segunda-feira, 12 de abril de 2010

História do Ateísmo em Portugal

Informação recebida da Editora Guerra e Paz:

A primeira História do Ateísmo em Portugal chega às livrarias na próxima semana, com a chancela da Guerra e Paz. O livro de Luís F. Rodrigues centra-se no período que vai desde a Fundação do país até ao final do Estado Novo.

A investigação realizada por Luís F. Rodrigues ao longo de cinco anos analisa o percurso da tendência ateísta em Portugal, dando a conhecer personalidades, ideologias e movimentos que participaram activamente na desvalorização do «conceito de deus».

domingo, 11 de abril de 2010

O máximo de criatividade

A criatividade é uma capacidade humana, como o são a retenção de dados na memória, a compreensão, a elaboração de juízos, ou a invocação de conhecimentos prévios para tomar decisões ou agir. Quando nascemos, todas estas capacidades se encontram em potência e, nessa medida, para se revelarem precisam de ser ensinadas e aprendidas. Falhas nestes dois processos comprometem a inteligência, que se constitui numa articulação, ainda não completamente esclarecida, entre estas capacidades e outras não aqui referidas.

Porém, num certo discurso, que está longe de poder ser corroborado pela Pedagogia (que se rege pelo modo de pensar aceite pelas comunidades científicas), insiste-se nas seguintes ideias:
(1) certas capacidades dispensam a estimulação, porque a criança, por si só, consegue desenvolvê-las;
(2) a estimulação dessas capacidades por adultos, a ser feita, tem efeitos contraproducentes: inibe a sua livre expressão;
(3) assim sendo, certas capacidades dispensam a estimulação de outras, pois estas podem destruir aquelas.

São três ideias que emergem imediatamente quando, nesse tipo de discurso, se invoca a criatividade. Assim, no plano da educação escolar, sublinha-se que:
(1) as crianças são naturalmente criativas e, quando não constrangidas, são capazes de fazer desabrochar e concretizar essa vertente no seu maior explendor;
(2) nessa medida, os professores devem, apenas e só, criar as condições para tanto;
(3) e devem, abster-se de trabalhar a memorização, porque esta abafará todo e qualquer laivo de criatividade.

Trata-se de ideias que, além de erradas, são perigosas. A criatividade é uma capacidade abstracta e complexa, requendo, para se desenvolver, outras que lhe são propedêuticas, como é o caso da memória. Não se trata de duas capacidades antagónicas, mas de duas capacidades complementares. A falta de estimulação duma prejudica a outra.

Tais ideias não estão, infelizmente, apenas patentes em discursos teóricos, elas perpassam os doumentos curriculares vigentes. Reproduzo, de seguida, um extracto do Programa de Educação Visual e Tecnológica para o 2.º Ciclo do Ensino Básico, que ilustra na perfeição o que acima afirmei:

“A investigação deve ser orientada para a autonomia dos alunos e a criação de hábitos de pesquisa, tanto relativamente aos interesses dos alunos como às formas de registo, de exploração das respostas e de apresentação das ideias, no sentido de permitir o máximo desenvolvimento da criatividade. Ao professor caberá essencialmente estimular a procura do maior número de respostas, animar a recolha de dados, promover a reflexão…”

A IGNORÂNCIA ESCONDIDA

Habitual destaque semanal à coluna What´s New do físico Robert Park:
"The National Science Board, established by Congress as a national science policy body, oversees NSF and provides independent science policy advice to the President and Congress. It issues a huge biennial report, Science and Engineering Indicators, which is a compendium of quantitative data on the science enterprise around the world. The results are disturbing. In their understanding of science, polls found, most Americans are falling behind, even though much of the progress was made by American scientists and engineers. Congress needs to hear these facts. Instead, poll questions dealing with the origin of the universe and evolution were simply excised from the report The board member who took the lead in removing the text was John T. Bruer, a philosopher with close ties to the Vatican. I hope that Science will publish the apocryphal text so we may judge its relevance for ourselves."

sábado, 10 de abril de 2010

O MONTE DAS FORMIGAS


Ne revista de livros do "New York Times" de ontem, encontra-se uma recensão de Barbara Kingsolver sobre o primeiro romance do biólogo Edward O, Wilson "The ant hill" (Norton), Começa assim:
"Scientists hardly ever write novels. Fabricating imaginary people is not the domain of the scientific method, to put it mildly. Constructing a plot, lacing it with clues to lead the reader to a well-prepared conclusion, is heretical business for those trained to unprejudiced observation. But any who take the leap may use their worldliness to good advantage, smuggling gems of empirical knowledge across the literary border to create fiction with unusually rewarding heft. Consider the meticulous puzzle­-solving of Sir ­Arthur Conan Doyle (a trained surgeon) or the flights of physics in Alan Lightman’s “Einstein’s Dreams.”

Next, think of Edward O. Wilson, one of the most important biological theorists since Darwin. Author of some two dozen books, two-time Pulitzer Prize winner, expert on social insects, discoverer of new species, passionate advocate of bio­diversity, he is best known for his groundbreaking work on the evolution of social behavior. He had a considerable cache of scholarship to tuck into his pockets before slipping across the genre line to write his first novel, “Anthill.” "

Para mais ler aqui.

HUMOR: HELPDESK MEDIEVAL



Excerto de comédia norueguesa sobre o modo de usar o livro.

Todas as crianças são poetas… menos...

