terça-feira, 8 de setembro de 2015

O LIVRO NEGRO SOBRE A CIÊNCIA NACIONAL DIVULGADO NO PÚBLICO


Artigo e Teresa Firmino no Público de 2 de Setembro:
Cinco investigadores portugueses organizaram uma compilação exaustiva dos artigos de opinião, das cartas, dos comunicados de imprensa e das peças jornalísticas publicados em 2014 e 2015 sobre a avaliação dos centros de investigação portugueses levada a cabo pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), que é tutelada pelo Ministério da Educação e Ciência. Todos esses textos estão reunidos no que os cinco investigadores designaram por Livro Negro da Avaliação Científica em Portugal, e que está disponível online a partir desta quarta-feira.
Esta iniciativa não pode deixar de ser lida à luz do combate que se aproxima nas eleições legislativas. Um dos organizadores é Manuel Heitor, investigador do Instituto Superior Técnico (IST) de Lisboa, e que foi secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior entre 2005 e 2011, nos dois governos socialistas de José Sócrates e quando José Mariano Gago (1948-2015) era o ministro da Ciência e do Ensino Superior. João Sentieiro, presidente da FCT entre 2006 e 2010, também no período de Mariano Gago à frente da pasta da Ciência, e agora investigador do IST, é outro dos organizadores. Tal como Alexandre Quintanilha, antigo director do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto, recentemente jubilado, e que é agora o cabeça de lista do PS no Porto às eleições legislativas de 4 de Outubro. Aliás, o PS no seu programa eleitoral propôs fazer uma auditoria à avaliação da FCT aos centros de investigação e, a seguir, lançar um novo processo de avaliação.
Por fim, o painel de organizadores do livro é composto pela investigadora Maria Fernanda Rollo, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, e por Carlos Fiolhais, físico da Universidade de Coimbra e uma das vozes críticas mais sonantes, nomeadamente no blogue De Rerum Natura, sobre o último processo de avaliação da FCT aos centros de investigação portugueses.
A compilação dos textos é antecedida por um prefácio dos cinco organizadores, no qual consideram que a avaliação do sistema científico em Portugal sofreu uma “adulteração” nos últimos quatro anos de governação do PSD e CDS-PP. “Desde meados de 2011, com a mudança do governo e da tutela da ciência e tecnologia, a formulação das políticas públicas foi, pela primeira vez na nossa democracia, drasticamente alterada, traduzindo-se no aumento da selectividade no acesso à ciência, sobretudo com base em processos de ‘avaliação’ avulsos e tendo a aplicação de métodos e práticas de que não só não merecem o reconhecimento e a aceitação da comunidade cientifica nacional e internacional, como foram executadas de forma discricionária (…)”, lê-se no prefácio do Livro Negro da Avaliação Científica em Portugal, publicado apenas na Internet. “De facto, não há nenhum sistema científico sustentável que se baseia apenas num grupo restrito e exclusivo de cientistas. Esta é, aliás, uma ideia perigosamente próxima de tudo aquilo que impediu que Portugal assumisse mais cedo o desafio da ciência.”
Especificamente em relação à avaliação dos 322 centros de investigação portugueses, lançada pela FCT em 2013, e que se prolongou até ao início de 2015, para a atribuição de financiamentos anuais até 2020, considera-se no prefácio que este processo se caracterizou por “desresponsabilização” e “desrespeito” em relação à sua principal missão, com “falta de transparência, atropelo das boas práticas e introdução de alterações sucessivas das regras a meio do processo”. “Instalou-se um ambiente de insegurança, decorrente da forma arbitrária que passou a dominar os contornos e propósitos do processo de avaliação, comprometendo a credibilidade e o respeito pela FCT”, lê-se ainda.
“Os avaliadores, que em processos de avaliação anteriores, visitavam as instituições, visitaram apenas aquelas que, no papel, foram previamente apreciadas numa base administrativa e bibliométrica. Como resultado, uma fracção considerável das unidades [de investigação] ficou excluída do exercício da avaliação – cerca de 50% –, o que, como veio a constatar-se mais tarde, respeitava precisamente a indicação que constava nos termos de referência estabelecidos pela direcção da FCT para o exercício de avaliação. Orientações que, saliente-se, foram escondidas da comunidade científica durante meses.”
Os cortes das bolsas de doutoramentos e pós-doutoramentos, a descida do dinheiro total investido pelo país em investigação e desenvolvimento e a “emigração forçada de alguns dos recursos humanos mais qualificados” são outras das críticas deixadas no prefácio deste livro com 179 páginas e que inclui, além de artigos na imprensa portuguesa, artigos publicados no estrangeiro sobre a avaliação aos centros de investigação portugueses e os cortes de financiamento.

    

AINDA O AFUNDAMENTO DA CIÊNCIA NACIONAL

Texto, em inglês, da investigadora Filipa Vala no Euroscientist:


GOVERNO PORTUGUÊS NÃO QUIS PARTICIPAR NA MAIOR FEIRA MUNDIAL


Nestas férias tive oportunidade de visitar a Expo de Milão, a Feira Mundial dedicada à Alimentação. Participam mais de 150 países de todo o mundo, dos quatro continentes, ricos e pobres (dos Estados Unidos a S. Tomé e Príncipes).  O número de visitantes até agora já foi mais do dobro da Expo 98 de Lisboa, dedicada aos oceanos.

Mas tive vergonha, quando procurei debalde o pavilhão português. Não há, pura e simplesmente, a bandeira portuguesa não figura. Parece que a ministra da Agricultura Assunção Cristas e o "irrevogável" vice-primeiro-ministro Paulo Portas não quiseram que o país participasse. E depois vêm falar em agricultura e internacionalização...
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domingo, 6 de setembro de 2015

"Naufrágio da humanidade"


"Quero que o mundo inteiro nos ouça e veja onde chegamos
para tentar escapar da guerra. Vivo um grande sofrimento.
Faço esta declaração para evitar que outras pessoas vivam o mesmo.”
Pai de Aylan Kurdi (aqui)

A fotografia de Aylan Kurdi, o rapazinho sírio morto num praia da Turquia como se dormisse tranquilamente depois da brincadeira, tem sido divulgada pelo mundo acompanhada do slogan "naufrágio da humanidade".

Quem inventou esse slogan (não sei quem foi) teve o dom de traduzir em três palavras a tragédia de toda uma gente a quem a desgraça da guerra tocou, que tenta escapar da morte pelas armas e acaba morta no oceano ou perdida em caminhos e campos, mas traduz igualmente a tragédia de toda uma outra gente que pensa estar a salvo da desgraça no seu conforto quotidiano não percebendo que também morreu ou se perdeu algures no que há de mais profundamente humano: a compaixão.

O nosso sangue deveria congelar não só pelo pequeno Aylan ("O meu sangue congelou", foi o que disse Nilüfer Demir que o retatou) e por quem partilha da mesma sorte mas, talvez, sobretudo por quem poderia fazer valer esse sentimento e nada faz ou, como temos visto, impede que outros o façam.

