domingo, 20 de maio de 2012

Há mais bife para além da alcatra


Novo texto de António Mouzinho sobre a sobrevivência do "eduquês" no Mistério da Educação e Ciência, esclarecendo não apenas os professores mas também para o grande público:

Quem não é professor e abordou o texto «Avaliação: funções e práticas 4 — os riscos (sem limite de palavras) ou 'The Rump Steak Strikes Back'» (19 de Maio), poderá ter ficado perplexo: ao que vem tudo isto?

Na verdade, o respeitável Leitor, civil, merece a seguinte explicação:
Em 2010-11 o ministério da Educação, através do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE), promoveu uma ação de formação de professores classificadores de exames. Pretendeu informar, com profundidade, quanto aos critérios de classificação dos exames nacionais, uma bolsa nacional de professores classificadores, promovendo a uniformização da atuação, e a justiça do processo.
Os professores consideraram o trabalho interessante, e útil. Foi uma tarefa com caráter prático, bem montada, esclarecedora, facilitadora do trabalho de ver e classificar provas de exame.
Anunciava-se uma 2.ª volta este ano, não presencial. Faz todo o sentido, porque permanentes retoques e aperfeiçoamentos nas Informações de Exame divulgadas no site de GAVE a isso obrigam.
O modelo seria o do e-learning, desta vez. Enfim… é mais barato: sim, senhor.
Ora o que nos esperava em 2012?
Uma armadilha!
Em pleno final de ano letivo, com os professores assoberbados de trabalho, uma ementa de festa de aldeia, com não sei quantos pratos.
Eu discrimino as tarefas (agora não se diz assim: agora diz-se elenco; eu evito a expressão porque faz-me dores nas costas, como quando alanco):
1.    Introdução
2.    Funções da avaliação
3.    O erro na aprendizagem (discussão do risco para professores e alunos da não definição e da não partilha de citérios de avaliação)
4.    Critérios de avaliação
5.    Práticas de avaliação formativa
Intervenção do professor:
Planificação da avaliação
Feedback oral e escrito
Intervenção do aluno:
Coavaliação
Autoavaliação
6.    Classificação de respostas a itens de exame
7.    Avaliação e encerramento da ação
Ora, deste banquete, o que dizer? Várias coisas:
1.º—                      que todos estes assuntos merecem a atenção de professores, são pertinentes, são controversos, merecem reflexão;
2.º—                      que nenhum destes assuntos tem algo, diretamente, a ver com a próxima classificação dos exames nacionais;
3.º—                      que os professores classificadores que aceitaram fazer parte da bolsa nacional o fizeram por puro sentido de serviço público, tendo admitido que não teriam, por isso, qualquer remuneração adicional (ao contrário do que aconteceu num passado mais recente, e noutros menos recentes);
4.º—                      que a altura, em finais de maio, não é — de todo — para estar a limpar este tipo de espingardas: está tudo fulo nas escolas com a intromissão, à beira do final do ano letivo, de generalidades que, apresentadas com outro caráter — que não a obrigatoriedade do quadro de uma ação de formação — levariam a um coro de «não, muito obrigado», «não pode ser», «tenha paciência», ou «volte noutro dia» (melhor dizendo: ano);
5.º—                      que a forma como os pratos são apresentados é digna do mais velho eduquês: construtivismo puro e duro, mal disfarçado aqui e acolá com uns bigodes da R. João das Regras e um chapéu de palha; textozinhos de apoio à Estado Novo de mistura com o eminente Piaget, ensopado nas águas do oceano Atlântico, num texto importado do Brasil; o palavreado meio confuso do costume, arrogante e sem contraditório (contraditório que até poderia ser em Francês, se quisessem: bastaria trocar o suíço Piaget pelo cientista Stanislas Dehaene, com imensa vantagem); as «ciências» da educação sem a neurociência ou a ciência cognitiva; enfim: o paleio de sanzala de gente que sabe muito mais do que aquilo que percebe, fala para o comum dos mortais de cima para baixo, e não admite grandes discussões sem partir a loiça toda, sem anatemizar: que não avalia, na prática, o outro, como diz, em teoria, que ele deve ser avaliado;
6.º—                      que os professores estão a aturar todo este fartote para chegarem à tarefa do ponto 6., a classificação de respostas a itens de exame: é para isso que lá estão, e o resto faz-se em apneia, não vá a carreira ser prejudicada por qualquer coisinha (lamente-se, e entenda-se…);
7.º—                      que a tarefa 5, que remete para 14 de setembro, pressupõe duas coisas, como consta daquele rol que pode ser visto acima: deve ter 1000 a 1500 palavras (o presente texto já conta 690 palavras, e apenas espirrei de alergia!), e deve ser sustentada por uma extensa bibliografia (ahrrrgh!) apresentada no início da ação.
Note-se que tarefas anteriores tinham apresentações bem mais caricatas: pedia-se, na tarefa 2, um comentário (!) de 150 a 200 palavras; na tarefa 3, um texto até 400 palavras. Afinal, o banquete de aldeia anunciado era uma sandes no parque de campismo. Os professores ficaram apoquentados com a exiguidade do espaço? Nã, senhores: ficaram contentes: perceberam que praticamente não teriam de meditar em coisa nenhuma; estavam a ser importunados, mas o caso, em termos de relatórios, não era sombrio, porque os próprios formadores, ao fazerem este tipo de guiões, não estavam a levar nada disto a sério. A reflexão não era para refletir, era para ser despachada!
Quando for grande já não quero ser quero ser arquiteto: quero ser construtivista. Não preciso de falar de modo a que me entendam, e resisto a toda e qualquer tentativa de contestação.
O professor Nuno Crato que se cuide: os ministérios sombra andam aí: They Live!
Respeito, méne!
António Mouzinho

Palestra: A Física Nuclear e o Tratamento de Tumores


LÉON PAUL CHOFFAT (1849-1919)

Texto de A.M. Galopim de Carvalho que o De Rerum Natura muito agradece.

GEÓLOGO suíço radicado em Portugal a partir do ano de 1878, na Secção dos Trabalhos Geológicos de Portugal, veneranda instituição que, ao sabor das modas passou por várias designações oficiais, entre as quais, Serviços Geológicos de Portugal, Instituto Geológico e Mineiro e, actualmente, Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia.

Cursou Química e Ciências Naturais na Universidade e na Escola Politécnica Federal de Zurique onde, concluído o curso, foi nomeado professor agregado de Paleontologia Animal. As excursões geológicas que então realizou tiveram lugar, sobretudo, no Jura francês e esse facto habilitou-o com um valioso capital científico que, mais tarde, utilizou no estudo dos terrenos jurássicos de Portugal. Durante o Congresso Internacional de Geologia de Paris, em 1878, foi convidado por Carlos Ribeiro, então director da referida Secção dos Trabalhos Geológicos, a deslocar-se a Portugal a fim de, em especial, estudar a estratigrafia e a paleontologia dos terrenos jurássicos.