Chegou-me à caixa de correio um artigo assinado por uma Bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que, tendo o estatuto de investigadora, não é propriamente uma leiga em matéria de educação. Encontrando-se num processo de especialização, a sua opinião conta, e a sua opinião a respeito do estudo e da aprendizagem é a seguinte:
"Estudar tem de ter a adesão voluntária das crianças. Deve ser algo que elas percebam e por que se interessem. Perceber que conhecer, aprender e ter a possibilidade de participar no mundo de uma forma informada é algo estimulante, e as crianças gostam deste sentimento. Estudar é perceber mais e melhor... não é repetir o que os adultos impõem (...) As crianças têm múltiplos interesses que são desprezados em função da matéria escolar (...). Desenvolver e treinar a memória é o que as crianças mais fazem no seu dia-a-dia (...) Elas fazem-no à medida que se vão confrontando com a necessidade de saber, ou seja, quando jogam ou quando vêem jogar. Fazem-no sem custo porque é uma actividade que lhes interessa e, portanto, aderem a ela. E, ao aderir, estão a memorizar e a treinar (...) precisamos de compreender que também as propostas de trabalho que exigem estudo e esforço têm de ser sentidas pelas crianças como verdadeiramente importantes e suficientemente interessantes para que a elas adiram com vontade e para que as valorizem, para que as trabalhem com gosto. Caso contrário, mal comecem a ter alguma autonomia, deixam o estudo aprofundado de lado e fazem somente o mínimo necessário para passar de ano (...). Quando se obriga a memorizar e repetir, estamos a impor uma concepção já programada e raramente as crianças aprendem a pensar, a pôr em causa, e isso não as ajuda a perceber e ficar com vontade de continuar."
Encontro no livro O valor de educar, do filósofo Fernando Savater, uma passagem que desmistifica esta ideia absurda de que a criança aprende autonomamente a partir dos seus interesses, da sua natural criatividade, sendo que qualquer direccionamento ou constrangimento por parte dos adultos pode perturbar esse delicado fluir.
“Uma certa mitologia pedagógica criou a fábula da criança criativa a quem os constrangimentos da pedagogia mutilam e acorrentam. De acordo com esta argumentação falsamente rousseauniana — que não a de Rousseau — deve deixar-se que a criança desenvolva a sua genialidade inata, seguindo discretamente a corrente, sem outra medida educativa… mais ou menos como se estivesse louca. O contrário — dizem — supõe sacrificar a sua criatividade às rotinas opressivas e medíocres da sociedade em que vivemos. Para Claude Lévi-Strauss (…) a criatividade infantil revela-se antes de tudo na sua capacidade para assimilar a educação e essa sim que é inata; não esqueçamos que o mestre, por melhor que seja, só consegue ensinar, mas é criança quem realiza sempre o acto genial de aprender. Com frequência esse talento humanizador, gradual e evolutivo, está em luta com os frutos de precocidade, artificialmente maduros, que tanto agradam àqueles que gostam de exibir as destrezas das crianças como se fossem fenónemos de circo. Por isso, quando há algumas décadas atrás surgiu em França uma menina chamada Minou Drouet, celebrada como um prodígio porque escrevia poemas, Jean Cocteau comentou: «Todas as crianças são poetas… menos Minou Drouet…» (...)
Será então melhor que as crianças, por mais criativas que as consideremos, recebam a preparação adequada (...). E se alguma «criatividade» se perde no processso, é certo que se obterão como compensação resultados socialmente mais aceitáveis e uma configuração pessoal menos caprichosa e portanto mais estimulante. Será necessário recordar que não é possível nenhum processo educativo sem alguma disciplina? (…). A própria etimologia da palavra na língua latina (composto por discis, ensinar e da palavra que nomeia as crianças, pueripuella) vincula directamente a disciplina ao ensino. Esta exigência obriga o neófito a manter-se atento ao saber que lhe é proposto e a cumprir os exercícios que a aprendizagem requerer. O termo serviu também para denominar as diversas destrezas e conhecimentos que se aprendem por este processo, as matemáticas ou a geografia são disciplinas cuja aprendizagem exige, por sua vez, disciplina.”

O LIVRO: UM TESOURO EM QUE PODEMOS TOCAR

Crónica do historiador João Gouveia Monteiro antes publicada no "Diário de Coimbra":

Em época de crise, são raros os tesouros em que podemos tocar. Entre eles, estão alguns livros especiais. A Imprensa da Universidade de Coimbra já nos ofereceu este ano dois títulos de que não posso deixar de vos falar.

A Universidade de Coimbra. O Tangível e o Intangível”, é um livro de apresentação da Universidade de Coimbra ao Mundo. Experiência inédita, reúne vários dos nossos melhores autores (Aníbal Pinto de Castro, Lélio Quaresma Lobo, Maria José Azevedo Santos e Vítor Serrão) e um grande número de outros colaboradores especializados que, sob a coordenação científica de José de Faria Costa e Maria Helena da Cruz Coelho, nos guiam numa visita por três continentes: o Património Artístico, o Património Documental e o Património Científico (incluindo aqui as belas colecções do Museu da Ciência). Trata-se de um livro que fala, profusamente ilustrado por belíssimas fotografias de João Armando Ribeiro, num conjunto muito cuidado e sóbrio com uma direcção de imagem com a excelência a que António Barros já nos habituou. Um projecto nascido há cerca de 10 anos (era então Fernando Regateiro o Director da IUC) e agora concretizado sob a coordenação editorial de Maria João Padez. O facto de se tratar de uma edição bilingue (tem tradução inglesa de Karen Bennett) dará asas a este sonho e fará chegar ainda mais longe a história e a riqueza patrimonial de uma universidade que foi, durante séculos, única em Portugal. Um livro especial, para ler e para rever sempre, para oferecer em momentos particulares e a destinatários seleccionados. Um livro que não se esgota porque é, ele mesmo, um desafio à nossa curiosidade intelectual, à nossa cultura e à nossa vontade de conhecer melhor esse tanto da história de Portugal que a Universidade de Coimbra encerra.

O outro livro intitula-se “Tesouros da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra”. Com coordenação científica de A. E. Maia do Amaral, design de Paulo Emiliano e coordenação editorial da Medialivros, aqui desfilam alguns dos muitos tesouros que a nossa excepcional Biblioteca abriga. António Filipe Pimentel escreve sobre a arquitectura e a arte dos dois edifícios da BGUC e Maia do Amaral sobre as bibliotecas eruditas e os espólios literários e científicos (num dos capítulos) e sobre as marcas bibliográficas (noutro). Saul Gomes guia-nos pelos manuscritos medievais iluminados, enquanto Maria da Graça Pericão nos fala dos segredos da tipografia quatrocentista e quinhentista, Flávio Pinho dos fundos musicais e Iuliana Gonçalves da imprensa periódica portuguesa. Pelo seu lado, Alexandre Ramires conduz-nos ao mundo maravilhoso da fotografia antiga na UC, enquanto Carlos Fiolhais (Director da BGUC) e os seus colaboradores (António José Leonardo, Décio Martins / João Carlos Marques) recordam, no primeiro caso, o Instituto de Coimbra e, no outro, apresentam a rede de cerca de nove dezenas de bibliotecas da nossa Universidade. De referir também o trabalho dos fotógrafos Paulo Mendes e João Armando Ribeiro, que captaram imagens de uma maneira rara e que chega a ser emocionante. Em síntese, um livro que ilumina o recheio de uma instituição que, com 3500 manuscritos e mais de um milhão de volumes guardados nas suas valiosas salas, é seguramente uma das jóias da nossa Coroa.

Dois livros, dois tesouros. Para ver e para tocar. Para sentir e para regalar a vista e o espírito. É ler para crer [http://siglv.uc.pt/imprensa].