Cartonistas de diversas do médio oriente representaram esta dupla tragédia aqui (uso o artigo da jornalista Helena Bento do Expresso).

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

PAGADORES DE PROMESSAS


Foi em recolhimento que li este texto (publicado no “JL”) em que Eugénio Lisboa, uma marcante personalidade da Cultura, fala de um homem bom, Amadeu Ferreira, com a generosidade que perpassa nas suas palavras, evocando a brilhante biografia escrita por Teresa Martins Marques sobre "essa grande figura do intelecto, da acção e do coração". É, portanto, em agradecimento a Eugénio Lisboa (que, em outras ocasiões, tem proporcionado ao DRN idênticas e valiosas oportunidades) que ora se publica esta peça literária:

“Nunca faças coisas pela metade”.
Provérbio

De uma biografia falo hoje. As biografias são uma espécie traiçoeira: dizia Wilde que todo o grande homem tem os seus discípulos, mas é sempre Judas quem lhe escreve a biografia. Tem-se visto que é assim. Mas não é de modo nenhum o caso que hoje aqui nos traz: a monumental dádiva biográfica que Teresa Martins Marques quis consagrar a essa grande figura do intelecto, da acção e do coração, que foi Amadeu Ferreira, há pouco falecido.

O livro que tenho à minha frente – O Fio das Lembranças / Biografia de Amadeu Ferreira – é o monstruoso pagamento de uma promessa. É o mais improvável acto de generosidade e entrega a que, até hoje, me foi dado assistir: 400 páginas de texto construído sob o império de uma vontade inquebrantável e à pressão de uma terrível urgência (concluir a obra, se possível, a tempo de o biografado – mortalmente doente – a poder ainda ler), acrescidas de outras tantas de testemunhos de amigos, colegas e admiradores, arrancados, coligidos e “montados”, com uma energia que não é deste mundo. Pacto fáustico com o diabo? Sei lá!

De qualquer modo, Teresa Martins Marques tem o hábito de obedecer ao provérbio que dou em epígrafe: “Nunca faças coisas pela metade.” As obras dela, começadas, talvez, como coisas para dimensões normais, acabam por se lhe expandir, nas mãos, alargando-se, pantagruelicamente, até atingirem o volume capaz de lá se lhe meter tudo. Viu-se isso com a monumental dissertação de doutoramento que dedicou a David Mourão-Ferreira, e vê-se, agora, com este prodigioso empreendimento, que é o livro que dá nova e mais concentrada vida à vida singular desse jurista, professor, poeta, romancista, e estudioso e divulgador do mirandês – além de “campeador melhorista”, para usar uma expressão de António Sérgio – que foi Amadeu Ferreira.

Em 2009, a autora desta biografia conheceu o jurista, escritor e militante da cultura mirandesa, Amadeu Ferreira, num almoço aprazado entre este e o seu amigo Ernesto Rodrigues – e logo se deixou enfeitiçar pela “luminosidade do olhar, o sorriso franco, a perspicácia das observações, a determinação das suas posições, a agilidade da sua inteligência.” Depois, ao longo dos encontros e das leituras, foi coleccionando outras virtudes do futuro biografado: cultura, simpatia, bondade, dedicação aos outros (de preferência aos “necessitados”), postura cívica impecável. A que veio acrescentar-se a admiração pelo poeta, pelo ficcionista e pelo campeador da língua de Miranda, para a qual verteu a “Mensagem” e” Os Lusíadas”.

Com a empatia profunda, o apelo tornou-se irresistível. Num encontro em Bragança, finalmente, tudo aconteceu: “num impulso que ainda hoje não sei explicar”, disse-lhe: «Você merece que lhe escrevam a biografia.»” O resultado da promessa então feita é este livro, levado a cabo a golpes de energia e obstinação. Boa pagadora de promessas, Teresa Martins Marques foi dando forma e volume à vida verdadeiramente épica e exemplar do autor de “Tempo de Fogo “(La Bouba de la Tenerie, em Mirandês). Dizia Virginia Woolf que “biografia é dar a um homem uma espécie de forma, depois da sua morte”. Foi isto mesmo que fez a biógrafa deste homem bom e inteligente (binário improvável), ao longo das 800 páginas desta obra (porque as 400 de testemunhos cumprem exactamente o mesmo objectivo): livro que se não pode ler, a não ser com muitas horas disponíveis e um pequeno guindaste que o suspenda diante dos nossos olhos atónitos e dos nossos braços impotentes…

Segundo Carlyle, o dos “Heróis”, uma vida bem escrita é quase tão rara como uma vida bem vivida. Amadeu Ferreira foi, neste sentido, um privilegiado: apesar de originalmente pobre, no sentido mais despido do termo – oriundo de um berço desacautelado, em Sendim, Miranda do Douro – viveu uma vida bem recheada, onde nada lhe foi dado e tudo teve que conquistar (e foi muito) a pulso e à força de carácter e inteligência, subindo, sem golpes nem atropelos, ao topo de uma carreira difícil e minada, e deixando, atrás de si, um rasto luminoso de seres a quem ajudou, promoveu e libertou. 

Tendo, no final, e contra todas as probabilidades, encontrado quem lhe escrevesse a odisseia, uma, talvez, destacando-se de poucas mais, idênticas, mas que ficaram, essas, sem crónica que as lembre à memória dos homens. Pode ser que ser pobre não seja um crime, como rezam uns provérbios que andam por aí a tentar amaciar uma condição intolerável, mas permitir que a pobreza exista e persista – é, por certo, um crime hediondo, que os nossos quarenta e um anos de democracia ainda nem sequer tentaram resolver, permitindo até que se concentre quase toda a riqueza nas mãos de alguns oficialmente cristãos, que piamente nos aconselham a vivermos com pouco e a resignarmo-nos muito. Que, dos pobres, é o reino dos céus, o qual os ricos meticulosamente evitam.

O livro, em boa hora congeminado e redigido por Teresa Martins Marques, apoiou-se numa séria e abundante consulta de documentos e em muitas horas de entrevista filmada pelo excelente e cuidadoso Leonel de Brito, entre Novembro de 2013 e Janeiro de 2014 (ao todo, 31 horas “densas de pormenores, riquíssimas de conteúdo”) – obra que “permitisse entender o pulsar da sua inteligência” e, acentua Teresa, “retribuir-lhe a atenção que ele sempre dá aos outros.”

Não resisto a reproduzir aqui como tudo isto – a filmagem – aconteceu: “A ideia que permitiu escrever esta biografia no prazo de um ano partiu dele [de Leonel de Brito] como sempre acontece. O Leonel tem belas ideias e sabe colocá-las rapidamente em prática, graças à sua imensa experiência de cineasta conceituado, que sabe fazer belos filmes como Gente do Norte, que voltei a ver agora na Cinemateca. Num café ao lado da nova CMVM, na Rua Laura Alves, o Leonel, o António Tiza, o Rogério Rodrigues e eu esperávamos a chegada do Ernesto [Rodrigues] para visualizarmos, com o Amadeu, o documentário que o Leonel fizera em Sendim, com os pais [do Amadeu], a seu pedido. Discutíamos entre nós a melhor forma de dar alegria ao Amadeu, naquele momento tão complicado da sua saúde. O Leonel olha para mim e pergunta: «E se fizéssemos também um filme com o Amadeu?» Sorri e agarrei a ideia no ar. Mal entrámos no seu gabinete, na CMVM, ataquei o objectivo: «Amadeu, quero pedir-te uma coisa: preciso que faças umas gravações com o Leonel, como material de base da biografia.» Nem um segundo hesitou: «Quando começamos?»”

