O contacto entre estudantes de Ciências da Educação e educadores experientes é decerto uma mais-valia para a formação dos primeiros. A entrevista que se segue surgiu e tem sentido nesse quadro. O entrevistado é Rui Marques Veloso, licenciado em Filologia Clássica com o Curso de Ciências Pedagógicas, que lhe deu acesso profissional à docência. Foi professor de Liceu e do Ensino Superior, na área da formação de professores. Com obra reconhecida na área da literatura para a infância e juventude é, no presente, colaborador do Plano Nacional de Leitura.
P: Nos debates sobre o ensino surgem concepções de educação que tanto ancoram no designado "modelo tradicional" como no designado "modelo novo". Como se posiciona em relação a este dualismo, a partir da sua vasta experiência como professor, formador e investigador?
R: Devo começar por dizer que sou um produto dos anos 60. A sala 17 de Abril deste
Departamento de Matemática, onde estamos, deixa-me imensas recordações de um tempo
revolucionário sob diversos pontos de vista, inclusive o da educação. Este é o
40.º ano que lecciono. Quando terminei o meu curso, em 1967, tinha 20 anos, era menor de idade e foi preciso uma autorização especial para começar a exercer a docência e, assim, fui o mais jovem professor do ensino liceal. A partir de 1978 comecei a trabalhar na formação de professores, mais tarde integrei-me na supervisão de estágios… Perceberão que, ao longo destes anos, passei por muitos tipos de ensino, eu próprio tive várias ideias e ideais acerca do ensino… Ao olhar para o meu percurso sobretudo como formador, posso dizer que tenho uma sensação um pouco
contraditória: por um lado, sinto que fiz qualquer coisa, mas, por outro lado, sinto que falhei.
Sinto que fiz qualquer coisa porque penso ter conseguido transmitir aos meus formandos a noção de exigência e a consciência de que ser professor é a melhor coisa que há. Sinto que falhei por não ter sido tão exigente como devia, particularmente ao nível da avaliação. Muitas vezes penso que sou responsável pela certificação
profissional de pessoas que eu sei que não são bons professores. Por muita intuição que se tenha, não há nada que substitua uma sólida formação científica e uma sólida formação pedagógica e didáctica.
Entendo que estes são os pilares fundamentais da formação. As lacunas existentes vêem-se no estágio e são muitas. E, aqui, eu não perdoo aos meus formandos falhas do domínio científico porque entendo que ninguém pode ensinar o que não sabe. Posso perdoar falhas do domínio pedagógico porque entendo que estamos sempre a aprender e essas falhas podem vir a ser colmatadas. Goethe quando tinha 83 anos disse que ainda não tinha deixado de aprender a ler…
Mas, respondendo de modo mais concreto à vossa pergunta… Parece-me que não podemos usar métodos de há 30 ou 40 anos atrás, não podemos recorrer a soluções que se mostram inviáveis. A actualização permanente de métodos e ideias é crucial. Deixem-me dar um exemplo: num artigo recente publicado na revista
Xis, Daniel Sampaio inverte o
slogan “
é proibido proibir”, que foi um grito de resistência ao conservadorismo, para “
é proibido não proibir”. Isto mostra que uma das diferenças de que enferma o ensino está
diagnosticada. A autoridade no ensino, que é diferente de
autoritarismo, tem que ser recuperada. Eu passei pela fase do
autoritarismo como aluno e como professor e pela fase de falta de autoridade como aluno e como professor, sofrendo com ambas.
P: Tem-se a ideia de que os pedagogos, os especialistas da educação defendem um conjunto de concepções educativas, mais conotadas com a educação nova, progressista, romântica. Pensa que esta ideia
corresponde à realidade?
R: Nalguns casos
correspondem à realidade, mas noutros não. Há meia dúzia de anos perguntei numa aula: “
Quem é que educa as crianças?”. Uma aluna, que dali a algum tempo ia ser professora, respondeu: “
São elas que se educam a si próprias”. Não foi uma resposta dada por acaso, é uma resposta que assenta na crença do mundo de
Peter Pan: as crianças deixadas a si próprias são capazes de se orientar. Recuei ao início da minha carreira e lembrei-me que também eu me deslumbrava com as ideias de
Neill e com a Escola de
Summerhill. Nessa altura sonhava, por exemplo, com uma escola onde não houvesse um reitor, que tinha um poder absolutamente
discricionário, que podia dizer a um professor: “
tenha juizinho, se não para o ano não tem lugar aqui, nem em qualquer outra escola”, que não se preocupava com a competência científica e pedagógica dos seus professores mas que os chamava a atenção pela maneira como se apresentavam ou por falarem com os alunos fora das paredes do liceu. Nessa altura eu, que tinha a idade que vocês têm agora, queria que a educação fosse outra coisa: que se estabelecesse uma relação mais próxima com os alunos, por exemplo. Quando percebi que os meus sonhos de uma pedagogia nova também tinham fragilidades foi um choque muito grande.
