quinta-feira, 23 de abril de 2009

O princípio de uma grande biblioteca/ editora

Um dia depois de ter sido lançada a Biblioteca Digital Mundial foi ontem apresentada ao público na Biblioteca da Universidade de Coimbra, a biblioteca/editora online CLASSICA DIGITALIA - VNIVERSITATIS CONIMBRIGENSIS que visa ser um grande espaço de difusão da cultura científica para a área dos Estudos Clássicos.

Trata-se de um biblioteca/editora que “estará receptiva a colaborações de toda a comunidade académica, dando especial atenção à criação de sinergias dentro do espaço lusófono. A política de publicações é definida pelo conselho editorial e a qualidade dos trabalhos é controlada pela arbitragem de uma equipa internacional de especialistas. As colaborações podem cobrir um leque variado de temas e perspectivas de abordagem (literatura, cultura, história antiga, arqueologia, história da arte, filosofia), mantendo embora como denominador comum os Estudos Clássicos e sua projecção na Idade Média, Renascimento e recepção na actualidade. Todos os títulos editados em CLASSICA DIGITALIA são também publicados em formato de livro impresso.”

Até ao momento foram publicados onze volumes em duas colecções: Colecção Autores Gregos e Latinos, composta por duas séries – Textos e Ensaios – e Colecção Humanitas Supplementum (Estudos).

Esses volumes são os seguintes:

Volumes publicados na Colecção Autores Gregos e Latinos ‑ Série Textos

Delfim F. Leão e Maria do Céu Fialho: Plutarco. Vidas Paralelas – Teseu e Rómulo. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2008). 187 p.

Delfim F. Leão: Plutarco. Obras Morais – O banquete dos Sete Sábios. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2008). 131 p.

Ana Elias Pinheiro: Xenofonte: Banquete, Apologia de Sócrates. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2008). 119 p.

Carlos de Jesus, José Luís Brandão, Martinho Soares, Rodolfo Lopes: Plutarco: Obras Morais – No Banquete I – Livros I-IV. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2008), coordenação de José Ribeiro Ferreira. 256 p.

Joaquim Pinheiro: Plutarco. Obras Morais – Da educação das crianças. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2008). 75 p.

Ana Elias Pinheiro: Xenofonte. Memoráveis. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2009). 289 p.

Volumes publicados na Colecção Autores Gregos e Latinos ‑ Série Ensaios

Carmen Soares, José Ribeiro Ferreira e Maria do Céu Fialho: Ética e Paideia em Plutarco (Coimbra, CECH, 2008). 126 p.

Joaquim Pinheiro, José Ribeiro Ferreira e Rita Marnoto: Caminhos de Plutarco na Europa (Coimbra, CECH, 2008). 133 p.

Cláudia Teixeira, Delfim F. Leão e Paulo Sérgio Ferreira: The Satyricon of Petronius: Genre, Wandering and Style (Coimbra, CECH, 2008). 137 p.

Volumes publicados na Colecção “Humanitas Supplementum” (Estudos)

Francisco de Oliveira, Cláudia Teixeira e Paula Barata Dias: Espaços e Paisagens. Antiguidade Clássica e Heranças Contemporâneas. Vol. 1 - Línguas e Literaturas. Grécia e Roma (Coimbra, CECH, 2009). 288 p.

Francisco de Oliveira, Cláudia Teixeira e Paula Barata Dias: Espaços e Paisagens. Antiguidade Clássica e Heranças Contemporâneas. Vol. 2 - Línguas e Literaturas. Idade Média. Renascimento. Recepção (Coimbra, CECH, 2009). 199 p.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Wikiversidade dá que falar

Já tem alguns anos, mas só agora começou a dar que falar, à medida que começou a sua expansão. É a nova Wikiversidade, uma universidade aberta e gratuita fundada no Japão e que abriu recentemente novos pólos na Austrália, Finlândia e Botswana. O seu fundador explica o conceito: “a Wikiversidade é fruto da cooperação voluntária e gratuita das pessoas, tal como a Wikipédia. Se as pessoas podem fazer cursos gratuitamente, por que razão haverão de os pagar?” Tendo começado por oferecer cursos mais tradicionais, como Matemática, Biologia, História e Astronomia, esta nova universidade aventurou-se recentemente em cursos como Harmonia Zen, Flores e Felicidade, e Medicina Incorpórea. Os críticos afirmam que os cursos desta universidade são destituídos de qualidade, mas o seu fundador garante que não: “a ideia de que só os senhores doutores é que dominam os assuntos é antidemocrática. Na nossa universidade, partilha o conhecimento quem quiser partilhá-lo, gratuitamente; e só temos os cursos que os alunos quiserem”.

Sem receber quaisquer subsídios do estado, esta universidade depende inteiramente dos donativos voluntários dos alunos. Isto só é possível porque os seus professores não são pagos, aspecto inovador que o seu fundador considera crucial: “Muitas pessoas estão a descobrir o prazer de trabalhar por gosto, e não por dinheiro”. Um professor de Matemática Escatológica esclarece: “nunca me senti tão bem; libertei-me da necessidade de ganhar dinheiro.” Este popular professor é apoiado directamente por alunos e benfeitores que o deixam dormir nas suas casas, e lhe dão comida e roupas. “A partilha de conhecimento e a cultura é de todos, não deve ser paga”, afirma.

O fundador da Wikiversidade é cândido ao referir as universidades pagas directamente pelos estudantes ou pelos impostos: “São maneiras diferentes de entender a cultura e o conhecimento, nada mais.” Mas os entusiásticos alunos da Wikiversidade são mais contundentes: “As universidades tradicionais roubam dinheiro às pessoas, directamente ou através de impostos, para vender uma coisa que podemos ter gratuitamente.”

A Wikiversidade tornou-se notícia precisamente quando a Universidade de Sagiri, uma das mais antigas do Japão, anunciou o encerramento de alguns dos seus cursos e o despedimento dos respectivos professores. Apesar de o comunicado à imprensa não referir a Wikiversidade, é precisamente na cidade de Sagiri que a Wikiversidade surgiu e onde ainda hoje oferece mais cursos. “Tal como Encarta teve de fechar as portas por causa da Wikipédia, também a Universidade de Sagiri terá de o fazer”, refere um aluno entusiástico. Este optimismo não é partilhado por todos. “A Wikiversidade não pode ainda competir com universidades tradicionais por não oferecer muitos dos seus cursos”, refere um professor reformado que agora dá (literalmente) aulas na Wikiversidade. “Mas à medida que a Wikiversidade se desenvolver, as universidades tradicionais terão de fechar as portas”.

ESTRELAS DE PAPEL


Informação recebida da Biblioteca Nacional:

De 29 de Abril a 31 de Julho

TESOUROS DA ASTRONOMIA NA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL

São os melhores de todos os tempos e estão reunidos na Biblioteca Nacional de Portugal. De manuscritos de Alcobaça a códices árabes, de Ptolomeu ao avô de D. Dinis, as maiores estrelas da Astronomia são cabeças-de-cartaz de uma exposição inédita sobre as obras que redesenharam o Universo

Era uma vez o homem que pôs a Terra no centro do Universo e o homem que a expulsou. E era uma vez o avô castelhano de D. Dinis, que posicionou os planetas. De Ptolomeu a Copérnico, de Afonso X a Newton, os nomes maiores da Astronomia dão o mote a uma mostra rara sobre as obras que desenharam e redesenharam o Universo. A exposição "Estrelas de Papel: Livros de Astronomia dos séculos XIV a XVIII" vai estar em exibição de 29 de Abril a 31 de Julho na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em Lisboa. A entrada é livre.

Pela primeira vez, a BNP reúne um conjunto fundamental das obras mais emblemáticas da história da Astronomia. Integrada nas celebrações do Ano Internacional da Astronomia (AIA 2009), a exposição "Estrelas de Papel" é uma oportunidade rara para conhecer a evolução da mais antiga das ciências exactas e perceber o o fascínio que despertou em todos os povos e culturas.

Enriquecida com instrumentos astronómicos de época, a exibição divide-se em quatro núcleos. No primeiro, dedicado aos "Antecedentes da Revolução Astronómica", as estrelas de papel são obras de Ptolomeu (o cientista grego que pôs a Terra no centro do Universo), Sacro Bosco (o defensor da forma esférica do nosso planeta), Afonso X (o avô de D. Dinis, que reuniu a sabedoria árabe para construir tabelas com as posições dos planetas), Regiomontano (astrónomo quinhentista que acreditava que a Terra não se movia) e Pedro Apiano (o desenhador da astronomia ptolomaica), entre outros. Estes primeiros nomes maiores da Astronomia chegam à BNP através de manuscritos de Alcobaça, códices árabes, incunábulos e edições do século XVI.