Eis o que permitiu à biógrafa colher ao vivo, a quente, o depoimento, em discurso directo, do biografado – com a vitalidade pulsante que nenhum documento transmite.

É quase criminoso fazer uma recensão crítica confinada ao cárcere dos 6000 ou 7000 caracteres que o JL me concede, quando se trata de um livro tão volumoso, tão rico, tão cheio de histórias de exemplo e proveito, como é este Fio das Lembranças, que nos entrega, generoso, inteligente e palpitante, um dos mais singulares passageiros do nosso tempo.

Quero terminar, transcrevendo umas palavras que Amadeu Ferreira proferiu, numa entrevista dada, em Abril de 2005, ao Programa Nordeste com Carinho, de Maria de Jesus Cepeda e Marcolino Cepeda. Ao pedido dos entrevistadores – “Fale-nos da sua «Construção do Céu», para utilizar palavras suas” – Amadeu Ferreira respondeu: “A «Construção do Céu» é um pouco aquela ideia que eu teria… eu tenho uma dívida para com a sociedade… A primeira imagem de uma sociedade perfeita que eu conheci, conheci-a no seminário, que é o «Céu» e, portanto, de alguma forma, achei que tinha o dever de fazer com que o Céu fosse cá na Terra. De alguma forma foi esse o céu em que eu sempre acreditei, pelo qual sempre me esforcei e isso passou por várias atitudes na minha vida (…)”.

Amadeu Ferreira sentiu, desde muito novo, que tinha “uma dívida para com a sociedade” e prometeu a si próprio pagá-la. Bom e honesto pagador de promessas, saldou, com generoso exagero, essa dívida. Teresa Martins Marques, por sua vez, quando o conheceu, sentiu que lhe devia uma biografia e prometeu fazê-la: também boa pagadora de promessas, cumpriu, à grande medida e sem se poupar, a dívida contraída. Duas belas histórias de pagamento de promessas, em tempos em que muito se promete e pouco se cumpre. Uma pessoa com coragem constitui uma maioria, disse Andrew Jackson. Duas pessoas com coragem constituem uma imensa maioria.

Eugénio Lisboa

“COSMICOMIX: A DESCOBERTA DO BIG BANG”

Primeiramente publicado na imprensa regional portuguesa.




Há 50 anos, em 1965, os norte-americanos Arno Penzias e Robert Wilson descobriram a chamada radiação cósmica de fundo, uma radiação de micro-ondas, a luz mais antiga que conhecemos do cosmos, “luz fóssil” de quando o Universo tinha cerca de 380 000 anos. A efeméride desta descoberta é, entre outras, uma das que assinala o Ano Internacional da Luz que este ano se celebra.

E para assinalar e perceber melhor aquela descoberta, a editora Gradiva publicou, em Julho último, o livro de banda desenhada intitulado “Cosmicomix: a descoberta do Big Bang”. Nesta obra de banda desenhada os textos são da autoria do astrofísico Amedeo Balbi e os desenhos de Rossano Piccioni, ambos italianos. Publicada originalmente em 2013, a edição portuguesa tem tradução de Florbela Marques, revisão científica do Professor Carlos Fiolhais e teve o apoio da Sociedade Portuguesa de Física.

É uma edição que se saúda não só por ser muito oportuna neste Ano Internacional da Luz, que assinala na contracapa, mas por ser um bom exemplo de como a banda desenhada pode ser muito eficaz na divulgação científica.

Ao longo de 150 páginas o leitor revive a aventura das descobertas científicas ao longo da primeira metade do século XX que mudaram a compreensão da evolução do universo em que existimos. E as personagens são os cientistas que estiveram envolvidos nessa compreensão, através das suas teorias e observações experimentais. Meio século de interacção científica que leva a uma primeira confirmação da teoria do Big Bang, a mais bem sucedida que ainda temos actualmente para descrever a evolução do Universo desde há 13,8 mil milhões de anos.

O livro, que apresenta uma linguagem muito acessível sem perder o rigor científico, familiariza o leitor, por exemplo, com o físico Albert Einstein, o matemático Alexander Friedman, o astrónomo Edwin Hubble ou o físico George Gamow, assim com as teorias que produziram. Todas as personagens que surgem nesta banda desenhada são figuras de destaque da história da ciência que estiveram de alguma maneira envolvidas no esforço científico para compreender a origem e evolução do Universo. Os autores recorreram a documentação diversa para reconstituírem as cenas retratadas. E são reconstituídos vários momentos marcantes em que os cientistas se encontram, discutem as suas teorias e apresentam os resultados experimentais que as suportam ou que exigem novas teorias.

A evolução da narrativa neste livro permite, de uma forma agradável, que o leitor apreenda a história da evolução do conhecimento sobre o Universo ocorrida no século XX, até à descoberta da radiação cósmica de fundo pelos radioastrónomos Arno Penzias e Robert Wilson (galardoados em 1978, por isso, com o Prémio Nobel da Física). E permite que compreendamos bem a importância desta descoberta para confirmar a teoria do Big Bang primeiramente sugerida pelo padre e físico belga Georges Lemaître em 1927. Aliás, o livro reconstitui uma conversa entre Lemaître e Einstein em Bruxelas, em 1927, no qual o primeiro expõe a sua teoria do “átomo primordial” ao "pai" da teoria da relatividade.




É de sublinhar, nesta banda desenhada, o cuidado em explicar como a ciência se faz e evolui, e a importância da observação e resultados experimentais que confirmam, ou não, uma dada teoria.
O livro apresenta, no seu final, biografias breves de todos os cientistas envolvidos, que são úteis para despertar a curiosidade em saber mais sobre eles. Também são descritos, nas últimas páginas, alguns exemplos de como a banda desenhada foi feita. E, no epílogo constante nas últimas páginas o autor, Amedeo Balbi, descreve resumidamente os avanços e descobertas ocorridas desde a descoberta da radiação cósmica de fundo até aos dias de hoje, mostrando que ainda há muito para conhecer: “as perguntas não acabaram e continuamos à procura das respostas”.

É, em suma, um livro de que apresenta de uma forma muito acessível conceitos e teorias sobre a evolução do Universo e que se recomenda a todos.


António Piedade

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A Relassa Fraqueza dos Portugueses


                  
                 “Tudo deve ser discutido. Sobre isso não há discussão”.
                  Pitigrilli

                     Este meu post, para uma conveniente metodização, divide-se em duas partes: a primeira parte é a transcrição integral do comentário, feito por N.Fortes, ao meu post “Reflexõe sobre o “Processo de Bolonha” (02/09/2015); a segunda parte refere-se à minha reposta.

