sábado, 12 de dezembro de 2009

A MATEMÁTICA NO TEMPO DO MESTRE JOSÉ VIZINHO

Convite recebido da editora Gradiva:

A Delegação Regional Centro da Sociedade Portuguesa de Matemática, a UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR e a GRADIVA, no âmbito da realização das Tardes de Matemática - 2009, têm o prazer de convidar V. Ex.ª a estar presente na sessão de apresentação da obra

A MATEMÁTICA NO TEMPO DO MESTRE JOSÉ VIZINHO
de António Costa Canas e Maria Eugénia Ferrão (coords.)


A sessão terá lugar no dia 12 de Dezembro, pelas 15h30, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, na Praça do Município, Covilhã. A sessão de apresentação da obra terá como oradores

Maria José Ferro Tavares, Natália Bebiano da Providência e António Costa Canas.

CONFUSÃO NA RELIGIÃO


No "New York Times" de hoje, Charles Blow publica um comentário ao recente "Pew Report" que dá conta da crescente confusão que a população norte-americana alimenta no domínio da religião: crenças de diferente origem misturam-se e alastram. Ver aqui. Gráficos elucidativos estão aqui : as experiências místicas, o contacto com mortos e com fantasmas tem aumentado.

A BEAUTIFUL MIND


Na revista de livros do "New York Times" de hoje, Jascha Hoffman recenseia, sob o título "Grigori Perelman’s Beautiful Mind" o livro

PERFECT RIGOR. A Genius and the Mathematical Breakthrough of the Century
By Masha Gessen
242 pp. Houghton Mifflin Harcourt. $26.

sobre o matemático russo Grigori Perelman (na foto), que demonstrou a conjectura de Poincaré para em seguir desaparecer de cena, recusando até a Medalha Fields. Começa assim:
"In 1904 the French mathematician Henri Poincaré made a conjecture about three-­dimensional space that may help to explain the shape of the universe. Although it was crucial to the growth of the field of topology, Poincaré’s conjecture resisted proof for a century. When a Boston philanthropist announced a million-dollar prize for its solution in 2000 it was unclear whether he would ever have to pay.

Then, in 2002, a Russian mathematician named Grigori Perelman posted a terse paper to an online archive. In the course of tackling a broader problem, Perelman seemed to have miraculously swept away the remaining obstacles to proving the Poincaré conjecture. Soon the mathematical rumor mill was buzzing. The proof seemed genuine, but word was that Perelman had no plans to publish it."
Ler aqui

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A inveja

Destacamos, como vem sendo hábito, a crónica do médico psiquiatra J.L. Pio de Abreu, no "Destak":

Neste pequeno mas mexido País, toda a gente já foi tudo, todos já se iludiram e desiludiram. E toda a gente se conhece o suficiente para perceber que nenhum outro é melhor que nós.

Mas acontece que, às vezes, os outros, aqueles que não são melhores que nós, têm, na verdade, mais sucesso. É aí que se instala a inveja, sobretudo essa inveja destrutiva que clama por justiça e vingança. Se os outros não são melhores do que nós e, apesar de tudo, conseguiram ir mais longe, é porque fizeram falcatrua.

É interessante descobrir que os futebolistas escapam a este destino: só neste caso, a inveja cede à admiração. Talvez seja porque, à partida, ninguém os conhece, vieram da periferia, não têm nomes de família. Mas também pode ser pela sobranceria com que ainda vemos os jogadores de futebol, coisa a que eles se prestam com uma humildade cultivada.

Também pode ser porque o futebol não estava nos planos de belezas desfeiteadas, homens mal-amados, princesas em declínio, actores sem plateia, personalidades apeadas, ressentidos em geral e todos aqueles que, sentados nas suas frustrações, vão descarregando o fel nas conversas casuais, nos comentários da internet ou em inesperadas janelas de protagonismo.

Todos incham de portugalidade com um golo bem metido. Mas quando olham para as pessoas a seu lado, para aqueles que podiam estar como eles, mas estão melhor ou mais activos, o mal da inveja aperta-lhes o estômago, dilata-lhes os olhos e transtorna-lhes o raciocínio.

J.L. Pio Abreu

CIÊNCIA DA TRETA


“Conversa da Treta” foi o título de uma peça de teatro popular protagonizada pelos actores José Mário Gomes e António Feio. A palavra “treta” já adquiriu, porém, um significado filosófico além do popular. Com efeito, o filósofo norte-americano Harry Frankfurt num livrinho intitulado “Da Treta” (no original On bullshit”, tradução portuguesa da Livros de Areia) disserta não sobre a mentira, um conceito com um significado epistemológico superior uma vez que mentir pressupõe conhecer a verdade que é negada, mas sobre atreta, isto é, a conversa em que a verdade e mentira se entrelaçam confusamente porque o falante não está minimamente interessado em separar uma de outra, mas sim e apenas em baralhar tudo e todos.

O livro “Ciência da Treta, saído há pouco tempo na Bizâncio, é um dos melhores livros de divulgação da ciência vindos a lume em Portugal no ano de 2009. É seu autor o inglês Ben Goldacre (na foto), médico formado pela Universidade de Oxford, com prática no Serviço Nacional de Saúde inglês, especializado em Psiquiatria, e conhecido do grande público, pelo menos britânico, devido principalmente à sua coluna semanal aos sábados no jornal “The Guardian”. O livro resultou precisamente da compilação dessas crónicas, tendo até no original o mesmo título da coluna: “Bad Science. Traduzido à letra teria dado em português “Má Ciência”, mas o editor fez bem em traduzir por “Ciência da Treta. O autor analisa – e fá-lo sem papas na língua! – um conjunto de “tretas” das áreas da medicina e farmácia que é alimentado por um conjunto de pessoas – incluindo vários praticantes de pseudociências (como os homeopatas e outros curandeiros), grande indústria farmacêutica, nutricionistas com grande poder mediático, etc.

O autor conhece bem o método científico, isto é, a maneira de que dispomos hoje para descartar o erro, para separar tanto quanto possível a verdade da mentira. E, no sector da saúde, mostra como o método científico pode ser e é largamente ignorado, ao mesmo tempo que se fazem passar por credíveis um vasto conjunto de tretas, às quais se atribui injustificadamente uma base científica. É um livro de combate – um livro manifestamente em favor da ciência e impiedosamente contra a má ciência ou, talvez melhor, a pseudociência – num mundo que, apesar de estar cada vez mais dominado pela ciência, passa, em muitos aspectos, ao lado dela.

O estilo divertido do autor é um principais atractivos do livro. O seu humor revela-se, por exemplo, quando, no prefácio, afirma que se, no final da leitura, o leitor continuar a discordar dele, estará pelo menos a discordar dele “com muito mais estilo”:

“E se, quando terminar, ainda achar que discorda de mim (…) não deixará de estar errado, mas pode ter a certeza que o estará só que de uma forma muito mais confiante e com muito mais estilo do que poderia apresentar neste momento.”


No Capítulo 2 ridiculiza um programa denominado “Ginástica Cerebral”, que é “impingido” em escolas oficiais do Reino Unido, e que não passa, para Goldacre, de um “sem-fim de disparates vergonhosos e embaraçosos”. O programa recomenda, por exemplo: “Beba um copo de água antes das actividades de Ginástica Cerebral. Dado tratar-se de uma componente principal do sangue, a água é vital para o transporte do oxigénio ao cérebro”. Comenta Goldace: “Deus nos livre de o sangue secar por completo” . A escola portuguesa está mal, mas podia estar pior se tivessem cá chegado essas tretas!