O segundo núcleo dá lugar aos cientistas que revolucionaram a Astronomia. De "A Revolução Astronómica" constam edições raras de autores célebres como Copérnico (o autor da teoria que retirou a Terra do centro do Universo), Tycho Brahe (o dinamarquês que esteve na origem de algumas das mais importantes descobertas da Astronomia) e Galileu (cujas observações foram determinantes para a confirmação de que os planetas giram à volta do Sol). Neste módulo, é ainda possível observar obras de Kepler (o autor das leis do movimento dos planetas), Riccioli (um dos maiores estudiosos da Lua), Hevelius (considerado o fundador da topografia lunar) e Newton (o descobridor da lei da gravitação universal, que explica a atracção entre os corpos).

A exposição "Estrelas de Papel" reúne ainda os exemplos mais significativos da evolução da representação do Universo, num núcleo dedicado aos Atlas Celestes desenhados desde o século XV.

A Astronomia portuguesa tem também lugar cativo na exposição integrada nas celebrações do Ano Internacional da Astronomia 2009. Do núcleo "Astronomia em Portugal" constam impressos e manuscritos de autores portugueses como Pedro Nunes (um dos maiores vultos da Ciência, que aperfeiçoou o sistema de Ptolomeu), mas também Sardinha de Araújo, Manuel Bocarro, Castro Sarmento, Eusébio da Veiga e Monteiro da Rocha, assim como edições portuguesas de autores estrangeiros.

O Ano Internacional de Astronomia é organizado em Portugal pela Sociedade Portuguesa de Astronomia, com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), da Fundação Calouste Gulbenkian, do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, do Ciência Viva e da European Astronomical Society (EAS) e decorre durante 2009 no país todo.

CAMÕES, O CÉU E A TERRA


Informação recebida do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra (no quadro "Camões na gruta de Macau" de Francisco Augusto Metrass):

Camões transformou a geografia de lugares exóticos como as ilhas Maldivas e inculcou no imaginário português territórios paradisíacos como as Seychelles ou as ilhas do Caribe. Geração após geração, Camões continua a imortalizar o fascínio insular e a determinar a forma como viajamos. Os investigadores João Luís Fernandes e Isabel Almeida vão estar no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) para explorar as "Novas Terras" do poeta d'Os Lusíadas. A sessão decorre no dia 29 de Abril às 16 horas. A entrada é livre.

"A visão camoniana antecede a actual percepção da ilha enquanto lugar de atracção, enquanto Éden e território de sedução e enquanto espaço de centralidade turística. A visão camoniana mudou a geografia de lugares como as Maldivas e enriqueceu o imaginário colectivo com territórios paradisíacos como as Seychelles ou as ilhas do Caribe",
avança João Luís Fernandes, especialista em Geografia da Universidade de Coimbra.

Organizada pelo Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) e pelo Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos (CIEC), a conferência "Novas Terras" é a primeira das três sessões do ciclo "Camões, o Céu e a Terra", dedicado à Ciência na obra de Luís de Camões.

"Vai ser um ciclo verdadeiramente surpreendente. Pelos temas escolhidos, pelo contraponto de perspectivas entre investigadores das ciências exactas e especialistas em Literatura, vão ser certamente conferências cativantes tanto para o público em geral como para audiências especializadas", garante o coordenador científico do CIEC, José Carlos Seabra Pereira.

Na sessão "Novas Terras", o geógrafo João Luís Fernandes explorará o modo como Camões mudou para sempre o imaginário turístico, o marketing e a paisagem cultural portuguesa. A par desta reflexão, o investigador fará ainda uma breve incursão pela geografia de Portugal e do mundo na época de Camões.

Professor de Geografia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, João Luís Fernandes é especialista em Geografia do Turismo e Geografia de Portugal e das comunidades de expressão portuguesa.

Na mesma conferência, Isabel Almeida, especialista em Literatura Portuguesa da Universidade de Lisboa, vai explorar a simbologia por detrás dos espaços da obra de Camões. "A Geografia e a poesia articularam-se? Como entra a Geografia n'Os Lusíadas? Explorando estas questões, seremos levados a notar que, na época camoniana, o "debuxo dos lugares" faz parte de uma intensa reflexão sobre possibilidades de conhecimento, comportamentos humanos e desejos de plenitude", explica a investigadora.

Isabel Almeida é professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e membro do CIEC. Estuda Literatura Portuguesa dos séculos XVI e XVII, com destaque para Camões e para o Padre António Vieira.

Integrado nas comemorações do Ano Internacional da Astronomia (AIA 2009) e dos duzentos anos do nascimento de Darwin e da publicação da sua obra mais influente, "A Origem das Espécies", o ciclo "Camões, o Céu e a Terra" prossegue a 21 de Maio com uma sessão dedicada aos "Novos Céus" de Camões. A investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia Carlota Simões e o professor de Literatura da Universidade Católica Portuguesa Luís Silva Pereira são os convidados de uma sessão dedicada à Astronomia camoniana.

As sessões sobre a Ciência em Camões terminam a 24 de Junho com as "Novas Gentes" da obra do poeta d'Os Lusíadas. A conferência sobre a importância da Antropologia na obra camoniana contará com a presença do antropólogo social Luís Quintais e do coordenador científico do CIEC, José Carlos Seabra Pereira.

Ciclo CAMÕES, O CÉU E A TERRA

29 de Abril: novas terras, 16.00, João Luís Fernandes (FLUC) e Isabel Almeida (FLUL)
21 de Maio: novos céus 16.00 Carlota Simões (FCTUC) e Luís Silva Pereira (UCP)
24 de Junho: novas gentes 16.00 Luís Quintais (FCTUC) e José Carlos Seabra Pereira (FLUC)

Organização:
Museu da Ciência da Universidade de Coimbra
Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos

Modelos Matemáticos na Evolução

Informação recebida da ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA:

Por ocasião do bicentenário do nascimento de Charles Darwin, o Presidente da Academia das Ciências de Lisboa tem a honra de convidar V.Exª para o ciclo de sessões “O Darwinismo duzentos anos depois” que prossegue com “Modelos Matemáticos na Evolução”, no dia 7 de Maio de 2009, quinta-feira, na Sala das Sessões desta Academia, a partir das 14:30 horas.

Apresentam comunicações os Senhores José Francisco Rodrigues (Da equação de Verhulst à dinâmica do replicador, uma breve introdução aos modelos matemáticos da evolução), Fábio Chalub (A Matemática da Evolução e a Evolução da Matemática), Jorge Pacheco (Darwin e a evolução somática do cancro) Rui Dilão (De Charles Darwin aos algoritmos evolucionários da optimização) e Philip Gerrish (Tricking Darwin: how to make natural selection spectacularly self-destructive).

Entrada pela Rua da Academia das Ciências, nº 19, Lisboa:

terça-feira, 21 de abril de 2009

Biblioteca Digital Mundial

Foi hoje apresentada a Biblioteca Digital Mundial, um arquivo on-line gratuito, coordenado pela UNESCO e que envolve 32 instituições.

Neste arquivo é possível encontrar, em sete idiomas - árabe, chinês espanhol, francês, inglês, russo e português -, reproduções de livros, manuscritos e documentos visuais e sonoros que se encontram em bibliotecas de todo o mundo.

Darwin 150, 200

Exposição no Museu da Ciência a partir de 23 de Abril de 2009

Recebemos esta informação do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra sobre as comemorações do ano Darwin.

"Darwin foi um dos mais importantes e influentes cientistas de todos os tempos. A ele se deve a formulação de uma teoria de evolução que permite explicar a diversidade da vida na Terra nos últimos 3 mil milhões de anos. O que conhecemos hoje sobre a biologia dos seres vivos só é compreensível com base no princípio da evolução. Além disso, uma das consequências principais das teorias de Darwin é a recolocação do Homem no seio da Natureza, ao estabelecer que a nossa espécie também evoluiu, como as outras, de antepassados que viveram muito tempo antes.

Em 2009, comemoram-se duzentos anos sobre o seu nascimento e 150 anos sobre a publicação da sua obra mais importante e influente A origem das espécies.

O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra assinala o contributo fundamental deste naturalista, cujo pensamento mudou completamente a nossa visão do mundo e da nossa posição na natureza, com a realização da exposição Darwin 150, 200.

