site da Fenprof, 20/06/2008).No “Diário as Beiras”, em artigo de opinião intitulado, “Ordem e Sindicatos de Enfermeiros e atribuições” (21/02/2019), escalpelizei as funções dos sindicatos e das ordens profissionais como já o tinha feito anteriormente, aquando da tentativa gorada para a criação de uma Ordem dos Professores. Sendo eu, ao tempo, presidente da Assembleia Geral dos Professores Licenciados, fiz o historial dessa pretendida criação num meu artigo de opinião, a página inteira, no “Jornal de Notícias” (08/03/2006).
(continua)
QUATRO ANOS SEM JOSÉ MARIANO GAGO...
A propósito do aniversário da morte de José Mariano Gago, o seu amigo Guilherme Valente escreve hoje no Facebook:
Passam hoje quatro anos da partida de José Mariano Gago (JMG).
A propósito de Macau, registo uma recordação inesquecível dele. Da
sua inteligência, da sua capacidade de rapidamente apreender uma
situação, de se situar esclarecidamente num contexto novo.
Tendo
o Governador entendido reatar a prática de celebrar o 25 de Abril com
uma conferência proferida por uma figura pública do País, decidiu nesse
ano dirigir o convite a José Mariano Gago. Dadas as funções que eu
exercia no Gabinete, mas também seguramente por o Governador saber da
amizade que nos ligava, encarregou-me de acompanhar JMG e a Mulher, a
Caríssima Karin Wall, nessa semana para nós inesquecível em que
estiveram em Macau.
Depois
dum almoço que organizei com dois ou três amigos comuns, ficámos sozinhos, não me lembro já exactamente aonde, sentámo-nos e ele
disse-me: “Guilherme, explica-me Macau” (sic). Disse-lhe o que sabia e
pensava.
Foi
uma semana muito agradável também para eles, suponho. Tiveram mesmo
oportunidade de se deslocar à China, num passeio em que a Linda, a minha
Mulher, teve o gosto e o benefício intelectual e humano de os
acompanhar.
A
conferência que JMG fez no Leal Senado - no Leal Senado, note-se - no
dia 25 de Abril foi brilhante. Com um conhecimento e uma compreensão
notáveis da realidade histórica e do espírito de Macau, comparou a
Cidade à República livre de Veneza, marítima e comercial. *
No
dia do regresso a Portugal deu uma conferência de imprensa. Quando um
dos elementos de um “jornal” local lhe perguntou (nada inocentemente, refiro), “Não o choca tão poucos chineses falarem português?”, JMG
respondeu: “Não. O que me choca é tão poucos portugueses falarem
chinês”.
JMG
percebera tudo e na resposta que deu disse tudo. Tudo o que tanta
gente que viveu e passou por Macau, que escreve enormidades sobre Macau nunca percebeu, nunca foi capaz de perceber. E era e é tão básico...
para um espírito aberto, para uma alma grande.
Que falta faz a Portugal José Mariano Gago! E aos amigos.
——
*
Macau de que existe, endémica, uma ideia e visão absolutamente
ignorante, errada, injustíssima, em Portugal. Porque se faz de Macau, de
um Macau
que se desconhece, inventa, passivo e sem voz, o lugar de projecção dos
fantasmas mais sinistros recalcados no recôndito de muitos de nós. Um
exemplo? O que Miguel Sousa Tavares escreve quando vomita sobre o assunto.
Guilherme Valente
segunda-feira, 15 de abril de 2019
Uma obra exemplar. Em memória de Luísa de Nazaré Ferreira
Luísa de Nazaré Ferreira foi minha aluna na formação que dava acesso ao ensino, pouco tempo depois tornou-se professora na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Dedicou especial e cuidada atenção à investigação da infância e à sua educação na Antiguidade. Por isso, diversas vezes lhe pedi o esclarecimento de dúvidas que me surgiam num campo que não domino. Fê-lo sempre com a disponibilidade da partilha.
