quarta-feira, 6 de agosto de 2008

JARDINS BOTÂNICOS: DE CHELSEA A COIMBRA


No bairro de Chelsea, em Londres, talvez o lugar mais conhecido pelo grande público seja o Estádio de Stamford Bridge, o campo da equipa "blue" onde José Mourinho ganhou fama assim como os jogadores portugueses Ricardo Carvalho e Paulo Ferreira (agora a equipa do Chelsea é treinada por Luís Filipe Scolari e a nova vedeta é Deco). Mas o lugar mais conhecido na história da ciência é um pequeno jardim (ver foto), um jardim quase secreto pois não tem a multidão de turistas apesar de estar praticamente no centro urbano.

O nome do jardim é curioso: "Chelsea Physic Garden", que se pode traduzir por Jardim da Física ou Jardim Físico de Chelsea. A palavra física remete para medicina, pois os médicos antigos eram chamados físicos (em inglês "physicist", físico, e "physician", médico, são ainda hoje termos semelhantes). O jardim foi fundado em 1673 por uma Sociedade de Boticários, com o fito de ensinar aos jovens farmacêuticos as plantas medicinais. Hoje alberga, apesar do seu espaço diminuto, quase 5000 espécies botânicas, acarinhadas por jardineiros e cientistas botânicos. Está aqui a maior oliveira de Inglaterra no exterior, assim como espécies botânicas vindas da Madeira e que são improváveis a grandes latitudes. O microclima especial tem a ver com a proximidade do Tamisa, já que o Chelsea Embankment confina com o jardim. Desde há 25 anos que o jardim está aberto ao público, embora só em certos dias da semana e só de tarde.

Apesar de antigo, não se trata porém do jardim botânico mais antigo de Inglaterra. Essa honra cabe ao Jardim Botânico da Universidade de Oxford, que data de 1621. Mas mesmo este não é o mais antigo do mundo, pois esta honra cabe ao Jardim Botânico da Universidade de Pisa seguido pelo Jardim Botânico da Universidade de Pádua, que datam respectivamente de 1544 e de 1545. Este último reclama a maior antiguidade por o primeiro já não estar no sítio original...

Em Portugal os jardins botânicos são bem mais recentes. O mais antigo é o Jardim Botânico da Ajuda, em Lisboa, que foi fundado em 1768 com a orientação do professor de Pádua que tinha vindo para Portugal Domingos Vandelli e que, nascido e formado em Pádua, conhecia bem o jardim da sua terra natal (há, portanto, uma ligação do mais antigo jardim português ao que se reclama mais antigo do mundo). Hoje pertence ao Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, mas não feito para estudos universitários,l mas sim para prazer e instrução da família real, que assustada com o grande terramoto se tinha mudado para a Ajuda. E o segundo mais antigo tem também a mão de Vandelli: é o belo Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, criado com a Reforma Pombalina de 1774, esse sim criado de raiz - palavra aqui muito apropriada - para estudos superiores.

Curioso é que o Jardim Botânico de Coimbra tenha uma ligação com o de Chelsea. Pois a primeira proposta de criação de um jardim botânico em Portugal partiu do médico judeu, nascido em Bragança e formado na Universidade de Coimbra Jacob de Castro Sarmento. Sarmento foi um "estrangeirado" no século das luzes: exerceu Medicina em Londres, foi membro da Royal Society (que vai vai fazer 350 anos em 2010), traduziu Newton para português e doutorou-se pela Universidade de Aberdeen. No ano de 1730 Sarmento propôs a criação de um jardim botânico em Coimbra que imitasse o de Chelsea, tendo chegado a enviar algumas sementes do herbário de Chelsea. O plano final do jardim de Coimbra acabou por vir a ser outro (não sei o que aconteceu às sementes). O judeu português faz parte de uma galeria de judeus nacionais que emigraram para o Reino Unido e aí se fixaram. Por exemplo, o dramaturgo Harold Pinter, nascido em Londres e recente Prémio Nobel da Literatura, é descendente de judeus sefarditas portugueses, sendo o apelido Pinter uma corrupção de Pinto.

Bem, se o leitor não puder passear neste ou noutro Verão pelo Jardim Físico de Chelsea, lembre-se que há um outro jardim botânico, talvez injustamente secreto, perto de si. Fará bem em procurá-lo. Hoje muitos jardins botânicos de todo o mundo estão unidos em rede, a Botanical Gardens Conservation International, em prol da conservação da Natureza.

UM GALILEO PORTUGUÊS


Galileo, o principal papel no teatro musical “We will rock you, baseado em músicas dos "Queen", que está há sete anos no Dominion Theatre em Tottenham Court Road, Londres, é actualmente desempenhado por um português, o cantor e actor Ricardo Afonso. A acção passa-se no ano de 2057 quando o mundo está dominado por uma ditadura que proibiu a música rock e até os instrumentos musicais, e Galileo é o salvador, que era esperado por uma trupe dos chamados “boémios”. No fim, canta com alegria esfusiante, a “Rapsódia Boémia” com música e letra do falecido Freddie Mercury, onde surgem a certa altura os versos:

“I see a little silhouetto of a man,
Scaramouche, scaramouche will you do the fandango-
Thunderbolt and lightning-very very frightening me-
Galileo, galileo,
Galileo galileo
Galileo figaro-magnifico”.

Recomendo o "show" a quem passar por Londres e a actuação de Ricardo Afonso é um dos motivos desta minha recomendação. Ricardo Afonso, que quase faz esquecer Mercury, nasceu em Luanda e trabalhou no Teatro Aberto em Lisboa e em espectáculos em cruzeiros antes de se fixar em Londres para viver o actual êxito. O seu desempenho tem sido muito louvado pela exigente crítica londrina. Não é o primeiro nem será o último artista português que emigrou para alcançar êxito lá fora...

A propósito de Galileo, recordo que o guitarrista Brian May dos "Queen" é doutorado em astrofísica, tendo recentemente a sua tese sobre luz zodiacal sido publicada em livro pela Springer (também recentemente foi nomeado chanceler da Universidade John Moore em Liverpool). O seu interesse pela ciência está bem patente no seu sítio na Internet, que até mostra imagens do recente eclipse solar. É desse mesmo sítio que retirei a foto reproduzida em cima de Ricardo Afonso, que está a fazer reviver várias famosas músicas de May, Mercury e dos outros “Queen”.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

TOO THIN TO WIN?

O blogue "Comer bem até aos 100..." analisa a corrida presidencial norte-americana do ponto de vista da nutrição: aqui.

Afinal a história não acabou

Fukuyama tornou-se famoso com o artigo, depois transformado em livro, "O Fim da História e o Último Homem". Além de defender a sua ideia hegeliana de um modo muitíssimo superficial, a própria ideia sempre me pareceu implausível e fundamentalmente sonhadora.

Aparentemente outras pessoas pensam o mesmo e acaba agora de sair um livro de Kagan, com o título "O Regresso da História e o Fim dos Sonhos". Uma curta mas informativa recensão de James Kirchick (da excelente revista The New Republic) está aqui.

O que é a metafísica?

Muitas pessoas tendem a pensar que a metafísica é uma espécie de ocultismo, ou uma espécie de física do sobrenatural. Isto acontece em grande parte porque quase não temos no nosso país bons livros introdutórios de filosofia. Mas quem está interessado em saber o que é a metafísica dispõe agora de uma série de traduções de Vítor Guerreiro, que publiquei recentemente na Crítica. São excertos de livros introdutórios de filosofia e dão ao leitor, de maneiras diferentes, uma excelente ideia do que é a metafísica. Os textos são os seguintes:

De todos, só o último é de acesso gratuito. E porquê? Porque a tradução destes três textos custou à Crítica mais de trezentos euros, e isto porque a Crítica paga as traduções a cerca de metade do preço normal. A única maneira de pagar ao tradutor é pedir ao leitor que pague se quiser ler.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

COMO TORNAR-SE BATMAN?


A propósito do recente filme "The Dark Knight" tem-se falado mais do Joker do que do Batman. Mas é do Batman que fala o próximo livro do neurocientista canadiano (professor na Universidade de Victoria) E. Paul Zehr, "Becoming Batman: The Possibility of a Superhero" (The John Hopkins University Press).