Mais informações sobre as comemorações podem ser encontrada no site do Museu em: www.museudaciencia.pt"

SOBRE A IDENTIDADE NACIONAL


É hoje lançado no Palácio Galveias, Lisboa, pelas 19h30m, o livro "À Espera de Godinho" de Amadeu Lopes Sabino, Jorge de Oliveira Sousa, José Morais e Manuel Paiva (Bizâncio). Deixamos um novo excerto, este um diálogo entre o psicólogo José Morais (JM) e o físico Manuel Paiva (MP) sobre a identidade nacional:

"JM – Como escreveu Tzvetan Todorov no Le Monde (17 de Março de 2007), “só as nações mortas adquiriram uma identidade imutável”. Se tivesse de escolher, eu que não sou historiador, veria na história de Portugal dois grandes êxitos e duas grandes desgraças. Infelizmente, cada êxito teve o seu próprio efeito de sinal oposto; o mesmo é mais difícil de dizer a respeito das desgraças. Os grandes êxitos foram os descobrimentos e a literatura. Os descobrimentos fizeram avançar a humanidade para outro estádio civilizacional e de domínio do planeta e, pelo que nos toca, fizeram de um pequeno país isolado no extremo sudoeste da Europa um país mundial; mas as dificuldades das longas viagens marítimas e do comércio, a rapacidade dos colonizadores e a dissipação improdutiva das riquezas das suas colónias cavaram-lhe a ruína e reforçaram a oligarquia hereditária ou de fresca data, que encontrou na Inquisição um instrumento implacável de disciplina. A literatura, em particular a poesia, criou ao longo de séculos uma expressão ímpar do sentimento humano, de que Pessoa veio a ser o expoente máximo; porém, acabaram por ser mais fortes, no reflexo de que delas deu o cancioneiro popularucho, as disposições de alma que alimentam a auto-lamentação e a consequente renúncia nostálgica.

MP – E as grandes desgraças? A Inquisição, com certeza... e a outra?

JM – Eu diria o quase meio século de fascismo salazarista e pós-salazarista. A Inquisição – o Santo Malefício –, para além dos crimes hediondos que perpetrou, deixou o país muito mais pobre em meios humanos, instaurou a torpeza e o fanatismo. E se, de todo este mal algum bem emergiu, ele terá resultado da fuga à Inquisição portuguesa de tantos homens, mulheres, crianças e até embriões ou fetos – neste estado saiu Espinoza de Portugal –, que contribuiu para a formação, na Europa do norte, de ilhas de liberdade e em particular de liberdade de consciência. E o fascismo, esse, tornou Portugal pobrezinho – como Salazar sonhava que fosse – retrógrado, tacanho em mentalidade e cultura, e prolongou a sua agonia colonial ao ponto de fazer dele o último e grotesco Império da história contemporânea. Neste caso, procuro algum bem que esse mal tivesse gerado, e, se não tivermos em conta o bem que resultou da sua queda, não encontro. Até – para comparar com a imigração resultante da Inquisição, e talvez porque não fosse a liberdade que estivesse mais em causa – a gigantesca imigração do trabalho, com a sua metafórica “mala de cartão”, a partir de 1960, não produziu nada de relevo. Mais grave, a queda do fascismo, para além do mérito que tiveram os militares revoltosos, não foi seguida do processo e do julgamento que se impunham. Portugal e os seus políticos quiseram esquecer ou perdoar, quando esquecimento e perdão são a melhor maneira de fazer reaparecer os demónios ao primeiro desencanto. Depois da queda do fascismo, a cultura e os costumes americanizaram-se, as instituições politicas europeizaram-se, a língua abrasileirou-se. A identidade nacional faz-se e desfaz-se por todos os que vivem em Portugal, portugueses ou não, e até pelos portugueses que vivem no estrangeiro, incluindo os estrangeirados. Infelizmente, fazem parte da identidade portuguesa também aqueles portugueses que se sentem cosmopolitas e ao mesmo tempo desprezam o retornado das colónias ou da França e o imigrante africano, asiático, do leste da Europa, e até brasileiro.

MP – Volto a perguntar-te: não é a identidade nacional uma questão de valores mais do que de carácter ou até de história?

JM – Olha, acho que não. Para mim, os bons valores não têm nacionalidade, são universais, ou pelo menos deveriam sê-lo. Acabemos com o mito da identidade nacional como um valor! Valores são o princípio de liberdade, de igualdade de direitos (à saúde, à educação, ao trabalho justamente remunerado) independentemente do sexo e da origem social, de respeito pelo imigrante, de laicidade, que implica o respeito das religiões e do ateísmo... Sinto tantas vezes um cheiro de matéria em decomposição quando ouço falar de “identidade nacional”... Tenho vontade de exclamar: abram rápido as janelas, deixem entrar o ar fresco da universalidade; e que a identidade nacional seja apenas flor e poesia!"

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Refutado

Em resposta a um comentário de Vítor Guerreiro ao meu artigo "Jornalismo de Qualidade e Palermices", defendi o seguinte:
Não é verdade que usar sem pagar o que alguém se esforçou por produzir seja sempre imoral. Depende das circunstâncias. É imoral quando 1) colocamos em risco a viabilidade económica de uma vida dedicada a produzir isso que consumimos ou 2) somos free-riders, isto é, só podemos consumir de borla porque outros pagaram.
Outro leitor atento chamou a atenção para a palermice desta ideia que defendi sem reservas: que é imoral fazer algo que torne economicamente inviável uma dada actividade. Se esta ideia fosse verdadeira, seria imoral fazer algo que torne economicamente inviável a escravatura, por exemplo. O que é imoral é agir de modo a tornar economicamente inviável uma actividade que prezamos e que de outro modo não pode subsistir.

Por exemplo, eu gosto de ler boa divulgação científica, além evidentemente de filosofia. Assim como ensaios históricos e biografias. E consumo desde há muito com gosto boas obras de consulta (enciclopédias e dicionários). É para mim impensável fazer escolhas económicas que ponham em causa a sobrevivência económica dessas mesmas coisas. Não me chateia que as novelas brasileiras ou os professores de Reiki ou os blogs de tretas se tornem coisas economicamente inviáveis, mas preocupa-me que a cultura que prezo se torne economicamente muito difícil. O caso é que muitas pessoas que dizem prezar a cultura não a prezam realmente, porque se o fizessem abririam os cordões à bolsa. Quem nunca comprou uma enciclopédia mas financia tolices como o Firefox ou a Wikipédia faz isso por motivos exclusivamente religiosos, e não por prezar a manutenção da cultura. Na verdade, trata-se de pessoas cujos horizontes de leitura não ultrapassam o que se pode ler gratuitamente na Internet. Defender que essas coisas devem ser gratuitas, mas depois paga quem quer é defender que quem deve ser pago por produzir uma enciclopédia não é quem a escreve mas o engenheiro informático que tem a ideia brilhante de viver a vida à custa do trabalho cultural dos outros.

E é este o ponto fundamental da questão. Um modelo de financiamento da cultura baseado no voluntariado constitui uma forma de tornar economicamente inviáveis ou muitíssimo difíceis actividades culturais cujos resultados prezamos. Isto não é uma novidade, note-se. Ao longo da história da humanidade isto sempre foi assim, porque a generalidade das pessoas sempre preferiu palermices, ainda que depois usufruam do resultado da dedicação cuidadosa à cultura, nomeadamente quando estão doentes e usufruem da medicina científica.

O meu protesto é duplo. Por um lado, sublinho que no novo mundo digital nada muda de substancial, ao contrário do que querem pensar os evangelistas da RNED (Religião Nova Era Digital). Por outro, chamo a atenção para duas realidades: se houvesse assim tanta gente a prezar a cultura, a sua viabilidade económica não seria um problema; e é incoerente reconhecer que a generalidade das pessoas prefere comprar carros e telemóveis e televisões de luxo a comprar cultura, e ao mesmo tempo dizer que precisamos de pôr a cultura de borla para essas pessoas. A minha insistência é que este pensamento é uma forma de hipocrisia ventilada por quem quer realmente cultura, mas só se for de borla; para a generalidade das pessoas, ter cultura de borla ou paga é irrelevante porque nem de borla a querem.

Finalmente, esclareço que reconheço completamente o direito de preferir novelas brasileiras a Eça de Queirós, ou telemóveis de luxo a livros de divulgação científica. Mas reconhecer o direito a algo não é o mesmo que aplaudir essa escolha; uma estupidez não é menos estúpida por ser preferida pela maior parte da humanidade. Também não me passa pela cabeça tentar mudar-lhes os hábitos; na verdade quem procura fazer isso é quem defende a cultura de graça (como se isso tivesse algum efeito). Perante a estupidez generalizada da humanidade tudo o que é imperioso fazer é dizer às pessoas que há muitas maneiras de viver a vida, e que se uma pessoa não se sentir bem com as frivolidades do costume, pode-se viver a vida de outra maneira (ainda que a RNED não torne isso mais fácil). Compete a cada qual escolher o seu modo de vida.

