terça-feira, 18 de outubro de 2011

FILME "CONTÁGIO"



E este é o trailer do filme "Contágio" em exibição nas salas portuguesas.

Contágio no Cais do Sodré

Um cartaz do filme "Contágio" que é um painel vivo feito com microrganismos. Foi feito por investigadores do ITQB (Universidade Novas de Lisboa) e IBET. Pode ser visto ao vivo na estação de Metro do Cais do Sodré, em Lisboa.

O filme promocional da WarnerBros com o cartaz vivo:


A reportagem do sapo, com entrevista à artista residente do ITQB, Patrícia Noronha:



Parar o sistema - 2

Texto na continuação de um anterior.

Na verdade, nunca mais me esqueci da solução simples que um director avançou para pôr ordem o sistema educativo: “pará-lo”.

À medida que tenho aprofundado o conhecimento do nosso sistema e doutros geográfica e ideologicamente próximos, tenho também interiorizado essa solução: num primeiro momento, pará-los; num segundo momento, reconstruí-los a partir do zero.

Parar um sistema educativo significaria fechar o ministério da Educação e todas as suas dependências, bem como todas as escolas, sem excepção.

A sociedade, habituada que está a deixar crianças e os adolescentes todo o dia na escola ver-se-ia confrontada com o enorme problema de não saber o que fazer; seria um caos, talvez... porém, um caos visível, e não mais preocupante do que aquele que, embora por vezes invisível, está instalado e que se tenta constantemente iludir.

Os professores teriam umas férias alargadas e, nessas férias, fariam aquilo que entendessem para recuperarem saberes, forças e ânimo, voltando os que quisessem mesmo ensinar, os que tivessem saudades da sua escola, da sua sala de aula, dos seus alunos.

Certas orientações internacionais para a educação, as centenas ou milhares de documentos normativo-legais (com excepção dos princípios constitucionais básicos para a educação) e de documentos curriculares e programáticos, e de outros que não são nem uma coisa nem outra, e mais os documentos avulsos, e também as centenas ou milhares de manuais escolares, sem esquecer os projectos educativos, curriculares de escolas, de turmas e os planos de actividades… tudo seria guardado num grande, enorme armazém para memória futura, mas nada disso deveria servir sequer para consulta. Não iria adiantar de muito e poderia, talvez, prejudicar, a pretendida clareza.

Entretanto, um grupo restrito, mesmo muito restrito, de pessoas legitimamente empenhadas na educação escolar, trabalharia muitíssimo para acertar, antes de mais, os princípios de onde se deveria partir e os fins que se deveriam perseguir. Era coisa para filósofos e epistemólogos, certamente, mas também para sociólogos e para representantes de diversas instâncias da sociedade (professores, certamente; encarregados de educação também… e profissionais de várias áreas).

A orientação seria a que esse grupo entendesse por certa. Não deveria estar obrigado a seguir estar ou aquela orientação a priori, apenas deveria estar obrigado a produzir uma orientação inequívoca. Afinal cada sociedade tem de determinar o que quer para a educação das novas gerações e das gerações mais velhas, e tem de se comprometer com esse objectivo, assumir a responsabilidade de o cumprir.

Uma vez chegados a um acordo consistente, traduzido em meia-dúzia (não mais) de enunciados curtos e claríssimos, era hora de os operacionalizar, de lhes imprimir funcionalidade, por quem, de facto, soubesse fazer isso.

Isto, pela ordem que se segue:
(1) produção de um número muitíssimo restrito de documentos curriculares e programáticos, breves e claros, materializados em palavras rigorosas, num todo com sentido, de modo que toda a gente os entendesse à primeira, pudesse ver o alcance e vislumbrar a transposição para a prática;
(2) formação de professores, muito pragmática; produção de documentos didácticos funcionais; e organização de escolas. Estas três áreas em simultâneo e em consonância com as directrizes dos ditos documentos. Trabalhar-se-ia intensivamente para que o sistema educativo voltasse a funcionar o mais depressa possível;
(3) depois disso, teria de se apostar no acompanhamento: análises honestas e muito concretas que poderiam justificar reajustamentos, mas sem acrescentar papéis, apenas reformulando aqui e ali os existentes…

É uma utopia? Talvez. Mas em período de crise as utopias não podem ser dispensadas.

Há, porém, neste raciocínio directo, apenas um problema: E, se o sistema recomeçasse a ser auto-gerido, a perder-se com novas entropias, como parece ser a sua tendência intrínseca?

Apresentação de Ana Maria Matute


Palavras de apresentação da escritora espanhola Ana Maria Matute e do livro “A Torre de Vigia”, edição Planeta Manuscrito, no Instituto Cervantes em Lisboa, no dia 13 de Outubro de 2011, pela escritora Cristina Carvalho:

A literatura é algo que, usando palavras, não se pode definir nem soletrar. É uma expressão artística ambiciosa, que usa sangue e corpo, que tem de ser livre – como todas as expressões de arte ou como a própria vida.

Deverá ser simples e compreensível como uma correnteza de água, como um estremecer de folhas de árvore.

Quanto a mim, o papel da literatura não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. As palavras escritas devem formar um todo compreensível, - um romance, um conto, um poema. As palavras que servem as ideias, têm de ser dádiva. As palavras não podem viver subterraneamente de modo incompreensível ou navegar ao sabor da moda; as letras não devem agrupar-se em palavras que não tenham significado. Isso não é bom. Não é essa a interrogação que a literatura precisa. Não é isso que perdura. Não é isso que prende.

O pensamento existe. A estética da linguagem também existe. O sonho também existe. As histórias existem. Os livros existem. A pessoa existe e a pessoa é a interrogação. É a pessoa que escreve histórias que deseja que a outra pessoa as leia, mas sobretudo, que as compreenda.

Ana Maria Matute é totalmente clara. Ela não escreve sobre o eterno Eu e o Tu e o Tu e o Eu mas abraça, sim, toda a humanidade. Por exemplo, em Paraíso Inabitado, Matute revela a inteira psicologia da vida desde os primeiros anos da protagonista, Adriana, que são os nossos primeiros anos rumo a um salto assombroso nesse perigoso e absurdo abismo que é a adolescência, túnel sombrio de dúvidas e indecisões que só o próprio adolescente consegue resolver.

Atravessando a vida com tantos livros escritos, tantos prémios que a consagraram universalmente, há um que destaco porque me toca particularmente, porque o sentido mais humano da literatura ainda que fantástico e submetido, aparentemente, ao reino do surreal e do maravilhoso que muito aprecio e elevo, é também, pelo que sei, o livro que a escritora mais gostou de escrever: Olvidado rei Gudú. Como ela própria afirma - , el libro que siempre quiso escribir y por el que le gustaría ser recordada! "Es un libro mágico, como la vida misma".

Toda a magia e mistério da vida é extraordinariamente bem escrito e descrito em Olvidado Rei Gudú, seus mistérios e superstições onde todas as emoções humanas são reveladas num registo de assombrosa fantasia e de poderoso conhecimento da imaginativa mente humana.

Com uma vastíssima obra que passa por muitos romances entre os quais destaco as traduções em língua portuguesa: Olvidado Rei Gudú, Aranmanoth, outro romance no género fantástico apresentado com uma escrita tão doce e envolvente, conta-nos a infância e o crescimento de duas crianças enamoradas.

Ainda em Paraiso Inabitado e de novo pela voz de uma criança se percorre a vida e os complexos estágios do crescimento numa escrita aparentemente leve e simplificada que nos conduz às mais elaboradas reflexões.

E o livro que hoje apresentamos, A Torre de Vigia.

Ao entrar na leitura deste livro imergimos imediatamente num cenário onírico, denso e misterioso onde sobressai a Natureza por vezes assustadora, outras vezes duma beleza escaldante. Todo este ambiente enevoado e surreal de homens-lobis, ventanias, campos de neve de fome e de frio mais as doçuras do estio, de ameias de castelos, baronesas e barões, veados, javalis, gansos, lobos, cavalos brancos e cavalos pretos, jovens iniciados cavaleiros, peles de ursos, flechas, salões, cozinhas e alcovas, todo este universo existe, atavicamente, em todos nós. Está nos mais altos e escondidos sótãos da nossa memória. Este universo foi, neste livro, posto a descoberto. É uma vida inteira a descobrir universos, a desvendar sonhos, uns atrás dos outros.

E com a ironia sempre presente, vivemos mais uma vez uma certa infância ou como uma criança pode e consegue sublimar atos ou situações terríveis através da construção dos sonhos.

Nesta história somos transportados, como num quadro musical em ambiente medieval, somos transportados em nuvens de cheiros, cores e sabores, interrogações, desespero e espanto.