Aceite o convite, Choffat chegou a Lisboa em 1878 e aí encontrou, como colega da Instituição, outro grande geólogo, Joaquim Filipe Nery Delgado, que lhe proporcionou todas as condições necessárias ao desempenho do trabalho projectado, já iniciado por Carlos Ribeiro. Em 1883, por morte de Carlos Ribeiro, o novo director, Nery Delgado, encarregou-o do estudo de todos os terrenos mesozóicos de Portugal. Durante quatro décadas ofereceu à geologia portuguesa, então a dar os primeiros passos, o melhor do esforço e saber, que foi muito.

Como homem de ciência e como cidadão tornou-se um dos vultos mais assinalados no Portugal de finais do século XIX e inícios do século XX. A sua actividade científica está expressa em múltiplas memórias e comunicações publicadas pela respectiva instituição e em jornais e revistas da especialidade, nacionais e estrangeiros. Entre eles avultam quatro volumosas memórias: "Étude stratigraphique et paléontologique des terrains jurassiques du Portugal - Le Lias et te Dogger au Nord du Tage" (1880), "Recueil de Monographies stratigraphiques sur le système crétacique du Portugal - 1er. étude - Contrées de Cintra, de Bellas et de Lisbonne" (1885), "Récueil de Monographies Stratigraphiques sur le système Crétacique – 2ème. étude - Le Crétacique au Nord du Tage" (1890) e "Essai sur la Tectonique de la Chaîne de l'Arrabida" (1908), além de outros de menor desenvolvimento sobre estas temáticas, com destaque para o levantamento da Carta Tectónica de Portugal e um interessante estudo sobre as estruturas geológicas a que chamou vales tifónicos.

No conjunto dos seus trabalhos, Choffat estabeleceu a seriação estratigráfica dos terrenos mesozóicos do território português, descreveu a litologia e a fauna fóssil das diferentes assentadas e identificou as respectivas fácies. Propôs a criação do andar Lusitaniano para o conjunto estratigráfico Oxfordiano superior – Kimeridjiano, temporariamente aceite pelos seus pares. Definiu o andar que designou por Belasiano (termo entretanto caído em desuso), representado na região de Belas, nos arredores de Lisboa. Este andar de valor local constituído por margas e calcários com uma série siliciclástica na base, correspondente a parte do Cenomaniano. Deve-se-lhe ainda a separação entre o Trias e o Infralias.

O seu prestígio dentro e fora de Portugal foi muito o que levou alguns dos seus pares a homenageá-lo na nomenclatura paleontológica, com designações como Choffatella, um género de foraminífero, Choffatia, um género de amonite, Perisphinctes cf choffati, uma espécie de amonite, Callavia choffati, uma espécie de trilobire, entre outras.

                                                                   Perisphinctes cf choffati

No sector da geologia aplicada, são dignos de referência o seu “Étude Geologique du Tunnel du Rocio” (1989) e vários estudos de hidrogeologia visando abastecimento de água a Lisboa, Guarda, Guimarães e outras localidades do país, e estudos sobre as águas minerais dos terrenos mesozóicos, registados como alguns dos melhores trabalhos neste domínio.

A cartografia geológica mereceu-lhe particular atenção. Assim, de colaboração com Nery Delgado, procedeu à actualização da Carta Geológica de Portugal, na escala de 1/500 000, publicada em 1899, em substituição da que fora publicada por Carlos Ribeiro e Nery Delgado, em 1876. Deve-se-lhe, ainda, a realização dos trabalhos de campo que levaram à produção de várias cartas geológicas regionais, em escalas de maior pormenor, como as das regiões de Lisboa, Cascais Sintra, Loures, Leiria, Arrábida, Buarcos-Verride e Montejunto.

Doutor honoris causa, em 1892, pela Universidade de Zurique, Paul Choffat foi condecorado, em 1892, com o grau de Comendador da Ordem de Isabel a Católica e, em 1896, com o grau de Comendador da Ordem de S. Thiago. Em 1900, a Sociedade Geológica de França concedeu-lhe, e pela primeira vez a um estrangeiro, uma das suas maiores recompensas, o prémio Viquesnel.

Pelo seu trabalho, Paul Choffat foi feito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, da Real Academia das Ciências de Madrid, da Sociedade Geológica de Londres e da Real Academia das Ciências e Artes de Barcelona, sócio honorário da Sociedade Belga de Geologia, Paleontologia e Hidrologia, e sócio do Instituto de Coimbra, da Academia das Ciências e Belas Artes de Besançon, da Real Sociedade Espanhola de Ciências Naturais de Madrid, da Sociedade de História Natural de Basileia, da Sociedade de Geografia de Genebra, da Sociedade de História Natural de Toulouse, da Associaçâo dos Engenheiros Civis Portugueses, da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, da Sociedade Jurássica de Porrentruy (Suíça), da Sociedade de Física e Historia Natural de Genebra, da Sociedade Helvética de Ciências Naturais, da Sociedade de Química e História Natural de Zurique, da Sociedade Russa de Mineralogia e da Sociedade de Ciências Naturais de Lauzane.

A.M. Galopim de Carvalho

sábado, 19 de maio de 2012

19 de Maio: Dia do Físico


O papel da comunicação não verbal


No calor da cidade…



Um artigo publicado pela revista Tree Physiology revela que as árvores jovens crescem mais rapidamente no interior de cidades do que fora delas, uma consequência do factor ilha de calor urbano. Segundo este estudo as árvores plantadas em parques citadinos podem crescer até oito vezes mais rápido do que as árvores plantadas em parques florestais longe de cidades. Em cima uma fotografia de Nova Iorque vista do Central Park, o local citadino escolhido para o estudo publicado pela Tree Physiology (Crédito: Fritz Geller-Grimm).

O efeito ilha de calor urbano ocorre em todas as grandes cidades e outros centros urbanos. É provocado pelas cores escuras das estradas, outros pavimentos e coberturas de prédios, que absorvem a energia solar e irradiam calor. O calor irradiado por estas superfícies escuras faz aumentar a temperatura média das cidades alguns graus celsius em relação aos campos em redor. Na cidade de Lisboa, por exemplo, a temperatura média pode estar mais de 4.º C acima da temperatura das zonas não urbanas mais próximas.

Os autores do estudo decidiram avaliar de que forma o efeito de ilha de calor urbano de Nova Iorque afecta o crescimento do carvalho-americano (Quercus rubra), uma espécie comum em parques desta cidade. O nome latino desta árvore, Quercus rubra, que significa carvalho vermelho em latim, deve-se ao facto de no Outono as folhas tomarem uma cor vermelha. Para isso plantaram árvores de carvalho-americano em quatro zonas diferentes do estado de Nova Iorque: no Central Park (o maior parque de Nova Iorque), em duas zonas florestais da zona suburbana do vale do rio Hudson (rio que desagua em Nova Iorque) e no reservatório de Ashokan, situado a cerca de 160 km norte de Nova Iorque. Também foram criadas árvores em laboratório, imitando as condições de cada um dos locais escolhidos.

