quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O BELO ADORMECIDO


Uma bela imagem do vulcão agora adormecido da Islândia, o Eyjafjallajokul, recebida do vulcanologista Victor Hugo Forjaz.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A persistente confusão entre brincadeira e trabalho

Uma criança de dez anos é vestida, maquilhada, arranjada de diversas maneiras. É fotografada em poses várias e as fotografias publicadas numa revista internacional de moda. Mais: é capa.

Olha-se para a criança e não se diz que é uma menina, diz-se que é uma mulher. Mas não uma mulher qualquer. Com base nos referenciais que usamos para discriminar o quotidiano, não me parece haver lugar para equívocos: o modelo de “produção” subjacente é “de mulher fatal”.

Jornais, revistas, televisão, internet apresentaram e comentam o caso, convocam-se os direitos dos menores, a profissão e os comentários dos pais, a exploração do trabalho infantil, ouvem-se especialistas, profissionais, pessoas anónimas… o comum.

Detenho-me numa entrevista dada ontem ao Diário de Notícias por uma estilista portuguesa, que também prepara e selecciona manequins. Afirma a senhora, em várias passagens, que a menina em causa terá encarado a fabricação da personagem e a sua exposição como uma brincadeira. Todas as meninas com a idade daquela menina gostam de vestir aos fatos e calçarem os sapatos das suas mães, de se maquilharem como elas e de usarem as suas jóias. Isto é brincar. Um brincar de que as crianças, particularmente, gostam.

Mais uma vez a confusão entre a brincadeira e o trabalho.

A brincadeira das crianças é entre elas, sem interferência (directa) de adultos. São elas que decidem ao que brincar e como brincar... Quando os adultos dizem às crianças o que fazer e como fazer, não é brincadeira e muito menos se daí resultam benefícios financeiros. Neste caso, é trabalho. Mais concretamente, trabalho infantil.

Onde é que está a dúvida? Será que um século – o Século da Criança, que foi o século XX – não bastou para alicerçar este conceito? Ou será que os efeitos de tanto pensar sobre o assunto se estão a esbater?

Disciplinar as instituições


Falar na honra de uma instituição é falar nas pessoas que a fazem funcionar bem. Se falamos em instituições sem honra nem mérito estamos a falar nas pessoas que, do topo às bases, no modo como planeiam, decidem, executam e controlam essas instituições lhe dão má fama. E que, portanto, de uma maneira ou de outra constroem essa má fama para si e para as instituições que deviam servir.

As instituições são entidades abstratas que, por vezes, atravessam várias gerações. As pessoas que as fazem funcionar deixam atrás de si um rasto de boas ou de más práticas, de bons ou maus princípios de ação.

Por isso há instituições que ganham bom-nome e o conservem. Outras, que perdem o bom-nome que tinham. Ou nunca o chegaram a ter porque nunca o mereceram. Como se sabe, enquanto uma boa reputação leva muito tempo a construir, a desonra é rápida como labareda.

Nas instituições, ao longo dos anos, entram e saem muitas pessoas. A instituição, por boa fama que tenha, fica refém das pessoas que a governam e as podem deitar a perder. Ou seja, ficam dependentes da competência, da inteligência, do caráter das pessoas que, do topo à base, mantêm a instituição e são dela o espelho e o reflexo para todos os cidadãos. E, obviamente, ficam reféns dos sentimentos que estão por debaixo e acompanham todas essas formas de ação.

Mas, como os sentimentos não existem senão nas pessoas, as instituições, para lá dos princípios gravados em documentos antigos, ou propalados pelos responsáveis nas cerimónias solenes, revelam em todas as situações e em todas as ações os sentimentos e o carácter das pessoas que num dado momento histórico ocupam os lugares da instituição e a fazem funcionar bem. Ou mal.

Assim, para além dos objectivos de uma instituição, quase sempre altissonantes e pomposos, interessa saber como é que se atua nas situações correntes, como é que se resolvem os pequenos (e os grandes) problemas, como é que se relaciona com os cidadãos comuns, que respeito tem por eles. E como é que trata os que não têm “padrinhos”, nem andam a influenciar decisões, bichanando pelos corredores dos importantes do momento. É entre estas duas atitudes que se escolhe entre a grandeza e ou a miséria das instituições. E dos povos.

Infelizmente, em Portugal, há instituições que se especializaram no faz de conta, no faz que faz mas não faz. Ou faz mal, ou deixa por fazer, ou esquece o essencial para se gastar nas aparências e no desnecessário. Há demasiadas instituições que são exemplos acabados de corpos sem vida e sem carácter, vítimas de espíritos mesquinhos e desonestos que as comandam ou boicotam.

Precisamos de uma renovação moral, porque há, tem havido, demasiada gente sem qualidade em muitas instituições portuguesas. Veja-se este inqualificável caso do BPN e os enormes estragos que provocou na nossa fraca economia. E a benevolência desleixada e criminosa de quem devia vigiar. Há demasiadas instituições que se esqueceram já das razões por que foram criadas.

E isto, que é sabido, não é fácil de resolver, porque o problema está precisamente nas pessoas, que são elemento essencial e que falham muitas vezes. Os que o deviam fazer carecem muitas vezes das qualidades necessárias. A democracia devia encontrar meios de os cidadãos poderem disciplinar instituições que, no segredo dos deuses, nos tramam a vida e se estão marimbando.

João Boavida

"Na Minha Aldeia, Cerveja a Copo"



Encontrei a notícia aqui: achou-se na Cinemateca Nacional um pequeno filme publicitário dos anos sessenta protagonizado por Raul Solnado destinado a promover o consumo de cerveja.

Publicidade à parte, o filme tem um carácter didáctico: explica, sob o ponto de vista da Química, o segredo de uma cerveja bem tirada.

Também é interessante sob o ponto de vista dos modelos sociais: qualquer semelhança entre este filme e os spots publicitários actuais destinados ao mesmo fim são, como se percebe, mera coincidência.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

EM QUE ANO NASCESTE?


Mais um outro conto da dúzia que está pendurada no “Cordel de Ciência”, ilustrados por Diana Marques, iniciativa promovida e inaugurada no Pavilhão do Conhecimento aquando da comemoração do seu 12º Aniversário, no passado dia 25 de Julho de 2011. Passe por lá e leve-os consigo pela mão!
Entretanto… E na continuação de pedidos de alguns leitores que não passam por Lisboa... Aqui vai.