PORTUGUÊS RESOLVEU, NO SÉC. XVIII, PROBLEMA MAIOR DA ASTRONOMIA


Informação recebida do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra (na foto o cometa Halley):

José Monteiro da Rocha, astrónomo português e o primeiro director do Observatório da Universidade de Coimbra, foi o primeiro a resolver um dos problemas maiores da Astronomia, mas perdeu o reconhecimento para outro cientista, 17 anos depois. O investigador Fernando Figueiredo, especialista em Astronomia portuguesa do século XVIII, mergulhou nos registos antigos e vai estar no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) no dia 21 de Abril às 16 horas para revelar o que já descobriu sobre este e outros nomes maiores do conhecimento em Portugal.

O cientista da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) é o próximo convidado do ciclo de conferências "Astronomia à Terça", promovido pelo Museu da Ciência no âmbito do Ano Internacional da Astronomia (AIA 2009). A entrada é gratuita.

"A palestra pretende ser uma pequena e rápida visita pela História da Astronomia em Portugal. O objectivo é fazer notar ao público que alguma coisa se fez de interessante no nosso país desde o tempo dos Descobrimentos", explica Fernando Figueiredo.

Um dos exemplos da importância da ciência portuguesa é mesmo o primeiro director do Real Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, que no século XVIII foi o primeiro a determinar a órbita de cometas, 17 anos antes do Heinrich Olbers, que acabou por ficar na história como sendo o autor da descoberta. "José Monteiro da Rocha resolveu um dos maiores problemas de Astronomia do século XVIII, a determinação da órbita de cometas, e fê-lo cerca de 17 anos antes do alemão Olbers. No entanto, é este alemão que fica na história por ter resolvido o problema em 1797, quando o director do Observatório da UC o resolve em 1780", conta Fernando Figueiredo.

José Monteiro da Rocha é um dos astrónomos que o investigador tem estudado no decurso do projecto que desenvolve no Observatório da Universidade de Coimbra. E são precisamente os resultados dessa aventura pela História da Ciência que Fernando Figueiredo vai levar ao Museu da Ciência da UC. Determinado a reivindicar para a ciência portuguesa do século XVIII um lugar na História mundial, o investigador da FCTUC vai também fazer um pequeno percurso pela História da Astronomia em Portugal e apontar lugares de interesse que ainda hoje podem ser visitados.

Para Fernando Figueiredo, há aspectos "interessantes" que não são do conhecimento do grande público e que merecem ser divulgados. "Por exemplo, o telescópio chegou ao Japão em 1613, levado por missionários jesuítas portugueses e, ao contrário do que se pensava, as observações que Galileu fez entre 1609 e 1611 foram conhecidas quase imediatamente em Portugal. Em 1772, a Reforma Pombalina da Universidade criou a primeira faculdade de matemática do mundo, constando no seu currículo uma cadeira de Astronomia", conta o investigador.

Depois de Pawel Haensel, do Nicolaus Copernicus Astronomical Center (Polónia), e de Orfeu Bertolami, colaborador da NASA e da Agência Espacial Europeia, Fernando Figueiredo é o terceiro investigador a participar na "Astronomia à Terça" do Museu da Ciência da UC.

domingo, 19 de abril de 2009

A falta do ensino técnico-profissional


Novo post sobre educação do nosso habitual colaborador Rui Baptista (na foto Cristiano Ronaldo):

“A universidade revela todas as capacidades, e até as incapacidades” (A.Tchekov)

Mais vezes do que aquelas que a minha paciência suporta algumas vozes tentam convencer a opinião pública da bondade do boom operado no actual sistema educativo que se traduziu em aumentos exponenciais de cidadãos de posse de diplomas de ensino superior.

Tudo isto seria digno de encómio, ou mesmo de orgulho nacional, não se desse o caso de na percentagem de licenciados se incluírem todos os indivíduos com um pergaminho ou simples cartolina com o imprimatur do Estado que os iguala em direitos e os desiguala em deveres, numa espécie de preito a um demérito que a ética deve reprovar, a justiça obriga a rejeitar e um estado de direito não pode legitimar. Aqueles valores percentuais só são possíveis pelo desconhecimento de uma simples regra da adição no ensino primário que diz que não se podem somar peras com maçãs.

Há quem diga que a actual situação, na qual a bolsa dos pais conta mais que a massa cinzenta dos filhos, se deve a uma louvável democratização do ensino, que faz com que indivíduos que ontem trabalhavam nas obras possam hoje pensar no acesso à universidade. Pena é, no entanto e por outro lado, que, devido ao desemprego de diplomados em engenharia, estes, por vezes sem o suficiente “know-how”, sofram agora o pesadelo de terem que ir para as obras.

Ora este statu quo fica a dever-se a uma coisa bem simples, que repousa menos no direito constitucional à educação e mais no novo-riquismo da democracia portuguesa, que foi reconhecida pelo ex-ministro da Educação David Justino quando lamentava o facto de, no pós-25 de Abril, “se ter morto o ensino técnico e profissional, tendo-se perdido, com isso, quase 30 anos” (Diário de Coimbra, 10/12/2003).

Por acreditar num ensino técnico devidamente dignificado me fiz seu defensor por várias vezes nos media (v.g., “A extinção dos liceus e escolas técnicas”, Diário de Coimbra, 26/07/2001). Mas ouçamos, sobre esta temática, a voz de Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard e festejado autor da “Teoria das Inteligências Múltiplas”:

“Chegou a hora de alargar a nossa noção do espectro dos talentos. A contribuição mais importante que a escola pode fazer para o desenvolvimento de uma criança, é ajudar a encaminhá-la para a área onde os seus talentos lhe sejam mais úteis, onde se sinta satisfeita e competente. É um objectivo que perdemos completamente de vista. Em vez disso, submetemos toda a gente a uma educação em que, se somos bem sucedidos, a pessoa fica preparada para ser professor universitário. E, ao longo do percurso, avaliamos toda a gente de acordo com esse estreito padrão de sucesso. Devíamos passar menos tempo a classificar as crianças e mais tempo a ajudá-las a identificar as suas competências e dons naturais, e a cultivá-los. Há centenas de maneiras de ser bem sucedido e muitas, muitas capacidades que nos ajudarão a lá chegar”.

E, se é verdade que o direito à educação está estabelecido pela Constituição, igual direito se perfila no que respeita à cultura física e à prática desportiva. Mas daí a defender que o acesso à universidade deve ser para todos, independentemente das suas capacidades intelectuais ou de trabalho, apresenta o mesmo vício de forma que considerar que aos praticantes de futebol de menor aptidão físico-motora deve ser facultada a integração nas equipas profissionais dos maiores clubes da 1.ª Liga de futebol. Em mera hipótese, suponhamos que Eusébio, Figo e Cristiano Ronaldo tinham sido obrigados a desistir das suas competências, para utilizar a classificação de Gardner, “corporal-cinestésicas” em favor de exigências “lógico-matemáticas ou linguísticas”. Não seriam eles hoje indivíduos a aumentar os números do insucesso escolar, mesmo que escamoteados em dados estatísticos para inglês ver?

Por este facto, considero que colocar indivíduos no ensino técnico-profissional depois de terem falhado anos consecutivos num ensino direccionado para o ingresso em escolas de ensino superior desacredita aquele ensino tornando-o numa escolha de último recurso. Urge mudar a mentalidade de uma sociedade arreigada a padrões obsoletos de sucesso, regressando a um ensino que, a partir do 6.º ano de escolaridade, seja capaz de indicar ao aluno o caminho a seguir, segundo as suas capacidades avaliadas em testes de aptidão vocacional. E, além disso, não misturando numa mesma escola secundária alunos de “caneta” com alunos que necessitam de oficinas devidamente apetrechadas e professores com a necessária formação técnica.