Após menos de um ano de crescimento, as árvores apresentavam grandes diferenças entre si. As árvores plantadas na cidade apresentavam oito vezes mais biomassa (massa total da árvore) do que as árvores plantadas fora da cidade. Para além disso as árvores da cidade detinham até dez vezes mais capacidade para realizar fotossíntese (processo que permite às plantas produzir oxigénio e glicose a partir de dióxido de carbono, sob acção da luz) porque tinham bastantes mais folhas do que as outras.

A análise das árvores que cresceram em laboratório permitiu confirmar que o factor mais importante para a diferença de crescimento das árvores foi a temperatura. As árvores que cresceram num ambiente com maior temperatura tinham mais biomassa e maior número de folhas.

Pela análise das árvores que cresceram em laboratório, os investigadores descobriram ainda outro factor importante para o maior crescimento das árvores citadinas, embora não tanto como a temperatura. E por incrível que pareça esse factor é a poluição do ar! Sob o efeito da luz solar e das temperaturas mais elevadas da cidade os gases e poeiras libertados pela queima de combustíveis feita por carros (e não só!) reagem entre si, levando à formação de “espécies de azoto” que funcionam como fertilizante das árvores citadinas.

Nova Iorque tem cerca de 5,2 milhões de árvores, das quais 25 000 só no Central Park. Os resultados apresentados por este estudo auguram um bom futuro para as árvores de Nova Iorque e para as árvores de todas as cidades do Mundo, o que são boas notícias numa altura em que o número e o tamanho das cidades no Mundo estão a aumentar.


Margarida Milheiro

Nota: Texto adaptado do original, que pode ser encontrado no blog “Ema não é uma avestruz”, escrito sob o pseudónimo de Rita Robalo Sobreiro.

Avaliação: funções e práticas 4 — os riscos (sem limite de palavras) ou "The Rump Steak Strikes Back"

Novo texto do professor António Mouzinho:


É sempre uma boa surpresa passar ao texto «de apoio» seguinte: tal como um programa de televisão que é seguido, religiosamente, por ódio de estimação, assim se abre, a salivar, de olhos fixos, injetados de sangue, e um rosnar cavo — o texto de apoio desconhecido…
Nunca os autores desta forma curiosa de entretenimento que é «Avaliação: funções e práticas» nos deixam desapontados. Vejamos o novo textozinho, intitulado «Explicitação de Critérios — exigência fundamental de uma avaliação ao serviçoda aprendizagem»:
É redigido por dois senhores que não conheço: João Barbosa e Vítor Alaiz, sob coordenação de outro meu desconhecido: Carlos Cardoso. Bem. Como sou gente ignorante, isto não é crítica. É facto.
Avaliação ao serviço da aprendizagem? Muito bem, também.
O conteúdo, agora… e a revelação! Como em casos anteriores, os professores — que nós somos — são tratados como imbecis sem leituras, nem experiência. Bom: começo a perceber que é uma tipologia de abordagem (um paradigma, como diriam alguns que apanharam a Semiologia em 3.ª ou 8.ª geração). Visa, possivelmente, um amasso prévio, no sentido de tornar a matéria mais permeável aos bons fluidos. Como aqueles bifes que levam umas marretadas antes de passar à frigideira.
Depois, começa o discurso peculiar do costume. Cito:
A avaliação escolar tem sido dominada pelo ideal da medição objectiva. Nesta perspectiva pressupõe-se que é possível quantificar com rigor as aprendizagens realizadas. Para tal basta, utilizando rigorosos instrumentos de medida, comparar, no final de um período de aprendizagem, mais ou menos longo, os produtos obtidos pelos alunos (em geral resultados de provas ou de testes de papel e lápis) com os objectivos previamente definidos.
Assim entendida, a avaliação realiza-se apenas em determinados momentos de balanço, é pontual e acaba por constituir um interregno nas actividades de ensino-aprendizagem sem nelas se integrar.
Mas esta perspectiva tem vindo a ser posta em causa, fundamentalmente a partir de duas objecções:
- a de que se preocupa mais com a hierarquização e selecção dos alunos do que com o que eles efectivamente aprendem;
- a de não permitir uma intervenção sistemática no sentido de melhorar as aprendizagens enquanto elas ocorrem (ou não ocorrem).
Tais objecções podem resumir-se numa só: quando orientada pelo paradigma da medida, a avaliação não está ao serviço da aprendizagem.
Pim!, diria o Almada.
Como é de calcular, o discurso segue no mesmo tom, digno de metodólogo de sobrolho franzido para estagiário desmazelado.
Pensei eu (que, sublinho, sou de facto gente ignorante): então e estes senhores, que escreveram isto em 1994, não terão mudado de ideias? Não terão aprendido mais nada? E jogando com Leonor Santos (another playersame paradigm, como diria o poeta da moda), será o Hadji 92 muito melhor, ou pior, que o Hadji 97? E o novo Barca-Velha 2004, virá como?
Será que ninguém que usou estes textos com alguns anitos (penso, porque o de Leonor Santos não vem datado, apenas se tropeçando num Jorro 2000 que nos deixa reverentes) se deu ao trabalho de rever velhos conceitos?
Será que ninguém refrescou ideias sobre Promoção da Aprendizagem Através dos Testes? Será que ninguém ouviu falar de Instrução Direta versus Aprendizagem por Descoberta? Será que alguém se dá ao trabalho de olhar para o lado? Será que alguém com este tipo de atitude está em posição de amassar bifes?
Não quero irritar pessoas com listagens bibliográficas fastidiosas: cito duas pequenas mas sumarentas publicações, e quem quiser que mergulhe nas extensas bibliografias que aí surgem: são algo como resumos de duas conferências da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), de 2011: Em causa: aprender a aprender — Porto: Porto Editora, 2011; O valor do ensino experimental — Porto: Porto Editora, 2011. Interessantíssimas comunicações, entretanto, as de Paula Carneiro, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e David Klahr, da Universidade de Carnegie Mellon, cujos temas citei no parágrafo anterior: têm aplicação muito direta a todas as observações precedentes.
Será que os bifes ficam quietos e não ripostam? Ou se fosse filme, seria "The Rumpsteak Strikes Back"?
António Mouzinho
P.S.: Colegas — é verdade, o tema da partilha: eu partilho tudo. E vou de fim de semana…

Depoimento de um Aluno da ex-Escola Industrial e Comercial da Figueira da Foz


Na imagem: fachada da antiga Escola Industrial e Comercial da Figueira da Foz, actual Escola Secundária Dr. Bernardino Machado.

“Há diplomas universitários para procuradores, diplomas para músicos, diplomas para pintores, diplomas para técnicos de máquinas, diplomas para guarda-livros, diplomas para toda a gente que não é nenhuma destas coisas, diplomas que dão o direito a usar uma palavrinha antes do nome, embora não obriguem a saber fazer coisa alguma” (António José Saraiva, 1917-1993).

