terça-feira, 9 de junho de 2020

“Quasi” Ou Contributo para um Novo Paradigma das Praxes Académicas

 


Texto que nos foi remetido por José Manuel Cymbron:

(…) os oráculos gostam do seu clima [de Portugal], e às vezes dão

nele respostas eternas às perguntas do mundo.

(Torga)

 

Os mais experimentados levantai-os,

(…)

Pois que sabem

O como, o quando, e o onde as cousas cabem.

(Camões)

 

Estou numa fase razoavelmente adiantada de um livro (de ficção, em boa parte) que propõe, em nove dias/capítulos, um Itinerário em Lisboa, e que termina no Campo Grande.

Por que razão este Itinerário termina no Campo Grande? Por dois motivos:

1º. Na dedicatória do livro digo:

- A todas as crianças e a todos os jovens.

- A todos os adultos que acreditam que o tesouro/força que há em cada criança e em cada jovem tem que ser lucidamente acarinhado, sob pena de se transformar em «marés de fel» (Cesário Verde).

Acontece que no Campo Grande há uma densíssima população estudantil, desde o ensino pré-primário ao universitário.

2º. No Campo Grande existe um património cultural com um valor equiparável, embora muito diferente, ao da zona de Belém. Merece destaque particular a Biblioteca Nacional e o Arquivo Nacional da Torre do Tombo. As sinergias que podem ser criadas entre estes dois tesouros e fortalezas da palavra criariam condições perfeitas para a construção de um Museu que a capital merece: O Museu da Lusofonia. Penso que em termos de espaço e de orçamento as necessidades não são muito exigentes pois os dois núcleos principais já existem (Biblioteca Nacional e Torre do Tombo). Por detrás da Biblioteca existe um terreno com área suficiente, creio eu, para a construção de um centro de interpretação e divulgação do património lusófono existente não só no Campo Grande, mas em toda a cidade. Seria fundamental que no referido Centro se valorizasse essencialmente as obras literárias dos grandes escritores lusófonos, entre eles os que anualmente, desde a criação do Prémio Camões (1989), vêm sendo galardoados. Os trabalhos de construção do Museu poderiam ter início em 2021, durante a presidência da União Europeia por Portugal, ou em 2022, ano em que Lisboa será palco das Jornadas Mundiais da Juventude e das comemorações do 2º. Centenário da independência do Brasil e do 1º. Centenário da viagem transatlântica de Gago Coutinho e Sacadura Cabral.   

Mas o Campo Grande tem outros patrimónios de grande valor. São eles: o Jardim, que nestes últimos dois anos foi alvo de consideráveis melhoramentos e onde frondosas árvores oferecem sombra durante todo o dia; o Museu da Cidade; o Museu Bordalo Pinheiro; as tapeçarias de Portalegre da colecção da Câmara Municipal; as gravuras incisas  de Almada Negreiros na Reitoria e Faculdades de Direito e de Letras; e a azulejaria das três estações de Metro, com particular destaque para as estações de Entre Campos e Cidade Universitária. 

No 9º. Dia do itinerário por Lisboa, chego ao Campo Grande acompanhado por quatro gigantes da nossa literatura: José Régio, Carlos Queiroz, Miguel Torga e Sophia de Mello Breyner (recorde-se que todos eles nasceram nas duas primeiras décadas do século vinte, época em que Portugal ainda era um país eminentemente rural, o que tanto contribuiu para a força das suas obras). Pouco tempo depois junta-se a este grupo Tolentino Mendonça. A eles pergunto o que seria importante dizer no início do ano académico aos caloiros que estão a iniciar uma estada de pelo menos três anos nesta zona fascinante da capital. Os cinco respondem-me que há uma palavra-chave – ALEGRIA, e que essa «provocação do espírito que nos abeira do milagre» (Tolentino) tem que ser trabalhada seguindo o conselho de Camões, citado em epígrafe deste texto e que agora repito: «Os mais experimentados levantai-os (…) pois que sabem/ O como, o quando, e o onde as cousas cabem.»

Repare-se no que nos dizem estes escritores sobre a alegria (já foi feita uma citação de Tolentino Mendonça):


José Régio (reproduzindo palavras da Ti’Pinheiro):

«…Que minhas meninas! Isto de ser temente a Deus não tira duma pessoa andar alegre e até gostar de se divertir (…) A virtude é alegre, ora não? (…) Que minhas meninas!: cá’mim ninguém me tira desta, e o senhor padre Forjaz ainda há dias o disse do púlpito: A virtude não precisa de carantonhas! Quem está de bem com Deus anda contente, pois então?! Por que há-de andar macambúzio?!»                                                             

 

Carlos Queiroz:

É urgente descobrir

Na flora da fantasia,

Uma espécie de semente

Que gere a pura alegria

E se possa introduzir

Nas almas de toda a gente.

 

Miguel Torga:

«No seu sentido mais profundo, a vida é bela e alegre. Todos nós tivemos já a experiência disso milhares de vezes (…). Mas, apegados como estamos à aparência de tudo, esquecemos a voz do profundo, e ouvimos deliciados o som da superfície. Temos o vício da tristeza.»  


Sophia:

- «Porque Deus nos criou para a alegria»

- «A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. (…) Parecia estar muito perto da terra.  (…) Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria.»

 

Tolentino Mendonça (novamente):

O pequeno quinhão de alegria que nos resta é suficiente para relançar uma inteira vida. 

Como, Quando e Onde devem estas citações, de escritores muito «experimentados», passar para os estudantes? Comecemos pelo Onde.

No Campo Grande: aqui eles estão em casa e os patrimónios cultural e natural são magníficos (não esqueçamos que o jardim tem excelentes condições para a prática de marcha e de ciclismo).

Passemos para o Quando.

Já neste texto referi a minha simpatia pelo início do ano lectivo. E, por que não no contexto das praxes? Seria a componente cultural de uma prática ancestral que pretende unir e dar ânimo.

Entremos agora no momento mais complexo, mas também mais empolgante do processo de transmissão da mensagem: o Como.

Penso que é indispensável recorrer a vários meios, mas fiquemo-nos, neste artigo, por dois: 1º. mais textos literários; 2º. a Beleza.

António Gedeão diz-nos, na primeira parte do poema “Homem”: «Inútil definir este animal aflito./ Nem palavras,/ nem cinzéis,/ nem acordes,/ nem pincéis/ são gargantas deste grito./ (…)» É um magnífico poema, mas não concordo com o poeta. Se é verdade que nenhum ramo da arte consegue, só por si, definir o Homem, talvez seja verdadeiro afirmar que em conjunto conseguem. Régio dizia-nos: «Procuro uma expressão integral lançando mão de vários recursos vindos de vários ramos de arte.» E isto está ao nosso alcance no jardim do Campo Grande. Aqui podemos dar acolhimento às «palavras»; aos «cinzéis»; aos «acordes»; e aos «pincéis». Painéis de azulejos e esculturas de artistas consagrados e desconhecidos (por que não estudantes?) poderiam, com um caracter de rotatividade, ser colocados em vários pontos do jardim ilustrando a arte da palavra.

Vejamos mais sugestões de textos, e comecemos com propostas de Aforismos:

No Jardim:

- Nunca escolhas uma cidade para viver se não tiver jardins.

 

Junto à Faculdade de Psicologia:

- Quem não se conhece poderá ser assassino de si mesmo.

- O melhor espelho não reflecte o outro lado das coisas.

 

Entre a Faculdade de Letras e a Torre do Tombo:

- Quem não sabe de onde veio, não sabe para onde vai.

 

- Junto à Faculdade de Letras:

- Quem domina a sua língua salva a sua cabeça.

- As palavras são como a teia de aranha: para o homem habilidoso, são um abrigo; para o desajeitado, são uma armadilha.

 

- Junto à Faculdade de Direito:

- A corda para amarrar os pensamentos ainda não foi urdida.

- A mentira dá flores, mas não frutos.


No Centro Alameda da Cidade Universitário

- Quem estuda com um só mestre desconhece a abundância.

- Uma só cabeça nunca se põe de acordo.

- O bico da pena penteia a cabeleira da linguagem.

- Aquele que confessa a sua ignorância mostra-a uma vez; o que tenta escondê-la mostra-a várias vezes.

- O espírito nunca chega tão longe quanto o coração.

Passemos agora para textos com registo da autoria:

Régio:

[Algumas casas são (e muitas deveriam ser) como A Velha Casa]

Se ninguém mais o sabia – sabia ele [Lélito] que a sua casa tinha alma e nervos. (…) tinha personalidade própria (…) insubmissa às coisas e pessoas que a povoavam (…) acabava por pesar sobre os seus gestos, palavras, atitudes, sentimentos…

Queiroz:

Quem sabe se era

Dentro de algum

Lugar-comum

Que estava à espera

De nós (em vão)

A salvação?...