O jornal britânico "The Independent" de 30 de Julho passado, no artigo "From zero to hero" de Simon Usborne. levanta um pouco o véu sobre o livro a sair ainda este ano. Declarou a esse jornal o Prof. Zehr, que é um fã do Batman a ponto de em pequeno se vestir com o fato desse superherói: "O que torna Batman um grande superherói é o facto de ele ser um humano sem qualquer superpoderes. Não nasceu noutro planeta nem foi mordido por uma aranha mutante; simplesmente tem muito dinheiro e muita habilidade. Mas ninguém tinha avaliado se era ou não possível uma pessoa tornar-se Batman - eu queria analisar essa possibilidade cientificamente e cheguei à resposta".

A resposta é sim. Usando os seus conhecimentos sobre o cérebro e o corpo humano (o professor é também perito em artes marciais) pensa que sim, embora seja muito difícil. Julga que demoraria de 15 a 20 anos de treino adequado, começando o mais cedo possível. O cérebro deve ser capaz de responder aos mínimos movimentos, exercendo total domínio sobre o próprio corpo. Os seus olhos devem ser capazes de ver pormenores numa cena, tal como um detective policial, e de ter a percepção adequada do movimento, tal como um excepcional jogador de futebol (um misto de Sherlock Holmes e Cristiano Ronaldo, portanto). Para isso e para muito mais, Zehr calcula que seja necessária uma dieta especial, de 4000 calorias diárias (60% de hidratos de carbono, 25% de proteínas e 15% de gordura), o dobro das necessidades normais.

Só falta saber se há mesmo quem se queira transformar em Batman. E falta, claro, o livro sobre como se transformar em Joker...

Parabéns, Carlos!

Notícia do Público de hoje:

O físico Carlos Fiolhais é o cientista português com o artigo mais citado em todo o mundo. Ler o resto...

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA 3D



Já está nos cinemas de todo o planeta (em breve também nos cinemas portugueses) uma nova versão do clássico de Júlio Verne de 1864 "Viagem ao Centro da Terra". Desta vez a novidade é o facto de ser um filme de acção com actores reais que pode ser visto em 3D (em Portugal há vários cinemas equipados para projecção 3D digital). O 3D já não é novo no grande ecrã, mas a tecnologia tanto da projecção de imagens como dos óculos melhorou a tal ponto que Hollywood promete para breve mais filmes do mesmo género.

O guião do filme de Eric Brevig, apesar de tomar as suas liberdades, é largamente inspirado no livro de Verne. No original era um cientista alemão que, com o seu sobrinho, entrava no interior da Terra na Islândia. Agora trata-se de um geólogo americano (Brendan Fraser), a história passa-se nos tempos de hoje - que faz o mesmo com o seu sobrinho (Josh Hutcherson). Em vez de um guia islandês, agora há uma guia islandesa ( Anita Briem, uma jovem actriz da mesma nacionalidade) que, no fim, e como era fácil prever, se apaixona pelo cientista.

Boa parte da trama de Verne está lá, incluindo o grande oceano subterrâneo, o "mundo perdido" à la Conan Doyle com dinossauros e tudo, a jangada apanhada por uma tempestade e até a saída pela boca de um vulcão italiano. Vê-se já deste resumo que há muito mais ficção do que ciência (há grandes erros, como o trecho completamente delirante das pedras magnéticas que flutuam!), mas, de vez em quando, lá vêm uns apontamentos interessantes de geologia.

O filme é de acção, muita acção, o que lhe traz e vai trazer muito público juvenil. Parece que existe um parque de diversões no interior da Terra. A cena louca dos comboios mineiros faz lembrar o Indiana Jones. Os efeitos 3D aumentam a emoção por exemplo quando trazem para perto do espectador as mandíbulas do Tiranossauro Rex ou a boca de uma feroz planta carnívora. Para os adultos, é um filme para levar os sobrinhos ou os filhos (a sala de cinema não é o interior da Terra mas também faz escuro), para além claro de mostrar a "novidade" do 3D. Mas é apenas um filme de férias e não se lhe peça mais do que isso...

domingo, 3 de agosto de 2008

A (Des)Ordem dos Professores


O nosso colaborador habitual Rui Baptista, na continuação do seu post anterior, esclarece sobre a necessidade de uma Ordem dos Professores:

Acabo por achar sagrada a desordem do meu espírito”.
Jean Rimbaud

Um dos óbices levantados à criação de uma Ordem dos Professores tem residido no facto de ser entendido que o professorado não encaixa na tipologia das profissões havidas como liberais “lato sensu”, porque exercidas exclusivamente por conta própria. Contudo, uma simples consulta à Enciclopédia Portuguesa e Brasileira não se mostra tão restritiva: “Liberal, diz-se da profissão como a magistratura, a medicina, a advocacia, o ensino por oposição a profissões industriais e comerciais”.

No desejo de encontrar o fio de Ariadne de uma controversa questão, afadiguei-me como postulante em buscas aturadas em fontes merecedoras de confiança. Deparei-me então com um parecer do Dr. Lopes Cardoso, à época bastonário da Ordem dos Advogados: “É necessário que, mesmo quando exercida em regime de contrato de trabalho, essa profissão seja reconhecida socialmente como relevando de grande valor precisamente porque exigindo, pelo menos, uma independência técnica e deontológica incompatível com uma relação laboral de pleno sentido. Com efeito, como tem sido definido doutrinalmente, a noção jurídica de subordinação aparece no direito moderno como perfeitamente compatível com a independência técnica do assalariado" (Cadernos de Economia, Publicações Técnico-Económicas, ano II, Abril/Junho de 1994). Assim, o professor com uma licenciatura satisfaz o requisito de produzir trabalho de natureza intelectual que deve ser reconhecido e valorizado socialmente.

Surge agora a Fenprof na Net, em 20 de Junho deste ano, a formular a pergunta: “Contribuirá uma ‘ordem’ para valorizar a profissão docente e unir a classe?” Considerando eu que sim e a Fenprof que não, devem ser colhidos dados de fontes mais credenciadas que meras opiniões pessoais ou ao serviço de interesses institucionais ou mesmo políticos. Um mero, mas elucidativo exemplo: “A Fenprof admitiu hoje repetir no próximo ano, por altura das eleições legislativas, a grande manifestação de docentes de Maio passado, prometendo apresentar uma ‘carta reivindicativa’ aos partidos políticos candidatos” (Sol, 31/Julho/2008). Ou seja, para além da tentativa em pôr novamente os professores ao serviço de uma certa orientação socioprofissional, assiste-se, outrossim, à desvalorização do contributo de outras forças da plataforma sindical e de movimentos de docentes não alinhados na manifestação dos 100 mil professores. Hoje, mais do que nunca, é pretendida a proletarização da classe docente, através da renúncia a uma deontologia profissional que salvaguarde as boas práticas da profissão e a sua “legis artis”, a exemplo de outras profissões, de idêntica responsabilidade e, por vezes, de menor exigência académica (v.g., Ordem dos Enfermeiros), tuteladas por ordens profissionais mesmo levando em linha de conta o facto de a nova Lei-Quadro das Ordens Profissionais ter amputado às futuras associações públicas a acreditação de cursos reconhecidos oficialmente.

Mas regressemos à pergunta da Fenprof. Segundo um estudo nacional de 2006, elaborado pelo Instituto Politécnico de Castelo Branco, cerca de 80% dos professores inquiridos “consideram importante a existência de uma Ordem”. Por outro lado, as 7857 assinaturas de professores na petição apresentada na Assembleia da República, em 2004 para a criação de uma Ordem dos Professores parecem não suscitar dúvidas sobre o interesse de uma parte substancial da classe docente na criação da Ordem.

Com o mesmo direito que assiste à Fenprof em fazer a pergunta, cabe-me perguntar: Não será o momento de pôr em causa a contribuição dos sindicatos para valorizar a profissão docente e unir a classe? Se não nos ativermos a meras questões salariais e horários de trabalho cometidos na Constituição aos sindicatos a resposta será sim. A dignidade docente não se compadece, por exemplo, com manifestações de rua pautadas por comportamentos incompatíveis com o estatuto de educadores.