"Entre algarismos, operações de adição e de subtracção, o lápis e a borracha dançam por entre os dedos de Lídia. Compenetrada em operações algébricas, nem se apercebe da aproximação de seu avô materno, o senhor Joaquim.
- Fazes os teus trabalhos de casa, Lídia? - pergunta-lhe em tom atento.
- Não. Já os acabei ontem - respondeu Lídia num ápice. – Descobri umas relações entre datas, e estou muito entusiasmada com isso!
- Entre datas? Que datas? – perguntou-lhe o avô, sobrancelha erguida para a curiosidade.
- Datas de nascimento entre pais e filhos. Vou espantar-te, queres ver?
- Claro. Estou muito curioso.
- Em que ano nasceste avô?
-Nasci em 1937, minha neta matemática! – disse o senhor Joaquim, no meio de um riso cúmplice.
- E em que ano é que a minha mãe, a tua filha, nasceu?
- A tua mãe nasceu em 1967 – afirmou Joaquim, sem pestanejar.
Lídia aponta as datas no cimo de uma folha nova, e fita o avô à procura da antecâmara do espanto. Sem esperar muito tempo, informa-o com uma interrogação.
- Isso quer dizer que no ano em que a minha mãe fez 37 anos, o avô tinha 67 anos de idade. E isso aconteceu em 2004. Está certo, avô?
- Parece-me que sim. Mas ainda não percebi aonde queres chegar. O que é que pretendes demonstrar? Onde é que reside essa tua descoberta matemática, que ainda há pouco te entusiasmava tanto? – responde o avô Joaquim, com ar desafiador.
- Não reparaste na coincidência?! Na troca, aparentemente coincidente, entre os números correspondentes às idades e às dezenas dos anos de nascimento? Vou-te então enunciar a minha descoberta - afirmou Lídia, com toda a confiança que lhe cabia nos olhos cintilantes.
- Entre pai e filho, aliás é melhor dizer, entre progenitor e descendente, é possível encontrar um, e um só ano, em que o número de anos de vida do descendente é igual às dezenas do ano em que o progenitor nasceu! – disse Lídia, com ares de grande universalidade.
O Avô, meio desconfiado com a afirmação da neta, sentou-se ao seu lado, pegou num lápis para assentar outros números no papel.
- Ora vamos lá ver se a tua relação numérica se verifica com outros exemplos. O teu tio nasceu em 1954. Quando ele fez 37 anos, e isso aconteceu em 1991, eu tinha a jovem idade de…1991-1937 = 54 anos! Espantoso! - disse o senhor Joaquim, iluminando Lídia com o seu olhar.
- Parece que tens razão! – continuou o avô - No ano em que o teu tio completou a idade (37) correspondente às dezenas do ano do meu nascimento (1937), eu aniversariava o número de primaveras (54) igual às dezenas do ano em que ele nasceu (1954)! Como é que descobriste isto, Lídia?
- A sonhar com números e com as pessoas que me são queridas, meu querido avô! É que hoje faço 12 anos. Lembravas-te disso?
- Como me poderia esquecer! – diz Joaquim com alegria.
- Ao acordar - recorda Lídia - comecei a brincar mentalmente com esta minha idade, uma dúzia de anos, e com a idade da minha mãe, que faz neste ano de 2011, 44 anos de idade. Queira encontrar uma relação matemática qualquer que nos unisse ainda mais. Uma espécie de número de ouro, mas algo que fosse só nosso. E, sem querer, encontrei uma relação que me parece ser válida, não só para mim, mas para todos!
- No teu caso, e no da tua mãe, em que ano é que a relação que encontraste se verifica? – pergunta-lhe o avô para a animar.
- Só no ano 2066, ainda falta muito tempo. Nesse ano eu cumprirei 67 anos de vida. A minha mãe, que nasceu em 1967, terá a vetusta idade de 99 anos. De facto, eu nasci em 1999!
- Espero estar cá para confirmar isso – diz o avô Joaquim, no meio de uma grande gargalhada.
Os lápis e as borrachas ficam sobre o papel, enquanto neta e avô, de mão dada, passeiam pelas datas de nascimento de outros familiares, à procura de um exemplo, só um, que deite por terra a universalidade do enunciado que Lídia descobriu."

António Piedade

O Ódio de Perdição


“Calar-se equivale a deixar crer que não se julga e que nada se deseja; e, em certos casos, isso equivale, com efeito, a não desejar coisa alguma” (Sophia de Mello Breyner, 1919-2004).


Depois de ter visto um urso (não o urso que é tido como o melhor aluno da turma) a andar de bicicleta no circo, pensava eu que nada me poderia mais surpreender. Puro engano!

Assim, na secção de “Cultura” do Público (05/08/2011), com o título à largura de toda a página, “Os franceses estão a redescobrir Camilo”, deparei-me com esta notícia: “O filme 'Mistérios de Lisboa já fez mais de 100 mil espectadores em França”. Facto este que, mesmo que mantidas as devidas proporções populacionais entre o país das “Luzes” e a pátria de Camões, não me faria estranhar muito que a preguiça dos espectadores portugueses preferisse (re)ver a adaptação cinematográfica de“ O Amor de Perdição”, de António Lopes Ribeiro (1943), a perder tempo e pachorra a ler a respectiva obra literária que foi apreciada pela juventude do meu tempo em herança ancestral.

Por estarmos em presença de um interculturalismo que o galo-gaulês representa com “panache”, bem se compreende que a obra “Mistérios de Lisboa” (traduzida para "Mystéres de Lisbonne") esteja no “top”, ainda segundo o Público, “dos livros mais vendidos na Fnac Forum de Paris, a maior das lojas Fnac do país”. Esse interesse pelo escritor de São Miguel de Seide passa, outrossim, ainda segundo este jornal, pela edição francesa do livro "Amor de Perdição" (“Amour de perdition” ), editado em França há uma dezena de anos e difícil de encontrar nas livrarias”. Uma vez mais se cumpre o aforismo de que “santos ao pé da porta não fazem milagres”. Mas daí a cometer o pecado de expurgar a prosa camiliana, para Maria Amélia Vaz de Carvalho “personificação do génio português”, do altar da bibliografia dos programas escolares do ensino secundário torna-se em verdadeiro roubo à cultura nacional!

Escreveu Eça, o imortal romancista português: “Portugal é um país traduzido do francês em calão”. Em sua imitação grotesca dos hábitos parisienses e seus costumes sociais, mas não da leitura da sua cultura literária imortalizada por nomes, que me ocorrem à memória, como Honoré Balzac, Victor Hugo e Marcel Proust. E dá ele um exemplo dessa tradução”: “Mas é sobretudo na minha especialidade , na literatura, que esta cópia do francês é desoladora. Como aqueles patos que Zola tão comicamente descreve na ‘Terre’ , aí vamos todos, em fila, lentos e vagos, através do caminho da poesia e da prosa, atrás do ganso francês”.

Camilo, parafraseando Camões, “erros meus, má fortuna, amor ardente”, sofreu do pecado, entre outros, de se deixar enredar pelas teias da paixão escandalosa por Ana Plácido e da biliosa polémica – de que é exemplo este ataque dirigido por si a Mariano Pina: “Cada vez mais charro. É perfeitamente um sapateiro de máscara a dizer pilhérias que tresandam ao cerol”-, sendo que a sua valiosa bibliografia de romancista talvez disso tenha sido vítima. Tomando de empréstimo Antero, eu adaptaria a este monstruosidade cultural, perpetrada contra um dos melhores mestres da Língua Portuguesa, o seguinte excerto: “Isso assim pode ser que seja útil, fácil, vantajoso: pode ser que assim se conquiste a opinião das maiorias boçais, que dão a fama, ou o favor das minorias inteligentes, que dão alguma coisa melhor do que a fama, que dão a importância, o interesse e o poder…Pode ser que seja hábil isto e até profundo – mas não é nem digno nem verdadeiro.”

Aliás, sempre que falamos de Camilo não podemos divorciá-lo do seu papel de um dos melhores mestres da Língua Pátria e, muito menos ainda, de “o ódio de perdição” que os responsáveis da 5 de Outubro lhe dispensaram por omissão, ou lhe deram simples cobertura, nos programas de Português do ensino secundário. A Língua materna é a argamassa da nossa forma de bem nos expressarmos e que tanto é útil aos cientistas, como aos apresentadores de televisão e ao próprio homem comum.Um cientista que diga “supônhamos”, um professor que num papel escreva Senhor Presidente do “Concelho” Directivo, um aluno que [na ausência da muleta do corrector ortográfico dos computadores] em cada três palavras dê um erro ortográfico, o homem comum que dê pontapés na gramática com a habilidade de um Cristiano Ronaldo a chutar à baliza, tornam-se mais notados no seu dia-a-dia do que um ilustre médico que não saiba extrair uma simples raiz quadrada, um professor de Português que não saiba somar fracções ou um aluno que “não entre” na Matemática. Ou seja, o ignorante das Ciências defende-se melhor do que o ignorante das Letras. Mas cuidado! Não se pense com isto que estou a fazer o elogio ( ou apenas a descriminar, com “e” ) qualquer destas formas de ignorância. Ambas são reprováveis.