                Desta forma, o leitor melhor poderá fazer a desejável síntese porque, como escreveu Fernando Pádua, presidente do instituto Nacional de Cardiologia Preventiva, “há sempre um modo diferente de ver os problemas – depende ‘del cristal com que se mira’”. Assim:

                   Primeira parte:

                    “Referir que o grau de licenciado deveria ter sido extinto, dando-lhe equivalência imediata ao grau de mestre, "apenas para suavizar a injustiça por ela sofrida relativamente aos actuais mestrados politécnicos" é uma visão enviesada do problema. Na verdade, ao utilizar como termo de comparação os mestrados politécnicos, ignorando que os mestrados universitários, incluindo os mestrados integrados, correspondem igualmente a um conjunto de 5 anos de formação que nada acrescentaram face às antigas licenciaturas, deu ao seu texto um alcance profundamente sectário. Tem razão quanto à injustiça, mas ela coloca-se na comparação da antiga licenciatura com todo e qualquer mestrado actual, seja ele politécnico ou universitário.”

                     Segunda parte:

“Agradeço e registo o seu comentário. Só não tem razão (e a razão é algo de susceptível de discussão, inclusivamente de natureza filosófica) quando iguala, aliás este o cerne da questão, os mestrados politécnicos aos mestrados universitários.

Falo, por exemplo, e apenas, dos mestrados politécnicos, via ensino, em que os respectivos candidatos entraram com classificações menores para virem a leccionar, por exemplo francês no 2.º ciclo, sendo preparados para esse efeito, em dois anos específicos  (nos 3 anos anteriores tiveram  uma preparação  para docentes generalistas do 1.º ciclo do básico, antigo ensino  primário). Ou seja, dois anos de aprendizado politécnico para ensinar a disciplina de francês (e, simultaneamente, português) podem dar o mesmo background que  5 anos de formação universitária?

Situo-me no campo do racionalismo em que o critério da verdade não deve ser sensório  (e como tal deturpado pelos sentidos que, muitas vezes, nos enganam) mas de natureza intelectual ou dedutiva. Isto para já não falar da injustiça, quando ambos concorrentes para a docência da língua da pátria de Racine, de o mestre politécnico passar à frente do mestre universitário se  possuidor de um simples valor a mais de carta de curso.

É comummente aceite (seria interessante dar a conhecer publicamente dados estatísticos  sobre este assunto) que as notas de formatura das escolas superiores de educação estão inflacionadas relativamente às das faculdades. Seja como for, concorde-se ou não com ele, o seu comentário trouxe para a luzes da ribalta uma discussão em que, como escreveu, Goethe, “qualquer ideia proferida, desperta outra ideia contrária”. Esta discussão não deve ser perspectivada em  simples opiniões pessoais. A ser assim, o festejado poeta António Gedeão, pseudónimo literário de um grande professor do antigo ensino liceal, de seu nome Rómulo de Carvalho teria encontrado uma conciliação entre juízos em confronto: “Onde Sancho vê moinhos / D. Quixote vê gigantes. / Vê moinhos? São moinhos / Vê gigantes? São gigantes”.

Mestrados universitários e politécnicos, por se não tratar de uma divergência de índole pessoal, em defesa de possíveis capelinhas, cabe ao leitor ser árbitro de uma contenda que não deve ser tida como discussão do sexo dos anjos. É um assunto demasiado sério que diz respeito à formação da nossa Juventude entregando-a nas mãos dos docentes melhor preparados. Aliás, foi essa a doutrina que presidiu à formação das escolas superiores de educação: atribuição de estudos superiores politécnicos para a docência do 1.º ciclo do básico, até então a cargo de competentes e esforçados diplomados, é justo reconhecê-lo, pelas escolas do magistério primário. Ou seja, pretendeu-se, com isso, uma evolução formativa. Hoje, em contramão, há uma involução com mestres formados pelo ensino politécnico que logo procuraram forma de leccionar no 2.º ciclo do básico em paridade (concorrencialmente mesmo em vantagem) com mestres saídos da Universidade.

Como me esclarecia, dias atrás, pessoa amiga o criticável chico-espertismo encontrou o “manto diáfano” de um neologismo aparecido na década 90 do século passado: empreendedorismo proactivo. Situação só possível perante a passividade de quem se devia pronunciar sobre este assunto e o não faz por uma razão tida por, passe o plebeísmo, “nacional porreirismo!”

Não seria útil para a res publica o testemunho de mestres com diplomas universitários? Seria, até, um dever de cidadania que reportaria para um passado distante a crítica de quem, segundo ele próprio, farpeou a Ignorância que tem cabeça de touro, o imortal Eça: “Portugal é vítima da bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros e, irremediavelmente, estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem.”

Post scriptum: As situações ocorridas, e aqui relatadas, têm a sua génese  posteriormente ao “Processo de Bolonha” por iniciativa do comentador “N. Fortes”. Se, porventura, for pretendido fazer um flashback a tempos anteriores deverá substituir-se o grau de mestre por licenciado com ligeiras nuances para o tema em discussão.

Génios loucos? Nem por isso!

Dirac e a família (http://grahamfarmelo.com/the-strangest-man/)

Ando há algum tempo a trabalhar sobre a questão da humanidade das biografias dos cientistas, em particular de químicos e físicos. O recente texto de João Magueijo na Revista Visão contém alguns pontos com que não concordo e nos devem fazer meditar. Por isso, vou aqui apresentar algumas das conclusões a que cheguei sobre o assunto e sobre os cientistas referidos por Magueijo. Mais detalhes terão de esperar pelo livro!

A ideia mítica do cientista excêntrico ou louco que parece encaixar que nem uma luva a Dirac, Einstein, Pauli, entre outros, é um erro de perspectiva que só se torna plausível com base em anedotas fora do contexto e, muitas vezes, retocadas. Pode ser uma ideia tentadora como mito fundador dos avanços da ciência, mas a ideia geral do génio louco é desmentida pela estatística. Se pensarmos bem, a percentagem de génios excêntricos é relativamente baixa. E a percentagem daqueles a que podemos associar garantidamente qualquer tipo de doença mental é ainda mais baixa. Não quer isto dizer que os génios não tenham quaisquer características que os tornem diferentes. Claro que têm, mas, como escreveu Stephen Jay Gould no prefácio de Scientists at Work, a ciência abarca tantas vertentes da acção humana que há lugar para quase todo o tipo de personalidades e capacidades. Seguindo ainda Gould, aqueles que acabam por dar origem a desenvolvimentos geniais, têm características comuns: são, em geral, persistentes e obsessivos, com capacidades de trabalho nos problemas (que lhes interessam) muito acima da média, são brilhantes a analisar as questões sob novas perspectivas e conseguem manter viva uma espécie de curiosidade infantil. No entanto, isso não os torna muito diferentes das outras pessoas. Podemos encontrar, claro, personalidades borderline, ou mesmo pessoas com doenças mentais, desde a depressão à esquizofrenia, passando pelo autismo e personalidades bipolares ou histriónicas e megalómanas, mas, se em alguns casos, isso possa contribuir para os resultados geniais (tanto pela forma de pensar como pela escolha dos temas), na maioria das vezes os resultados são obtidos apesar da doença e não devido a ela.  