No Capítulo 4 ataca os homeopatas, dizendo, a propósito da pretensa memória da água que esses “cientistas da treta” reclamam, que a circulação da água é uma enorme trivialidade:

“A água que tenho no corpo, no preciso momento em que estou aqui sentado a escrever em Londres, já passou pelos corpos de muitas outras pessoas antes do meu. Talvez algumas das moléculas de água que estão nos meus dedos ao escrever esta frase se encontrem presentemente no globo ocular do leitor, Talvez algumas das moléculas de água que transmitem informação aos meus neurónios no momento em que decido se vou escrever “chichi” ou “urina” besta frase estejam agora na bexiga da rainha (que Deus a abençoe): a água não faz distinções, anda por aí a circular. Basta olharmos para as nuvens.”


Mais ainda, no Capítulo 6, desmascara um famoso nutricionista da televisão britânica Michael van Straten, que, perante as câmaras, afirmou com um gesto teatral que um sumo de romã acrescentava dois anos à vida (alguns meses, emendou a seguir), falando de uma investigação recente, “acabada de publicar na semana passada na América”, segundo a qual o sumo de romã protege do envelhecimento. Na verdade, consultada a Medline, uma base de dados de referência da investigação biomédica internacional, Goldacre não encontrou nada que se parecesse, nem de perto nem de longe, com um estudo deste tipo que tivesse as conclusões que foram propagandeadas. A menos que, em vez de um artigo científico, se tratasse, sugere o nosso autor, de um panfleto da indústria das romãs… Isso não quer dizer que beber sumo de romã não faça bem à saúde, apenas quer dizer que a ciência, num bom exemplo de “conversa da treta”, foi invocada em vão pelo nutricionista!

Como remédio contra as patranhas que todos os dias nos entram via televisiva ou computacional pelos olhos dentro, Goldacre recomenda a medicina baseada na evidência, isto é, a medicina baseada na lógica e na experimentação. Explica o que são testes duplamente cegos (testes clínicos nos quais nem o doente nem o médico sabem que estão a receber ou a dar um medicamento, pois este aleatoriamente é substituído por algo inócuo, o chamado placebo) e a sua necessidade para a certificação de novos fármacos. Há aqui um fenómeno bastante curioso: O simples facto de um paciente saber que está a ser tratado favorece o seu restabelecimento, mesmo que ele esteja a tomar um inofensivo comprimido de açúcar. Este é o chamado “efeito placebo”, que, por estranho que pareça, existe na realidade, quer dizer, um doente a quem foi dado uma vulgar pastilha de açúcar, sem quaisquer propriedades terapêuticas, tem uma maior probabilidade de curar do que a que é dada meramente pelo acaso. O autor explica como os resultados da medicina baseada na evidência contrastam por completo com os das medicinas ditas alternativas, que, por isso, não podem ser consideradas alternativas válidas.

O penúltimo capítulo da tradução portuguesa ocupa-se de um curandeiro inglês que pretendia curar, por meio de vitaminas, a SIDA na África do Sul, país onde essa doença atingiu proporções alarmantes (é bom lembrar a posição estúpida que o governo desse país assumiu no passado, chegando a negar que a doença, era causada por um vírus). Essa crítica deu origem a um processo em tribunal, no qual o médico foi defendido por advogados do "The Guardian". O original não pôde, por isso, incluir este capítulo saído no jornal. Como no Reino Unido a justiça é mais célere do que em Portugal - o que aliás não é difícil- , não demorou muito até que Goldacre ganhasse o processo, ficando naturalmente as respectivas custas a cargo da parte queixosa. E a tradução portuguesa já acolheu o texto que estava interdito.

Depois de demolir por completo as críticas completamente injustificadas que saíram nalguns média à vacina tríplice por, alegadamente, ser causa de autismo, Goldacre dedica algumas palavras à pandemia causada pelo vírus H1N1, no final do livro. Põe ênfase na incerteza associada ao nosso actual conhecimento da doença. E aponta o dedo aos média, por não conseguirem separar o trigo do joio. “Já nem neles próprios acreditam”, conclui o nosso autor. O livro “Ciência da Treta, distinguido em 2008 pela Royal Society (a Academia de Ciências britânica), é um verdadeiro antídoto contra os disparates num tempo onde, estranhamente, estes são muito mais abundantes do que seria expectável.

- Ben Goldacre, "Ciência da Treta", Bizâncio, 2009.

O Sexo dos Anjos

Joel Costa dedicou os três últimos programas do seu Questões de Moral (Antena 2, da Rádio) às sociedades, instituições e valores que permitiram, até um passado ainda recente, a "produção" de milhares de "anjos cantores", de "castrati", para alimentar os coros das Igrejas e as Óperas da Europa.

Detem-se de modo magistral, como é costume, na sua educação, nas suas ligações afectivas, nos seus fracassos e sucessos... sempre com música criteriosamente seleccionada.

Esses programas, que vale a pena ouvir, têm os seguintes títulos:

- O Sexo dos Anjos, ou a desventura dos mal castrados e a glória dos bem castrados
- O Sexo dos Anjos e os famosos Conservatórios de Nápoles
- O Sexo dos Anjos, ou Um problema de Moral Cristã

E, podem encontrados aqui.

No De Rerum Natura já nos referimos a este assunto aqui.

Imagem: Farinelli Playing Harp, de Edward Tabachnik

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

LIVROS DE CLAUDE LÉVI-STRAUSS


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Na Sala do Catálogo está patente uma exposição bibliográfica sobre o antropólogo francês Claude Lévi-Strass (1908-2009), recentemente falecido. Eis a lista de bibliografia activa em português exposta (a ordem é a cronológica da 1ª edição):

- Lévi-Strauss, Claude. Tristes trópicos / C. Levi-Strauss ; trad. de Wilson Martins. São Paulo : Anhembi, 1957.

- Lévi-Strauss, Claude. Tristes trópicos. [Lisboa] : Portugália Editores, [1976?].

- Lévi-Strauss, Claude. Mito e significado; trad. de António Marques Bessa. Lisboa : Edições 70, 1979. Reimps. 1985, 1989 e 2007.

- Lévi-Strauss, Claude. Tristes trópicos ; trad. de Jorge Constante Pereira. Lisboa : Edições 70, 1979 imp. [trad. de Jorge Constante Pereira; rev. de Ruy de Oliveira, Henrique Fiúza]. Lisboa : Edições 70. Idem, D.L. 1993.

- Lévi-Strauss, Claude. A via das máscaras; trad. Manuel Ruas ; rev. Wanda Ramos. Ed. revista e aumentada e acompanhada de três Excursões. Lisboa : Editorial Presença, imp. 1981.

- Lévi-Strauss, Claude. O olhar distanciado; [trad. de Carmen de Carvalho]. Lisboa : Edições 70, 1986 imp

- Lévi-Strauss, Claude. O totemismo hoje ; [trad. de José António Braga Fernandes Dias]. Lisboa : Edições 70, 1986 imp.

- Lévi-Strauss, Claude. A oleira ciumenta / Claude Lévi-Strauss ; trad. José António Braga Fernandes Dias. Lisboa : Edições 70, 1987.

- Mauss, Marcel, 1872-1950. Ensaio sobre a dádiva / Marcel Mauss ; com introdução à obra de Marcel Mauss por Claude Lévi-Strauss. Lisboa : Edições 70, imp. 1988.

- Lévi-Strauss, Claude. História do lince; trad. Rosa Maria Perez. 1ª ed. Porto : Asa, 1992.

- História da família / direcção de André Burguière... [et al.]. 1ª ed. Lisboa : Terramar, 1996-1999.

- Lévi-Strauss, Claude. Raça e história /; trad. Pedro Elói Duarte. 1ª ed. Lisboa : Vega, 2003

- Lévi-Strauss, Claude. Raça e história. Lisboa : Editorial Presença, 1973 imp. « ed. [Lisboa] : Editorial Presença, [1975].Trad. Inácia Canelas. 6ª ed. Lisboa : Presença, 2000; 7ª ed. Lisboa : Presença, 2003. 8ª ed. Lisboa : Presença, 2006.

- Lévi-Strauss, Claude. Do mel às cinzas; trad. Carlos Eugénio Marcondes de Moura e Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo : Cosac Naify, 2004.