Torga:

Ibéria

(…)

Uma antena da Europa a receber

A voz do longe que lhe quer falar…


Estes dois versos torguianos e a realidade cultural do Campo Grande-Cidade Universitária (onde encontramos tantos estudantes do Programa Erasmus) levam-me a sonhar com um monumento escultórico, a ser colocado em frente ao edifício da Reitoria, e alusivo à União Europeia, com os seguintes versos da Ode à Alegria, de Schiller, inspiradores da nona sinfonia de Beethoven e do Hino da União Europeia:

  

Alegria, mais belo fulgor divino,

(…)

Ébrios de fogo entramos

Em teu santuário celeste!

(…)

Todos os homens se irmanam

Onde pairar teu voo suave. .

A quem a boa sorte tenha favorecido

De ser amigo de um amigo,

(…)

Rejubile-se connosco!

(…)

Abracem-se milhões de seres!

Enviem este beijo para todo o mundo!

 

Este «beijo para todo o mundo» deve ser enviado pelos estudantes da Universidade. É esta a mensagem, datada de 1534, de André de Resende e gravada no terraço fronteiro ao edifício da Reitoria: «É vosso dever conseguir, com empenho e trabalho fiéis, que a universidade de Lisboa se torne não menos celebrada em todo o mundo do que a própria cidade.»

 

Sophia:

 

O Rei de Ítaca

A civilização em que estamos é tão errada que

Nela o pensamento se desligou da mão

 

Ulisses de Ítaca carpinteirou seu barco

E gabava-se também de saber conduzir

Num campo a direito o sulco do arado        

 

Tolentino Mendonça:

- O encontro com a beleza é tão decisivo que há um antes e um depois, é uma estação nova que começa para a nossa vida.

- Talvez o que de mais significativo somos capazes de partilhar não encontre no mundo linguagem melhor do que o silêncio.

- Na diversidade das tradições religiosas e espirituais da humanidade, o silêncio é um traço de união extraordinariamente fecundo.

Apesar do aspecto caótico da actual sociedade internacional, acredito que a Humanidade poderá, a curto prazo, atingir um patamar civilizacional muito alto. Penso que podemos aplicar ao nosso tempo os versos que Mário de Sá-Carneiro utilizou, para se definir, no poema “Quasi”:

Um pouco mais de sol – eu era brasa.

Um pouco mais de azul – eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa…

(…)

Quasi o amor, quasi o triunfo e a chama

(…)

- Ai a dor de ser quasi, dor sem fim…

(…)

Aos jovens que entram agora para a Universidade é preciso dar-lhes condições para que dêem o «golpe de asa» que lhes permita propôr à ONU um provisório 31º. Artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, com uma redacção semelhante à seguinte:

Cada ser humano tem o direito (e o dever) de exigir a ele próprio e às Instituições Nacionais e Internacionais que no início da segunda metade deste século o mundo seja um Reino Maravilhoso, isto é, uma comunidade onde reine aquilo a que Torga chamava «uma paz lúdica e laboriosa».

                                                                                            «Valete, Fratres.» (Pessoa)  

José Manuel Cymbron

jose_cymbron@sapo.pt

Professor do Ensino Superior e Investigador na área do Turismo Cultural


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Opinião dos professores portugueses sobre o E@D

“Este tipo de ensino revela e acentua claramente as 
desigualdades económicas e sociais dos alunos.” 

“Estou preocupada com a privacidade dos meus dados pessoais 
e com a minha privacidade enquanto professora.”

“O ME deu abertura para que o negócio das editoras 
se apropriasse dos emails dos alunos.”

Extractos de respostas de professores portugueses ao questionário da FENPROF


Foram divulgados os resultados de um estudo promovido pela Federação Nacional dos Professores (FENPROF) cujo objectivo era conhecer a opinião dos docentes sobre o trabalho que têm realizado online, simpaticamente represetado por E@D (ver aqui e aqui). Li os documentos disponibilizados e, centrando-me nas respostas abertas transcritas, destaco as preocupações reveladas, que se me afiguram mais salientes (sem a preocupação de uma análise de conteúdo devidamente validada).
Preocupações para com a profissão:
1. Falta de identificação com a modalidade de trabalho (que não se pode chamar ensino) a que estão a ser obrigados;
2. O sentimento de experimentação subjacente a essa modalidade e também de isolamento, fazendo o que podem, mas com a consciência de estarem muito afastados do que é desejável;
3. A sobrecarga de tarefas (muitas delas burocráticas, técnicas e tecnológicas) e as infindáveis horas de trabalho que redundam num enorme cansaço;
4. Ao escrutínio imediato e directo feito pelas famílias do trabalho docente, interferindo nele, desvalorizando-o... 
Preocupações para consigo:
1. Uso dos seus equipamentos, da sua casa, dando a tutela a entender que têm obrigação de converter o seu espaço privado em espaço público, que pode ser invadido a qualquer momento;
2. Segurança quanto à sua saúde física, o risco de contrair a doença é elevado;
3. Os seus dados pessoais ficarem na internet, a sua privacidade ficar comprometida...  
Preocupações para com os alunos:
1. Manter-se o ano lectivo a funcionar para que funcione, mas, na verdade, não se adiantar significativamente a aprendizagem;
2. As tecnologias usadas de rompante geram novas desigualdade, entre os que têm um ambiente caseiro adequado para estudar e tecnologias disponíveis e os que não têm;
3. Não ser possível atender-se às especificidades de cada turma, de cada aluno;
4. Disponibilizarem-se dados pessoais (que serão bem aproveitados pelo "negócio da educação"),  à sua privacidade...
Estes (e outros) resultados geram, naturalmente, grande apreensão (bastaria um deles para que siso acontecesse), mas vejo que é, sobretudo, uma apreensão decorrente dos acontecimentos, por referência (e reacção) ao contexto, ao país e ao Ministério. Infiro que poucos foram os professores (até porque o questionário não se prestava a isso) que tiveram por referência um horizonte mais abrangente. Na verdade, vêem-se ligeiramente afloradas questões como:
- O que é que tudo isto significa na transformação da educação escolar? Para onde caminhamos? Ou onde estamos já e ainda não percebemos exactamente?
- Que papel têm os Governos no futuro da educação escolar? Em que mãos está ela, de facto?
- A quem beneficiam as mudanças que a doença precipitou? Aqueles a quem deve beneficiar ou aqueles que tiram benefícios dela?
- Feito um balanço, tem valido a pena o enorme esforço dos professores (e de alguns alunos e pais), os atropelos a valores fundamentais... em nome da escolarização? 
A FENPROF defende as condições laborais dos professores portugueses sindicalizados, logo, é compreensível que ponha aí a tónica, mas acontece que a mudança radical do trabalho docente não se restringe a um país: há uma agenda global que tem vindo a consolidar-se, conseguindo agora, com a doença, o pretexto de que precisava para se afirmar irreversível. 

É nisso que os professores, pelo menos aqueles que têm consciência do seu dever de ensinar, precisam de se concentrar, unindo-se no sentido de manter, tal como se diz na lei, a sua "nobre tarefa" num contexto relacional adequado à aprendizagem. Todos o ventos são contrários (e alguns são soprados por professores) mas, num momento tão crítico como o que passamos, é preciso encontrar o discernimento inerente à profissionalidade e agir de acordo com ela.

BURACOS NEGROS SOB UMA NOVA LUZ




O ciclo de palestras de divulgação científica “Ciência às Seis” está de volta!

O regresso será já no próximo dia 12 de Junho, pelas 18h00, dia em que o astrofísico Vítor Cardoso dará, por vídeo conferência, a palestra intitulada “Buracos negros sob uma nova luz”. Os interessados podem seguir a vídeo conferência através do link: https://us02web.zoom.us/j/4748462924?pwd=dWV3clhtWHRYUFR6ZlpDYzdSMmFCZz09

O ciclo de palestras de divulgação científica “Ciência às Seis” é uma iniciativa do Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, com coordenação do bioquímico e comunicador ciência António Piedade.

Resumo da palestra: Desde há milhares de anos que tentamos entender porque e como é que as coisas caem. Esta busca permitiu-nos entender a luz, o sistema solar, a galáxia e o próprio universo com uma precisão sem precedente. Nesta palestra vamos discutir um pouco do que aconteceu nos últimos 300 anos, com um foco especial nos últimos anos, em que vimos ondas gravitacionais e buracos negros pela primeira vez na história da humanidade.