Paul Dirac é um dos físicos mais famosos pelo seu suposto comportamento excêntrico, sendo classificado muitas vezes como autista. Ora, talvez não seja bem assim. Estão bem documentados os famosos silêncios que Dirac atribuía à sua infância difícil, na qual o pai o obrigava a falar francês ou estar calado. Mas está também documentado, nas cartas que escrevia à mulher, como isso o atormentou até à morte do pai. A relação que Pauli tinha com a mulher, Manci, irmã de Eugene Wigner, era conservadora, mas, segundo biógrafos, bastante feliz. As suas cartas pessoais eram bastante formais mas simultaneamente francas e sem as loucuras que se lhe atribuem. Era com certeza uma pessoa sensível, bastante introvertida e com falta de jeito social, mas dificilmente pode ser classificado como louco ou doente.

É engraçado como as anedotas se encaixam às expectativas. É conhecida a edição do “Crime e Castigo” de Dostoievki que Dirac leu, mas muitos comentadores do assunto não a leram, com certeza. A famosa frase sobre o livro “O autor cometeu um erro: num dia pôs o sol a nascer duas vezes” não serve para mostrar o génio de Dirac ou a sua capacidade especial para observar detalhes que mais ninguém vê, mas apenas para mostrar que este leu livro pois esse facto é claramente apontado pela tradutora!

Dado que havia já um mito à sua volta, tudo servia para o aumentar; as suas atitudes são sempre analisadas nessa perspectiva. Por exemplo, uma vez apresentou a mulher como a irmã de Eugene Wigner e isso foi entendido como mais uma bizarria de Dirac, mas talvez não seja; talvez tenha sido um caso de falta de jeito. Também é famosa a resposta ao comentário “Não estou a perceber essa equação” - a qual denota mais um sentido de humor subtil do que autismo - “isso é uma afirmação, não uma questão!”, terá respondido! Na verdade, a equação parece que tinha um erro - Dirac também se enganava - e quem fez o comentário também não se fez entender.

Dirac é bastante franco e empático em entrevistas e palestras que deu sobre a sua formação como físico. Nada disso é sinal de autismo. Refere, por exemplo, que as melhores ideias lhe surgiam quando estava relaxado e a fazer outras coisas. Que a sua formação inicial como engenheiro electrónico foi muito importante para o desenvolvimento das suas novas ferramentas matemáticas, usando a "matemática dos engenheiros". Dirac gostava de caminhadas e de alguns livros e séries de televisão estranhos. Manci afirmava que Dirac era religioso, apesar de todos o acharem ateu. Tinha uma personalidade especial e foi genial.

Schrödinger foi famoso pelo comportamento liberal no que respeita às relações amorosas, mas julgo que não há notícia de que este se tenha envolvido com menores ou Lolitas. As páginas do diário da altura em que descobriu a famosa equação foram arrancadas, mas as mulheres com que se relacionava ao tempo são mais ou menos conhecidas. Provavelmente nunca saberemos com quem ele estava na altura, mas ser adepto do amor livre não o torna doente ou pedófilo. Aliás, Schrödinger é conhecido pelos seus escrúpulos e honestidade em relação à ciência e vida humana. As suas palestras do início dos anos 50 denotam um grande pessimismo e humanismo em relação ao desenvolvimento tecnológico e, ao que considera, a crise das ciências fundamentais. Nunca ficou satisfeito com a sua equação e com a interpretação de Copenhaga, as quais sempre considerou imperfeitas. Numa altura, ao discutir com Bohr na casa deste último, ficou de tal forma transtornado que a febre súbita que teve foi atribuída a essa discussão. No entanto, penso que ninguém aponta Schrödinger como uma personalidade doentia.

Einstein sempre procurou preservar a sua vida privada, julgamos saber agora porquê: não era coisa de que pudesse orgulhar. No entanto, a vida privada de Einstein é agora bastante conhecida pelas muitas cartas que escreveu e recebieu, assim como pelo grande número de depoimentos e biografias conhecidos. Mas não exageremos, não foi uma pessoa essencialmente má em privado. Teve, com as pessoas com que se relacionou e família, momentos de felicidade e de sofrimento. Infelizmente os segundos foram bastantes.

As suas cartas de amor eram muitas vezes ridículas (como as de Pessoa) e a sua vida amorosa e privada foi, muitas vezes, um turbilhão entre a imaturidade e o calculismo e egoísmo infantis, denotando mais falta de jeito do que de sentimentos. Na relação com Mileva passou da paixão louca a extremos inqualificáveis de maldade, mas isso acontece, infelizmente, em muitas relações seguidas de separações. Chorou muito o afastamento dos filhos nos ombros de Fritz Haber, escreveu-lhes muitas cartas, mas depois quase os esqueceu. Não sabia a dia de anos do filho mais velho e nunca visitou o filho que se revelou esquizofrénico e passou quase toda a vida num hospital psiquiático. É talvez relativamente normal que perante o turbilhão da sua vida pessoal, Einstein procurasse cada vez mais a objectividade dos seus trabalhos e os prazeres da exposição pública e da fama. 

Einstein foi, como é bem conhecido, uma criança de desenvolvimento tardio. Mas, embora tivesse mau génio desde a infância, era um aluno brilhante quando se aplicava. Gostava de trabalhos práticos mas não ligava ao protocolos (quantos alunos o fazem!) Gostava de música e tocava muito bem, ao contrário do que por vezes se diz. Não era infalível. Algumas das suas contribuições geniais foram sendo trabalhados e corrigidas ao longo dos anos. A sua persistência, obsessões e independência de pensamento são lendárias. Nada disto faz de Einstein um inadaptado ou psicopata. Foi uma pessoa difícil e multifacetada que era simultaneamente genial. Um dos maiores génios do século XX.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Iluminados - Ano Internacional da Luz na Visão

Cinco textos, de cinco autores, acerca de cinco personalidades históricas e do seu contributo para o conhecimento da luz e para as nossas vidas, publicados na revista Visão desta semana:

ARCO ÍRIS CASEIRO 



Há cerca de 350 anos o inglês Isaac Newton, recém-formado em Cambridge, fez uma das mais famosas e belas experiências de toda a ciência. O melhor é dar-lhe a palavra:

“No início de 1666 (quando me dedicava a polir vidros de formas diferentes da esférica), arranjei um prisma triangular para obter com ele os célebres fenómenos das cores: com este fito escureci o meu quarto e fiz um pequeno buraco na janela, para deixar entrar uma quantidade conveniente de luz solar, coloquei o meu prisma de modo a que a luz refractasse para a parede oposta. De início, foi um divertimento muito agradável ver as cores vivas e intensas assim produzidas; mas depois de as considerar mais seriamente, fiquei surpreso…”

Newton não foi o primeiro a fazer o arco-íris caseiro, mas foi o primeiro a percebê-lo: a luz, segundo ele, era formada por corpúsculos de várias cores em movimento rectilíneo e os raios violetas, por serem mais lentos, eram mais desviados do que os  vermelhos. As cores do arco íris estavam todas na luz branca do Sol, limitando-se o prisma a separá-las.