Mas é bom que se retenha que esta irresponsabilidade do Ministério da Educação do governo socialista se podia ter tornado numa, ainda que pálida, centelha do enredo do romance de Ray Bradbury, “Fahrenheit 451”, em que os livros eram incendiados por bombeiros de um regime totalitário para não distraírem as pessoas tornando-as pouco produtivas. Não estou, de forma alguma, a querer ver na proscrição das obras de Camilo um sistema educativo tutelado por um regime totalitário. Apenas a pretender dizer que a ignorância oficial e oficializada é, também ela, uma ditadura férrea e horrenda por ter roubado ao aluno português o prazer cultural da leitura dos livros de Camilo e podendo, como tal e a título de mero exemplo epidémico, dificultar ao aluno espanhol a leitura de Cervantes, sonegar ao aluno francês o deleite da visitação ao Museu de Louvre e ao aluno alemão subtrair a audição da Orquestra Sinfónica de Berlim.

Criando-se, assim, uma espécie de cultura virada de costas para as belas letras, para a arte pictórica e para a música de câmara. Isto é, uma cultura em que as coisas do espírito cedem lugar aos bens materiais. E que, em degradação de costumes, se vai impondo cada vez mais neste mundo de Cristo!

London 2011


O CAMPEÃO DE SURF TIAGO PIRES

Como estamos em plena época de praia, divulgamos aqui a espantosa habilidade daquele que é neste momento o melhor profissional de surf poortuguês:


QUEM É A CÉUTA?


Já aqui publicámos textos da escritora Cristina Carvalho. Hoje publicamos parte do capítulo “Silêncios e Fraquezas” do seu recente livro “A Casa das Auroras” (Planeta Manuscrito):

"A Céuta é a mãe do Raizito.

Nunca ninguém soube como é que se escrevia o nome desta mulher por isso também nunca ninguém se importou de o dizer correctamente – se é que há uma forma correcta de o pronunciar. Em minha casa dizia-se Céuta mas sem muita certeza, era conforme a situação. Podia ser Celta, Déuta, Péula. No Natal chamava-se Céu. Apenas. Era mais apropriado.

Eu sempre disse Céuta.

Sempre ouvi dizer que esta mulher vivia ali ao pé de nós, no cimo das escadinhas que vão dar à igreja, num vão escuro e húmido duma antiga casa de família hoje desabitada, mas também nunca se soube exactamente onde. Havia gente que dizia que ela não era deste mundo dada a sua aparência física e os seus hábitos.

Saía muito cedo para o campo e trabalhava de manhã à noite como os homens. Da janela do meu quarto eu via-a saltar os degraus das escadinhas a dois e dois com os pés descalços, enormes, pernas curtas e grossas cheias de pelos e andar pela rua abaixo com passadas largas. Parecia um macaco, era o que ela me parecia e isso encantava-me. A ideia de existir uma mulher-macaco um tanto misteriosa e até medonha na mesma rua onde eu morava, que comia nacos de pão barrados com banha e recheados com torresmos e bebia canecas de aguardente ao anoitecer na mercearia da minha madrinha Crisântema, parecia-me inquietante. E era!

Um dia encontrei-a no cimo das escadinhas, agachada no último degrau; por debaixo da sua saia que exalava um cheiro nojento que se podia sentir a metros de distância, corria um fio de urina sinuoso de degrau em degrau e ela, com os olhos a luzir no escuro – era quase noite – perguntou: «Quem está aí?»

Não teve resposta porque eu desatei a correr escada abaixo e só parei à porta de minha casa a deitar os bofes pela boca. À ceia, eu disse: «Encontrei a Céuta a mijar nas escadinhas.» Ninguém comentou. A minha mãe disse: «Não andes de noite na rua. E sabes porquê? Anda um lobisomem atrás da Céuta para a comer. Isso é certo. Houve já quem o visse ao lusco-fusco, enorme, com a boca cheia de figos mas o que ele quer é comer a Céuta e não os figos. Nunca se sabe o que pode acontecer.»

“Eu acho que os figos são muito melhores que a Céuta…”

“Isso é o que tu achas mas não é o que ele… – Deus nos livre e guarde! – acha. E só está à espera de uma boa oportunidade. Dizem que será na próxima lua cheia. Aliás, é o costume, luas cheias, lobisomens, festins, Céutas.”

“Quem será esse lobisomem? O padre?” perguntei eu.

“Talvez” disse a madrinha Crisântema que costumava cear connosco depois de ter arrumado e lavado e encerado o chão da sua mercearia.

O corpo da minha madrinha Crisântema cheirava sempre a chouriços e a cera, cheiros esses que eu ainda hoje adoro. Nunca ia à igreja aos domingos quando toda a gente ia, nunca se vestia bem aos domingos quando toda a gente se vestia bem e nunca fechava a porta da mercearia, à noite.

«Um dia, quando lá chegares de manhã, tens tudo roubado, vais ver!»

Isto era o que toda a gente avisava mas ela nasceu com a rebeldia instalada na alma e até parece que fazia de propósito coisas que ninguém fazia. Por isso, gostava imenso de se abater sobre balcão de pedra mármore e observar a Céuta que ia comendo, com as unhas serrilhadas e negras, com as beiças engorduradas e com os pelos do bigode cravados nos nacos de pão, comendo-se, babando-se e cuspindo-se. Eu gostava de parar por ali nessa altura em que elas, em silêncio, se observavam de esguelha como fazem as aves de rapina lá no alto em seus penhascos. A madrinha Crisântema gostava mesmo da Céuta.

“Quero um rebuçado…”

“Toma e vai andando. Diz à tua mãe que logo lá estarei.”

O que ela queria era observar a outra, à vontade. Isso percebia eu. A outra, hoje, apresentava-se esquisita, dava que observar. Vomitou uma vez em cima do balcão todos os torresmos, um por um e depois, – isto vi eu que me encontrava escondida atrás da porta da rua pois não cheguei a sair – agarrou-se à barriga muito, muito, como se estivesse com uma grande cólica e contorceu-se com dores. Nisto, deu um grande grito cujo terrível som me chegou a picar a cara, como uma agulha, rolou os olhos em todas as direcções, espumou pelos cantos da boca e desmaiou, caindo com muito peso no chão. A Crisântema assustou-se e saíu da loja aos berros: «Acudam! Acudam, que a Céuta está a querer morrer!» Mas nada de especial aconteceu. A Céuta acordou, limpou as beiças à ponta da saia suja, endireitou-se e saíu porta fora um pouco a cambalear, é certo, mas sempre em frente.

O tempo passou, passaram-se vários meses sem que ninguém a tivesse mais visto até que um dia, já perto do Natal, surgiu no cimo das escadinhas muito gorda, muito redonda, com uma grande barriga, uma enorme barriga, prestes a dar à luz.

«Quem te fez o filho?» perguntou-lhe a minha madrinha Crisântema doida por saber como é que aquilo tinha acontecido ao mesmo tempo que imaginava coisas com padres e lobisomens, coisas de noites quentes, coisas de corpos colados, sugados, o padre no cimo das escadas e no cimo da Céuta, a saia repugnante arregaçada, uma caverna de pêlos e sons húmidos e pegajosos e ela que nunca tinha imaginado coisa assim agarrada à esquina do fontanário, a cabeça a refrescar dentro da água, o lobisomem a uivar, o padre a gemer, a Céuta a oscilar, uma confusão dos diabos, Padre, Céuta, Céuta, Padre, Lobis, Homem, Feiti, Ceira, Padra, Lhão, Homem, Lóbis, Lúpus, Pelos, Folga, Zona, Pélvis, Polvos, Tumba e Tumba e Záque, Trás!

«Na Páscoa passada comi um rabo de raia e fiquei assim… Na minha terra diz-se que as mulheres que comem rabos de raia têm filhos. Foi o que me aconteceu. Comi o rabo de raia e nem me lembrei!»

Foi assim que num dia de Natal, há muitos, muitos anos, nasceu o Raizito que ainda hoje é vivo embora já não seja nada novo."

Cristina Carvalho, in “A Casa das Auroras”, publicado em 2011 por Planeta Manuscrito

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

ILUSÕES DE ÓPTICA 5


Onde estão os dois amantes?

ILUSÕES DE ÓPTICA 4

Quantas mulheres há aqui?

ILUSÕES DE ÓPTICA 3


Onde está a cara?