Julgo ter conhecimento de causa por ter iniciado a minha carreira de professor na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque, da então Lourenço Marques, e ter-me deparado, décadas volvidas, com um site que homenageia o respectivo corpo docente em agradecimento dos seus alunos pela formação académica recebida e pelo seu não menos importante desenvolvimento como pessoas. Lê-se aí:

“Naturalmente que, como em tudo, no respeitável corpo docente que ao longo dos anos leccionou na nossa escola, nem todos conseguiram ser populares, mas todos contribuíram, de uma forma ou de outra, para a nossa formação, quer como estudantes, quer como pessoas. Alguns deixaram a sua marca. (...) Ainda hoje, e eu faço notar isso aos meus filhos, eu sei o nome dos meus professores, e faço questão de realçar a sua competência. Pena que nem todos eles possam já tomar conhecimento de que também fazem parte da nossa saudade académica”.

É este ensino técnico, viveiro de profissionais de valor e de homens reconhecidos, que deve merecer o respeito dos cidadãos e o remorso de políticos que, em nome de uma sociedade sem classes, a transformaram numa sociedade desclassificada académica e profissionalmente. Só desta forma sairá reforçada uma educação que não tenha como “única direcção a conveniência”, como escreveu Eça de Queiroz.

Rui Baptista

Jornalismo de qualidade e palermices

Escreveu Fernando Pessoa:
Concordo e cedo sempre que me falam com argumentos. Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a Razão, seja quem for o seu procurador.
Sebastião Barros responde aqui amavelmente ao meu artigo “Realidades Desagradáveis”, e tem razão em muito do que diz. Mas não tem razão num aspecto fundamental.

Tem razão em apontar para a necessidade de uma boa formação por parte dos jornalistas. Tem razão em apontar para diferentes modelos de informação — modelos que privilegiam a objectividade e o rigor ou, alternativamente, a tomada de posição e a opinião à balda.

Mas não tem razão ao citar muitos exemplos de informação de qualidade pensando que isso refuta a minha ideia principal: que é a palermice que sustenta a informação de qualidade. Basta folhear um bom jornal ou revista, como o Times: a informação de qualidade constitui, na melhor das hipóteses, menos de metade do jornal (talvez apenas uns 30%): o resto são secções com notícias e opiniões frívolas. Evidentemente, pessoas como o Sebastião Barros nem se apercebem disso porque vão direitinhos à parte de qualidade do jornal, e ignoram as outras. Mas as outras estão lá por alguma razão; e a razão, desagradável, é que se não estivessem lá o jornal não seria economicamente viável.

Não podemos ter a veleidade de pensar que a generalidade da humanidade é como nós. Isso revela uma grande falta de observação e sensibilidade. A verdade, desagradável, é que a maior parte da humanidade prefere gastar dinheiro em palermices e não em informação ou cultura de qualidade. Quando damos valor à informação de qualidade -- ou à ciência, filosofia ou literatura -- o primeiro problema que temos de enfrentar é que a generalidade das pessoas não está minimamente interessada nisso, ainda que gostem de pregar a mentira de que gostam muito dessas coisas. O segundo problema que temos de enfrentar é a ideia cada vez mais comum de que a cultura, a ciência, a informação de qualidade não devem ser pagas, mas sim gratuitas. Os dois problemas juntos têm efeitos desastrosos. Se as poucas pessoas que realmente consomem produtos culturais (por terem realmente interesse neles, ao invés de apenas pregarem a mentira que têm interesse neles) tiverem ao mesmo tempo a noção de que não devem pagar por esses bens ou serviços, torna-se cada vez menos viável economicamente a produção de cultura ou informação de qualidade.

Assim, o primeiro passo para garantir a continuidade da informação de qualidade, assim como da cultura em geral ou da ciência, é divulgar a ideia de que essas coisas custam muito dinheiro — e por isso é preciso o apoio financeiro de quem realmente as valoriza.

CLASSICA DIGITALIA

O Reitor da Universidade de Coimbra, a Directora do Arquivo da Universidade, a Coordenadora Científica do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, o Director do Sistema Integrado das Bibliotecas da Universidade de Coimbra, o Director do Instituto de Ciência da Informação, Arquivística e Biblioteconómica têm a honra de convidar V. Ex.ª para estar presente na sessão de apresentação da recém-criada biblioteca e editora online CLASSICA DIGITALIA, da UI&D-Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, que terá lugar no dia 22 de Abril de 2009, pelas 16 horas, na Sala D. João III, do Arquivo da Universidade de Coimbra.

Nuclear: Oportunidades e Ameaças

Na passada quinta-feira o "Diário Económico" realizou em Lisboa um debate sobre a energia nuclear em Portugal. Como contribuição para a discussão em curso, deixamos aqui uma lista de "oportunidades" e "ameaças", seguida de uma conclusão, da autoria do engenheiro António Jardim, que amavelmente já noutro "post" partilhou com os leitores do De Rerum Natura os seus conhecimentos e a sua opinião sobre o assunto:

Oportunidades

É quase indiscutível que a instalação de uma central nuclear em Portugal diminuiria fortemente a emissão de gases com efeito de estufa, diminuiria a dependência estratégica e económica do petróleo, não deveria aumentar o preço da energia eléctrica, uma vez que só as centrais a gás a ciclo combinado têm capacidade de com elas competir em custos (dependendo, claro, do preço do gás), valorisaria (embora seja duvidoso em que medida e a que prazo) o urânio produzido em Portugal, e poderia ter alguns efeitos de arrastamento.

Ameaças

Criaria um risco não existente (embora baixo) de acidente nuclear, apresentaria para o promotor apresenta um risco económico grande em caso de acidente, obrigaria a investimentos muito significativos na melhoria da rede já que a potência “standard” actual (1700 MW) é enorme para a rede nacional, obrigaria a agir activamente no reprocessamento e armazenagem de resíduos e obrigaria a reconstituir um órgão público para acompanhar o processo, com os inerentes custos para o Orçamento do Estado.

Conclusão

Para países com uma rede grande, bem desenvolvida e interligada e que tenham sistemas de inspecção e controlo credíveis, não me parece que a opção nuclear seja de excluir a não ser que a questão do armazenamento de resíduos radioactivos seja mesmo preocupante a nível mundial. No entanto, para países como Portugal, na minha opinião, faz bastante mais sentido (embora a escolha apresente enormes dificuldades, nomeadamente a contabilização da ausência de emissões de dióxido de carbono) o país ou alguma empresa interessada investirem numa central integrada (partilhada?) na rede espanhola ou francesa do que numa só unidade em Portugal. Todos os riscos e custos ficariam assim, na minha opinião, bastante diluídos.

António Jardim

A recepção da relatividade em Portugal


Novo post do historiador António Mota de Aguiar (na imagem, o filósofo Leonardo Coimbra):

Quando se inicia a década de 20 do século passado há, em Portugal, um crescente interesse pelos estudos da teoria da relatividade. Os interessados por esta jovem ciência sucedem-se, representando um número significativo de cientistas, de áreas tão variáveis, como a Física, a Matemática, a Biologia, a Química, as Letras, etc. Todos trazendo para a ribalta contribuições variáveis, consoante o peso das suas formações científicas. Destacamos alguns dos principais estudiosos da relatividade:

- Leonardo Coimbra, filósofo antipositivista, que iniciou a sua carreira universitária em 1912, e que foi o introdutor da relatividade entre nós.
- Pedro José da Cunha, professor de Cálculo e Análise Infinitesimais na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
- Augusto Ramos da Costa, catedrático de Astronomia, entusiasta da relatividade, e autor de um trabalho que, tudo indica, foi na altura censurado: “L’enseignement des mathematiques doit être orienté pour l’étude de la Relativité”.
- Melo e Simas, funcionário do Observatório da Ajuda, que observou várias ocultações de estrelas conducentes à confirmação de alguns resultados da relatividade geral.
- António Santos Lucas, professor de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que leccionou um curso em 1922-23, por ele criado, sobre a relatividade restrita e a relatividade geral.

Mais para a frente, surgem-no:
- Aureliano Mira Fernandes, matemático que investigou a relatividade geral.
- Manuel dos Reis, director em 1934 do Observatório Astronómico de Coimbra e autor do trabalho assaz didáctico ”O Problema da Gravitação Universal”.

Outros nomes há, talvez menos conhecidos, mas que contribuíram igualmente para a divulgação das teorias relativistas: Victor Hugo de Lemos, Mário Mora, António da Silveira, Egas Pinto Basto, Cyrillo Soares, e António Gião, este último o meteorologista e engenheiro geofísico que foi o único português a corresponder-se com Einstein.

Em 1929, com a chegada dos primeiros bolseiros portugueses com conhecimentos científicos adquiridos no estrangeiro, havia em Portugal uma certa animação cultural: no jornal O Diabo (1934-1940), de cariz artístico-literário, mas também aberto à ciência, escreviam, por essa altura: Abel Salazar, Rui Luís Gomes, Manuel Valadares, Aurélio Quintanilha, Bento de Jesus Caraça, e outros nomes conhecidos da ciência portuguesa.