A Luísa de Nazaré já não está entre nós, mas deixou-nos uma obra construída ao longo de quase três décadas. Obra exemplar do ponto de vista académico, onde o estudo e o rigor, o empenho e o brio, a honestidade e a sobriedade, a alegria de conhecer se podem perceber em cada texto que escreveu.
Eis o resumo de um dos seus textos, publicado em 2015, que representa isso mesmo:
"A violência dirigida contra crianças com vista à sua eliminação é um tema assíduo na mitologia, na literatura e na arte gregas, mas as fontes antigas preservam ecos de outros aspectos da problemática em análise. Após uma breve introdução, este estudo centra-se na violência cometida por menores e no recurso aos castigos corporais em contexto educativo familiar e escolar, a fim de examinar algumas das fontes literárias e iconográficas mais relevantes sobre esta questão, dos primórdios da Época Arcaica à Helenística." (acesso aqui)Continuar a ler e reler o que escreveu é a melhor homenagem que se lhe pode fazer.
Deixo ao leitor a ligação para um belo texto em memória de Luísa de Nazaré assinado por Teresa Carvalho (aqui).
"TUDO É NÚMERO" (meu posfácio ao livro "Números que contam histórias" do jornalista André Rodrigues)
Lord Kelvin, um dos maiores físicos do século XIX e autor da escala de
temperatura com o seu nome, afirmou: "Quando podemos medir aquilo de que
falamos e expressá-lo em números, sabemos alguma coisa sobre o assunto; mas,
quando não podemos expressá-lo em números, o nosso conhecimento é frágil e
insatisfatório." Este livro do jornalista André Rodrigues assenta todo ele
em números. Estes sustentam histórias que nos ensinam coisas interessantes
sobre os mais variados assuntos. Tenho a certeza de que o leitor que chegou
aqui sabe muito mais do que sabia quando começou a leitura: sobre o tamanho do
mundo, os modos de vida, a saúde e a doença, o futuro que nos espera, o nosso
planeta, etc. E está, decerto, mais consciente da relevância dos números.
As
contagens – e, portanto, os números – são tão antigos como a Humanidade. As
primeiras contagens podem ter sido pelos dedos das mãos. O primeiro registo delas
que chegou até nós foi um osso com 29 entalhes, descoberto na África do Sul,
que data de há 44.000 anos. Pode ser uma contagem de fases da Lua, isto é, do
tempo. Já existia a escrita quando apareceu no Médio Oriente o primeiro código
de contagem em que os valores dos símbolos dependiam da sua posição, tal como
no sistema decimal que hoje usamos. Na Grécia Antiga, Pitágoras disse que “tudo
é número.” Na Revolução Científica, a matemática passou a ser indispensável
para descrever o mundo: com o primado do método científico, o Universo passou a
ser descrito por leis quantitativas. E, com o desenvolvimento da estatística e
a emergência das ciências humanas e sociais, o ser humano passou, também ele, a
ser descrito por números, como este livro mostra abundantemente. Após chegar ao
fim do livro, o leitor concordará comigo que tudo pode ser descrito por
números, tanto o mundo à nossa volta como nós próprios.
Mas
serão as descrições numéricas sempre adequadas? Não, os números por vezes
enganam. Devido ao triunfo da matemática na ciência, temos tendência a confiar
demasiado nos números. Mas há que ter o maior cuidado no uso dos números, por
exemplo os que vêm da estatística, que por vezes é feita à conveniência dos fins pretendidos. Basta
escolher uma amostra diferente, ou escolher um aspecto particular da amostra,
para manipular. Como já alguém disse, os números, se forem torturados, confessarão.
André
Rodrigues não tortura os números, embora alguns lhe cheguem um pouco aturdidos.
Trata-os com desvelo. Com inteligência e humor conta histórias à roda dos
números que captam a atenção do leitor como antes captaram a atenção do
radioouvinte. O seu livro ajudará a formar o que se chama “literacia matemática,”
a capacidade de ler o mundo matematicamente, uma aptidão que, passando pelos
números, está longe de se limitar a eles. Trata-se de analisar informação,
raciocinar e resolver questões.
