sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A equação que mudou nossa forma de ver o mundo!


Em 27 de janeiro de 1926 é publicada a equação de Schrödinger fundamental para a mecânica quântica! Veja abaixo o que é a mecânica quântica:



A dificuldade real é psicológica e se faz presente no tormento perpétuo que resulta da sua fala interior com você mesmo:” mas como isso pode ser realmente desta forma?”, que é um reflexo de um desejo vão, mas incontrolável de ver o fato em termos de alguma coisa familiar. Não vou descrevê-las em termos de uma analogia com algo familiar: irei apenas descrevê-las (...)
Vou contar-lhes como a natureza se comporta. Se você simplesmente admitir que talvez ela se comporte desta forma você a achará uma coisa encantadora e fascinante. Não continue dizendo para si mesmo, se puder evitar de alguma forma: "mas como isso pode ser assim?", porque você será tragado para uma viela sem saída da qual ninguém jamais conseguiu escapar. Ninguém sabe como isso pode ser como é (...)” (Richard Feynman)

A CIÊNCIA DO HOCKEY NO GELO

A NBC, com o apoio da National Science Foundation, iniciou uma série de divulgação científica para o grande público sobre a ciência do hockey sobre o gelo. Participa, entre outros cientistas, a matemática portuguesa Irene Fonseca.

PARABÉNS, STEPHEN HAWKING


Minha crónica no Sol de hoje:

Na velha Trinity Street entre os históricos Trinity College e King’s College da Universidade de Cambridge fica um outro não menos histórico colégio daquela prestigiada instituição: o Gonville and Caius College. Entre os membros desse Colégio está Stephen Hawking, o físico teórico muito conhecido pelos seus trabalhos na área da astrofísica e cosmologia e na divulgação científica (o seu livro Breve História do Tempo vendeu milhões de cópias em todo o mundo). Não há muito tempo Hawking era visto com frequência a passear por aquela rua de Cambridge e mesmo num ou noutro dos extensos greens de Cambridge, na sua cadeira de rodas, sempre acompanhado por uma enfermeira ou um assistente. Agora já quase não aparece em público dada a sua cada vez mais precária condição física. No passado dia 8 de Janeiro, na data em que ele fez 70 anos (e na data em que passaram 370 anos após o falecimento de Galileu), não pôde comparecer para agradecer os parabéns e os aplausos dos seus muitos amigos e admiradores. Foi ouvida uma sua mensagem, que ele sugestivamente intitulou Breve História de Mim, na voz sintética do computador, já que o próprio há muitos anos não consegue falar.

Cambridge é um autêntico viveiro de génios. Membros célebres do Trinity foram o físico J. J. Thomson, o descobridor do electrão, e o matemático e filósofo Bertrand Russel. Membros ilustres do Christ foram o biólogo Charles Darwin, o descobridor da evolução, e o escritor C. P. Snow. E membros famosos do Caius foram o biofísico Francis Crick, um dos descobridores do DNA (a notícia foi anunciada num pub, o Eagle, podendo o visitante ver a placa comemorativa) e o economista Milton Friedman. A inspiradora paisagem verde, o microclima favorável e, sobretudo, a tradição ancestral de desenvolvimento das ciências e das artes (a Universidade tem mais de 800 anos) facilitam, sem dúvida, o sucesso em Cambridge.

A história pessoal de Hawking é a da sua vitória contra a terrível doença, a esclerose lateral ameotrófica, que o atacou há quase 50 anos, mais exactamente em Janeiro de 1963 quando estava a começar o doutoramento em Cambridge, depois de ter obtido a licenciatura pela Universidade de Oxford (Hawking é natural de Oxford). Os médicos, na altura, não lhe deram mais do que dois ou três anos de vida. A festa dos seus 70 anos mostra que, por vezes, os médicos se enganam redondamente... O prognóstico grave não o impediu não só de terminar o seu doutoramento, mas também de se tornar um dos físicos com mais renome: deteve durante 30 anos a cátedra Lucasiana que foi outrora ocupada por Isaac Newton, membro do Trinity College.

A Stephen Hawking todos os físicos e todos os amigos da física, incluindo os leitores dos seus livros, desejam bastantes mais anos de vida!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Os Africanos em Portugal: História e Memória (séculos XV-XXI)


Informação recebida neste blogue:

Exposição "Os Africanos em Portugal: História e Memória (séculos XV-XXI)"

10 de janeiro a 23 de fevereiro de 2012, Biblioteca Joanina, Universidade de Coimbra

Inauguração da exposição dia 10 de janeiro, pelas 15h00, com a presença de Isabel Castro Henriques (Universidade de Lisboa), que efetuará visita guiada e a conferência Os «Patrimónios Comuns Afro-Portugueses»: influências, autonomias, ambiguidades identitárias.

Enquadramento

As relações de Portugal com outros homens, outras culturas, outros mundos constituem uma questão incontornável para o estudo da construção da nação, da estruturação das identidades, da compreensão do que somos enquanto portugueses de ontem e de hoje. A África e os africanos ocupam um lugar central nesta problemática, pela longa duração dos contactos, pela natureza das formas relacionais, pela forma da sua presença no imaginário português.

A presença africana em Portugal difere de qualquer outra: se romanos e árabes deixaram vestígios reveladores dos seus projetos políticos, que os levaram a organizar operações coletivas, a utilizar exércitos, a colonizar os territ6rios, a maioria dos africanos não vieram de livre vontade, mas capturados ou comprados em África, para serem desembarcados como escravos no extremo ocidental do fragmento ibérico da Europa.

Despojados de tudo, esses homens, mulheres e crianças deixaram vestígios seculares através do país: se a sua visibilidade parece reduzida, pois não são eles nem monumentos, nem objetos de "arte': nem formas materiais, encontram-se de maneira significativa na densidade da participação africana na sociedade portuguesa: no trabalho, na produção, na Língua, na religião, na festa, na música e na dança, no corpo e na sexualidade, na toponímia, na imaterialidade dos nossos quotidianos. A história e a memória revelam-nos as suas marcas contidas, de forma estruturante, na constante reconstrução de Portugal.

A exposição é apresentada em vários painéis compostos por textos e fotografias relativas aos sete temas:

1 - Africanos: Uma nova mercadoria (séc. XV- XVI)
2 - Bairro do Mocambo em Lisboa
3 - A Integração dos Africanos (séc. XVI- XIX)
4 - A desumanização dos Africanos
5 - Estratégias Africanas
6 - Permanências e Mudanças (sécs. XVIII- XX)
7 - Novas Dinâmicas Africanas (Depois de 1974)

O Comité Português da UNESCO “A Rota do Escravo” assumiu a edição e o apoio da exposição. Contou também com os apoios do ACIDI (Alto Comissariado para a Integração e Diálogo Intercultural),a Fundação Calouste Gulbenkian, a FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), a Fundação Portugal Africa, o IPAD, e a UCCLA (União da Cidades Capitais de Língua Portuguesa).

Organização: Bibliotecas da Universidade de Coimbra e Programas de doutoramento Patrimónios de Influência Portuguesa (CES/III), Pós-Colonialismos e Cidadania Global (CES/FEUC)

QUASECRISTAIS - O NOBEL DA QUÍMICA DE 2011


Informação recebida no De Rerum Natura:

A Escola Quark para jovens olímpicos e o Centro Ciencia VIva Rómulo de Carvalho organizam um ciclo de sessões mensais sobre os Prémios Nobel de 2011. O ciclo começa já amanhã naquele Centro, no Departamento de Física da Universidade de Coimbra:

Sexta-Feira, 27 de Janeiro, 21h15-22h30
Quasecristais – o Prémio Nobel da Química 2011, por José António Paixão.

A entrada é livre.

Apresentação dos livros TerraVita Sadia















Informação recebida no De Rerum Natura:


Irá realizar-se hoje, dia 26 de Janeiro, pelas 18h, no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho (no rés-do-chão do Departamento de Física - polo I, da Universidade de Coimbra), a apresentação das obras TerraVita Sadia Juvenil e TerraVita Sadia Infantil, da autoria de Maria José Moreno e Maria Helena Henriques, com edição da Imprensa da Universidade de Coimbra.