Este livro, o primeiro duma trilogia medieval, fala-nos de um filho de boas famílias, a sua travessia da infância e entrada na adolescência com grande desassossego. A castelã, a baronesa de Mohl, linda, ruiva e branca que o inicia no amor carnal aos treze anos. Também essa atitude, brutal e estranha, fá-lo perceber os mais rudimentares indícios da constituição psicológica do ser humano. Tudo o que de mais escondido está, para além da fronteira do conhecimento, rente às superstições mais subterrâneas que todos nós temos e que desejamos esconder. Conseguimos perceber este jovem a pensar e a transformar-se todos os dias, o que causa alguma angústia.

As personagens avassaladoras quer animais quer humanas são fascinantes. Krim-Cavalo é um ser inesquecível, lendário e protetor do jovem iniciado. Eu penso mesmo que Krim-Cavalo podia ser o jovem, ele mesmo. Este jovem sem nome. Este fantasma. O barão e a baronesa de Mohl, outras personagens tão excessivas quanto misteriosas. O próprio pai, um poderoso desgraçado que, sem amor para dar, é como se personificasse a eterna noite dos homens.

“A Torre de Vigia” é pois, uma história de desejos, de descoberta, a eterna luta entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas e ao ler este romance pensei sempre no homem à face da Terra, vi-o a tentar avançar não sei para onde, nem porquê, nem para que destino ou fatalidade.

É esta a arte de Ana Maria Matute: a literatura, esse milagre.

Escreveu também contos e muitas histórias para a infância e juventude. Os prémios e reconhecimentos literários são inúmeros. Em 2010 recebeu o Prémio Cervantes, o mais alto galardão espanhol atribuído à literatura.

A arte literária é mais uma insignificância do cosmos. Quantos e quantos quilómetros de linhas já foram escritas? Quanto pensamento glorioso já oferecemos aos nossos deuses? Quantos restam? Quantos encantos e desencantos vamos sofrendo? O que é que aprendemos? O que é que valemos? Que interesse tem tudo? Tanta interrogação…

Sei, sinto que Ana Maria Matute tem absoluta consciência das penas que uma pessoa suporta ao longo desta permanência por aqui. Os seus livros são documentos de extraordinária importância que desenham a vida e as experiências do quotidiano de alguém que conviveu com a guerra civil de Espanha e a segunda grande guerra mundial e o pós-guerra. A sua literatura é um grito de libertação através do poder imagético de cada um. A fantasia está expressa em muitos dos seus livros atingindo o pico em Olvidado Rei Gudú e Aranmanoth e ainda, muito embora estes livros sejam um hino à poderosa fantasia humana, é também a constatação da triste realidade da condição humana.

Ana Maria Matute enche-me de orgulho como mulher, como escritora, como exemplo de conhecimento, de experiência, de sabedoria, de humanidade e celebro-a em todas as suas vertentes e capacidades. Exalto-a e elevo-a. Desejo-lhe, com toda a admiração e a par desta complexa e temporária passagem pelo planeta Terra, muita saúde e as maiores felicidades em tudo, na sua condição humana e na sua literatura.

CRISTINA CARVALHO

Parar o sistema - 1

Há uns anos, penso que cinco ou seis, convidei para uma aula de pedagogia, sobre o funcionamento do sistema educativo, o presidente do conselho executivo duma certa escola secundária que considerava, e ainda considero, das melhores do país.

Esse (agora) director começou por afirmar a dificuldade de orientação nesse sistema pela falta de uma linha condutora.

Didacticamente, explicou: a dispersão das políticas e medidas para o ensino por inúmeros documentos, torna o domínio do seu conhecimento praticamente impossível; as incongruências que, quando comparados, revelam, perturbam a sua compreensão; as mudanças constantes impede uma reflexão digna desse nome e o consequente aperfeiçoamento; a linguagem equívoca não pode deixar de suscitar dúvidas insolúveis.

Tudo isto, e muito mais, faz perder tempo precioso e energia, gera conflitos inúteis, provoca insegurança em quem tem de decidir. Desencadeia, enfim, um desnorte que parece ter-se tornado geral, crónico e impossível de superar…

Aqui chegados, um estudante perguntou: “Se tivesse oportunidade para mudar o estado que refere, o que faria?”. O convidado, ponderou e respondeu muito naturalmente: “Parava o sistema por um, dois anos ou os que fossem necessários para ler tudo, ver o que se poderia aproveitar e começava a partir daí".

Este texto continua aqui.

Newton, Leibniz e Djerassi


Notícia recebida da companhia marionet:

A marionet, companhia de teatro de Coimbra, vai reunir nesta cidade, no próximo mês de Novembro, três personalidades marcantes do mundo da ciência: Isaac Newton, Gottfried Leibniz e Carl Djerassi.

O pretexto para esta reunião é a estreia portuguesa de ‘Cálculo’, no dia 17 de Novembro no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra(UC), uma peça teatral de Carl Djerassi que revela a célebre disputa entre Newton e Leibniz sobre a prioridade na invenção do cálculo matemático.

Djerassi, químico de renome por ter sido um dos que sintetizou o primeiro esteróide contraceptivo oral e, por isso, frequentemente cognominado de “pai da pílula”, tem-se dedicado nas últimas décadas à criação literária, onde vem reflectindo sobre os modos de funcionamento da ciência e dos cientistas e sobre as questões éticas que muitas vezes se lhes colocam. A marionet, companhia que se tem destacado no cruzamento entre teatro e ciência, encontra-se assim neste espectáculo com um autor com preocupações artísticas da mesma natureza.

Em ‘Cálculo’, uma peça que escreveu em 2003, cria um enredo em torno do embate aceso entre Newton e Leibniz a propósito da invenção do cálculo matemático, centrado em particular no comité da Royal Society inglesa criada para avaliar qual dos cientistas teria sido o primeiro. Curiosamente, Newton, na época presidente da Royal Society, terá sido ele próprio a nomear os membros desse comité e a escrever o relatório final, atribuindo-se a si próprio a prioridade na invenção do cálculo. A peça, explorando estas manobras de bastidores, coloca um foco sobre o comportamento moral de Newton e dos membros do comité, e sublinha a enorme importância que é dada, mesmo hoje em dia, à prioridade nas descobertas ou invenções científicas.

A visita destas três personalidades a Coimbra será composta por vários momentos. No dia 15 de Novembro às 17h, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, Carl Djerassi dará uma palestra intitulada “Science in theatre: from the page to the stage”, seguindo-se, no mesmo local, às 18h, o lançamento da tradução portuguesa de ‘Cálculo’ editada pela Imprensa da Universidade de Coimbra.

A estreia do espectáculo ‘Cálculo’ pela marionet, será no dia 17 de Novembro às 21h30, na sala Carlos Ribeiro do Museu da Ciência, e a peça ficará em cena no mesmo local até ao dia 3 de Dezembro, de 4ª a Sábado, às 21h30.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O GENOMA PESTILENTO (1)


Crónica publicada no "Diário de Coimbra":

A pesta negra, nome por que ficou designada a doença, várias vezes pandémica, que vitimou entre 1347 e 1530 (Baixa Idade Média) cerca de um terço da população europeia, da China e do Médio Oriente, é causada pela bactéria Yersinia pestis.

A Y. pestis é uma bactéria Gram-negativa, muito patogénica aos seus hospedeiros que muito raramente lhe sobrevivem. A extrema virulência deste micróbio deve- se, em parte, á presença variável de uma molécula na sua superfície (um lipopolissacarídeo), que causa a activação desproporcionada do sistema imunitário do hospedeiro. A resposta imunitária à bactéria traduz-se pela elevada produção de substâncias designadas por citocinas, que causam vasodilatação generalizada, colocam em estado de sítio todo o sistema imunitário potenciando o choque séptico. Possui uma elevada resistência à destruição pelas células do sistema imunitário, não só resistindo à fagocitose por macrófagos como induzindo a apoptose (destruição programada) destas células imunitárias.

A espécie Y. pestis está preparada, adaptada, para contornar todas as estratégias de ataque imunitário. Para além disso, provoca a destruição de filamentos de actina, uma proteína fundamental para a função e arquitectura muscular. Por isto, a progressão da doença diminui irreversivelmente a força muscular. A desagregação tecidular e a vasodilatação ocasionam inúmeras hemorragias o que, conjuntamente com a degeneração da hemoglobina, instala uma cor azul-esverdeada que evolui para o negro que imprime a peste na pele. O corpo veste-se de negro e a morte celular pestilenta o ar que já não se respira.