ILUSÕES DE ÓPTICA 2


Onde está o bébé?

ILUSÕES DE ÓPTICA 1


Quantas caras há nesta árvore?

UMA APRAZÍVEL NAÇÃO 3


Terceira e última crónica da crónica do ensaista Eugénio Lisboa a propósito de uma visita de um cientista estrangeiro, no final do século XVIII, a Portugal (na figura, Lisboa, vista do Tejo):

Sobre a língua portuguesa, o cientista tece comentários lisonjeiros mas bem direccionados, visto que, como de costume, separa bem as águas: de um lado o povo, pelo qual tem afecto por outro, as “classes altas” que abomina. Diz assim: “Em geral a língua portuguesa, mesmo na boca do vulgar homem do povo, tem muito de bem educado e elegante. Ali não se ouve nenhum impropério, nenhuma expressão indecente, nada que se possa assemelhar ao inglês damn, ao francês f...e bougrement, ao espanhol carajo e caramba, a classe mais baixa menciona, de facto, por vezes o diabo e usa às vezes uma palavra que é igualmente habitual em todas as outras línguas. Todos os portugueses” garante Link, “são conversadores natos e, não raro, enfadonhos.” A seguir dá livre curso à sua sanha contra a nobreza lusa: “Diz-se que os nobres escondem por detrás de uma torrente de palavras delicadas e polidas uma natureza e uma alma falsas.” E sublinha, com acinte saboroso: “Não tenho nada a dizer em defesa das classes mais altas, ficam muito atrás dos espanhóis, tanto quanto o povo vulgar excede os seus vizinhos.” Depois, esclarece, numa impressionante passagem que parece escrita um pouco mais do que um pouco – para os dias de hoje: “Em todas as disposições falta de conhecimentos e de gosto, causada talvez pela total falta de obras de arte nesta terra, um governo que nunca soube ou teve oportunidade de arriscar atitude ou sentimentos nobres, a constante e opressiva proximidade da nação inglesa, que com razão se sente superior, a total decadência da literatura, estas são creio eu, as principais razões pelas quais o nobre português ocupa o último degrau de entre a nobreza europeia.” Substitua-se “nobreza” por “elites” e/ou “classes altas” e este panorama não estará muito desactualizado, principalmente quando nos lembramos de que no ano da graça de 2006, quase a virar para 2007, houve um governo que encolheu até aos miseráveis 0,4% do PIB a dotação para o Ministério da Cultura – lá fora já há muito se ultrapassou o 1% e, em países como a Argentina de Borges, era costume a Cultura exigir os 5%: mais de dez vezes o que a nós nos cabe em sorte.

Falando dos homens e das mulheres, Link de algum modo corrobora – sobretudo para os homens – o soturno diagnóstico feito por outros viajantes. Ouçamo-lo: “Em Portugal o sexo masculino não é bonito, raramente se vêem pessoas de estatura alta, mas mais corpos volumosos, gordos, baixos e atarracados. Os seus rostos são do mesmo modo raramente regulares, um nariz arqueado para cima e lábios salientes são tão vulgares que se poderia ser levado a pensar terem os portugueses misturado um pouco de sangue negro. Extraordinariamente impressionante”, observa Link, “é a diferença entre espanhóis e portugueses: aqui [em Portugal] desmesuradamente gordos, ali [Espanha] corpos franzinos, aqui narizes arrebitados, ali narizes aduncos, apenas se assemelham na cor morena e nos olhos negros.” A fealdade do macho luso deve ter de tal modo impressionado o alemão, que este se rende – supõe-se que com alguma relutância - a achá-la pior do que a dos nossos vizinhos, a quem raramente concede pontos, neste tipo de comparação. Mas as mulheres lusitanas têm, obviamente, componentes redentoras: “Sobre o sexo feminino,” diz Link, “o autor do Novíssimo Panorama de Lisboa, em francês, e o seu editor alemão, o Magister Tilesius de Leipzig, têm opiniões algo diversas – aquele elogia, este censura. Em termos gerais, o sexo feminino tem os mesmos defeitos do masculino: uma estatura demasiado baixa e uma tendência para uma figura forte e rude. Tem porém muita fisionomia, uma natureza viva e amável, olhos muito belos, cabelo invulgarmente comprido e forte, dentes muito brancos, um peito opulento e cheio e pés extraordinariamente bonitos, fazem no entanto, penso eu, uma atraente combinação e escondem outras irregularidades. Conhecedores elogiaram-me ainda confidencialmente muitas outras coisas que eu não posso repetir publicamente.”

Falando das prostitutas de Lisboa, a que chama, com pudor, “mulheres da rua”, considera-as bastante discretas: “apesar de elas dizerem”, nota ele, “que a porta está aberta, que se pode entrar, a verdade é que não são de modo nenhum tão impertinentes e descaradas como as mulheres em Londres ou em Paris no Palais Royal. A descrição das mesmas no Novíssimo Panorama de Lisboa é verdadeira em alguns aspectos, no todo é exagerada.” Aqui fica, para que conste , uma visão suave sobre a profissão mais velha do mundo, na Lisboa do final do século XVIII. Deixando, com alívio, este tema penoso, Link volta de novo “às senhoras de condição” e observa: “Aquela suave graça que adorna a beleza nórdica quase não se encontra em Portugal e ficar-lhe-iam porventura tão mal os olhos ardentes como a atmosfera ardente que ela mal consegue criar. Mas também se vêem belezas sublimes em Lisboa, quando o fino porte nórdico, o branco nórdico da sua pele, se juntam às vantagens de um clima meridional, produzindo o que de mais belo a natureza pode mostrar.”

Mas este longo, minucioso e saboroso capítulo sobre a fauna lisboeta de setecentos vai terminar, hélas!, com um tema necessário mas doloroso para o alemão tão bem disposto a simpatizar connosco mas, ainda assim, cientista que não está habituado a iludir os factos: refiro-me ao tema da higiene: “De um tema tão encantador [o da beleza das mulheres lusas]”, diz ele, “tenho de passar, através de uma ligação possivelmente demasiado natural, à falta de asseio dos portugueses. Assim que se deixa a Inglaterra e se pisa o solo de França, a falta de asseio torna-se progressivamente maior à medida que se avança em direcção ao sul. Os aposentos tornam-se cada vez mais sujos, as latrinas ou não existem ou são execráveis, uma horda de bichos de toda a espécie perturba o sono do viajante. Alguma coisa se tentou mudar nas novas estalagens alemãs e inglesas em Lisboa e aí a cidade de Lisboa tem vantagem em relação a Madrid.”

Por fim, enchendo-se de coragem, o cientista viajante mergulha no assunto embaraçoso, como quem se atira à água fria: “É preciso”, diz ele, como quem suspira, “[é preciso] falar dos piolhos em Portugal, falou-se demasiado sobre este assunto, contou-se que os piolhos serviriam aos soldados em jogos de azar em vez das cartas, que seriam habitualmente esmagados entre os dentes e outras coisas do mesmo género. Nunca vi nada disto. Mas a verdade é que a gente nobre não se envergonha de matar ou mandar matar em público estes bichinhos. Conta-se que a esposa de um ministro faz isso, não raro, quando joga às cartas na presença de muita gente. Isso, com efeito, não vi. Mas quando estávamos nas Caldas no Gerês, onde se encontram banhos quentes, vi a irmã do bispo e do Governador do Porto, uma jovem e atraente viúva da antiga nobreza, pela tarde, em frente da porta, deitar a cabeça no regaço da sua criada para que esta lhe catasse os piolhos. Sei de fonte segura que as jovens donzelas, quando se visitam se catam mutuamente os piolhos como passatempo.”