Vítor Cardoso é Professor Catedrático no Departamento de Física do Instituto Superior Técnico, onde lidera o Grupo de Gravitação (GRIT) do CENTRA. Os seus interesses de investigação incidem sobre astrofísica e gravitação, em particular ondas gravitacionais e buracos negros e a física do espaço. É autor de um livro e de cerca de 200 artigos publicados em revistas internacionais. A sua investigação foi distinguida duas vezes pelo European Research Council. Em 2015 foi agraciado pelo Presidente da República com a Ordem de Santiago D’Espada, pelas suas contribuições para a ciência. Neste momento, é líder de um consórcio internacional de mais de 30 países europeus e centenas de cientistas, que se dedica ao estudo de ondas gravitacionais e buracos negros. É membro fundador da Sociedade Portuguesa de Relatividade e Gravitação.

Público alvo: todos os interessados em conhecimento!
Link para o evento no Facebook

domingo, 7 de junho de 2020

A HISTÓRIA DA TERRA ESCRITA NAS ROCHAS SEDIMENTARES

A história da Terra lê-se nas rochas. Com efeito, as rochas podem ser entendidas como documentos que os geólogos aprenderam e ensinam (se for caso disso) a ler. 

Os fósseis que muitas delas encerram, como é o caso das rochas sedimentares, e os minerais são duas das letras dessa escrita. Como constituintes mais peliculares da litosfera acessíveis à curiosidade dos geólogos, as rochas sedimentares constituem um domínio particularmente importante da Geologia e são o fulcro das preocupações dos sedimentólogos, uma especialização relativamente recente que se fica a dever aos interesses das grandes empresas petrolíferas. 

Armazéns ou arquivos de vultuosa informação, estas rochas têm-nos permitido descodificá-la e, assim, conhecer grande parte da história da Terra e da vida. Numa linguagem com preocupações de estilo, poder-se-ia dizer que as rochas sedimentares trazem consigo não só as marcas dos seus progenitores, mas também as das condições ambientais em que foram geradas, ou seja, como e onde nasceram. No mesmo estilo de linguagem, muitas delas revelam-nos, ainda, a data do seu nascimento. 

É, pois, nesta medida que podemos comparar as camadas de rochas sedimentares às páginas de um grande livro onde está escrita uma história com milhares de milhões de anos. Em 1941, o russo, George Gamov, físico, cosmólogo e conhecido divulgador de ciência, escreveu: "O Livro dos Sedimentos, reconstruído pelo esforço de diversas gerações de geólogos, equivale a um extensíssimo documento histórico, ao lado do qual todos os alentados volumes da História da Humanidade não passam de insignificantes opúsculos”. 

SE o cidadão abarcar os “como” e os “porquês”, os “quando” e os “onde” da dinâmica inerente aos processos que levam à génese das rochas sedimentares: 
(1) alteração das rochas em superfície por efeito dos agentes externos (meteorização), 
(2) erosão, 
(3) transporte e 
(4) sedimentação; 

SE interiorizar os principais conceitos sobre os mais variados ambientes de sedimentação (fluvial, deltaico, estuarino, lacustre, palustre, marinho litoral ou profundo, desértico, glaciário, entre outros) que hoje nos rodeiam em todas as latitudes, a ponto de os poder correlacionar com os do passado, e se souber que foram ambientes iguais ou semelhantes a esses que, ao longo de milhares de milhões de anos, estiveram na origem de uma parte substancial das rochas sedimentares e das que delas derivaram por metamorfismo e anatexia (fusão em profundidade e transformação num magma); 

SE adquirir preparação de base nestes domínios, irá entender a maravilhosa história do planeta que nos deu e assegura a vida, e deixará de olhar para a Geologia como uma disciplina desinteressante e fastidiosa, que, tantas vezes, professores não habilitados debitam, acriticamente e sem entusiasmo, por dever de ofício, matérias estereotipadas e isoladas de um todo harmonioso, matérias que o aluno decora por obrigação curricular e que lança no caixote do esquecimento, passado que foi o exame final. 

Tem sido este o quadro nas nossas escolas, amarradas ao programa oficial, onde a Geologia sempre foi subalternizada. Quadro em que o cidadão comum, marcado por uma conhecida e lamentável iliteracia geológica (e não só), cresceu e cumpriu a escolaridade obrigatória. Quadro em que, salvo as sempre honrosas excepções, cresceram e se formaram as mulheres e os homens que hoje temos na política, na administração, nas empresas, na cultura, na comunicação social. 

Na Enciclopédia (com mais de 50 volumes) de “Os Irmãos da Pureza” (nome de uma fraternidade de filósofos ismaelitas que se admite terem vivido em Bassorá, no Iraque) obra colectiva, inspirada nas filosofias pitagóricas, platónicas e neoplatónicas, aristotélicas e na do próprio Corão, acabada por volta do ano de 980, diz-se, numa notável antecipação aos conceitos modernos, que “a erosão destrói perpetuamente as montanhas e que o escorrer das águas pluviais arrasta rochedos, pedras e areia para o leito das torrentes e rios; diz-se ainda que, por seu turno, ao escoarem-se, os rios acarretam tais materiais para os pântanos, lagos e mares, onde os acumulam sob a forma de camadas sobrepostas”. 

Diga-se que o principal objectivo destes “Irmãos” era o conhecimento do Universo, na sua grande harmonia e beleza, apontando a necessidade de uma preocupação que fosse para além da existência material. No século XIII, Alberto, o Grande (1206-1280), aludia ao “lodo agarradiço e viscoso, trazido pelas águas, que cimenta a terra (material detrítico, desagregado) e a transforma em rocha dura”. 

No século XIV, Jean Buridan (circa 1300-1360), filósofo francês e reitor da Universidade de Paris, questionou algumas das concepções aristotélicas. Escrevia ele, reformulando uma ideia vinda da Antiguidade: “Onde hoje se encontra o mar foi outrora terra e, inversamente, onde a terra firme está no presente, esteve o mar e aí voltará”. 

No século XV, Leonardo da Vinci (1452-1519) admitia que “os fósseis encontrados nas montanhas eram restos de seres vivos depositados no fundo dos mares”. Polemizando entusiasticamente com os defensores de ideias conservadoras, contrárias às suas, da Vinci descreveu notavelmente os grandes processos actuais e passados da erosão, transporte, sedimentação e fossilização, numa óptica muito próxima das concepções actuais. 

No século XVII, o dinamarquês Niels Steensen (1638-1686), mais conhecido entre nós por Nicolau Steno, médico e cientista, teve papel igualmente importante na área da geologia sedimentar, no seu todo, incluindo a estratigrafia, muito antes desta disciplina se ter afirmado como tal, dizia: “se as conchas e outros restos de antigos seres vivos, encontrados nas rochas de uma dada região, são despojos de animais marinhos, as camadas que os contêm são necessariamente marinhas”, concluindo que o mar ocupara essa região. 

Por outro lado, ao dizer que “as camadas são formadas paralelamente à horizontal, em obediência à gravidade terrestre”, Steno introduziu o que ficou conhecido por “princípio da horizontalidade original”, concepção que lhe permitia concluir: “quando as camadas se encontram inclinadas, tal é devido a deformação posterior”. Uma outra sua afirmação, segundo a qual, “qualquer camada é mais moderna do que a que lhe fica por baixo e mais antiga do que a que lhe está por cima”, foi considerada o “princípio fundamental da estratigrafia”, pois mostrou que as camadas sedimentares são cada vez mais modernas à medida que se sobe na série. 

Estas afirmações constituem hoje verdades mais do que evidentes, mas foram, na época, grandes passos em frente. Com este autor, as sucessões de camadas sedimentares passaram a funcionar como “arquivos da natureza”, como lhes chamou, mais tarde, o naturalista e geólogo alemão Peter Simon Pallas (1741-1811), e o geólogo francês Faujas de Saint-Fond (1741-1819), ou como “anais do mundo físico”, no dizer do padre francês, Giraud Soulavie (1752-1813), fundador da moderna estratigrafia paleontológica. 

Por esta altura, o inglês James Hutton (1726-1797), considerado o pai da geologia moderna, ensinava que “a história da Terra pode ser decifrada a partir do estudo das rochas sedimentares estratificadas, uma vez que estas rochas se geraram de modo comparável ao dos modernos sedimentos em formação sob os nossos olhos”. Este raciocínio é hoje usado, automaticamente, sem qualquer hesitação, quando, através do estudo das rochas sedimentares, procuramos conhecer o ambiente e as condições em que foram geradas, ou seja, a “fácies”. 