Apesar de o seu órgão alvo ser o pulmão (o que permite que a bactéria possa ser transmitida de pessoa para pessoa através das gotículas expelidas por um espirro ou tosse), provocando “pseudo-tuberculoses”, a doença manifesta-se como uma zoonose, aparecimento de manchas e inchaços nas axilas e virilhas, comummente apelidados por bubões e daí a sua designação de peste bubónica.

Este microorganismo é transmitido ao ser humano por pulgas (Xenopsylla cheopis) que estiveram em contacto com ratos-pretos (Rattus rattus) e alguns outros roedores infectados, animais que são hospedeiros preferenciais daquele agente patogénico, que lhes é endémico e normalmente fatal. As pulgas são vectores da transmissão inter-indivíduos da Y. pestis que, uma vez sugada com o sangue dos roedores, se multiplica no intestino do insecto. De picada em picada, a pulga dissemina a bactéria de roedor em roedor, e destes aos humanos, mas também a gatos e cães de companhia.

Foi Paul Louis Simon, na última década do século XIX, que identificou pela primeira vez a pulga como principal vector transmissor da doença. A bactéria foi pela primeira vez isolada em 1894, em Hong Kong, pelo bacteriologista Alexandre Yersin. Tendo determinado o modo de transmissão da bactéria, ficou a ela associado pela atribuição do seu nome ao género do micróbio pestilento: Yersínia pestis.

Pelo exposto, torna-se evidente que as condições de higiene e saúde pública, de exposição diminuída a animais infectados e pulgas, ou à eliminação destes, são factores determinantes para o controlo da disseminação do agente causador da peste.

Ricardo Jorge com os seus colaboradores.

Em Portugal devemos a prova epidemiológica, clínica e bacteriológica, da peste bubónica, a Ricardo Jorge. Em Junho de 1899, quando da terceira grande pandemia da peste atingiu a cidade do Porto, a acção do patrono da Saúde Pública portuguesa impediu que o flagelo tivesse sido mais devastador. Contudo, a implementação das acções profilácticas, como a evacuação e desinfecção de casas, galvanizou a fúria popular que, manipulada e incentivada por alguns grupos políticos oportunistas da ignorância pública, obrigaram a Ricardo Jorge, literalmente, a fugir da cidade para salvaguardar a sua própria vida.

(Continua)

António Piedade

Introdução histórica a Cálculo por Carl Djerassi


Publico a introdução de Carl Djerassi à sua peça de teatro Cálculo, que vai estrear, com a presença do autor, em Coimbra em Novembro próximo, ao mesmo tempo que a Imprensa da Universidade de Coimbra lança o livro contendo o respectivo texto. A peça aborda a rivalidade entre Newton e Leibniz a propósito da prioridade na invenção do cálculo:

"Praticamente todas as sondagens da escolha do público para as pessoas mais importantes do segundo milénio incluem o nome de Isaac Newton. Uma sondagem publicada na edição de 12 de Setembro de 1999 do Sunday Times Magazine de Londres classificou-o em primeiro lugar, acima mesmo de Shakespeare, Leonardo da Vinci, Charles Darwin e similares estrelas canonizadas.

Entre os seus feitos de mais relevo está a investigação, começada por volta de 1670, sobre a luz e a cor (publicada finalmente em 1704 no seu livro Opticks), mas ele é mais conhecido pela enunciação das leis do movimento e da gravitação e as suas aplicações à mecânica celeste, como está sumariado num dos maiores tomos da ciência, o Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, habitualmente encurtado para PRINCIPIA – cuja 1.ª versão foi publicada em 1687.

O ter colocado a Física sobre uma firme fundação experimental e matemática – uma abordagem cunhada de “Newtonismo” – granjeou a Newton a honra máxima de ser considerado o pai do pensamento científico moderno. Contudo, uma análise histórica revisionista, baseada, em parte, na descoberta do economista John Maynard Keynes de um enorme acervo de papéis e documentos não publicados, levou alguns investigadores a considerar Newton como o último grande místico em vez de primeiro cientista moderno. Apesar do seu trabalho em Física e Matemática ter desencadeado a época do Iluminismo, os historiadores revisionistas salientam que, nem como pessoa, nem como intelecto, ele lhe pertencia. À medida que, na última metade do séc. XX, se iniciou o desmascarar de alguma da hagiografia em torno de Newton, tornou-se evidente que este despendia muito mais tempo com a Alquimia e a Teologia Mística do que com a “ciência” – tendo escrito mais de um milhão de palavras sobre cada um destes dois interesses, muito mais do que todos os seus escritos sobre Física juntos! A sua biblioteca alquímica era enorme e as suas experiências alquímicas, embora mantidas secretas para todos à excepção de alguns de íntimos e alguns criados, consumiram muitas das suas horas do dia durante décadas.

Até as suas convicções religiosas tiveram de ser mantidas em segredo, porque a sua fé no Arianismo (que sustenta que Cristo e Deus não têm a mesma essência) era considerada herética no seio da Igreja Anglicana.

Nascido no dia de Natal no ano da morte de Galileu, Newton estava tão convencido dos seus poderes sobrenaturais que uma vez construiu um anagrama do seu nome (Isaacus Neutonus) em termos de “aquele que é sagrado para Deus” (Jeova sanctus unus). O seu estatuto de membro do Trinity College e de professor “Lucasiano” de Matemática em Cambridge (um cargo agora ocupado por Stephen Hawking), a sua posterior promoção para o importante cargo governamental de Master of the Mint, e a concessão do título de cavaleiro pela rainha Anne, teriam exigido uma clara adesão e até ordenação na Igreja Anglicana. Contudo, Newton, Provedor da Casa da Moeda, conseguiu evitá-la durante toda a sua vida de adulto, tendo um desafio aberto apenas surgido em 1727, no momento da sua morte, com 85 anos, quando recusou os últimos ritos. Mesmo este incumprimento não impediu um funeral de estado na Abadia de Westminster, nem a inauguração aí, em 1731, de um monumento como justo reconhecimento das suas elevadas contribuições para a ciência e dos seus serviços à Inglaterra.

Como pessoa, Newton não só era profundamente complexo, como também moralmente imperfeito. Alguns adjectivos que poderiam ser utilizados para descrever as facetas da sua personalidade são distante, solitário, reservado, introvertido, melancólico, “sem sentido de humor”, puritano, cruel, vingativo e, talvez o pior de todos, implacável. Mesmo uma das mais famosas citações de Newton, “Se eu vi mais além foi por me apoiar nos ombros de gigantes”, está aberta a diferentes interpretações. Muitas vezes citada como um sinal da sua modéstia, foi também interpretada como o derradeiro embrulhar venenoso de uma carta dissimuladamente cortês endereçada a um dos seus mais pungentes inimigos científicos, Robert Hooke, de pronunciada estatura anã. Vale a pena assinalar que a origem da frase antecede longamente Newton, uma vez que remonta pelo menos a John Salisbury, no século XII.

O traço de carácter mais relevante para a presente peça, Cálculo, é a natureza obsessivamente competitiva de Newton. Frank E. Manuel escreveu em 1968, numa das grandes biografias de Newton, que “a violência, a amargura, e a paixão incontrolada dos ataques de Newton, embora dirigidos através de canais socialmente aceites, são quase sempre desproporcionados face aos factos apurados e ao carácter das situações”. Este argumento, que caracteriza alguns dos conflitos mais conhecidos e acutilantes de Newton como aqueles com o físico Robert Hooke ou John Flamsteed, o astrónomo real, aplica-se como uma luva à batalha, longa de décadas, com um contemporâneo alemão de proeza intelectual quase semelhante, Gottfried Wilhelm von Leibniz.

Para além das suas contribuições monumentais para a Física, sumariadas no seu PRINCIPIA, Newton foi também um inventor do Cálculo (a que primeiro chamou Método de Fluxões). No alto do Parnaso ou no fundo do túmulo, ele exclamaria imediatamente: “Um inventor? Não fui eu o criador do Cálculo – um alicerce da matemática moderna uma vez que revelou pela primeira vez a relação entre velocidade e área?” Porque será que tal génio colocaria sequer tal questão? Porque Sir Isaac era também um ser humano falível, para quem a precedência – e especialmente a precedência quanto ao Cálculo – importava acima de tudo o resto.

Mas a precedência só pode ser estabelecida após se ter chegado a um acordo quanto à definição do termo. E, em ciência, onde múltiplas descobertas independentes ocorrem demasiado frequentemente, semelhante definição, sem ambiguidades, ainda não foi produzida.