A Pordata, aqui citada, mudou o país, pois
há cada vez mais gente a olhar para os números (obrigado António Barreto e
Maria João Valente Rosa!). Mas os números dever-nos-iam importar ainda mais. Neste
livro ficamos a saber que somos um país com algumas bizarrias estatísticas.
Esta informação dever-nos mover o raciocínio para resolver o grande problema
nacional que é o do desenvolvimento,
AS MINHAS ESCOLAS
Texto meu para o sítio "Escolas amigas das crianças" da editora Leya:
Eu não seria praticamente ninguém se não tivesse andado na escola. A meia dúzia de escolas onde andei – as escolas primárias da Voz do Operário na Ajuda em Lisboa, a Escola Primária dos Olivais em Coimbra, o Liceu Normal D. João III, a Universidade de Coimbra e, para pós-graduação, a Universidade Goethe em Frankfurt am Main, na Alemanha – foram minhas amigas. E eu fui amigo delas. Tomaram o meu tempo ao longo de 20 anos: comecei aos seis anos na primeira classe (na época o jardim de infância não era ainda comum) e só terminei aos 26 anos com o doutoramento em Física (na época era normal obter esse grau académico fora do país). As escolas que frequentei sobrepuseram-se umas às outras: por baixo a escola primária, ao longo de quatro anos, e logo a seguir o liceu, ao longo de sete anos. Parafraseando Newton, se consegui ver mais longe é porque estava aos ombros das escolas que frequentei.
Chorei no dia em que o meu pai me levou pela primeira vez à escola, pois, sem a necessária experiência, não sabia ainda que a escola era minha amiga. De facto, foi, pois desenvolveu a leitura das letras e a contagem dos números que eu já sabia com a ajuda da família e ensinou-me muitas coisas que os meus pais não sabiam. Mudei-me para a “cidade dos estudantes” ao fim da primeira classe, com um diploma na mão que ainda hoje conservo. Lembro-me dos primeiros exames, o da quarta classe e, mais stressante, por ser fora da minha escola, o da admissão aos liceus, com prova oral e tudo. A verdade é que não voltei a fazer exames até andar na universidade, pois no liceu podia-se dispensar de provas finais se se tivesse boas notas de frequência. E eu tive-as, antes da entrar, um de quatro alunos (éramos quatro como os mosqueteiros), no curso de Física, na antiga universidade. Para que servia esse curso? Não tinha resposta para essa pergunta, que o meu pai me fez antes da matrícula, mas, passados muitos anos, sei que dá para tudo e mais alguma coisa.
Se devo quase tudo o que sou às escolas, tenho de esclarecer que isso é o mesmo que dizer que devo quase tudo aos meus professores, primeiro os professores da primária em Lisboa e em Coimbra, depois os professores liceais em Coimbra e, por últimos, os professores universitários. Cedo aprendi a confiar neles, por ter percebido que eram meus amigos. E eu fui amigo deles. Naturalmente que gostei mais de uns do que de outros, mas com todos eles aprendi, mesmo quando julgava que não. Numa única ocasião, tive uma nota negativa no fim do período, na disciplina de Desenho: eu até tinha algum jeito para o desenho livre, mas aquilo era desenho geométrico, demasiado rígido para o meu gosto… Foi uma vacina pois subi logo a classificação no período seguinte. No liceu fiz teatro (fiz de espectador numa peça do José Régio), experiências laboratoriais (incluindo a dissecação de peixes), visitas de estudo (lembro-me bem de uma ao laboratório de Física da Universidade, onde mais tarde haveria de entrar), desporto (fui guarda redes de andebol), etc. Havia actividades (fiz aeromodelismo e jornalismo) e concursos (ganhei alguns de pintura). Havia alegria e companheirismo.