A apresentação insere-se na iniciativa Café, Livros e Ciência, promovida por aquele Centro em colaboração com a Fábrica Ciência Viva de Aveiro e o Museu de Ciência da Universidade de Coimbra.

A entrada é livre.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Ainda a polémica entre António Sérgio e Abel Salazar


Novo post do historiador António Mota de Aguiar:

A contenda que António Sérgio e Abel Salazar tiveram nas páginas de vários jornais e revistas no segundo lustre da década de 1940 foi abordada neste blogue em artigos anteriores. Dei como causa principal para o dito diferendo o descontentamento de Sérgio (já o tinha tido também Casais Monteiro) pela forma como Salazar tratou a metafísica, isto é, pelo anúncio da sua falência. Não tivessem havido as críticas à metafísica e, provavelmente, não teria havido o rastilho para toda a polémica.

Faço a seguinte síntese: Tanto Casais Monteiro como Sérgio sentiram-se melindrados ou mesmo ofendidos nas suas convicções religiosas pela forma, seca e fria, como Salazar tratou esta temática.

Abel Salazar era visto com estima no campo republicano e junto de certas camadas da juventude. Os seus artigos fortificavam a sua posição junto destes grupos, o que certamente Sérgio não via de bons olhos, ele que também procurava simpatias junto dos “jovens leitores” (Ensaios, vol. II, pp. 10 e seguintes). As investidas dele contra a metafísica parecem, porém, desproporcionadas no país religioso de então, feitas como eram através de jornais, muitos da província, de reduzido público. Podemos por isso perguntar se seria rentável um ataque tão directo à religiosidade das pessoas. Daria isso alguns louros políticos ou culturais? Atingiriam esses ataques algum alvo sensível da ditadura? Penso que não. Abel Salazar caiu na armadilha que lhe estendeu a ditadura, uma ditadura que não permitia discussões sobre temas sociais e políticos, mas apenas sobre temas eruditos e speculativos, discussões que a população na sua totalidade (cerca de 75% eram analfabetos) não compreendia. Salazar pensou que aquela era a única via para se exteriorizar contra a ditadura: atacou a metafísica, e, por este meio, a Igreja, um dos pilares da ditadura. Pensou bem, mas fê-lo, a meu ver, mal, de uma forma desajustada, ofendendo os crentes que não apoiavam a ditadura, como era o caso de Casais Monteiro e Sérgio.

Se Abel Salazar tivesse feito uma divulgação da filosofia das ciências da Escola de Viena sem recorrer à falência da metafísica, Sérgio, provavelmente, não teria criticado o modo, mas a filosofia das ciências tout court. Isso sim seria uma “trapalhada” (uma expressão que ele próprio usa) porque não dispunha de bases científicas para fazer incursões nesse domínio. Nas Cartas de Problemática, em particular na C1, Sérgio deixa a ideia de que a filosofia só se pode abordar quando se tem uma sólida formação científica, mas, como veremos à frente, Sérgio não a tem. Por isso, embora possa não se estar de acordo com a forma pouco elegante empregue por Abel Salazar ao “ir divulgar ao público o bluff António Sérgio”, compreende-se a sua irritação ao dar-se conta do fraco saber científico do seu adversário. Discordo dos que dizem que, se Sérgio tivesse nascido num outro país, por exemplo, na Inglaterra ou na Suíça, teria sido um grande homem. Um grande homem em quê? Foi um homem do seu tempo, com uma obra sincrónica. Passadas essas décadas a sua obra não tem mais ressonância.

Voltando de novo ao tema principal, foi em torno da divulgação da ciência que os dois homens elaboraram as suas acusações recíprocas. Resumirei a seguir os pontos em que há, de uma forma geral, concordância de opiniões entre Sérgio e Salazar. Pretendo ver se, do diferendo ocorrido, podemos colher algum enriquecimento para os dias que correm.

Sérgio e Salazar estavam de acordo em perguntar como se devia vulgarizar a cultura de modo a fazer dela uma força de transformação efectiva da realidade, quer individual quer colectiva. Ambos concordavam que a cultura, quando reduzida a uma soma de conhecimentos, representava muito pouco, como acontecia com certa “gente culta”, dizia Abel Salazar, sempre pronta a discorrer sobre tudo, com superficialidade e sobranceria. Como vulgarizar a cultura? O que significa ser culto, perguntavam?

Significava, para Salazar “lograrmos desfazer-nos das limitações de espírito, para alcançarmos a objectividade e o universal”, em última instância, ser culto significa a conquista da liberdade. Sobre este ponto - conquista da liberdade - escreve Bento de Jesus Caraça em Cultura Integral do Indivíduo:

“ (…) A aquisição da cultura significa uma elevação constante, servida por um florescimento do que há de melhor no homem e por um desenvolvimento sempre crescente de todas as qualidades potenciais, consideradas do quádruplo ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico; significa, numa palavra, a «conquista da liberdade».”

Este ideal de cultura, de um homem com sólida formação moral e intelectual, a par de um desenvolvimento sempre crescente de todas as qualidades potenciais, era partilhado por Sérgio e Salazar. Ambos defendiam que o mais importante na formação cultural de um cidadão era a ginástica mental, o espírito crítico e científico. Ser culto era ter um método mais que um ideário, era passar da credulidade ingénua e do dogmatismo espontâneo para o nível mental da disciplina crítica. A verdadeira cultura era um esforço de auto-direcção intelectual, de reflexão e assimilação dos assuntos, de justo equilíbrio de raciocínio, de apreensão clara dos conceitos, dos processos e métodos de pensar. Os conhecimentos eram um meio e não um fim, um meio ao serviço da disciplina e do serviço intelectuais, da autocrítica e da reflexão, de um método de pensar e não de uma doutrina.

Dizia Salazar que a verdadeira cultura atira o indivíduo para um mundo onde tudo flui, para um reino de dúvida e de hipóteses, para a renúncia aos princípios absolutos e definitivos, para uma filosofia relativista e fenomenalista (em contraste com as metafísicas apriorísticas), embora neste último ponto não tivesse a anuência de Sérgio. Sérgio, por seu lado, defendia que na vulgarização cultural se deveria privilegiar a aprendizagem de problemas, de uma maneira de pensar, sendo os conhecimentos um mero pretexto para adestrar ou exercitar essa ginástica mental. Salazar, sem rejeitar esta ideia, defendia, porém, que ela devia ser precedida por um certo grau de informação.

Ambos partilhavam a ideia do papel determinante das ideias, especialmente das ideias científicas e filosóficas, na transformação da realidade político-social, a importância do debate de ideias para dirimir conflitos.

Para Salazar devia-se vulgarizar as conclusões e os resultados das ciências. Dava como exemplo uma obra de arte: não é necessário saber como foi criada mas sim apresentá-la bem de modo que o público se interessasse por ela. A vulgarização científica deveria levar o público a uma maior consciencialização da sua relação com o cosmos, com a vida e com o próprio.

Estes são os temas, grosso modo, em que havia concordância entre os dois; o diferendo estava, portanto, no modo como Salazar efectuava a divulgação cultural. Foi essa a base a toda esta polémica.

Uma nota final para sublinhar que, para Salazar, a vulgarização científica podia muito bem ser efectuada por um não especialista, sem que isso implicasse deformação e simplismo; foi precisamente o que aconteceu com Sérgio que, não sendo cientista, polemizou com Salazar sobre temas científicos.

O histologista Salazar ocupa na história da ciência portuguesa do século XX um lugar incontestável. Foi um investigador com provas dadas em trabalhos sobre a estrutura e evolução do ovário, tendo criado o método de coloração tano-férrico, que tem o seu nome. Para além de médico e investigador, notabilizou-se ainda como artista plástico (desenho, pintura e escultura).