É quase doloroso ter que passar por cima de tanta observação interessante: os entretenimentos em Lisboa, os arredores da capital, etc. etc. Mas não posso furtar-me a transcrever aqui o que o autor diz da religião em Portugal, que excede, em finura e perspicácia, quase tudo quanto os estrangeiros costumam dizer de nós, nesse aspecto. Em 17 anos que vivi em Inglaterra, como conselheiro cultural, na embaixada em Londres, confesso que me saturei de ouvir o cliché constantemente repetido: “Portugal é um país profundamente católico!” Eu reagia: que não era bem assim, que a religião, em Portugal, era, quase sempre, de superfície, pouco vivida em profundidade, frequentemente decorativa, para inglês ver. Que não havia, entre nós, grandes místicos, como em Espanha. Que quase ninguém lera a Bíblia, que o Novo Testamento não era conhecido da maioria dos chamados católicos, muito menos comentado no que até tem de subversivo... Não adiantava: olhavam para mim com ar desconfiado, quase escandalizado. Acho que me catalogavam de comunista e se admiravam de a embaixada dar emprego a gente como eu. Ao que as coisas chegaram... Ouçamos então Link, a este respeito:

“Como estou a falar de diversões”, diz ele – e reparem que é a propósito de “diversões” que ele vai falar de “religião” – "[como estou a falar de diversões] não posso esquecer a religião, que na Península ocupa entre estas um lugar de destaque. Vai-se à missa porque não se tem outro passeio, gosta-se das cerimónias religiosas porque se procura passar o tempo, seguem-se as procissões como quem vai à ópera. Em todos os relatos de viagens em Portugal se fala das histórias amorosas a que a missa dá azo e, como é habitual, também aqui se exagera. Como as jovens raparigas quase não saem de casa a não ser para ir à missa, é de esperar que aí o amor não perca a oportunidade única de mostrar o seu poder, e é natural que especialmente a donzela para sempre ame os locais onde pela primeira vez experimentou as emoções do amor e devoção. No campo, o motivo de um passeio à noite é muitas vezes uma imagem de Nossa Senhora, uma pessoa ajoelha e reza levanta-se e ri-se e namora-se como antes. Em geral os portugueses observam com muito rigor o lado exterior da religião, talvez mais do que os espanhóis. Quem come carne na Quaresma tem mesmo de ser muito instruído. Ouvi com prazer uma vez que a questão foi lançada: seria maior pecado comer carne na Quaresma ou infringir o sexto Mandamento? A conclusão em termos gerais foi que o último pecado seria uma ninharia em relação ao primeiro. Não obstante, a nação e mesmo o povo mais vulgar não é tão fanático como em Espanha. Podia contar uma série de coisas a este respeito, mas contento-me apenas com algumas. Assisti em Setúbal a uma procissão onde dois capitães de navios, um inglês e um dinamarquês, ao passar o Espírito Santo não tiraram o chapéu. Ninguém se preocupou com o caso, apenas um marinheiro português perguntou: quem são aqueles ali com os chapéus na cabeça? São ingleses, fideputas, replicou o outro, e com o palavrão a coisa ficou resolvida. Quando o príncipe de Waldeck foi sepultado, ouvi dizer a um homem do povo: era um herege, mas um muito bom homem.

Em seguida misturei-me com a multidão e não ouvi senão louvores e elogios ao amável Príncipe que foi precisamente levado para o cemitério protestante, soube mesmo que ele declinou o habitual convite para se tornar católico que lhe foi feito à hora da morte e verifiquei, para meu grande espanto, que esse acto obteve de um modo geral a aprovação de todos, na medida em que cada, pessoa deveria viver e morrer na sua fé.

O português considera qualquer estrangeiro um herege e é atencioso e prestável para com ele, chega mesmo a admirar-se quando vê estrangeiros católicos.”

Julgo tratar-se de uma avaliação justa e que dá à superficialidade com que os portugueses, em geral, vivem o seu catolicismo o corolário satisfatório de uma tolerância que convive mal com qualquer hipótese de fundamentalismo. Bem está o que bem acaba.

Tenho que fechar esta excursão e faço-o com tristeza e relutância. Muito haveria ainda que transcrever sobre instituições públicas, terras entre Lisboa e Coimbra e, sobretudo, desta cidade à beira do Mondego, de que diz que “as ruas são extremamente estreitas, pequenas, sinuosas e angulosas, mal pavimentadas, muito imundas e muitas vezes tão íngremes que só com esforço se conseguem subir.” Nota ainda que “nenhuma outra grande cidade em Portugal tem estalagens tão más como Coimbra” e que “nelas um forasteiro recebe aposentos miseráveis, más camas e comidas cuja apresentação requer o apetite de um botânico.” Observa ainda, de passagem – e os lisboetas que se limpem a mais este guardanapo – que “quanto mais se anda em direcção ao norte em Portugal, tanto melhor, mais bondoso e trabalhador é o povo. Pilhagens e roubos são aqui já muito raros.”Afirma que “o mais importante em Coimbra é a Universidade” e nota que, com Pombal, “o regulamento da mesma sofreu uma grande mudança, sem dúvida muito proveitosa.” Mas acrescenta, para ser objectivo, que “os regulamentos não são tudo” e que “onde falta um espírito vivo e activo as ciências não prosperam, elas exigem gastos, estímulo e uma avaliação correcta dos verdadeiros méritos, recursos com os quais (mesmo com uma constituição medíocre) mais se realiza do que com o melhor regulamento do mundo.” Diz ter encontrado, entre os professores da sua especialidade, “homens lúcidos e activos”, dos quais destaca Dom Félix de Avelar Brotero, de quem afirma: “Seria injusto para com este homem se não o colocasse categoricamente ao lado dos melhores botânicos que conheço.”

No entanto, nota isto que tem ainda hoje, infelizmente, validade no universo ainda relativamente fechado da Universidade Portuguesa: “Mas ele [Brotero] estudou oito anos em Paris, não foi educado na Universidade de Coimbra, por isso os seus colegas troçam dele, e o desgosto e a hipocondria juntos tolhem este homem de resto muito activo.”

Mas tenho que terminar, até porque o viajante alemão diz muito pouco de Aveiro para além de afirmar que “não há outra cidade em Portugal que tenha em seu redor uma planície tão extensa e tão grandes pântanos de água doce como Aveiro.” É pouco mas não ofende.

Minhas senhoras e meus senhores: o grande Montaigne, homem de excelente companhia e de franco falar – a minha inevitável escolha para uma ilha deserta – dizia: “Eu respondo normalmente àqueles que me perguntam sobre as razões das minhas viagens: sei muito bem de que fujo mas não o que procuro.” Henrich Friedrich Link não pertencia a esta paróquia de viajantes: viajou, não para fugir da Alemanha mas sim para investigar a flora portuguesa. Tinha um objectivo muito claro. De caminho, investigou outras coisas, entre elas, o bicho lusitano. Disso nos deixou um relato vivo e aprazível, cumprindo na íntegra o caderno de encargos que a si próprio impôs, nestes termos: “Na descrição procurei evitar, tanto quanto possível, tudo o que fosse enfadonho, ainda que deste modo me possa tornar suspeito de ser menos exacto. Não possuo o talento de muitos escritores para, através de um estilo difuso, enfadonho e obscuro, expor observações que foram feitas de uma forma ligeira, como se de coisas pesadas e importantes se tratasse. Prefiro”, conclui ele, “verter de uma forma fácil o que exigiu longo tempo de observação.” Enfadonho, Link, nunca o é. Se, transcrevendo-o com abundância, me tornei eu próprio enfadonho, a culpa não pertence, por certo, à certeira vivacidade e olho lesto do esforçado cientista e viajante alemão.

Eugénio Lisboa

REFERÊNCIAS
(1) Richard Croker, “Viagens através de Várias Províncias de Espanha e Portugal”, carta XXV, in Portugal Visto pelos Ingleses, org. Maria Laura Bettencourt Pires, Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1981, p. 112.
(2) Idem, p. 110
(3) Notas de uma Viagem a Portugal e através de França e Espanha, tradução, introdução e notas de Fernando Clara, Biblioteca Nacional, Lisboa, 2005.
(4) in Portugal Visto pelos Ingleses, pp.40-41
(5) in Portugal Visto pelos Ingleses, p. 26

domingo, 7 de agosto de 2011

O afastamento de Luís Capucha responsável pelo Programa Novas Oportunidades

“As Novas Oportunidades são uma megaprodução que atribue uma credenciação à ignorância” (Pedro Passos Coelho, em Maio deste ano).