Por exemplo, na peça Oxigénio (escrita em conjunto com Roald Hoffmann) perguntámos se a derradeira honra da descoberta do oxigénio – um acontecimento que desencadeou a revolução da química moderna – deveria ser atribuída ao primeiro descobridor, à pessoa que primeiro publicou, ou àquele que primeiro compreendeu a natureza da descoberta. No caso do Cálculo, é agora claro que Newton foi o primeiro em termos de concepção, mas Leibniz o primeiro em termos de publicação. Mas uma vez que, de acordo com o pensamento e as palavras de Newton, “segundos inventores não têm direitos”, a resolução desta disputa de precedência requereu, para ele, uma luta até à morte, como um gladiador num circo romano. Mas, ao contrário dos gladiadores, Newton era um mestre consumado no uso de sub-rogados, tendo continuado a luta mesmo após o enterro de Leibniz em 1716.

A luta pela precedência do Cálculo – com cada um dos protagonistas, no limite, a acusar o outro de pirataria – foi, nas palavras de William Broad, “travada na sua maior parte pelo amontoado de pequenos escudeiros que rodeavam os dois grandes cavaleiros”. É através da história de alguns dos “pequenos escudeiros” de Newton que a peça Cálculo procura examinar um dos maiores lapsos éticos daquele.

O cenário foi concebido por Nicolas Fatio de Dullier, um brilhante filósofo natural de uma família de Genebra, que se tornou no mais bajulador discípulo de Newton. Nos últimos anos têm vindo à superfície provas indirectas, mas razoavelmente persuasivas, de uma atracção homossexual (embora não consumada) entre Newton e Fatio, vinte anos mais novo. Por vezes intitulado de “o macaco de Newton”, Fatio disparou a primeira salva brutal, acusando abertamente Leibniz de plágio. Tal como Newton, Fatio nunca casou; tal como Newton, entregou-se a experiências alquímicas e ao fanatismo religioso; mas, ao contrário do seu mentor, ele foi muito mais além nesta matéria ao associar-se abertamente aos Profetas de Cevennes, que “falavam em línguas” e ficavam possessos durante êxtases religiosos. A acusação de Fatio a Leibniz não teve seguimento, em parte devido aos excessos religiosos do primeiro, mas em 1708 outro leal seguidor de Newton, John Keill (um membro da Royal Society assim como “um cavalo guerreiro, cujo ardor era tão intenso que por vezes Newton tinha de puxar as rédeas”), repetiu formalmente a acusação de plágio a Leibniz – uma acusação publicada no Philosophical Transactions da Royal Society, em 1710. E quando Leibniz, enquanto membro estrangeiro da Royal Society, exigiu uma retractação oficial, Newton, na sua qualidade de presidente, criou uma comissão de onze membros da Royal Society (“um Comité Numeroso de Cavalheiros de várias Nações”) para julgar o conflito. A 24 de Abril de 1712, um relatório de cinquenta e uma páginas (parcialmente em Latim e repleto de referências a cartas privadas assim como a cartas e documentos publicados, fundamentalmente na posse de John Collins, correspondente de Newton) foi publicado pela Royal Society sob o título “Commercium Epistolicum Collini & aliorum” (“troca de correspondência entre Collins e outros”) no qual a acusação de Keill era totalmente apoiada. Tal procedimento, gritantemente tendencioso, embora claramente condenável, era, apesar de tudo, de esperar, tendo em conta que Newton, enquanto presidente da Royal Society, tinha indirectamente nomeado o comité. Mas um exame minucioso revela pormenores ainda mais obscuros.

A composição do comité, que nunca subscreveu abertamente o documento, manteve-se desconhecida por mais de cem anos. Não só se sabe agora a identidade dos onze membros, mas, ainda mais importante, as datas das suas nomeações. O famoso astrónomo Edmond Halley, o físico e reputada personalidade literária John Arbuthnot, e os menos conhecidos William Burnet, Abraham Hill, John Machin e William Jones, foram todos nomeados a 6 de Março de 1712.

Francis Robartes (conde de Radnor) foi acrescentado a 20 de Março, Louis Frederick Bonet (o representante em Londres do rei da Prússia) a 27 de Março, e mais três membros, Francis Aston e os matemáticos Brook Taylor e Abraham de Moivre, a 17 de Abril. Porque serão estas datas importantes? Porque é manifestamente impossível que, pelo menos os últimos três membros, nomeados a 17 de Abril, tivessem algo a ver com um longo e complicado relatório lido publicamente 7 dias depois! De facto, nenhum dos onze membros era responsável enquanto autor, porque o próprio Newton escrevera o relatório! E, apesar do argumento de que o comité era composto por “Cavalheiros de várias Nações”, apenas dois dos onze – Bonet e de Moivre – poderiam ser categorizados como estrangeiros. No caso de Bonet, sabe-se tão pouco acerca dele que nem sequer o Sackler Archive Resource of Fellows da Royal Society contém a sua data e local de nascimento, embora os arquivos alemães e suíços lancem alguma luz sobre ele. Poder-se-á legitimamente perguntar qual a razão por que um grupo tão variado de membros da Royal Society, alguns deles da mais elevada distinção, ter-se-iam permitido ser tão descaradamente manipulados por Sir Isaac Newton – ostensivamente escolhidos para serem cães de guarda e depois rapidamente transformados em cães de circo mudos.

Cálculo traz alguma compreensão conjectural a este escândalo científico, através das personalidades de John Arbuthnot e dos dois estrangeiros, Louis Frederick Bonet e Abraham de Moivre, estando a maior parte das referências biográficas fortemente alicerçadas em registos históricos. E, apesar do encontro específico, em Cálculo, dos dois dramaturgos Colley Cibber e Sir John Vanbrugh ser inventado, ambos são personagens históricas cujas respectivas peças Love’s Last Shift e The Relapse: Or Virtue in Danger e a sua derradeira colaboração, The Provok’d Husband, são parte do orgulhoso cânone do drama inglês da Restauração."

Carl Djerassi, Introdução do Autor in Cálculo, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011 (tradução de Mário Montenegro, no prelo)

MORCEGOS DE BIBLIOTECA


Com a devida vénia transcrevo o artigo de Carla Tomás, jornalista do Expresso, que saiu naquele semanário, a 20 de Agosto sobre os morcegos da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra (na foto um morcego-rabudo):

"Quando o sol baixa para o dia ar lugar à noite, os pequenos guardiões dos livros saem dos seus esconderijos por trás das altas estantes de talha dourada e iniciam a sua missão. Não há traça ou mosquito que se atreva a entrar aqui e sobreviva por muito tempo. Quais soldados em defesa do reino da Biblioteca Joanina, em Coimbra, os morcegos erguem asas em defesa dos 80 mil livros antigos que ajudam a conservar e transformam os seus inimigos num repasto.

Duas espécies autóctones dos únicos mamíferos voadores há muito que fizeram da “casa da Livraria” — mandada erguer no século XVIII pelo “Magnânimo” D. João V — o seu condomínio privado. As grossas paredes de dois metros, o lusco-fusco no interior e a temperatura permanentemente amena de 18-20 graus criam o habitat ideal para livros e morcegos. A estabilidade da temperatura só é interrompida pelo abrir e fechar da porta para entrarem pequenos grupos de visitantes.

Não é certo quantos e que exemplares destes quirópteros aqui se albergam. Sabe-se apenas que a maioria dos morcegos precisa de comer o dobro do seu peso em insetos por noite e que alguns se podem alojar em fissuras de 5 milímetros.

É certo que “não existem provas científicas do seu papel conservador”, refere o até há pouco diretor da biblioteca, Carlos Fiolhais. Porém, “é só somar um mais dois: os morcegos comem insetos, os insetos gostam de comer papel, e os livros estão em bom estado” — sejam eles bíblias, prédicas ou tratados de direito ou de anatomia dos séculos XVII ou XVIII.

Numa expedição encetada há cerca de dois anos, o biólogo Jorge Palmeirim detetou a presença de diferentes espécies cavernícolas, mas só conseguiu identificar uma: o morcego-rabudo. Mas este é apenas um inquilino diurno da ‘caverna livreira’, já que “os rabudos não gostam de
caçar em espaços fechados e são capazes de se deslocar 50 quilómetros numa noite”, explica o investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Restam outras hipóteses: serão orelhudos, como os encontrados na biblioteca do convento de Mafra? Ou morcegos-rato, “que gostam de caçar insetos rastejantes”? Sejam de que subespécie forem, são uma atração quase tão grande como o espólio histórico aqui guardado. Até o escritor Umberto Eco se refere a eles no seu livro “A Obsessão do Fogo” e uma cadeia de televisão alemã já fez uma reportagem sobre o assunto.