João Gouveia Monteiro

O CORPO EM MOVIMENTO

“A história das ciências tem quatro grandes objectivos: os nossos conhecimentos, as nossas opiniões, as nossas disputas, os nossos erros” (Jean Le Rond d’Alembert, (1717-1783)

Se ao debruçarmo-nos sobre a história dos factos podemos avaliar as consequências do passado, para Jean-Michel Rey “a Metafísica e a Religião nos seus esforços conjugados lançaram uma proibição sobre qualquer ciência do corpo”.

Georges Gusdorf (Da História das Ciências à História do Pensamento, Editores Livreiros Ld.ª, Lisboa, 1988, p.1 75) reforça esta acção frenadora da Filosofia no desenvolvimento das ciências do corpo quando afirma que “a biologia aristotélica só foi verdadeiramente ultrapassada depois de um intervalo de 2000 anos”. Ainda segundo o mesmo autor, Aristóteles, com lugar no pódio dos maiores filósofos da humanidade, ao debruçar-se sobre o funcionamento do corpo humano, “baralhou os espíritos durante séculos”.

O próbrio lançado por Platão sobre o corpo, "túmulo em vida da alma", é contrariado quando a res extensa assume uma inesperada dignidade como matéria pútrida, sem sopro de vida ou nobreza de alma. A pompa das cerimónia fúnebres como que recompensa o descuido que lhe foi devotado em vida, não tendo esse tardio remorso consentido a dissecação dos cadáveres, retardando, assim, de séculos o estudo da anatomia humana.

Segundo Rasch & Burke (Cinesiologia e Anatomia Aplicada: A Ciência do Movimento Humano, Editora Guanabara Koogan S.A., Rio de Janeiro, 1977, p. 2), “antes do século XVIII poucos músculos tinham nomes: nas suas ilustrações, Galeno, médico da antiga Roma, usou números e Da Vinci letras”. Desta forma, a medicina marcou passo até atingir o alvará científico de que hoje goza, pese embora o seu avanço se ter ficado a dever, em grande parte, a cientistas de outros ramos do conhecimento, como Pasteur (1822-1895), no domínio da Biologia (microbiologia), e Marie Curie (1867-1934), no âmbito da Física (radioactividade).

Reforça este statu quo Lewis Thomas (1913-1993), médico norte-americano que diversificou a sua actividade entre os mundos da ciência e das humanidades, antigo presidente do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center. na vanguarda mundial do estudo e tratamento de doenças do foro oncológico. Escreveu ele:

“A história da medicina nunca foi assunto particularmente atraente no ensino médico e uma das razões é tratar-se de uma história deveras deplorável. Costuma situar-se a data do início da medicina moderna por meados dos anos 30. Com a entrada das sulfamidas e da penicilinas na farmacopeia é habitual atribuir-se a esses acontecimentos a força de uma revolução ma clínica médica (…) os médicos podiam curar doenças e isto era assombroso, sobretudo para os próprios médicos (descobriu-se, por alturas de 1830, que quase toda a medicina dessa época era um disparate (…) durante séculos, a medicina foi puro jogo de advinhas do mais grosseiro empirismo. É difícil imaginar tarefa menos científica entre as realizações humanas. É surpreendente que a profissão tenha sobrevivido tanto tempo e tenha suscitado tão poucos protestos. Quase todos pereciam prontos a deixar-se ludibriar”, etc.

Por seu turno, o médico e escritor Fernando Namora, em Retalhos da Vida de um Médico (1949), dá-nos conta do pouco cientismo da arte de curar do seu tempo, ao escrever: “Quando regressei à vila já ia preparado: soro, sulfamida, arsénico, iodo – a rotina de sempre”. Eu próprio em criança sofri as torturas das papas de linhaça, os vómitos do óleo de rícino, os calores do algodão iodado e, não sei mesmo, se a sucção das ventosas, pequenos frascos de vidro de boca larga que hoje teriam a utilidade de boiões de iogurtes.

Mas do mal o menos! Das sanguessugas que, ao que se dizia, nos chupavam os humores perniciosos do sangue me livrei eu, graças a Deus. Mas, apesar de todo este tormentoso arsenal de “curas milagrosas”, muitas vezes, com efeito de placebo, continuo a comungar da opinião de Proust (1871-1922): “Crer na Medicina é suprema loucura, se não crer nela não fosse loucura maior”. E ele sabia do que falava por experiência própria de uma saúde frágil desde a infância com crises constantes de asma.

Quiçá este reviver de tempos chegados na vida da história da Medicina refreie ímpetos de descrença nos caminhos científicos da actividade física por a filosofia de René Descartes ainda muito pesar na tradição cultural do mundo ocidental (o historiador Robert Aron chega mesmo a responsabilizar a demasiada assimilação do cartesianismo pela actual fraqueza do Ocidente), dando azo à promíscua recordação de esplêndidas bestas em que um corpo musculado e de boa saúde era tido como a renúncia das coisas do espírito que muitas boas almas ainda hoje associam a franzina compleição física, a pálida tez ou, quando não mesmo, a um romântico tossicar de bacilo de Koch.

Mas teve este país como triste fado ser a pátria envergonhada de uma raça enfezada, de corpos enfermiços ou do fluir de sangue anémico nas veias?

Para o historiador João de Barros, o Vice-rei Afonso de Albuquerque era “fragueiro e pouco mimoso na sua pessoa, só se lançando na cama quando mais não podia"; e o Infante D. Henrique “tinha largos ombros e fortes membros acompanhados de carne, a cor da qual era branca e corada que bem demonstrava a boa compleição de humores”. De Luís de Camões, que viria a ser respeitável entre aqueles que ele próprio cantou como personagens que “por obras valorosas da lei da morte se vão libertando”, chega-nos o testemunho da sua força e coragem físicas por façanhas de que muito se orgulhava, dizendo só ser vulnerável pelas solas dos pé, e que essas ninguém lhas vira ou as havia de ver!

Ao serviço da coroa e da grei, foram eles exemplos duma perfeita harmonia entre corpos sãos em mentes sãs, de que nos fala Juvenal em uma das suas Sátiras. Pelo contrário, em nossos dias, em que surgem cada vez mais doenças apelidadas de hipocinéticas (originadas pelas longas horas de sedentarismo passadas frente à televisão e computadores) do foro reumático e cardiovasculares, diabetes, obesidade, em estranho e funesto paradoxo, a ginástica tida por Ramalho Ortigão como uma”alta e grave questão de sobrevivência nacional”, não parece suficiente para mudar a opinião de pessoas amputadas na sua cultura, por uma perspectiva mutilada e mutilante do homem completo.

E isto é tanto mais de estranhar numa época que se rendeu ao bronzeamento como moda estival, à ginástica como cinzel de corpos esbeltos e bem musculados, aos Jogos Olímpicos da era moderna com as suas estátuas em movimento no alcance de horizontes de “Citius, Altis, Fortis”. Por outro lado, a documentada influência da disciplina da Educação Física escolar num melhor rendimento das disciplinas ditas intelectuais deveria ter desfocado e amarelecido o retrato de uma sociedade em que o corpo continua a viver os resquícios de uma coisa tolerada.