O que mais me espanta neste discurso directo é o confesso divertimento de um cientista muito circunspecto. Isto é “ciência viva” antes dessa expressão ter surgido em Portugal. Aquele que foi talvez o maior cientista de sempre mostra-nos que, antes da ciência a sério, há lugar para a ciência a brincar.

É fácil imitar Newton, caro leitor: celebre o Ano Internacional da Luz com um arco-íris em sua casa!

Carlos Fiolhais (físico)


O HOMEM DOS "RAIOS NOBEL"


No dia de 8 de Novembro de 1895, o alemão Wilhelm Röntgen ficou a trabalhar até tarde no Instituto de Física da Universidade de Würzburg. Andava à caça dos misteriosos raios catódicos, emitidos quando uma corrente eléctrica passa através de um tubo de vácuo (sabemos hoje que são feixes de electrões). Com o laboratório às escuras viu um brilho verde na placa fluorescente que tinha colocado em frente ao tubo, no local atingido pelos raios. Mas Röntgen notou ainda um outro ponto de luz, inesperado e vários metros afastado, num cartão pintado com tinta fluorescente. Sabia que os raios catódicos nunca poderiam viajar tão longe. Tinha que ser um outro tipo de radiação. Colocou uma carta de jogar no caminho desta estranha radiação e descobriu que esta a passava com facilidade. O mesmo acontecia com um baralho inteiro. Uma placa de chumbo conseguia parar a radiação, mas o mais extraordinário foi ver no ecrã fluorescente os contornos e ossos dos seus dedos que seguravam a placa. Nos dias seguintes obteve várias outras imagens, designadamente dos ossos da mão e anéis da sua mulher, para consternação da própria. Ganhou o primeiro Nobel da Física em 1901 pela descoberta dos raios X, que permitiram depois muitas outras descobertas, como a estrutura do ADN, com a sua famosa dupla hélice, ou do ribossoma, a fábrica de proteínas da célula. Até hoje deram 28 Nobel da física, química e medicina. Em Outubro, haverá mais?

David Marçal (bioquímico)

PERCEBER A LUZ DA VIDA


Quando pensamos na importância da luz para a Biologia, de entre os inúmeros processos biológicos relacionados com a luz, destaca-se o processo que alimenta a Biosfera, a fotossíntese. Nas plantas, algas e algumas bactérias, os cloroplastos capturam a energia da luz que viajou 150 milhões de quilómetros do Sol até à Terra e convertem-na em energia química, que é armazenada sob a forma de açúcar e outras moléculas orgânicas, que são depois utilizadas como nutrientes pelos organismos como nós, incapazes de realizar fotossíntese. Este processo é hoje relativamente bem conhecido, mas continua a ser alvo de enorme investigação.
Foi o botânico alemão Theodor Engelmann que em 1882 descobriu, através de um conjunto de experiências muito elegantes, que a fotossíntese ocorre nos cloroplastos (o organito celular onde se acumula o pigmento verde, a clorofila). Usou um prisma ótico para separar a luz em cores e identificar as mais eficazes para o processo fotossintético. Sabemos hoje que a eficácia da fotossíntese é afetada pela qualidade, intensidade e duração da luz.
A vida é ”powered by” luz, através da fotossíntese, um processo que nem sequer é muito eficiente do ponto de vista energético, mas que suporta a vida na Terra. Recentemente tem sido proposto modificar esta via em plantas de interesse agronómico, tornando-as mais eficientes e consequentemente mais produtivas. Será esse o caminho? Poderá certamente vir a ser um dos caminhos.

José Matos (biólogo)

GALILEU E A LUZ


É provável que o “diálogo” entre Salviati, Sagredo e Simplício sobre a hipótese da luz se propagar instantaneamente ou demorar a chegar de um ponto a outro não tenha passado de uma experiência concetual. Galileu retomou a questão abordada pelos filósofos gregos séculos antes, e propôs uma experiência que acabaria por conduzir a consequência científica notável. É agora evidente que não poderia resultar, dado que o tempo gasto pela luz no percurso entre as duas montanhas seria largamente confundido com o tempo de reacção dos operadores das lanternas e a distância entre eles era demasiado pequena.
Em 1609 Galileu observou quatro luas em volta de Júpiter, descoberta que permitiu a Olaus Roemer em 1676 estimar pela primeira vez a velocidade da luz. Roemer tomou Júpiter como uma das “montanhas” da experiência de Galileu, afastada da outra – a Terra – mais de quinhentos milhões de quilómetros. Registou os momentos dos eclipses de um dos satélites galileanos (Io) e verificou que a entrada e saída na sombra do planeta ocorria em intervalos de tempo que diferiam (mais de dezasseis minutos) consoante a posição relativa a Júpiter. Interpretou tal diferença como o tempo gasto pela luz para percorrer a distância equivalente ao diâmetro da órbita da Terra.
Galileu havia incentivado a natural curiosidade da comunidade científica e ofereceu a Roemer o caminho que levaria à determinação da “constante” e “universal” velocidade da luz.

Máximo Ferreira (astrónomo)

VIRAR A FÍSICA DO AVESSO


Einstein virou a Física do avesso: matéria e energia passaram a ser uma; o espaço e o tempo deixaram de ser separados; a massa encurva o espaço-tempo; e foram revelados mistérios da luz. Usou matemática, mas combinou-a com “experiências de pensamento”, misturas de lógica, intuição e visão unificadora que substituíam o trabalho de laboratório de que, parece, não gostava.
Inventou uma nova forma de fazer física, sem paralelo desde a revolução de Galileu. Na época de Einstein, só as “experiências de pensamento” podiam mostrar que os relógios andam mais devagar para quem corre muito, e que uma bola de futebol em voo pode ser vista como achatada tal como uma bola de raguebi. E isto não são contos infantis, é o nosso mundo. 
A revolução de Einstein foi também sociológica. A ciência deixou de ser vista apenas como útil. Tal como a arte, cativa o sonho, cria emoção, alimenta o mistério. As estrelas, grandes reactores de conversão de massa em energia, são a nossa origem e destino. Os buracos negros, no centro das galáxias, são os maiores devoradores de massa e luz do universo.
A revolução foi também tecnológica. E ainda não acabou. Einstein deu-nos o laser. Serve para comunicações, oftalmologia, indústria, impressoras. Deu-nos células fotoeléctricas, usadas por exemplo nas portas dos elevadores. E até um exame médico (PET) que consiste na aniquilação matéria-anti-matéria: a fórmula E=mc2 em acção. A Física ficou do avesso e a nossa vida também.
Teresa Peña (física)

A Universidade Fora da Lei. Carta aberta a Maria Arménia Carrondo

A historiadora Raquel Varela escreveu uma carta à presidente do Conselho Directivo da FCT,  a propósito do código de conduta recentemente divulgado pela FCT, da qual transcrevemos um excerto:

"Podemos até ensinar a missa ao padre mas temos que conhecer a bíblia melhor que ele e pelo menos não ter roubado as esmolas. O corrupto não dá lições a quem tem as mãos limpas; o criminoso não dá aulas à vítima; para se dar lições de seriedade e ética é preciso tê-la. Aos investigadores não basta parecer, há que ser. A FCT devia ter-se poupado a esta figura ultrajante pois se há instituição em Portugal que não tem qualquer reconhecimento em matéria de ética por parte da comunidade científica, avaliação que nos une a todos, e tem enchido as páginas de jornais deste país e é matéria não só de corredores mas de discursos de abertura de conferências públicas, em todas as universidades, é a FCT".