A análise sobre Sérgio é mais complexa. Escreveu ele nas Notas de Esclarecimento:

“as minhas hipóteses não se formaram em mim pela dócil leitura de qualquer autor filosófico (…) desenvolveram-se a partir de uma reflexão pessoal sobre a geometria analítica e sobre a física matemática (…) foram a matemática e a física matemática que impeliram o meu espírito para o Platão da caverna.”

Com certa ironia António da Silveira observa:

“A matemática e a física matemática dos preparatórios de um ano para a Escola Naval? Ah!!... mas Sérgio o diz.. A cada um o seu mistério, a cada um o seu mito, a cada um a sua quimera!” (Recordando António Sérgio, p. 27)

Silveira, referindo-se ainda ao pensamento do seu amigo Sérgio, escreve o seguinte:

“(…) Mas a experiência de laboratório tornou céptico os físicos em face das ideias dos filósofos. Estes não são profissionais da investigação científica, não foram levados às suas teorias por uma actividade própria de cientistas” (idem, pp. 28/29).

Sérgio não é um cientista, não foi levado às suas teorias por uma actividade de cientista, foi um filósofo idealista (António José Saraiva considera-o um «idealista moderno»), comunicando, sobretudo, através de ensaios e polémicas. Em geral, o que mais se conhece de Sérgio é a sua faceta polemista. Mas a sua acção na sociedade portuguesa destas décadas foi bastante maior. Ele teve influência nos intelectuais destas décadas, em particular no grupo da Seara Nova, do qual foi director, além de manter uma certa influência sobre uma parte da juventude desta época, como já escrevi atrás. Sérgio foi também pedagogo, perito em assuntos de educação - foi ministro por três meses - filósofo e um intelectual empenhado na reforma cultural do país, crendo-se com a missão de protagonizar uma alternativa positiva.

A sua personalidade – a sua faceta multicultural - foi a sua principal arma. Homem muito inteligente, de sólida formação moral e de vasta cultura, não pôde todavia aprofundar nenhum tema, como fez Salazar. Talvez seja esta a razão do apagamento da obra de Sérgio nos nossos dias. Contudo, não foi um adversário fácil: o seu vasto saber obrigou os seus adversários a estudarem melhor as suas posições para polemizar com ele, contribuindo para o enriquecimento cultural desta época. A sua presença na cultura portuguesa destas décadas como agente cultural foi notável. Pegou-se com todos, a todos moveu polémicas usando o género epistolar. Para avaliarmos a sua contribuição para as ideias do seu tempo temos que ter em conta o cenário. Quão difícil devia ser a vida que os Portugueses tinham na década de 1930, sobretudo no segundo lustre, com uma ditadura férrea dentro das fronteiras, e, para onde quer que olhassem, ferozes ditaduras em volta, com uma guerra civil calamitosa ao lado, e em vésperas de uma catástrofe mundial. Que fazer numa época destas? As ideias não podiam morrer!

Sérgio com os seus Ensaios, as suas polémicas, as suas Cartas de Problemática, etc., enriqueceu culturalmente a sociedade portuguesa do seu tempo. Contribuiu – «Se não se peca contra a razão, não se chega em geral a nada», escreveu Einstein - para nos manter agitados, críticos, nesses tempos asfixiantes. E fê-lo, porque, como recorda Silveira, “as conversas de Sérgio tinham sempre um efeito, libertador, vivicante, estimulante e tónico”.

António Mota de Aguiar

Parecer da Sociedade Portuguesa de Física sobre a Revisão da Estrutura Curricular dos Ensino Básico e Secundário


A Sociedade Portuguesa de Física (SPF) emitiu um parecer, com o qual concordo, sobre a mudança curricular que o Ministério da Educação e Ciência (MEC) tem em discussão pública. Saliento dois pontos, que poderiam e deveriam ser revistos na proposta do MEC:

- Eliminação de uma disciplina anual do 12.º ano (actualmente os alunos escolhem 2 disciplinas anuais no 12.º ano e a proposta prevê apenas a escolha de uma, não indicando as opções): esta eliminação pode representar uma diminuição drástica da Física que já tão diminuída está;

- e a alteração do modelo dos desdobramento (turnos) nas aulas experimentais do 3.º ciclo, que poderá piorar o nosso já de si tão débil ensino experimental das ciências.


Mas nada melhor do que transcrever na íntegra o parecer da Divisão de Educação da SPF (os comentários em baixo são bem-vindos):

"A proposta de revisão da estrutura curricular apresentada pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC) procede à alteração dos planos de estudo dos ensinos básico e secundário sem a necessária reformulação dos programas das disciplinas. A SPF considera que uma revisão da estrutura curricular se deveria basear numa perspetiva articulada do elenco disciplinar e dos programas das disciplinas dos planos de estudo.

É amplamente reconhecido pela comunidade de professores de ciências físico-químicas e de ciências naturais que a atual estrutura curricular para o 3.º ciclo do ensino básico, atendendo à carga horária atribuída, demonstrou ser danosa ao desenvolvimento da qualidade das aprendizagens na área das ciências ditas experimentais [1]. Um bloco de 90 minutos semanal é prejudicial a uma aquisição de conhecimentos que satisfaça os objetivos curriculares e não permite o desenvolvimento das capacidades científicas necessárias para o ensino secundário, tais como as capacidades de análise e/ou construção de gráficos, tabelas, esquemas, diagramas; de cálculos simples, conversão de unidades e noção de estimativa e de interpretação/produção de textos. Por isso, considera-se que o aumento da carga letiva semanal no 3.º ciclo do ensino básico é urgente e imprescindível.

Uma vez que esta revisão dará lugar à produção de nova legislação que regula o currículo e o seu funcionamento, deve ficar inequivocamente expresso na legislação a aprovar, ao contrário do que sucede na atual estrutura curricular, a obrigatoriedade dos desdobramentos. [2]

A eliminação da disciplina de formação cívica no 3.º ciclo do ensino básico e no 10.º ano, mantendo a relevância dos seus conteúdos de modo transversal, assim como a eliminação da formação a decidir pela escola, prevista para o 3.º ciclo do ensino básico [3], são boas medidas que podem ajudar ao reforço da aprendizagem das disciplinas essenciais, nomeadamente via um reforço da respetiva carga horária.

1. 3.º ciclo do ensino básico

O aumento da carga horária das ciências experimentais no 3.º ciclo do ensino básico, prevista na proposta do MEC (“aposta no conhecimento científico através do reforço de horas de ensino nas ciências experimentais no 3.º ciclo do ensino básico colmatando, neste nível de ensino, uma clara insuficiência de carga horária”), é uma medida que poderá melhorar a qualidade das aprendizagens nesta área e que se prevê poder conduzir a uma melhoria do desempenho dos alunos no ensino secundário. A SPF congratula-se com esta medida, nomeadamente com o aumento da carga letiva semanal previsível para a disciplina de físico-química: de 90 minutos para (90 + 45) minutos [4].

Quanto à proposta de alteração do modelo de desdobramento de aulas nas ciências experimentais do 3.º ciclo, através de uma alternância entre as disciplinas de ciências naturais e de físico-química, considera-se que é uma medida que desincentiva o trabalho prático-laboratorial [5]. A aprendizagem das ciências experimentais pressupõe que os alunos “façam”: ora uma das fragilidades do atual currículo do ensino básico está precisamente no ensino pouco experimental das ciências experimentais, o que decorre, fundamentalmente, da reconhecida insuficiência horária. Assim, se por um lado, o aumento da carga horária das disciplinas de físico-química e de ciências naturais cria condições que permitem uma maior disponibilização do tempo necessário para as atividades experimentais, por outro, a alteração do modelo de desdobramento dificulta a realização das atividades experimentais, dado que não é possível desenvolvê-las, com qualidade, com toda a turma ou utilizando apenas uma aula de 45 minutos [6].