A temática por mim abordada neste blogue, “Cursos Técnicos X Bobagens Académicas” (15/05/2012), merece ser enriquecida com a carta de um leitor ao “Diário de Coimbra”, em apoio a  um meu artigo de opinião também aí publicado, intitulado  “A morte do ensino técnico“ (14/01/2007).  Por essa carta, “SOS para o ensino escolar” (18/01/2007), assinada por António Brandão Faria, da Figueira da Foz, ser credora, igualmente,  de um agradecimento, ainda que tardio, aqui  a transcrevo:

 “Há dias passou-me pelos olhos um artigo no ‘Diário de Coimbra’ e vejo-me na obrigação de dizer ao seu autor: Obrigado pela clarividência do artigo e que os responsáveis pelo ensino deste país aproveitem e dele tirem ilações.

É que eu passei pela Antiga Escola Comercial e Industrial da Figueira da Foz nos anos de 39 a 1942 e sinto dentro de mim a realidade desse precioso artigo. Custa dizer certas verdades, mas elas têm que ser ditas, doa a quem doer.

Foi uma das muitas asneiras do 25 de Abril acabarem com o verdadeiro ensino praticado nas Escolas Comerciais e Industriais [em acto de justiça e ressalva minha, a extinção do antigo ensino técnico deu-se anteriormente a 25 de Abril,  durante o consulado de Veiga Simão à frente do então Ministério da Educação], pois, verdadeiramente, saíram de lá electricistas, carpinteiros, pintores de arte, serralheiros, pintores para a construção civil, técnicos competentes para no futuro estarem à frente de escritórios de pequenas e grandes empresas, acabando até em Mestres e Professores.

Agora o ensino é outro, só se fazem engenheiros, doutores, administradores, consultores, gestores, etc., para, ao fim e ao cabo, alguns nem categoria e competência terem para os lugares que ocupam (mas também há algumas excepções). Pena é que, ao passarem-lhe o papel para exercerem essas responsabilidades, não haja a coragem de verem se há ou não competência para ocuparem certos lugares. Estas são algumas verdades que custam a engolir e são razões para se compreender a razão do nosso país estar, como está, último na Europa e quase no mundo.

(…) Olhem, afinal, procurei e vi que o artigo é do dia 14/01/07, Domingo, valendo a pena ler e meditar no mesmo. Mais uma vez obrigado e parabéns ao seu autor”.

Esta carta prova que o Portugal do nosso tempo ainda se não libertou de uma situação que António José Saraiva  - segundo José Mattoso,  “um dos espíritos mais brilhantes da cultura portuguesa contemporânea” – teve como “A Diplomocracia”, em título de artigo de opinião (“Diário de Notícias”, 31/08/1979).  Com grande pesar meu e prejuízo para os leitores, lamento não ser esta peça literária transcrita na íntegra, devido à sua extensão, dela extraindo, portanto, alguns  nacos de uma suculenta crítica social. Assim:

“Portugal vive há séculos na superstição da palavra ‘doutor’. Já desde os fins da Idade Média o título de licenciado dava direito a carta de nobreza, e com a decadência dos títulos nobiliárquicos valorizou-se o diploma universitário. As famílias remediadas por essas aldeias sacrificavam-se para ter um filho ‘doutor’, mesmo que não fizesse nada senão viver dos rendimentos. Os ‘doutores’ no Parlamento e na administração eram os agentes da burguesia rural, camada dirigente do País.

Criou-se desta maneira uma hierarquização do País entre ‘doutores’ e não ‘doutores’, entre os portugueses com voz activa e os portugueses com voz passiva. E pela tendência geral das sociedades democráticas os da segunda categoria passaram a querer pertencer à primeira. Não para ter mais conhecimento ou para serem mais esclarecidos mas para não serem menos do que os outros, Não é a igualdade da cultura que se busca, mas a igualdade de estatuto, através da posse do diploma.

(…) Todo o indivíduo, desde que tenha a qualificação oficial competente, pode passar um diploma. É só rabiscar e estampar um selo branco. Criem-se institutos universitários compostos por um chefe, um oficial de secretaria e um contínuo. Em rigor todos os administradores de concelho, e até mesmo todos os regedores de freguesia, estão habilitados a passar títulos de doutor, visto que se trata de uma questão de estatuto social e não de estudos
.
(…) É um facto que o diploma é uma instituição que fundamentalmente serve para dividir os portugueses em cidadãos de primeira e cidadãos de segunda. Quanto à outra função de preparar para certos cargos, essa é apenas um pretexto. Com um pouco de orientação familiar, protecção do clã e ausência de personalidade, todo o indivíduo sem aptidões específicas chega a possuir um diploma. De onde resulta que o exercício de qualquer actividade não supõe qualquer aptidão específica, mas a posse de um papel administrativo que se obtém com um certo ritual. Do ponto de vista do antropólogo, o processo de obtenção do diploma é o rito de iniciação das sociedades modernas, mas esse rito é o que menos qualidades exige. Apagamento, passividade, falta de curiosidade viva, conformismo e por vezes um certo oportunismo são as qualidades que asseguram o sucesso académico”.
Sem pretender forçar a nota, encontram-se aqui bem retratadas as actuais “Novas Oportunidades” por mim crismadas, em artigos de jornais e posts neste blogue, de “Novos Oportunismos”. Acontece que, em contrapartida digna do maior louvor, esforçados autodidactas (não aqueles definidos, pelo escritor e poeta brasileiro Mário Quintana, como ignorantes por conta própria), vultos enormes da cultura portuguesa, como os historiadores  Alexandre Herculano e Oliveira Martins e o distinto linguista Francisco Adolfo Coelho, não eram portadores  de diplomas de estudos superiores. De entre os romancistas de renome, enuncio os nomes de Ferreira de Castro, o festejado autor de “A Selva”, apenas tendo com habilitação a 4.ª classe do ensino primário,  e José Saramago,  diplomado com o  antigo curso industrial,  o que os não impediu da lei da morte se libertarem, em paráfrase de “Os Lusíadas”.

 Mas voltando a António José Saraiva, o seu texto foi profético, embora Mark Twain nos tenha dito que “a profecia é algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro”, para com o que hoje se passa em  alguns cursos universitários privados que vendem   diplomas de licenciatura com a intenção de atribuir  um estatuto social que, por vezes, e por si só, os elevados  cargos políticos não garantem sem este “brasão” de intelectual,  ostentado por quem o merece  e quem não o merece, e atribuido a quem o não é, mas que convém que seja ainda que o não seja!  Desta forma, criaram-se   universidades  privadas  a granel que são um verdadeiro escândalo pela ausência de qualidade e idoneidade (por o vistoso rótulo não corresponder, nem de perto, nem de longe, por exemplo, aos antigos cursos de nível médio dos Institutos Industriais e Comerciais). Escândalo que salta para a opinião publica,por vezes,  por os poderes políticos não poderem ignorar  essas  “licenciaturas” que continuam a constar de currículos ocultados do conhecimento público por políticos nacionais que, de um dia para o outro, aparecem licenciados por instituições superiores (?) portuguesas ou estrangeiras, como escreveu alguém, de vão de escada.  