POESIA MATEMÁTICA

"Poesia matemática" do grande humorista brasileiro Millôr Fernandes:

"Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade."

Millôr Fernandes

Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.

Orquídeas em Dezembro


Informação recebida do Jardim Botânico de Coimbra (na foto Zygopetalum intermedium Lindl. América do Sul):

O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra apresenta a exposição Orquídeas em Dezembro

Dias 12 e 13 de Dezembro de 2009
Horário visita: Sábado e Domingo, das 10h00 as 17h00.
Horário ateliê (máx. 20 pessoas): Sábado 11h30 e 15h30.
Domingo 15h30.

Local:
Estufas do Jardim Botânico.
Preço: 3 €/participante.

Mais informações: gabinete Jardim Botânico - 239 855233.

Orquídeas em Dezembro:

A maioria das plantas tem os seus admiradores, mas poucas conseguem induzir uma paixão tão grande como as orquídeas. Porque é que as pessoas se tornam tão obcecadas? Na maioria dos casos, a sua beleza, originalidade e mística, serão o motivo principal; mas talvez o mais importante seja a grande variedade de formas. As orquídeas também nos brindam com flores perfumadas, tanto de dia como de noite. Mas o melhor de tudo é que cultivar orquídeas se torna um hobby para o ano inteiro… e existe sempre alguma em flor!

O cultivo de orquídeas começou na China há perto de 3000 anos, mas segundo o que se sabe, foi no século XVII que a primeira orquídea tropical cultivada ex-situ (Brassavola nodosa) floresceu!

Contudo, só no século XVIII, em Inglaterra, se começou o cultivo de orquídeas. Inicialmente, os cultivadores de orquídeas tinham pouco sucesso, pois consideravam que, sendo tropicais, as orquídeas deviam ser colocadas em estufas muito quentes e secas. Ninguém sabia que muitas habitam em altitude e necessitavam de condições de frio e humidade. Ao contrário: são espécies cosmopolitas, só não existem nos desertos nem nas neves.

Hoje, como os seus requisitos são já conhecidos, a dificuldade de cultivo das orquídeas não passa de um mito! Algumas até podem ser mais difíceis de cultivar, pois recriar o seu habitat dentro de casa pode ser complicado; mas, na sua maioria, as orquídeas são surpreendentemente fáceis de cultivar. Ninguém pode esperar cultivar com a mesma facilidade todos os tipos de orquídeas; estima-se que no mundo existem 25.000 espécies naturais e cerca de 100.000 híbridos, registados! Mas, cumprindo algumas regras simples elas tornam-se tão fáceis de tratar como qualquer outra planta de interior.

Venha à exposição de orquídeas nas estufas do Jardim Botânico de Coimbra! Com um cheirinho a orquídeas neste Natal, aprenda em ateliê, algumas dicas importantes de cultivo: conhecer para manter!

350 ANOS DA ROYAL SOCIETY


A Royal Society britânica, com sede em Londres, comemora em 2010 os seus 350 anos (na imagem, o microscópio composto de Robert Hooke). Este sítio, com ligações a importantes artigos originais, dá conta da rica história da instituição. O programa das comemorações incluirá em Novembro do próximo ano um workshop sobre relações científicas luso-britânicas.

Deus e os Extraterrestres


Dando conta de posiçoes recentes da Igreja Católicos sobre vida extraterrestre, Carlos Oliveira escreve no Astro.pt sobre "Deus e os Extraterrestres". Ler aqui.

ÚLTIMOS DIAS DA EXPOSIÇÃO SOBRE CAROLINA MICHAELIS


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Devido ao interesse que a mostra suscitou, foi adiado por alguns dias o fecho da exposição sobre Carolina Michaelis, a primeira mulher que foi professora numa Universidade portuguesa (na foto, com dois dos netos).

Encerra no dia 22 de Dezembro
Segunda a Sexta-feira
10h00 às 12h00 | 15h00 às 17h00
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra
Sala de S. Pedro

Integrada no Projecto em curso, de carácter interdisciplinar, Carolina Michaëlis (1851-1925) – Joaquim de Vasconcelos (1849-1936): Um Encontro de Culturas e de Saberes, a presente exposição tem como objectivo evocar e homenagear aquela que foi a primeira Doutora em Letras e também a primeira Professora, a todos os títulos insigne, da Universidade de Coimbra, onde leccionou desde Janeiro de 1912, isto é, desde o primeiro ano lectivo da então recém-criada Faculdade de Letras, até Fevereiro de 1925, ano em que vem a falecer.

Nos três grandes períodos em que dividimos a vida e a obra de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Anos de Berlim (1851-1876), Anos do Porto (1876-1912) e Anos de Coimbra e do Porto (1912-1925), pretendemos mostrar – através da articulação das espécies bibliográficas seleccionadas para expor nas vitrines com a documentação e a iconografia contida nos painéis, e ainda através dos apontamentos multimédia que completam o todo – que Carolina Michaëlis não só nos deixou, como filóloga nacional e internacionalmente prestigiada, uma obra pioneira verdadeiramente gigantesca, que se inscreve na intensa e variada actividade de mediação científica e cultural entre Portugal e a Alemanha por ela desenvolvida desde o primeiro ano em que veio viver para o Porto, mas também soube ser uma cidadã empenhada na promoção e no incremento do ensino da criança e da mulher na sociedade portuguesa da sua época.

Organização:
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Coordenação Científica:
Maria Manuela Gouveia Delille

Catalogação:
Isabel João Ramires

Design:
António Barros

Apontamentos Multimédia:
Clara Almeida Santos, Secção de Comunicação do Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação da FLUC

Colaboração Externa:
Carlos Michaëlis de Vasconcellos
Gabriele Beck-Busse - Universidade de Marburgo

Apoios:
Reitoria da Universidade de Coimbra
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Imprensa da Universidade de Coimbra
pfi Informática, Lda.

FEIRA DO LIVRO DA BIBLIOTECA GERAL

Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Numa Feira do Livro de Natal a Livraria / Loja da Universidade de Coimbra, situada no átrio da Biblioteca Geral (BGUC), está a vender com o desconto médio de 50% a seguinte colecção das suas publicações próprias (a ordem é alfabética do autor e o preço indicado é final, depois do desconto):

- AFONSO X, o Sábio — Cantigas de Santa Maria. Editadas por Walter Metmanten. Vol. I, 1959; Vol. II, 1961 – ISBN 972-616-035-9 ; Vol. III, 1964 – ISBN 972-616-036-7 ; Vol. IV (Glossário), 1972 – ISBN 972-616-037-5 . Colecção 25,00 euros

- ARTE MILITAR na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra : Séc. XVI-XVIII. 1990 7,50

- BIBLIOTECA GERAL DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA — Catálogo dos Reservados da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. 1970. [Organizado por Maria Teresa Pinto Mendes, Jorge Peixoto e José Barbosa]. Suplemento. 1981. Publicado como separata do «Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra», 36. ISBN 972-616-050-2, 12,00

- BIBLIOTECA GERAL DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA, Molière. Catálogo comemorativo do tricentenário da sua morte. [Organizado por José Barbosa]. 1975, 2,00

- BRANDÃO, Mário — A Inquisição e os professores do Colégio das Artes, Vol. II, I parte, 1969, 15,00

- CORTESÃO, Armando — Cartas de Londres. 1941-1949. 1974, ISBN 972-616-038-3, 7,50

- COSTA, Mário A. Nunes — Reflexão acerca dos locais ducentistas atribuídos ao Estudo Geral. Col. Septingentesimo Natali Edita. 1991, ISBN 972-616-007-3, 7,50

- DAMIÃO de Góis e o Humanismo europeu (1502-2002) : exposição bibliográfica [catálogo] 2002, 6,00