O Prof. António Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa, numa conferência realizada no Brasil, em Outubro de 2006, a convite do Sindicato dos Professores de São Paulo, intitulada “Desafios do trabalho do professor no mundo contemporâneo”, teceu valiosas considerações, de que faço o seguinte extracto:

“O primeiro desafio é a ideia de uma melhor organização da profissão. Os modelos de organização dos professores, e em particular dos modelos sindicais – falo da Europa que conheço melhor -, não têm sido capazes de atender aos grandes debates da profissão e aos grandes debates da escola. Isto é, eles não se renovaram suficientemente ao logo dos últimos 30 ou 40 anos. Ficaram um pouco prisioneiros de um combate num plano mais macro, que é um plano importante, sobre questões salariais, sobre determinadas conquistas dos professores, um plano absolutamente essencial. Mas eles não conseguiram criar um modelo de organização mais centrado nas escolas.

A profissão tem um deficit grande de organização no interior das escolas. Enquanto outras profissões conseguiram manter as duas camadas, uma mais macro, a exemplo das grandes ordens dos médicos, dos farmacêuticos ou engenheiros, que conseguiram manter um nível de debate político macro muito forte, mas isso não os impediu de terem modelos de organização nas instituições muito mais fortes do que os nossos. Os modelos de organização dentro das escolas são muito débeis, muito burocráticos. E isso tem-nos prejudicado muito”.

Pela analogia com outras profissões de igual merecimento social e igual exigência académica, só através de uma ordem profissional serão os docentes capazes de se libertarem de uma acção sindical projectada para além de competências plasmadas na Constituição Portuguesa.

sábado, 2 de agosto de 2008

Metamorfose


Da coluna electrónica "What's New" do físico Bob Park, da Universidade de Maryland, EUA, de ontem: ´

"METAMORPHOSIS: INFAMOUS SERBIAN FUGITIVE ARRESTED. Thirteen years after his indictment in connection with the Srebrenica massacre and the deadly siege of Sarajevo, Radovan Karadzic was found with a beard and a new identity living openly in Belgrade. How could a mass murderer support himself for 13 years without drawing on his past? No problem. He practiced alternative medicine, which requires little more than a lack of scruples. He was fully qualified."

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Medição ou Utopia


Foi Lord Kelvin quem disse "When you can measure what you are speaking about, and express it in numbers, you know something about it; but when you cannot measure it, when you cannot express it in numbers, your knowledge of it is of a meager and unsatisfactory kind". Mas o que é medir? Transcrevemos, com os devidos agradecimentos, o texto de Carlos de Sousa (do Centro de Apoio Tecnológico à Indústria Metalomecânica) e Maria Teresa Restivo (da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto) sobre a medição publicado na Revista Electrónica de Estudos sobre a Utopia, n.º 4 (2005).

"Those to whom the king had entrusted me, observing how ill I was clad, ordered a tailor to come next morning, and take measure for a suit of clothes. This operator did his office after a different manner from those of his trade in Europe. He first took my altitude by a quadrant, and then, with a rule and compasses, described the dimensions and outlines of my whole body, all which he entered upon paper; and in six days brought my clothes very ill made, and quite out of shape, by happening to mistake a figure in the calculation. But my comfort was, that I observed such accidents very frequent, and little regarded."

Jonathan Swift, Gulliver's Travels - Part III: A Voyage to Laputa

Medir um homem desmesuradamente grande como é Gulliver entre os Liliputianos implica alterar o hábito de classificar uma dimensão humana à escala de quem mede. A altura desse humano anormalmente alto poderá passar a chamar-se altitude. Já não se recorre à tradicional fita métrica, mas sim a instrumentos de localização geográfica.

Se Gulliver descrevesse hoje estas medições, quem sabe se falaria da utilização de um sistema GPS? Por outro lado, medir algo de cujo valor temos uma ideia preconcebida levará a que consideremos mais facilmente o valor que esperamos em vez do realmente medido.

Será então oportuno questionar – e de acordo com o Vocabulário Internacional de Metrologia, (VIM, 1996): O que é a medição? Medir, o que é? Será obter um valor tão exacto quanto possível? Mas o que é “exacto”? E o que é o “possível”?

Para medir são necessários três intervenientes:
• O objecto a medir;
• O instrumento de medição (ou vários);
• O operador (que além de medir vai também calcular).

Ao efectuar uma medição há o recurso a uma experiência prévia, tanto quanto à destreza que o equipamento de medição exige, como aos valores esperados (ordem de grandeza) e às unidades utilizadas (quilómetros, metros, milímetros, micrómetros…).

Mas, além do objecto a medir, há que considerar o instrumento de medição. Ora, o instrumento de medição é, por definição, algo frágil, sujeito a alterações devidas a condições do ambiente e dependente de uma avaliação que teria já sido feita por outro instrumento – o padrão – e esse instrumento é muito caprichoso! Parece dar resultados mais ou menos aceitáveis em função da sua “simpatia” para com o operador. É assim que acontece: o instrumento e o operador estabelecem uma relação de cumplicidade, podendo induzir um resultado função dessa relação.

Temos, portanto, vários binómios:
• Primeiro binómio: “instrumento – operador”;
• Segundo binómio: “objecto – instrumento”;
• Terceiro binómio: “operador – objecto”.

Se juntarmos tudo, mais as condições ambientais, mais os cálculos, então teremos um polinómio bastante complexo!

Quando se obtém o resultado de uma medição, sabemos que o que obtivemos é somente uma estimativa, eventualmente passível de correcção, com um valor centrado num domínio de incerteza (GUM, 1995)! Mas será sempre assim? Não, por vezes é pior!

Por vezes (muito frequentemente) temos um valor e não sabemos a incerteza, o que significa que o valor medido tem pouco significado porque nem sequer sabemos se esse valor está de facto a representar uma boa estimativa.

Pior ainda, muitos notáveis cientistas só conhecem a incerteza de O princípio da incerteza da trilogia de Agustina de Bessa Luís, do filme de Manuel de Oliveira ou da peça de teatro Copenhagen. Podemos considerar que o resultado de uma medição nos dá um indicador de posição – o valor central, geralmente uma média aritmética – e um indicador de distribuição, de variabilidade ou de incerteza – geralmente um desvio padrão. Um desvio padrão não, vários! Como se um já não chegasse...

Por outro lado, uma medição raramente nos leva ao resultado imediato; o que é mais corrente é haver necessidade de utilizar os dados (a que chamaremos dados de entrada) para efectuar cálculos que nos levarão ao resultado que melhor representa a mensuranda – grandeza particular submetida à medição. Isto configura aquilo a que chamamos medição indirecta.

Revendo o que falámos, temos mensurandas, objectos a medir, instrumentos a que se recorre para obter a medição, operadores, grandezas de influência (por exemplo, condições ambientais), correcções, cálculos, etc.

Por certo que o leitor já sentiu que não são necessárias grandes lucubrações matemáticas para desorientar quem se preocupa com a medição: a própria linguagem utilizada na medição pode desorientar qualquer um (incerteza, mensuranda, medida e medição, método de medição e procedimento de medição, padrão, grandezas de influência, …).

Notará o leitor que, até agora, não se falou de erros! À partida deveria ser o termo com que se deveria começar a falar da medição, pois “medir é errar” (RESTIVO & SOUSA, 2003). Mas falar de erros ou de correcções é a mesma coisa.

A correcção é, por definição, o simétrico do erro. E o erro o que é? É uma diferença algébrica entre um valor obtido por medição e o valor representado por um padrão, padrão esse já com um determinado erro e com uma incerteza associada…!

Se entrarmos aqui com o conceito termodinâmico de entropia, que por palavras simples se poderá dizer que é a tendência que todos os sistemas têm para se encaminharem para o caos, diremos que tantas contribuições convergem para a medição que, inevitavelmente, encaminham essa medição para a entropia!

Mas será que o “caos” e a “ordem” são assim tão diferentes? Será que o caos levado ao limite encaminha para a perfeita ordem? E será que o bom resultado de uma medição e o erro também são antagónicos?

No que respeita ao erro, ele parece ser fundamental para que possamos acreditar no resultado de uma medição – que sabemos já não ser um valor único mas sim um intervalo –, sendo este intervalo tanto maior quanto maior for a incerteza; sabemos também que esta incerteza será tanto maior quantas mais componentes tiver: do objecto a medir, do instrumento de medição, do operador, das condições ambientais, do próprio Murphy…!