Ipso facto, não me canso de enaltecer, ainda que de forma que não presta verdadeira justiça, o ensino ministrado nas antigas escolas industriais e comerciais portuguesas que, para além de um necessário suporte teórico, “ensinava os alunos a fazer”. Durante os vários anos que a memória me consente, fui testemunha de um eficiente ensino industrial, em que iniciei a minha docência em Lourenço Marques,  tendo-o de muita saudade, depois de ter vindo para Portugal, após a Independência de Moçambique,  em docência quer no então ensino liceal de Coimbra, quer na Universidade do Porto e na Universidade de Coimbra.

Querer fazer cair no esquecimento ou, pior do que isso, comparar o antigo ensino técnico teórico-prático, realizado em escolas próprias, com o actual ensino técnico livresco, realizado em escolas do ensino secundário (sem oficinas devidamente apetrechadas que o suportem), é campanha que repudio. Aliás como o próprio Pais a deve repudiar numa altura em que Portugal se encontra privado de mão-de-obra devidamente credenciada em “know-how” para um necessário desenvolvimento social e económico das suas fronteiras.

Por outro lado, a saída hoje para o estrangeiro da sua juventude com maior escolaridade, por não encontrar emprego no próprio país, não pode ser encarada com optimismo quando em tempos anteriores a 25 de Abril era tida como solução reprovável por parte da política de emigração do Estado Novo. Como escreveu Eça, de minha visitação constante, “em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre”.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Seja Bendita a Matemática! Veja um exemplo.


A arte de escrever bem


Comunicação é transmitir ideias


TRETAS ESTAMINAIS

A crioestaminal, uma empresa que se dedica à recolha e preservação de células do sangue do cordão umbilical, iniciou recentemente uma campanha de publicidade bastante reprovável:



Há utilidade reconhecida na preservação das células do sangue do cordão umbilical em bancos públicos, em que as células podem ser transplantadas para qualquer pessoa que delas necessite (não apenas o dador ou os seus familiares). Ao contrário da ideia que se pretende fazer passar no anúncio, e de um modo eticamente abjecto, a preservação de células do sangue do cordão umbilical para uso próprio é altamente controverso, com uma utilidade muito, mas mesmo muito, questionável. Em grande medida, é um exercício de pura futurologia médica, mais próximo da ficção científica do que da ciência.

É muito difícil estimar a probabilidade de uma criança necessitar das células do sangue do seu próprio cordão umbilical. Isto, porque muitas das potenciais aplicações ainda não existem. Mas é muito baixa. Qualquer coisa entre uma hipótese em 1000 e uma hipótese em 200000.

As recomendações da Academia Americana de Pediatria acerca deste assunto são estas:

1. As doações do sangue do cordão umbilical devem ser desencorajadas sempre que o sangue do cordão umbilical seja guardado exclusivamente para uso pessoal. Isto, porque muitas condições clínicas que poderiam ser tratadas com sangue do cordão umbilical já existem no sangue da criança. Os médicos devem estar conscientes de que os bancos de sangue do cordão umbilical privados fazem alegações não fundamentadas aos futuros pais, prometendo uma espécie de seguro para as crianças contra doenças graves no futuro.

2. Não sendo um procedimento habitual, a recolha de sangue do cordão umbilical para uso próprio, deve ser encorajada apenas quando se tem conhecimento da existência de um membro da família com uma condição clínica que possa potencialmente beneficiar com um transplante do sangue do cordão umbilical.

3. A doação de sangue do cordão umbilical deve ser encorajada quando se destinar a um banco para uso público.

4. Como não há dados científicos suficientes para justificar a preservação de sangue do cordão umbilical para auto-transplantes e é difícil fazer uma estimativa da necessidade desses transplantes, e tendo em conta  possibilidade do transplante a partir de dadores não familiares, a preservação privada do sangue do cordão  como um "seguro biológico" deve ser desencorajada.

Em Portugal, o que faz sentido é doar o sangue do cordão ao Lusocord, o banco público de células de sangue do cordão umbilical. É (relativamente) fácil, é barato (grátis) e pode ajudar milhões.

Infelizmente, o Lusocord está com dificuldades financeiras, o que é absurdo. Esperemos que os problemas sejam ultrapassados e que haja uma aposta do governo em manter e expandir esse serviço público. De qualquer forma, a eventual falta de capacidade do Lusocord não valida a Crioestaminal como alternativa. Quando uma coisa que serve para alguma coisa não está a funcionar, de nada adianta substituí-la por outra que não serve para nada.

Um nota final: o artigo científico citado no anúncio refere-se à probabilidade de transplantes de células estaminais hematopoéticas (presentes no sangue do cordão) ao longo da vida, mas de qualquer origem. Ou seja: não apenas as do sangue cordão umbilical para auto-transplante, mas também transplantes de terceiros, nomeadamente da medula óssea (que podem ser recolhidas ao longo da vida). Usar estes números para sustentar a possível necessidade de auto-transplante, como se isso fosse a única possibilidade, é pura e simplemente intelectualmente desonesto.


Para além disso, e segundo o estudo citado, a probabilidade de necessitar de um transplante de células estaminais hematopoéticas aumenta com a idade, sendo especialmente significativa depois dos 40. O anúncio, já que se baseia neste estudo, deveria ser protagonizado por um quarentão barrigudo e calvo.

Na abertura do Museu do Quartzo...

Palavras ditas pelo Professor Galopim de Carvalho na abertura do Museu do Quartzo.

Nos arredores da bela cidade de Viseu, mais propriamente na freguesia do Campo, o Monte de Santa Luzia eleva-se cento e poucos metros acima da superfície planáltica que o rodeia. A geomorfologia ensina-nos que este elemento da paisagem é fruto da existência de um possante filão de quartzo, com várias dezenas de metros de espessura, observável na pedreira ali abandonada há um quarto de século. Trata-se, pois, de um relevo residual suportado pela maior dureza do quartzo e pela sua maior resistência à meteorização, relativamente ao granito que atravessa.

A valorização deste sítio como um local valorizar e preservar, decorre não só da grandiosidade e espectacularidade da dita pedreira, como também da grande importância mineralógica e geológica do quartzo, do seu elevado número de variedades e da invulgar diversidade das suas aplicações como matéria-prima, nas mais variadas indústrias e tecnologias.

A exploração do quartzo neste local, entre 1961 e 1986, pela “Companhia Portuguesa de Fornos Eléctricos”, de Canas de Senhorim, teve como resultado um enorme rasgão na paisagem, então considerado um elemento altamente negativo em termos de impacto ambiental. Desta actividade extractiva ficou, como é costume entre nós, um escarpado rochoso que contrasta com a densa arborização envolvente e uma imensa cratera cheia de água estagnada, aspectos que se mantiveram desde que ali terminou a lavra, sem que o agente económico tivesse procedido a quaisquer trabalhos de requalificação.

A meados dos anos 90 do século passado e a solicitação do Dr. Américo Nunes vereador da cultura, concebi e propus à Autarquia, em nome do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, um projecto de musealização desta ocorrência como local de interesse geológico e mineralógico a recuperar, conservar e valorizar como geomonumento ou geossítio.