- GÓIS, Damião de, 1502-1574 - Damianus a Goes [documento electrónico] = Damião de Góis : as crónicas / coord. Ed. de Aníbal Pinto de Castro. [Lisboa] : Fundação Calouste Gulbenkian ; Coimbra : BGUC : Comissão Organizadora do Congresso Internacional "Damião de Góis e o Humanismo Europeu, 2002, 15,00

- DESTOMBES, Marcel e outros — Um portulano de Diogo Homem (C. 1566) na Biblioteca Geral da Universidade. 1988, ISBN 972-616-122-3, 2,50

- ESTATUTOS da Universidade de Coimbra
(1653). Edição facsimilada. 1987, ISBN 972-616-066-9, 12,50

- FERREIRA, António —The tragedy of Ines de Castro. Translated into english with introductory essays by John R.C. Martyn. 1987. ISBN 972-616-120-7, 7,50

- FONSECA, Fernando Taveira da — A Universidade de Coimbra (1700-1771). 1995. ISBN 972-616-136-3, 20,00

- HOOYKAAS, R. — Selected studies in History of Science. 1983, ISBN 972-616-114-2, 5,00

- JOÃO IV, rei de Portugal — Defensa de la musica moderna contra la errada opinion del Obispo Cyrilo Franco. Com prefácio, introdução e notas de Mário de Sampayo Ribeiro. 1965. Inclui a reprodução facsimilada da impressão original. ISBN 972-616-056-1, 8,00

- MANUPELLA, Giacinto — Dantesca luso-brasileira. Subsídios para uma bibliografia da obra e do pensamento de Dante Alighieri. 1966, ISBN 972-616-013-8, 8,50

- MINORIAS ÉTNICAS e religiosas em Portugal [catálogo de exposição]. 2002, 2,00

- OLIVEIRA, Vitor Amaral de — Sebástica. bibliografia geral sobre D. Sebastião. 14,00

- PERES, Damião - A Universidade de Coimbra na história da cultura nacional. Coimbra, 1937, 3,00

- SANCHES, António Nunes Ribeiro — Obra. Vol. I — Método para aprender e estudar a Medicina. Cartas sobre a educação da mocidade. 1959 (Nota prévia de Maximino Correia) 10,00 e Vol. II — Apontamentos para estabelecer-se um tribunal e colégio de Medicina — Carta a Joaquim Pedro de Abreu — Tratado da conservação da saúde. 1966 (Nota preambular de Álvaro Júlio da Costa Pimpão e Introdução de Maximino Correia) 10,00

- UNIVERSIDADE DE COIMBRA - Compêndio histórico do estado da Universidade de Coimbra : 1771 / Obra fac-similada da ed. Lisboa 1771. Facsimile 1972 10,00

E ainda:

- AZULEJOS QUE ENSINAM [catálogo de exposição]. BGUC e Museu Nacional de Machado de Castro, 2007 5,00

- AZULEJOS QUE ENSINAM [colecção de postais. idem, 2007] 3,50

- BARJONA, Manuel José – Metallurgicae elementa = Elementos de Metalurgia. Ed. facsimilada. Coimbra : FCTUC, 2001, 7,00

- DA FAMOSA ARTE da imprimissão : obras das Edizioni dell Elefante. 2,00

- BERNASCHINA, Paulo — Massa cinzenta, (fotografias de cientistas), Artez, ISBN: 972-99912-1-9, 6,00

- CORO MISTO da Universidade de Coimbra — Miserere [CD áudio] : [obras de José Maurício e de Francisco Lopes Lima de Macedo], 10,00

- CARDOSO, José Maria Pedrosa (coord.) - Carlos Seixas, de Coimbra. Imprensa da Universidade. ISBN: 972-98704-33-X, 7,50

- FIOLHAIS, Carlos — Einstein entre nós. Imprensa da Universidade, ISBN: 972-8704-60-7. 2006, 10,00

TOP 5 DOS LIVROS DE CIÊNCIA DE 2009

A pedido da "Gazeta de Física", fiz uma lista dos cinco melhores livros de divulgação da ciência (num sentido amplo do termo) saídos neste ano de 2009, combinando títulos tanto em português como em inglês. A ordem é a alfabética do autor:

- CHARLES DARWIN, “A Origem das Espécies” (Guimarães)

No ano dos 150 anos deste livro, que foi também o dos 200 anos do nascimento do autor, várias edições saíram em Portugal, entre elas a da Guimarães. Um grande clássico, portanto!

- GRAHAM FARMELO, “The Strangest Man: The Hidden Life of Paul Dirac, Mystic of the Atom" (Basic Books).

Uma biografia de um dos mais importantes físicos do século XX, um dos criadores da teoria quântica, o inglês Paul Dirac.

- BEN GOLDACRE, “Ciência da Treta” (Bizâncio)

A pseudociência na área das ciências da saúde desmascarada por um médico inglês que conhece bem o método científico.

- RICHARD HOLMES, “The Age of Wonder: How the Romantic Generation Discovered the Beauty and Terror of Science” (Pantheon)

No ano em que se comemoram os 50 anos da palestra de C. P. Snow sobre as duas culturas, esta obra é um magnífico exemplo da união dessas culturas ao relacionar a ciência e a arte do século XIX.

- DAVID LANDES, “A Revolução no Tempo” (Gradiva)

Do autor de “A Riqueza e a Pobreza das Nações”, outra grande obra da autoria do economista de Harvard, que é uma verdadeira história cultural do tempo e dos relógios.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Os Rostos do Poder

Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra.


No próximo dia 12 de Dezembro (sábado), pelas 17h 30m, será apresentado o livro Os Rostos do Poder, no Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, pelo Prof. Doutor Rui Alarcão.

STUPID DESIGN e NASCER DA EVOLUÇÃO

Dois curtos videos destes espectáculos no Museu da Ciência de Coimbra:



Oito competências-chave

1. Como é sabido, em 2001 o Ensino Básico Português sofreu uma reorganização curricular.

2. A lógica dessa reorganização, à semelhança doutras que foram realizadas noutros países, assenta, não em conteúdos, mas em competências.

3. A noção de “competência”, constante no Currículo Nacional do Ensino Básico vigente, tem levantado, entre os professores, inúmeros problemas de entendimento, de operacionalização e de utilização.

4. Não, não são (todos) os professores que entendem mal. A noção é que, tal como se apresenta, é equívoca. Isto é reconhecido, preto-no-branco, pelos principais mentores do Movimento de Reorganização Curricular por Competências (posteriormente, noutro texto, poderei apresentar algumas das suas explicações).

5. Face às muitas dúvidas levantadas pelos professores desde 2001 até ao presente, a tutela e os especialistas que advogam a noção tem divulgado inúmeros documentos que a abordam. Também se têm publicado muitos artigos em revistas de educação, bem como vários livros técnicos e de divulgação.

6. Uma das muitas dúvidas dos professores é a seguinte: qual o lugar dos conteúdos num ensino organizado por competências?

7. Têm os professores razões para expressarem tal dúvida, pois uma das “mensagens” (entre o explicito e o subliminar) que passa quando se aborda a noção de “competência” é que os conteúdos serão contemplados na condição de servirem para se adquirirem de competências, estas sim o cerne do ensino.

8. Que outra conclusão se pode tirar das seguintes frases retiradas do documento curricular acima referido: a competência “integra conhecimentos, capacidades, atitudes, estratégias…” e “a aquisição progressiva de conhecimentos é relevante se for integrada num conjunto mais amplo de aprendizagens e enquadrada por uma perspectiva que coloca no primeiro plano o desenvolvimento de capacidades de pensamento e de atitudes favoráveis à aprendizagem”?

9. Ainda assim, nesse documento, depois de apresentadas as competências gerais (que são dez) e a sua operacionalização transversal (que soma quarenta e seis), são apresentadas as áreas disciplinares com as respectivas competências (cujo número varia).

Mas, muito importante, reconhece-se a existência de áreas disciplinares, sinal, digo eu, de que há conhecimentos que podem e devem ser tratados com os alunos.