Uma tal concepção, que constituiu um passo decisivo no conhecimento geológico à escala global, assenta no que foi o trabalho deste professor da Universidade de Edimburgo e o do seu concidadão Charles Lyell (1797-1895), corroborado por Charles Darwin (1809-1882) através do estudo do evolucionismo. Conhecido por “Princípio do Uniformitarismo”, do “Actualismo”, ou das “Causas Actuais”, dele se conhece a expressão que ficou clássica, “O presente é a chave do passado”. 

Esta frase diz concretamente, na situação em que aqui é usada, que qualquer corpo de rocha sedimentar foi depositado por agentes como gravidade, chuva, vento, água corrente, gelo, acções marinhas, etc., todos eles processos familiares nos dias de hoje. As rochas sedimentares, no geral, sedimentos antigos posteriormente litificados, guardam as marcas deixadas pelos ambientes e agentes deposicionais semelhantes aos actuais.

É, pois, com base neste princípio que se elaboram reconstituições paleoambientais contemporâneas das rochas sedimentares que vemos por todo o lado. Hutton dizia que “a Terra é um sistema dinâmico, cuja superfície está constantemente em transformação em virtude, não só do calor armazenado no seu interior, mas também dos efeitos causados em superfície pela energia solar”. Por outro lado, no desenvolvimento da teoria plutonista (formação de rochas magmáticas em profundidade), de que foi o protagonista mais visível, as rochas sedimentares ganharam o significado que não tinham tido até então.

Com efeito, o modelo cíclico de renovação da crosta terrestre, implícito nesta visão, resulta, segundo ele, “de um equilíbrio dinâmico entre a elevação das montanhas, por efeito do calor interno, e a sua posterior erosão”. Hutton mostrou, ainda, que os materiais resultantes desta erosão eram acumulados em sucessivas camadas sedimentares e aí consolidavam, originando rochas como conglomerados, arenitos, argilitos, calcários, entre outras. 

Ao dizer que “as camadas de rochas sedimentares foram antigos sedimentos que se transformaram em rochas”, este fundador da moderna geologia dava ênfase à petrificação ou litificação dos sedimentos, habitualmente referida por diagénese. Dizia ainda Hutton que “não via vestígios nas rochas que lhes indicassem um começo”. 

Esta outra particularidade da sua concepção cíclica trouxe, novamente, para a ribalta das grandes controvérsias científicas da época, o problema da dimensão do tempo geológico, imenso na concepção huttoniana, em contraste com os cerca de 6000 anos defendidos pela Igreja de então. 

As ideias inovadoras de Hutton, nomeadamente as referentes ao Actualismo e ao Plutonismo, marcaram o princípio do fim do Neptunismo, um tema a desenvolver num próximo texto…

A. Galopim de Carvalho

sábado, 6 de junho de 2020

A desigualdades sociais combatem-se com uma educação escolar que verdadeiramente o seja, não com recursos digitais

“Esta crise demonstrou bem como é essencial 
combater as desigualdades, 
designadamente aquelas do ensino à distância”
António Costa, Primeiro Ministro de Portugal 

A notícia corre (aqui, aqui, aqui, etc.): foi aprovado em Conselho de Ministros que, no âmbito do Programa de Estabilização Económica e Social, se gastem muitos milhões de euros na promoção do "ensino digital", pois é preciso "assegurar a universalização do acesso e utilização de recursos educativos digitais"

A designação do Programa diz tudo e, portanto, o meu comentário poderia ficar por aqui: não se trata de um programa educativo, mas de um programa de "estabilização económica e social". A formação do ser humano não está no horizonte, o que está no horizonte é a formatação de "capital humano". Logo, quanto mais dinheiro se gasta nesta formatação maior é o desvio da função formativa que é a da escola pública.

O "maravilhoso" futuro que o Programa promete - a universalização da "escola digital" - é, portanto, desassombradamente isso. Não é outra coisa. Não fico por aqui no meu comentário, vou continuar:

Leio que as escolas terão mais computadores, conectividade e licenças de ‘software’, os manuais serão desmaterializados... Lembremo-nos de que as escolas frequentados pelos filhos dos grandes empresários das tecnologias são escolas onde o papel e o lápis, o quadro e outras "antiguidades" são os recursos usados: lembremo-nos também das muitas investigações credíveis que demonstram a superioridade desses recursos relativamente aos tecnológicos (estudar num bom manual em papel não é o mesmo do que estudar num bom manual digital). Já mencionei neste blogue bibliografia que corrobora tanto uma afirmação como outra, mas se algum leitor precisar de se informar, poderei recordá-la.

Não fica por aqui o Governo: vai "também apoiar a produção de novos recursos didáticos e educativos". Reafirma-se a concepção do professor como técnico-executor. Concepção nada nova que tem permitido que uma panóplia de entidades, incluindo a tutela, considere legítimo pôr nas mãos de profissionais aquilo que lhes cabe engendrar e fazer para utilizar. Ser professor é ter essa capacidade, esse empenho de pensar em cenários e de os criar, para, nas aulas, ensinar os seus alunos.

E, de modo a que os professores apliquem, adequada e convictamente, o que quer que seja, está, ainda, previsto um "programa de capacitação digital dos docentes". Vejo serem dados passos de gigante no sentido de se obterem professores-aplicadores-de-materiais-e-operadores-de-máquinas.

Para que tudo isto seja bem acolhido na sociedade, em especial para os mais directamente implicados, usa-se o estafado argumento da igualdade social: parece que será dada “prioridade aos alunos abrangidos por apoios no âmbito da ação social escolar”. Em nome de um valor como este, que remete para outro que é a justiça social, os governos (repito, este não está só), o que têm para oferecer? Recursos digitais?

Recursos digitais que, note-se e note-se bem, uma panóplia de empresas, como é da sua natureza, faz tudo para vender.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Avança a consolidação da "barbárie tecnológica"

Não ouvi as declarações do governante a que se refere a historiadora e professora Raquel Varela, num texto que hoje publicou online com o título Por uma escola humanizada, mas confio no que diz, até porque estou inteiramente a par das recomendações supranacionais que circulam a nível global para a "Educação do Futuro" e, em particular, do "New Normal", que constitui a sua última e mais rematada versão. Estou também a par da sedutora pressão que as grandes empresas de tecnologia fazem junto dos poderes políticos, de escolas e de professores para que o ensino presencial seja substituído por inenarráveis configurações tecnológicas. E conheço o discurso (lamentavelmente) legitimador de muitos académicos.

Mas, até certo ponto, o futuro é o que quisermos que seja: Raquel Varela e outros cumprem o seu papel ao explicar a corrida que, cegamente, estamos a fazer para uma nova era de barbárie. Outros terão de se envolver, sindicatos, directores, professores, pais, académicos... E, de entre estes, destaco os directores e professores pela responsabilidade profissional que lhes toca na educação formal e da qual têm de ter plena consciência.
"Costa anunciou ontem um pacote de transição digital nas escolas. Este era o momento para anunciar redução alunos por turma, melhoria dos salários de professores e funcionários. Retorno a aulas de grande curiosidade e valor cientifico, num turno, presenciais, e deixar muitas horas livres para brincadeira e socialização, noutro turno. 
Em vez disso vai-se colar as crianças a um ecran. Este foi o momento excepcional em que aprendemos neste experimento mundial obrigados pelas medidas da pandemia que o «ensino» online não funciona – em vez disso prego a fundo rumo ao desastre. 
Os professores, até agora, empenhados e descontentes, ou reagem impedindo isto ou vão descobrir que com o ensino em casa não se livram da escola de que não gostavam (...). 
Para o país, se esta “transição” avançar, imposta sem qualquer discussão democrática, vai ser um retrocesso civilizacional. Esperamos a lista de empresas que vão vender estes pacotes ao Estado e respectivos mediadores de interesses. 
Já que vendem o último pedaço de Estado social – a educação – ao mercado, acabando com um serviço que estava fora da alçada do mercado – que nos digam de forma transparente quem vai ficar com o dinheiro dos nossos impostos, enquanto transformam os nossos filhos em autómatos, obsesos, e (ainda mais) desfuncionais do ponto de vista relacional. 
Quem acha que isto é um problema de pais, alunos e professores, que pensam na qualidade do trabalho e na felicidades das pessoas (e esse deve ser o objectivo), desengane-se. Não seremos 4 milhões os afectados, mas 10 milhões. Esta força de trabalho sairá da escola sem qualquer capacidade de pensar a totalidade, autonomia ou complexidades de raciocínio, saberão carregar o polegar num ecran (...). 
Assumi há muito com confiança o meu papel de “velho do Restelo” neste campo. Tenho anos, já décadas, de trabalho cientifico nesta matéria. Sou contra qualquer aparelho na escola, acho que os telemóveis deviam ser proibidos, até no recreio, que quadros interactivos, e mesmo o famoso power point, só servem para dispersar. 
Acho que uma escola seria apaixonante para os alunos e professores se tivesse aulas magistrais clássicas, de manhã, dadas por professores de excelência cientifica muitíssimo bem pagos, e um amplo espaço verde e de convívio livre onde o desporto, os trabalhos manuais diversos (construir coisas com as mãos) e o lazer fossem pelo menos metade do dia. Isto que assistimos é tudo o contrário do que defendo – a “transição digital” é, como já tantos no campo da filosofia alertaram, a barbárie tecnológica."

quinta-feira, 4 de junho de 2020

MAIS DESIGUAIS


Meu artigo no Público de hoje: 

São factores de risco associados à covid-19 a idade avançada e doenças crónicas como a doença coronária, a hipertensão e a diabetes. Mas um outro factor de risco, que está de resto ligado aos outros, é a debilidade económica. Com o avolumar das estatísticas, tornou-se claro, no mundo em geral e em Portugal em particular, que as pessoas mais afectadas pela pandemia têm menor poder económico. Por falta de meios ou de conhecimentos, não tomam as indispensáveis medidas de protecção. 