À semelhança de uma “janela aberta” para o interior da crosta, este rasgão na paisagem permite observar diversas e interessantes particularidades geológicas e mineralógicas deste tipo de acidente geológico. Na óptica da preservação e valorização do nosso património natural, o referido escarpado tem o mérito de chamar a atenção para um dos mais volumosos e possantes filões de quartzo leitoso, de entre os muitos que atravessam o substrato do território nacional, como exemplo de importante actividade hidrotermal residual, afectando granitos do final da era paleozóica, com cerca de 280 milhões de anos.

Associado a esta ocorrência propus, então, a criação de um pequeno museu inteiramente dedicado ao quartzo, algo de inédito na museografia mundial. Ao abraçar esta proposta de musealização, a autarquia visou recuperar o que resta de uma exploração caótica abandonada, aceitando este sítio como um pólo científico e pedagógico da Universidade de Lisboa (protocolo assinado entre o Museu Nacional de História Natural e a Câmara Municipal de Viseu, em 14 de Outubro de1997), com grandes potencialidades culturais e, também, naturalmente, turísticas.

O conjunto do Monte de Santa Luzia, cujo projecto de arquitectura, da autoria do Arquitecto Mário Moutinho, foi galardoado, em 1997, com o Prémio Nacional do Ambiente (Autarquias). Inclui a pedreira e o seu escarpado devidamente valorizado, dispõe de um percurso pedonal a ser criteriosamente apoiado em painéis explicativos e completa-se com o Museu do Quartzo.

A minha aposentação como director do Museu Nacional de História Natural, em 2003, levou à nomeação, para o mesmo cargo, do Prof. Doutor Fernando Barriga, da Faculdade de Ciências de Lisboa. Este projecto, foi por ele aceite de imediato, tendo beneficiado da modernidade do seu saber como professor catedrático de mineralogia, interessado na actual museologia desta área científica e profundo conhecedor das novas tecnologias expositivas, experimentais e interactivas aplicadas a esta vertente pedagógica.

Nos últimos anos foi nossa interlocutora, nas múltiplas tarefas e contactos relacionados com a concretização da obra, a Engª Susana Andrade a quem é devida uma palavra de louvor pelo trabalho que realizou A concretização em termos museográficos dos equipamentos e materiais em exposição esteve a cargo de Jaime Anahory, da YDream, tendo por base um guião concebido por mim e pelo meu colega Fernando Barriga, com a colaboração de Rui Galopim de Carvalho, na qualidade de gemólogo.

Essencial na composição dos granitos e de algumas outras rochas, o quartzo é um dos minerais mais característicos e abundantes, ao nível dos continentes, onde ocupa a segunda posição, com cerca de 16%, logo a seguir aos feldspatos (60%) e entre mais de três mil e quinhentas espécies conhecidas. Pela sua abundância, diversidade e características químicas (grande resistência aos processos de meteorização) e físicas (elevada dureza e tipo de fractura, difaneidade, cor, brilho e outras), o quartzo é uma das mais importantes matérias-primas da sociedade industrial. Acompanhou a história do Homem, desde a Idade da Pedra aos dias de hoje, como uma das mais procuradas matérias-primas.

Estas potencialidades fazem deste mineral um importante recurso nas indústrias do presente (com destaque, entre outras, para a fundição, a cerâmica, a vidraria, a cristalaria, a óptica, a química, a medicina reconstrutiva, a electrónica, a relojoaria e a joalharia) e com imensas perspectivas nas tecnologias do futuro.

A abertura ao público do Museu do Quartzo, edificado junto à escarpa da pedreira abandonada, no Monte de Santa Luzia, é hoje, felizmente, uma realidade fruto de uma estreita colaboração entre a Câmara local e o Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa. Concebido para, numa primeira fase, de âmbito local, servir as escolas da região e divulgar conhecimentos entre o cidadão comum, este museu reunirá uma representação significativa de exemplares desta espécie mineral (nas suas múltiplas variedades) e das suas numerosas aplicações industriais e artísticas, a par de equipamentos interactivos adequados e de oficinas pedagógicas.

A médio prazo, numa segunda fase, de âmbito nacional, aspira-se a uma colaboração activa com as universidades e as empresas interessadas no quartzo como matéria-prima nas mais variadas tecnologias. Na eventualidade de previsível sucesso deste embrião do saber, e se as entidades competentes (a autarquia e/ou o poder central) assim o entenderem e apoiarem, esta estrutura, por enquanto meramente pedagógica, poderá e deverá evoluir numa terceira fase para um centro de investigação científica e tecnológica em torno desta temática, a nível internacional, domínio amplamente justificável e, por si só, susceptível de atrair patrocínios por parte de grandes empresas interessadas nesta investigação, como são, por exemplo, as da relojoaria.

Todos sabemos que não basta criar uma estrutura como esta que hoje inauguramos. É absolutamente necessário mantê-la e fazê-la crescer em qualidade e, também, em quantidade. Para tal há que continuar a dispor do aconselhamento científico e pedagógico do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, previsto no referido protocolo. Numa perspectiva de futuro, será fundamental criar uma estrutura do tipo de um conselho científico/pedagógico, integrando elementos das escolas, das universidades, de outros museus e de centros de ciência, que garantam aos decisores autárquicos o suporte necessário a fazer deste Museu a instituição de referência que todos aspiramos. Será necessário proporcionar-lhe condições materiais que lhe permitam aceder a locais referenciados, no território nacional, como jazidas ou simples ocorrência de quartzo e relacionar-se com entidades envolvidas neste sector da actividade industrial e comercial.

Sendo as Feiras de Minerais a via mais fácil e económica de adquirir bons e raros exemplares, será necessário começar a frequentar estes certames quer no país quer no estrangeiro. Para tudo isto, todos sabemos que é preciso financiamento e neste momento o que mais abunda entre nós é falta dinheiro. É, pois, preciso procurá-lo. Há que explorar a possibilidade de recurso a patrocínios por parte do sector industrial. Num empreendimento desta natureza, a projectar internacionalmente, que tem o quartzo por motivo central, não será difícil encontrar um ou mais patrocinadores. Ao terminar esta prosa, não posso deixar de louvar a autarquia viseense, nas pessoas do seu presidente, Dr. Fernando Ruas, e do seu vice-presidente, Dr. Américo Nunes, com quem trabalhei directamente todos estes anos, pelo invulgar interesse que puseram neste projecto, vencendo as mais diversas dificuldades e permitindo a concretização de um sonho.

A.M. Galopim de Carvalho

DEUS JOGA AOS DADOS


Minha crónica publicada no "Sol" de hoje:


Um artigo recente da Nature assinado por um jovem estudante de doutoramento britânico e pelos seus dois supervisores está a fazer correr rios de bits numa boa parte da comunidade dos físicos (Matthew Pusey, Jonathan Barrett e Terry Rudolph, “On the reality of the quantum state”, 6/5/2012). Trata-se de um teorema (isto é, de uma afirmação demonstrada matematicamente) relativa à chamada “função de onda”, o meio matemático que os físicos usam para descrever de modo probabilístico a realidade no quadro da teoria quântica. O teorema diz que é verdade uma de duas coisas: ou a função de onda é real, isto é, corresponde directamente a um estado da realidade física, não se limitando a reflectir a nossa ignorância sobre uma realidade escondida, ou então existem acções à distância entre estados separados no espaço e no tempo que a teoria quântica não descreve e que nunca, aliás, foram vistas.