Mas, seja como for, as promissoras conquistas científicas do nosso tempo deram carta de alforria e estatuto universitário às actividades corporais permitindo-lhes encontrar respaldo para parafrasear Proust: Crer nos benefícios da prática do exercício físico (decretados pela própria Organização Mundial de Saúde) pode ser suprema loucura se não crer neles não fosse loucura maior.

Empédocles, Anaxágoras e os Atomistas

Na próxima quarta-feira, dia 14 de Abril, realizar-se-á, às 18h00 no foyer do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, a quinta sessão das Tertúlias, dedicadas a Empédocles, Anaxágoras e os Atomistas.

Empédocles, nascido na cidade de Agrigento na Magna Grécia, é o filósofo pré-socrático com o mais extenso corpus sobrevivente - mais de 450 versos. A ele devemos a ideia dos quatro elementos - Ar, Fogo, Água, e Terra , que se combinam movidos por forças de amor ou de ódio para formar o universo.

Anaxágoras, o primeiro filósofo ateniense, substitui esses quatro elementos por outros, de número infinito, que também por sua vez constituem, por obra de um intelecto regulador (o nous), todas as coisas do mundo.

Demócrito e os atomistas por sua vez pegaram nesta ideia de multiplicidade e teorizaram que o mundo consistiria em dois elementos fundamentais: o átomo, que quer dizer indivisível, e o vazio, espaço onde a combinação de todos os átomos acontece.

A relevância das teorias destes pensadores é clara: A ciência moderna recuperou a ideia do “átomo”, apesar de no século XIX-XX se descobrir que afinal ele era divisível, justificando assim a teorização física dos pré-socráticos.

A tertúlia contará com a grata presença do Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, com encenação duma cena d'A Morte de Empédocles, de Hölderlin.

A entrada é livre (por razões logísticas, esta sessão será rigorosamente pontual).

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Tudo água!


Foram ontem apresentados na Assembleia da República vários projectos de lei (do CDS-PP, BE e PCP) no âmbito das condições de trabalho dos bolseiros de investigação científica. Podem ser consultados aqui:

Para além da questão do aumento extraordinário das bolsas (que não são actualizadas desde 2002), estava em cima da mesa a integração dos bolseiros de investigação no regime geral de segurança social (actualmente estão integrados no Seguro Social Voluntário, o que significa por exemplo, que se ficarem doentes receberão uma fracção do salário mínimo durante a baixa, independentemente do valor da bolsa e não têm direito a subsidio de desemprego).

Foram todos chumbados com a abstenção do PSD e votos contra do PS. Se a questão do aumento das bolsas se poderá entender numa perspectiva circunstancial (embora estejamos a falar de valores que não são aumentados há oito anos), o chumbo da integração dos bolseiros no regime geral de segurança social é incompreensível. Para mais, que consta do próprio programa de governo do PS.

CORRECÇÃO: Afinal os projectos não foram todos chumbados, apenas os referentes ao aumento dos valores das bolsas (o sítio da AR é um pouco confuso, as minhas desculpas, pois apenas verifiquei que não estavam na lista dos projectos-lei aprovados). Passo a transcrever parte de um comunidado da direcção da Associação dos Bolseiros de Investigação, que faz o correcto balanço das iniciativas legislativas em questão:
"Ontem foram chumbados todos os projectos para a actualizaçao extraordinária das bolsas e fez-se a discussão política dos projectos para alteração do EBI [Estatuto do Bolseiro de Investigação]. Toda as alterações de legislação laboral têm de passar por um período de Consulta Pública de 30 dias, em que são ouvidas as organizações representativas dos trabalhadores, como os sindicatos, por exemplo, ou a ABIC. Quem define o início destes 30 dias é a Comissão do Trabalho, que ainda não reuniu. (Luisa Mota, Presidente da ABIC)"
Os projectos para alteração do Estatuto do Bolseiro de Investigação em discussão pública são:

UM FALSO CAMÕES


Minha crónica no Público de hoje:

“Os filósofos grandes, com ciência
E incansável indústria, que alcançara,
Das coisas naturais a própria essência,
E todas altamente especularam,
Nenhuma de mais alta arte e excelência
Entre todas, que o corpo humano, acharam:
De forma, e de matéria um só composto
Com tamanho primor feito e composto.”


No ano de 1615, saía em Lisboa do prelo de Pedro Craesbeck (um tipógrafo que tinha vindo de Antuérpia em fuga às guerras religiosas) o poema Da criação e da composição do homem, atribuído ao “grande Luís de Camões, Príncipe da poesia heróica”. Mas era um falso Camões, por muito camoniana que pareça a oitava de decassílabos heróicos transcrita em cima (actualizou-se a grafia), extraída do segundo dos três cantos em que o poema se divide.

Houve logo quem percebesse que se tratava de um apócrifo pois a própria primeira edição o revelava no prólogo. Mas, talvez porque o nome de Camões fosse um chamariz, o certo é que a confusão persistiu durante mais de dois séculos. Só em 1861 foi posta à venda uma edição, incompleta pois nem frontispício tinha (de facto, não passava de umas meras provas), contendo o título verdadeiro: Microcosmosmografia e descrição do mundo pequeno que é o homem. Mas quem é o autor que durante tantos anos foi tomado pelo nosso maior vate?

Acaba de ser publicado pela Colibri o livro Obras de André Falcão de Resende, numa edição crítica da italiana Barbara Spaggiari. Trata-se de um portentoso trabalho, que exigiu muitos anos de investigação minuciosa. Falcão de Resende foi não só contemporâneo de Camões como seu amigo e admirador. Nasceu em Évora, em 1527, e faleceu em Lisboa, em 1599. Curiosamente, Filipe II, o rei de Portugal e de Espanha, nasceu no mesmo ano que ele e morreu apenas um ano antes. O último poema de Falcão de Resende, que, tal como tantos outros intelectuais da época, defendeu o monarca dual, data precisamente de 1598 e, por ironia mórbida, glosa o tema da peste, que na altura assolou a Península, e que só em Portugal causou cerca de oitenta mil mortos, incluindo o próprio poeta.

Falcão de Resende inspirou-se decerto em Camões para escrever a Microcosmografia, que um crítico considerou um “poema alegórico anatómico-cirúrgico” pois toma o corpo humano como imagem de todo o cosmos. Camões já tinha usado o corpo como metáfora geográfica (“Eis aqui quase cume da cabeça/ de Europa toda o Reino lusitano”), mas o seu amigo de Évora, um dos poucos que em vida lhe reconheceram o génio, foi mais longe na escala física, embora sem a mesma qualidade literária. Os dois foram grandes humanistas, tal como o tio do segundo, Garcia de Resende, o bem conhecido compilador do Cancioneiro Geral.