É de salientar que a importância que se quer dar ao ensino das ciências experimentais implica a manutenção dos atuais moldes do desdobramento das disciplinas de físico-química e de ciências naturais: semanalmente os alunos têm cada uma destas duas disciplinas num bloco de 90 minutos com desdobramento (turnos). A este bloco, com atividades prático-laboratoriais, acresceria uma aula de 45 minutos com toda a turma.

2. Ensino secundário

A formação científica dos cursos científico-humanísticos deve ser adequada às necessidades de prosseguimento de estudos no ensino superior. Deve também garantir-se, ao longo do ensino secundário, uma progressiva aproximação ao esforço definido para os cursos do ensino superior. Assim, o plano de estudos do 12.º ano deveria propiciar o desenvolvimento de hábitos de estudo que se aproximassem mais do que virá a ser exigido aos alunos no primeiro ano do ensino superior.

A eliminação de uma disciplina de opção no 12.º ano é contrária às necessidades de um ensino exigente, prejudica a formação dos alunos e também a sua preparação para o ensino superior, prevendo-se que contribua para o aumento do insucesso nesse grau de ensino.

A proposta de revisão da estrutura curricular sofre de um grave desequilíbrio na distribuição da carga horária e do número de disciplinas ao longo do ensino secundário: assim, nos cursos científico-humanísticos, os 10.º e 11.º anos ficam com maior carga horária (17 a 18 blocos de 90 minutos), maior número de disciplinas e dois exames nacionais (disciplinas bienais da componente de formação específica [7]), enquanto o 12.º ano fica com menor carga horária (10 blocos de 90 minutos), menos disciplinas e na componente de formação específica apenas com um exame nacional (matemática A no curso de ciências e tecnologias). Este desequilíbrio no plano de estudos do ensino secundário implica uma evolução do esforço exigível aos alunos em contraciclo com a evolução da maturidade cognitiva e das competências sociais, atitudinais e axiológicas dos alunos ao longo dos três anos de escolaridade do ensino secundário.

No atual plano de estudos, a diversidade de opções [8] da segunda disciplina anual do 12.º ano contribui para que a escolha dos alunos obedeça, fundamentalmente, a um critério de obtenção da melhor média possível no final do ensino secundário, isto é, a escolha da disciplina em que o aluno previsivelmente obterá melhor classificação com menor esforço, em vez de se basear num critério de uma melhor formação de base para o curso pretendido no ensino superior. Esta diversidade de oferta é prejudicial a uma desejável racionalidade conceptual do plano de estudos assim como a uma gestão racional dos recursos humanos.

A SPF considera que se devem manter as duas disciplinas anuais de opção do 12.º ano a bem da formação dos alunos e do equilíbrio do seu plano de estudos, sendo antes necessário reduzir a diversidade de opções da segunda disciplina anual a um núcleo essencial. No curso de ciências e tecnologias esse núcleo duro deveria ser constituído pelas disciplinas de base das ciências físicas e naturais: física, química, biologia e geologia. Contribuir-se-ia, assim, para a redução da dispersão curricular, “centrando mais o currículo nos conhecimentos fundamentais e reforçando a aprendizagem nas disciplinas essenciais” conforme preconiza o MEC na proposta de revisão de estrutura curricular.

Caso o MEC mantenha apenas uma disciplina de opção no 12.º ano é imprescindível, por razões de racionalidade de gestão de recursos e consistência interna do plano de estudos, a redução do número de opções disponíveis a um núcleo essencial de disciplinas que no caso do curso de ciências e tecnologias seriam as já referidas: física, química, biologia e geologia.

O MEC refere uma “atualização do leque de opções da formação específica, no ensino secundário, tendo em conta o prosseguimento de estudos e as necessidades do mercado de trabalho, criando disciplinas como, por exemplo, Programação informática”, mas não explicita a necessidade de redução do leque de opções a nível da disciplina anual do 12.º ano.

Dada a centralidade do trabalho prático-laboratorial nas ciências experimentais (física, química, biologia e geologia), não se compreende a eliminação do reforço da carga horária da disciplina anual do 12.º ano. As atividades experimentais nas disciplinas de física e química A e de
biologia e geologia, dos 10.º e 11.º anos, são desenvolvidas numa aula de 135 minutos, enquanto no 12.º para as disciplinas de física, química, biologia e geologia as atividades, de acordo com a proposta do MEC, teriam que ser desenvolvidas em aulas de 90 minutos. Dada a maior complexidade de exploração das atividades prático-laboratoriais desenvolvidas nas disciplinas de física e de química do 12.º ano, esta redução de 135 para 90 minutos das aulas prático-laboratoriais é prejudicial à consolidação das aprendizagens.

18 de janeiro de 2012

Divisão de Educação da Sociedade Portuguesa de Física

NOTAS

[1] Com a carga letiva atual, um bloco de 90 minutos semanal, ocorrem situações caricatas em que uma turma pode estar duas semanas seguidas sem ter aulas de físico-química e de ciências naturais, por exemplo, devido a feriados.

[2] Embora o atual currículo do ensino básico preveja a obrigatoriedade das atividades experimentais no ensino das ciências, o ponto 5.8 do despacho n.º 14 026/2007 refere que, para esse efeito, “é autorizado o desdobramento…”. Esta redação permitiu que em muitas escolas do ensino particular e cooperativo e mesmo em algumas escolas públicas se optasse pela simples eliminação dos desdobramentos. No ensino secundário ministrado no ensino particular a situação é também heterogénea indo desde a ausência de desdobramento ao desdobramento numa aula de 90 minutos e não de 135 minutos como estabelecido no atual currículo. Esta diversidade na implementação do currículo é lesiva do direito de igualdade dos alunos e é bem exemplificativa da fragilidade da regulamentação emanada pelo Ministério da Educação.

[3] De acordo com o Decreto-Lei n.º 94/2011 de 3 de agosto esta carga horária a decidir pela escola poderia ser distribuída pela disciplina de língua portuguesa ou de matemática, mas também poderia ser utilizada para atividades de acompanhamento e estudo, de acordo com a opção da escola.

[4] No 9.º ano do currículo em vigor, a carga letiva semanal dos alunos é de (90 + 45) minutos para uma das duas ciências físicas e naturais, ou ciências naturais ou físico-química. Esta diferença de carga letiva destas duas disciplinas é de difícil fundamentação e é geradora de conflitos de interesses nas escolas, sendo que pressupõe que o mesmo programa possa ser dado em cargas horárias diferentes de acordo com a opção de cada escola.

[5] A proposta do MEC não especifica como é que se operacionaliza a alternância. Prevê-se que a aplicação da alternância aos desdobramentos deverá originar não só um desfasamento entre as componentes teórica e prático-laboratorial da disciplina de físico-química como também outros desequilíbrios resultantes de, por exemplo, feriados ou visitas de estudo.

[6] O desenvolvimento das competências processuais e conceptuais inerentes ao trabalho “experimental” requer tempo, espaços próprios e materiais específicos, o que apenas se torna exequível em pequenos grupos e no segmento letivo de maior duração. Com a turma toda não é possível garantir a realização das atividades com a necessária segurança.

[7] O Decreto-Lei n.º 50/2011 de 8 de abril introduz a possibilidade de o aluno substituir o exame de uma das disciplinas da componente da formação específica, por exemplo física e química A, por um exame à disciplina de filosofia (componente de formação geral) de acordo com a opção do aluno. Esta possibilidade contraria a importância que a formação específica deve ter a nível do ensino secundário e pode prejudicar a equidade pretendida na obtenção da média final do ensino secundário no mesmo curso científico-humanístico.