É claro que se introduzirmos aqui o Senhor Murphy – o supra-cínico – a utopia para que nos encaminhávamos é imediatamente atingida e fica-nos a pergunta: poderemos medir sem utopia? Ou será que a resposta é: A medição perfeita é pura utopia?

Referências:

- GUM - Guide to the expression of uncertainty in measurement, BIPM, IEC, IFCC, ISO, IUPAC, IUPAP, OIML, 1995.

- RESTIVO, Maria Teresa & Carlos Sousa (2003), “Medir é Errar. Na Indústria, nos Laboratórios de Ensino e de I&D”, Reflectir Bolonha: Reformar o Ensino Superior. Um arquivo documental sobre a construção do Espaço Europeu de Ensino Superior, Edição Universidade do Porto.

- SWIFT, Jonathan, Travels into Several Remote Nations of the World by Captain Lemuel Gulliver, http://www.jaffebros.com/lee/gulliver/

- VIM - Vocabulário Internacional de Metrologia. Termos Fundamentais e Gerais, 2.ª edição, Instituto Português da Qualidade, Junho 1996.

LIVROS PARA AS FÉRIAS



Minha habitual crónica no "Público" de hoje:


Os livros costumam dividir-se convencionalmente em ficção e não-ficção. Mas há alguns que, embora parecendo não ficção, são pura ficção. Agora que é Verão, os escaparates das livrarias mostram com particular destaque vacuidades como, por exemplo, O Segredo (Lua de Papel) de Rhonda Byrne, que não cai dos “tops”, A Sabedoria de Oprah (Ésquilo), de Lisa Ashton sobre a famosa apresentadora norte-americana e Mais Luz (Pergaminho), de Alexandra Solnado, cujo delirante subtítulo Pergunte. O Céu Responde chega para mostrar que os vendedores de ilusões nacionais conseguem competir com os estrangeiros. Não ficção serão, espero, os livros de descontos, como Goodlife! The Discount Book (Livros do Brasil), novidades “literárias” muito apropriadas para os tempos de vacas magras.

Em contraponto, venho propor meia dúzia de títulos recentes, verdadeiramente de não-ficção, que poderão alimentar o espírito nesta época estival. Podem não estar nas montras nem ilustrar os prospectos, mas não deixam por isso de ser boas escolhas de Verão. Já percebeu o estimado leitor que não penso que as férias sirvam só para ler ficção. Agora que os dias são maiores, há mais tempo para nos embrenharmos em páginas que anseiam pela nossa atenção. Os livros escolhidos, que aparecem por ordem alfabética do último nome do autor, têm em comum, com uma única excepção, o facto de serem conjuntos de pequenos textos que se podem saborear devagarinho.

- Ana Paula Arnaut (edição), Entrevistas com António Lobo Antunes. 1979-2007. Confissões do Trapeiro, Almedina.

Dizem que há uma partição entre os leitores de Saramago e de Lobo Antunes. Se há não terei dúvidas em declarar a minha pertença ao segundo grupo. A visão sábia e o humor desconcertante do escritor galardoado no ano passado com o prémio Camões surgem neste volume de entrevistas - a jornalistas como Fernando Dacosta, Luís Osório ou Adelino Gomes - que a professora da Universidade de Coimbra compilou.

- Nuno Crato, A Matemática das Coisas. Do papel A4 aos atacadores de sapatos, do GPS às rodas dentadas, Gradiva.

O matemático, divulgador de ciência e incansável lutador pela educação nacional, que viu a sua acção recentemente premiada a nível europeu, troca aqui por miúdos alguns dos segredos da matemática. Com aquilo a que o júri internacional chamou o “estilo Crato”, a matemática deixou de ter segredos.

- Bjorn Lomborg, Calma! Uma visão revolucionária sobre o ambiente e o mundo, Estrela Polar. Da pena de um estatístico, cientista do ambiente e um dos cem maiores intelectuais do mundo (segundo as revistas Foreign Policy e Prospect) que já antes tinha irritado muitos ambientalistas com O Ambientalista Céptico, este livro, dedicado às gerações futuras, é o indispensável contraponto às ideias feitas por Gore e outros sobre o aquecimento global. Só peca pela capa, sensacionalista demais para o meu gosto.

- George Orwell, Por Que Escrevo e Outros Ensaios, Antígona. Numa tradução muito cuidada do filósofo Desidério Murcho, reúnem-se aqui alguns textos essenciais do que foi um dos maiores ensaístas do século XX. Porque escreve Orwell? “Escrevo porque há uma mentira qualquer que quero denunciar”.

- Edgar Allan Poe, Histórias Escolhidas por um Sarcástico, Saída de Emergência. Num excelente grafismo e numa boa tradução de José Manuel Lopes, este volume reúne, ao lado de algumas histórias ficcionais, deliciosos ensaios de índole sarcástica de um dos meus autores oitocentistas preferidos, mais conhecido pelas suas obras de terror e policiais.

- George Steiner, Os Livros que não Escrevi, Gradiva. Este novo ensaio do que é hoje um dos maiores intelectuais em todo o mundo (que só por engano não aparece na lista dos cem maiores intelectuais) é de leitura compulsiva, ensinando-nos que por vezes tão importantes como os livros que se escrevem são os que não se escrevem.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

O ovo e a serpente


A edição de hoje da Nature inclui um artigo fantástico sobre a evolução dos dentes das serpentes, «Evolutionary origin and development of snake fangs», que PZ Myers analisa magistralmente no blog Pharyngula. Vale a pena ler o post e os comentários, especialmente os (muitos) esclarecimentos a dúvidas de alguns leitores prestados por um dos autores, o Venom Doc Bryan Grieg Fry.

Com ou sem profanações de hóstias, este post é um bom exemplo da razão porque PZ Myers continua de longe o meu blogger de ciência favorito:

«I keep saying this to everyone: if you want to understand the origin of novel morphological features in multicellular organisms, you have to look at their development. Everything is the way it is because of how it got that way, as D'Arcy Thompson said, so comprehending the ontogeny of form is absolutely critical to understanding what processes were sculpted by evolution. Now here's a lovely piece of work that uses snake embryology to come to some interesting conclusions about how venomous fangs evolved.»

Química revela quadro perdido de van Gogh


Terça-feira foi publicado online na revista Analytical Chemistry um artigo muito interessante intitulado «Visualization of a Lost Painting by Vincent van Gogh Using Synchrotron Radiation Based X-ray Fluorescence Elemental Mapping».

No artigo, uma equipa multidisciplinar envolvendo a Universidade Técnica de Delft, a Universidade de Antuérpia, o museu Kröller-Müller, o Centro de Investigação e Restauração dos Museus Franceses e dois aceleradores de partículas, o DESY em Hamburgo e o ESRF — Instalação Europeia de Radiação Sincrotrónica - em Grenoble, revelou o rosto de uma camponesa que durante 121 anos permaneceu escondido sob um «Pedaço de relva».

Van Gogh reciclava as suas telas pintando sobre elas obras diferentes - os especialistas consideram que até um terço das primeiras obras do artista ocultam outras composições. Investigações preliminares tinham revelado que esse era o caso do quadro «Patch of Grass», pintado em Paris em 1887 e exposto no museu Kröller-Müller, na cidade holandesa de Otterlo. As técnicas convencionais de raios-X utilizadas neste tipo de análise apenas permitiam ver sob as camadas de pintura mais superficiais vagos traços de uma cabeça, que se pensa poder fazer de uma série pintada por Van Gogh entre 1884-85, durante a estadia na aldeia holandesa de Nuenen em que pintou «Os comedores de batatas», completado em 1885 e considerado o seu primeiro grande trabalho.

Os cientistas resolveram então examinar pela primeira vez um quadro com radiação sincrotrão. Em Hamburgo, o quadro foi analisado por fluorescência de raios-X, técnica que permitiu revelar os pigmentos utilizados nas várias camadas de tinta e criar um modelo a três dimensões do esboço.

As camadas superficiais mostraram ser constituidas principalmente por tintas incorporando sais de zinco, bário e enxofre depositadas sobre uma camada uniforme de um sal de chumbo, que foi usado como um primário que escondeu a pintura anterior e preparou a tela para uma nova. Para esboçar a cabeça da camponesa, van Gogh utilizou cinabre, o sulfureto de mercúrio utilizado durante milénios como o pigmento vermelho de eleição. Para iluminar determinadas zonas da face, van Gogh reorreu ao amarelo de Nápoles ou amarelo de antimónio, Pb(SbO3)2/Pb3(Sb3O4)2, misturado com branco de zinco. A fluorescência do antimónio e do mercúrio permitiu recriar a cores e com uma precisão sem precedentes um esboço escondido.