Falcão de Resende, tendo seguido uma carreira eclesiástica, chegou a capelão do Cardeal D. Henrique, mas abdicou dela para casar e ter vários filhos (nenhum dos quais lhe sobreviveu). Já quarentão, voltou aos bancos da Universidade de Coimbra para cursar Cânones e conseguir chegar a juiz de fora em Torres Vedras. Foi aí que, em 1589, assistiu à passagem do corsário Sir Francis Drake, desembarcado em Peniche (com uma facilidade que originou a expressão “amigos de Peniche”), na tentativa frustada de ajudar o Prior do Crato a tomar Lisboa. O livro agora publicado está, contudo, amputado de parte de uma pormenorizada descrição dessa invasão inglesa... Em 1800, numa farmácia de Guimarães, o manuscrito apógrafo feito por um anónimo para reunir toda a obra de Falcão de Resende, logo após a morte deste, foi, por um incrível acaso, resgatado de embrulhar pós medicinais, quando um cliente reparou que era um pedaço da história de Portugal que estava a ser rasgado. Está desde então à guarda da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, à espera que um mecenas permita o necessário restauro (existe um fac-simile digital na Web). Foi a esse manuscrito e a uma cópia oitocentista dele, devida a um revisor da Imprensa da Universidade, o Sr. Freitas, que a Prof.ª Spaggiari dedicou uma boa parte da sua vida, para nossa ilustração e proveito. Muito obrigado!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Newton e a Lua


Excerto do meu livro "Física Divertida", que se encontra em 7.ª edição na Gradiva:

Existem em física muitas histórias tão lendárias como a da queda das pedras na Torre de Pisa. Uma das lendas mais famosas é a da maçã de Newton, que, ao que parece, foi inventada pelo próprio para assegurar a prioridade da sua descoberta da gravitação universal.

Isaac Newton teve um dia de se refugiar na sua região natal de Lincolnshire, no coração de Inglaterra (tinha-se declarado a peste - a SIDA daquela época - na cidade universitária de Cambridge, e era melhor proteger-se no isolamento no campo). Estava Newton sentado debaixo de uma macieira, talvez a amadurecer as suas ideias, quando lhe caiu inopinadamente uma maçã em cima da cabeça. Certamente que a maçã estava demasiado madura. Ao mesmo tempo, a Lua brilhava poeticamente nos céus. Fez-se então luz no espírito de Newton, que compreendeu nesse preciso momento (quando balbuciou "aha!") que a força causadora da queda da maçã na sua cabeça era do mesmo tipo da que fazia a Lua mover-se em volta da Terra.

Nascia assim a física, tal como hoje a conhecemos, como uma tentativa de unificar vários fenómenos naturais aparentemente distintos. Pergunta: porque é que a Lua não caiu na cabeça de Newton? Ou melhor, para tornar a questão mais interessante e actual, porque é que a Lua não cai nas nossas cabeças?

Em primeiro lugar, é oportuno um comentário para expressar satisfação: ainda bem que a Lua não caiu porque nesse caso teria sido não apenas o princípio mas também o fim da física. Newton criou a física nesse instante de inspiração, em que a maçã lhe fez compreender que os fenómenos do céu eram regidos pelas mesmas leis que os fenómenos da Terra. A física começou pois com uma maçã, à semelhança do pecado que, segundo o relato bíblico, começou também com uma maçã. A lenda só não conta se Newton comeu a sua maçã tal como Adão...

O facto de a Lua não cair nas nossas cabeças explica-se facilmente invocando as condições iniciais. O movimento de um qualquer objecto é determinado, como já foi referido, não apenas pela força que sobre ele actua, mas também pelas condições no início do movimento. E a Lua é um objecto como outro qualquer: como uma pedra, uma galinha, uma pena, uma bola, uma bomba ou até uma maçã.

Não há nada como uma analogia, mesmo que grosseira, para entender a situação: se dermos uma palmada nas costas a alguém, duas coisas podem acontecer, conforme a "condição inicial" da pessoa que foi importunada. Ou a pessoa está bem disposta (a sua "condição inicial" é estar bem disposta), e não responde, limitando-se a sorrir. Ou está mal disposta (a sua "condição inicial" é estar chateada) e responde com outra palmada de volta. Uma força igual teve portanto efeitos diferentes...

Analogamente, a força da gravidade sobre a Lua pode fazê-la cair apressadamente nas nossas cabeças ou fazê-la girar tranquilamente à volta da Terra. Ninguém sabe muito bem como é que a Lua surgiu. Quando a humanidade apareceu já a Lua cá estava... Hoje em dia, cada cabeça científica escolhe a sentença mais convincente. Existem três hipóteses clássicas. Há quem diga que a Lua foi companheira da Terra, desde os mais remotos primórdios do sistema solar. Há quem diga que uma parte da Terra (talvez onde é hoje o Oceano Pacífico) se separou a certa altura para formar a Lua. E há até quem afirme que a Lua foi um corpo estranho que colidiu com uma Terra existente anteriormente.

As amostras de rochas lunares trazidas pelos astronautas norte-americanos foram datadas com suficiente rigor, usando a radioactividade natural. As mais velhas têm cerca de 4 mil milhões de anos. Sabe-se hoje que a Lua tem aproximada¬mente a idade da Terra, cerca de 4,5 mil milhões de anos, remontando ambas às origens do sistema solar (quer isto dizer que o Sol tem também, mais ou menos, essa idade). Contudo, a Terra e a Lua nem sempre foram vizinhas como são hoje. A teoria actualmente mais plausível é a indicada pela terceira hipótese. A Lua teria resultado de um violento choque da Terra com um astro vindo de fora, ficando os dois corpos a mover-se nas órbitas que hoje conhece¬mos. Embora não se saiba muito sobre o início da Lua, sabe-se de certeza uma coisa: a Lua teve uma condição inicial que a levou a permanecer em órbita da Terra desde há vários milhões de anos. Teve pois uma condição inicial "feliz". Há planetas que têm condições iniciais "infelizes", porque acabam por colidir e desaparecer. E há outros que sobrevivem. A Lua teve uma condição inicial que a levou a sobreviver, mantendo-se em órbita em torno da Terra.

