Novo texto de António Mouzinho sobre a sobrevivência do "eduquês" no Mistério da Educação e Ciência, esclarecendo não apenas os professores mas também para o grande público:
Quem não é professor e abordou o texto «Avaliação: funções e práticas 4 — os riscos (sem limite de palavras) ou 'The Rump Steak Strikes Back'» (19 de Maio), poderá ter ficado perplexo: ao que vem tudo isto?
Na
verdade, o respeitável Leitor, civil, merece a seguinte explicação:
Em 2010-11
o ministério da Educação, através do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE),
promoveu uma ação de formação de professores classificadores de exames.
Pretendeu informar, com profundidade, quanto aos critérios de classificação dos
exames nacionais, uma bolsa nacional de professores classificadores, promovendo
a uniformização da atuação, e a justiça do processo.
Os
professores consideraram o trabalho interessante, e útil. Foi uma tarefa com
caráter prático, bem montada, esclarecedora, facilitadora do trabalho de ver e
classificar provas de exame.
Anunciava-se
uma 2.ª volta este ano, não presencial. Faz todo o sentido, porque permanentes
retoques e aperfeiçoamentos nas Informações de Exame divulgadas no site de GAVE a isso obrigam.
O modelo
seria o do e-learning, desta vez.
Enfim… é mais barato: sim, senhor.
Ora o que
nos esperava em 2012?
Uma
armadilha!
Em pleno
final de ano letivo, com os professores assoberbados de trabalho, uma ementa de
festa de aldeia, com não sei quantos pratos.
Eu
discrimino as tarefas (agora não se diz assim: agora diz-se elenco; eu evito a
expressão porque faz-me dores nas costas, como quando alanco):
1. Introdução
2. Funções da avaliação
3. O erro na aprendizagem (discussão do
risco para professores e alunos da não definição e da não partilha de citérios
de avaliação)
4. Critérios de avaliação
5. Práticas de avaliação formativa
Intervenção do professor:
Planificação da avaliação
Feedback oral e escrito
Intervenção do aluno:
Coavaliação
Autoavaliação
6. Classificação de respostas a itens de
exame
7. Avaliação e encerramento da ação
Ora, deste
banquete, o que dizer? Várias coisas:
1.º—
que todos estes
assuntos merecem a atenção de professores, são pertinentes, são controversos,
merecem reflexão;
2.º—
que nenhum destes
assuntos tem algo, diretamente, a ver com a próxima classificação dos exames nacionais;
3.º—
que os
professores classificadores que aceitaram fazer parte da bolsa nacional o
fizeram por puro sentido de serviço público, tendo admitido que não teriam, por
isso, qualquer remuneração adicional (ao contrário do que aconteceu num passado
mais recente, e noutros menos recentes);
4.º—
que a altura, em
finais de maio, não é — de todo — para estar a limpar este tipo de espingardas:
está tudo fulo nas escolas com a intromissão, à beira do final do ano letivo,
de generalidades que, apresentadas com outro caráter — que não a
obrigatoriedade do quadro de uma ação de formação — levariam a um coro de «não,
muito obrigado», «não pode ser», «tenha paciência», ou «volte noutro dia»
(melhor dizendo: ano);
5.º—
que a forma como
os pratos são apresentados é digna do mais velho eduquês: construtivismo puro e
duro, mal disfarçado aqui e acolá com uns bigodes da R. João das Regras e um
chapéu de palha; textozinhos de apoio à Estado Novo de mistura com o eminente
Piaget, ensopado nas águas do oceano Atlântico, num texto importado do Brasil;
o palavreado meio confuso do costume, arrogante e sem contraditório
(contraditório que até poderia ser em Francês, se quisessem: bastaria trocar o
suíço Piaget pelo cientista Stanislas Dehaene, com imensa vantagem); as
«ciências» da educação sem a neurociência ou a ciência cognitiva; enfim: o
paleio de sanzala de gente que sabe muito mais do que aquilo que percebe, fala
para o comum dos mortais de cima para baixo, e não admite grandes discussões
sem partir a loiça toda, sem anatemizar: que não avalia, na prática, o outro,
como diz, em teoria, que ele deve ser avaliado;
6.º—
que os
professores estão a aturar todo este fartote para chegarem à tarefa do ponto
6., a classificação de respostas a itens de exame: é para isso que lá estão, e
o resto faz-se em apneia, não vá a carreira ser prejudicada por qualquer
coisinha (lamente-se, e entenda-se…);
7.º—
que a tarefa 5,
que remete para 14 de setembro, pressupõe duas coisas, como consta daquele rol
que pode ser visto acima: deve ter 1000 a 1500 palavras (o presente texto já
conta 690 palavras, e apenas espirrei de alergia!), e deve ser sustentada por
uma extensa bibliografia (ahrrrgh!) apresentada no início da ação.
Note-se
que tarefas anteriores tinham apresentações bem mais caricatas: pedia-se, na
tarefa 2, um comentário (!) de 150 a 200 palavras; na tarefa 3, um texto até
400 palavras. Afinal, o banquete de aldeia anunciado era uma sandes no parque
de campismo. Os professores ficaram apoquentados com a exiguidade do espaço?
Nã, senhores: ficaram contentes: perceberam que praticamente não teriam de
meditar em coisa nenhuma; estavam a ser importunados, mas o caso, em termos de
relatórios, não era sombrio, porque os próprios formadores, ao fazerem este
tipo de guiões, não estavam a levar nada disto a sério. A reflexão não era para
refletir, era para ser despachada!
Quando for
grande já não quero ser quero ser arquiteto: quero ser construtivista. Não
preciso de falar de modo a que me entendam, e resisto a toda e qualquer
tentativa de contestação.
O
professor Nuno Crato que se cuide: os ministérios sombra andam aí: They Live!
Respeito,
méne!
António Mouzinho

