[8] No atual curso de ciências e tecnologias, as opções do plano de estudos para a segunda disciplina anual do 12.º ano são as seguintes: física, química, biologia, geologia, antropologia, aplicações informáticas B, ciência política, clássicos da literatura, direito, economia, filosofia A, geografia C, grego, língua estrangeira I, II ou III e psicologia B (Decreto-Lei n.º 272/2007, de 26 de julho e Declaração de Retificação n.º 84/2007, de 21 de setembro; o Decreto-Lei n.º 50/2011 de 8 de abril não introduziu nenhuma alteração a esta dispersão de oferta que ao ser gerida de acordo com o Projeto Educativo de cada escola origina grandes disparidades)
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Método para tratar alimentos

Em 24 de Janeiro de 1950 Percy Spencer patenteou o " Método para tratar alimentos" que visava o cozimento de alimentos por meio de energia eletromagnética. O primeiro microondas tinha 2 metros de altura e pesava 340 kg! Chamamos de microondas as ondas eletromagnéticas com freqüências desde 300 MHz até 300 GHz e comprimentos de onda desde 1 m até 1 mm. Durante a Segunda Guerra Mundial, Percy Spencer, trabalhando com radares, percebeu que uma barra de chocolate havia se derretido no seu bolso. Descobriu, assim, que as microondas têm a capacidade de aquecer alimentos, pois a energia das ondas nessa região do espectro eletromagnético corresponde à energia do movimento rotacional de algumas moléculas dipolares presentes nos alimentos, como as de água, gorduras e açúcares. A existência de ondas eletromagnéticas foi proposta por James Clerk Maxwell em 1864. Em 1888 Heinrich Hertz foi o primeiro a demonstrar, experimentalmente, a existência de ondas eletromagnéticas ao construir um dispositivo capaz de produzir ondas de rádio.Veja também meu video no YouTube sobre luz:

Cursos intensivos de iniciação ao Grego e ao Latim

Informação chegada ao De Rerum Natura.


O Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra irá promover dois cursos intensivos de iniciação ao Grego e ao Latim. São cursos breves (20h), destinados a facultar um primeiro contacto com o estudo das línguas clássicas a pessoas sem conhecimentos nesse domínio.

Os cursos funcionarão durante o mês de fevereiro, às terças e quintas, das 10 às 13h (Grego) e das 14 às 17h (Latim), sendo assegurados pelos doutorandos Carlos A. Martins de Jesus (carlosamjesus@gmail.com) e Rodolfo Lopes (rodolfo.nunes.lopes@gmail.com).

A frequência dos cursos é livre e gratuita, devendo a inscrição ser feita diretamente no Instituto de Estudos Clássicos (
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) ou através do email dos docentes.

PORTUGAL EM CAMBRIDGE


Minha crónica no Público de hoje (na imagem o Corpus Christi Colege, em Cambridge):

Uma das ruas mais pitorescas de Cambridge dá pelo nome de Portugal Street. Desemboca na Portugal Place, perto dos agradáveis greens daquela cidade universitária inglesa que se estendem à volta da cidade, alguns nas traseiras dos colégios mais famosos, ao longo do rio Cam. Parece que o nome da praça e da rua, de belas e antigas casas alinhadas, se deve à proximidade do cais onde era desembarcado o vinho do Porto que vinha para as mesas dos colégios, designadamente para as high tables, onde só o master, os fellows e os seus convidados têm lugar.

Outra presença portuguesa em Cambridge encontra-se na mais movimentada St. Andrew Street: é o restaurante Nando, onde é servido o renomado peri-peri chicken (o churrasco tão gabado pelo ministro da Economia Álvaro Santos Pereira), que pode ser acompanhado por portuguesíssimas cervejas, e finalizado com um pastel de nata e uma bica.

Na Cambridge inglesa (tal como aliás, na não menos universitária Cambridge norte-americana, perto de Boston, no Massachusetts), há bastantes portugueses. Alguns são emigrantes tradicionais, ou filhos deles, tal como, por exemplo, as duas portuguesas a trabalhar na hotelaria que encontrei no University Arms Hotel e que, graças à Ryan Air, um autocarro aéreo, conseguem dar um pulo fácil às suas terras natais. Mas outros são emigrantes especiais, estudantes em busca de formação especializada e ainda cientistas já especializados, aos quais vulgarmente se chama “cérebros fugidos”. Na Universidade de Cambridge há numerosos estudantes portugueses a fazer a licenciatura e o doutoramento. E também há, embora em menor número, investigadores e professores, como o Tiago Rodrigues, que, nascido em Paredes de Coura, no Alto Minho, depois de ter concluído o doutoramento em bioquímica na Universidade de Coimbra, trabalhou em Madrid e está agora em Cambridge a investigar o cancro. Recentemente guiou-ne, com indisfarçável entusiasmo, pelo colégio de Corpus Christi, ao qual está associado, gabando-lhe as facilidades e contando-me as tradições ainda mais ancestrais do que as que conheceu em Coimbra.

Depois do vinho do Porto e do frango de churrasco, temos, portanto, a exportação de cérebros como uma das formas contemporâneas de ligação entre Portugal e o Reino Unido. Os estudantes e cientistas portugueses em terras de Sua Magestade britânica estão organizados no PARSUK, a Portuguese Association of Researchers and Students in the United Kingdom, que é muito activa em organizar encontros e outras actividades (do outro lado do Atlântico, há uma instituição similar, a PAPS, Portuguese American Post-Graduate Society). Falam inglês tão bem como os nativos e estudam ou fazem ciência tão bem ou, nalguns casos, bem melhor do que os nativos. A Universidade de Cambridge é uma escola de élite, um sítio por onde andaram Isaac Newton, Charles Darwin e Francis Crick, só para referir alguns cientistas, ou Francis Bacon, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein, só para acrescentar alguns filósofos. Mas isso não intimida os cérebros portugueses, que aí triunfam com idêntica facilidade, embora menos publicidade, do que fazem os nossos melhores treinadores e futebolistas que actuam lá fora. Não há desmentido possível: o treinador do Chelsea, André Villas-Boas, e o jogador do mesmo clube Raul Meireles são mais conhecidos em Portugal do que qualquer um dos nossos cientistas no Reino Unido. Dou uma informação curiosa sobre futebol: as suas primeiras regras têm o nome de Cambridge Rules por terem sido estabelecidas nessa cidade em 1848 e logo ensaiadas num enorme green junto ao University Arms Hotel.

O Tiago e os seus colegas merecem ser mais conhecidos cá dentro. Não só mais conhecidos mas também mais aproveitados. Eles não receiam o futuro, que, no seu ponto de vista, tanto pode ser lá fora como cá dentro. Têm uma grande vontade de ajudar o país, o que podem fazer em qualquer um dos lados, embora, para nós, fosse evidentemente preferível que o fizessem cá dentro. Deviam poder ter a escolha, que cada vez têm menos, entre permanecer e regressar. Numa época em que a economia prevalecente no mundo não é o comércio do vinho do porto ou do pastel de nata, nem a microeconomia do futebol, mas sim a economia do conhecimento, custa ouvir os incitamentos do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e do ministro-adjunto Miguel Relvas à fuga de cérebros e, ainda por cima, tentar dirigi-los, com argumentos bacocos, para o Terceiro Mundo, desprezando a Europa e os Estados Unidos. O nosso maior potencial não está no vinho nem nos pastéis, muito menos nos músculos dos jogadores, mas sim nos cérebros, em particular os jovens, que activamente se ocupam, em Portugal e por esse mundo fora, na ciência, na tecnologia, na filosofia e nas artes. Tudo leva a crer que as afirmações de Passos Coelho e de Relvas não foram lapsus linguae. Foram, isso sim, o resultado de um profundo equívoco.

MATEMÁTICA NA RUA



Interessante projecto de mostrar matemática na Rua, no qual participa a portuguesa Sara Santos, divulgadora de ciência na Royal Institution de Londres.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Os avós levaram malas de cartão. Os netos trazem diplomas*


Transcrevemos um recente post do nosso leitor João Boaventura inserto no seu blogue "Desporto e Economia" na sexta-feira passada:

O Plauto português, Gil Vicente, nas suas obras, já denunciava o abandono dos campos e a desertificação do país, provocados pelas políticas de acumulação de riqueza dos Nobres, da Igreja e da Coroa Real.