Visitantes nacionais ou estrangeiros já ouviram falar deles e perguntam frequentemente a Isabel Cardoso, a bibliotecária que os introduz na nave central, onde se escondem e quantos são. Isabel Cardoso já sabe dizer morcego em inglês, francês, espanhol e italiano. Afinal soma 18 anos de trabalho na Joanina. É ela que cobre as mesas barrocas com uns mantos de couro para protegê-las do guano (cocó) dos morcegos todos os finais de tarde e os retira todas as manhãs. E foi ela quem, num fim de dia do verão passado, soltou um morceguinho que caíra na lata dos chapéus de chuva, junto à porta de entrada.

Com a época estival a avançar, “ouvem-se os morcegos chilrear mais do que nunca”, conta. Finda a época de reprodução primaveril, multiplicam-se os sons vindos de trás das estantes e os excrementos sobre os mantos de couro. Vê-los é coisa rara. As melhores probabilidades acontecem nas noites de concerto de música barroca, “como que enfeitiçados por uma qualquer
flauta de músico de Hamelin”, ironiza Fiolhais. No teto, um fresco da figura feminina e diáfana da sabedoria observa tudo.

Carla Tomás
ctomas@expresso.impresa.pt

CURIOSIDADES

- Em 2011 celebra-se o Ano Internacional do morcego, espécie protegida por lei.

- São conhecidas 27 espécies de morcegos em Portugal (todas com hábitos cavernícolas); nove encontram-se ameaçadas.

- Por cá, os únicos mamíferos voadores pesam entre 4 e 37 gramas e têm uma envergadura de 18 a 41 centímetros."

ONDE SE VOLTA A FALAR DOS "PROFESSORES DE GINÁSTICA"


“Há sempre um modo diferente de ver os problemas – depende ‘del cristal com que se mira’” (Professor Fernando Pádua, presidente do Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva).

Num comentário ao meu post anterior, aqui publicado com o título “Quando uma ‘boutade’ se torna numa piada de mau gosto” (15/10/2011), o leitor Daniel Marques chamou a minha atenção para o facto desta “piada de mau gosto" não merecer os direitos de autor por parte da Prof.ª Doutora Maria de Lurdes Rodrigues.

Sempre disponível a corrigir os meus erros, prestei-me a “rebobinar” a intervenção do Dr. Artur Santos Silva. Na verdade, como muito bem escreve este leitor/comentador, o Dr. Artur Santos Silva foi o orador que antecedeu a Prof.ª Doutora Maria de Lurdes Rodrigues, que, pelos vistos, embalada pelo rasgado elogio que este lhe teceu, reproduziu o que então ouvira da sua boca. Mas, pelos vistos, achou-lhe tanta graça que até o bisou para que não houvesse o risco de passar despercebido. Daí eu não me obrigar a retractar perante a Prof.ª Doutora Maria de Lurdes Rodrigues porque o que escrevi, sem ser de "pena ao vento", como diria Eça, está escrito sem necessidade de eu lhe retirar uma vírgula sequer.

Portanto, “nestas circunstâncias que são simultâneamente humilhantes de suportar, humilhantes de considerar e humilhantes de descrever” (Charles Dickens), o que escrevi antes sobre essa graça de mau gosto encaixa, de igual modo, sobre o seu autor inicial por dois motivos:

1. Sendo, desde de 2009, o licenciado em Direito Artur Santos Silva Presidente do Conselho Geral da Universidade de Coimbra devia saber (sabe-o com certeza!) que a oitava e última Faculdade dessa Universidade tem o nome de Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física e não o de Faculdade de Ciências do Desporto e “Ginástica”.

2. Por outro lado, se alguma vez tivesse tido a necessidade de ir às consultas do Hospital da Universidade de Coimbra saberia que os médicos não doutorados são aí tratados por doutores e os doutorados por Professores.

Passando adiante, detenho-me sobre a aceitação que a criação desta faculdade mereceu por parte de figuras gradas da Universidade de Coimbra (UC), pondo em justo destaque (embora correndo o risco de omissão involuntária de outros nomes) a acção conjunta e importante que tiveram os Professores Rui de Alarcão (catedrático de Direito e Reitor da UC), António Poiares Baptista (catedrático de Medicina), António Pinho Brojo (catedrático de Farmácia) e, last but not least, Manuel Viegas de Abreu (catedrático de Psicologia e Ciências de Educação).

Sei do que falo, por ter sido docente convidado, aquando da respectiva criação (por aprovação unânime do respectivo Senado Universitário), e ter sido, anteriormente, docente por concurso no arranque do Instituto Superior de Educação Física da Universidade do Porto (1975). Criada na década de 60, havia, até então, no Porto apenas, uma escola média de formação de instrutores de Educação Física, profissionais que a Portaria n.º 20.786/64/ de 4 de Setembro, subordinava à orientação dos professores de Educação Física.

Mas, seja como for, isto dos tratamentos (ainda que só como mera forma de cortesia) tem muito que se lhe diga, embora Camilo nos tenha legado que “se pode asnear nos tratamentos”. Por outro lado, não me parece ser esta uma questão de lana caprina. Não o é, certamente, como se verifica pela atenção que lhe dedicou o Professor Rodrigo de Sá Nogueira (1892-1974), licenciado pela Universidade Clássica de Lisboa e doutorado pela Universidade de Coimbra, tido como o mais competente foneticista português, ao debruçar-se sobre esta temática quando escreveu: ”Nos cursos superiores há coisas curiosas. Os formados pelas Faculdades de Letras, Ciências e Direito são licenciados; os médicos e os veterinários são doutores. Em presença disto que fazem os licenciados? Para não desmentir o espírito nacional, fingem que não conhecem a lei e, como quem não quer a coisa, deixam-se chamar doutores, quando se não intitulam a si próprios”.

Todavia, como é da profissão dos professores de Educação Física que estamos a falar, temo que alguma confusão criada a este respeito se fique a dever ao facto de a promiscuidade que se verifica neste exercício profissional que mereceu, na década de 50, de um antigo professor do Instituto Nacional de Educação Física, Quintino da Costa, a seguinte, e contundente, crítica: “Enquanto os médicos, em tempos idos, só tiveram como competidores os barbeiros, o professor de Educação Física vê ainda o seu campo invadido por contorcionistas da lei que às claras ou na penumbra, logram alcançar um papelzinho com o ‘imprimatur’ do Estado”.

Curiosamente, acontece que os cirurgiões, membros do muito prestigiado e exigente Royal College of Surgeons of England, usam o tratamento de Mr, em vez de doctor, não enjeitando o seu passado de herdeiros de uma prática secular de barbeiros. Agora o que eu duvido é que gostassem de ser tratados por barbeiros, ainda que mesmo, numa sessão pública portuguesa com a projecção mediática dos Grandes Debates do Regime, promovidos pela Câmara Municipal da sempre leal e mui nobre Cidade Invicta.

domingo, 16 de outubro de 2011

Porque é que os professores bebem?

Chega-me à caixa de correio um conjunto de perguntas de testes com as respectivas respostas de alunos (serão americanos? ingleses?...). O título é "porque é que os professores bebem?". O exemplo que escolhi e que abaixo reproduzo ilustra bem esse título.

Os catastrofistas

Quando certos economistas afirmavam, com grande segurança, a ruína, a ruptura invitável e muito próxima do sistema financeiro europeu, com particular impacto em alguns países, entre os quais o português, dizia-se que não era assim, que não podia ser assim, que esses economistas estavam errados. Políticos e pessoas comuns consideravam-nos uns pessimistas, uns catastrofistas. Afinal, os dias, os meses, os anos passavam e nada se via de particularmente inqueitante que permitisse dar-lhes objectivamnte desse razão.

Mas, como bem sabemos, aconteceu.

Olhando para esse passado ainda tão próximo, não podemos deixar de perceber que, lamentavelmente, esses "catastrofistas" estavam certos, certíssimos; desconfio, até, que, por lhes escaparem dados (alguns eram, e são, segredos bem guardados) nem eles previram a inteira dimensão da desgraça. A desgraça que é o retrocesso em direitos constitucionais, porque direitos humanos.

Um desses direitos é o direito à educação escolar. À educação escolar para todos, sem qualquer distinção.

Não posso deixar de reconhecer que esse direito está em causa desde há muito. Um certo discurso ideológico e as medidas políticas (para o currículo, para a selecção, formação e a avaliação de professores, para o funcionamento das escolas…) têm gerado erros atrás de erros. Todos gravíssimos e a acumularem-se, produzindo um estranho engenho em auto-gestão, sem rumo nem controlo.

Alguns professores, investigadores, pensadores têm feito soar o alerta: apesar de haver excepções, os alunos do ensino básico, secundário e superior não aprendem nem manifestam vontade de aprender o que seria desejável que aprendam. Não sabem o que pensar e muito menos o que fazer. A desorientação consolida-se e alia-se a uma certa má consciência de não cumprirem um dever: o dever de educar.