Esta primeira reconstrução permitirá aos historiadores da arte entender melhor a evolução do pintor. A nova técnica de análise química abre o caminho para que o mesmo seja possível em relação a muitos outros artistas que ocultaram obras ao voltar a pintar sobre elas.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Einstein e Picasso

Revisito aqui o tema das relações entre ciência e arte, já abordado num capítulo do meu livro "Curiosidade Apaixonada" e no post "Imaginação, Arte e Ciência":

O aparecimento da arte moderna é praticamente contemporâneo do aparecimento da teoria da relatividade. Atendendo a essa contemporaneidade (e não só...) alguns historiadores de ciência encontram paralelismos entre a teoria da relatividade restrita de Albert Einstein (1879-1955), que considera o tempo e o espaço ligados entre si e com medidas dependentes do observador, e o cubismo, movimento artístico que convencionalmente se inicia com “Les Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso (1881-1973), o quadro de 1907 patente no Museum of Modern Art (MoMA) de Nova Iorque. É decerto possível encontrar convergências entre a relatividade e o cubismo. Ambos convergem no sentido em que vieram alterar radicalmente os conceitos estabelecidos nos respectivos domínios. Mas a convergência entre eles não se encontra apenas na transgressão das fronteiras estabelecidas. Arte e ciência, apesar de serem actividades humanas bem diferentes (a primeira associada ao subjectivo e a segunda ao objectivo), têm mais em comum do que normalmente se pensa: o processo de descoberta científico é normalmente favorecido quando ele se orienta por critérios de natureza estética. Pode dizer-se que “se é bonito, então deve ser verdadeiro” .

Vale a pena aprofundar o paralelismo entre a relatividade e o cubismo como um exemplo do paralelismo entre os processos criativos na ciência e na arte. Einstein e Picasso nunca se encontraram pessoalmente apesar de terem aparecido juntos na peça de teatro “Picasso e Einstein”, do norte-americano Steve Martin, que foi representada no Teatro da Trindade em Lisboa em 2005, quando se comemorou o centenário da teoria da relatividade restrita e de outos trabalhos de Einstein. O que têm em comum Einstein e Picasso, para além de terem sido contemporâneos e de serem os dois grandes génios?

Como via Einstein o mundo? Através de imagens. Einstein via o mundo físico com os olhos da sua mente antes de formalizar essa visão através de fórmulas matemáticas e de palavras. As imagens mentais precediam, segundo o próprio declarou, outras imagens. O jovem Einstein procurou responder à questão “como é o mundo visto por uma pessoa sobre um raio de luz?”, ou, uma vez que o próprio Einstein propôs no mesmo ano de 1905, que a luz é formada por um conjunto de grãos, os fotões, “como é o mundo visto por uma pessoa que acompanha um fotão?” Esta pergunta relaciona-se com outras, como por exemplo: “Se não se pode ir instantaneamente de um sítio a outro mas apenas, e na melhor das hipóteses, à velocidade da luz, o que significa dizer que dois eventos em sítios diferentes são simultâneos?” Einstein procurou responder a esta e a outras questões do mesmo género realizando experiências mentais (em alemão, “Gedankenexperimente”), isto é, experiências impossíveis de realizar na prática mas que se podem realizar mentalmente e cujo resultado deve ser unicamente determinado por um conjunto de axiomas de partida (os axiomas de Einstein eram apenas dois: “Todos os observadores devem reconhecer as mesmas leis da física” e “A velocidade da luz é constante”) e pela lógica matemática. Foi assim que nasceu a teoria da relatividade restrita, que veio resolver as contradições existentes entre mecânica e o electromagnetismo, duas teorias físicas que só aparentemente estavam bem estabelecidas. Einstein, para reter a teoria electromagnética dos britânicos Michael Faraday e James Clerk Maxwell, teve de rever a mecânica de Galileu e Newton. Foi a unidade das leis da física para todos os observadores – o hoje consagrado princípio da relatividade (na forma "As leis da física, incuindo tanto as do electromagnetismo como as da mecânica, são as mesmas para todos os observadores") – que esteve na base da revolução einsteiniana. Na ciência como na arte um princípio de concordância, ou, se se quiser, de harmonia é, muitas vezes, a mola impulsionadora. Se é bonito...

Mas saberia Picasso, o jovem nascido em Málaga, Espanha, que foi em 1895 estudar para Barcelona, alguma coisa acerca das imaginações do jovem Einstein nascido em Ulm, na Alemanha, e que foi em 1896 estudar para a Escola Politécnica de Zurique, na Suíça? Decerto que não directamente, mas talvez sim indirectamente através dos escritos do francês Henri Poincaré (1854-1912), um dos maiores matemáticos do século XX, que teria sido autor, ou pelo menos co-autor, da teoria da relatividade se tivesse sido mais ousado (embora não tão claro e completo como o artigo seminal de Einstein sobre a relatividade, um artigo de Poincaré sobre a dinâmica dos electrões precedeu, na sua versão abreviada, o artigo de Einstein por escassos três meses; porém, a versão longa, que não cita Einstein tal como Einstein não cita Poincaré, só apareceu cerca de um ano depois). Segundo o historiador de ciência norte-americano Arthur Miller, Poincaré seria a chave para compreender a eventual ligação entre Picasso e Einstein, entre a relatividade e o cubismo. No seu livro “Einstein, Picasso: Space, Time and the Beauty That Causes Havoc”, esse autor defendeu que os trabalhos de Poincaré, que já continham algumas reflexões sobre o conceito de simultaneidade e que já reconhecia a relevância das geometrias não euclidianas para descrever o mundo físico, terão estado na origem da primeira obra cubista. Foi um amigo de Picasso, o actuário francês Maurice Princet (1875-1973), que tinha bons conhecimentos de matemática, quem teria providenciado essa ligação. Um livrinho francês de divulgação do conceito da quarta dimensão (o tempo), já presente aliás no livro “Ciência e Hipótese” de Poincaré, saído em 1902, teria sido útil. A acreditar nesta tese, as ideias científicas sobre o espaço-tempo tiveram uma influência não desprezável sobre a criação de Picasso.

Contudo não se sabe ao certo se foi assim e provavelmente nunca o saberemos. Curioso é que “Les Demoiselles d´Avignon”, uma obra de arte fragmentada na qual parecem coexistir vários pontos de vista (o quadro, inspirado também por arte ou fotografia de mulheres africanas, representa cinco prostitutas não de Avinhão, mas da rua de Barcelona que tem o nome dessa cidade francesa) tenha aparecido dois escassos anos depois do artigo de Einstein que permite relacionar os pontos de vista de vários observadores físicos. Pode-se aqui com propriedade falar de “Zeitgeist”, o espírito do tempo. Ao contrário do que fantasia a referida peça teatral, os jovens Picasso e Einstein não se encontraram em 1904 ou noutro ano qualquer no café “Le Lapin Agile”, em Montmartre (Einstein visitou Paris em 1913 e 1922, mas não consta que tenha encontrado Picasso). Dizer se houve ou não uma interacção forte à distância entre Einstein e Picasso, através das interpostas pessoas de Poincaré e Princet, é por isso especulação. A criação artística tem os seus mistérios, que serão porventura ainda maiores do que os mistérios, já de si grandes, da criação científica...

O centenário do hélio líquido -I


O Museu Boerhaave em Leiden celebra com a exibição especial Jacht op het absolute nulpunt o centenário da liquefacção do hélio, cuja história foi resumida num artigo muito interessante no número de Março da Physics Today. O director do museu e curador da exposição, Dirk van Delft, explicita no artigo «Little Cup of Helium, Big Science» que o dia 10 de Julho de 1908, em que Heike Kamerlingh Onnes conseguiu produzir 60 ml de hélio líquido a uma temperatura de 4.2 Kelvin ou −269°C, marca o princípio da «Big Science» em física. Vale a pena ler o artigo do historiador de ciência, disponível em formato pdf aqui ou aqui para quem não tenha acesso à Physics Today.