Dito isto, devo acrescentar que devo o resto do que sou aos livros, que encontrei na biblioteca escolar do liceu e na Biblioteca Municipal de Coimbra. Nos livros de divulgação da ciência, como os de Rómulo de Carvalho, aprendi, mais do que nalgumas aulas, que o conhecimento era uma grande aventura da qual eu, ainda que modestamente, podia ser parte…
A escola é uma das maiores invenções da humanidade. É o meio que a sociedade criou e foi desenvolvendo ao longo dos tempos para entrar no futuro. Eu entrei para o meu futuro pela porta da escola, com a ajuda dos meus professores. Estou-lhes por isso imensamente grato.
Eu não seria praticamente ninguém se não tivesse andado na escola. A meia dúzia de escolas onde andei – as escolas primárias da Voz do Operário na Ajuda em Lisboa, a Escola Primária dos Olivais em Coimbra, o Liceu Normal D. João III, a Universidade de Coimbra e, para pós-graduação, a Universidade Goethe em Frankfurt am Main, na Alemanha – foram minhas amigas. E eu fui amigo delas. Tomaram o meu tempo ao longo de 20 anos: comecei aos seis anos na primeira classe (na época o jardim de infância não era ainda comum) e só terminei aos 26 anos com o doutoramento em Física (na época era normal obter esse grau académico fora do país). As escolas que frequentei sobrepuseram-se umas às outras: por baixo a escola primária, ao longo de quatro anos, e logo a seguir o liceu, ao longo de sete anos. Parafraseando Newton, se consegui ver mais longe é porque estava aos ombros das escolas que frequentei.
Chorei no dia em que o meu pai me levou pela primeira vez à escola, pois, sem a necessária experiência, não sabia ainda que a escola era minha amiga. De facto, foi, pois desenvolveu a leitura das letras e a contagem dos números que eu já sabia com a ajuda da família e ensinou-me muitas coisas que os meus pais não sabiam. Mudei-me para a “cidade dos estudantes” ao fim da primeira classe, com um diploma na mão que ainda hoje conservo. Lembro-me dos primeiros exames, o da quarta classe e, mais stressante, por ser fora da minha escola, o da admissão aos liceus, com prova oral e tudo. A verdade é que não voltei a fazer exames até andar na universidade, pois no liceu podia-se dispensar de provas finais se se tivesse boas notas de frequência. E eu tive-as, antes da entrar, um de quatro alunos (éramos quatro como os mosqueteiros), no curso de Física, na antiga universidade. Para que servia esse curso? Não tinha resposta para essa pergunta, que o meu pai me fez antes da matrícula, mas, passados muitos anos, sei que dá para tudo e mais alguma coisa.
Se devo quase tudo o que sou às escolas, tenho de esclarecer que isso é o mesmo que dizer que devo quase tudo aos meus professores, primeiro os professores da primária em Lisboa e em Coimbra, depois os professores liceais em Coimbra e, por últimos, os professores universitários. Cedo aprendi a confiar neles, por ter percebido que eram meus amigos. E eu fui amigo deles. Naturalmente que gostei mais de uns do que de outros, mas com todos eles aprendi, mesmo quando julgava que não. Numa única ocasião, tive uma nota negativa no fim do período, na disciplina de Desenho: eu até tinha algum jeito para o desenho livre, mas aquilo era desenho geométrico, demasiado rígido para o meu gosto… Foi uma vacina pois subi logo a classificação no período seguinte. No liceu fiz teatro (fiz de espectador numa peça do José Régio), experiências laboratoriais (incluindo a dissecação de peixes), visitas de estudo (lembro-me bem de uma ao laboratório de Física da Universidade, onde mais tarde haveria de entrar), desporto (fui guarda redes de andebol), etc. Havia actividades (fiz aeromodelismo e jornalismo) e concursos (ganhei alguns de pintura). Havia alegria e companheirismo.