10. Ora, foi noticiado recentemente que o Conselho de Escolas, além de se preparar para apresentar proximamente uma proposta para nova revisão curricular do Ensino Básico (outra!), ela assentará em competências estabelecidas pela União Europeia.

11. Li que o presidente deste orgão consultivo do Ministério da Educação, sublinhou a necessidade de formarem áreas de competências, áreas curriculares com disciplinas ou conjuntos de disciplinas: "Se temos uma competência histórico-geográfica para desenvolver com os alunos, não precisamos de ter uma disciplina de História e outra de Geografia. Poderão juntar-se", exemplificou.

12. Apesar do exemplo não entendi bem; melhor não entendi a ligeireza com que se descartam disciplinas fundamentais, como a História e a Geografia, ao mesmo tempo que se introduzem estranhas temáticas como "empreendedorismo".

13. E muito menos entendi o que se segue: “O importante é que a nível do Ensino Básico se consigam desenvolver as oito competências-chave (...): comunicação na língua materna e em línguas estrangeiras, competência a Matemática e competências básicas em Ciências e Tecnologia, competência em Tecnologia Digital, Aprender a Aprender (ter competências para aprender sempre), competências sociais e cívicas, espírito de iniciativa e empreendedorismo, consciencialização da identidade cultural e a sua expressão."

Esperemos para ver o que se segue. Mas o que se segue será nesta linha, pois está estabelecido na União Europeia que assim seja.

Notas:
Para escrever este texto consultei um artigo do jornal Público, que se pode encontrar aqui. No De Rerum Natura escrevi dois textos sobre a questão das competências: aqui e aqui.

Pedro Nunes finalmente editado: entrevista com Henrique Leitão

A recente publicação de De Arte Atque Ratione Navigandi, de Pedro Nunes, é um momento singular nos estudos de História da Ciência portuguesa. O Jornal de Mathemática Elementar entrevistou Henrique Leitão, investigador do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia, Pólo da Universidade de Lisboa, e Coordenador da Comissão Científica encarregue da publicação das Obras de Pedro Nunes, pela Academia das Ciências de Lisboa. Reproduzimos essa entrevista por gentil autorização do Director.

Jorge Nuno Silva (JNS): Foi publicado há alguns meses o vol. IV da edição das Obras de Pedro Nunes, de título De arte atque ratione navigandi, que é geralmente considerada a mais importante obra de Nunes. Podes dizer-nos alguma coisa acerca disso?

Henrique Leitão (HL): O De arte atque ratione navigandi [Sobre a arte e a ciência de navegar] é habitualmente considerado o mais importante livro de Pedro Nunes, e por isso também muito possivelmente o mais importante livro da ciência portuguesa. É uma obra notável, que aguardava há muitos anos, na verdade há muitas décadas, uma edição moderna, com tradução e notas, como a que foi agora apresentada.

JNS: Por que é que este livro demorou tanto tempo – várias décadas – a ser publicado?
.
HL: Porque levar a cabo uma publicação deste género é um empreendimento muito especial, que exige a conjunção feliz de vários factores, uma conjunção que raramente se dá.

JNS: Quais factores?

HL: Bem, para começar, um trabalho deste tipo, como é a edição de obras matemáticas do século XVI, só pode ser empreendido devido a um enquadramento institucional único. Por um lado a Fundação Calouste Gulbenkian, que desde a primeira hora e ao mais alto nível (através de vários administradores e directores, mas sobretudo o Prof. Diogo de Lucena) se empenhou nesta iniciativa, financiando-a, acompanhando-a, e removendo todas as dificuldades que sempre surgem em projectos deste tipo. Por outro lado, porque a Academia das Ciências de Lisboa se acometeu a este projecto com toda a decisão. Quem chefia a edição é um distinto académico e matemático, o Prof. Fernando Dias Agudo, sem a liderança do qual pouco ou nada teria sido possível fazer. É bom que todos saibam que Portugal contraiu uma dívida enorme para com estas duas pessoas, porque sem eles seguramente não haveria edição moderna das obras de Nunes.
Depois do enquadramento institucional era preciso que existisse a competência técnica e científica para o fazer. E sobre isto o que tenho a dizer é que sou o coordenador da Comissão Científica, e tem sido para mim um prazer e uma honra, e mais que tudo, uma contínua aprendizagem, trabalhar com o notável grupo de especialistas que constituem a Comissão Científica, que além de muito competentes nos seus campos têm sabido manter um espírito de entreajuda e uma dedicação ao trabalho incansáveis.

JNS: Quer dizer que no passado não houve esta conjunção?

HL: Sim, acho quase nunca a houve. Parece-me que em tentativas anteriores às vezes havia dinheiro e interesse das instituições, mas não havia talento nem know-how; outras vezes havia o saber, mas não existiam os recursos materiais. Não se deve minimizar a dificuldade de uma edição destas. Contam-se pelos dedos das mãos os países que têm instituições e pessoas com a capacidade, a determinação, e o saber para se acometerem a empreendimentos deste tipo.

JNS: O aparecimento desta obra teve algum impacto fora de Portugal?

HL: Bem, é preciso ver que se trata de um livro muito técnico, de acesso difícil, e para mais está em latim com tradução portuguesa. Portanto, uma obra para especialistas. Dito isto, sim, os especialistas estrangeiros que conhecem a obra estão muito satisfeitos com o seu aparecimento. Mas o principal nem sequer é isso. O principal é que Pedro Nunes se tornou num objecto de estudo fora de Portugal. Há historiadores estrangeiros a trabalhar sobre a sua obra, há congressos internacionais, etc.

JNS: E em Portugal, qual tem sido a reacção à publicação do livro?

HL: Tem sido muito bem recebido, diria eu. Não só os especialistas e os colegas se têm mostrado muito interessados, mas também os meios de comunicação perceberam que se tratava de uma ocasião muito especial. Devo dizer que só tive umas raras decepções, de pessoas que passaram anos a lamentar-se de que este livro não existia e agora não tiveram qualquer palavra (nem de elogio, nem de crítica, nem de comentário) para saudar o seu aparecimento. Mas isso foram excepções. Em geral o livro tem sido muito bem recebido.

JNS: Podes dar-nos uma ideia do conteúdo do livro e por que é que é tão importante?

HL: Isso é quase impossível! É tanta coisa. Repara: é a obra-prima de um matemático que era muito criativo e que juntou o melhor que tinha feito num só livro…Mas, bem, vou tentar. No livro está a melhor análise e crítica dos problemas técnicos com que se debatia a cartografia do século XVI e a proposta (revolucionária) da projecção em latitudes crescidas; estão lançadas as bases da navegação teórica, com a apresentação detalhada dos princípios matemáticos dessa nova disciplina; está um estudo matemático da curva loxodrómica, a primeira curva com um ponto assimptótico no espaço real conhecida na história da matemática; está a proposta de novos instrumentos e procedimentos náuticos; está a primeira explicação matemática da história do relógio de Acaz; está a identificação de um conjunto de erros matemáticos no livro de Copérnico; está a mais importante análise do problema dos barcos a remos publicada entre Aristóteles e Euler, etc. etc. Não conheço nenhum outro livro científico de autoria portuguesa que se lhe aproxime em criatividade, brilhantismo e impacto.

JNS: Sabemos que foste o coordenador de uma equipa que trabalhou na publicação deste livro, mas toda a gente está sobretudo impressionada com tuas anotações, quase 300 páginas de notas e comentários pormenorizados e eruditos. Uma coisa de uma dimensão e uma profundidade muito invulgar entre o que é habitual ver-se feito pelos historiadores nacionais.