O que aconteceria se um ser, muito poderoso, parado, pegas¬se na Lua e depois simplesmente a largasse? Não existem dúvidas: então a Lua cairia mesmo sobre a Terra. É um problema simples de física (embora alguns estudantes de física geral o achem complicado) calcular quanto tempo é que a Lua demoraria a cair sobre as nossas inteligentes cabeças. Podemos imaginar uma macieira gigantesca, cujos frutos sejam luas. Se o pé da nossa Lua cedesse (no caso, a macieira tem um único fruto, mas há planetas com muitas luas, como Saturno, que tem pelo menos 18), ela cairia, madura, sobre a Terra.

Newton considerou o movimento de um projéctil para várias condições iniciais (o projéctil tanto pode ser um obus de um canhão como uma maçã). Esses desenhos mostram como é que se "transforma" uma maçã numa Lua. É simples. Em vez de se esperar que a maçã caia de podre, dá-se-lhe um pipa¬rote, comunicando-lhe uma pequena velocidade inicial na horizontal. Então a maçã já não cai na cabeça de Newton mas um pouco à frente do respectivo nariz. Se se transmitir à maçã um impulso ainda maior, ela cai ainda mais longe, uns metros à frente de Newton. Dispare-se a maçã com uma boa espingarda (se se conseguir arranjar uma espingarda de disparar maçãs), que ela vai eventualmente cair meio quilómetro à frente (um bocadinho chamuscada pelo tiro, mas cai). Lance-se depois um foguete de mandar maçãs e a maçã pode muito bem, já que a Terra é redonda, dar a volta à Terra e voltar por detrás de Newton. Regressa ao ponto de partida com a mesma velocidade inicial. Esse fenómeno é possível em princípio mas impossível na prática em virtude da resistência do ar, das montanhas da Terra, etc. Suponhamos, portanto, uma situação ideal. O pobre Newton veria, atónito, a maçã aparecer-lhe por detrás...

É um exercício de física geral, que costuma sair nos exames, saber qual tem de ser a velocidade inicial para a maçã ficar em órbita circular e quanto tempo é que a maçã demora a dar uma volta completa. A resposta à primeira pergunta é 8 km/s - a maçã teria de ser muito mais rápida do que uma bala, pelo que não há espingardas capazes de a disparar assim tão rápida; a resposta à segunda questão é 1 h 23 m. Por vezes, sai nos exames um exercício um pouco diferente (e, portanto, um pouco parecido!) que consiste em saber qual é a velocidade da nossa Lua e quanto tempo demora a dar uma volta completa. As respostas são respectivamente 1 km/s, ou se se preferir 3600 km/h - que é, como vimos, a velocidade de uma bala- , e 28 dias - um mês). A Lua corre, veloz como uma bala, em torno da Terra.

Se a maçã ficasse em órbita, a Lua teria ganho uma companheira, isto é, passariam a existir dois satélites em volta do nosso planeta. Uma minhoca dentro da maçã (as maçãs podres têm minhocas, como toda a gente sabe) seria assim a primeira minhoca astronauta... A Terra teria assim duas luas (de facto, já tem muitas luas artificiais: os satélites de comunicações são uma espécie de maçãs que se lançaram no espaço). Do ponto de vista da mecânica de Newton, a única diferença entre a Lua e a maçã é o raio da respectiva órbita circular e portanto a velocidade de revolução - os corpos em órbita mais perto da Terra andam com maior velocidade e têm um menor período (o período é o tempo que um objecto demora a dar uma volta completa). A Lua não é mais do que uma maçã grande, que está a "cair" sobre a Terra, de uma maneira muito peculiar. Dizemos que cai, porque, se não existisse a Terra, a Lua iria em frente, em linha recta (despreza-se para o caso a acção dos outros corpos do sistema solar). Mas cai pouco: cai só 1,5 mm em cada quilómetro percorrido. Podemos também dizer que demora um tempo infinito a cair e que, portanto, nunca chega de todo a cair na Terra. Não há razões para ter medo da queda da Lua.

Newton mostrou que a força entre Terra e Lua ou entre maçã e Terra varia na razão inversa do quadrado da distância. Deduziu isso no seu livro "Princípios Matemáticos de Filosofia Natural", publicado há cerca de trezentos anos. É essa expressão matemática que garante a estabilidade da órbita, tanto à maçã como à Lua. Pode mostrar-se que, se a força variasse com o inverso do cubo da distância, a Lua descreveria uma espiral, acabando mesmo por cair sobre a Terra. Mas, antes disso, já teria caído a Terra sobre o Sol. O sistema solar aguenta-se, no seu conjunto, porque a força é inversamente proporcional ao quadrado da distância.

Recentemente, tem-se discutido bastante a possibilidade de os corpos em queda não obedecerem exactamente à lei da gravitação universal de Newton. A chamada "quinta força" poderia introduzir pequenas modificações à descrição newtoniana da queda. Voltaram, por isso, a ser realizadas experiências de queda de objectos. Houve quem deixasse cair graves de torres especiais, com cerca de 500 m de altura, não obtendo qualquer evidência para uma gravitação não newtoniana. As antigas ideias de Newton continuam assim a ser modernas.

GASTRONOMIA NOBEL

Um livro interessante para os amantes da boa cozinha e da boa ciência que vai sair em Maio na World Scientific:

THE NOBEL BANQUETS
A century of culinary history (1901-2001)
by Ulrica Soderlind (Stockholm University, Sweden)
Translated from the Swedish by Michael Knight

The Nobel Banquets is not about Alfred Nobel's personal dining habits; it is about his "gift to mankind" — the five original Nobel Prizes and the festivities that are arranged every year to celebrate them.

There is hardly any other banquet in the world that is as famous as the Nobel Banquet which many would give a fortune to attend. It is held on December 10 in Stockholm every year. Countless articles and books have been written describing what the guests eat and drink, the table decorations and the serving ceremonies, the placing lists and of course the Nobel laureates themselves.

This comprehensive book presents not only all the known facts about the Nobel banquet menus but also many unknown details, both about the Nobel Banquets themselves and about the traditional banquets held at the Royal Court by the King and Queen of Sweden on December 11 in honour of the laureates.

The main focus is on the food and drink that have been served annually for more than a century. The gastronomic man is at the centre. The composition and contents of each banquet are listed and analysed. Today, the guiding principle is that the menus should have a touch of Scandinavia. The reader is given interesting insights into the work in the kitchens, the decanting of the wines and the special challenges that the waiters and waitresses face.

The Nobel Banquets contains many photographs. It is a goldmine for gourmets and for anyone interested in knowing more about all the effort that goes into these fabulous festivities.