As discussões sobre a teoria quântica são tão velhas como a teoria. Nos anos 20 e 30 do século passado, Albert Einstein contestou activamente a visão probabilística proporcionada por essa teoria. Foi por isso que afirmou metaforicamente: “Deus não joga aos dados com o Universo”. Para ele devia haver uma realidade objectiva da qual a função de onda só dava uma pálida ideia. Não se cansou de apresentar dificuldades sucessivas à teoria quântica. Mas outro génio, Niels Bohr, conseguiu responder sempre, criando uma escola que acabou por prevalecer. Um dos feitos de Bohr consistiu, ironicamente, em usar teoria da relatividade de Einstein para apontar um erro nos argumentos do seu rival. Eram dois sábios à altura um do outro.

A teoria quântica parecia de início estranha, mas foi-se entranhando (como disse Fernando Pessoa da Coca-cola: “Primeiro estranha-se e depois entranha-se”). Hoje, os físicos estão a procurar novas aplicações (computadores quânticos e criptografia quântica) da velha teoria, aplicações baseadas precisamente nos aspectos mais estranhos. O artigo britânico não vem ressuscitar a visão de Einstein, mas lança nova luz sobre a interpretação de Bohr. Ficamos a saber que, se a função de onda não for real, então a teoria quântica fica em polvorosa. Ninguém acredita que uma teoria que tem dado tão boas provas seja assim tão frágil...

Continuo a estranhar

"O desemprego não tem de ser encarado como uma fatalidade mas, antes, como uma oportunidade. Hoje um emprego não é para toda a vida e as pessoas têm de perceber isso." 

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi este argumento, da pessoa que o usou à minha frente e da entoação displicente que deu às palavras. Isto "embrulhado" num daqueles sorriso que dão o tom de "evidência absoluta" ao discurso.

Recorrendo ao slogan publicitário inventado por Fernando Pessoa, confesso que "estranhei" tal argumento, mas não é por ter passado a ouvi-lo com frequência crescente que o "entranhei".

Notei e tenho confirmado, sem conseguir apontar uma única excepção, que quem o usa não se encontra desempregado, nem conta ficar nessa condição. A reforma ("dourada") é o seu horizonte. Não se pode deixar de estranhar paradoxo tão óbvio...

Gostei de saber que não estava só no meu raciocínio: José Pacheco Pereira num artigo do Público, intitulado A nova luta de classes explica claramente o que apenas aqui apontei.

Imagem retirada daqui, onde se encontra um texto muito elucidativo sobre a mentalidade que se esconde (será que se esconde?) sob a designação de empreendedorismo.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Knowledge must precede application


CONVITE PARA PROFESSORES

A Companhia de Teatro CAUSA tem o prazer de convidar todos os docentes, em particular aos das área científicas, para assistirem ao espectáculo conferência humorística AQUECIMENTO ESCLARECIDO no Teatro da Trindade dia 20 de Maio, sábado às 17horas. 
Esta é a última oportunidade para assistir a um espectáculo visto por milhares de estudantes de todo o país em 2011/12. O grande sucesso obtido junto do público escolar leva-nos a propô-lo de novo no próximo ano lectivo. 
Venha passar connosco alguns momentos hilariantes ao mesmo tempo que conhece um espectáculo vencedor do Prémio Ideias Verdes, que poderá ser uma ajuda complementar à sala de aula. 
Gostamos tanto de fazer rir quanto de reflectir.
Convite válido para 2 pessoas. 
Confirmação através do número de telefone 911 777 144 ou para o email causa.ac[arroba]gmail.com.


DIA INTERNACIONAL DO FASCÍNIO DAS PLANTAS




É já amanhã, sexta-feira dia 18 de Maio, o Dia Internacional do Fascínio das Plantas, a primeira edição de uma iniciativa internacional, na qual Portugal participa.

Fica aqui o programa do ITQB, no Campus da Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, no qual participam cinco instituições da zona de Lisboa.

No Pavilhão do Conhecimento haverá uma exposição do artista argentino Joaquín Fargas, que terá um conjunto de actividades associadas.

Aqui, uma lista completa das várias celebrações do Dias Internacional do Fascínio das Plantas em Portugal.

O NEGÓCIO DAS REVISTAS CIENTÍFICAS DE ACESSO PAGO



Segundo uma notícia recente, publicada no edição on-line do jornal inglês Guardian, Winston Hide, um dos editores da prestigiada revista Genomics, demitiu-se. A razão segundo o próprio é esta:

"Eu não posso trabalhar mais para um sistema que põe o lucro acima da investigação"

Em causa está o facto de a Genomics, que faz parte do poderoso grupo editorial Elsevier, ser uma revista de acesso pago (siga esta ligação, veja a extensa lista de publicações que fazem parte deste grupo e avalie o poder que a Elsevier terá a negociar a venda do acesso às suas publicações, que comercializa em pacotes como os pacotes de canais da TV Cabo). Isto significa que muitos investigadores, nomeadamente os que trabalham em países africanos (exemplo dado por Winston Hide, que é oriundo da Africa do Sul) não têm acesso aos resultados de investigação mais recentes. Têm que perder uma parte considerável do seu tempo a "mendigar artigos", ou seja a enviar emails aos autores  a pedir para que lhes enviem uma cópia em pdf.

Acrescentaria que isto não acontece apenas no caso de países africanos. Mesmo em instituições portuguesas, com uma boa biblioteca e acesso a publicações on-line, é normal os investigadores depararem-se com artigos barrados e em que no lugar do artigo que pretendem ler surge um formulário para introduzir os dados do cartão de crédito.

Isto é absurdo.

Grande parte da investigação fundamental, em qualquer lugar do mundo, é paga com fundos públicos. Não faz sentido pagar para ter acesso aos seus resultados. Em última análise, para além dos investigadores, os próprios cidadãos deverão ter o direito de lerem os artigos científicos que contêm os resultados de trabalhos de investigação pagos com o dinheiro dos seus impostos.

Acresce a isto que, por vezes, os autores têm que também pagar para que o artigo seja publicado (para incluir figuras, por exemplo) e que os revisores (os famosos, do sistema de revisão pelos pares) não são pagos. E muitas vezes os editores também não. São funções que se entende que fazem parte das obrigações de um cientistas.

Ou seja: os contribuintes pagam para que a investigação se realize e não raras vezes pagam também à revista para que o artigo seja publicado. Os revisores e editores fazem o trabalho de graça. As editoras vendem o acesso às revistas, que é pago mais uma vez pelos contribuintes, para que os cientistas do seu país os possam ler. Os contribuintes, esses, não lêem nada. Lêem, quanto muito, notícias na comunicação social acerca dos artigos. Se quiserem consultar o artigo científico original: têm que pagar novamente. É um negócio da China (literalmente, na medida em que grande parte da produção científica actual tem origem na China).