HL: O que se passa é que o livro é muitíssimo importante, mas não é de leitura fácil. Imediatamente me dei conta que para tornar o livro minimamente acessível era preciso explicar muitas coisas ao leitor, identificando fontes, fornecendo algum contexto, esclarecendo as múltiplas pistas de influência do texto, etc. Como o livro é extenso, isso acabou por traduzir-se em muitas notas. Mas gostava de sublinhar o essencial: são apenas Notas; não são os estudos pormenorizados que o livro ainda precisa e que agora se espera (melhor: se reclama) que os historiadores venham a fazer. Se eu tivesse que produzir estudos detalhados de tudo o que está no livro, 300 páginas não chegavam; seriam precisas 3000…

JNS: Há cerca de dois anos foste eleito para a Académie Internationle d’Histoire des Sciences, uma distinção muito rara. És o único historiador da ciência português actualmente membro. Isso teve a ver com o teu trabalho com este livro?

HL: Talvez não directamente com este livro, mas penso que com toda a edição das obras de Pedro Nunes, sim. Espero que a partir de agora se venham a eleger mais portugueses – por exemplo, especialistas em jogos matemáticos que fazem no nosso país uma investigação única no mundo!

JNS: Este é um momento singular para os estudos da história científica portuguesa.

HL: Sim, e embora eu seja parte directamente interessada, acho que consigo ser suficientemente frio e distante para julgar correctamente. E confirmo: sim, a publicação do vol IV das Obras de Pedro Nunes, o mais importante texto da nossa história científica, é certamente um momento especial nos estudos de história da ciência portuguesa.

JNS: E depois disto? O que vais fazer?

HL: Bom, tenho vários outros projectos em carteira, porque houve muitas coisas interessantes na história da matemática portuguesa que ainda estão completamente por contar. Há muitas obras e mesmo muitos matemáticos que ainda estão completamente inéditos. Talvez não exista nada com o nível de Pedro Nunes, mas é preciso nunca esquecer que as pessoas que habitualmente dizem que “não houve nada” na história científica do nosso país, não o dizem em resultado do seu estudo, mas simplesmente porque têm algum interesse (ideológico, político, etc.) investido na manutenção dessa ideia. Há muito ainda para contar. Uma coisa é certa: o Jornal de Mathemática Elementar será sempre o primeiro a saber as novidades!

JNS. Toma atenção, a promessa fica registada!!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

P53 A GUARDIÃ DO GENOMA


Novo texto do bioquímico António Piedade saído em "O Despertar" (na figura o p53 a examinar o DNA):

O nosso corpo é composto por muitos milhões de células. Estas resultaram da divisão de uma única célula, o ovo, ou zigoto, resultante da fecundação de um óvulo, da nossa mãe, por um espermatozóide, do nosso pai. Desde então, uma intensa e actividade de divisão celular ocupa uma significativa parte do tempo do ciclo de vida da maior parte de tipo de células dos diferentes tecidos e órgãos de que somos compostos. Estima-se um número astronómico de divisões da ordem das 10 mil triliões de vezes ao longo de toda uma vida (ver aqui).

Porque é que as células do nosso corpo se dividem tanto? Uma razão principal tem a ver com a necessidade em substituir aquelas células que, ao serviço das funções vitais, se degradam, se esgotam e deixam de estar capazes de contribuir para um estado de saúde. A maior parte das células, ao fim de um determinado tempo que varia de tecido para tecido (por exemplo, maior para as células cerebrais, menor para os glóbulos vermelhos), são “eliminadas” por uma espécie de morte celular programada que designamos por apoptose e que garante uma boa funcionalidade dos tecidos. O espaço que fica livre pela morte celular é ocupado por células resultantes da divisão de outras células “ainda boas”. Assim a velocidade de substituição é regulada (entre outros factores) pela densidade de células vizinhas: quando as células perdem o sentido do espaço, quando ficam sem tacto para com a geografia do tecido a que pertencem, então dividem-se sem regra, com uma gula desmesurada, violentando a arquitectura funcional, originando tumores que tanto podem ser benignos como cancerosos.

Refira-se, como curiosidade, que a morte celular maciça por apoptose ocorre em inúmeras situações ao longo do desenvolvimento do nosso corpo, como sejam a abertura de fendas e “rasgos” em terminados folhetos de células do embrião que fomos, dando origem às aberturas para os nossos olhos, para as narinas, etc.

Podemos pois afirmar que a morte celular é um processo necessário à vida harmoniosa de qualquer organismo pluricelular.

E agora surgem as perguntas: O que é que comanda esta morte celular? Que conjunto de mecanismos controlam o fado de cada célula tendo em vista a manutenção da estabilidade complexa do organismo? O que é que decide se uma dada célula entra em apoptose e “morre” ou, pelo contrário, inicia o processo de duplicação de conteúdos que caracteriza a divisão de um célula em duas iguais?

António Piedade

Há 30 anos (ver aqui e aqui), dois grupos de cientistas isolaram e identificaram uma proteína do citoplasma celular que migrava o mesmo que um marcador com o peso de 53 kDa (Da = Dalton é a unidade de massa atómica, que é aproximadamente equivalente à massa de um átomo de hidrogénio) num gel de electroforese de proteínas (SDS-PAGE). Apesar de hoje sabermos, com base na composição em aminoácidos, que a sua massa é cerca de 43,7 kDa, o valor então encontrado serviu para a baptizar com a designação p53. Ou seja, proteína com 53 kDa de massa, alcunha p53. Os seus descobridores associaram inicialmente a p53 com o desenvolvimento de tumores, mas muita tinta correu e muitas árvores foram abatidas desde então à custa das investigações efectuadas para compreender o papel desta proteína. Publicaram-se pelo menos 50 mil artigos nestes 30 anos sobre a p53: 4 artigos e meio por dia! ver aqui.

Ao longo deste trilho de árvores que se desfolharam em artigos sobre a p53, descobrimos que esta proteína globular desempenha um papel charneira, integrador e verificador da qualidade da informação genética da célula.

Sabemos hoje que a p53 está presente em inúmeras encruzilhadas do metabolismo celular, cabendo-lhe o papel de decidir o futuro da célula. Se a qualidade da informação contida no genoma celular estiver abaixo do reparável, devido, por exemplo, a mutações causadas por agentes cancerígenos, genotóxicos, então a p53 activará as vias que desaguam no evento apoptótico. Caso a estabilidade genética esteja assegurada garantindo uma aceitável transmissão da informação genética, para as células filhas, então a p53 activará os procedimentos que promovem a divisão celular se, claro está, esta for necessária para a coesão e funcionalidade dos tecidos onde a célula que a alberga está inserida. Numa outra perspectiva, funciona como uma espécie de supressor de tumores e daí a sua importância para o desenvolvimento de novas terapêuticas anticancerígenas (ver aqui ).

Esta guardiã da qualidade genómica e, consequentemente, proteómica da célula, está presente, com pequenas variações, em todas as formas celulares conhecidas (bactérias, protozoários, células eucariotas animais e vegetais, etc.). Isto implica que o aparecimento do protótipo da p53 é muito antigo na história da vida na Terra, sendo anterior à evolução e diferenciação das diversas formas celulares. Ou seja, a p53 rege o destino celular há mais de três biliões de anos.

Novos olhares sobre a História da Ciência em Portugal

Simpósio sobre História da Matemática na Academia das Ciências de Lisboa, na próxima Segunda-feira, dia 14 de Dezembro de 2009.

O Simpósio que tem por título Novos olhares sobre a História da Ciência em Portugal I: As Ciências Matemáticas, encerrará com a apresentação do vol. 4 das Obras de Pedro Nunes (De arte atque ratione nauigandi).

Programa:


9h30
Abertura. Presidente da Academia das Ciências de Lisboa
Prof. Doutor Eduardo de Arantes e Oliveira
10h00 Cmdt. José Manuel Malhão Pereira
«Os Cosmógrafos-Mor, o ensino da náutica, e as ciências matemáticas em Portugal».
10h45 Dr. André Ferrand de Almeida
«Expedições científicas e a cartografia do Brasil no séc. XVII».