Foi noticiado ontem no Público não ter o actual governo reconduzido Luís Capucha no cargo de presidente da Agência Nacional para a Qualificação (ANQ) responsável pelo programa Novas Oportunidades.

A solicitação deste jornal diário, em 7 de Julho do ano passado, sobre as Novas Oportunidades foram aí publicados, em simultâneo, dois artigos de opinião. Um a favor, da autoria de Luís Capucha em que ele aproveita para se auto-elogiar, no esquecimento ou na ignorância da máxima latina de que laus in ore propria vlescit (isto é, louvor em boca própria é vitupério). Outro contra, por mim subscrito, com o título “Estarão aqui em causa Novas Oportunidades ou Novos Oportunismos?”

Transcrevo abaixo esse meu texto, pela actualidade de que se reveste e por o De Rerum Natura ter sido sempre muito crítico publicamente em relação às Novas Oportunidades. Escrevi então:

"No ano de 2006, foram divulgados os resultados do PISA (“Programme for International Student Assessment”) que colocaram Portugal apenas à frente da Grécia, da Turquia e do México.

(…) Era este, portanto, o desolador panorama do nosso país em que “até dá pena ver o esforço das autoridades portuguesas para desvalorizar o PISA e, quando não o desvalorizam, o esforço para desculpabilizar um sistema que assim se vê tão cruamente retratado e, claro, abalado”, dizia Carlos Fiolhais.

E se no sistema educativo regular dos jovens portugueses com a idade de 15 anos, pois é neste escalão etário que incide o PISA, houve maus resultados impossíveis de esconder, no Programa Novas Oportunidades, destinado a indivíduos maiores de 18 anos que deixaram de frequentar a escola por reprovações sucessivas [ou em aditamento que faço agora, ou por carências económicas] os resultados transformaram-se em êxitos estatísticos oficiais de uma desastrada política educativa.

A réstia de esperança que pudesse haver sobre a bondade de uma segunda oportunidade, para quem desperdiça uma primeira, foi abalada em seus frágeis alicerces pela leitura de uma extensa reportagem sobre os Cursos de Educação e Formação, publicados no “Expresso” (08/12/2007). Por ela se ficou a saber que estes badalados cursos para aumentar as percentagens estatísticas de portugueses que terminaram os 6.º, o 9.º e 12.º anos de escolaridade, não espelham uma situação verdadeiramente verdadeira, credível ou séria.

Não querendo generalizar a todos estes cursos efeitos perversos, tenho razões para pensar que em sua grande maioria sirvam apenas para passar o tempo de quem procura um diploma avalizado pelo Estado. A título de mero exemplo, extraio ainda do "Expresso" este elucidativo pedaço de prosa da autoria do professor que denunciou ao Presidente da República o verdadeiro escândalo que se acoberta por detrás destas actividades curriculares: “Estes frequentadores da escola aparecem nas aulas sem trazer uma esferográfica ou uma folha de papel. Trazem o boné, o telemóvel, os ‘headphones’ e uma vontade incrível de não aprender e não deixar aprender”.

Nas sábias palavras de Stephen Covery, “se continuarmos a fazer o que estamos fazendo, continuaremos conseguindo o que estamos a conseguir”. Ou seja, continuando a consentir “que se estejam a fabricar ignorantes às pazadas” (Medina Carreira), a educação portuguesa corre o risco de ruir ao peso das Novas Oportunidades". Amplamento satisfeito com o trabalho por si próprio produzido, Luís Capucha disse ter “cumprido a sua missão” para logo acrescentar em jeito de despedida como quem acha ser díficil a respectiva substituição: “Espero que o Governo arranje alguém que continue à altura” ("Público", 06/08/2011). Comoventes, ou mesmo trágicas, estas suas palavras, não se desse o caso de serem de um ridículo atroz.

Na fotografia: Luís Capucha.

sábado, 6 de agosto de 2011

Uma data triste de ser lembrada: 06 de agosto de 1945!



Quando você desejar fazer algum mal para alguém prepare-se para pensar o impensável pois um dia terá que aceitar o inaceitável.

Veja esta matéria também no site: http://www.drheliodias.com/

Português e Matemática


Apelo à leitura em várias escolas de Lagos.

UMA APRAZÍVEL NAÇÃO 2


Continuação do artigo de Eugénio Lisboa sobre o relato da visita de Link a Portugal:

Quanto a estalagens portuguesas, Link fala com certa abundância, mas reteremos apenas que, segundo ele, “quem tem a boca fina terá certamente alguma coisa a objectar, mas não se pode imaginar como é desagradável depois de uma longa jornada ter de se preocupar com o mínimo pormenor. Encontrámos um serviço rápido e bom, a comida não era má, e a bonita e amável estalajadeira tinha a vivacidade, uns olhos lindos e conversadores e a decência que tão notavelmente singularizam e distinguem este povo. Que distância entre Badajoz e Elvas a este respeito!” Limpem-se a este guardanapo os nuestros hermanos. Elvas impressiona-o bem: “Na cidade,” diz, “tanto quanto era dado ver, estava tudo em boa ordem na Primavera de 1798: a fortaleza estava bem guarnecida e faziam-se novas obras. Em Badajoz parecia tudo vazio e abandonado. Via-se”, conclui com astúcia, “[via-se] que Portugal tinha receio, mas Espanha não”. Sobre o nosso exército diz coisas lisonjeiras, à sua maneira cândida: “As tropas portuguesas não são más. Conheço regimentos que manobram bem e disparam certeiro, mesmo quando os comparo com os muitos e variados exércitos que vi em manobras.” E mostra uma comiserada simpatia pelos da arma de cavalaria: “A cavalaria”, diz ele, “tal como a espanhola, tem apenas alazões, os cavalos são porém mais robustos que os da cavalaria espanhola. Não montam mal, mas a farda não lhes fica bem. Os soldados são miseravelmente pagos, um soldado recebe diariamente dois vinténs ou 40 reis (600 fazem um táler), dos quais ainda tem de descontar alguma coisa para a farda, um soldo extraordinariamente miserável num país tão caro como é Portugal, especialmente Lisboa. Pão, uma sardinha e um vinho mau são a invariável alimentação diária destes homens, que nunca, ou porventura raramente, têm carne ou hortaliças para comer. No ano de 1798”, acrescenta Link, “foi incorporada à força uma quantidade de jovens e muitos regimentos foram aumentados em 500 homens. Tiraram as gentes dos seus trabalhos no campo. Foram buscá-los a todo o lado, o governo prometeu recompensas aos juizes de fora que conseguissem muitos recrutas e o resultado foi que muitas vezes se encontravam bandos inteiros que eram conduzidos numa longa fila com as mãos atadas, como criminosos. Era uma desgraça ver esta gente, que porventura podia viver confortavelmente em casa dos frutos do seu trabalho e agora era arrastada para a cidade para aí passar fome. Muitas vezes à noite em Lisboa, frente às casernas do regimento de Gomes Freire, era-me pedida esmola pela sentinela, que tinha a justo título direito à minha compaixão. Poder-se-á condenar a nação portuguesa”, pergunta Link, “por ela, em face destas circunstâncias, detestar o serviço militar?” O único comentário que gostaria de aqui fazer é que, mais de um século e meio depois quando eu próprio fiz o serviço militar, as condições não eram substancialmente melhores – e o amor ao serviço militar não tinha crescido de modo visível...