Dito isto, devo acrescentar que devo o resto do que sou aos livros, que encontrei na biblioteca escolar do liceu e na Biblioteca Municipal de Coimbra. Nos livros de divulgação da ciência, como os de Rómulo de Carvalho, aprendi, mais do que nalgumas aulas, que o conhecimento era uma grande aventura da qual eu, ainda que modestamente, podia ser parte…
A escola é uma das maiores invenções da humanidade. É o meio que a sociedade criou e foi desenvolvendo ao longo dos tempos para entrar no futuro. Eu entrei para o meu futuro pela porta da escola, com a ajuda dos meus professores. Estou-lhes por isso imensamente grato.
sábado, 13 de abril de 2019
A escuta na relação pedagógica. A propósito do livro "A expulsão do outro"
"O tempo em que o outro existia passou.
O outro como um mistério, o outro como sedução, o outro como eros,
o outro como desejo, o outro como inferno, o outro como dor (...).
Hoje, a negatividade do outro dá lugar à positividade do idêntico.
A pressão destrutiva não provém do outro, provém do interior.
A depressão como pressão interna desenvolve a auto-agressão.
A expulsão do outro põe em marcha um processo destrutivo
totalmente diferente: a auto-destruição".
Byung-Chul Han, 2017, p. 9 (aqui)
Num livro publicado há quase dois anos (2017), em Espanha e em Portugal, Byung-Chul Han continua a sua reflexão sobre a (con)vivência na contemporaneidade, que se tornou global (ver aqui e aqui). Assenta substancialmente essa reflexão nos filósofos alemães clássicos, que tem estudado e que o levaram a deixar a Coreia do Sul, de onde é natural.
Sendo a relação eu-outro(s) a essência de todo o acto educativo, incluindo o escolar, a leitura deste breve ensaio só pode causar inquietação. Perguntamos com o autor: no auge do neo-liberalismo, potenciador da hipercomunicação, da hipervisibilidade, da hiperprodução, e do hiperconsumo, que lugar fica reservado para a fala e para a escuta, que concretiza, em grande medida, essa relação?
Escutar tem sido, até mais do que falar, uma atitude proscrita na "narrativa" da educação escolar do século XXI, sobretudo se solicitada ao aluno, torna-o "passivo", diz-se.
O aluno cansa-se e desmotiva-se quando tem de ouvir o professor, tanto mais se a sua fala transporta conhecimento. Por seu lado, o professor deve ouvir o aluno quando quer falar e deve levá-lo a falar, porque ele tem algo a dizer sobre o que descobre, o que lhe interessa.
No capítulo com o título "Escuta", há uma passagem particularmente interessante sobre a atitude de "escuta":
"Escutar não é um acto passivo. Caracteriza-se por uma actividade particular. Primeiro, tenho de dar as boas-vindas ao outro, quer dizer, tenho de reconhecer o outro na sua alteridade. Logo, atendo ao que diz. Escutar é um prestar, é dar, é um dom. É o único que ajuda o outro a falar. Não segue passivamente o discurso do outro. Em certo sentido, a escuta antecede a fala. A escuta convida o outro a falar, libertando-o para a sua alteridade. O ouvinte é uma caixa de ressonância na qual o outro, ao falar, se vai libertando" (pp. 113 e 114 da edição espanhola).
Há um imperativo ético na escuta: dar ao outro a possibilidade de falar. E acrescento, para que o eu possa também falar e seja escutado. Esta é, sempre foi, a matriz da relação pedagógica, com o conhecimento a dar-lhe substância. É essa matriz que se tem quebrado noutros momentos e se vê mais uma vez quebrada.
Quando se retira o conhecimento dessa matriz, alegando-se que está algures na internet, no google, retira-se o sentido e a especificidade da fala e da escuta na escola, tanto de professores como de alunos. Quando não se ensina a atitude da escuta e da fala resta deixar as crianças e os jovens abandonados à "totalização do eu, do tempo do eu" e da "uniformidade e uniformização da comunidade do gosto (like)".
sexta-feira, 12 de abril de 2019
GUILHERME VALENTE NO RÓMULO NO DIA 18 DE ABRIL
Informação recebida do Rómulo:
No âmbito do
programa 10 ANOS | 10 FIGURAS, que o RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade
de Coimbra está a concretizar
no âmbito das comemorações do seu 10.º aniversário, Guilherme Valente, editor da Gradiva e grande conhecedor e
apaixonado pela China, será o próximo convidado, merecendo uma justa homenagem do
Rómulo pela sua longa e fértil vida dedicada à edição de livros e à difusão
cultural.