Será que mais dia menos dia se irá reconhecer, abertamente, que o sistema de educação faliu como faliu o sistema económico? Se for, quando o será? E haverá uma espécie de FMI, a impor medidas de urgência? E serão medidas que contribuirão para a educação de todos, ou apenas de alguns?

sábado, 15 de outubro de 2011

Feliz Dia dos Professores:Decreto-Lei Imperial de D. Pedro I em 15 de outubro de 1827



Quando uma "boutade" se torna numa piada de mau gosto



“Pode-se asnear nos tratamentos; mas na gramática gira mais fino"

(Camilo Castelo Branco, 1825-1890).



Acabo de assistir à intervenção, na passada quinta-feira, registada em vídeo, da ex- ministra da Educação, do XVII Governo Constitucional, Maria de Lurdes Rodrigues, sobre “A Educação em Portugal”.

Como é sabido, para começar uma intervenção oratória nada melhor de uma piada inicial para desanuviar um ambiente a que o semblante carregado da oradora não ajuda. Quiçá por esse facto, face à sua acção altamente polémica como antiga titular da pasta da Educação dessa técnica se utilizou ela na sua prelecção - em elogio à sua acção ministerial (ora, como nos legaram os latinos, laus in ore proprio vilescit”) - ao começar por esclarecer a assembleia "não ser (e cito-a, ipsis verbis) o Senhor Professor Carlos Fiolhais professor de ginástica”. Isto é, como se a estatura deste ilustre homem da Ciência e catedrático da vetusta Universidade de Coimbra não fosse sobejamente conhecida e reconhecida para dispensar um esclarecimento desnecessário, impróprio e, sobretudo, deselegante para terceiros.

Desta forma, na sua tentativa infeliz de ser graciosa para “agarrar a plateia” fez-se ela autora de uma graçola que deixaria de o ser se tivesse optado por se referir à sua própria condição e exemplo de antiga professora primária, diplomada por uma escola média, numa altura em que desde o dealbar da década de 40 os professores de Educação Física (e não de“ginástica” em deselegância comparável a chamar boticários aos actuais farmacêuticos) passaram a ser formados por uma escola superior oficial não universitária (INEF, actualmente Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa), a exemplo de outros quatro prestigiados e prestigiantes cursos superiores não universitários: Arquitectura, Escola do Exército (actual Academia Militar), Escola Naval e Escola Superior Colonial. Mas mesmo já em anos anteriores, tinha existido uma escola superior privada para a formação de professores de Educação Física a funcionar na Sociedade Portuguesa de Geografia. Acresce que estes exemplos, atrás citados, encontram raízes, por exemplo, nas antigas escolas médicas e cirúrgicas de Lisboa e do Porto antes da criação das universidades destas duas cidades em 1911.

Mas talvez esta actual professora universitária de Sociologia possa beneficiar da leitura de um excerto de um texto que o Professor António Manuel Baptista, catedrático de Física, produziu na imprensa acerca dos títulos académicos porque, segundo ele, “muitos dos títulos actuais servem apenas para que lhes pendurem pesos leves intelectuais que usam para polir com eles as suas pequenas vaidades não aceitando a tremenda responsabilidade que a associação com os títulos impõe” (“Professor, para que te quero?”, Semanário, 17/11/84).

E prossegue o autor do referido artigo: “Como se sabe, em nosso tempo, onde insultamos a democratização pela mediocratização de tudo [proféticas palavras estas para o caminho que a Educação viria a seguir com as Novas Oportunidades], em vez de honrarmos os universitários formados em Educação Física com o título apropriado, pegamos no título de professor e colocamo-lo nas camisolas de ginástica e desporto o que bem visto é uma solução à portuguesa de usar a beca ou toca como fato de treino”.

Assim, não pode deixar de ser lamentado ter havido, em nossos dias, uma antiga ministra da Educação incapaz de distinguir o titulo profissional de professor de Educação Física da prática exercida por antigos praticantes de ginástica (os chamados "professores de ginástica") seus antecessores como foram os barbeiros dos actuais e muito prestigiados médicos-cirurgiões. Mas nada disto teria importância se, como escreveu Eça, a prática da vida não tivesse por única direcção a conveniência não havendo princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Mas porque assim foi (e continua a ser) a justificação para o facto de eu dar relevância a uma simples” boutadetalvez não merecedora de um post não se desse o caso de continuarmos a viver numa época e numa sociedade em que as conveniências justificam os meios e as deselegâncias. E em que as Novas Oportunidades, menina dos olhos de Maria de Lurdes Rodrigues, toleram, e defendem mesmo, os pontapés na gramática e a ignorância devidamente certificada e equiparada a exigentes diplomas do 12.º ano do ensino secundário com o simples e falacioso intuito estatístico de somar parcelas em que é um erro crasso misturar maçãs com pêras, como se dizia no meu tempo de aluno de uma exigente 4.ª classe da antiga escola primária. E Maria de Lurdes Rodrigues tinha a obrigação de o saber melhor do que ninguém como antiga professora do ensino primário, actual 1.º ciclo do ensino básico!

Na fotografia: Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da Educação.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A EDUCAÇÃO EM PORTUGAL: UM RETRATO EUROPEU

Do sítio Web da Câmara Municipal do Porto transcrevemos o sumário da apresentação que ontem Carlos Fiolhais aí efectuou sobre "A Educação em Portugal: Um retrato europeu" num debate com Artur santos Silva e Maria de Lurdes Rodrigues (retirado daqui, onde se encontra o resumo das outras intervenções e os registos vídeos de todas elas):

"Educação: o futuro de Portugal" foi o tema da sessão desta quinta-feira do ciclo "Grandes Debates do Regime", que decorreu, como tem sido hábito, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Carlos Fiolhais, professor catedrático de Física da Universidade de Coimbra, Artur Santos Silva, Presidente do Conselho de Administração do BPI e Marioa de Lurdes Rodrigues, ex-titular da pasta da Educação, foram os oradores convidados.

A taxa de abandono escolar precoce em jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos é, actualmente, "o maior flagelo" de Portugal no domínio educacional, segundo revelou Carlos Fiolhais, que abordou o tema da palestra num contexto europeu, recorrendo para isso a diversos indicadores comparativos com o cenário registado, ao longo das últimas décadas, na União Europeia (UE).

Segundo o docente da Universidade de Coimbra, que é também responsável pelo programa de Educação da Fundação Francisco Manuel dos Santos, essa taxa, que em 2000 se cifrava nos 44%, desceu para 31% em 2009, um resultado positivo, mas que, na sua óptica, ainda é "mau", pelo facto de a UE ter registado uma média de 14% e pretender chegar a 10%, em 2020.

"Melhorámos bastante neste domínio, mas ainda estamos muito longe das metas pretendidas, pois, pior do que nós, só Malta", adiantou, referindo que, em Portugal, a taxa de abandono escolar é mais elevada nos homens do que nas mulheres.

Para Carlos Fiolhais, o grau de qualificação dos portugueses é, de uma forma geral, muito baixo, consequência - adiantou - de um forte "passivo" acumulado a esse nível ao longo dos anos. A percentagem da população activa com um grau superior nas áreas da ciência e tecnologia, ou equivalente, coloca Portugal no fundo da tabela europeia, entre a Roménia e a Turquia.

Em contrapartida, de 2000 a 2008, Portugal foi o país da UE que mais cresceu (193%!) em termos da formação de alunos diplomados em Ciência e Tecnologia, contribuindo assim para que o objectivo europeu de crescimento, que era apenas de 15%, tivesse sido largamente superado.

Ao nível da Ciência, que, para o orador, é indissociável da Educação ("sem Educação não há Ciência", afirmou), destaque para o facto de Portugal figurar no quarto lugar a nível europeu, no que respeita à percentagem de mulheres cientistas.

No entanto, apesar dos progressos registados, ainda há, em sua opinião, um défice acentuado no ensino das ciências, no que qualificou de "literacia científica". "O nosso problema, hoje, já não é, felizmente, o analfabetismo, mas sim o que poderemos chamar de 'analfabetismo científico'", observou, preconizando a necessidade de "mais e melhor Ciência, em particular na escola básica, incluindo até no jardim-de-infância.

"O factor chave é a preparação do professor ou educador, pois só alguém que trate a Ciência por tu a consegue transmitir aos jovens", afirmou Fiolhais, confessando nunca ter compreendido o significado do velho aforismo de que é "de pequenino que se torce o pepino".

"Nunca percebi essa história do pepino, pois é de pequenino que se torce o... destino
", concluiu.