Voltamos à desmistificação do jogo de palavras que enrolam pensamentos obtusos, confusos, pouco claros, escondidos os esconjuros, mas exteriorizando com limpidez cristalina o que se pretende disfarçar com o dito que não foi dito, depois de claramente dito.

Depois de o Secretário de Estado do Desporto e Juventude ter apostado na elaboração do Livro Branco da Juventude, convidou os jovens a emigrar para deixarem o aconchego da família, fez o jogo das contradições ou das inutilidades, porque perante tal convite ficava-se por saber a quem se destinaria o Livro perante a fuga da juventude, a menos que o manuscrito iria fazer jus ao título.

Como os políticos, apesar de adultos mantêm espírito adolescente, produto dos tempos de chefes de turma e de camaradagem escolar, logo o Ministro Adjunto se apressou a vir ao terreiro defender a classe, apoiando as declarações do seu subordinado, não fosse a plebe pedir a cabeça do Secretário de Estado pelo atrevimento de querer expulsar os jovens para os poupar de ler o Livro Branco da Juventude, ou para se poupar de o escrever perante a ausência e leitores. Com a agravante de o Ministro Adjunto, metido numa vara de onze camisas, apoiar-se na tese de os navegadores de antanho, a desbravar mundos – em vez de primeiro desbravar cá dentro - sem lhes dar as naves. E não satisfeito com esta arenga permitiu-se, em reunião alegre com angolanos, enaltecer, como prova do que vinha afirmando, os portugueses instalados no estrangeiro a fazerem figura, em vez de se penalizar de não poderem fazer figura na própria pátria. Os alçapões são tremendos.

E como a camaradagem é o emblema do Governo – um por todos e todos por um – logo o Primeiro Ministro se apressou a saltar à arena já que, ostracizados os alunos, os professores ficariam desempregados, pelo que, em recurso, e para salvar os seus hierárquicos, aconselhava também os mestres a acompanhar os alunos, sugerindo as ex-colónias para continuar a colonização interrompida abruptamente. O que ia em contraponto com a opinião do secretário de Estado das Comunidades, António Braga, que anunciava, em 21 de Junho de 2005, a intenção do Governo de acabar com o envio de professores de português para o estrangeiro, e tinha inaugurado, em Outubro de 2009, o Gabinete de Emergência Consular que funcionava 24 horas por dia para prestar apoio aos portugueses no estrangeiro que se encontrassem em situações de emergência.

Para este Governo não há situações de emergência. Para a frente e cara alegre.

Postas as coisas nestes termos para que a memória do futuro não o esqueça nos seus arquivos, somos despertos pelas trombetas dos arautos do semanário Sol, do dia de hoje, com esta diatribe, que brama como um rastilho:

Passos Coelho tinha sugerido que os jovens alarguem o seu mercado de trabalho e, posteriormente, o euro-deputado do PSD Paulo Rangel chegou mesmo a sugerir, na última reunião do Conselho Nacional, a criação de uma agência nacional para ajudar os portugueses que queiram emigrar.

Chama-se a isto a difusão de ideias difusas, provocadas pela sensação de que Portugal afinal anda de mente perdida, que não há uma nova forma de fazer política, mas uma nova forma de perder a vergonha, e de argumento em argumento, deixando a História percorrer os trilhos dos dias que correm, Portugal tende a desaparecer dentro dos próximos 50 anos.

É provável que, perante a crise que nos arrasta, a única solução viável para Portugal se realizar seja esse: espalhar alunos e professores nas malas diplomáticas para o estrangeiro e esperar de volta pelos netos aptos a negar a asserção de Júlio César:

Ali para os lados da Lusitânia há um povo que não governa nem se deixa governar

João Boaventura
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*O título deste Post, com a devida vénia, foi tirado do de um artigo publicado no Jornal i, no dia 17.12.2010, abordando o Dia Internacional do Migrante - o 18 de Outubro de 2010 – para dar a conhecer o mundo dos luso-descendentes em Portugal.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Nacionalismo e Preconceito?

Em 23 de janeiro de 1911 Marie Curie teve seu pedido de filiação negado pela Academia de Ciências da França. Acredita-se que essa decisão se deveu a ela ser mulher e por ser polonesa. Neste mesmo ano ela foi agraciada com o segundo Prêmio Nobel (agora o de Química)!
Veja matéria no Youtube:

domingo, 22 de janeiro de 2012

"Não se pode fazer uma 'vida' com as verbas avulsas dos arquivos"

A história informa, a literatura ilumina. Na primeira a linguagem esclarece, na segunda a linguagem envolve. Não se trata de pôr uma contra a outra, mas, sim, uma com a outra.

Uma biografia romanceada junta-as. Na obra que daí resulta não importa tanto a verdade, e a dúvida que a acompanha, mas, sobretudo, o chamamento para aquela ou aquelas vidas que se contam, como se assim mesmo tivesse sido.
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É o caso da biografia e lenda de Isabel de Aragão, a Rainha Santa, que Vitorino Nemésio percorre desde o nascimento até à morte, num livrinho que num dia se lê e, evidentemente, se aprecia.
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Diz o escritor em nota final:
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"Escusávamos talvez de acrescentar que este livrinho é uma 'vida', ou seja, uma interpretação puramente biográfica da Rainha - uma obra de arte. Seja como for, não perdemos o pé na História, não inventámos um único personagem ou facto; a nossa invenção é puramente psicológica. Não se pode fazer uma 'vida' com as verbas avulsas dos arquivos."
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E deixo o leitor com algumas palavras que permitem fazer uma «vida»:
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"Era bonita. É certo que as filhas de reis já são embelezadas pela própria majestade em que nascem, mas esta era bela de seu, com feições mais fortes do que finas, de uma força elegante a acusada sobretudo nos traços ósseos, que dão às mulheres de raça uma energia radiante. O retrato de Colónia, único autêntico, fala de uma solenidade vagamente luminosa, própria de quem levou consigo um mistério e um carácter. De cabeça bem erecta, voada de véus que a coroa cinge, olha docemente para baixo, numa atitude em que a oração e a autoridade se combinam. O pescoço tem a inflexão das mulheres altas, o queixo afirma vontade e qualquer coisa de menos sagrado, um ar feminino e bem humano; umas flores estampadas pelo sirgueiro no vestido sublinham esta impressão.Traz um cordão cheio de nós e o alto de um manto de rainha. Mas isto é uma composição, síntese de pintor."
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Referência: Nemésio, Vitorino (2011). Isabel de Aragão, Rainha Santa. Lisboa: Texto.

Primitivismos como utopias

Nacontinuação do texto Rousseau segundo Barzun: O Bom Selvagem como abstracção.

No último século ligou-se directa e indubitavelmente a ideia de Bom Selvagem às teorizações de Jean Jacques Rousseau (1712 - 1778). Jacques Barzun considera tal ideia, que assume na nossa cultura o estatuto de culto, muito anterior a este filósofo. A verdade é que, regredindo na História do Pensamento Ocidental, ela perde-se no tempo. Ainda assim, Barzun procura acompanhar a sua evolução e expressão. Sigamos o seu raciocínio...

“O selvagem com o seu credo simples, é saudável, sereno e altamente moral, um ser mais merecedor do que o homem civilizado que se vê obrigado a ludibriar e a urdir intrigas para prosperar. Nos finais do século XVIII assiste-se ao regresso desta esperança utópica; nos finais do século XIX, Edward Carpenter dá-lhe voz na obra Civilization: Its cause and cure; e na década de 60 do século XX o tema reaparece associado à rebelião dos jovens, que procuram a vida simples em comunidade, ou que, enquanto «Flower People», defendem o amor como único e suficiente elo social” (página 18).