Não vou poder demorar-me em tanta passagem apetecida, para não me alongar demasiadamente, e não vou, sobretudo, demorar-me no Alentejo, minha província favorita. No entanto, não posso deixar de permitir ao botânico que Link também foi que aqui diga duas ou três belas coisas sobre as charnecas do Alentejo, até porque é surpreendente a intensidade do entusiasmo: “Vimos estas charnecas na mais bonita estação do ano, no início da Primavera. As belas urzes, os encantadores cistos da Europa do Sul, estavam quase todos a florir e um ar ameno e calmo estava cheio dos mais variados aromas. Quem subitamente fosse transportado da Alemanha para uma charneca como esta acharia a vista extraordinariamente bela e decerto não pensaria em fazer qualquer comparação com a charneca de Lüneburg ou mesmo com uma charneca inglesa. A variedade dos arbustos é excepcionalmente grande, a beleza dos mesmos excede de longe a maior parte das nossas plantas nórdicas, além disso estes estão sempre verdes e justamente no Inverno muitíssimo bonitos.” Mas não há bela sem senão e, neste, como em muitos outros pontos, Link dá-nos prova da sua vontade de objectividade, ao assinalar uma nódoa no esplendor natural que acaba de nos descrever: “Mas pondo de parte esta variedade de flores,”, diz ele, “estas charnecas rapidamente se tornam desagradáveis, até mesmo ali, nos sítios onde são mais belas. Sem cultura não há paisagem que agrade, se não tiver um estilo sublime.”

Chegando a Lisboa, vindo do Sul, o espectáculo, visto da outra margem, deixa-o literalmente embasbacado: “A vista de Lisboa”, nota ele, “quando se atravessa o rio vindo de Aldeia Galega, da Moita ou de Cacilhas, é extraordinariamente bela. Não conheço nenhuma cidade que se exiba tão majestosamente. A grande superfície de água, um caudal que em alguns sítios tem uma largura superior a duas milhas alemãs, a quantidade de navios mesmo junto ao rio, a cidade grande que se estende pelas colinas como um anfiteatro, com uma série de igrejas, jardins e oliveiras – tudo isto é por certo uma invulgar combinação de raras belezas. A uma distância maior, quase não se distinguindo a cidade propriamente dita porque toda a margem do rio é uma cidade, a majestosa, rochosa e pontiaguda serra de Sintra forma ao longe o pano de fundo deste quadro, depois de já a alta serra da Arrábida, do lado sul do rio, nos ter surpreendido no meio das charnecas. À medida que uma pessoa se aproxima, começa-se finalmente a distinguir a cidade que ocupa as colinas até aos seus cimos, descobre-se a bela praça do Comércio, as novas ruas, o Arsenal, o Terreiro do Trigo, vê-se como o rio se estreita junto à foz e, coberto de grandes navios, desagua no mar por entre colinas que aqui, do lado sul habitualmente plano, também se elevam, admiram-se estas colinas do lado norte com Belém, a Ajuda e a sua igreja resplandecente, com a Tapada Real, e do lado sul adornada com a vila de Almada, cuja igreja se encontra no cimo do primeiro cume. Poder-se-á levar a mal aos portugueses”, pergunta Link, “quando num passeio pelo rio eles dizem que Lisboa é a mais bela cidade do mundo? Cheio de razão diz a este respeito o provérbio: quem não tem visto Lisboa não tem visto coisa boa. Quem não viu Lisboa não viu nada. Porque uma vista destas não existe em nenhum outro lado.”

Um tal entusiasmo faz um contraste quase impensável com, por exemplo, as páginas do diário do grande romancista inglês, Henry Fielding, o celebrado autor do romance Tom Jones, à sua chegada a Portugal, em 1754. Deve ter-se em conta o estado de espírito de Fielding: com 47 anos apenas, mas coxo e com os pulmões devastados, o grande romancista inglês, que publicara a sua obra-prima 5 anos antes, chegava a Lisboa quase moribundo – viria a morrer pouco depois da sua chegada, encontrando-se hoje sepultado na capital portuguesa. Doente, diminuído, amargurado, a sua visão reflecte o seu estado de espírito. Com a data de 7 de Agosto de 1754, o seu diário regista, sem complacências, o seguinte, escrito apenas quatro décadas antes da visita de Link:

“Lisboa, perante a qual nós agora estamos ancorados, dizem que foi construída sobre o mesmo número de colinas que a velha Roma, mas não se vêem da água, pelo contrário, daqui vê-se uma vasta e alta montanha e um rochedo, com edifícios erguendo-se uns acima dos outros, e isto de modo tão inclinado e quase perpendicular, que todos eles parecem ter apenas um alicerce.

Como as casas, conventos, igrejas, etc. são grandes e construídos com pedra branca, todos parecem muito belos, à distância, mas quando nos aproximamos mais, vemos que lhes falta qualquer ornamento e toda a ideia de beleza desaparece.

Cerca das sete da tarde entrei para uma liteira no cais e fui conduzido através da mais feia cidade do mundo, embora ao mesmo tempo uma das mais populosas, a uma espécie de café, que está agradavelmente situado no cimo de uma colina, a cerca de 1 milha da cidade e tem uma bela vista do rio Tejo de Lisboa até ao mar.” (5)

Repare-se no acinte: Lisboa é a “mais feia cidade do mundo” – não apenas uma das mais feias, mas simplesmente, “a mais feia”. Fielding não vai jantar a um café, mas sim “a uma espécie de café” e o próprio jantar, se lhe concede ser “bom”, diminui-lhe o aprazimento qualificando-o de “caro”... Não há dúvida de que o autor de Tom Jones não estava, naquele momento, para graças... Este texto do diário do escritor inglês é um bom exemplo, em que vale a pena meditar, de como a subjectividade do viajante, alimentada de uma variedade de especiarias mas também de venenos, pode dar ao seu relato os coloridos e as tonalidades mais diversas: do encanto à repulsa, do entusiasmo ao tédio, do apreço ao denegrimento.

Link dedica um generoso número de páginas a Lisboa e, seja dito de passagem, corrobora Fielding ao negar a existência de sete colinas que reduz apenas a três. E, dando provas sobejas de imparcialidade, faz um abundante acervo de observações em flagrante contraste com o entusiasmo que lhe causaram as primeiras impressões. “A primeira coisa que uma pessoa não pode deixar de notar em Lisboa” diz o nosso viajante, “é o mau policiamento [como se vê, não é só de hoje...]. A imundície das ruas está amontoada por todo o lado, nas ruas mais pequenas e estreitas, onde a chuva não lava, forma verdadeiras colinas, e para uma pessoa não se afundar no meio dela tem de conhecer muito bem o carreiro. (...) Pense-se na quantidade de pessoas que diariamente fazem este caminho, nos galegos com as suas enormes cargas de que ninguém se pode afastar ou evitar, pense-se igualmente que as carroças passam tão perto das casas quanto possível, para não deixar os cavalos enterrar-se na lama profunda, e pense-se ainda que toda a imundície e porcaria da pior espécie é deitada às cegas para cima dos passantes. E agora a noite. Antigamente a cidade era iluminada, agora já não, e como as lojas fecham cedo nada alumia a escuridão das vielas estreitas e mal pavimentadas. Uma horda de cães sem dono que se alimentam à custa do público erra pela cidade como lobos esfaimados e, pior ainda do que estes, é a horda de bandidos. Muitos se admiraram como nós tínhamos ousado, nestes tempos de guerra, viajar para Portugal por terra, eu garantia que esta não é de longe uma empresa tão audaz como ir de Belém a Marvila, no extremo oriental da cidade, por volta da meia noite. Como pode um povo, entre o qual se encontram afinal homens esclarecidos, aguentar horrores deste género, que põe Lisboa ainda abaixo de Constantinopla?”