11h30 Intervalo para café

12h00 Prof. Henrique Leitão
«Ciências matemáticas em colégios da Companhia de Jesus em Portugal, 1540-1759».
12h45 Intervalo para Almoço
14h30 Ten-Cor. José Paulo Berger
«A Matemática e a fortificação na formação dos Engenheiros Militares até à Guerra Peninsular».
15h15 Prof. João Filipe Queiró
«A Matemática na Universidade de Coimbra do século XVI aos princípios do séc. XX».

16h00 Intervalo para café

16h15 Prof. Luís Saraiva
«A Matemática nas Memórias da Academia das Ciências de Lisboa no século XIX».
17h30 Apresentação do vol. IV das Obras de Pedro Nunes.
Prof. Doutor Fernando Dias Agudo

A entrada é livre. Estão todos convidados a aparecer.

SMS porque, afinal, estamos a educar para a vida

Detenho-me no romance que Luísa Costa Gomes publicou recentemente e de que já aqui demos notícia. Apesar de ter por título Ilusão (ou o que quiserem), contém páginas de um realismo puro e... atroz sobre o ensino e a aprendizagem, sobre o funcionamento dos sistemas educativos ocidentais e o modo como as sociedades que os legitimam vêem a escola, as crianças, os jovens e os seus professores. E, a embrulhar tudo isto, as concepções de educação formal de alguns académicos e da generalidade dos decisores políticos, o discurso a que se agarram e a sua filiação epistemológica, marcadamente relativista, subjectivista e contextualista. No diálogo que se segue entre a dedicada professora Teresinha e o seu marido (páginas 30-32) podemos encontrar um cenário com todos estes ingredientes:

“Ao jantar, fez-me o relatório desses dois dias. «Cedo me apercebi de que não tinha meios para seguir profunda e verdadeiramente aqueles cinco alunos. Primeiro visualizei os meus objectivos, depois imaginei as estratégias e técnicas para mais adequadas à sua prossecução. Achei que devia negociar caso a caso o processo de ensino-aprendizagem. Propus aos alunos a iniciação de uma relação de diálogo biunívoco professor-aluno e de confiança mútua e depois aproveitei o ambiente criado para lhes dar a conhecer o projecto de contratos de leitura. Houve uma certa e natural resistência à ideia da obrigação de ler um livro à escolha para ganhar um ponto a somar à avaliação do período mas digamos que tive uma boa margem de sucesso, dado que aceitaram todos excepto o Fábio, o Márcio e o Dédalo. A Cindy não se pronunciou e a Jessica teve uma reacção em que exprimia uma agressividade normal. É normal que os alunos reajam com desconfiança e até um certo grau de violência verbal a uma proposta nova que lhes é feita na ecola. Faz parte do psiquismo do ser humano essa relutância em mergulhar no desconhecido. Elaborei então uma reapreciação da situação e dos novos desafios que se me colocam. Decidi concentrar-me na Jessica. Anteontem dei-lhe uma hora suplementar de apoio a Português, penso que a relação de ensino-aprendizagem, firmemente ancorada numa boa relação afectiva de responsabilidade e de autonomização permitiu grandes sucessos. Ela ainda claudica muito na composição, e temos teste para a semana. Distrai-se facilmente e é virtualmente impossível fazê-la desligar o telemóvel. Então ocorreu-me um pensamento, daqueles que se têm uma vez na vida, sabes? Porque não fazê-la escrever SMS? Porque não usar a sua experiência na comunicação bem sucedida com os seus pares?». »Parece-me conveniente», disse eu. «É uma coisa que faz parte da vida, não é uma matéria abstracta. Para a motivar tenho de ter uma estratégia em que ela veja o resultado prático rapidamente. Para lhe estimular a auto-estima. Sem auto-estima, mais vale arrumarmos já o material didáctico. Porque isso é que é uma estratégia de sucesso. Não podemos estar à espera de que eles tenham paciência para aprender coisas que não têm a ver com a vida deles, com a vida de todos os dias. Eles têm de sentir que a escola é deles. Afinal é aí que passam noventa por cento do seu tempo.» «O ensino tem de ser centrado no aluno!», ajudei. «Não vês que é exactamente o que estou a fazer? E disse à Jessica: «Fazes uma composição como se estivesses a escrever mensagens aos teus amigos. Experimenta. E ela aceitou o desafio.» A Teresinha estendeu-me então meia folha, mal rasgada ao meio e muito amarrotada: «k ir ao kumersial? Tou tesa!vi la uma caia bué! Bora ao kafe! Ta de xuva! Fdse! Tnsmoney? Não! Atao nao da.» «É um princípio», disse eu. «Isto é uma lança em África», disse ela. «A Jessica é extremamente viva e esperta e aprende depressa. Tem aspectos cognitivos muito pragmáticos, muito ligados à vida de todos os dias e uma imaginação concreta com potencial. Consegui finalmente que fizesse um contrato de leitura para a disciplina. Depois de uma negociação interessante, comprometeu-se a ler os bilhetes de autocarro e os menus do McDonald. São coisas da vida de todos os dias e afinal nós estamos a educar para a vida."

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Substitutos? Naaah!

Apareceu recentemente nos cinemas um filme intitulado "Substitutos" ("Surrogates" no original em inglês). Segundo esse filme, os robôs viveriam por nós apesar de comandados pelo nosso cérebro através de uma ligação remota. Ficção científica e show-business. O habitual em Hollywood.

Podem ver aqui o trailer do filme:



É preciso saber distinguir a ficção da realidade. Os robôs representados no filme estão fora do nosso alcance, isto é, nem são possíveis hoje, nem é realista admitir que sejam tecnicamente possíveis em menos de 30 anos.

No entanto, a robótica actual tem sido usada para ajudar as pessoas. Não para as substituir, mas para permitir que realizem tarefas de uma forma mais simples e mais confortável. Um BOM exemplo é a utilização de robôs para melhorar a performance física daqueles que perderam qualidades motoras: por acidente, doença ou devido à idade. A Honda, por exemplo, lançou recentemente um protótipo que permite auxiliar a locomoção humana.



:-)

Professores? Mas o que é isso?

Do outro lado do Atlântico, chega à caixa de correio do De Rerum Natura a brincadeira que, a seguir, se reproduz:

O ano é 2209 - ou seja, daqui a 200 anos - e uma conversa entre avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:

“Vovô, por que o mundo está acabando?”.

A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom vem a resposta:

“Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo."

“Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?”

O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.

“Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?

“Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.”

“E como foi que eles desapareceram, vovô?”

“Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa. Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos. Estes foram ensinados a dizer: "estou pagando e você tem que me ensinar", ou "para quê estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você", ou ainda "meu pai me dá mais de mesada do que você ganha." Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo gerenciar a relação com o aluno. Os professores eram vítimas da violência física, verbal e moral que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo. Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. "Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular", diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de ideias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério. Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor. As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas bem sucedidas eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas... Ah, mas teve um fator chave nessa história toda. Teve uma época longa chamada ditadura, quando os milicos colocaram os professores na alça de mira e quase acabaram com eles, foram perseguidos, aposentados, expulsos do país, em nome do combate aos subversivos e à instalação de uma república sindical no país. Eles fracassaram, porque a tal república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram uma tal de educação libertadora que ninguém nunca soube o que é, fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos... Foi o tiro de misericórdia nos professores. Não sei o que foi pior se os "milicos» ou os tais «subversivos»."

“Não conheço essa palavra. O que é um milico, vovô?"

“Era, meu filho, era, não é. Também não existem mais..."

Comerciais divertidos e... tecnológicos.

Intel inside: imagine the possibilities


What we mean by a star at Intel


Team Work at Intel


Co-worker at Intel


Sony robot


:-)

O que vale um livro?

Texto de João Boavida, na sequência de outro aqui recentemente publicado: Aparição, há cinquenta anos.