“Em resultado da batalha por almas e corpos que Las Casas e outros combateram em Madrid e na Nova Espanha para proteger os nativos maltratados, deu-se o reviver de uma velha ideia. O romano Tácito,
recordar-se-á, tinha descrito as tribos germânicas do século I de maneira a fazer corar de vergonha os cidadãos de Roma. Essas tribos levavam uma vida simples, em que a honestidade, o amor, a verdade, a coragem e a lealdade eram tão normais como a falsidade, o ludíbrio, a traição e o medo cobarde da morte na civilização. Este contraste foi exemplificado para o século XVI por um certo número de tribos americanas – pelo menos tal como elas se afiguravam aos observadores situados a cerca de 5000 quilómetros de distância. Assim surgiu a figura do Bom Selvagem, que desde então tem fortalecido os sucessivos PRIMITIVISMOS
(...)"

"Note-se que essa noção remonta virtualmente a Colombo, que no seu primeiro relato faz alusão à vida simples dos nativos (...)"

Factos posteriores deste género inspiram todas as Utopias, a começar pela de Thomas More, na primeira década do século XVI. Sendo assim devíamos tentar separar o Bom Selvagem do nome de Rousseau, que se destacou 200 anos depois e que não tinha qualquer simpatia por esta figura imaginária” (página 123).

“… modificar a noção dos povos ocidentais sobre as suas origens. Durante 1000 anos, tinham-se considerado filhos e filhas dos antigos romanos. Agora a ideia de raças diferentes substituía a de uma linhagem comum. O fundamento desta mudança é claro: ela está em paralelo com o fim do império e com o surgimento das nações (…) A partir desta nova perspectiva, um novo grupo de palavras ganhou notoriedade: normando, lombardo egodo (…). Além disso, cresceu a convicção de que o carácter de um povo é inato e imutável. Se os seus traços parecem estranhos ou odiosos, a teoria da raçajustifica a inimizade perpétua. Chegamos assim a alguns dos habituais preconceitos e hostilidades do nosso tempo. «Raça» acrescentou a ideia secular de diferença inata à ideia teológica de pagão e cristão" (página 123).

Referência: Barzun, J. (2003). Da Alvorada à Decadência: De 1500 à Actualidade - 500 Anos deVida Cultural do Ocidente». Lisboa: Gradiva

Inovação!

Innovation (Andre Konstantin Geim): “For me it’s very boring to work on the same thing year after year…” Graphene resulted from “Friday night experiments where you try something very elementary and try to go in another direction”

"Every great and deep difficulty bears in itself its own solution." (V. F. Weisskopf)

Veja matéria no Youtube:

sábado, 21 de janeiro de 2012

Ainda o meu "post" “Um Artigo Sobre o Ensino Superior no Blogue da Universidade de Aveiro” e respectivos comentários

“Não é possível discutir com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos” (KarlPopper, 1902-1994)
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O meu último post aqui publicado (19/01/2012) , “Um Artigo obre o Ensino Superior no Blogue da Universidade de Aveiro”, suscitou uma interessantíssima troca de opiniões, diria mesmo uma saudável controvérsia, através de vários comentários nele deixados pelos leitores António Pedro Pereira e Joaquim Manuel Ildefonso Dias. Em princípio, pouco mais haveria a dizer, quiçá, para além do apreço e proveito com que os li e o conselho que dou aos leitores em os ler
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Mas faço-o pela simples razão do meu agrado pelos comentários que, de uma forma geral, fazem aos meus posts lustrando-os, quer com eles concordem ou não, com argumentos que não pecam por ataques biliosos demonstrativos de um mau funcionamentodo fígado para gáudio do portuguezinho que, como escreveu Vitorino Nemésio, “gosta de ver um bravo, ou mesmo um louco, ao parapeito”. E, por outro lado, por esses comentários incidirem, como seria de esperar, sobre o contexto do Ensino Superior e a controversa questão do acesso à Universidade em situações morais em contraponto às injustas "Novas Oportunidades" e "Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos".

Tenho como aval, para esta minha tomada de posição, o facto de há muito me debruçar sobre estas questões, mormente sobre o ingresso nos cursos de Medicina, em que a procura excede largamente a respectiva oferta pela obstrução sistemáticade abertura a novas faculdades. Embora sabendo do perigo que corro em deslustrar, com a minha escrita, esta controvérsia, mas com a eperança em a não deixar cair em saco roto pelo interesse de que se reveste numa altura emque um novo Ministro da Educação, Nuno Crato, ele próprio um académico prestigiado, tem em suas mãos os inúmeros e graves problemas que afectam o ensino desde as primeiras letras ao ensino universitário. Para o efeito, transcrevo este texto parcelar de um meu artigo de opinião (reproduzido, posteriormente, no meu livro “O leito de Procusto”, 2005, ps. 107-108):

“Em idos tempos havia o exame de aptidão em que, por exemplo, a admissão ou exclusão do alunos que desejassem ir para os cursos de Medicina ficava ao exclusivo encargo das respectivas faculdades e das exigências por si havidas necessárias. Hoje, um aluno que queira ingressar na profissão de Esculápio em primeira escolha, por declarada vocação, dono de capacidades humanas e culturais incontestáveis, mas sem as elevadíssimas classificações que roubam aos estudantes do ensino secundário os prazeres de uma juventude sadia de corpo e espírito vivida em plenitude de estudo, lazer, prática desportiva e usufruto cultural (como reconheceu o professor de Medicina Abel Salazar, 'um médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe'), por vezes, apenas por um décima de valor nãoentra. Em consequência, tem como solução de recurso matricular-se em outro curso universitário ou mesmo do ensino politécnico no âmbito da Saúde. E quando nem isso consegue, acede, numa espécie de roleta de azar, a cursos de segunda, terceira ou demais escolhas em matérias para que não está minimamente vocacionado e muito menos sabedor do contragosto do exercício profissional que o espera!

Por isso, defendo que deve competir à Universidade estabelecer o perfil do aluno que reúne condições para a sua frequência semestar dependente, unicamente, da classificação do ensino secundário, e respectivos exames nacionais, em que aquela, não raras vezes, pouco diz a verdade ou espelha a realidade. Mesmo correndo o risco de me repetir, quantas vezes um aluno merecedor de maior classificação que um outro, mas porque em situação diversa de avaliação, por diferente ser o critério da escola que frequentou, dos professores que o avaliaram ou as condições em que é avaliado, não sai prejudicado?

Como luminar do Saber Humanístico, do Conhecimento Científico e do mais elevado “know-how”, a Universidade apenas deve franquear a entrada a alunos convenientemente preparados que lhe batam à porta da entrada principal e nunca aos medíocres que lhe são impostos pela porta do cavalo, como alunos com 4,7 valores de ensino secundário que, anos atrás, tiveram acesso ao Curso de Engenharia Geotécnica da Universidade da Beira Interior ( 'Expresso', 15.06.96). Ou, outro exemplo, de entre muitos, alunos que entram nos cursos universitários de Matemática com nota negativa e bem baixa de acesso nesta disciplina!

Será o regresso ao Exame de Aptidão à Universidade (ainda que adaptado aos tempos que correm) uma solução óptima? Com o aval da sabedoria popular, 'o óptimo é inimigo do bom'. Contentemo-nos, portanto, com o bom ou, mesmo até, com o menos mau. O que já não é nada mau, convenhamos“ (Público, 5 de Setembro de 2005).

Nem de propósito, duas semanas após a saída deste meu artigo de opinião, era publicada a seguinte notícia jornalística: “'Contudo, o facto de não haver falta de candidatos para o curso não significa que o método de seriação seja correcto. Tenho a convicção que não é inteiramente justo', afirma António Sousa Pereira [presidente do Instituto de Ciências Biomédicas do Porto]. Confrontado com os alunos que entram no curso, explica que 'nem todos correspondem ao padrão que esperamos, dadas as provas que prestaram para entrar, e apresentam altíssimas taxas de insucesso. E se alguns encontram o seu caminho, outros não, o que deixa a sensação que outros mais vocacionados terão ficado de fora'" (Diário de Notícias, 19 de Setembro d e2005)". É a voz da experiência académica e profissional de António Sousa Pereira que fala. Ouçamo-la, pois!