O trabalho de Kamerlingh Onnes, que lhe mereceu o Nobel da Física em 1913, era baseado no trabalho de dois compatriotas igualmente galardoados com o Nobel da Física, J.D. van der Waals e H.A. Lorentz. Em particular, Onnes estava interessado em testar as teorias de Johannes Diderik van der Waals acerca da equação de estado de gases reais. Kamerlingh Onnes conseguiu assim «bater» (Sir) James Dewar que o ultrapassara na liquefacção do hidrogénio (20.3 K) em 1898 (e inventou no processo o que actualmente chamamos de Dewars ou termos). Com a liquefacção do hélio e a capacidade de liderança de Onnes, o laboratório de física de Leiden passou a ser «o local mais frio da Terra» e tornou-se o polo internacional da física de baixas temperaturas.

A razão porque Dirk van Delft considera que a Big Science em Física nasceu há 100 anos em Leiden pode ser melhor entendida se pensarmos que três anos depois de liquefazer o hélio pela primeira vez, Onnes descobriu que a resistividade eléctrica do mercúrio diminuia para zero quando o metal era arrefecido em hélio líquido, ou seja, a sua condutividade eléctrica tornava-se infinita a esta temperatura. Estava descoberta a supercondutividade!

Mas as surpresas reservadas pelo hélio líquido não se esgotam na supercondutividade. O Carlos já nos falou de Lev Landau a propósito doutro centenário, o do nascimento deste físico brilhante. Landau ganhou o Prémio Nobel da Física de 1962 pelos seus trabalhos sobre o hélio a baixas temperaturas, galardão igualmente conferido em 1978 a Pyotr Kapitsa. Kapitsa descobriu em 1938 que a viscosidade do 4He líquido cai abruptamente (108 vezes) a uma temperatura de 2.17 K, ou seja, descobriu que o isótopo mais abundante do hélio é um superfluido abaixo desta temperatura (ponto λ).

A superfluidez, a capacidade de um líquido fluir sem qualquer resistência que pode ser apreciada no vídeo, foi elegantemente explicada por Landau em 1941. O 4He comporta-se como uma espécie de condensado de Bose-Einstein (BEC), embora as suas propriedades não possam ser descritas quantitativamente pela teoria de Bose-Einstein uma vez que no estado líquido existem interacções entre as espécies, nomeadamente as forças intermoleculares conhecidas como forças de van der Waals, nomeadas em honra do cientista cujo trabalho motivou a primeira liquefacção do hélio.

A existência deste novo estado da matéria foi prevista por Einstein que extrapolou para átomos a estatística de Satyendra Nath Bose inicialmente proposta para fotões. Mas nem Einstein estava muito certo sobre os BECs como confirma uma carta que endereçou em 1924 a Ehrenfest:

«A partir de uma certa temperatura, as moléculas 'condensam' sem forças atractivas, isto é, acumulam-se a velocidades nulas. A teoria é atraente, mas haverá nela alguma coisa de verdade?»

A 5 de Junho de 1995, Eric Cornell, Carl Wieman e colaboradores dissiparam as dúvidas suscitadas por Einstein criando o primeiro condensado de Bose-Einstein. Este condensado de rubídio-87 foi conseguido por recurso a uma técnica que valeu aos seus inventores, Steven Chu, Claude Cohen-Tannoudji e William D. Phillips, o Nobel da Física em 1997. Quatro meses depois, Wolfgang Ketterle no MIT criou um condensado de outro metal alcalino, desta vez sódio-23. Cornell, Wieman e Ketterle foram recipientes do Nobel da Física em 2001 pela sua descoberta.

Mas o hélio líquido continuou a surpreender e 19 anos depois do Nobel de Kapitsa, o prémio foi novamente atribuído à descoberta da superfluidez do hélio, agora do isótopo 3He descoberta em 1972 por David M. Lee, Douglas D. Osheroff e Robert C. Richardson.

Enquanto o 4He é um bosão (segue a estatística de Bose-Einstein), o 3He é um fermião (segue a estatística de Fermi-Dirac) e assim não devia exibir superfluidez. Mas os bosões podem de facto condensar devido ao que justifica a supercondutividade descoberta por Kamerlingh Onnes. A supercondutividade é explicada pela teoria BCS, desenvolvida por John Bardeen, Leon Cooper e Robert Schrieffer (e lhs valeu o Nobel da Física em 1972). Basicamente a teoria diz-nos que embora os electrões sejam fermiões, em metais sobrearrefecidos combinam-se em pares de Cooper que por sua vez se comportam como bosões.

Em 1965, Anthony J. Leggett formulou uma teoria sobre a fase superfluida de fermiões, nomeadamente 3He, na revista Physical Review. Sete anos depois, meras semanas após a descoberta de Lee, Osheroff e Richardson, Leggett interpretou os novos dados na Physical Review Letters em que identifica o estado visto pelos seus colegas (que lhe deram previamente uma cópia do artigo). A explicação valeu-lhe o Nobel da Física em 2003, distinção que partilhou com Alexei A. Abrikosov e Vitaly L. Ginzburg por «contribuições pioneiras para a teoria de supercondutores e superfluidos».

Em resumo, há 100 anos que o hélio nos surpreende e há quem considere que nos pode surpreender ainda mais num futuro próximo, como iremos ver no próximo post.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Grutas e nascentes no Verão


Informação recebida da Sociedade Portuguesa de Espeleologia (na figura grutas de Mira de Aire):

Com o apoio do Programa Ciência Viva do Ministério da Ciência e Tecnologia a SPE organiza oito visitas geológicas a regiões cársicas:

- Grutas e nascentes do vale em canhão do Rio da Ota e de Alenquer;
- Grutas da Praia da Adraga e Pedra d?Alvidrar, com a serra de Sintra à vista;
- Passeio pela serra de Montejunto entre o Vale das Rosas e o anfiteatro de Pragança;
- Grutas e Nascentes de Porto de Mós;
- Do canhão da Caranguejeira, pelo menino do Lapedo, às fontes do rio Lis e ao Buraco Roto;
- Da Arriba Fóssil da Serra dos Candeeiros às Grutas e Nascentes de Chiqueda;
- As grutas que escondem as águas subterrâneas da Serra da Arrábida;
- As nascentes dos rios Almonda e Alviela e a água que forma as grutas e os tufos calcários;

Consulte mais pormenores em www.spe.pt .

Livros de Julho da Gradiva

Informação recebida da Gradiva:

AS GRANDES INICIATIVAS DA FUNDAÇÃO GULBENKIAN

Freeman Dyson, George Steiner, David Sloan Wilson e outros, "A Ciência Terá Limites"
As intervenções e o debate imperdíveis sobre um tema maior do nosso tempo.

OUTROS TÍTULOS DA COLECÇÃO
Que Valores para Este Tempo?
Terrorismo e Relações Internacionais

COLECÇÂO CIÊNCIA ABERTA

Keith Devlin
, "Os Problemas do Milénio"
Os sete problemas que definem a situação da matemática contemporânea. Para matemáticos, físicos, engenheiros e todos os curiosos interessados na matemática. Este livro transforma cada problema numa revelação fascinante das questões mais complexas deste campo do saber.
«Ciência Aberta», n.º 173


COLECÇÂO FILOSOFIA ABERTA

Alexander George (org.), "Que Diria Sócrates?"
Filosofia viva! Filósofos do mundialmente famoso sítio da net AskPhilosophers respondem a perguntas sobre o amor, o nada e tudo o resto. Para todos, e em especial para os professores de Filosofia, que nele encontrarão um manancial de exemplos de muitos dos problemas filosóficos discutidos nas suas aulas.
«Filosofia Aberta», n.º 18


O MELHOR LIVRO PARA AS SUAS FÉRIAS

Michael Collins

Almas Perdidas
Muito especial: uma grande obra literária que é também um grande romance policial. Do mesmo autor da Gradiva de Os Profanadores e Os Guardiões da Verdade.
«Gradiva», n.º 12
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Passatempo com prémio

A pretexto do post de Carlos Fiolhais intitulado «Os 100 maiores intelectuais» (em que o nome de Noam Chomsky aparece logo à cabeça), o DE RERUM NATURA e o SORUMBÁTICO decidiram, como já sucedeu anteriormente, organizar um passatempo de Verão cujo prémio é um exemplar de um dos livros que aqui se vêem.
Para concorrer, basta afixar um comentário (aqui, NESTE mesmo post) sobre Noam Chomsky ou outro dos intelectuais da lista durante as próximas 24 h.
Responsáveis pelos dois blogues escolherão o melhor comentário.
*
Actualização (30 Jul 08/22h05m): foi possível arranjar um 3.º livro (surpresa), o que permite premiar três leitores - Anita, Luisa e Pequete -, a quem se pede que, nas próximas 48h, escrevam para sorumbatico@iol.pt indicando nomes e moradas.
A distribuição será feita assim: Anita e Luisa receberão estes livros de Chomsky. Deverão indicar qual preferem; a primeira a responder receberá o livro que pedir, e a segunda receberá o outro.
A Pequete caberá o livro-surpresa, que, embora de outro autor, é de valor semelhante aos outros dois.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Números redondos

Este blogue, que tem pouco mais do que um ano, acaba de ultrapassar dois números redondos: 800 000 visitantes e 1600 posts.