O poder das mulheres


Destaque para a crónica de J.L. Pio Abreu no "Destak":

De vez em quando, o júri do Prémio Nobel pode enganar-se. Desta vez acertou em cheio. Ellen Johnson-Sirleaf, Leymah Gnowe, Tawakkul Karman, Prémio Nobel da Paz. O poder esclarecido das mulheres, quando o poder dos homens que governam se torna demente. Quis a natureza que os homens, tornados caçadores, se especializassem na liderança competitiva, enquanto as mulheres, preocupadas com a estabilidade necessária à sobrevivência da prole, se contentavam com o pacífico poder doméstico.

Hoje, porém, a nossa casa é o mundo. Governado por homens, a competição, a guerra, o roubo sem alma que beneficiava a tribo arrisca-se agora a destruir o planeta. É então altura de as mulheres entrarem em cena, sobretudo nos países que as discriminam. E sobretudo quando elas aceitam a sua condição feminina, pois é essa feminilidade que se torna uma mais-valia no poder. No seu livro A Princesa - Maquiavel para mulheres, Harriet Rubin mostrou as vantagens do poder feminino. É certo que foi criticada por alguns movimentos feministas, de mulheres ressentidas que se tornaram masculinas. Também existem mulheres destas no poder, mas não contam para a História.

Para além de tudo, caberá sempre às mulheres o poder de controlar o nascimento dos filhos. Nas culturas onde elas se emanciparam e acederam à cultura, a natalidade estabilizou. Está assim, na mão das mulheres, a capacidade de contrariar as profecias malthuseanas do crescimento populacional acelerado.

J. L. Pio de Abreu

UNIR A EDUCAÇÃO COM A CIÊNCIA

Entrevista que dei ao jornalista Paulo Carvalho e que saiu no último "As Artes entre as Letras", a propósito do painel sobre educação em que participei na companhia de Artur Santos Silva e Maria de Lurdes Rodrigues, moderado por Rui Rio.

P- Como vê o estado a educação em Portugal?

R- O sistema educativo português cresceu bastante em quantidade nos últimos tempos, mas, apesar de alguns bons indicadores sectoriais, não cresceu em qualidade de forma que nos possa satisfazer. É facto que havia um grande atraso estrutural visível nos baixos níveis de qualificação da população activa e essa situação, por mais esforços que se façam, demora a colmatar. Mas basta olhar para comparações internacionais para vermos que estamos longe dos níveis alcançados por países europeus aos quais devíamos aspirar e longe das metas fixadas pelo "clube de países" a que pertencemos. Em Abril de 2011 foi publicado um Relatório da União Europeia sobre educação, que analisava os progressos obtidos pelos países europeus numa série de indicadores para os quais se tinham estabelecido metas, a atingir em 2010 e 2020. No que se refere ao nosso país as notícias são boas e más, nalguns casos muito boas e noutros muito más. São boas no que respeita ao aumento da frequência do ensino pré-escolar, bastante boas no que respeita à diminuição do número de alunos com 15 anos com fraco desempenho em leitura, matemática e ciências, e muito boas quanto ao aumento do número de licenciados nas áreas de ciência e tecnologia, em resultado do investimento na ciência. Mas, apesar dos visíveis progressos, são muito más quanto ao abandono escolar precoce (um verdadeiro flagelo nacional!), quanto ao nível de educação atingido pela população jovem e quanto ao número de pessoas que termina o ensino superior, e más ainda quanto à aprendizagem ao longo da vida. Esta deficiência de resultados tem lugar apesar de o investimento público em educação em 2007 (5,3% do PIB) ter sido acima da média da União Europeia (5,0%). Portanto, o nosso investimento na área educativa está longe de ser eficaz. O nosso desafio agora, numa altura em que os recursos financeiros escasseiam, é fazer mais com menos, o que, convenhamos, não é fácil.

P- Assente neste modelo educativo, que futuro vê para o país?

R- A Europa, com a colaboração do FMI, é que nos está neste momento a ajudar para ultrapassarmos a crise económico-financeira. Acredito que o nosso futuro está na Europa, na sociedade do conhecimento que a Europa quer ou devia querer construir em conjunto construir. Para esse futuro na "casa europeia comum", terá de haver convergência não só a nível económico-financeiro, mas também ao nível educativo. As duas áreas estão aliás ligadas intimamente: Quanto melhor for a nossa qualificação, melhor será o nosso desempenho económico. Quanto mais soubermos, mais seremos capazes de fazer. Basta olhar para os países mais ricos, que são aqueles que têm sistemas educativos mais eficientes. Sem ser irrealista, quero ser optimista. Poderá demorar o seu tempo, porque em educação não há ilusionismos nem magias (não se aprende instantantaneamente!), mas estou convencido de que não somos inferiores aos outros povos europeus. Temos, porém, de assegurar que a escola fornece uma boa preparação. E temos todos que nos empenhar na escola. É uma questão de melhoria da organização, mas é sobretudo uma questão de mudança de mentalidades. Queremos trabalhar mais e melhor na escola para amanhã sermos mais ricos?

P- O que considera urgente mudar?

R- Em Junho passado houve uma mudança de governo e está a haver, na educação, um "choque" governativo. Unir a Educação com a Ciência e Tecnologia poderá ser bom para todos, até porque na ciência os nossos progressos tem sido visíveis e pode haver um efeito de "contaminação" na educação. Havia algumas mudanças na educação que se impunham e estão a ser feitas e outras que ainda se impõem. Estou a pensar da diminuição e desburocratização do pesadíssimo ministério, na maior autonomia das escolas, na paz com os professores (base do sistema educativo, mas que foram incompreensívelmente hostilizados), na auditoria a fundações opacas como a responsável pelo E-Escolas e a empresas altamente endividadas como a Parque Escolar, na revisão do programa Novas Oportunidades (cujo grau de exigência deixa muito a desejar), na revisão dos programas (com orientações pedagógicas cheias de expressões por vezes ocas como o "aprender a aprender"), na revisão do sistema de acesso ao ensino superior, cheio de injustiças, na reorganização do sistema de ensino superior onde proliferam instituições e cursos, na melhor formação inicial e contínua dos professores, etc. Numa altura em que o país está a ser sacudido por uma crise, a ocasião é óptima para efectuar, na área crucial da educação, mudanças profundas. Acima de tudo não devemos ter medo de mudar o que for preciso mudar.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Em memória do papel da memória nas aprendizagens escolares

«Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto» (José Cardoso Pires, 1925-1998).

O recente e oportuno post do Professor Carlos Fiolhais, recentemente publicado (10/10/2011) e intitulado “Aprender a Aprender”, abordou o controverso papel da memória nas aprendizagens escolares.

Por entender que um meu post (aqui dado à estampa em 08/02/2011), “O papel da memória nas aprendizagens escolares”, tendo como suporte um leque de opiniões que vai desde Vitorino Magalhães Godinho a conceitos da neurofisiologia, poderá ter algum interesse, aqui o reproduzo sem intuitos dogmáticos mas, como diria Ortega y Gasset, apenas, como um meio de discussão permanente. Com ligeiríssimas alterações, transcrevo o que então escrevi:

"Em crítica de Vitorino Magalhães Godinho, falecido em Abril deste ano, reputado académico e antigo Ministro da Educação e da Cultura, dos 2.º e 3.º governos provisórios, “dispensou-se a memorização da tabuada ou das regras da gramática, como das datas mais importantes da história de Portugal. E de modo geral receia-se que recorrer à memória afecte os frágeis cérebros infantis ou juvenis” ("Problemas da Institucionalização das Ciências Sociais e Humanas em Portugal", Revista da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Lisboa, 1989).

E, por se tratar da complexa “maquinaria da memória”, refiro o acontecido com José Cardoso Pires, “escritor que veio do branco, da angústia, de um isolamento sem nome, sem assinatura e sem memória” (João Lobo Antunes, Memórias de Nova Iorque e Outros Ensaios, Gradiva, 2003, p. 212), na altura de um AVC de que foi vítima. Relata-o António Guerreiro, da forma seguinte: “Todos os acontecimentos têm uma data e um local precisos. Este deu-se em ‘Janeiro de 1995, quinta-feira’, quando o José Cardoso Pires, ele mesmo, à mesa do pequeno-almoço, se começa a sentir mal e faz uma pergunta estranha à mulher – ‘Como é que tu te chamas?’, que lhe responde devolvendo-lhe a pergunta: 'Eu Edite. E tu?’. Resposta: ‘Parece que é Cardoso Pires’" (Expresso, 24/05/1997).