Acontece que, se retirarmos os relativistas que acabamos de referir, pouco fica para a ciência astronómica. No fundo ficam os dois observatórios astronómicos existentes, o de Lisboa e o de Coimbra: Lisboa, com Frederico Oom à frente até 1930, e Coimbra, com Francisco Costa Lobo à frente até 1934. No cômputo geral, o trabalho destes dois observatórios foi muito diminuto. O de Lisboa, não tinha pessoal nem instrumentos suficientes, o de Coimbra idem: tinha, em 1933, “além do director, um observador-chefe, um segundo ajudante de observador e um maquinista conservador dos instrumentos. Este quadro irrisório…”. [1]

Neste período da história da nossa Astronomia, também viveram acérrimos anti-relativistas, como o professor catedrático de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, José de Almeida Lima, defensor do éter e abalado com o seu desaparecimento.,Francisco Miranda da Costa Lobo, professor catedrático da Universidade de Coimbra, autor de uma pseudo-ciência, denominada teoria radiante, e Gago Coutinho, o famoso navegador aéreo que simplesmente não aceitava a teoria da relatividade.

Porém, paralelamente à actividade científica e cultural, corriam também os acontecimentos políticos: “Em meados da década de trinta a bandeira relativista é uma das bandeiras culturais içadas no baluarte daqueles que, em nome do progresso, se opõem ao status quo implantado em Portugal pela Constituição de 1933”. [2]

A década de 30, começou, de facto, com uma certa animação cultural devido a vários factores, entre os quais o mais relevante o envio para o estrangeiro, pela Junta de Educação Nacional, de bolseiros, a fim de trazerem para Portugal mais-valias científicas. A partir de 1930 havia em Portugal vários cientistas capazes de levar para a frente o projecto de desenvolver entre nós a Física, disciplina essencial, sobretudo nessa altura, para muitas outras ciências. Por exemplo, a criação de um Instituto do Rádio em Coimbra esteve nos planos de Mário Silva, que tinha sido discípulo de Madame Curie.

A Astronomia poderia ter avançado nesse tempo se tivesse florescido entre nós o estudo da Física Moderna, incluindo a relatividade. Mas o Estado Novo, ao perseguir politicamente muitos professores, bloqueou o conhecimento e o ensino da relatividade. Em meados da década de 30 começaram as perseguições políticas: purgas, exílios, prisões de professores universitários de várias áreas do saber, e o país, em vez de ter dado o salto científico-cultural de que tanto necessitava, entrou no túnel da mediocridade cultural por algumas dezenas de anos. Assim, quando chegamos a 1950, o contraste entre a astronomia internacional e a astronomia portuguesa era colossal. Os estudos de astronomia estavam imensamente atrasados e nada apontava nesse momento para uma melhoria nesse sector da ciência.

António Mota de Aguiar

NOTAS:
[1] José António Madeira, Separata da Revista de Ciências da Universidade de Coimbra, vol. VII-nº1, p. 7
[2] A. José dos Santos Fitas, in “Einstein Entre Nós”, Coordenação de Carlos Fiolhais, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2005, p. 16.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ainda bem que há pobres

Terminei o artigo “Como Incompreender Gutenberg” referindo a Susaninha da Mafalda, e vale a pena retomar a ideia com uma analogia, infelizmente bem real. Todos os anos morrem crianças e adultos por subnutrição. Muitas pessoas vivem numa situação definida como pobreza absoluta. Uma solução sem futuro, ainda que necessária a curto prazo, é as pessoas darem dinheiro para as ajudar, voluntariamente, e outras trabalharem sem remuneração em associações de ajuda humanitária. Mas isto é uma solução sem futuro, pois com certeza não queremos que essas pessoas e os seus descendentes fiquem sempre dependentes da nossa ajuda humanitária voluntária e gratuita. Queremos, ao invés, ajudá-los a sair da sua terrível situação, para passarem a ter uma vida economicamente viável e condigna. Queremos que tenham dinheiro para comprar comida, abrigo e roupas, em vez de dependerem das nossas ofertas; queremos que tenham empregos.

Isto é óbvio, mas não é óbvio quando se aplica à cultura. Aqui, a ideia aristocrática é que o que no outro caso é uma solução de emergência e necessariamente sem futuro, no caso da cultura é uma solução de longo prazo. Como vamos financiar a cultura? Não financiamos. Usamos o nosso dinheiro para comprar computadores, televisões, automóveis, viagens, sapatos, roupas e telemóveis caros. E esperamos que quem produz cultura o faça gratuitamente, escrevendo de borla na Wikipédia, oferecendo os seus livros gratuitamente, traduzindo de borla e digitalizando livros gratuitamente para o Projecto Gutenberg. Não se trata de pensar que esta é uma situação de emergência, como a descrita no parágrafo anterior, mas antes de desejar que esta seja a situação normal, a longo prazo. Claro que há nisto muito de hipocrisia: o voluntário da cultura quer dar palmadinhas nas suas próprias costas por estar a fazer um trabalho gratuito, pudicamente afastado do vil metal. É até uma sorte que se possa usar o argumento dos pobres que não têm dinheiro para pagar uma enciclopédia ou um livro, quando na verdade a generalidade das pessoas que usa a Internet pode comprar livros — caso contrário não poderia pagar o acesso à Internet — mas prefere comprar sapatos, telemóveis e bilhetes de cinema para ver jovens musculados e fazer explodir automóveis caros. Mas para lá da hipocrisia, o crucial é a ideia de que não queremos acabar com os pobres, mas antes manter a sua dependência das nossas ofertas culturais voluntárias e gratuitas. Este pensamento, aplicado à subnutrição, seria monstruoso. Aplicado à cultura é apenas cego.

Nada disto tem a ver com o sistema existente de patentes, que está errado em muitos aspectos. Nada disto é uma defesa das tolices económicas perpetradas por alguns editores. Por exemplo, hoje em dia muitos livros digitais são vendidos por editoras como a Oxford University Press a preços absurdamente elevados, como se fossem de capa dura, quando um livro digital deveria ser mais barato do que um livro em papel, pois não é necessário pagar a impressão — só é preciso pagar o trabalho editorial e autoral. Nada do que escrevi é também um encómio aos editores tradicionais — em Portugal, muitos editores publicam mal e mal traduzido. O mundo não é perfeito, mas esse é outro assunto. O que é relevante é a visão de futuro, e saber se essa visão é economicamente viável. A visão defendida pela Religião Nova Era Digital não é economicamente viável, fazendo da produção cultural uma coutada de privilegiados, impedindo a existência de uma indústria cultural que dê emprego a milhares de pessoas. Coisas como o Projecto Gutenberg e a Wikipédia fazem passar aos jovens a seguinte mensagem: “Como precisas de ganhar dinheiro para viver, esquece a cultura. A cultura é só para entreter as tardes de Domingo. Para ganhares dinheiro tens de ser engenheiro informático ou advogado ou um tubarão capitalista — estes são os únicos que ganham dinheiro com o Projecto Gutenberg ou a Wikipédia. Consegues viver alugando e programando servidores, sendo advogado ou investidor, mas não consegues viver da escrita nem da produção cultural. A menos, claro, que consigas um emprego numa universidade ou numa grande companhia.”

Que mensagem estaríamos nós a passar aos jovens se encarássemos o ensino como uma missão, algo que tem de ser feito voluntária e gratuitamente? Como poderíamos imaginar a sustentabilidade económica de um sistema de ensino universal pressupondo que quem ensina não deve ser pago porque é mais bonito trabalhar de graça? Haverá circunstâncias em que é defensável ensinar gratuitamente? Sim. Mas seria absurdo desejar que essa fosse uma solução de futuro, pois seria demasiado óbvio que isso prejudicaria gravemente o ensino — não o eliminaria, pois sempre houve ensino, mas só recentemente o ensino é encarado como uma profissão a ser paga como qualquer outra. Defender que o ensino não deve ser pago porque é um acto humano fundamental e esses actos humanos fundamentais devem ser gratuitos, é garantir que o ensino nunca poderá ser uma opção de vida para os pobres, nunca poderá ser para os jovens uma saída profissional — será sempre uma coutada de privilegiados que já têm emprego ou estão reformados e podem trabalhar de graça.

O problema de coisas como a Wikipédia e o Projecto Gutenberg não é disponibilizar cultura gratuitamente. É o preço a pagar por fazer isso. E o preço a pagar por fazer isso é impedir que as pessoas possam ganhar a vida digitalizando livros ou escrevendo artigos para enciclopédias, como acontecia no passado.