Penso agora que pedagogia tem de ser sempre renovada, pois trabalhamos com jovens em tempos diferentes. Não podemos recorrer hoje à pedagogia tradicional, mas devemos tirar dela o que é válido. Nem podemos embarcar na pedagogia nova de forma acrítica, dogmática. Todas as
pedagogias que produzem frutos,
independentemente de estarem conotadas com o tradicional ou com o novo, são boas”.
Vou dar um exemplo de uma renovação pedagógica
incontornável: será impensável leccionar no presente sem recurso aos equipamentos informáticos, porque as novas gerações convivem todos os dias com eles. Os professores não podem ser
info-analfabetos, ainda que muitos o sejam e não se preocupem em mudar… A escola a que pertenço criou um programa de competências básicas a nível informático destinado a escolas do 1.º ciclo que se distribuem num raio de 50 km. Verificámos que muitos dos equipamentos estavam encaixotados. Um professor, questionado, respondeu que não usava, nem pensava vir a usar o computador. E lamentavelmente esta atitude não é só em relação às tecnologias. Sendo também formador ao nível da formação contínua, um dia uma professora disse-me: “
Não me interessa o que está a dizer, eu ensino como aprendi há 30 anos e assim vou continuar”. Num outro país isto seria causa de despedimento, no nosso não acontece nada. Mas, reflectindo ainda sobre as
pedagogias tradicionais e novas e recorrendo à minha observação do trabalho que se faz em muitos jardins de infância, ao abrigo do que se pensa que são as
pedagogias novas, não se estrutura nada, não há planificação, não há definição de actividades, o que há é uma anarquia. São as
pedagogias novas levadas ao extremo. No entanto, para me distanciar deste extremo não me aproximo do seu contrário, não partilho da ideia de que, antigamente é que se aprendia.
P: Como vê os especialistas em ciências da educação no nosso sistema educativo? Como é que podemos vir a desempenhar um papel positivo?
R: Os meus 40 anos de ensino permitem-me dizer que os licenciados nesta área deveriam ter lugar na escola, pois o seu papel é fundamental a diversos títulos. Estou consciente que o processo de ensino-
aprendizagem até aos dez anos é decisivo para o desenvolvimento futuro das crianças e é neste campo que as ciências da educação devem actuar. Encontro-me entre as pessoas que se recusam a considerar as ciências da educação como as “ciências ocultas”, as principais culpadas quando as coisas não correm bem na educação, o bode expiatório dos males da educação. Penso, no entanto, que tem existido um mau uso das ciências da educação e que isso tem sido altamente nocivo. Não podemos cair no erro de as sacralizar, nem de as atirar fora. Nos grupos de estágio é frequente surgirem questões de ordem pedagógica e didáctica. Como ensinar isto? Como é que o professor pode potenciar as capacidades dos alunos quando os interpela, quando propõe um trabalho de grupo? O que fazer quando os alunos têm um comportamento complicado? Devo acrescentar que também me parece que os licenciados em ciências da educação têm um papel importante a desempenhar na determinação das políticas e medidas educativas.
P: Referiu há pouco que há quem faça mau uso das ciências da educação. Pode precisar melhor essa afirmação?
R: Sabendo-se que o desenvolvimento é fundamental no 1.º ciclo de escolaridade, que é aquele que conheço melhor, precisamos saber o que estamos a fazer. Há que ser muito rigoroso no trabalho que se faz com as crianças até aos dez anos no que respeita ao exercício da autoridade, à estimulação da memória, ou à promoção de outras competências em momentos cruciais. Sabemos que se não actuarmos nesse sentido a criança cristalizará. Os erros que os professores cometem por ignorância pedagógica podem ser altamente nocivas para as crianças, os erros que se cometem na educação de infância e no 1.º ciclo são
irreversíveis. Além disso, a sociedade acabará por pagar caro a factura dos erros educativos. É por isso que a educação escolar tem que ser bem planificada, não se pode fazer de improviso. É impossível dar uma boa aula com um plano mau, os formandos tem de perceber que nada se faz de improviso, que o “desenrasca” é uma coisa bem nossa mas é também a nossa vergonha, têm que
interiorizar que ou as coisas se planificam com rigor ou falham. As ciências da educação, ao apoiarem a planificação cuidada, podem evitar erros.
Realizaram esta entrevista: Patrícia Teixeira, Joana Costa, Maria João Silvestre, e Miguel Grou.