Os temas mais tratados têm sido:

- Livros 245
- Ciência (em geral) 236
- Divulgação da ciência 223
- Ensino 186
- História da ciência 133
- Química 121
- Política 113
- Biologia 98
- Religião 98
- Filosofia 96
- Tecnologia 95
- Criacionismo 77
- Etc. (incluindo arte, alimentação, dança, desporto, humor,...)

Estes temas e ainda mais vão continuar aqui a ser tratados!

Aquecimento global


Dos 13 episódios da série Cosmos, o episódio 4, Céu e Inferno, é certamente um dos mais marcantes. Com todo o carisma que o caracterizava, neste episódio Carl Sagan conta-nos como os monges de Cantuária foram testemunhas em 18 de Junho de 1178 de um impacto lunar que alguns cientistas pensam ser o responsável pela cratera Giordano Bruno. Uns séculos mais tarde, em 30 de Junho de 1908, uma explosão abalou a Sibéria, projectando árvores a milhares de quilómetros de distância e produzindo um estrondo que se ouviu em todo o mundo. O incidente deu origem a uma série de especulações, algumas completamente disparatadas como a que pretende que uma nave espacial extraterrestre teria sofrido um acidente nuclear. Carl Sagan examina os testemunhos e conclui que a Terra foi atingida por um pequeno cometa embora alguns investigadores, por exemplo William Napier e Victor Clube, pensem que ambos os fenómenos referidos por Sagan se devem à chuva de meteoritos Beta Taurid uma vez que coincidiram com o pico do fenómeno.

Voltando ao episódio Céu e Inferno, Sagan parte destas catástrofes naturais como ponto de partida para uma viagem até Vénus, explicando que não há evidências que confirmem a hipótese de Immanuel Velikovsky de que Vénus teria sido um cometa gigante. A atmosfera «infernal» de Vénus, com temperaturas dantescas devido ao efeito de estufa, foi utilizada por Sagan para alertar que o destino de Vénus pode ser um alerta para o nosso mundo. Sagan lança, em 1980, um aviso para a necessidade de medidas de protecção do nosso frágil planeta azul.

As alterações climáticas devidas a efeito antropogénico sobre que nos avisava há quase três décadas Carl Sagan estão certamente na ordem do dia mas as «paixões» que geram são por vezes contraproducentes para a necessária consciencialização de um problema muito complexo. O espaço de comentários do De Rerum Natura, muitas vezes inflamado pelo aquecimento global, não é excepção e, como sempre, embora as opiniões se possam dividir sobre a análise dos factos, não há melhor forma de abordar a questão que discuti-la com base nos dados disponíveis.

A Royal Society da Nova Zelândia emitiu recentemente um relatório sobre alterações climáticas, preparado por um painel de peritos em climatologia, que pretende exactamente elucidar a opinião pública esclarecendo as confusões que rodeiam o tema tornando «absolutamente claro quais são as evidências que indicam alterações climáticas e quais as causas antropogénicas (de origem humana) para essas alterações».

O relatório é melhor entendido se lhe juntarmos o gráfico reproduzido acima que discrimina as emissões de gases de efeito de estufa na Nova Zelândia em 2004. O relatório especifica ainda que «As concentrações atmosféricas de CO2, metano e óxido nitroso aumentaram 35%, 150% e 18% respectivamente desde 1750, aproximadamente».

De facto, parece que as atenções se centram apenas no CO2 e se esquecem os outros gases de efeito de estufa (GEEs).Assim, fala-se muito em CO2 e efeito de estufa sem se entender bem que quando se fala em equivalentes de CO2 isso não significa que o dióxido de carbono seja o único gás responsável pelas alterações climáticas. Na realidade, o gás mais importante, responsável por entre 36 a 66% do efeito de estufa, é o vapor de água. Mas muitos outros gases contribuem para reter a radiação infravermelha emitida pela Terra bastando para isso que as suas vibrações sejam activas no IV.

O potencial de aquecimento global - Global warming potential (GWP)- de um GEE é uma medida relativa que compara o gás em questão com a mesma quantidade de dióxido de carbono (cujo potencial é definido como 1). O potencial de aquecimento global tem em conta não só a «eficácia» na absorção de radiação IV de um determinado GEE como o seu tempo de vida na atmosfera. Assim, para efeitos de comparação é necessário indicar qual o intervalo de tempo em questão caso contrário a comparação não faz sentido. Por exemplo, o metano tem um tempo de vida de 12 anos (degradando-se em CO2 e água) pelo que apresenta um GWP a 25 anos de 72, valor que diminui para 25 se o período considerado for um século, o intervalo de tempo normalmente associado aos GWPs. Na tabela seguinte são indicados os gases listados actualmente pelo IPCC como os principais GEEs (embora pareça provável que a lista esteja incompleta...).

Gas
Fórmula
GWP (100 anos)
Dióxido de carbono
CO2

1
Metano
CH4

25
Óxido nitroso
N2O

298
Perfluorocarbonetos
CnF2n+2

7400 a 12200
Hidrofluorocarbonetos
CnHmF(2n+2-m)

120 a 14800
Hexafluoreto de enxofre
SF6

22800
Fonte IPCC, 2007

De acordo com um relatório da FAO de finais de 2006, as emissões provenientes da pecuária geram cerca de 18% mais efeito de estufa que o sector dos transportes, produzindo, na altura, cerca de 65% do N2O e 37% do metano antropogénicos. O N2O é o gás hilariante na base do aviso de Paul Crutzen sobre a possibilidade de os biocombustíveis poderem agravar o efeito de estufa já que o óxido nitroso é formado na degradação bacteriana dos nitratos utilizados como fertilizantes.

Como as Nações Unidas avisaram na altura, é necessário repensar a pecuária (e quiçá o nosso consumo de carne...). De facto, o relatório da FAO indica que cerca de 30% do solo terrestre é usado como pastagem permanente e cerca de 33% das terras aráveis são utilizadas na produção de rações animais. De igual forma, a transformação de florestas em pastagens é uma das principais causas da deflorestação, especialmente na América Latina onde 70% de floresta amazónica foi transformada em pastagens. Por exemplo, cerca de 75% das emissões brasileiras de CO2 são provenientes das queimadas na Amazónia, realizadas principalmente para expandir a fronteira da pecuária (e em menor escala da cultura de soja). Como refere o relatório «O reino do Gado» publicado em Janeiro deste ano pela ONG Friends of the Earth (Amigos da Terra) :

«Quaisquer sejam os fatores de transformação e deslocamento das atividades agrícolas, a mudança no uso do solo na Amazônia é protagonizada pela pecuária. É na pata do boi que repercutem investimentos e alterações no consumo de alimentos ou de energia. (...) O Brasil ainda subestima as dimensões e as dinâmicas deste fenômeno».

Mais recentemente, as declarações de Nicolas Fabres, assessor de agroecologia da Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA), parecem indicar que pelo menos do Brasil os problemas foram identificados e que se tenta trabalhar uma solução, nomeadamente no que à desertificação diz respeito. De facto, um uso inadequado das pastagens acelerou em muitos locais, não apenas no Brasil, os processos de desertificação.

Mas não é apenas a produção de carne para alimentação que tem um impacto ambiental muito grande, a agricultura é responsável por emissões não despiciendas não só de N2O como de metano, sendo a cultura de arroz uma das principais fontes antropogénicas de metano. Actualmente são libertados entre 300 a 400 mil milhões de toneladas de metano com origem antropogénica que correspondem a uma contribuição para o aquecimento global equivalente a cerca de 1/3 da correspondente ao CO2. Entre 50 a 100 mil milhões de toneladas têm origem no cultivo de arroz.