Quem nunca precisou de se preocupar com o ordenado ao fim do mês pode ter a veleidade de pensar que a cultura não deve ser paga. Quem ama a literatura ou a música mas precisa de se sustentar economicamente por não ser rico nem ter um bom emprego a fazer outra coisa que não a literatura ou a música não pode achar graça à ideia de o seu trabalho dever ser distribuído gratuitamente aos pobrezinhos. O sistema borlista é economicamente insustentável porque não permite aos criadores viver do seu trabalho; obriga-os a fazer outra coisa qualquer para se sustentarem ou a desenvolver apenas ao fim-de-semana a actividade que mais prezam e na qual mais se sentem realizados. É uma ideia infeliz, mas é fascinante ver como constitui hoje uma nova religião, impermeável à discussão racional.

O meu objectivo não é de modo algum persuadir os religiosos — esses estão para lá da possibilidade de persuasão racional. O meu objectivo é apenas alertar as pessoas que não pertencem à Religião Nova Era Digital mas que são bombardeadas com os discursos dos seus evangelizadores. Depois de comparar os dois discursos, cada qual toma a sua decisão sobre a cogência de cada um deles, agindo depois em conformidade com isso.

Crenças



Com uma vénia ao xkcd.

O 17 DE ABRIL, 40 ANOS DEPOIS


Hoje passam 40 anos sobre o 17 de Abril de 1969 , data que marca o início da Crise Académica de 1969 em Coimbra. O jornal coimbrão "Campeão das Províncias" pediu-me um depoimento pessoal que transcrevo aqui (na foto Osvaldo de Castro, na altura vice-presidente da AAC, a falar aos estudantes na Via Latina em 1969) :

Onde eu estava no dia 17 de Abril de 1969? Pois estava, em plena adolescência, no quarto ano do Liceu Normal de D. João III, que hoje se chama Escola Secundária de José Falcão, em Coimbra. Não tinha, como é óbvio, nessa época qualquer tipo de consciência política.

E, no entanto, dei-me conta que me encontrava, passados alguns dias, numa cidade em guerra. De um lado os polícias e os guarda-republicanos por conta do governo (lembro-me que havia uns jipes com arame farpado à frente) e do outro os estudantes, senão todos os estudantes pelo menos a esmagadora maioria deles. O ambiente era mesmo marcial, embora não tivesse presenciado nenhum dos incidentes durante a greve aos exames de que mais tarde vim a tomar conhecimento. Dei-me conta que não houve, em Maio, Queima das Fitas, uma festa onde me tinha habituado a ir como mirone (“ó senhor doutor dê-me uma plaquete!”).

O chamado “luto académico” haveria de perdurar por longos anos, tendo eu participado dele. Sou tão participante do luto académico que não entrei nem na Queima das Fitas nem na Latada nem sequer em nenhum dos outros actos da praxe. Entrado em 1973 no curso de Física da Universidade de Coimbra, e tendo sido surpreendido pela Revolução de 25 de Abril de 1974, numa bela manhã, com a notícia a interromper uma aula de Análise Matemática, acabei por viver na Universidade de Coimbra os tempos agitados do PREC. Nessa época, devido à crise académica de 1969, não havia praxes. Portanto, se os protestos estudantis de 17 de Abril tiveram uma influência directa na minha vida estudantil foi a de não praxar nem ser praxado. Devo confessar que a praxe nunca me fez qualquer falta...

Mas tive, decerto, influências indirectas do Abril de 1969. Ainda em adolescente, pelo jornal “O Século” e pela revista “Século Ilustrado” (os dois publicações do século passado), percebi que um ano antes de Coimbra ter estado em guerra, Paris também o tinha estado, tendo aí as hostilidades sido bem mais violentas. Achei curiosíssimas as frases da Sorbonne: o meu francês, ainda que incipiente, dava para perceber “au dessou du pavé, il y a la plage” ou “soyons réalistes, demandons l'impossible”. Em 1979, quando, jovem licenciado, fui fazer o doutoramento em Frankfurt, na Alemanha, ainda encontrei, apesar de meio apagados, “grafitti” dessse mesmo tipo nos muros de uma universidade que também tinha estado revolta no final dos anos 60. Numa altura em que a minha mente estava em formação, as revoltas estudantis aqui e, em geral, na Europa tinham necessariamente de me deixar marcas. Tentei perceber o que se tinha passado e porquê...

Claro que em Portugal, ao contrário do que se passava na França e na Alemanha, havia em 1969 uma guerra nas colónias (nos "campi" dos Estados Unidos havia também lutas estudantis que tinham, pelo menos em parte, a ver com a guerra do Vietnam) e havia oposição ao regime (no curto semestre e meio universitário que vivi no tempo da “outra senhora”, lembro-me de encontrar panfletos oposicionistas nas casas de banho da Faculdade e de ter aulas interrompidas com protestos políticos). Foi, por isso, com alívio que recebi a notícia do fim da guerra na altura dita do Ultramar. Quando, quase despido, me apresentei às inspecções militares em Junho de 1974, tinha acabado, felizmente, de se tornar inútil o meu recrutamento. Um coronel-médico a quem me queixei de miopia e daltonismo (se acaso a guerra voltasse eu não via bem o inimigo ao longe, nem sequer a cor dele se fosse vermelho) me perguntou se me queixava de mais alguma coisa, pensei, embora, por elementar prudência, não o tenha dito: “Senhor doutor, ainda aqui só estou há meia hora, mas, se permanecer mais meia hora, receio que vá haver mais queixas”.

Hoje eu sei que não só não fui à guerra colonial como vivo em liberdade graças, entre outros movimentos sociais e políticos, ao movimento a que parcialmente assisti em Coimbra em 1969, sem dele na altura perceber grande coisa. O Abril, mais geral e decisivo, de 1974 é devedor do Abril estudantil de 1969. Embora indirecta, essa é, decerto, uma influência bastante forte que o 17 de Abril teve em mim e, felizmente, em muito mais gente da minha geração. Passados 40 anos essa bem pode ser a principal razão para que comemoremos o 17 de Abril.

A expressão que Galileu não pronunciou

Conversa recente sobre o julgamento de Galileu Galileu, fez-me recordar o início do 1.º Capítulo de um livro escrito por Claude Alegre - Deus face à Ciência -, publicado no ano de 1997 em França, e no ano seguinte em Portugal, pela mão sempre atenta da Gradiva. Partilho essa passagem com os leitores do De Rerum Natura pelo interesse que poderá ter na revisão de mito associado a este grande cientista e pensador.

"A 22 de Junho de 1633, Galileu Galilei, de 69 anos de idade, vestido com o hábito branco dos penitentes, entra na grande sala do Convento de Minerva, em Roma. Vai comparecer, a pedido expresso e urgente do papa Urbano VIII, diante do tribunal inquisitorial da Congregação do Santo Ofício, composto por dez cardeais designados para o efeito.

Comparecer é uma força de expressão, em temos da língua actual, já que ele terá de se contentar com escutar a sentença, sem debate preliminar. Durante seis meses é mantido «prisioneiro» em Roma. Enquanto lhe sugerem que se retrate, os subalternos da Inquisição recusam-lhe que veja o papa, de quem tinha sido amigo, ou mesmo qualquer cardeal. Privam-nos do contacto com os colegas mais queridos. Zanga-se, respinga, exige um debate contraditório com os seus acusadores mas em vão. Permanecerá na ignorância do que se trama contra ele e que decidirá a sua sorte. Não verá os seus julgadores antes de 22 de Junho, não terá um verdadeiro processo e, portanto, não terá ocasião de exibir essa maravilhosa inteligência que teria seduzido, subjugado mesmo, tantos eclesiásticos havia mais de trinta anos.

Ei-lo agora diante do tribunal da Inquisição. Ajoelhado, escuta, tenso pálido, silencioso, a espantosa declaração, aquela declaração supostamente escrita por ele, mas de que, na realidade, toma conhecimento pela primeira vez enquanto é lida por outro.