A recuperação de José Cardoso Pires, segundo o neurocirurgião João Lobo Antunes, ficou-se a dever ao facto de “a área que temporariamente ‘deixou à sede e à fome, e pela qual falava, lia e escrevia, tudo funções em que é exímio’, era mais musculada que a do comum dos mortais”. Um ano antes da sua morte, Cardoso Pires escreveu o livro autobiográfico De Profundis, Valsa Lenta, em que relata a sua “memória de uma desmemória” sobre o sofrimento atroz que a perda de memória, ainda que temporária, lhe trouxera.

O cérebro e a memória são matérias para mim particularmente gratas. Existe uma má memória dos alunos (na gíria académica, os chamados "marrões") que, sem perceberem patavina da matéria estudada, papagueavam nos exames orais, ou escarrapachavam ipsis verbis no papel das provas, os livros e sebentas. Quiçá por esse facto generalizou-se o princípio de que a memória pode andar arredada da inteligência, um conceito abstracto que abarca uma panóplia imensa de formas de aptidão para as ciências, para as humanidades, para as belas-letras e artes, para a prática desportiva, etc. E isto sem falar na inteligência emocional, estudada por António Damásio, neurocientista português de prestígio internacional e autor do bestseller de 1994: O Erro de Descartes.

Mas já mesmo quinze anos antes, David Krech, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, escreveu em Cérebro e Comportamento (Salvat, Rio de Janeiro, 1979, p. 84): “Acreditava-se que havia uma distinção radical entre o comportamento racional e o comportamento emocional. No entanto, os modernos estudos sobre o cérebro demonstram que esta dicotomia carece completamente de significado. Quando falamos de cérebro temos de especificar se se trata de todo o cérebro ou apenas do córtex cerebral, pois há toda outra parte do cérebro, a parte mais antiga (sob o ponto de vista de desenvolvimento das espécies) que é a parte mais intimamente ligada com as emoções". À pergunta “em que situação se encontram actualmente as pesquisas no campo da neurofisiologia?”, respondeu Krech de forma sugestiva e humilde: “A neurofisiologia encontra-se num sótão escuro procurando um gato escuro, sem ter a certeza que ele ali está. Seu único indício são leves ruídos que parecem miados” (ibid., pp. 87 e 88).

Mesmo tendo em conta as surpreendentes descobertas sobre o cérebro que a tomografia por emissão de positrões tem proporcionado, receio que as indagações do filósofo, matemático e físico Blaise Pascal tardem em encontrar uma resposta científica: “Que quimera é o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que prodígio? Juiz de todas as coisas, verme imbecil, cloaca de incerteza e de erro, glória enojo do Universo. Quem deslindará esta embrulhada?”

Todas as formas de inteligência ou aptidões, atrás elencadas, fazem parte do nosso código genético, em localizações corticais com funções específicas e respectivas associações na dependência da acção das substâncias químicas (os neurotransmissores), enfim de todo o corpo, numa condição sintetizada pelo psiquiatra alemão Ernest Krestchemer: “O homem pensa com o corpo todo”.

Devido à sua plasticidade, o cérebro, interagindo com o meio ambiente e se exercitado através de uma “ginástica” apropriada, pode melhorar, até um determinado limiar, o seu desempenho. Em condições patológicas, como, por exemplo, nos AVC, fica-se a dever à acção vicariante das zonas corticais não atingidas, e à força de vontade do paciente, o maior ou menor êxito da reabilitação funcional.Para melhor se compreender a complexidade anatómica e funcional do cérebro, nada melhor do que ouvir o neurocientista Richard Thompson, da Universidade de Carolina do Sul: “O cérebro humano consta aproximadamente de 12 biliões de neurónios e o número de interconexões entre eles é superior ao das partículas atómicas que constituem o universo inteiro”. São números impressionantes que escapam ao entendimento comum. Para a fisiologia, “o fundamento da memória reside nas mudanças eléctricas que se produzem no cérebro quando se recorda alguma coisa".Nos fenómenos cerebrais tem um papel importante a memória, que é indispensável às aprendizagens escolares, e não só. Para compreender o papel da memória na aprendizagem os neurofisiologistas defendem a necessária a colaboração de professores, neurologistas, bioquímicos e psicólogos. A memória vai sendo perdida com a idade (daí o interesse em exercitá-la em idades avançadas), assumindo-se como uma verdadeira patologia na doença de Alzheimer.

A memória, no nosso dia-a-dia, é uma verdadeira biblioteca para a inteligência e sua ligação ao raciocínio. A inteligência depende de uma associação de ideias, pois como nos diz M. L. Abercrombie, que se dedicou ao estudo dos processos de percepção e raciocínio, “nunca nos encontramos perante um acto de percepção com a mente inteiramente em branco, pois estamos sempre em estado de preparação ou de expectativa, devido a experiências passadas.”
Ficamos a dever aos “sulcos” que a memória vai deixando no cérebro (os chamados engramas) a capacidade de nos lembrarmos dos acontecimentos da nossa vida e, obviamente, das aprendizagens que durante ela foram sendo feitas. Lamentavelmente, o nosso ensino tem subalternizado o papel importantíssimo da memória na aprendizagem do aluno, como ocorria na recitação de poesias, na aquisição e preservação de conhecimentos de história, de geografia, da tabuada, etc. Esta última actividade tem sido substituída por maquinetas de calcular operadas pelo dedo indicador.Estas pequenas migalhas de um apaixonante e complexo estudo mais não pretendem do que chamar a atenção dos educadores para o importante papel da memória, tão maltratada actualmente no nosso ensino, como se fosse um anátema ou uma praga. Menosprezar o papel da memória é um erro. Ora, os erros no ensino pagam-se bem caro e com elevados juros de mora!”.

"Aprender a aprender" ou "aprender a aprender a aprender"?

Em pedagogia, e penso que não é só na pedagogia, a linguagem é uma fonte de equívocos. Certa frase ou palavra pode desencadear múltiplos entendimentos, alguns dos quais contraditórios.

Uma boa ilustração desses (des)entendimentos é o “aprender a aprender” que se opõe (ainda que dissimuladamente) a “aprender” (porquê!?).

O mais importante na educação escolar, dizem uns, não é “aprender” no sentido de adquirir conhecimentos, é “aprender a aprender”. Porque, veja-se, os conhecimentos estão nos livros, na internet, por aí, logo se alguém precisar deles, procura-os, sendo certo, que os encontra. E, além disso, os conhecimentos estão sempre a mudar: o que se tem por verdade hoje, já não o é amanhã. Logo, quando alguém precisar de aprender algum conhecimento, terá acesso à “última versão”, por assim dizer. A questão é, pois, de atitude e de processo: levar os sujeitos a perceberem que vivemos numa “sociedade do conhecimento” e que são eles próprios que têm de vasculhar em seu redor para chegarem àquilo de que precisam.

O mais importante, dizem outros, é mesmo “aprender”, pois quem adquire conhecimentos, nesse trabalho de adquirir conhecimentos, também “aprender a aprender”. Ainda que os conhecimentos estejam disponíveis algures, não se saberá procurá-los se previamente não se tiver adquirido conhecimentos, nem, nem sequer, haverá curiosidade para os ampliar. Ou seja, sem desvalorizar o processo, o produto (ter chegado a certos conhecimentos) é fundamental. Por outras palavras, para se “aprender a aprender” é condição que se “aprenda” e em profundidade. Não há volta a dar.

Esta antinomia assume outras formas que pouco mais valor têm do que um jogo de palavras... Por exemplo: ensinar a "aprender a aprender", mas como a palavra "ensino" é evitada (pois, afinal, diz-se "ninguém ensina nada a ninguém"), será melhor dizer-se "levar os alunos a aprender a aprender" ou, ainda melhor, "aprender a aprender a aprender”.

THE MARTYR: GIVING THE DARWIN AWARD A WHOLE NEW MEANING.


Com algum atraso, excerto da última coluna do físico Robert Park:

"Two years ago on board a Northwest Airlines flight en route to Detroit, Umar Farouk Abdulmutallab allegedly attempted to detonate plastic explosives hidden in his underwear. The flight from Amsterdam was just moments from landing when Abdulmutallab tried to detonate the bomb in his pants. It failed to go off, but his pants caught fire. Passengers jumped him when they saw smoke and flames. At a hospital after landing Abdulmutallab was treated for burns to his uh, groin. Yesterday, in a Federal Court in Detroit, Abdulmutallab pleaded guilty in the attempted murder of 289 fellow passengers. He said he targeted the U.S.-bound flight at the urging of Anwar al-Awlaki. The episode will no doubt be immortalized in a new volume of the brilliant “Darwin Awards,” created by Wendy Northcutt, that “commemorates individuals who improve our gene pool by removing themselves from it”, or in this case, removes their gene-delivery device, from it."

Robert Park

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...