 A crise económica, devida à travagem da produção, está aí. Os trabalhadores em lay-off viram minguar os seus salários e o desemprego subiu, mesmo que as estatísticas ainda não o reflictam. Quem era remediado está a ficar pobre e quem já era pobre está a ficar mais pobre, por vezes miserável. Se o pico da crise sanitária já passou, pelo menos entre nós, o pico da crise económica, que favorece um eventual ressurgimento da doença, ainda está por vir. A crise económica mundial vai exceder a Grande Recessão de 2007-2009, que chegou a Portugal em força em 2011, faltando saber como se vai comparar com a Grande Depressão iniciada com a queda da bolsa em Nova Iorque em 1929.

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quarta-feira, 3 de junho de 2020

Uma muito breve história da Luz

Meu capítulo no livro que acaba de sair na Imprensa da Universidade de Coimbra: Visões da Lus, Francisco Gil e Lídia Catarino, coords. (Puseram-me o texto em "novoacordês": não o pude evitar; mas aqui evito).

Resumo:

No Ano Internacional da Luz 2015 passaram-se aniversários de alguns marcos da história da Óptica. Conta-se a história da descoberta da luz, desde o primeiro tratado de Óptica do árabe al-Haytham há mil anos até à electrodinâmica quântica de Feynman, Schwinger e Tomonaga dos anos 50 do século passado. Pelo meio passou-se uma das mais famosas polémicas da história da ciência — a que opôs os partidários da teoria corpuscular da luz como Newton e os defensores da teoria ondulatória como Huygens, Fresnel e Maxwell.

A polémica foi resolvida no início do século xx com o desenvolvimento da teoria quântica por Planck, Einstein, Bohr e outros, a qual enquadra a dualidade partícula-onda. Várias aplicações da luz foram surgindo à medida que aumentava a ciência da luz: duas das maiores foram as ondas hertzianas e os raios X, na segunda metade do século xix. Apresentam-se brevemente as primeiras experiências de raios X na Universidade de Coimbra.

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Por ocasião do Ano Internacional da Luz 2015, que celebrou alguns grandes marcos da história da luz, é oportuno divulgar essa história.

A questão da natureza da luz sempre intrigou os estudiosos dos fenómenos luminosos, dos quais um dos primeiros foi o árabe al-Haytham (965–1040), que há cerca de mil anos escreveu o primeiro tratado de Óptica. Este autor foi premonitório sobre o papel do cientista quando escreveu «Se a aprendizagem da verdade é o objectivo do cientista, então ele tem de se tornar inimigo de tudo aquilo que lê»1 (Sabra, 2003, para. 7). Desde então, muitos foram os autores que, a propósito da luz, se basearam na observação e na experiência para se tornarem inimigos daquilo que leram, fazendo avançar os conhecimentos na área da óptica.

Os instrumentos revelaram-se essenciais para a observação e experiência de fenómenos ópticos. Um marco foram, decerto, as primeiras observações feitas em 1609 pelo italiano Galileu Galilei (1564–1642) com a luneta astronómica. A construção do telescópio só foi possível graças ao aperfeiçoamento no polimento de lentes. Ao ampliar o poder do olho aumentou-se também o poder da mente. O Universo passou a ser um sítio diferente: a Lua não era plana, o Sol não era absolutamente claro, Vénus tinha fases e Júpiter tinha luas. Fala-se, quando se refere essa época, de Revolução Científica, mas talvez seja revelador da continuidade o facto de um dos primeiros atlas da Lua, o tratado de selenografia do astrónomo polaco Johannes Hevelius (1611–1687), ter colocado no frontispício de um lado al-Haytham, simbolizando a razão, e do outro Galileu, simbolizando os sentidos (Figura 1.1.). Na Revolução Científica junta-se o antigo e o moderno, a razão e os sentidos, estes ampliados pelo novo instrumento.

Contemporâneo de Newton foi o francês René Descartes (1596–1650) que, no seu famoso Discurso do Método, publicado em Leyden, em 1637, descreve num apêndice o arco-íris como um exemplo do poder do método. Os raios de Sol entram numa gota de água na atmosfera, desviam-se ao entrar nela (refracção), refletem-se na parede posterior da gota e voltam a desviar-se (nova refracção) ao saírem da gota (Figura 1.2.).


Figura 1.1. «Selenografia» de Johannes Hevelius, mostrando al-Haytham e Galileu.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hevelius_Selenographia_frontispiece.png


Figura 1.2. Figura do livro Meteoros, em apêndice ao Discurso do Método de Descartes (1637), que esquematiza o fenómeno do arco-íris.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Descartes_Rainbow.png



As cores apareciam já dentro da gota e ainda mais cá fora. O próprio Descartes fez estudos experimentais do fenómeno da refracção com garrafas de água, que o levaram a formular uma lei matemática que descreve a geometria do fenómeno (lei de Snell-Descartes).

O inglês Isaac Newton (1642–1726), na geração seguinte, deu o próximo passo ao produzir o arco-íris em sua casa, com o auxílio de dois prismas (de novo o aperfeiçoamento da indústria vidreira vinha em auxílio da ciência). Numa carta que escreveu à Royal Society de Londres, em 1672, descreve fenómenos que observou nos anos de 1665–1666, quando recolheu a sua casa no campo após ter acabado o curso, devido ao encerramento da Universidade de Cambridge por um surto de peste:

Para este fim, tendo escurecido o meu quarto e feito um pequeno buraco na minha janela para deixar passar uma quantidade conveniente de luz do Sol, coloquei o meu prisma numa entrada para que ela [a luz] pudesse ser refractada para a parede oposta. Isso foi inicialmente um divertimento muito agradável: ver todas as cores vivas e assim intensamente produzidas, mas, após um tempo dedicando-me a estudá-las mais seriamente, fiquei surpreso por vê-las…

Note-se o encantamento do grande físico, que precedeu o seu estudo pormenorizado do fenómeno do arco-íris. Newton explicou a separação das cores (chamada dispersão) já analisado por Descartes. A luz seria constituída por diferentes partículas, sendo cada tipo associado a uma cor. Ora as partículas de cor vermelha teriam dentro do vidro (ou da água) desvios diferentes do de uma partícula de luz violeta. Numa experiência dita «crucial» reparou que a luz branca do Sol era dispersa em todas as cores do arco-íris pelo prisma, mas, se recolhesse apenas raios de cor vermelha no segundo prisma, verificava-se que a luz entrava vermelha e saía vermelha (Figura 1.3.).

Isto é, o vermelho era uma cor primária, que era desviada pelo prisma mas não decomposta, ao contrário da luz branca, que era uma mistura de todas as cores. Era natural que Newton imaginasse a luz formada por partículas. Pois não se sabia desde a Antiguidade que os raios, fossem eles do Sol ou de uma outra fonte, viajavam em linha recta, como é próprio de um projéctil? E não se conheciam desde tempos antigos as leis da reflexão em espelho, que descrevem uma situação idêntica à de uma bola de bilhar que bate numa tabela? Para o sábio inglês a luz branca era desdobrada em luz de várias cores no interior do prisma por ser composta por corpúsculos de tamanhos diferentes. Os maiores viajariam mais lentamente no vidro, ao passo que os menores viajariam mais rapidamente. As cores do arco-íris que apareciam no interior do vidro e surgiam mais nítidas quando o feixe emergia estariam associadas ao diferente tamanho das partículas. Newton acertou em cheio quando afirmou que a luz branca continha a luz de todas as cores e quando explicou o desdobramento das cores pela diferente velocidade das partículas, mas falhou quando imaginou partículas de diferentes tamanhos. É assim em qualquer avanço da ciência: quando sabiamente se corrige um sábio anterior, deixa-se espaço para que mais sábios venham depois a fazer alguma correcção.