No próximo dia 18 de Abril, quinta-feira, pelas 18 horas, no RÓMULO - Centro
Ciência Viva da Universidade de Coimbra, no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, Guilherme Valente virá
apresentar o seu “Olhar
a China: uma aproximação ao espírito da China.” No ambiente informal que caracteriza estas
sessões falará num debate moderado por
Carlos Fiolhais, para além da China e dos chineses, da sua experiência
como editor e promotor da cultura em Portugal, para além de emitir as suas
opiniões sobre as questões que lhe sejam colocadas.
Guilherme Valente ganhou o primeiro
Grande Prémio Ciência Viva, por ter iniciado e mantido ao longo de 30 anos a
colecção “Ciência Aberta”, que o público pode encontrar completa no Rómulo. O Rómulo tem beneficiado da generosidade de Guilherme Valente, que
tem oferecido numerosos livros quer da editora que fundou quer da sua própria
biblioteca pessoal. Natural de Leiria, não esquece que o seu pai estudou na
Universidade de Coimbra.
Nota biográfica
Guilherme Valente viveu na China, em Macau, em três momentos todos dramáticos,onde teve a oportunidade de realizar o gosto e o enriquecimento de se misturar com chineses de várias classes sociais, de viver o sentimento epifânico de descobrir no “outro” ( no caso, tão distante) o universal, o “mesmo” que existe espalhado pela Terra inteira.
“Parti para Macau sabendo pouco sobre essa outra civilização que
desde muito cedo me fascinara, talvez por ser o outro extremo da Pátria que me
fizera e ia comigo, sentimento tão forte que sabia nunca poder perder,
mesmo que conseguisse fazer o exercício cristão e confuciano e kantiano de me
coloca no lugar do outro.
Estudou Filosofia, mas, como costuma dizer, não é um profissional
da Filosofia, mas gosta de filosofar; pósgraduou-se em Relações
Inter-Culturais; ficou ligado a muitas e diversas realizações em Macau.
Animou muitas conversas em instituições diversas, desde universidades,
clubes rotários, círculos de amigos e mesas de café; escreveu e publicou sobre
o tema designadamente no Expresso e
no Público; lê, pensa e sobretudo tem
saudades.
Entrada livre.
Para
mais informações:
RÓMULO – Centro
Ciência Viva da Universidade de Coimbra
Maria Manuela Serra e
Silva
Telefone – 239 410 699
E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com
DOUTORAMENTO HONORIS CAUSA
O meu muito sentido agradecimento às centenas de colegas, ex-alunos e outros amigos que, presencialmente, por mensagens ou e-mails, quiseram acompanhar-me nesta, para mim, muito importante e feliz homenagem com que a Universidade de Évora muito me honrou.
Desejo começar por dizer que, no caso dos alvos desta distinção serem elementos da comunidade científica, me ocorre salientar duas situações:Ou o título se reporta a uma ou mais contribuições da pessoa visada, tidas por suficientemente relevantes, conseguidas durante a sua vida activa, tenha ela a idade que tiver, e aí temos os grandes nomes da física, da química ou da medicina,
ou distingue alguém que, no decurso de uma longa vida de dedicado e intenso trabalho, sério e honrado, é tido por merecedor dessa honraria, como foi, que eu me lembre, o caso do historiador Túlio Espanca, que recebeu este título nesta Universidade, em 1990. É uma situação que, com o devido respeito, comparo aqueles prémios de final de carreira.
E é aqui que, sem falsa modéstia, me situo.
Por natureza não gosto de realçar o papel do velho, que os olhos, as pernas e muito mais, dizem que sou. Prefiro lembrar que transposto comigo a criança, o adolescente, o adulto jovem e o maduro, tudo isto caldeado na ponderação, na tolerância, na paciência e noutras capacidades que só a velhice nos dá.