Um livro pode ser muita coisa. Alguns, os melhores, são aqueles que, pela sua força, pela profundidade com que nos atravessam nos obrigaram a profundas reformulações, nos despertaram para evidências antes ignoradas e nos formam a personalidade. Em certos casos transformam as nossas vidas. Às vezes é uma questão de oportunidade, de ocasião. Felizes os que encontram o livro necessário na hora certa.

Vem isto a propósito da Aparição, de Vergílio Ferreira, de que antes falei. Muitos jovens foram obrigados a lê-lo nos liceus e terão bocejado ou dito mal do autor; outros terão tido sentimentos muito diferentes. Para mim foi uma obra fundamental. Apanhou-me com quinze ou dezasseis anos e foi um livro com o qual andei em luta mas que me deixou um rasto fundo para o resto da vida.

A melhor homenagem será talvez dar conta da emoção daquela leitura primitiva, e dos sentimentos ambíguos e contraditórios que me provocou. Por um lado, a incompreensão ainda de muitas passagens do texto, e do sentido profundo que me parecia escapar e simultaneamente julgava intuir com alguma clareza; por outro a força profunda que o texto transmitiu e que me tocou fundo. A intensidade das ideias e dos sentimentos, mais intuídos que explicados ou descritos, por um lado, e por outro a espessura das palavras, a bela densidade que elas conseguiam e que arrebatava. Tudo isto foi para mim uma experiência inigualável. Devo a este livro o impacto profundo da descoberta do eu, essa condição indispensável para toda a vida intelectual e moral. Pela primeira vez senti a força da pessoa que eu era, e ao mesmo tempo percebi a sedução e o perigo que isso poderia representar. E, portanto, como a aventura da vida de cada um era simultaneamente espantosa e angustiante, e como quase tudo estava nas nossas mãos.

Para um jovem a sair da adolescência, que contributo maior se pode esperar de um livro? A descoberta do eu até à evidência mais frontal e quase insuportável de nós face a nós mesmos; a força das ideias e a sua profunda e insuperável relação com a pessoa que há em nós, com o que somos e podemos vir a ser. E ainda a qualidade estética que transforma a obra literária na realidade pura; qual dos contributos foi mais importante?

Lembro-me das longas sugestões provocadas pela capa de Sebastião Rodrigues, naquela segunda edição da Portugália: uma estilização pesada do templo de Diana e um sol alentejano soberano e dominante. E a incredulidade perante a frase da contra-capa em que Gaspar Simões dizia: “eis-nos sem dúvida perante um dos melhores romances escritos em língua portuguesa depois de Eça de Queirós”. Como podia Gaspar Simões dizer tal coisa? E, todavia, e minha emoção face à força do texto ali estava para o confirmar. A verdade é que, se em termos estéticos era diferente do que lera até então, o principal do livro não estava aí, embora, como se sabe, não se possa separar o conteúdo da forma. Mal do livro que não consegue harmonizar estas duas componentes. Mas este conseguiu-o estabelecendo connosco uma relação difícil mas profunda, uma espécie de sucção em que a evidência do eu, a “aparição” do eu ao autor e o que isso significava seduzia e perturbava, mas também projectava e estimulava de uma maneira como nunca antes tinha sentido.

Como disse, há momentos certos no crescimento e na vida para ler um livro, e há momentos errados, ou menos adequados. Tive a sorte de ler Aparição na altura certa. Ou talvez um pouco cedo, quem sabe? Mas aquilo a que me obrigou foi uma das razões da sua força e da sua profunda e duradoura influência. Naquela idade, foi um dínamo para a minha formação. Como esquecê-lo?
João Boavida
Imagem: Leitura, de Renoir

"Cagnotte" e lugares para o futebol

As crianças e os jovens devem estar na escola? Com certeza. Mas, será legítimo recorrer a todos os meios para conseguir esse fim que é tê-los numa sala de aula?

Em França está a ser implementada uma medida destinada a diminuir o absentismo que tem, entre os seus defensores convictos, reitores, o Alto Comissário para as Solidariedades Activas, o ministro da Educação, etc. Essa medida, noticiada na TSF, é a seguinte:

"E se a turma do seu filho ganhasse um jackpot, digamos 10.000 euros ao fim do ano como prémio pela assiduidade à escola, aplaudiria?

Pense duas vezes... A experiência - cagnotte, como lhe chamam os jornais franceses, enquanto a experiência vai alastrando (...) - começou ontem em três escolas profissionais (...). Cagnotte (...) é do jargão do jogo a dinheiro. O conceito é simples: se toda a turma for assídua a escola põe no bolo, no monte, 2000 euros. A coisa pode chegar ao jackpot de 10.000 euros no fim do ano se todos atinarem (...).

Os sindicatos dos professores pediram já a retirada desta medida, considerando que a assiduidade é o primeiro dever do aluno. Uma federação de estudantes liceais contesta a medida que define como inútil, estúpida e perigosa, e propõe a redução do número de alunos por turma, por exemplo (...).

A experiência está lançada, pode alastrar a metade das escolas profissonais da região de Paris. A polémica enche os jornais franceses que vão dando notícia, entretanto, de outros truques de escolas, porventura pressionadas pela exigência de estatísticas favoráveis. O liceu de Marselha, por exemplo, já começou a oferecer lugares para o futebol (...) para os alunos mais assíduos."
Pode o leitor ouvir a notícia aqui e valerá a pena ouvi-la, pois nela se avançam outras medidas, aparentemente mais construtivas, para ter os alunos na escola.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Os gastos (inúteis) na educação

Convidado a comentar o recente estudo sobre o nível de literacia na leitura dos portugueses, do qual acabámos de dar conta no De Rerum Natura, João Salgueiro referiu que o problema não se resolve com um investimento maior em Educação.

Afirmou este economista: "Se há indicador em que não estamos mal é no volume de recursos que dedicamos à Educação e temos dos piores resultados no desempenho". A causa "está no funcionamento do sistema de educação e no sistema económico".

A mesma opinião foi formulada, há uns anos, por um outro economista, Paulo Trigo Pereira, em entrevista ao jornal Público: "Opta-se, por aumentar a despesa pública em educação. Só que isso pode não resolver nada. Aliás, o que vemos é que Portugal gasta mais na educação por aluno do que grande parte dos países europeus (...) o acréscimo de despesa não está a ser orientado para aquilo em que é mais eficaz do ponto de vista do sucesso educativo. Com o problema de finanças públicas que temos, é fundamental gastar melhor. Mas para isso é preciso conhecer a realidade, ter dados, analisá-los, ter metas quantificadas e ver se foram cumpridas ou não."

Um "mundo às avessas"

"O que se passa hoje no ensino é um reflexo daquilo que nós vivemos também na sociedade. E o que se passa no ensino é exemplo do absurdo e do mundo às avessas.

Esta expressão do mundo às avessas é uma expressão clássica de Gil Vicente e de Luís de Camões. E porque é que eu digo que vivemos num mundo às avessas? É porque, no fundo, o professor não tem de reflectir sobre aquilo que é o seu ensino e as suas responsabilidades do acto de ensinar, mas está, neste momento transformado num servidor do estado, tem que obedecer, tem que cumprir, tem de aceitar aspectos extremamente imbecilizantes que aparecem nos programas quer do básico quer do secundário e que testemunham (…) uma grande ignorância (…) uma falta de amor pela língua portuguesa, pela cultura portuguesa, pelo património que herdámos.

E todas estas alterações são feitas com palavras que se envolvem numa capa protectora, que é o progresso e a democracia. Com elas tentam fechar todas as pessoas que querem fazer alguma crítica porque aqui estamos a ir contra o progresso e a democracia. E sabemos antecipadamente que qualquer critica que façamos não vai ter qualquer resultado."

Estas palavras são da Professora Maria do Carmo Vieira, que Mário Crespo, Henrique Medina Carreira e Nuno Crato convidaram para uma conversa sobre a Educação em Portugal no programa de televisão Plano Inclinado, que pode ser visto na íntegra
aqui.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...