Figura 1.3. Experiência crucial de Newton do duplo prisma.
Fonte: http://brizhell.org/Newton_Speckles/Opticks%20-%20scan%20from%20original%20
manuscript%20-%20I.%20Newton.pdf



A teoria corpuscular da luz foi contraditada por grandes sábios da época como o inglês Robert Hooke (1635–1703), que escreveu a Newton apontando inconsistências à teoria newtoniana. Foi numa resposta que Newton escreveu a sua famosa frase: «Se consegui ver mais longe foi porque estava aos ombros de gigantes.» Os historiadores de ciência ainda hoje não sabem se era uma bela metáfora sobre a construção da ciência ou se era antes um dito pejorativo, dada a pequena estatura de Hooke. Descartes, por exemplo, era mais alto que Hooke e Newton ter-se-á baseado mais em Descartes do que em Hooke. A autoridade de Newton, que foi durante muitos anos Presidente da Royal Society, parecia ter imposto de início o conceito corpuscular de luz, mas o fenómeno da difracção observado precisamente no mesmo ano de 1665 das primeiras experiências ópticas de Newton (o seu livro Optics só seria publicado em 1707, após a morte do seu rival Hooke), por um padre jesuíta de Bolonha, o italiano Francesco Grimaldi (1618–1663), encerrava uma crítica muito forte à teoria de Newton. A difração consiste no espalhamento da luz quando ela passa por um pequeno orifício. Ora o projéctil iria simplesmente a direito, mas a luz, como é próprio de uma onda, espalha-se nessa circunstância em todas as direcções.

No arco-íris todas as cores, porque se vêem, referem-se à luz dita visível. Sabemos hoje que essa banda de luz visível é apenas uma pequena parte de todo o espectro de luz, a que hoje chamamos espectro electromagnético.

A diferença entre os vários tipos de luz do espectro pode exprimir-se pelo comprimento de onda. A primeira luz invisível foi descoberta por um astrónomo alemão que trabalhou na Inglaterra, William Herschel (1738–1822). No ano de 1800, quando estava a realizar uma experiência análoga à de Newton, notou que um termómetro colocado perto da região vermelha do ecrã assinalava uma apreciável subida de temperatura (Figura 1.4.).

Figura 1.4. Experiência de Herschel que levou à descoberta dos infravermelhos.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:William_Herschel%27s_experiment.gif.


Havia pois uma forma de luz ou radiação que, apesar de invisível, tinha propriedades térmicas. Tratou-se da descoberta da luz infravermelha, a primeira forma de luz invisível. A tentação de medir do outro lado do espectro, perto do violeta, foi imediata, mas nada de semelhante foi encontrado. Contudo, não demorou mais de um ano até que um químico alemão, Johann Ritter (1776–1810), que tinha ouvido falar da descoberta de Herschel, descobrisse que, do outro lado da banda visível, perto do violeta, se encontrava uma outra radiação invisível. Sabendo que o cloreto de prata era particularmente sensível à luz azul, ficando preto, Ritter experimentou colocá-lo num alvo perto da cor violeta do espectro: observou que ele ficava ainda mais preto. Ritter chamou a esta nova forma de luz raios químicos, mas raios ultravioletas foi o nome que acabou por vingar. O cloreto de prata ainda hoje é usado no papel fotográfico.

Sabemos actualmente que vemos luz visível e não infravermelhos (alguns répteis veem infravermelho) ou ultravioletas (as abelhas vêem ultravioleta) devido simplesmente ao fenómeno de adaptação darwiniana. Os seres humanos, ao longo do lento processo da evolução biológica, adaptaram-se a ver melhor a luz que o Sol envia em maior abundância. A nossa estrela emite luz de todos os comprimentos de onda, mas tem um pico bem mais pronunciado para os comprimentos de onda da luz visível.

Hoje conhecemos outras radiações invisíveis emitidas pelo Sol, os raios X e os raios gama, mas essas radiações invisíveis perigosas do chamado espectro electromagnético são absorvidas pela atmosfera, que funciona como um escudo protector da vida. O Sol visto do espaço, por exemplo da Estação Espacial Internacional, é branco, pois todas as cores do arco-íris se encontram misturadas, mas, visto da Terra, aparece-nos com uma cor amarelo-alaranjado, devido à presença da atmosfera que capta alguma luz colorida.

Uma teoria que concorreu com a teoria corpuscular da luz de Newton foi a teoria ondulatória do físico holandês Christiaan Huygens (1629–1695). No seu livro Traité de la Lumière, publicado em Leiden, em 1678, ele avançou a ideia de que a luz se propaga na forma de ondas (Figura 1.5.).

Figura 1.5. Traité de la Lumière de Huygens, que apresenta a teoria ondulatória da luz.
Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Treatise_on_Light#/media/File:Web_Huygens690.jpg.


Tanto a reflexão como a refracção podem ser explicadas por ondas, assim como as duas são explicadas por partículas. Mas, na verdade, ondas são muito diferentes de partículas: uma partícula está num sítio enquanto uma onda está em todo o lado. Por outro lado, as ondas interferem umas com as outras, podendo mesmo duas ondas sobrepor-se de modo a anularem-se completamente. No entanto, duas partículas que colidem nunca se podem anular. Apesar das observações do Padre Grimaldi e de outras em favor da descrição ondulatória, dada a autoridade de Newton, só no início do século xix a teoria newtoniana viria a ser descartada. Uma experiência com passagem de luz por dois orifícios efectuada em 1803 (três anos após a experiência de Herschel e dois da de Ritter), pelo médico e polímato inglês Thomas Young (1773–1829) mostrou, sem apelo nem agravo, que a luz era um fenómeno ondulatório. Verificava-se não apenas difracção em cada orifício, mas também interferência — isto é, sobreposição construtiva ou destrutiva — da luz que provinha das duas aberturas (Figura 1.6.). Num ecrã verificavam-se franjas de luz e sombra.

Figura 1.6. Experiência de Young das duas fendas que mostra dois fenómenos ondulatórios: difração e interferência.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Young_Diffraction.png.


Pouco depois era feita uma experiência com muitos orifícios, um efeito conseguido por uma rede, dita de difração. O alemão Joseph von Fraunhofer (1787–1826) ficou conhecido pelas suas experiências realizadas em 1814 da observação da luz solar com a ajuda de uma rede de difração.

Com essa rede consegue-se o mesmo efeito que com um prisma. Fraunhofer teve o mérito de, com a ajuda do novo instrumento (o telescópio associado à rede de difracção), ter inaugurado um novo ramo da física e da química, a espectroscopia, que permite identificar substâncias químicas. Fraunhofer observou riscas no espectro da luz do Sol, que revelavam a presença de elementos químicos no Sol, o mais importante dos quais era o hidrogénio, o primeiro elemento da Tabela Periódica, que também existe na Terra (por exemplo, na água, combinado com o oxigénio para formar as moléculas H2O). Foi graças à espectroscopia que, no século xix, se descobriu no Sol o segundo elemento da Tabela Periódica, o hélio (este nome vem precisamente da palavra grega para Sol).

Fez em 2015, Ano Internacional da Luz, 200 anos que o físico francês Augustin-Jean Fresnel (1788–1827) descreveu matematicamente as ondas de luz, que se manifestavam na experiência de Grimaldi ou na de Young. Um seu contemporâneo, o francês Siméon Poisson (1781–1840), duvidou dessa teoria, por ela prever, por interferência construtiva, a observação de um ponto luminoso na sombra que se forma por detrás de um pequeno objecto esférico opaco, como a cabeça de um alfinete. O presidente da Academia Francesa, François Arago (1786–1853) fez o que se deve fazer em polémicas semelhantes: mandou que se realizasse cuidadosamente a experiência, que foi conclusiva. O ponto existia mesmo e é uma ironia da história que ele tenha o nome da pessoa que duvidou da sua existência: «Ponto de Poisson».