A carta completa pode ser lida aqui.

Reflexões sobre o "Processo de Bolonha"

Meu artigo de opinião saído hoje no "Público":

“A vida é um pouco mais complexa do que se diz, e também as circunstâncias. Há uma necessidade premente de mostrar essa complexidade”.
Marcel Proust

Num país em que, segundo Eça, “não se lê, folheia-se”, foi lido por mim, com merecida atenção, o recente artigo de opinião,  “Ensino superior - um equívoco chamado Bolonha?”, da autoria de Hélder Castanheira, docente do ensino superior, saído no PÚBLICO (11/08/2015). Esse artigo, até pela interrogação do respectivo título, trouxe, novamente, para a opinião pública  uma questão que bastante tinta fez correr, e fará correr.
    
Porque, como escreveu T.S. Elliot, “o tempo passado e o tempo presente, fazem ambos parte do tempo futuro”, sobre o polémico “Processo de Bolonha” apresento algumas reflexões recorrendo  à minha participação,  em representação do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados, no seminário “Reflexos da Declaração de Bolonha” (Novembro/2004), promovido pelo Conselho Nacional das Profissões Liberais, em representação de nove ordens profissionais: médicos, engenheiros, advogados, médicos veterinários, farmacêuticos, médicos dentistas, arquitectos, biólogos e economistas.

Desde já, relevo dois pecados originais do “Processo de Bolonha”. Residem eles na inobservância de dois princípios aí defendidos: 1) “Adopção de um sistema de graus comparável e legível”  e 2) “uma certificação de qualidade”.
 
Julgo que isto aconteceu pelo nosso jeito em  complicar as coisas simples e no desejo de ser diferente, abastardando, como tal, a língua de Shakespeare pela  tradução forçada para licenciatura da palavra inglesa bachelor .

Desta forma, em vez da adopção do grau de bacharel, deu-se a diminuição do grau de licenciado, para três anos, desvirtuando-se, por completo, a comparabilidade e legibilidade pretendidas num país em que grau de bacharel tem antiga tradição (haja em vista o bacharelato de Eça de Queiroz) tendo sido recuperado, logo após o 25 de Abril, embora em existência efémera de crisálida, no ensino politécnico e mesmo universitário como  aconteceu no curso de Direito. 

Para além disso, ponho sérias reservas que “a adopção de um sistema de graus comparável e legível” não seja seriamente dificultada pela possibilidade dos outros parceiros anglo-saxónicos  se verem em palpos-de-aranha para estabelecer a comparação e a legibilidade entre o seu grau de bachelor e o nosso grau de licenciado. Não poucas vezes, o desejo de ser diferente ou original pode ter o seu quê de caricato!

Depois, o que dizer de uma “certificação de qualidade” em que as antigas licenciaturas universitárias foram tratadas como parentes pobres? Assim como as árvores morrem de pé, ao grau de licenciado, “com o prestígio da Universidade que lhe deu a primeira credencial de título académico nobilitante” (Adriano Moreira), deveria ter sido extinto dando-lhe equivalência imediata ao grau de mestre (master, na terminologia inglesa). Isto sem qualquer favor, apenas  para suavizar a injustiça por ela sofrida  relativamente   aos actuais mestrados politécnicos. Chego a convencer-me, na peugada de George Canning, que neste pedaço de terra lusitana  “há para cada problema uma solução que é fácil, clara e…errada”!

Embora sabendo que “a profecia é algo muito difícil especialmente em relação ao futuro” (Mark Twain), reportando-me  à minha participação no supracitado seminário “Reflexos  da Declaração de Bolonha”, tenho como premonitória, a minha intervenção, no respectivo” Workshop 2”, mesmo antes da aberração das “Novas Oportunidades” ou “Provas de acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos”. Nessa minha participação, tive a oportunidade de chamar a atenção para o facto de uma sólida formação inicial dever ser exigida no acesso aos cursos universitários. Situação levada em linha de conta no preâmbulo das conclusões do referido “workshop” em que se lia: “Torna-se  imperativo referir que este workshop foi pautado por uma excelente intervenção de todos os participantes, quer qualitativa quer quantitativamente”. 

Ipso facto, de um conjunto de seis conclusões surge em segundo lugar, a seguinte: “O Processo de Bolonha deverá repensar todo o ensino e não apenas o ensino superior. Torna-se difícil, se não mesmo impossível, reestruturar cursos de ensino superior quando há manifestamente falhas na formação do aluno que se evidenciam aquando da sua presença no mesmo. Estas falhas funcionam como um entrave à fluidez do ensino superior”.

Poderia ter sido o Processo de Bolonha o escoramento de um ensino superior abrindo brechas por todo o lado, qual edifício em ruina por falta de caboucos sólidos, por, através da Lei de Bases do Sistema Educativo (1986), ter sido atribuída igualdade, para a docência do 2.º ciclo do ensino básico, entre uma licenciatura universitária, unicamente para o ensino da Matemática, e uma outra do ensino politécnico, simultaneamente para a docência de Matemática e Ciências da Natureza.

Em resumo, em Portugal à sombra de princípios pretensamente democráticos parece haver um prazer sádico dos governantes em auscultar os parceiros sociais, mesmo que possuidores de profissões havidas de “interesse publico”, para decidir precisamente o contrário!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

PREVISÕES CRISTALINAS SEM BOLA DE CRISTAL


Informação recebida do Museu da Ciência de Coimbra

 A DEMOGRAFIA E O PAÍS - PREVISÕES CRISTALINAS SEM BOLA DE CRISTAL
 de Eduardo Anselmo Castro, José Manuel Martins, Carlos Jorge Silva

 O futuro que se aborda no livro "A Demografia e o País - previsões cristalinas sem bola de cristal" baseia-se numa análise séria. Esta demografia não é ficção. - A Segurança Social vai colapsar? - Quantos seremos daqui a 30 anos? - O aumento da fecundidade resolve os nossos problemas? Estas questões interessam a todos. E este livro fornece respostas, baseadas numa pesquisa séria e em análise de informação, tendo desenvolvido um modelo para perspetivar o futuro demográfico do país. A utilização de informação fundamentada para tomar decisões é de importância inegável. No entanto, a prática nem sempre corporiza a boa teoria. Em Portugal a oferta de dados demográficos tem sido relativamente escassa. Esta obra vem trazer um novo olhar sobre a análise da demografia no nosso país. De leitura relevante para decisores, analistas e estudiosos da matéria, constitui igualmente uma fonte imprescindível para todos os que querem saber um pouco mais sobre a demografia em Portugal. Mas a análise ultrapassa as suas fronteiras. Quando usamos bem a informação de que dispomos, decidimos melhor. Esta evidência é aplicada com parcimónia pelos decisores portugueses, a todos os níveis da administração pública. E quando a informação em causa é do domínio da demografia, a parcimónia aumenta consideravelmente. Há oferta escassa e ainda mais escassa procura de dados demográficos. O livro "A Demografia e o País - previsões cristalinas sem bola de cristal" visa aumentar a oferta e estimular a procura de informação, para suscitar perguntas e encontrar respostas.