O Carnaval em Lisboa também lhe não deixou gratas recordações: “As diversões do Carnaval”, diz ele, “são sempre feitas segundo o gosto dominante da nação. E em que é que consistirão em Lisboa? Nobres e gente do povo divertem-se em atirar toda a espécie de sujidade e imundície aos passantes que, de acordo com o costume e para evitar maus encontros, aguentam pacientemente este tipo de coisas. Uma encantadora dama de condição despejou um bacio sobre mim, não me deixando qualquer consolo a não ser o de esperar que o bacio fosse o seu.” Falando de banditismo, Link denuncia, com perspicácia, a atitude lusa de complacência ou, mesmo, quase cumplicidade admirativa para com o prevaricador: “Era-se ousado”, observa ele, “ao ponto de se assaltar carruagens. O criminoso escapa quase sempre, em virtude de uma compaixão verdadeira e genuinamente portuguesa, toda a gente lhe facilita a fuga. Coitadinho, pobre homem, dizem, e tudo lhe corre de feição. A pena de morte foi completamente abolida, enviam-se os criminosos para a Índia ou para Angola, uma pena que contudo nunca faz tanto efeito como a pena de morte, apesar de não ser insignificante, tendo em conta o clima doentio de ambos os países.”

Quanto à caracterização do criminoso, Link não temia o politicamente incorrecto, visto tais conceitos não estarem ainda em vigor, na altura em que escrevia. Por isso, com escarolada candura, observa: “Uma grande parte dos ladrões são negros, que existem aqui em grande número, talvez mais do que em qualquer outra cidade da Europa, sem exceptuar Londres. Muitos têm já aqui ocupações burguesas, não sendo raro ver negros ser apresentados como bons e honestos cidadãos, alcançam um alto grau de destreza e habilidade. No entanto uma grande parte são pedintes, ladrões, alcoviteiros e alcoviteiras..” E continua, caracterizando Lisboa, cuja fauna lhe parece bem pior do que a do restante país: “Há uma grande quantidade de ralé em Lisboa, pois todas as gentes inúteis das províncias afluem para a capital, e podem sair-se bem com facilidade na cidade aberta. (...) Um médico pode encontrar aqui algumas raras e curiosas doenças de pele, observei muitas vezes um verdadeiro leproso e através de observações deste género procurei manter-me incólume ao asco que elas inspiram. Os mendigos recebem esmolas copiosas, do mal entendido serviço religioso nos países católicos faz parte dar esmolas. Muitas vezes têm manhas refinadas para conseguir estas esmolas. Lembro-me de um homem velho que se atirava para o chão à nossa frente por causa da fome, como ele depois dizia, apanhando assim rapidamente ao meu jovem acompanhante uma considerável moeda de ouro. Eu um bocado mais frio do que ele, reparei na queda teatral, retraí-me na minha dádiva, examinei a coisa e verifiquei que a minha suposição era fundada. Outro peditório é pelas almas do Purgatório. (...) Em Portugal tudo acontece pelo amor de Deus e pelas almas.” Outro grande tema que parece ter fascinado o viajante alemão é o do rapé: “O rapé”, diz ele, “é uma grande necessidade da nação inteira, de todas as classes, de ambos os sexos e de todas as idades. Pode-se ficar muito bem relacionado com um português comum e vulgar oferecendo-lhe uma pitada de bom tabaco. Vi uma pedinte atascar de tabaco o nariz da criança que trazia ainda ao colo. Numa excursão botânica pelos arredores de Lisboa, encontrei uma mulher muito bem vestida que me pediu uma pitada de rapé porque tinha perdido a sua caixa de tabaco. Quando lhe disse que nunca trazia tabaco comigo, respondeu-me com a expressão da mais violenta dor: estou desesperada. Não se pode pois levar a mal a Afonso IV”, comenta Link, com ironia alemã, “o facto de, depois da batalha do Ameixial, ter mandado oferecer a todos os soldados ingleses, que por ele tão valentemente lutaram, duas libras de rapé.”

Ainda neste capítulo, Link critica autores que, como Murphy, julgam todo o Portugal como se se tratasse de Lisboa: “Quem quiser julgar a nação a partir de Lisboa corre o risco de se enganar muito. A cidade é o ponto de concentração de todos os gatunos, vigaristas e patifes do Reino inteiro e uma grande parte dos estrangeiros de condição mais baixa pertence do mesmo modo à escumalha das suas nações.”

Eugénio Lisboa
(continua)

ASTROFESTA 2011


Os organizadores da Astrofesta pediram-nos mara divulgar esse evento, o maior de Astronomia Amadora em Portugal. Embora com um dia de atraso, aí vai. O tempo pode não ajudar às observações mas sempre há as palestras.

A entrada é livre (grátis).

O CARTAZ da ASTROFESTA 2011 pode ser visto aqui.

O programa é este. Também se pode ver de seguida:

Em 2011 comemoram-se os 150 anos do Observatório Astronómico de Lisboa (OAL) e os 100 anos da FCUL e da UL. Para assinalar este facto foi decidido escolher o Observatório Astronómico de Lisboa como local para realizar a ASTROFESTA no fim de semana 5, 6 e 7 de Agosto de 2011 (quarto-crescente da Lua, como é habitual). A organização, que está a cargo do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, é assumida conjuntamente pelo Centro Ciência Viva de Constância, o Observatório Astronómico de Lisboa e pela Associação Portuguesa de Astrónomos Amadores. Além das observações possíveis no céu de Lisboa, está planeado um conjunto de palestras, algumas das quais de temática histórica, e também uma actividade forte centrada em workshops ligados com a utilização de telescópios e a astrofotografia. Falaremos dos telescópios do passado, do presente e do futuro.

Sexta feira, dia 5 de Agosto

18:30 O Observatório Astronómico de Lisboa - 150 anos
Pedro Raposo (CIUHCT)

19:30 Visita guiada aos espaços do Observatório.

21:30 2012 - o ano da confluência cósmica?
Rui Agostinho (OAL, FCUL)

22:30 Momento musical pelo conjunto Aves Migratórias

23:30 O céu de Portugal
Máximo Ferreira (CCVC), seguido de observações pela noite dentro

Sábado, dia 6 de Agosto

11:30 Telescópios do presente
Guilherme Almeida (APAA)

12:00 Iniciação à Astrofotografia
Pedro Ré (FCUL, APAA)

12:30 Medir o Céu
V. Teixeira e L. Tirapicos (MCUL)

As três apresentações de manhã destinam-se a introduzir e a motivar os
participantes para os "workshops" da tarde, de natureza "hands on", que
funcionarão em paralelo entre as 14h e as 17h. Devido a limitações de espaço
estas actividades têm um número máximo de participantes e requerem uma
inscrição prévia obrigatória. Consulte a página de Inscrições para
informaçoes adicionais.

WS1 - Óptica e tipos de telescópios (APAA)
WS2 - Astrofotografia (APAA)
WS3 - Relógios de Sol, astrolábios e outras actividades (MCUL e OAL)

Funcionarão ainda mais duas actividades neste período entre as 14h e as 17h

ACT1 - Técnicas matemáticas da Astronomia antiga: uma introdução, Henrique
Leitão (FCUL, CIUHCT)
ACT2 - O CAAUL abre as suas portas, Investigadores do Centro de Astronomia e
Astrofísica da Universidade de Lisboa

17:00 A ASTROFESTA DE 2011
Assinalando mais uma edição das astrofesta, o OAL convida as instituições
participantes para uma pequeno depoimento formal de abertura: com
representantes da UL, da FCUL, da C.Viva, da APAA.

17:30 A luz do Universo
José Afonso (OAL)

18:15 A astronomia de Galileu
Henrique Leitão (FCUL, CIUHCT)

19:00 O observatório Astronómico da Escola Politécnica
Marta Lourenço (MCUL)

19:30 Actividades de Astronomia no Museu de Ciência da Universidade de
Lisboa
Vasco Teixeira (MCUL)

20:00 Actividades de Astronomia no Centro Ciência Viva de Constância
Máximo Ferreira (CCVC)

21:30 Telescópios do passado
Luis Tirapicos (MCUL)

22:00 Planetas extra solares
Nuno Santos* (Universidade do Porto)

23:00 Telescópios do futuro
José Afonso (OAL), seguido de observações pela noite dentro

Domingo, dia 7 de Agosto

11:30 Navegações astronómicas nos descobrimentos
Rui Agostinho (OAL, FCUL)

12:30 Medições da altura do Sol
Máximo Ferreira (CCVC)

14:00 Encerramento

Não faltem!

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

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