Conversa recente sobre o julgamento de Galileu Galileu, fez-me recordar o início do 1.º Capítulo de um livro escrito por Claude Alegre - Deus face à Ciência -, publicado no ano de 1997 em França, e no ano seguinte em Portugal, pela mão sempre atenta da Gradiva. Partilho essa passagem com os leitores do De Rerum Natura pelo interesse que poderá ter na revisão de mito associado a este grande cientista e pensador.
"A 22 de Junho de 1633, Galileu Galilei, de 69 anos de idade, vestido com o hábito branco dos penitentes, entra na grande sala do Convento de Minerva, em Roma. Vai comparecer, a pedido expresso e urgente do papa Urbano VIII, diante do tribunal inquisitorial da Congregação do Santo Ofício, composto por dez cardeais designados para o efeito.
Comparecer é uma força de expressão, em temos da língua actual, já que ele terá de se contentar com escutar a sentença, sem debate preliminar. Durante seis meses é mantido «prisioneiro» em Roma. Enquanto lhe sugerem que se retrate, os subalternos da Inquisição recusam-lhe que veja o papa, de quem tinha sido amigo, ou mesmo qualquer cardeal. Privam-nos do contacto com os colegas mais queridos. Zanga-se, respinga, exige um debate contraditório com os seus acusadores mas em vão. Permanecerá na ignorância do que se trama contra ele e que decidirá a sua sorte. Não verá os seus julgadores antes de 22 de Junho, não terá um verdadeiro processo e, portanto, não terá ocasião de exibir essa maravilhosa inteligência que teria seduzido, subjugado mesmo, tantos eclesiásticos havia mais de trinta anos.
Ei-lo agora diante do tribunal da Inquisição. Ajoelhado, escuta, tenso pálido, silencioso, a espantosa declaração, aquela declaração supostamente escrita por ele, mas de que, na realidade, toma conhecimento pela primeira vez enquanto é lida por outro.
Eu, Galileu Galilei, filho do falecido Vincenzo Galilei, de Florença, de 69 anos de idade, comparecendo em pessoa perante este tribunal, ajoelhado diante de vós, mui eminentes e reverendíssimos cardeais grandes inquisidores de toda a cristandade contra a perversidade herética, os olhos postos sobre os mui Santos Evangelhos, que toco com as minhas próprias mãos:
Juro que sempre acreditei, que acredito neste momento e que, com a graça de Deus, continuarei a acreditar no futuro e tudo quanto a Santa Igreja católica, apostólica e romana tem por verdadeiro, prega e ensina.
Mas, em virtude de o Santo Ofício me ter notificado de que não acredita na falsa opinião de que o Sol está no centro do mundo e é imóvel e que a terra não é o centro do mundo e se move e de que não mantém, nem defende, nem ensina, quer oralmente, quer por escrito, esta falsa doutrina, em virtude de ter sido notificado de que a dita doutrina era contrária às Sagradas Escrituras; em virtude de ter escrito e ter mandado imprimir um livro no qual exponho esta doutrina condenada, apresentando em seu favor uma argumentação muito convincente, sem apostar qualquer solução definitiva; tornei-me por este facto fortemente suspeito de heresia, isto é, de ter mantido e acreditado que o Sol está no centro do mundo e é imóvel e que a Terra não está no centro e se move.
Por este facto, e querendo apagar do espírito de VV. Eminências e de qualquer cristão fiel esta suspeita veemente a justo título concebida contra mim, abjuro e maldigo de coração sincero e com fé não simulada os erros e as heresias supracitadas e, em geral, qualquer outro erro, heresia e empreendimento contrários à Santa Igreja; juro, no futuro, jamais dizer ou afirmar de viva voz ou por escrito seja o que for que permita haver de mim semelhante suspeita e, se por acaso vier a encontrar um hierático ou tido como tal, denunciá-lo-ei a este Santo Ofício, ao inquisidor ou ao prelado da diocese onde resido.Juro também e prometo cumprir e observar estritamente as penitências que me foram ou vierem a ser-me impostas por este Santo Ofício; e, se desobedecer, que o não queira Deus, a uma das minhas promessas e juras, submeto-me a todas as penas e castigos que são impostos e promulgados pelos sagrados cânones e pelas outras constituições gerais e particulares contra semelhantes delinquentes. Com a ajuda de Deus e dos Santos Evangelhos, que toco com as minhas mãos.
Eu Galileu Galilei, abaixo assinado, reneguei, jurei, prometi e comprometi-me como acima ficou dito; em fé do que, para atestar a verdade com a minha própria mão, assinei a presente cédula da minha abjuração e recitei-a, palavra por palavra, em Roma no Convento de Minerva, a 22 de Junho de 1633.
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Atordoado por um julgamento de cuja celeridade e rigor não tinha suspeitado, ele assina, sem uma palavra. Depois, lentamente, deixa estes lugares, curvado, vacilante, como que quebrado para sempre, quebrado nesse imenso orgulho que lhe tinha permitido dominar a Itália intelectual durante os últimos trinta anos. Mais tarde tomara conhecimento de que o sobrinho do papa se contava entre os três cardeais que se opunham à sentença, mas neste momento está quebrado pela mudança de parecer daquele que fora durante mais de dez anos o seu protector, o seu amigo papa Urbano VIII, que ele acreditara poder desafiar impunemente.
Enquanto se retirava lentamente para a sua casa de Florença, condenado à reclusão doméstica, a nova espalha-se pela Europa como um rastilho de pólvora. Descartes, assustado, suspendeu a publicação do seu livro consagrado à explicação do mundo, os protestantes, contentíssimos, deram a voz e a palavra escrita aos seus cientistas, recolocaram em lugar de honra os trabalhos escritos do mais respeitado de entre eles, Kepler, o matemático imperial falecido em 1630.Sábio respeitado e admirado, Galileu transformou-se de um dia para o outro em mártir. Entrou na lenda dos séculos, erigido em símbolo eterno da verdade face à vaidade, da liberdade de pensamento face à censura, da luminosa ciência face à obscura crença. O seu processo, dado como exemplo, marcou para sempre a Santa Igreja católica com o selo da intolerância e do obscurantismo.
O seu processo, resumido pela famosa expressão epuur, si muove! (que Galileu, sem dúvida, nunca pronunciou), é dado como exemplo da denegação da justiça. Contudo, nada teríamos compreendido da complexidade das relações que desde há sete séculos se entretecem entre a Igreja católica e a ciência se nos contentássemos com a simples exposição deste acontecimento.O processo de Galileu é certamente um processo intentado por uma crença a uma ciência, por um obscurantismo dogmático a um autêntico génio intelectual, mas é também o de um homem de ciência cuja arrogância desesperou uma fracção da Igreja que, no entanto, estava disposta a mostrar-se tolerante, antes de exasperar o papa, aliás seu amigo sincero.
O processo de Galileu foi também uma arma, entre outras, utilizada pelo papa para fazer face ao crescimento do protestantismo, encorajado secretamente por Richelieu, primeiro-ministro de França, antes de ser cardeal da Igreja, tendo Urbano VIII tentado restabelecer por uma sanção religiosa espectacular uma autoridade espiritual e temporal muito enfraquecida.
A partir deste processo trata-se, pois, de determinar a posição das grandes correntes de pensamento da cristandade em face do progresso científico, atitudes ambíguas, ondulantes, variáveis, frequentemente ligadas mais a considerações de ordem política do que de ordem religiosa.”