A apresentação do livro vai estar a cargo de Ana Paula Santana (especialista em Geografia Social e Planeamento Urbano Sustentável, Faculdade de Letras da UC), Fernando Rocha de Andrade (especialista em Economia e Finanças Públicas, Faculdade de Direito da UC) e Fernando Seabra Santos (especialista em Oceanografia Física, Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC).

A sessão contará ainda com a presença dos autores Eduardo Anselmo Castro, José Manuel Martins e Carlos Jorge Silva, todos do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro.

Lo
cal: Museu de Ciência da Universidade de Coimbra
Dia: 3 de Setembro. Horário: 17H30
Entrada livre

História prodigiosa de Portugal - vol. II

Informação recebida da Verso da História:



História Prodigiosa de Portugal. Magias & Mistérios


Depois de História Prodigiosa de Portugal. Mitos & Maravilhas, Joaquim Fernandes dá continuidade a uma narrativa de crenças e lendas que, em regra, é desprezada e minimizada pela historiografia comum.
Neste segundo volume, prossegue a fantástica viagem ao imaginário onírico e mítico do Portugal contemporâneo.

Nas livrarias a 9 de setembro.

Timelapse - Portugal Night Skies

LIVRO NEGRO DA AVALIAÇÃO DA CIÊNCIA EM PORTUGAL

A perversão e adulteração do sistema de avaliação científica em Portugal levada a cabo nos últimos quatro anos está agora documentada num "Livro Negro”, disponível em http://www.lnavaliacao.pt/, tendo por base um conjunto dos principais comunicados, cartas, artigos de opinião e crónicas, assim como outros textos publicados na imprensa ou na internet em 2014 e 2015 sobre este tema.

Comente e participe na defesa do desenvolvimento científico para Portugal. Poderá enviar os seus comentários através de http://www.lnavaliacao.pt/.

Esse processo de adulteração, ameaçando a destruição do sistema científico nacional, significou desde logo a ruptura com o amplo compromisso social e político para apoiar o desenvolvimento científico e tecnológico em Portugal conseguido nas últimas décadas. Saliente-se que o processo de adulteração da avaliação científica em Portugal nos últimos anos foi acompanhado de um corte significativo do apoio público à actividade científica. O investimento privado acompanhou essa tendência de forma igualmente abrupta, diminuindo significativamente. Por junto, a despesa total anual em I&D foi reduzida em cerca de 500 milhões de euros entre 2010 e 2013 (IPCTN 2013). Em consequência, aumentou a divergência de Portugal relativamente à Europa, com despesa total anual em I&D a diminuir para 1,34% do produto interno bruto, PIB (enquanto tinha atingido cerca 1,55% do PIB em 2009 e 2010).

Mas este Livro Negro é também um livro de esperança no futuro, para que um sistema de avaliação correcto seja devidamente reposto e para que o sistema de avaliação científica em Portugal dos últimos anos não mais volte a ser posto em causa.

Participe neste debate, pela defesa do Conhecimento como Futuro para Portugal,

Manuel Heitor
Carlos Fiolhais
Alexandre Quintanilha
Maria Fernanda Rollo
João Sentieiro

A TERRA VISTA COMO UM SISTEMA DINÂMICO QUE SE AUTORREGULA

Primeiro texto de uma sequência da autoria do Professor Galopim de Carvalho.

Gaia, a Terra-mãe, deusa da mitologia grega.
Como introdução ao tema a desenvolver em próximos posts, é essencial apreender o conceito de sistema do contexto da termodinâmica. Neste capítulo da física, um sistema é, como o definiu o saudoso colega, Prof. Pinto Peixoto, em 1987, um espaço confinado ou limitado por um invólucro ou parede, real ou conceptual, dispondo de massa, de energia e de um conjunto organizado de elementos ou de atributos dinamicamente interactivos, inserido num determinado ambiente a que se dá também o nome de universo complementar do sistema.

As diferentes partes que eventualmente constituem um sistema constituem subsistemas e, neste caso, o sistema diz-se composto. Quando separados por paredes internas, os subsistemas dizem-se disjuntos. Relativamente à massa e à energia, os sistemas são classificados como:
- isolados, se as suas paredes impedirem trocas com o ambiente, dizendo-se adiabátios e impermeáveis;
- fechados, quando permitem transferência de energia, mas não de massa;
- abertos, quando permitem trocas de energia e de massa com o ambiente. Neste último caso, as respectivas paredes dizem-se permeáveis e diatérmicas.
Não é desejável nem fácil tratar separadamente as diversas entidades ditas esféricas constituintes do planeta que nos deu e assegura a vida. São muitas e complexas as relações entre elas como subsistemas abertos de um sistema dinâmico (neste caso, adjectivado de geodinâmico). São conhecidas as relações da litosfera com o manto, bem explicadas ao nível da tectónica de placas, e, até, com o núcleo, particularmente documentadas num determinado tipo de vulcanismo.

É meu propósito explanar (a um nível de pormenor que não ultrapasse as generalidades) outras relações, nomeadamente as existentes entre as entidades mais periféricas, como são a litosfera, a atmosfera, a hidrosfera e a biosfera.

Como subsistemas do sistema Terra, abertos e contíguos que são, estas esferas promovem e permitem, entre si, um sem número de trocas de energia e de matéria (massa) ao longo das suas vastas e íntimas (interpenetradas) interfaces ou fronteiras. Tais transferências, mantidas ao longo de mais de 4000 milhões de milhões de anos da história do planeta, induziram as evoluções que sofreram. Tais evoluções, em muitos casos próprias do circuito externo do ciclo petrogenético (ou geoquímico), estão arquivadas, como veremos, nas rochas sedimentares.

De todos os planetas do Sistema Solar, incluindo os múltiplos satélites que os acompanham, a Terra é, tanto quanto sabemos, o único que possui uma atmosfera oxigenada, uma hidrosfera líquida e uma biosfera. A sua massa e a posição que ocupa relativamente ao Sol determinaram-lhe a composição e características ambientais que a tornam única no universo do nosso conhecimento.

Bem longe de nós, Ganimede, um dos satélites de Júpiter e a maior lua do Sistema Solar, possui uma crosta de água gelada, só possível nas baixíssimas temperaturas (–150.º a –180.º C) existentes à sua superfície. Neste contexto, o gelo é o mineral da única “rocha” ali existente à superfície, também ela gelo, de uma litosfera de gelo, ou seja, uma hidrosfera gelada, ou criosfera.

(continua)
A. Galopim de Carvalho

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...