Eu, Galileu Galilei, filho do falecido Vincenzo Galilei, de Florença, de 69 anos de idade, comparecendo em pessoa perante este tribunal, ajoelhado diante de vós, mui eminentes e reverendíssimos cardeais grandes inquisidores de toda a cristandade contra a perversidade herética, os olhos postos sobre os mui Santos Evangelhos, que toco com as minhas próprias mãos:
Juro que sempre acreditei, que acredito neste momento e que, com a graça de Deus, continuarei a acreditar no futuro e tudo quanto a Santa Igreja católica, apostólica e romana tem por verdadeiro, prega e ensina.
Mas, em virtude de o Santo Ofício me ter notificado de que não acredita na falsa opinião de que o Sol está no centro do mundo e é imóvel e que a terra não é o centro do mundo e se move e de que não mantém, nem defende, nem ensina, quer oralmente, quer por escrito, esta falsa doutrina, em virtude de ter sido notificado de que a dita doutrina era contrária às Sagradas Escrituras; em virtude de ter escrito e ter mandado imprimir um livro no qual exponho esta doutrina condenada, apresentando em seu favor uma argumentação muito convincente, sem apostar qualquer solução definitiva; tornei-me por este facto fortemente suspeito de heresia, isto é, de ter mantido e acreditado que o Sol está no centro do mundo e é imóvel e que a Terra não está no centro e se move.
Por este facto, e querendo apagar do espírito de VV. Eminências e de qualquer cristão fiel esta suspeita veemente a justo título concebida contra mim, abjuro e maldigo de coração sincero e com fé não simulada os erros e as heresias supracitadas e, em geral, qualquer outro erro, heresia e empreendimento contrários à Santa Igreja; juro, no futuro, jamais dizer ou afirmar de viva voz ou por escrito seja o que for que permita haver de mim semelhante suspeita e, se por acaso vier a encontrar um hierático ou tido como tal, denunciá-lo-ei a este Santo Ofício, ao inquisidor ou ao prelado da diocese onde resido.Juro também e prometo cumprir e observar estritamente as penitências que me foram ou vierem a ser-me impostas por este Santo Ofício; e, se desobedecer, que o não queira Deus, a uma das minhas promessas e juras, submeto-me a todas as penas e castigos que são impostos e promulgados pelos sagrados cânones e pelas outras constituições gerais e particulares contra semelhantes delinquentes. Com a ajuda de Deus e dos Santos Evangelhos, que toco com as minhas mãos.
Eu Galileu Galilei, abaixo assinado, reneguei, jurei, prometi e comprometi-me como acima ficou dito; em fé do que, para atestar a verdade com a minha própria mão, assinei a presente cédula da minha abjuração e recitei-a, palavra por palavra, em Roma no Convento de Minerva, a 22 de Junho de 1633.
.
Atordoado por um julgamento de cuja celeridade e rigor não tinha suspeitado, ele assina, sem uma palavra. Depois, lentamente, deixa estes lugares, curvado, vacilante, como que quebrado para sempre, quebrado nesse imenso orgulho que lhe tinha permitido dominar a Itália intelectual durante os últimos trinta anos. Mais tarde tomara conhecimento de que o sobrinho do papa se contava entre os três cardeais que se opunham à sentença, mas neste momento está quebrado pela mudança de parecer daquele que fora durante mais de dez anos o seu protector, o seu amigo papa Urbano VIII, que ele acreditara poder desafiar impunemente.
Enquanto se retirava lentamente para a sua casa de Florença, condenado à reclusão doméstica, a nova espalha-se pela Europa como um rastilho de pólvora. Descartes, assustado, suspendeu a publicação do seu livro consagrado à explicação do mundo, os protestantes, contentíssimos, deram a voz e a palavra escrita aos seus cientistas, recolocaram em lugar de honra os trabalhos escritos do mais respeitado de entre eles, Kepler, o matemático imperial falecido em 1630.Sábio respeitado e admirado, Galileu transformou-se de um dia para o outro em mártir. Entrou na lenda dos séculos, erigido em símbolo eterno da verdade face à vaidade, da liberdade de pensamento face à censura, da luminosa ciência face à obscura crença. O seu processo, dado como exemplo, marcou para sempre a Santa Igreja católica com o selo da intolerância e do obscurantismo.

O seu processo, resumido pela famosa expressão epuur, si muove! (que Galileu, sem dúvida, nunca pronunciou), é dado como exemplo da denegação da justiça. Contudo, nada teríamos compreendido da complexidade das relações que desde há sete séculos se entretecem entre a Igreja católica e a ciência se nos contentássemos com a simples exposição deste acontecimento.O processo de Galileu é certamente um processo intentado por uma crença a uma ciência, por um obscurantismo dogmático a um autêntico génio intelectual, mas é também o de um homem de ciência cuja arrogância desesperou uma fracção da Igreja que, no entanto, estava disposta a mostrar-se tolerante, antes de exasperar o papa, aliás seu amigo sincero.

O processo de Galileu foi também uma arma, entre outras, utilizada pelo papa para fazer face ao crescimento do protestantismo, encorajado secretamente por Richelieu, primeiro-ministro de França, antes de ser cardeal da Igreja, tendo Urbano VIII tentado restabelecer por uma sanção religiosa espectacular uma autoridade espiritual e temporal muito enfraquecida.

A partir deste processo trata-se, pois, de determinar a posição das grandes correntes de pensamento da cristandade em face do progresso científico, atitudes ambíguas, ondulantes, variáveis, frequentemente ligadas mais a considerações de ordem política do que de ordem religiosa.”

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Procrastinação académica

Texto de João Boavida, adaptado dum outro publicado no jornal “As Beiras”, acerca de um fenómeno académico tão antigo quanto as próprias academias, mas cuja investigação na área da pedagogia não é muito antiga.

Ai que prazer
Não cumprir um dever
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura
(…)
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Fernando Pessoa



A palavra, valha-nos Deus, é de tropeçar logo nela e lembra maldição divina. Refere-se ao hábito de protelar, adiar sem motivo.
Num português a puxar para o tamanco diz-se “engonhar”, em português de Lisboa, “alentejanar”, e no da Província, relativamente a Lisboa, fica bem “empalear”. Com dois sentidos: tentar levar no paleio (de Lisboa para a Província) ou no paleio se deixar levar (a Província por Lisboa). Pode ser útil, quando adia soluções não amadurecidas. Uma senhora antiga, de fino espírito e forte vontade conheci eu, que, face a problema difícil dizia: “deixem-me dormir sobre ele”. Ou “com ele” já não sei ao certo, mas ela sabia. Encontrar boa solução para caso bicudo leva tempo e fósforo.

O bom procrastinador adia por adiar. Para logo, porque não lhe apetece fazer agora. E como passou a oportunidade hoje, talvez amanhã. Porém, como amanhã também não apetece, irá adiar com promessas, para depois de amanhã, ou para mais tarde. Da semana que vem não passa, e jura. Mas passa. O problema é que o vazio de não fazer, vai ficando cheio com um fardo pesado, um mal-estar, enfim, um remorso - sentimento algo em desuso, mas como palavra ainda consta no dicionário. O problema manifesta-se em todos os sectores, é mais intenso em algumas culturas e ataca mais em certos climas. Mas afecta a vida de todos e tem enormes implicações sociais e económicas.

Há muita investigação anglo-saxónica sobre o assunto, no que diz respeito à educação escolar (J. Ferrari, C. Lay, Schouwenburg, Eerde, Wendelin, McCown, etc. Mas também em Espanha (Mercè Clariana) e em Portugal (P. Rosário, etc.).

Os aspectos estudados são inúmeros: relativas ao género, à idade, ao nível de escolaridade, à introversão/extroversão, à autonomia psico-afectiva, à consciência moral, à impulsividade, à concentração, ao controlo do tempo, aos hábitos de trabalho, às matérias a estudar, etc., etc. E também ao modo como os temas são ensinados, ao acompanhamento que professores fazem da aprendizagem, à regularidade e variedade das formas de avaliação, à motivação com que se envolvem os estudantes, à relação professor-aluno, ao ambiente familiar, ao inventivo da família, etc. Tudo aspectos a considerar porque, é evidente, a procrastinação afecta a aprendizagem e a formação cultural dos jovens.

Os estudos confirmam muito do que já se sabe: os universitários são os que mais procrastinam: assiduidade muito irregular às aulas, adiamento sucessivo do estudo, e depois noitadas de “marranço” em cima dos exames. O que não ajuda nada. O aluno, quando não abandona, vai passando, mas a um nível baixo de qualidade e, pior, não ganha gosto pelo saber, nem curiosidade e maturidade intelectual, nem perspectiva de qualificação. A assimilação das matérias é superficial, pondo em risco a futura profissionalização.

"MAIS LIVROS, MAIS LIVRES" - UM CICLO DE CONFERÊNCIAS

A expressão "mais livros, mais livres", do espanhol Màxim Huerta, dá título a um ciclo de conferências promovido pela Associação d...