Contents:

* The Nobel Prizes: Background
* Gastronomic Man
* A Gastronomic Mix
* The Nobel Banquets
* The Nobel Menus, 1901-2007
* Good Food — Good Conversation
* Appendices

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O caso Galileu: os Factos, os Documentos, a Polémica


Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:

O caso Galileu: os Factos, os Documentos, a Polémica

HENRIQUE LEITÃO
Centro de História das Ciências Universidade de Lisboa
Curso de Formação
22 a 30 de Abril

O Ano Internacional da Astronomia comemorou os 400 anos das primeiras observações astronómicas feitas por Galileu. Estas observações conduziram a descobertas científicas notáveis, já que Galileu teve a oportunidade de observar, pela primeira vez na história da humanidade, as fases de Vénus, os satélites de Júpiter, os anéis de Saturno, as crateras da Lua. Em Março de 1610, poucos meses depois das suas primeiras observações, Galileu publicava "Sidereus Nuncius", onde descreveu algumas das suas descobertas. Tratava-se da primeira obra científica de astronomia baseada em observações astronómicas realizadas com telescópio.

No curso "O caso Galileu: os factos, os documentos, a polémica", uma parceria Museu da Ciência e Nova Agora - CFAE que conta com o apoio do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, teremos a oportunidade de conhecer a vida de Galileu Galilei, o seu legado científico e o impacto das suas descobertas na cultura ocidental.

OBJECTIVOS
1. Familiarização com o contexto histórico-científico da ciência europeia no início do século XVII
2. Conhecimento das circunstâncias históricas em torno da vida e obra de Galileu
3. Tomada de conhecimento de documentação relativa ao «caso Galileu»
4. Participação em discussões em torno da interpretação da documentação estudada
5. Melhoria de conhecimentos científicos, astronómicos e de história das ideias relevantes no período da Revolução Científica

CONTEÚDOS
22 de Abril (17H00 - 20H00)
Objectivos do Curso. Bibliografia e materiais de apoio. Os Documentos.
O «caso Galileu» na cultura ocidental e na actualidade. Historiografia sobre Galileu e as diferentes tendências interpretativas sobre o «caso». Dados preliminares para o enquadramento das sessões: o contexto político-militar europeu; a situação política italiana; o Concílio de Trento, em especial a sessão IV. Biografia de Galileu.

24 de Abril (10H00 - 13H00)
A filosofia natural aristotélica e a descrição do mundo físico. A
astronomia de Ptolomeu. O livro de Copérnico. O prefácio de Osiander.
Instrumentalismo versus realismo nas teorias astronómicas. Reacções às ideias de Copérnico. O modelo de Tycho Brahe. Fase inicial da carreira de Galileu: avanços e recuos na sua adesão ao heliocentrismo.

28 de Abril (17H00 - 20H00)
As observações telescópicas de Galileu (1609-1611). O Sidereus Nuncius (1610). O cardeal Belarmino e os astrónomos jesuítas (Abr. 1611). Galileu recebido no colégio romano (Mai 1611). Ludovico delle Colombe e o argumento escrituristico (1610/11). A Carta a Castelli (1613). Carta de Belarmino a Foscarini (12 Abr 1615). Os acontecimentos de 1616: relatório da comissão de teólogos; encontro com Bellarmino; injunção especial; édito da Congregação do Índice.

29 de Abril (17H00 - 20H00)
Análise dos acontecimentos de 1616 e seu impacto. Polémicas
científicas: as manchas solares e os cometas. O Il Saggiatore (1623).
O documento G3. A «meravigliosa congiuntura». Os seis encontros com o Papa; a resposta a Ingoli; A "prova" pelas marés. O Diálogo sobre os Máximos Sistemas (1632). O problema das licenças.

30 de Abril (17H00 - 20H00)
O relatório sobre o Dialogo. O processo contra Galileu. As deposições de Galileu (Abr.-Jun 1633). Negociações e tentativas de resolução. A sentença (22 Jun 1633). A abjuração. Uma reabilitação moderna?
Avaliação

DURAÇÃO: 15 horas presenciais

CRÉDITOS: 0,6 (Aplicável no caso dos professores, nos termos dos regulamentos do CCPFC).

VALOR DE INSCRIÇÃO
90 euros | Geral
70 euros | Professores
55 euros | Professores das escolas associadas do Nova Agora-CFAE e estudantes

DESTINATÁRIOS
- Professores de todas as áreas disciplinares dos 2.º e 3.º ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário
- Estudantes
- Público em geral

INSCRIÇÕES
- Professores: on line em www.cfagora.net
- Estudantes e público em geral: telefone ou e-mail através dos contactos do Museu da Ciência
As inscrições só serão consideradas válidas após efectuado o respectivo pagamento, no Museu da Ciência ou através do envio de cheque endossado ao Museu da Ciência, até ao final do prazo de inscrição.

PRAZO DE INSCRIÇÃO: até 16 de Abril

CRITÉRIO DE SELECÇÃO: ordem de inscrição

N.º LIMITE DE VAGAS: Professores: 20; Estudantes e público em geral: 15

AVALIAÇÃO: A Avaliação quantitativa dos formandos será expressa numa escala de 1 a 10 valores, com base nos seguintes parâmetros e ponderação:
- Participação (tendo em atenção a assiduidade, a qualidade das intervenções orais e a capacidade crítica) – 70 %
- Trabalho individual final (Pequeno teste final, de resposta desenvolvida, por escrito, a uma pergunta/tema, em
1 hora) – 30 %

LOCAL E CRONOGRAMA
Museu da Ciência da Universidade de Coimbra
22, 29 e 30 de Abril (17H00 - 20H00)
24 de Abril (10H00 - 13H00)

Ciência e Religião


Poster na Livraria Almedina Estádio de Coimbra relativo a uma sua campanha de promoção de livros sobre ciência e religião.

A Primavera “chegou” mais cedo?


Nova crónica de António Piedade:

Este ano, a Primavera começou no dia 20 de Março pelas 17h40. Mas não é certo e sabido que a Primavera começa sempre no dia 21? Então o que é que aconteceu para que esta estação se tenha antecipado algumas horas este ano? Estará a Terra a acelerar na sua viagem de translação à volta do Sol? Nada disso. Mas, para podermos perceber o fenómeno, precisamos de caracterizar o que é que determina o início da Primavera.

Em termos astronómicos, o inicio desta estação é definido pelo momento em que ocorre o equinócio boreal no hemisfério norte, ou o equinócio austral no hemisfério sul. A palavra equinócio provem das palavras latinas aequus (igual) e nox (noite), ou seja, significa noites iguais. Isto acontece quando a orbita aparente do Sol (isto é, o movimento aparente do Sol para um observador na Terra) cruza o plano que resulta da projecção do equador terrestre no horizonte celeste. Por outras palavras, refere-se aos momentos em que o dia e a noite têm a mesma duração, ou seja 12 horas. Ao longo de um ano terrestre, isto verifica-se duas vezes em cada hemisfério: no início da Primavera e no início do Outono. Note-se que estas estações ocorrem inversamente em cada hemisfério: o inicio da Primavera no hemisfério norte coincide com o início do Outono no hemisfério sul e vice-versa.