Na mesma época fizeram-se progressos enormes na determinação da velocidade da luz. Já se conhecia, pelas observações do dinamarquês Ole Rømer (1644–1710) e do britânico James Bradley (1693–1762), o valor aproximado dessa velocidade a partir de fenómenos astronómicos (cerca de 300.000 km/s), mas só a meio do século xix foi possível medir num laboratório terrestre a velocidade da luz. As experiências dos franceses Hippolyte Fizeau (1819–1896) e Léon Foucault (1819–1868), realizadas por volta de 1850 (os dois trabalharam primeiro em conjunto e depois separadamente, usando espelhos rotativos, que desviavam a luz de um espelho fixo para sítios diferentes), mostraram que a luz é mais lenta na água do que no ar, ao contrário do que a teoria corpuscular previa. Era o último prego no caixão da teoria ondulatória de Newton…

Mas uma onda é a propagação de uma perturbação qualquer. O que seria no caso? Fez exactamente 150 anos no Ano Internacional da Luz que o físico escocês James Clerk Maxwell (1831–1879), num golpe de génio, conseguiu descrever todos os fenómenos eléctricos e magnéticos. Ficou então claro o que era a luz. As forças eléctricas e magnéticas exercidas à distância podiam, conforme tinha sugerido o inglês Michael Faraday (1791–1867) ser descritas pelo conceito de campo: ora a luz não passava, depois de combinadas as quatro equações de Maxwell do electromagnetismo (Figura 1.10.), da propagação de perturbações dos campos eléctrico e magnético, que neste contexto aparecem sempre associados um ao outro.

Mas uma onda é a propagação de uma perturbação qualquer. O que seria no caso? Fez exactamente 150 anos no Ano Internacional da Luz que o físico escocês James Clerk Maxwell (1831–1879), num golpe de génio, conseguiu descrever todos os fenómenos eléctricos e magnéticos. Ficou então claro o que era a luz. As forças eléctricas e magnéticas exercidas à distância podiam, conforme tinha sugerido o inglês Michael Faraday (1791–1867) ser descritas pelo conceito de campo: ora a luz não passava, depois de combinadas as quatro equações de Maxwell do electromagnetismo (Figura 1.10.), da propagação de perturbações dos campos elétrico e magnético, que neste contexto aparecem sempre associados um ao outro.

𝛁.𝑬=𝜌 /𝜀o
𝛁.𝑩=0
𝛁𝑥𝑬=−𝜕𝑩/𝜕t
𝛁𝑥𝑩=𝜇o 𝑱 + 𝜇o 𝜀o 𝜕𝑬/𝜕t

Figura 1.7. As quatro equações de Maxwell.


Cargas em movimento causam não só um campo eléctrico mas também um campo magnético, que lhe é perpendicular. A luz era nada mais, nada menos do que onda electromagnética, isto é, campos eléctricos e magnéticos que vibram no espaço, avançando à velocidade da luz. No tempo de Maxwell pensava-se que tinha de haver um meio a suportar os campos — o éter — mas hoje sabemos que não existe éter e que as variações de campo se podem propagar no vazio. Essencial no raciocínio de Maxwell foi verificar que a velocidade das ondas electromagnéticas, calculada a partir de propriedades eléctricas e magnéticas, coincidia com a velocidade da luz determinada por Fizeau.

A unificação, conseguida por via matemática, por Maxwell da electricidade e do magnetismo foi um dos maiores feitos da física. E a confirmação teórica da natureza ondulatória da luz foi um dos seus grandes corolários. A óptica passou a ser uma consequência do eletcromagnetismo. Comentou muito mais tarde o Prémio Nobel da Física Richard Feynman (1918–1988):

Numa visão de longo prazo da história da humanidade, visto de, digamos, daqui a dez mil anos, não pode haver qualquer dúvida de que o acontecimento mais significativo do século xix será a descoberta das leis do electromagnetismo de Maxwell.


A teoria de Maxwell previa a existência de outras formas de luz invisível para além dos infravermelhos e dos ultravioletas. Bastava para as conseguir agitar cargas eléctricas de modo adequado num dispositivo que hoje chamamos antena. Essa luz invisível poderia fazer agitar cargas numa outra antena mais à frente. Em 1886, o físico alemão Heinrich Hertz (1857–1894) mostrou, no seu laboratório, que era possível emitir e recolher luz invisível de comprimento de onda muito maior do que os da luz visível.

Essas ondas foram chamadas ondas hertzianas ou ondas de rádio. A sua diferença relativamente à luz visível consistia no facto de ter muito maior comprimento de onda. Parecia agora que a teoria corpuscular de Newton estava morta e enterrada. A ciência de Hertz rapidamente se tornou em tecnologia, quando o italiano Guglielmo Marconi (1874–1937) conseguiu estabelecer comunicações de longa distância usando as ondas hertzianas. O mundo passou a estar ligado à velocidade da luz.

O século xix, que foi o século da descoberta das radiações invisíveis, não haveria de terminar sem que fossem encontradas duas novas formas de luz, radiação de comprimento de onda mais curto e com maior poder energético: os raios X e os raios gama. Em 1895 o alemão Wilhelm Roentgen (1845–1923) realizava experiências de raios catódicos (que sabemos hoje serem feixes electrónicos), que são descargas eléctricas num tubo de gás.

Descobriu, ficando justamente alvoroçado, que placas fotográficas que se encontravam, convenientemente protegidas, no escuro ficavam impressionadas por uma radiação misteriosa que provinha do choque dos raios catódicos com o vidro. Passaram a ser chamados raios X, embora na Alemanha ainda hoje se chamem raios de Roentgen («Röentgenstrahlung»). Como é que eles tinham impressionado as chapas protegidas? Acontece que os raios X têm a fantástica propriedade de atravessar os corpos opacos. É essa propriedade que permitiu rapidamente o seu uso para a visualização do interior do corpo humano. Roentgen interpôs a mão da sua esposa entre o tubo e a placa e nesta logo apareceram os ossos da mão: o marido estava surpreendentemente a ver o interior da sua mulher! A descoberta dos raios X valeu a Roentgen, em 1901, o primeiro Prémio Nobel da Física.

É curioso referir que o único Prémio Nobel português em ciências, António Egas Moniz, iniciou a sua familiarização com a ciência vendo raios X. No início do ano de 1896 era ele estudante de Medicina em Coimbra quando teve a oportunidade de colaborar com o seu professor de Física, Henrique Teixeira Bastos, na primeira reprodução em Portugal das experiências de raios X, passados dois escassos meses da descoberta daqueles raios por Wilhelm Roentgen na Alemanha. Escreveu ele muitos anos mais tarde sobre as suas experiências com os raios X:

O facto era conhecido, mesmo no vivo, pois nenhuma descoberta teve até hoje aplicação mais rápida e imediata que a de Roentgen. Em Coimbra, porém, não se tinha feito e lembro-me da alegria que tal acontecimento determinou na minha vida.


Os últimos raios invisíveis vieram do núcleo atómico, embora nessa altura este ainda não fosse conhecido. Em 1900, o francês Paul Villard (1860–1934) detectou uma radiação nuclear, proveniente do rádio, um novo elemento químico que tinha sido identificado pouco antes por Marie Curie, mais conhecida por Madame Curie (1867–1934), em trabalhos que acabaram por lhe valer dois prémios Nobel: um da Física em 1913 com o marido, Pierre Curie (1859–1906), e com o descobridor da radioactividade, Antoine-Henri Becquerel (1852–1908), e outro da Química, sozinha, em 1911. Ainda hoje Madame Curie é a única pessoa que recebeu dois prémios Nobel em duas áreas científicas distintas.

Hoje em dia usamos os infravermelhos, para além dos comandos de televisão, em câmaras que servem para ver no escuro, em termómetros, na análise de obras de arte, em lâmpadas para aquecer os alimentos, etc. Por seu lado, usamos os ultravioletas, para além da fotografia, na detecção de notas falsas, na impressão de circuitos digitais, na esterilização e desinfecção, em certas formas de terapia dermatológica, etc. As ondas de rádio, tal como as micro-ondas podem ser vistas como ondas com comprimentos de onda inferiores a um metro e maiores do que um milímetro. Os raios X são usados em medicina, para diagnóstico e tratamento, nos aeroportos para inspecção de bagagens, no exame de obras de arte, em astronomia (com os detectores a bordo de satélites), etc. Finalmente, os raios gama são usados para tratamentos médicos, para esterilizações, também em astronomia como os raios X, etc.

Se o século xix foi o século do electromagnetismo e dos raios invisíveis, o século xx seria o século da teoria dos átomos e da luz: a teoria quântica, que explica a interacção entre os átomos e a luz. Em 1900, o alemão Max Planck (1858–1947) avançava com a extraordinária hipótese quântica para explicar o «problema do corpo negro» (Figura 1.8.): a radiação existente num forno (um espaço com paredes a uma temperatura uniforme, que ficou conhecida por corpo negro) tinha de ser emitida e absorvida pelas paredes do forno em pacotes, a fim de se descrever matematicamente a distribuição da potência de luz irradiada por toda a banda de comprimentos de onda, visível e invisível (já atrás se referiu o exemplo da luz emitida pelo Sol, que um tanto paradoxalmente pode ser considerado um corpo negro). A ideia era algo extravagante pois até aí pensava-se que a luz podia ser emitida ou absorvida em qualquer quantidade de energia. Os quanta são os pacotes de luz, sendo quanta o plural de quantum, que significa em latim «quantidade».