Por natureza, costumo romper as malhas do protocolo. Faço-o com a descontração, a alegria e a afectividade que me caracterizam.
Entrei, pela primeira vez, nesta magnífica Sala dos Actos, em 1942, para fazer o exame de admissão aos Liceus. Tremiam-me a pernas de medo ao enfrentar uma tal responsabilidade. Era uma criança de 11 anos, cheia de futuro. Estou hoje qui, nesta mesma sala, 77 anos volvidos, com a maior parte desse futuro já consumida e transformada em passado e as pernas a tremerem-me de comoção.
Tudo era diferente no Liceu. As aulas eram mistas e até, havia namoricos. E não havia reguadas.
Passámos a lidar com “senhores doutores” e “senhoras donas”. É curioso registar que os professores homens eram tratados por doutores e as professoras por donas, ainda que, igualmente, licenciadas, o que revela bem a secundariedade então declaradamente dada à mulher, mesmo numa profissão como esta.
Não obstante momentos pontuais de algum sofrimento próprios e benéficos nesta preparação para a vida, seguiram-se anos felizes. Esquecendo os maus professores que, como hoje, também os houve, tive professores exigentes e respeitados nas aulas e conhecidos e estimados como pessoas importantes na cidade.
De tudo o que aqui aconteceu recordo que, sempre coxo, e sem saber porquê, detestando a Matemática, fui passando de ano para ano e. assim, cheguei ao 7º que, nesse tempo, correspondia ao actual 11º. Reprovei no exame e como não havia a chamada época de Outubro, fiquei mais um ano, como repetente, no dizer acusatório do meu pai. Aprendi então e aí que, com um bom professor de Matemática, Dr. João Ramos Seruca, não há aluno que não goste desta superior linguagem do pensamento. Tomei então consciência que um mau aluno em Matemática ou noutra qualquer disciplina reflecte, quase sempre, um mau professor. Aprendi também que a culpa de ter sido mau aluno não era só minha.
- A Matemática é uma escada" - disse-me o novo professor, - sobes o 1º degrau e só quando tiveres o pé aí bem assente, sobes para o 2ª e, assim, sempre a subir, sobes até onde quiseres.E tinha razão. Eu fiz como ele disse, perdi o medo à Matemática e, guardei para a viva uma primeira ideia do que é ser professor.
No 5º ano (o actual 9º), recordo o Dr. Cassiano Vilhena, o professor de Ciências Naturais, o docente que abriu portas à minha paixão pelas ciências da Terra.
Com ele as rochas e os minerais deixaram de ser pedras inertes e passaram a ser vistas como documentos da evolução do nosso planeta. Com ele, a antiga cristalografia morfológica, livresca e aparentemente desinteressante, ganhava forma no espaço tridimensional. Com ele aprendi o significado dos fósseis no conhecimento da complexa marcha da Vida e que as diferentes paisagens, na sua imensa biodiversidade, têm por suporte o solo e que este não é mais do que a capa superficial das rochas, alterada pelos agentes atmosféricos, capa essa necessária à fixação das plantas.
Nos 6º e 7º anos tive um bom professor de Filosofia, disciplina que me deu gosto estudar e que interiorizei como sendo a via que conduz a nossa mente a pensar sobre o pensamento, razão mais do que suficiente para me merecer o respeito que lhe é devido.
Descodificando a terminologia, tantas vezes hermética que afasta qualquer adolescente, o Dr. Piedade Morais mostrou-me toda a beleza e utilidade desta disciplina na harmonização do saber e facultou-me uma segunda ideia do que é ser professor.
Está aqui, nesta prestigiada Universidade de Évora, uma parte substancial das minhas raízes como profissional e como cidadão. Foi aqui, como aluno, bom numas disciplinas e mau noutras, a par de múltiplas experiências no pulsar laboral da cidade e do mundo rural à sua volta, que aprendi a ser como sou.
A. Galopim de Carvalho
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