Para um mesmo hemisfério, no nosso caso o norte, os dois equinócios ocorrem exactamente em lados opostos da órbita da Terra à volta do Sol. Contudo, as datas em que acontecem não dividem o ano em partes iguais! Não é difícil calcular, a partir das datas médias verificadas para os equinócios e da duração média do ano (média porque temos de ter em conta os anos bissextos), que o equinócio da Primavera ocorre 179,25 dias depois do equinócio de Outono, e que este último se encontra 186 dias após a Primavera que o precede. Isto explica-se pelo facto de a orbita da Terra à volta do Sol ser elíptica e não circular, como sabemos desde 1609 graças a Kepler (curiosamente, Ptolomeu também identificou a desigualdade na duração das estações, mas tentou explicar a observação a partir de uma órbita circular não centrada na Terra ou contendo um epiciclo), e pelo facto de a Terra se encontrar mais próxima do Sol (o periélio) nos primeiros dias de Janeiro. Ora acontece que esta maior proximidade ao Sol, faz com que a velocidade angular da Terra nesta altura do ano seja a maior de toda a sua órbita e, tal como é predito pela segunda lei de Kepler, ela se mova mais rapidamente em direcção ao equinócio da Primavera do que quando se aproxima do equinócio de Outono, depois de passar pelo ponto em que o nosso planeta se encontra mais distante do Sol (o afélio, a 4 de Julho).

Acresce a isto que o período entre dois equinócios primaveris é cerca de 6 horas maior do que um ano comum (365 dias). Assim, a Primavera de um dado ano inicia-se 6 horas mais tarde do que a Primavera do ano comum anterior. Ao fim de 3 anos, verifica-se um adiantamento de cerca de 18 horas. Contudo, o acerto no calendário introduzido pelo ano bissexto, produz um atraso aparente de 6 horas. Ao longo de um mesmo século, o equinócio tende a ocorrer mais cedo até que ocorram acertos no calendário por sequência de 7 anos comuns. De facto, neste século só houve dois anos em que a Primavera ocorreu a 21 (2003 e 2007) e prevê-se que a mesma se inicie no dia 19 de Março em 2040.

António Piedade

terça-feira, 6 de abril de 2010

AS GRUTAS MAIS LONGAS DO MUNDO


Como não há duas sem três, eis o top ten final das cavidades subterrâneas, o das grutas mais longas. Só há, de facto, dez sistemas com um comprimento total de galerias superior a 100 quilómetros e a primeira, nos Estados Unidos da América, é de facto colossal: 591 km (esquema na figura)!

1 Mammoth Cave System, EUA (Kentucky) 590,629 km
2 Jewel Cave, EUA (South Dakota) 241,595 km
3 Optymistychna (Optimisticeskaja ), Ucrânia (Ternopil) 230,140 km
4 Wind Cave, EUA (South Dakota) 214,429 km
5 Lechuguilla Cave, EUA (New Mexico) 206,946 km
6 Hoelloch, Suíça (Schwiz) 195,914 km
7 Fisher Ridge Cave System, EUA (Kentucky) 182,067 km
8 Sistema Ox Bel Ha, México (Quintana Roo) 180,038 km, o maior sistema subaquático do mundo
9 Sistema Sac Actun (Nohoch Nah Chich) México (Quintana Roo)175,721 km
10 The Clearwater System (Gua Air Jernih), Malásia (Sarawak) 175,664 km

OS POÇOS MAIS PROFUNDOS DO MUNDO

O poço do México no filme anterior, apesar dos seus quase 400 m de profundidade, não é o mais profundo do mundo (poços naturais entenda-se). Esta é a lista actual dos maiores poços directos, sem ressaltos, em grutas. Desta vez a Eslovénia ganha, o que significa que países pequenos podem ter recordes geográficos:

1 Vrtoglavica, Eslovénia, 603 metros
2 Patkov gust, Croácia, 553
3 Da Keng, China, 519
4 Lukina jama, Croácia, 516
5 Velebita, Croácia, 513
6 Brezno pod velbom, Eslovénia, 501
7 Miao Keng, China, 491
8 Melkboden-Eishohle, Áustria, 451
9 Hollenhohle Hades, Áustria, 450
10 Baiyu Dong, China, 424

SALTOS NO ESCURO



Do espaço para a terra. Início de um documentário da BBC com saltos de páraquedas num poço de 400 m de uma gruta, Sotano de las Golondrinas, na floresta tropical do México (região de San Luis Potosí), com David Attenborough.

AS GRUTAS MAIS PROFUNDAS DO MUNDO

Quando era mais novo compilei lista de cavidades subterrâneas mais profundas e mais longas que publiquei num boletim a stencil ("A Gruta"). Já há muito tempo que não ia ver o progresso neste recorde mundial de profundidade humana. Agora, com a ajuda da Internet (que na altura estava ainda por aparecer) encontrei um recente top ten das grutas mais profundas do mundo. A maior, na Geórgia, tem um desnível de 2191 m: é a única com mais de 2 km, que é a altitude aproximada do cume da Serra da Estrela. As dez que aqui se indicam são até à data as únicas com mais de 1,5 km de desnível. A Geórgia tem quatro grutas na lista, ao passo que a espanha tem duas:

1 Krubera (Voronja) Cave, Geórgia (Abkhazia) 2191 m
2 Illyuzia-Mezhonnogo-Snezhnaya, Geórgia (Abkhazia) 1753 m
3 Lamprechtsofen Vogelschacht Weg Schacht, Áustria (Salzburg) 1632 m
4 Gouffre Mirolda / Lucien Bouclier, França (Haute Savoie) 1626 m
5 Reseau Jean Bernard, França (Haute Savoie) 1602 m
6 Torca del Cerro del Cuevon (T.33)- Torca de las Saxifragas, Espanha (Asturias), 1589 m
7 Sarma, Georgia (Abkhazia) 1543 m
8 Shakta Vjacheslav Pantjukhina, Geórgia (Abkhazia) 1508 m
9 Sima de la Cornisa - Torca Magali, Espanha (Leon) 1507 m
10 Cehi 2, Eslovenia (Julian Alps) 1502 m

ESTE É UM CAMINHO QUE A ESCOLA PÚBLICA NÃO PODE RECUPERAR

Compare-se a letra inequívoca da Lei com a fotografia (muitíssimo perspicaz) de Tiago Miranda. O título da notícia (ver aqui ) alude ao ...