Figura 1.8. Descrição matemática feita por Planck da radiação do corpo negro.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Radia%C3%A7%C3%A3o_espectral.png.


Demorou apenas cinco anos até que o físico suíço nascido na Alemanha Albert Einstein (1879–1955) afirmasse que a luz não só era emitida e absorvida em pacotes como existia em pacotes. Ao tentar interpretar um outro fenómeno estudado no laboratório por Hertz, sem qualquer relação directa com as ondas hertzianas, chegou à conclusão de que a luz é afinal formada por partículas. O fenómeno era o chamado «efeito fotoeléctrico». Luz ultravioleta, ao incidir numa placa metálica, conseguia arrancar electrões, que percorriam um circuito fechado: de certo modo, a energia luminosa era convertida em energia eléctrica (Figura 1.9.). O choque da luz com os electrões só podia ser explicado pensando que um grão de luz batia num electrão. Não interessava tanto a intensidade da luz mas mais o comprimento de onda da luz. Não foi Einstein quem chamou fotões a esses grãos, mas sim mais tarde o químico norte-americano Gilbert Lewis (1875–1946). Einstein chamou-lhes, em alemão, Lichtquanta («quantidades de luz»). Ele foi mais longe que Planck ao afirmar que a luz não só era emitida e absorvida em pacotes, mas também existia em pacotes, ou pelo menos manifestava-se em pacotes noutras circunstâncias, designadamente quando interagia em certas condições com electrões. Einstein ganhou o Prémio Nobel da Física de 1921 devido a essa sua hipótese e não à sua teoria da relatividade, que parte de uma ideia sobre a luz: a invariância da velocidade da luz para todos os observadores. Einstein estava certo quanto à nova natureza corpuscular da luz e agora só faltava conciliar melhor os aparentemente opostos, isto é, desenvolver uma teoria consistente que permitisse explicar o carácter dual da luz.


Figura 1.9. Efeito fotoelétrico, interpretado por Einstein.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Photoelectric_effect.svg.



A teoria iniciada por Planck e Einstein acabou por fazer o seu caminho.

O dinamarquês Niels Bohr (1885–1962) deu um grande passo em frente quando propôs que os átomos só podiam emitir ou absorver luz de alguns comprimentos de onda: a emissão ou absorção de fotões dá-se, respectivamente, quando um átomo passa de um estado excitado para um estado de energia mais baixa ou ao contrário (Figura 1.10.). Conseguiu assim descrever a emissão e absorção de luz por um átomo de hidrogénio e, embora de forma aproximada, de hélio, dando uma base teórica às observações espectroscópicas que vinham do século xix.


Figura 1.10. Modelo do átomo de Bohr.
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bohr_atom_model.svg.



A teoria continuou com a ideia do francês Louis de Broglie (1892–1987), avançada na sua tese doutoral de 1924, da dualidade onda-corpúsculo: tal como a luz, uma partícula material como um eletcrão podia ser vista quer como partícula quer como onda. A experiência de Young foi realizada em 1961 com electrões, confirmando a ideia de Broglie: já foi chamada pela revista Physics World «a mais bela experiência de Física».

A teoria quântica acabaria por ficar praticamente pronta em 1926, com artigos no mesmo ano do alemão Werner Heisenberg (1901–1976) e do austríaco Erwin Schroedinger (1887–1961). Os dois usaram técnicas matemáticas diferentes — respectivamente matrizes e uma equação diferencial — mas as descrições conduziam aos mesmos resultados, reproduzindo os resultados mais importantes obtidos por Bohr para os estados possíveis do átomo de hidrogénio. A teoria quântica permite-nos hoje descrever a luz e a interacção da luz com a matéria. Pode parecer esquizofrénico, mas a luz é, por vezes, partícula — o fotão — e, por vezes, onda. Tudo depende do dispositivo e do modo de observação.

A experiência de duas fendas, realizada em primeiro lugar por Young, pode hoje ser realizada num laboratório escolar com uma fonte laser (o laser, um feixe de luz coerente e monocromática, é uma outra ideia luminosa de Einstein!) de fraca intensidade, que emite fotões um a um. Se esperarmos o tempo suficiente conseguimos detectar, usando aparelhos chamados fotomultiplicadores, que convertem luz em corrente eléctrica (um processo algo semelhante ao que se passa com os cones na nossa retina), a chegada dos fotões, um a um, sobre um ecrã, afastado dos dois orifícios. Verificamos que, em cada posição do ecrã, a luz só chega num número inteiro que é o número de fotões, isto é, a distribuição de luz que parecia contínua é afinal discreta. A teoria quântica permite prever o padrão de luz e sombra, a figura de interferência, mas — estranhamente — já não permite prever deterministicamente quando chega um electrão a um certo sítio. Só permite prever probabilidades. Por que orifício passa a luz? Temos de dizer que passa pelos dois, embora seja emitida e recolhida sob a forma de fotões. Se pretendermos averiguar a passagem de luz num certo orifício, destrói-se com a medida o padrão de interferência, isto é, a coisa observada depende do procedimento do observador. Para Feynman o fenómeno patente na experiência de dupla fenda é «impossível de explicar de um modo clássico, tendo nele o coração da teoria quântica. Na verdade contém o único mistério [dessa teoria]» 2 (Feynman, Leighton, & Sands, 2005).

A luz tem, portanto, duas caras: tanto aparece na forma de partícula como na forma de onda. Newton e Einstein têm razão. Como também a têm Huygens, Fresnel e Maxwell. Uma maneira de descrever esse seu comportamento dual consiste em dizer que viaja como uma onda mas é observada como uma partícula ou grão de luz. A teoria quântica permite conciliar esses dois aspecos aparentemente contrários, pois uma onda está espalhada por todo o lado ao passo que uma partícula está localizada num ponto do espaço. Não se olha: é onda. Mas se olha, então já é partícula.

O físico português José Tito de Mendonça, no seu livro Uma biografia da luz. Ou a triste história do fotão cansado fala assim da estranha natureza da luz: «Há nomes de pessoas que são estereótipos de esquizofrenia: Ortega y Gasset, Costa e Silva, Cotton-Mouton ou Cohen-Tannoudji, o sábio de Tunes. Dois personagens numa só pessoa. O mesmo dilema se encontra na luz, que não sabe se é onda ou se é partícula. E tem que ser as duas coisas ao mesmo tempo.» (2015).

A electrodinâmica quântica (QED, do inglês Quantum Electrodynamics) que valeu em 1965 o Nobel a Richard Feynman, ao norte-americano Julian Schwinger (1918–1994) e ao japonês Schin’ichiró Tomonaga (1906–1979), que reúne coerentemente a teoria quântica com a teoria da relatividade restrita de Einstein para explicar a interacção entre electrões e luz que se realiza nos átomos e moléculas, é hoje uma coroa de glória da física mais moderna. Ela, para além de proporcionar compreensão aprofundada do dualismo corpúsculo-onda através do conceito de campo quântico, consegue fazer previsões com uma precisão extraordinária. Estamos longe de saber tudo sobre a luz, mas sabemos bastante.

Notas:

1 Tradução do autor. No original, «if learning the truth is his goal, is to make himself an enemy of all that he reads» (Sabra, 2003, para. 7).
2 Tradução do autor.

Referências

Calado, J. (2015). Haja Luz! Uma história da química através de tudo (3.ª ed.). Lisboa: ISTPress.
Feynman, R. (2015). QED - A estranha teoria da luz e da matéria, Lisboa: Gradiva.
Feynman, R., Leighton, R. B., & Sands, M. (2005). The Feynman Lectures on Physics (2.ª ed.). Boston, Massachusetts, EUA: Addison-Wesley.
Mendonça, J. T. de (2015). Uma biografia da luz. Ou a triste história do fotão cansado.U Lisboa: Gradiva.
Simonyi, K. (1990). Kulturgeschischte der Physik, Thun_Frankfurt am Main: Harri Deutsch.
Sabra, A. I. (2003, Sep.-Oct.). Ibn al-Haytham. Harvard Magazine. Consultado em 1 de out. 2015. Disponível em https://harvardmagazine.com/2003/09/ibn-al-haytham-html.
Weiss, R. J. (1996). A Brief History of Light and those that lit the way. Singapore: World Scientific.

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