Post scriptum: Não gostaria de terminar sem me referir, também, a um pequeno comentário de um leitor anónimo que mostra dúvidas sobre a entrevista sobre o perfil psicológico que na República Checa é realizada no acesso ao curso de Medicina, dizendo que “abre caminho a todas as arbitrariedades”. E, logo, acrescenta: “Pior do que isso só as Novas Oportunidades”. Para não ser mal interpretado, declaro que sou a favor dessa entrevista no caso específico dos cursos de Medicina portugueses. Todavia, pelo facilitismo com que se entra no ensino superior em Portugal “cuidados e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”, como nos diz a vox populi. Como é sabido, as entrevistas no acesso a empregos, por vezes, são utilizadas para proveito dos “cunhados”, palavra que nem sempre tem conotação de parentesco. Mas um uso em Portugal de finalidade duvidosa pode ter virtudes na República Checa. Terá?

Na imagem: As novas instalações da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto ontem inauguradas pelo Presidente da República.

George Bernard Shaw e os "interesses britânicos"



Com muito agrado do DRN, e provável desagrado dos súbditos de Sua Majestade, aqui se publica mais um texto do ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa:

Na última cimeira europeia, o primeiro ministro britânico, David Cameron, auto-excluíu-se do processo em curso, alegando estar ali apenas para defender os sagrados “interesses britânicos”. Quando um primeiro ministro de Sua Majestade britânica invoca este poluído cliché, já se sabe que o faz por estar a ter, no seu próprio país, problemas graves, que ameaçam a sua continuação no poder. O toque de clarim destinado à mobilização nacional tenta descortinar um inimigo comum, que desvie, por algum tempo, a atenção dos eleitores, dos graves problemas internos, para supostos inimigos externos. Os “interesses britânicos” costumam surtir grande efeito, em situações como estas. É xenófobo, egoísta e um tanto reles, mas os políticos de Sua Majestade não costumam hesitar: apelar para a defes adesses “interesses” é um verdadeiro grito de “Às armas!”, que anula, instantaneamente, toda a racionalidade e decência e une os cidadãos até aídivididos, dispondo-os, na sua grande maioria, a apoiar o ministro, que, até há pouco, quereriam derrubar.

George Bernard Shaw, o grande dramaturgo irlandês, que conhecia os ingleses como ninguém – os irlandeses conhecem bem os ingleses, pelas piores razões possíveis – não os poupava, desmascarando-lhes as intenções torpes, por debaixo da nobreza dos princípios invocados. Era, precisamente, o autor de Pigmaleão quem observava, com tiro certeiro: “Um inglês faz tudo, invocando princípios: luta contra ti, ao abrigo de princípios patrióticos; rouba-te, invocando princípios de negócios; escraviza-te, alegando princípios imperiais.” Tudo – porrada, roubalheira, opressão – sob a alçada de um discurso nobilíssimo e alevantado.

O recurso a um chauvinismo nacionalista, em pleno palco de uma cimeira europeia, que deveria, por isso mesmo que é europeia, fazer esbater todos os pruridos nacionalistas, dá bem a medida do modo de ser insular daquela curiosa e, aliás, corajosa gente. “O nacionalismo”, observava um romancista de entre as duas guerras (Richard Aldington), “é um galo tonto a cacarejar no seu próprio chiqueiro.” Eis um anglo-saxão lúcido e sem medo de dar o nome aos bois. Outro – Robert Snayerson– oferece-nos esta medalha bem polida: “O orgulho nacional é a forma moderna do tribalismo.” Eis o que o inglês médio, mesmo no século XXI, ainda não compreendeu: de aí, persistir, absurdamente, na libra, na condução pela esquerda e no ódio ao sistema decimal. Admirável coerência, se quiserem, mas alimentada em pura obtusidade.

Voltando a Cameron, típico produto do pior conservadorismo inglês, é mais do que provável que o primeiro ministro britânico tenha julgado “necessário”, para salvaguardar o seu futuro político, recorrer ao chauvinismomais desbragado. Mas todos sabemos onde podem levar as chamadas “necessidades políticas”. O já citado George Bernard Shaw, persistente Nemésis dos vícios disfarçados dos ingleses, notava, provavelmente a pensar nestes, que “as necessidades políticas se revelam, por vezes, erros políticos.

A invocação inoportuna dos “interesses britânicos”, particularmente no contexto de uma cimeira europeia, trouxe-me irresistivelmente à memória uma passagem célebre de uma das peças mais famosas do grande dramaturgo irlandês: Santa Joana. Numa reunião em que se congeminava o julgamento de Joana d’Arc, estando presentes o bispo Cauchon, Lord Warwick e um sanguíneo capelão inglês, Cauchon adverte: “Eu não sou meramente um bispo político: a minha fé é, para mim, o que a vossa honra é para vós; e se houver uma saída por onde esta baptizada filha de Deus possa esgueirar-se para obter a salvação, guiá-la-ei nessa direcção.” Isto irrita os ingleses, que querem “despachar” o julgamento e levar, rapidamente, a Donzela à fogueira. Iracundo, o capelão inglês reage, chamando “traidor” ao bispo francês, que se exalta e responde altivamente, nestes termos: “Vós mentis, padre. Se vos atreverdes a fazer o que esta mulher [Joana d’Arc] fez – pôr o vosso país acima da Santa Igreja Católica – ireis para a fogueira com ela.” Warwick, pragmático, conciliador, dirige-se, apreensivamente, ao bispo: “Meu Senhor: peço-vos desculpa pela palavra [traidor] usada por Messire John Stogumber. Não significa em Inglaterra o mesmo que em França. Na vossa língua, traidor significa aquele que trai: alguém que é pérfido, traiçoeiro, desonesto,d esleal. No nosso país, significa simplesmente alguém que não é totalmente devotado aos nossos interesses ingleses.”

Esta flecha envenenada, atirada por Shaw aos ingleses, desvela bem as grandes prioridades da pátria de Shakespeare, que se escondem um pouco por detrás daquele hipócrita “simplesmente” – os “interesses” são tãos agrados que o não total empenho na sua defesa seria – e é – nada menos do quealta traição, mais grave, de longe, do que o estupro ou o assassínio. Vem, a propósito, citar o romancista Malcolm Bradbury, quando dizia: “Gosto dos ingleses. Têm o código de imoralidade mais rígido do mundo.” E, também, digo eu, o mais original...

Os ingleses estão tão convencidos da sua superioridade em relação ao resto do mundo, que Cecil Rhodes afirmava que ter nascido inglês era o mesmo que ganhar a taluda, na lotaria da vida. E um personagem de uma peça de Shaw não hesita em afirmar: “Nós não fomos lealmente batidos, my Lord. Nenhum inglês é jamais lealmente batido.”

Há neste convencimento cego uma estreiteza, uma espécie de incesto sufocante e grotesco de que toda a gente se apercebe, menos o singleses. O romancista e historiador H. G. Wells, espírito universalista e, sob tantos aspectos, tão pouco inglês, bem avisava: “A democracia ateniense sofreu muito devido à estreiteza do patriotismo, que é a ruína de todas as nações.” Mais malcriados e directos, os franceses dizem-no de outra maneira: “O casamento produz cornudos e o patriotismo produz imbecis” (Paul Léautaud, Journal). Mas foi, afinal, Bernard Shaw (sempre ele!) quem disse o óbvio: “O patriotismo é a nossa convicção de que o nosso país é superior a todos os outros, por termos nascido nele.”

David Cameron e os ingleses, em geral, deviam meditar nestas verdades simples e humildes, para evitarem falar de “interesses britânicos”, em ocasiões em que o tom apropriado seria coesão e solidariedade. O anúncio recente de estarem a preparar uma grande armada para repescarem súbditos britânicos de uma alegadamente falida Europa continental vai direitinho para um exigente antologia de disparates de dimensão galáctica!

Eugénio Lisboa

Na fotografia: David Cameron.

A GRUTA DOS SONHOS ESQUECIDOS



Já chegou aos cinemas portugueses o filme em 3D sobre a gruta Chauvet, um santuário da arte rupestre.

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...