De acordo com o Center for International Earth Science Information Network (CIESIN), em 2020 serão necessários mais 350 milhões de toneladas de arroz anualmente para alimentar uma população crescente, ou seja, ver-se-à um aumento de mais de 50% da produção actual e, consequentemente, um aumento equivalente nas emissões de metano.

Há cerca de 4 anos, o paleoclimatólogo David Beerling indicou que as temperaturas muito elevadas durante o Eocénico, altura em que o Árctico exibia um clima subtropical, muito parecido com o nosso, tinham pouco a ver com os níveis de CO2 da época, próximos dos actuais. De acordo com o cientista, os culpados pelo aquecimento global de há cinquenta milhões de anos foram o metano, o ozono e o N2O.

Como referiu o autor, «Por isso, mesmo que controlemos o problema do dióxido de carbono, podemos continuar em apuros graças a estes gases, que têm recebido muito menos atenção de políticos e activistas [e eu acrescento da opinião pública]. Essa é a verdadeira lição deste estudo».

No entanto, parece que a lição não foi bem entendida e Beerling repete o aviso no seu livro de 2007, «The Emerald Planet», um aviso que pode vir a demonstrar-se tão presciente como o de Sagan há quasi 30 anos:

«Nós estamos obcecados justamente com o dióxido de carbono mas claramente arriscamos neglicenciar outros perigos».

O Eduquês visto por Nuno Crato


O matemático e presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática Nuno Crato (NC) deu uma longa e muito interessante entrevista ao "Jornal de Negócios" (JN) de 25 de Julho passado intitulada "Caso dos exames de matemática foi gravíssimo". Transcrevo um pequeno extracto que retrata o nosso sistema educativo dominado desde há anos pelo chamado "eduquês":

"JN - É um atestado de menoridade ou de falta de confiança em quem gere as escolas?

NC - Felizmente tenho bastante liberdade porque estou no ensino superior. Se estivesse no ensino secundário sentir-me-ia bastante diminuído pela falta de liberdade. Acho que as pessoas sempre pensaram que o Ministério devia definir o programa, o horário... Nem sequer se questionam. O nosso país é muito dependente do Estado. Não é nada de inovador o que estou a dizer. Mas as pessoas, quando pensam em qualquer coisa, dizem logo: "devia legislar-se sobre isto ou sobre aquilo". Instalou-se uma simbiose - entre técnicos superiores do Ministério da Educação e departamentos da educação das universidades e escolas superiores de educação de pessoas que têm "a verdade". Têm a verdade que aprenderam há 30 ou 40 anos, aquilo a que chamo a pedagogia romântica e construtivista, uma sobrevalorização do Piaget, dos aspectos lúdicos e um menosprezo pela avaliação dos estudantes... Essa ideologia instalou-se e não há debate. Esta opinião, que é quase monolítica em Portugal, e que tenta dominar a educação a partir da 5 de Outubro, não existe nos EUA. Aquele livro que escrevi sobre o eduquês teve aquele impacto porque dentro do meio educativo muita gente não ousa discordar. Muita gente falou comigo e disse-mo, que pensava assim mas nunca tinha tido a coragem de escrever. Diziam-me "sabe, isto aqui é muito complicado", outra frase típica portuguesa. Agora, porque foi esta a ideologia que dominou e não outra?... Não sei explicar.

JN- Qual é o papel do professor no quadro dessa ideologia, que é uma ideologia "anti-racionalista"...

NC- Estou completamente de acordo com isso. Muita gente olha para esta ideologia romântica e construtivista como sendo uma ideologia de esquerda. Acho que não é, é uma ideologia transversal e existem exemplos de nichos de direita ou pessoas que foram levadas pela direita para o governo que fazem exactamente a mesma coisa.

JN- O Prof. Roberto Carneiro, por exemplo?

NC- Por exemplo. Há uma grande confluência entre o pensamento de Roberto Carneiro e pensamento de Ana Benavente, que vêm de quadros partidários completamente diferentes. Não pensemos que isto é a direita contra a esquerda. É um determinado pensamento pedagógico, que na minha opinião está completamente ultrapassado, que sempre foi irracionalista e que foi abarcado por muita gente por causa deste país pequenino em que é bom dar-mo-nos todos bem em em que começa toda a gente a pensar mais ou menos da mesma maneira quando surgem estas ideias. E os que estão contra são ostracizados.

JN- E como é que se sente o professor?

NC- O professor sente-se mal. A maioria dos professores, com quem eu tenho falado sobre isto, diz-me que se sentiu, durante muito tempo, oprimido. Porque lhe diziam para fazer uma série de coisas que ele não percebia nem achava realista fazer. E que agora está a perceber que não fazem mesmo sentido.

JN- Quer dar um exemplo?

NC- Por exemplo, diziam-lhe que se os alunos não gostavam de Matemática a culpa era dele porque não a tornava motivante. E o professor sentia-se mal. O problema é muito mais complexa do que torná-la motivante, isso só por si não resolve o problema. Mas, na realidade, acho que esta ideologia nunca foi aplicada na sala de aula. Ela faz o professor sentir-se mal, muitos professores tentam aplicá-la mas nunca foi realmente aplicada. Mas isso não interessa, porque conseguiu desorganizar o ensino. Porque conseguiu retirar objectivos de exigência ao ensino, introduzir nos programas uma série de erros pedagógicos graves, acabar com os exames, com a avaliação. E conseguiu desorganizar a actividade dos professores.

JN- Isto não faz com que estejamos a entrar na sociedade do conhecimento às arrecuas?

NC- Penso que sim. Estamos a entrar no século XXI em marcha atrás. (...) O quadro recente dos exames fáceis de Matemática enquadra-se nisto. Daqui a dez anos somos capazes de olhar para o que se passou nos exames este ano e pensar que foi das coisas mais negativas que aconteceu na educação nas últimas décadas. O que aconteceu este ano nos exames é potencialmente uma das coisas mais negativas na educação em décadas."

Vale a pena ler o resto...

Os 100 maiores intelectuais

O número 4 (Junho/Julho de 2008) da revista "FP- Foreign Policy" traz a lista dos cem maiores intelectuais do mundo actualmente, segundo a "Foreign Policy" e a "Prospect". Os cientistas incluídos são 14, o que dá 14 por cento de cientistas (os grupos maioritários são os de cientistas políticos e economistas). A proporção de filósofos é um pouco menor: dez por cento. Eis por ordem alfabética a lista dos cientistas dessa lista:

- Noam Chomsky, EUA, linguista e activista político
- Richard Dawkins, Reino Unido, biólogo
- Jared Diamond, EUA, biólogo
- Howard Gardner, EUA, psicólogo
- Neil Gerschenfeld, EUA, físico e cientista de computadores
- Daniel Kahneman, Israel e EUA, psicólogo
- Bjorn Lomborg, Dinamarca, estatístico e cientista do ambiente
- James Lovelock, Reino Unido, cientista do ambiente
- Steven Pinker, Canadá e EUA, linguista
- V. S. Ramachandran, Índia, neurocientista
- Lee Smolin, EUA, físico
- Harold Varmus, EUA, médico e cientista
- J. Craig Venter, EUA, biólogo e empreendedor
- E. O. Wilson, EUA, biólogo

E, já agora, a lista de filósofos da lista:

- Kwame Anthony Appiah, Gana e EUA
- Daniel Dennett, EUA
- Alain Finkielkraut, França
- Juergen Habermas, Alemanha
- Martha Nussbaum, EUA
- Tarik Ramadan, Suíça
- Fernando Savater, Espanha
- Peter Singer, Austrália
- Charles Taylor, Canadá
- Slavoj Zisek, Eslovénia.

Não há nenhum cientista nem filósofo nem sequer qualquer outro intelectual português. De língua portuguesa há o sociólogo e político brasileiro Fernando Henrique Cardoso.

domingo, 27 de julho de 2008

Expresso, blog e filosofia

O Expresso inaugurou recentemente um novo blog dedicado à filosofia, em colaboração com a Sociedade Portuguesa de Filosofia. Aqui.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...