Houve talvez um tempo em que se justificasse o acesso pago, tendo em conta as despesas de distribuição em massa de uma publicação. Esse tempo, como é evidente, acabou.

Há hoje novos modelos de publicação de acesso livre, como é o caso da Public Library of Science (PLoS). Neste caso, são os autores que pagam uma pequena contribuição, assumida e tabelada, para que o artigo seja publicado. Essa pequena contribuição, no contexto de um projecto de investigação, não têm um valor significativo. E os artigos publicados podem depois ser livremente lidos por qualquer pessoa.

Há quem não goste desta solução. Mas há outros modelos. Como repositórios públicos de artigos científicos. Segundo alguns dos modelos, nem sequer são necessários artigos científicos (o artigo científico, pela importância que tem na progressão na carreira dos cientistas, tornou-se num fim em si, quando deveria ser um meio para divulgar os resultados). Até há quem pense que, tal como aconteceu com a produção de videos, a produção científica deixará de ser um exclusivo das instituições e profissionais de investigação. E que, tal como acontece a captação e edição de videos, poderá ser feita em casa por amadores.

De momento, as agências de financiamento públicas, como a nossa FCT, deveriam estar atentas e proibir que sejam publicados resultados dos projectos de investigação por elas financiados em revistas que não sejam de acesso livre. Inteiramente livre para toda a gente.

O que é e para que serve a Matemática?

Extracto do livro de Jorge Buescu "Matemática em Portugal", que acaba de sair na Fundação Franscisco Manuel dos Santos:

A pergunta tem toda a pertinência. Vivemos num mundo cada vez mais acelerado e fragmentado no qual a Matemática parece  relativamente irrelevante no dia-a-dia. Afinal de contas, ninguém precisa de resolver uma equação do segundo grau para falar ao telefone, ouvir um CD, ligar a televisão ou trabalhar com o computador.

No entanto, esta aparência é completamente enganadora. Afirmar que a matemática é inútil  seria como dizer que um carro, para funcionar, não precisa de peças mecânicas, só porque estas não se vêem.  A verdade é bem diferente: o mundo moderno seria impossível sem uma Matemática sofisticada e muitíssimo avançada. O facto de nem darmos pela sua presença quando ligamos o telemóvel ou o computador significa apenas que ela está convenientemente acondicionada para não exigir, da parte do utilizador, o seu conhecimento - tal como não é necessário dominar a mecânica automóvel para conduzir um carro.

A importância crescente da Matemática no mundo actual prende-se, antes do mas, com razões de ordem prática. Desde a Revolução Científica do século XVII que se descobriu que as leis da Natureza têm formulação matemática; e essa compreensão quantitativa permite, além de  compreender o Universo, agir sobre ele. Assim, as aplicações da Matemática surgem como uma ferramenta essencial na construção de aplicações da ciência à Tecnologia e ao mundo real. Esta é  a  primeira e grande justificação do interesse que a sociedade deve ter no desenvolvimento da Matemática.

São especialmente  ilustrativos alguns exemplos concretos retirados  da vida diária e que se baseiam na Matemática das últimas duas ou três décadas. Como pode uma quantidade gigantesca de informação, quando se descarrega através da Internet uma imagem, viajar meio mundo em poucos segundos? A resposta está na Matemática, neste caso na compressão de ficheiros. Esta é realizada por meio de um algoritmo, o mais usual dos quais utiliza  objectos matemáticos chamados wavelets (onduletas), cujo desenvolvimento tem cerca de duas décadas. Para os amantes de música que ainda se lembram dos discos de vinil não será de estranhar que um CD ou DVD suporte maus tratos traduzidos em riscos sem perder a qualidade, quando num disco de vinil bastava um pouco de poeira para se notar ruído de fundo, a chamada “batata frita”, e um risco era simplesmente o seu fim?  A resposta é que a gravação em CD ou DVD é digital – ou seja, transcrita para um sistema matemático de base 2 – e incorpora estrategicamente segmentos de “códigos correctores de erros”. Sendo assim, mesmo que um bit de um segmento da gravação seja deteriorado por acidente, o segmento de controlo detecta e corrige os erros de forma automática, de modo que o ouvinte (no caso de música) ou espectador (no caso de imagem) não se  apercebe de nada.


 Como podem existir transacções seguras na Internet, as quais permitem  comunicar com bancos e fazer pagamentos na Web “em modo seguro”? Por causa dos números primos. O método de comunicações seguras via Internet (ou através de outro canal digital) baseia-se no facto de que multiplicar dois números é “fácil”, ao passo quer a operação inversa de factorização (isto é, de encontrar os factores primos) é “difícil”. O algoritmo que implementa este facto matemático na segurança das comunicações, chamado RSA: foi criado pelos matemáticos Rivest, Shamir e Adleman em 1978 e o seu paradigma é conhecido como “criptografia de chave pública”.

 A ideia é subtil. Em vez de haver, como aconteceu de César até Hitler, transmissão secreta entre emissor e receptor da chave de encriptação e descriptação, com os inerentes riscos de intercepção, nos sistemas de chave pública o paradigma é diferente. O receptor fornece publicamente, a todo o mundo, uma chave de encriptação, formada pelo produto de dois números primos gigantescos só de conhecidos. Qualquer emissor consegue encriptar qualquer mensagem, por exemplo, o seu número de cartão de crédito, por meio desse número. Contudo, apenas o receptor  da mensagem possui a factorização em primos desse número gigantesco. Assim, o  receptor consegue facilmente desencriptar a mensagem. A sua eventual intercepção em trânsito por terceiros com intenções maliciosas revelar-se-á   inútil: não existe um método matemático “simples” de factorização, pelo que o respectivo conteúdo permanecerá indecifrável. A transmissão da mensagem é, portanto, “segura”. Tudo isto se passa de forma automática, sem que o utilizador se aperceba de nada, a não ser talvez do aparecimento de um pequeno cadeado amarelo no canto inferior direito do seu ecrã– tal como não se apercebe dos complexos mecanismos accionados de cada vez que gira a chave de ignição do seu automóvel. Mas quando vê o cadeado, acabou de accionar o referido  mecanismo matemático de “criptografia por chave pública”.

E os exemplos podiam multiplicar-se. Desde a Bioquímica e Farmacologia actuais, em que a função das biomoléculas é, em primeiro lugar, estudada por simulação computacional, à Meteorologia e Climatologia, em que as previsões são realizadas com base em equações diferenciais parciais (as equações de Navier-Stokes) cujos modelos matemáticos são resolvidos numericamente nos maiores supercomputadores do mundo; à optimização de operações de logística de distribuição, desde complexas operações militares à optimização da localização de armazéns para uma cadeia de retalho – não é exagerado afirmar que todo o funcionamento do mundo contemporâneo se baseia em aplicações significativas da Matemática.

Jorge Buescu

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...